sexta-feira, 30 de novembro de 2012

ANA FERREIRA

Desde cedo ligada à Emigração e às suas pessoas, não perdi oportunidade de, no sítio
certo, poder defender os seus interesses e direitos.
Muito nova, com 19 anos, decidi abraçar um projeto que muito dignifica a nossa
democracia, O Conselho das Comunidades Portuguesas.
Eleita em 2003 pelo círculo Rhône-Alpes, Est et Corse (França), conduzi uma lista de
jovens chamada “Jovens pro Futuro” a uma vitória clara, ficando eleita a mais nova
Conselheira do Mundo.
Nesse mandato tive a honra de presidir ao primeiro plenário, que ocorreu na
Assembleia da Republica, representar o conselho no Conselho Consultivo para a
Juventude. Comecei o meu sonho, comecei a minha caminhada política para as
Comunidades e para Portugal.
Entrei, também nesse ano, para a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa onde me licenciei em Comunicação Institucional e
especializei-me, mais tarde, com um mestrado em comunicação Estratégica/Politica.
A minha passagem pelo conselho, onde trabalhei com personagens ilustres da nossa
comunidade, de todo o Mundo, deu me consistência no meu discurso de que os
Jovens são necessários para a continuidade da nossa cultura. Só eles podem vincular a
Portugalidade, esse sentimento bem emigrante.
Hoje com 29 anos, em que já passei pela Camara Municipal de Oeiras onde fui
técnica de Protocolo e agora, há já pouco mais de um ano, em que estou em funções
no Gabinete do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, recordo com
saudade esse tempo de Conselheira.
Ser Conselheira foi para mim mais do que uma tarefa, foi uma escola politica, uma
escola de vida, uma escola da Emigração, um Dever.
RESOLUCIÓN N°3 DEL CONSEJO DE LA CONDECORACIÓN DE LA ORDEN: “D. AFONDO HENRIQUES” DE LA “FEDERACIÓN AMERICANA DE LUSO DESCENDIENTES”

Resolución:

Por disposición General de la “FEDERACIÓN AMERICANA DE LUSO DESCENDIENTES” y Jefe de la Orden “D. AFONDO HENRIQUES”, de conformidad con lo establecido en los artículos N° 2 y 9 del Reglamento sobre la Condecoración de la Orden y previo el voto favorable del Consejo
de la Orden.
Considerando:
Que es de estricta justicia reconocer los meritos de las personalidades que con su aporte dignifican la imagen de las Comunidades Portuguesas en el continente americano.
Considerando:
Que existen personalidades que han dado un destacado apoyo a la FEDERACIÓN AMERICANA DE LUSO DESCENDIENTES” y a las diversas asociaciones afiliadas a esta Institución.
Resuelve:
Artículo Único: Conferir la condecoración Orden: “D. AFONDO HENRIQUES” DE LA “FEDERACIÓN AMERICANA DE LUSO DESCENDIENTES” en su Grado de Gran Oficial a la Dra. Maria Manuela Aguiar, Fundadora de la Asociación de la “Mulher Migrante” y Ex~Secretaria de Estado de las Comunidades Portuguesas.
Comuníquese y publíquese

Profesor Dr. Jany Augusto Moreira Ferreira
Presidente General de la Federación Americana de Luso Descendientes y Jefe de la Orden,
Refrendado por: La Junta Directiva a los quince días del mes de noviembre de dos mil doce.

Recibe:
Por su trayectoria Política y en pro de la mujer migrante, la Dra. Maria Manuela Aguiar.
Entregan: Profesor Dr. Jany Augusto Moreira, Presidente de la FEDERACIÓN AMERICANA DE LUSO DESCENDIENTES, acompañado del Ing. Mario Da Silva Presidente de ASOLUDEVEN y Director de RRPP de la Federacion y el resto del Ciudadano Presidente de su Junta Directiva.

MARIA DE CARVALHO lembra FÁTIMA MARTINS

Elogio a Fatima Martins por ocasião da homenagem que lhe foi prestada pelo Boston
Portuguese Festival, edição de 2009
- Por Maria Carvalho -
A Fatima era uma amiga maravilhosa. Uma amiga determinada e profundamente empenhada
pela comunidade portuguesa. O seu espírito vive não só nos nossos corações mas ainda nos projectos que ela iniciou. A Fatima tem uma biografia impressionante e eu não poderia fazer justiça à importância do seu trabalho neste curto espaço de tempo. Mas posso tentar explicar porque penso que
merece ser lembrada e homenageada por nós e como todos podemos aprender com o exemplo da sua vida.
Ela foi uma imigrante, oriunda duma pequena vila numa ilha Oceano Atlântico. Este facto poderia ter circunscrito a sua


