segunda-feira, 29 de dezembro de 2014


Sobre a exposição de LUÍSA PRIOR 

                                                   Casa Barbot, novembro, 2014

 

Tudo tem o seu lado superficial e o seu lado profundo, o visível e o invisível, a realidade imediata e a outra. E é isto que nos afeta, para sermos quem somos, naquilo que nos rodeia (…)

   Vergílio Ferreira  (1992,p 78 ênfase do autor)

 
A dicotomia olhar e ver explicada por Vergílio Ferreira implica dois níveis de perceção: “olhar” significa, fixar, mirar, no lexema “ver” há um alcance de um nível superior de perceção. Nele é definida cumulativamente o perceber, compreender, ponderar, deduzir prever, imaginar … conhecer.
Contemplar a obra criativa de Luísa Prior segundo esta perspetiva, significa que um olhar, mesmo que atento, não chega para a absorver plenamente, e deixarmo-nos seduzir por ela. Vê-la, permitir-nos-á a descoberta, conduzir-nos-á  a uma leitura crítica do universo que Luísa tem para nos oferecer.
 As minúsculas formas coloridas, simuladas, ou não, impelidas de movimento pelo pincel veloz e eficaz, reproduzem o pensamento da artista. Perante nós, desfila um painel de presenças, e de ausências, que corporizam ideias avassaladoras, remetendo-nos à reflexão. Ver as pinturas de Luísa leva-nos a pensar, divagar… a autora assim apela.
Assim, Luísa não se limita a pintar, ela constrói, dá-nos pistas da sua leitura da sociedade, no entanto, dá-nos espaço para a construção da nossa própria leitura. Na sua expressão plástica, há uma dimensão simples, ingénua que contrasta com uma outra, complexa e profunda.
O grito no silêncio, os mascarados, as múltiplas figuras reais, terrenas em contraste com outras, com dimensão metafísica, onde a cor, o movimento potencializam o lado transcendente que Luísa tão bem sabe partilhar. O universo unido em torno da mudança desejada e anunciada num mundo em angústia, a roda do tempo onde coabitam: a serenidade e o caos; a leveza e a densidade. A cor abre caminhos para a interpretação e dela se ampliam sentimentos que a autora nos propõe, não como algo formatado ou enclausurado, mas aberto a outras interpretações.
Na sua obra, tal como um espelho, vemo-nos refletidos, nas nossas múltiplas facetas, bem como a vida que nos rodeia. Nela coabita a heterogeneidade de afetos, de sentimentos e de estados de alma: da opressão à libertação, do grito de revolta ao suspense, à admiração, do sofrimento à felicidade, da fragilidade humana à sua grandiosidade imensa, do fracasso ao sucesso, da alegria à tristeza, da mágoa à luminosidade e musicalidade,  da existência terrena à leveza da dimensão metafísica…em suma, as várias dimensões que Luísa nos revela de forma sintetizada, condensada e, por isso, nem sempre fácil de identificar,  mas mais profundo e interiorizado quando se descobre – o universo de Luísa extravasa a dimensão terrena…
Termino como comecei: a obra de Luísa Prior não pode ser remetida a um efêmero olhar, pois ele pode ser redutor. As suas telas têm significantes e significados e, não estando presentes as palavras, estão as formas, o movimento, a cor e as técnicas artísticas que são expressão máxima que Luísa tem para nos oferecer, dando-nos a conhecer o seu universo e a sua complexidade enquanto Pessoa, rica e profunda, mas sempre em construção. Afinal a sua proposta é essa mesma: contribuir para que todos nós possamos tornando-nos mais Pessoas.

  Como observadora e recetora da mensagem, sinto-me privilegiada enquanto pessoa e cidadã. Obrigada, Luísa!

                                                                                 Arcelina Santiago

 

 

 

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