 Contudo, ela possuia uma visão e sonhos que a mpulsionaram a ultrapassar as suas próprias circunstâncias. era demasiado pequena para as suas ideias, a sua determinação e a sua energia sem limites. Possuia um sentido em todos os seus projetos e não tinha tempo a perder.
Quando emigramos para um novo país temos de enfrentar muitos desafios. Temos que nos adaptar a um novo local, uma nova língua e uma nova forma de vida. Se a transição é feita com sucesso, somos capazes de guardar o que de melhor trazemos da nossa cultura e nela incorporar o que existe de melhor na nova cultura e assim podemos viver e prosperar nesses dois mundos. A Fatima conseguio-o admiravelmente, continuando a honrar e a valorizar a sua herança cultural portuguesa e ao mesmo tempo adotando novas e valiosas formas de fazer as coisas ao estilo americano, assim engrandecendo as duas culturas.
Uma das suas mais importantes realizações foi dar voz à comunidade portuguesa. Fazendo uso do grande espírito de voluntariado norte-americano e dos nossos direitos fundamentais, a Fátima liderou diversas iniciativas. Ela iniciou o programa de apoio à cidadania, que auxiliou inúmeros portugueses a tornarem-se cidadãos americanos. Haverá melhor forma de fazermos ouvir a nossavoz do que através do voto? A Fatima iniciou um programa local de televisão por cabo “Aqui Fala-se Português” com vista a transmitir importante informação à comunidade. Conhecimento é poder e a nossa comunidade tornou-se mais forte em resultado deste programa. Teria ainda dado uma importante voz às comunidades se tivesse conseguido ser eleita para o Comité Escolar, mas só o facto de se apresentar como candidata trouxe orgulho e visibilidade à comunidade portuguesa frequetemente esquecida e silenciosa.
Fatima tinha também uma forte convicção no que respeita a justiça e a igualdade. Recordo- me que por ocasião da morte do Papa João Paulo II , um importante jornal entrevistou várias pessoas sobre qual a opinião que tinham relativamente ao Papa que acabara de falecer.... invariavelmente eram todos homens. A Fatima ligou-me e perguntou-me se tinha lido o jornal e expressou o seu desalento pela ausência de opiniões femininas. Rapidamente mobilizou algumas mulheres para darem a sua opinião sobre o assunto e mandou-as para o jornal. Na semana seguinte, as opiniões das mulheres foram devidamente publicadas. “It was a good feeling”.
A sua imensa generosidade era bem conhecida e o seu espírito generoso manifestava-se de forma silenciosa e modesta. A sua determinação e convicção foram uma força inspiradora para muitos de nós para nos empenharmos no serviço à comunidade.
A Fátima recebeu muitos reconhecimentos, entre os quais o Community Service Award da PALCUS, em Washington DC, a Medal of Service da Portuguese Continental Union of the US, o Community Service and Leadership Award do Day of Portugal Festivities Committee in Boston e em 2001 foi homenageada pela nossa comunidade juntamente com a Fatima Martins Foundation for the
Promotion of Citizenship.
A sua vida ensina-nos que não somos definidos pelas circunstâncias, ao invés devemos ser caracterizados sobre como desafiamos as nossas circunstâncias. A Fatima entoou o mote “Yes We
Can” muito antes de aqui se ter popularizado. O legado que nos deixa é o espírito de dádiva e de partilha. Tenho a certeza ser seu desejo que continuemos a dar aquilo que tenho por mais precioso: a oferta da nossa disponibilidade e do nosso talento em benefício das nossas comunidades.
Estou convicta de que a Fatima teria não só afirmado “Yes we Can” mas ainda “Yes we Should”.
A circunstância de o Boston Globe ter dedicado meia página no seu obituário a uma personalidade oriunda da comunidade portuguesa, ilustra bem o prestígio e o respeito que conquistou na grande área de Boston, onde ajudou milhares de concidadãos a terem acesso à nacionalidade e à escolaridade americanas. Pela sua ação na consciencialização e auxílio prestado aos seus concidadãos na obtenção de direitos cívicos e políticos que a naturalização lhes proporcionou, o Estado português concedeu-lhe já a título póstumo, o grau de comendadora da Ordem do Infante D. Henrique, no âmbito do Dia de Portugal de 2007.

(tradução do inglês da Drª Manuela Bairos)
(

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

MARIA BEATRIZ ROCHA TRINDADE sobre MARIA DO CÉU CUNHA

Maria do Céu Mendes Cunha
Maria do Céu Cunha nasceu no Sabugal, na Beira Alta, em 1955. Ainda criança, viu partir o seu pai, rumo a França, à procura de uma vida melhor... Pouco a pouco “todos se vão” dessas aldeias raianas.
Das mulheres fortes da sua infância, a mãe e a avó, sós e autónomas por necessidade, viúvas de “maridos emigrados”, herdou o gosto pelo trabalho e o precoce entendimento que não há liberdade sem independência económica.
Estudou em Coimbra, onde aos 19 anos encontrou as“mulheres do Graal”: Celeste, Isabel, Manela, Teresinha, e mais tarde Luísa França. Abraçou o feminismo, a intervenção social, e entendeu a “pedagogia dos oprimidos”.
Das práticas de desenvolvimento comunitário apreendidas no limiar da vida adulta, ficaram-lhe as certezas de que “o mundo é composto de mudança” e que lutar vale a pena.
Em 1976, atravessa fronteiras, e inscreve os seus passos nos traços dos homens da família. Como eles instala-se no Val de Marne, onde em cada cidade soa, nos dias de mercado, a língua portuguesa.
Em Fontenay Sous Bois, no quadro dum projecto de animação cultural junto da comunidade portuguesa, lança, com um pequeno grupo, a associação de portugueses, ainda hoje viva e activa, graças à persistência e coragem dos dirigentes que sucessivamente por ali passaram. Recorda-se sobretudo da Graziela, que integrou desde o início o núcleo de direcção, mas que já regressou à sua terra de origem Pousos, perto de Leiria.
À margem da associação de Fontenay, mas sempre a ela ligada, envolve-se na criação de alguns grupos que marcaram nos anos 80 um “renouveau” no movimento associativo. Nasce o grupo de teatro que vai dar origem a “Cá e Lá”, assim como o projecto“Centopeia, Collectif de Femmes”, onde um punhado de jovens filhos e filhas de imigrantes portugueses querem interpelar a comunidade portuguesa através do seu movimento associativo e sair da “invisibilidade” que marca por essa altura a comunidade. Do colectivo sai o filme “Portugaises d’origine”.
Centopeiaé como uma pequena irmã do CEDEP, assim como Maria do Céu o é para com Manuel Dias, criador do CEDEP, em conjunto com um punhado de activistas que desde a primeira hora desejaria que nos anos de chegada da esquerda ao poder, houvesse lugar ao debate em torno da imigração portuguesa em França.
Artigos, debates, intervenções... Os anos 80 são anos “portugueses”, e Maria do Céu representa a “comunidade” perante instituições do governo francês como por exemplo no conselho de Administração do Fonds d’Action Sociale e no CNPI.
Em 1988, publica «Portugais de France, essais sur une dynamique de double appartenance»,trata-se do primeiro livro sobre a imigração portuguesa escrito a partir do“interior” dessa imigração.
Com a sua tese de doutoramento “Familles, associations, identités des portugais de France” fecha-se o ciclo do seu profundo envolvimento com a comunidade portuguesa.
A partir dos anos 90, a situação dos bairros desfavorecidos das grandes periferias (“les cités”), onde imigrantes árabes e africanos vivem situações de grande exclusão social e de relegação, passa a estar no centro da sua vida, quer profissional, quer intelectual. Participa na criação do observatório de políticas públicas “Banlieuscopie”, da revista“Impatientes démocratiques” e pertence ao conselho científico de “Migrants formation” e “Ville, école, intégration”. Durante os anos 90, publica em várias revistas francesas, um número importante de artigos sobre os jovens desses bairros populares.
Nos últimos anos procura investir na sua vida profissional (ingressando primeiro no Fasild, depois na ACSE, dois estabelecimentos públicos que financiam e animam a politica de imigração e a “politique de la ville”), através de projectos de prevenção e luta contra as discriminações.
ACADEMIA DA ESPETADA
MAE
MARACAY
VENEZUELA
PONENTE: ANA MARIA DE ABREU
PRESIDENTA
FUNDACION Y TRAYECTORIA:
La Asociación Civil Academia da Espetada Maracay, fué fundada hace 9 años cumplidos el pasado
agosto de los corrientes; nace, de la necesidad de tener un espacio solo para la mujer para compartir,
distraerse de tantas responsabilidades y a la vez contribuir con obras benéficas.
Se decidió que no solo podía basarse las reuniones o tertulias en simplemente comer si no, en algo
más profundo que llenara espacios y necesidades. Asi que desde la primera vez, se programan las
tertulias con dinámicas de integración, de competencia sana, de mensajes o temas para el crecimiento
personal de las asistentes además de fortalecer la amistad, de las amigas ya existentes y cultivar
nuevas amistades por eso nuestro lema “SEMPRE EXISTE UMA AMIGA TRAZENDO CARINHO NAS
MAOS”.
PONENTE:
INSTITUCIÓN:
PAINEL:
Ana María de Abreu
Presidenta de la Academia da Espetada-Mãe (Maracay)
Red asociativa femenina lusovenezolana: De la teoría a
la práctica
OBJETIVOS
Recaudar fondos para los más necesitados (obras benéficas); En mayor porcentaje al Geriátrico Luso
Venezolano en Maracay.
La academia da espetada, da a conocer las costumbres, tradiciones y parte de la cultura de Portugal
a través de las dinámicas, y actividades tradicionales contribuyendo con ello a promoverlas en las
nuevas generaciones y darlas a conocer a otras nacionalidades .
Hemos motivado a que se retome la lengua portuguesa en los hogares de nuestra comunidad, creamos
el proyecto y ubicamos a la profesora que esta desde hace dos años impartiendo clases de en Casa
Portuguesa del Estado Aragua.
Promovemos la importancia ciudadana de realizar el “Recenseamento Eleitoral Portugués” y participar
en las votaciones de Portugal a través de los consulados de lo contrario mientras seamos pocos los
votantes nuestras peticiones no serán escuchadas.
Utilizar herramientas de crecimiento personal que sirvan de apoyo y ayuda a nuestras amigas para su
crecimiento personal, cambio de paradigmas y aprender a querese y a respetarse a sí mismas que
tanto le ayuda en su futuro con mayor seguridad en ellas y nosotras.
Realizar paseos, excursiones, viajes para la integración y culturización de nuestra comunidad.
Resaltar los valores, virtudes y aportes de la comunidad portuguesa acá en Venezuela .
PONENTE:
INSTITUCIÓN:
PAINEL:
Ana María de Abreu
Presidenta de la Academia da Espetada-Mãe (Maracay)
Red asociativa femenina lusovenezolana: De la teoría a
la práctica
LOGROS Y APORTES:
Hemos promovido la creación de las academias siguientes:
ACADEMIA DA ESPETADA MAE Ayudamos a la edificación del geriátrico de Maracay, contribuimos
siempre en sus necesidades, con Fundación Martins que se dedica a niños con parálisis cerebral
Severa, en medicamentos a varias personas de la comunidad sin recursos .
SECCIONAL ACADEMIA DA ESPETADA CARACAS, Con 3 años de fundada, dedica sus fondos a
apoyar niños sin recursos con medicamentos, juguetes e insumos.
SECCIONAL ACADEMIA DA ESPETADA BARQUISIMETO, Celebrando hoy su 3 Aniversario, se
dedica a ayudar a los abuelos, gente necesitada de la 3ra edad y desean realizar una Casa Hogar para
Abuelos en Barquisimeto.
SECCIONAL ACADEMIA DA ESPETADA GUAYANA, acaba de cumplir su 1er Aniversario y recauda
fondos para tratamientos contra el Cáncer.
SECCIONAL ACADEMIA DA ESPETADA JOHANESBURG: Tiene apenas
dedicando a ayudar a una parte de la comunidad que vive en pobreza extrema.
PONENTE:
INSTITUCIÓN:
PAINEL:
Ana María de Abreu
Presidenta de la Academia da Espetada-Mãe (Maracay)
Red asociativa femenina lusovenezolana: De la teoría a
la práctica
PROYECTOS A FUTURO:
Continuar recaudando fondos para obras benéficas
Incentivar la apertura de la Academia en Valencia, Carabobo en el año 2013
Programar talleres y cursos de orientación para las amigas de todas las Academias como lo planteado
en nuestro 1er Congresillo de las Directivas de la Academia.
Realizar reuniones de consenso y unión de esfuerzos con las distintas asociaciones portuguesas con el
objeto de realizar mesas de trabajo para grandes proyectos en pro de la comunidad portuguesa en
Venezuela.
Trabajar en función de que cada una de las amigas encontremos cada una, su gran secreto de ser
FELIZ.
FELIZ DIA PARA TODAS Y TODOS

DEOLINDA ADÃO lembra BERTA MADEIRA

Berta Ormond Avila Madeira
25 de Julho, 1924 - 23 de Fevereiro, 2012
Berta O. A. Madeira nasceu em Oakland, Califórnia, filha de Francisco Avila natural da Ilha Terceira e de Wilhelmia Ormond nascida na Ilha de São Jorge, mas criada na Ilha Terceira, Açores. Berta Madeira foi educada no seio da comunidade Portuguesa de Oakland,participando ativamente em inúmeras associações, uma das quais a Sociedade PortuguesaRainha Santa Isabel, onde foi associada ao conselho subordinado número 68 localizado em Berkeley por 57 anos. Durante esses anos Berta Madeira foi uma energética lutadora por todas as causas abraçadas pela sociedade, especialmente as relacionadas com a organização, avaliação e distribuição de bolsas de estudo. Berta, uma entusiasta por História, fundou e organizou o museu da sociedade e serviu a S.P.R.S.I. como Presidente Suprema durante um ano entre 1979-1980.
Adicionalmente, também participou ativamente em outras sociedades fraternais, particularmente
a União Portuguesa do Estado da Califórnia (UPEC) e a Sociedade do Espírito Santo (SES). Em
reconhecimento do seu trabalho em prol da comunidade Portuguesa assim como da cultura e
língua Portuguesas, Berta Madeira foi condecorada pelo Governo Português e homenageada por
várias sociedades e associações da comunidade Portuguesa da Califórnia.
Prendada de rara capacidade, após completar o décimo segundo ano no colégio Holy Names em Oakland, continuou os seus estudos na Universidade da Califórnia, Berkeley chegando a frequentar o curso de doutoramento. Berta Madeira participou no processo de fundação nas Nações Unidas em San Francisco na capacidade de tradutora e foi professora de línguas na Universidade da Califórnia, Berkeley. Casou com o Dr. Luiz Julio Madeira, cujo consultório administrava.
Durante várias das suas frequentes viagens a Portugal, Berta Madeira participou em colóquios e conferências com apresentações desenvolvendo o tema da atividade associativa, cultural e cívica da comunidade Portuguesa da Califórnia, em representação de várias entidades associativas desse Estado.
Após o falecimento do seu esposo em 2006, Berta Madeira mudou-se da sua cidade natal para a cidade de Folsom, local de residência de seu filho, nora e netos, na companhia dos quais veio a falecer com a bonita idade de 87 anos, quase todos dedicados completamente à sua família, amigos, membros da comunidade Portuguesa, e à sua amada cultura Portuguesa, pois embora o seu local de nascimento tivesse sido os Estados Unidos, nomeadamente a Califórnia, o seu coração pertencia a Portugal.

sábado, 24 de novembro de 2012

DEOLINDA ADÃO Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel

Sociedade Portuguese Rainha Santa Isabel: um exemplo do movimento Fraternal Português Feminino na Califórnia

Deolinda M. Adão, MA
Portuguese Studies Program - University of Califórnia, Berkeley
Portuguese Teaching Program – California State University San José



Como temos defendido anteriormente, a chegada dos Portugueses à Califórnia, precede a adesão deste estado aos Estados Unidos da América (9 de Setembro de 1850) visto que desde a primeira metade do século XIX que imigrantes portugueses chegam ao Oeste dos Estados Unidos em Geral, e particularmente à Califórnia. De acordo com décimo sexto recenseamento dos Estados Unidos, nesse ano de 1850, já viviam 177 portugueses na Califórnia (um deles do sexo feminino), no princípio do
século XX esse número tinha aumentado para 15,583, e em 1930 o número de portugueses residentes na Califórnia tinha atingido 30,224.1 Sabemos também que embora grande número das mulheres Portuguesas que se encontravam na Califórnia tinham vindo acompanhadas pelos seus familiares (conjugues, pais, ou irmãos), várias houve que fizeram a travessia marítima e continental sozinhas ou acompanhadas de outras mulheres (em muitos casos irmãs). Conforme o número de imigrantes portugueses crescia, estes começaram a sentir a necessidade de estabelecerem organizações fraternais
que assistissem os seus sócios em caso de doença. A primeira associação fraternal a ser fundada na Califórnia foi a Associação Portuguesa de Beneficiencia da Califórnia, que foi fundada em São Francisco em 18682 por um grupo de mais de 30 homens. Este foi o nascimento do movimento fraternal português na Califórnia. Tal como tinha sido o caso da Associação Portuguesa de Benificiencia da Califórnia, a maioria das associações fraternais portuguesas foram fundadas por homens e associação as mesma estava restrita ao sexo masculino3. No entanto, ao fim de pouco tempo, as mulheres Portuguesas na Califórnia começaram a sentir a necessidade de se associarem de uma forma similar, e a fins do século XIX, foram fundadas pelo menos duas associações exclusivamente femininas a União Portuguesa Protectora do Estado da Califórnia (U.P.P.E.C.) em 1901, e a Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel (SPRSI). É precisamente o nascimento e
desenvolvimento desta última que aqui pretendemos analisar.
Antes de enfocarmos a nossa análise, é importante frisar que a participação feminina foi um elemento importante no crescimento de todas as sociedades fraternais Portuguesas na Califórnia, tanto as femininas como as masculinas. Nestas, primeiro apenas como apoiantes dos seus cônjuges, mas mais tarde, uma vez a associação

1 Warrin, Donald Land as far as the eye can see. (20)
Almeida, Carlos. Portuguese Immigrants. (25)
3 Sociedades exclusivamente masculinas: Associação Portuguesa de Benificiencia da Califórnia (1868)
[presentemente – Luso-American Life Insurance Society]; U.P.E.C. – União Portuguesa do Estado da
Califórnia (1876); IDES – Irmandade do Divino Espírito Santo do Estado da Califórnia (1889);
2
1

feminina foi permitida, como sócias, diretoras e oficiais das mesmas. É também significante que a cronologia de fundação das diversas sociedades está distribuída pelas últimas quatro décadas do Século XIX, e que a data de fundação da última (1901) ocorreu justamente no nascimento do Século XX, ou seja, há mais de um século, para nós, que vivemos o nascimento do Século XXI. Esta dinâmica tricentenária é mais do que um firme testemunho do vigor das sociedades fraternais na Califórnia, pois é também um claro sinal da sua relação com as comunidades Luso-Americanas deste Estado.
Parece relevante mencionar, que as duas sociedades exclusivamente femininas foram as últimas a ser fundadas, precisamente no momento de transição secular, e que, como é ilustrado na conclusão, as novas gerações que vivem a nossa transição de século e de milénio, estão em realidade a lidar com as questões de género de uma forma mais naturalmente igualitária. Para além de provocar reflexão sobre as tendências sociais de cada um destes momentos históricos, esta coincidência é uma clara indicação do papel que as mulheres têm desempenhado, e continuam a desempenhar, no dinâmico movimento de solidariedade social e afirmação cultural representada pelas sociedades raternais Luso-Americanas na Califórnia.

Altar da Igreja de São José em Oakland, Califórnia

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A Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel (SPRSI) foi fundada a 15 de Março de 1898, em Oakland, Califórnia, como uma sociedade de “altar”, por um grupo de 304 mulheres Portuguesas por iniciativa da Sra. Rosa M. Oliveira, com a função dupla de manter e ocupar-se da decoração do altar da Igreja de São José, que nessa altura estava localizada na esquina das ruas 7 e Chestnut na cidade de Oakland5, e de prover apoio material às associadas em momentos de crise. Embora as suas associadas se dedicassem à decoração do altar da Igreja de São José, como o próprio nome indica foi a Rainha Santa Isabel que foi designada como a padroeira da sociedade.
Em 1900, a sociedade cessou de funcionar como uma sociedade de altar e aumentou as suas atividades fraternais estabelecendo vários conselhos subordinados. O Conselho Supremo foi implementado a 20 de Janeiro de 1901, durante uma reunião dos representantes dos diversos conselhos. Entre 14 e 17 de Julho desse mesmo ano, realizou-se a primeira reunião anual da sociedade contando com a presença de 15 Oficiais Supremas e 66 representantes de 35 conselhos subordinados.6
Rosa M Oliveira
Primeira Presidente Suprema da S.P.R.S.I.

Associadas fundadoras da S.P.R.S.I. foram: Rosa M. Oliveira, Anna L. Costa, Anna Mendonca, Anna
Oliveira, Anna Ribeiro, Catherine Silva, Emilia Nunes, Filomena Laura, Francisca Raulino, Georgiana Woods, Maria Correia, Maria Mello, Maria dos Reis, Maria Barrito, Maria J. Freitas, Maria L. Machado, Maria Martins, Maria M. King, Maria Nunes, Maria Pereira, Maria Peters, Maria S. Costa, Sr., Maria S. Costa, Jr., Maria Silva, Maria Silveira, Maria Soares Caralinda, Mathilde Silva, Anna Clarke, Thereza Pereira e Maria Bulcao.
5 A cidade de Oakland, localizada na Baia de San Francisco, era nesse momento um dos grandes centros da comunidade Portuguesa da Califórnia, cujos membros participavam ativamente na vida económica, cultural e social da cidade, como é evidenciado na edição de Setembro de 1938 do Jornal Português sediado nessa cidade “A Capital Portuguesa do Pacífico – Oakland, o centro industrial da Easat Bay, é o maior núcleo Português do Estado” (pg. 15).
6 Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel – One hundred years. (18,19)
4
3
Durante a próxima década a S.P.R.S.I. cresceu rapidamente e distinguiu- se em várias áreas de intervenção tanto dentro do seio da comunidade Portuguesa da Califórnia como nas comunidades da Califórnia onde se iam estabelecendo conselhos subordinados. No entanto, muita da ação cívica e cultural da sociedade concentrava-se na cidade de Oakland em particular e na área da Baia de San Francisco em geral. As senhoras da S.P.R.S.I. participavam em todos os eventos relevantes da comunidade e da sociedade das suas áreas de residência e frequentemente, eram elas próprias as responsáveis pela organização de eventos religiosos, cívicos e culturais. Dos muitos eventos organizados pela sociedade destaca-se o almoço em honra do Comandante do Návio São Gabriel, que visitou a Baia de San Francisco em Abril de 1910. Em Junho desse mesmo ano, Sua Majestade a Rainha Dona Amélia aceitou o título de Presidente Honorária da S.P.R.S.I. Em Julho de 1915 realiza-se em San Francisco a Exposição Internacional Panamá-Pacific e o dia 14 de Julho é denominado como o Dia da S.P.R.S.I., e no âmbito do qual centenas de associadas e seus familiares deslocam-se ao local da Exposição para participar no desfile principal “Grand Parade” e apresentar um programa cultural no espaço nobre do recinto da mesma “Court of the Universe”, após o qual os representantes da Exposição obsequiaram a sociedade com uma placa de bronze comemorativa da efeméride. Em conclusão seguiu-se uma visita guiada ao Pavilhão Português e um almoço em homenagem aos representantes de Portugal.
Pavilhão Português na Exposição Panama-Pacific em San Francisco, 19157

Durante a convenção anual de 1928 realizada na cidade de Modesto as sócias presentes aprovaram o estabelecimento do “Fundo para obras de caridade” através do qual a sociedade tem contribuído com apoio financeiro para muitas obras de beneficência nos Estados Unidos e em Portugal. As causas apoiadas são diversificadas e incluem
Após o encerramento da Exposição, o Pavilhão Português foi demolido e muitos dos materiais retirados foram utilizados na construção da Igreja Nacional das Cinco Chagas em San José, Califórnia.

apoio para a construção ou arranjos de igrejas, apoio a vítimas de secas, inundações, erupções vulcânicas, terramotos, tragédias marítimas e outros desastres naturais. Apoio às missões Portuguesas em África e Ásia, assim como a inúmeros seminaristas que frequentavam seminários nos Estados Unidos e em Portugal. Donativos para a Biblioteca “Kennedy” e ainda subsídios para o Departamento de Guerra dos Estados Unidos durante a segunda guerra mundial, nomeadamente a compra de mais de meio milhão de dólares de U.S. War Bonds e a comparticipação da compra de dois canhões
antiaéreos.
Em 1935 a sociedade foi agraciada pelo governo da República Portuguesa com a Comenda da Ordem de Benemerência em reconhecimento das suas ações de Patriotismo e Filantropia. Em 1936, o sexto centenário da morte da Rainha Santa Isabel foi comemorada na Califórnia com a presença do Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira. As celebrações que decorreram entre 9 e 14 de Agosto de 1936 em Oakland, Califórnia, e que se incorporaram na Convenção anual da sociedade, iniciar no dia 9 de Agosto com um enorme desfile pelo centro da cidade de Oakland, com carros
alegóricos, grupos equestres e de majoretes, representantes de todas as sociedadesportuguesas tanto fraternais como cívicas e representantes governamentais, cívicos e eligiosos da Califórnia. Este desfile terminou no Oakland Civic Auditorium Arena para a celebração litúrgica que foi concelebrada pelo Patriarca de Lisboa, o Arcebispo de San Francisco, e os Bispos de San Francisco, Nevada e Salt Lake City, e que contou com a presença de mais de 20 mil pessoas dentro do recinto do Auditório e foi transmitida via autofalantes instalados no exterior do mesmo para as mais de 50 mil pessoas que tinhamocorrido ao recinto para participar na celebração. Seguiu-se um almoço em honra do
convidado especial, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, o Arcebispo, os Bispos e restante clero presente, convidados, corpo administrativo, sócias e seus familiares. As festividades desse dia concluíram com duas apresentações dum Drama Histórico sobre a vida da Santa Isabel, que decorreram no Teatro do Oakland Auditorium com lotações completamente esgotadas.

5Durante a semana que se seguiu, para além de muitas reuniões e intercâmbios com o representante da Igreja Portuguesa, realizaram-se várias celebrações em honra de Sua Eminência que permaneceu em Oakland durante todo o período das festividades e incluiu um banquete promovido pela S.P.R.S.I. no salão nobre do Hotel Oakland que contou com a presença de mais de 500 convidados e que foi objeto de ampla cobertura jornalística, tanto pela imprensa comunitária como pelos órgãos de informação da área da Baia de San Francisco. As festividades concluíram com a instalação solene dos novos corpos diretivos de todas as Sociedades Fraternais da Califórnia.

Em 1939 realizou-se a Golden Gate International Exposition na Treasure Island na Baia de San Francisco. Como já tinha acontecido, na exposição Panama-Pacific de San Francisco, a comunidade Portuguesa e as Sociedades Fraternais, incluindo a S.P.R.S.I. marcaram forte presença no certame, particularmente no dia 6 de Setembro de 1939 designado pelo comité diretivo da exposição como Dia Português, que foi celebrado com um desfile e outras festividades. O carro alegórico da S.P.R.S.I. sob o tema da Rainha Santa venceu o segundo prémio do desfile.

Na Convenção anual de 1944 foi decretado por recomendação da Presidente Suprema a Senhora Mary Valim Comelli, que seriam admitidas na sociedade jovens do sexo feminino, assim inaugurando os conselhos juvenis. Um dos primeiros empreendimentos da sociedade especificamente para estas jovens foi a organização de um concurso em 1948 que elegeria a Miss California. Para além de representar a sociedade nos diversos eventos da sociedade, a vencedora do certame participaria na

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peregrinação a Portugal programada para 10 de Junho de 1948 em comemoração do Vitral do Altar Mor da Igreja do Convento de Santa Clara-a-Nova em Coimbra. cinquentenário da S.P.R.S.I. O ponto alto desta peregrinação foi a visita ao Convento de Santa Clara-a-Nova em Coimbra no dia 8 de Julho de 1948 (Dia da Rainha Santa Isabel) e onde foi celebrada a missa comemorativa do Cinquentenário e em evocação da qual a Sociedade ofereceu um vitral para ser colocado sob o altar-mor da Igreja Nacional de Santa Clara onde serve de pano de fundo ao túmulo e imagem da venerada Rainha
Santa Isabel.8 A jovem Rosie Sozinho foi eleita Miss Califórnia, mas infelizmente não lhe foi possível participar na peregrinação a Portugal e celebração do Cinquentenário da Sociedade em Coimbra.
Em 1948 a Sociedade concretizou o sonho antigo de possuir a sua própria sede e para esse fim adquiriu um edifício localizado na Rua Telegraph em Oakland que foi inaugurado no dia 12 de Março de 1949. O escritório administrativo da Sociedade permaneceu neste edifício até Janeiro de 2010, data em que a S.P.R.S.I. se associou ao grupo de Sociedades Fraternais e Educativas representadas pelo grupo Luso-American Life Insurance Society. O ano de 1950 trouxe outra inovação à sociedade, pois foi na Convenção anual desse ano que, por recomendação da Presidente Suprema a Sra. Adeline M. Bettencourt (De Andrade) se estabeleceu o Fundo de Bolsas para apoiar
associadas que pretendessem fazer estudos universitários. Entre 1952 e 1964 a S.P.R.S.I. distribuiu uma bolsa no valor de $250.00. A partir de 1964 o número de bolsas concedidas foi aumentando até 1997, passando desde essa data a ser nove o número de bolsas distribuído sendo uma delas para beneficiar uma associada que pretendesse recomeçar os seus estudos universitários após pausa prolongada. A S.P.R.S.I., era a única sociedade fraternal Portuguese com uma bolsa para estes indivíduos, e devo acrescentar que eu própria fui uma das beneficiadas pela mesma.
Em Maio de 1953 a S.P.R.S.I. foi mais uma vez agraciada pelo governo Português, neste caso no âmbito da visita à Califórnia do Dr. Paulo Cunha, Ministro dos

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Com o correr dos anos, e como pode ser evidenciado na foto do painel aqui incluído, o vitral sofreu
alguns estragos. A reparação do vitral foi custeada pela S.P.R.S.I. durante de várias das suas dirigentes e associadas no verão de 2011.

7
Negócios Estrangeiros que condecorou a sociedade com a medalha de bronze em reconhecimento dos serviços prestados em prol da cultura Portuguesa, que incluiu a participação da sociedade nas comemorações dos 25 Anos de Estabilidade Nacional do Governo Português.



Em 1960 a sociedade participou ativamente na celebração do cinquentenário da morte do Infante Don Henrique tanto na Califórnia como em Portugal, organizando várias atividades, e dedicando uma edição do Boletim da sociedade à efeméride. O ano de celebrações culminou num luxuoso banquete realizado no Hotel Mark Hopkins na cidade de San Francisco que contou com a presença do Admiral Chester A. Nimitz que proferiu uma palestra sobre o tema. Em Dezembro de 1964 a convite da Sociedade de Geografia de Lisboa, a sociedade participou no I Congresso das Comunidades
Portuguesas.
Sentindo a necessidade de incluir na sociedade uma representação mais activa das jovens Portuguesas e Luso-Americanas muitas das quais estavam associadas à S.P.R.S.I. desde o nascimento, em 1971, no âmbito das celebrações do Sétimo Centenário do nascimento da Rainha Santa Isabel, organizou-se uma seção para as jovens que inclui um corpo diretivo ao nível estadual, e foram eleitas as primeiras Oficias Juvenis Estaduais.
Estas jovens revitalizaram as atividades da sociedade e desde esse momento participaram em todos os eventos da sociedade tanto a nível Estadual como nos conselhos locais.
Desde então a sociedade tem continuado a participar em todos as efemérides e comemorações na Califórnia, em particular nas comemorações anuais do Dia de Portugal.
Entre os dias 13 e 17 de Março de 1998 a S.P.R.S.I. celebrou o seu centenário com diversos eventos que incluíram banquetes, celebrações religiosas, cruzeiros de barco na Baia de San Francisco e culminou com a instalação das oficiais que guiariam a sociedade na entrada do seu segundo século de existência. Nesse momento publicou-se um livro celebrativo do Centenário S.P.R.S.I. Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel – one hundred years, onde se fez um balanço das atividades da mesma. Nos primeiros 100 anos de existência a S.P.R.S.I. distribuiu $8.748.095 aos beneficiários de sócias defuntas e $1.325.074 a sócias cujas apólices chegaram ao prazo de vencimento; doou
$235.182 a várias causas de beneficência primordialmente em Portugal e na Califórnia, mas também em outros países em momentos de catástrofes naturais; concedeu aproximadamente 200 bolsas a jovens estudantes; as 30 fundadoras multiplicaram-se em 10.142 associadas e o défice de $9,80 do primeiro ano transformou-se em $8.504.973 em ativos. Neste Século de existência muitas das associadas e dirigentes da S.P.R.S.I. distinguiram-se em inúmeras áreas de atividade na sociedade da Califórnia, desde ao serviço religioso ao político. Este facto é substanciado pelos inúmeros artigos publicados nos periódicos da comunidade portuguesa, assim como os de distribuição generalizada na
Califórnia, como é o caso do Jornal Portuguêz fundado em 1932 por Pedro da Silveira e sua esposa Maria Nunes Silveira e publicado em Oakland, assim como nas páginas do periódico publicado pela própria S.P.R.S.I.
Não obstante os inúmeros sucessos dos 112 anos da S.P.R.S.I., devido a um declínio no número de novas associadas, em 2010 a sociedade sentiu a necessidade de se associar a outra organização fraternal Portuguesa, a Luso-American Life Insurance Society, fazendo agora parte das várias organizações aglomeradas ao grupo LALIS, mantendo no entanto a sua estrutura original e autonomia operativa.
Outro elemento de bastante interesse e que confirma o empenho cultural e patriótico da S.P.R.S.I. é a publicação do Boletim da S.P.R.S.I. Este impresso publicado com variada frequência desde a fundação da sociedade até Janeiro de 2010, momento de adesão à LALIS onde as suas atividades começaram a ser incluídas no Luso-American Magazine, este Boletim é um documento de grande importância que relata não só as atividades da sociedade mas também dá evidência do acontecimentos, ou melhor di documenta a História da comunidade Portuguesa da Califórnia, a História do Estado da Califórnia, a História dos Estados Unidos da América e a de Portugal, com edições especiais dedicadas a praticamente todos os acontecimentos ou efemérides relativas tanto
a Portugal como à Califórnia e Estados Unidos em geral.
A SPRSI diferencia-se das outras sociedades fraternais portuguesas por várias razões. A primeira, e mais óbvia, é o facto de ser uma sociedade exclusivamente feminina. Em realidade, é a única sociedade fraternal Portuguesa que não aceita sócios de ambos sexos. Adicionalmente, até Janeiro de 2010, a SPRSI nunca se uniu a nenhuma outra sociedade nem mudou de nome durante toda a sua existência de mais de um século.
Como a SPRSI só aceita sócios do género feminino, todos os Diretores da sociedade são, e sempre foram, mulheres, com a exceção do Diretor Médico e de um empregado que serviu a sociedade como vendedor durante um breve período de tempo. Finalmente, a ede administrativa funciona com um número mínimo de empregados, sob a direção da Secretaria Suprema, especificamente porque o corpo diretivo da sociedade é a Diretoria, que durante as suas reuniões toma todas as decisões pertinentes à administração da sociedade.
Desde 1975, várias propostas foram apresentadas visando a entrada de sócios masculinos. Todas estas propostas foram rejeitadas tanto pela Diretoria como pelas ócias em geral, ao serem apresentadas durante a reunião anual da sociedade. A maioria das sócias da SPRSI, está convicta que a entrada de homens na sociedade mudaria a estrutura da sociedade, o que resultaria numa perca de identidade e do objetivo primordial que propõe que sejam mulheres a prestar apoio a mulheres. No entanto, manter a tradição matriarca da sociedade, tem alto preço, e após mais de um século de
existência a sociedade viu-se obrigada a unir-se a outra sociedade ou perecer. A principal causa do declínio da S.P.R.S.I. está relacionada com o facto que é mais provável que as mulheres portuguesas se associem às sociedades a que também se associa o resta da sua família, e como tal a massa associativa da SPRSI, não está a ser devidamente renovada e está em processo de envelhecimento. Presentemente, a idade média do corpo associativo da SPRSI é aproximadamente 60 anos. No entanto, a SPRSI, tem sido uma Sociedade Fraternal Portuguesa extremamente ativa e, como tal, tem contribuído significativamente para a vida social e cultural da comunidade Portuguesa da Califórnia. Durante o último século, a sociedade tem promovido um número incontável de eventos e tem dado apoio moral e financeiro a inúmeras associadas que visavam continuar estudos universitários.



Bibliografia

ALMEIDA, Carlos. (1992) Portuguese Immigrants (The Centennial Story of the Portuguese Union of the State of California). 2nd edition, San Leandro, California.

S.P.R.S.I. (1998) Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel. Oakland, California.

WARRIN, Donald & Geoffrey L. Gomes. (2001) Land As Far As the Eye Can See: Portuguese In The Old West. Spokane, Washington.

Buletim da Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel. Oakland, CA.


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Maria Lamas - Uma mulher portuguesa na Diáspora




Evocação por Maria Benedicta Vassalo Pereira Bastos Monteiro



Evoco hoje aqui precisamente uma mulher migrante, a minha avó, Maria

Lamas, na sua qualidade de Mulher, de Escritora, de Expatriada e de

Lutadora Política. Junto a esta imagem a de peregrina e a de solidária.

Peregrina duplamente: em busca das mulheres do seu país, qual jornalista-

etnóloga, em busca da sua liberdade como expatriada, e através delas em

busca de si própria.



Uma busca que sempre lhe conheci exaltada, inquieta, quase imatura na sua premência, não

fora a doçura e a tranquilidade com que se abria a outros espaços de escuta e de empatia

inefáveis. Assim parece que a perceberam também muitos dos que a ela se chegaram, no Jornal ‘O

Século’, no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, no seu quarto de exilada em Paris, no

Movimento Democrático de Mulheres, ou nas casas das suas três filhas, em Lisboa e em Évora,

onde viveu durante longos anos.



Maria da Conceição Vassallo e Silva, Ribeiro da Fonseca pelo seu primeiro casamento e Lamas

pelo seu segundo casamento foi, antes de tudo, uma mulher, como ao longo da vida se evocou a

si própria. Nascida em Torres Novas em 1893, numa família burguesa e conservadora, foi a mais

velha dos quatro filhos Vassallo e Silva: Maria (como lhe chamava já a família), Joana, Aurora e

Manuel António. Numa cidade de província, como então se dizia, a sua educação foi conservadora

e protegida: internada aos 10 anos num colégio religioso em Torres Novas para receber uma

educação esmerada, é uma rapariga de 15 anos, cheia de fervor religioso e de sonhos, a que sai

do Colégio para se vir a casar em regime civil, em 1910, com 17 anos, com o Oficial de Cavalaria

republicano Teófilo José Pignolet Ribeiro da Fonseca, meu avô, que ali estava em comissão no

Quartel de Torres Novas, e com ele partir em seguida para Angola, onde ele permaneceria em

comissão de serviço durante dois anos. Diz Maria Lamas que assim se cumpriu o que dela se

esperava como mulher: casar, ter uma família e filhos, viver um grande amor. Nas suas palavras ‘o

amor, uma perturbação suavíssima, um olhar demorado, uma carícia, um beijo’. A vida trocou-lhe

as voltas: depois de sete anos de casamento e duas filhas, a sua angústia e sofrimento com uma

relação falhada dá-lhe coragem para voltar para casa dos pais com as duas filhas e partir aos 25

anos, para um divórcio que não tinha desejado.



Um segundo casamento em 1921 com Alfredo da Cunha Lamas, jornalista

monárquico que conheceu na Agência Americana de Notícias, e o nascimento

de mais uma filha, em 1922, estão na origem da sua decisão de consolidar a

sua vida de trabalho. A sua vida familiar neste novo casamento viria também,

em breve, a revelar-se insustentável, e alguns anos depois é de novo uma



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jovem sozinha, agora com três filhas, que enfrenta uma nova fase da sua vida

de mulher, onde a escrita virá ocupar um lugar central de realização pessoal e

de sobrevivência familiar.



A vida afectiva e relacional de mulher de Maria Lamas não terminou, no entanto, aqui, embora

os seus biógrafos mais não consigam contar. Ela continuou durante toda a vida a exprimir a sua

paixão pelas relações humanas, pela busca de muitas formas de amizade e de amor, e foi com

ligações amorosas fortes, e por vezes conturbadas, que atravessou a vida até ao fim. E assim,

elogiada por uns e polémica para outros, se afirmou como mulher inteira.



Mas falemos agora da segunda dimensão da sua vida que aqui queremos salientar: Maria Lamas

Escritora. Em ‘O Despertar de Sílvia: Fragmentos de uma Confissão’, uma novela autobiográfica

publicada em 1949, Maria refere que teve desde a infância uma paixão pela leitura e que desde

cedo sentiu a escrita como uma vocação. Durante toda a década de 20, vai então publicar, sob o

pseudónimo de Rosa Silvestre, uma diversidade de textos, que revelam a premência da escrita,

mas também mostram a sua plasticidade expressiva. Inicia-se com a poesia, em 1923, com o livro

de poesia ‘Os Humildes’, e no mesmo ano com o romance ‘Diferença de Raças’, enquanto cria e

dirige sucessivamente revistas para a infância - ‘O Pintainho’ (1926), ‘O Correio dos Pequeninos’

(1927), ‘A Semana Infantil’ (1927) e ‘O correio dos Miúdos (1928) e publica a sua primeira novela

para crianças – ‘Maria Cotovia (1929).



É em 1927 que publica o segundo romance ‘O Caminho Luminoso’, ainda sob o pseudónimo de

Rosa Silvestre, editado pela Sociedade Nacional de Tipografia ‘O Século’, em Lisboa. Nesta fase

da sua vida proliferam os contactos com Escritores, Editoras e Jornalistas que alargaram as suas

oportunidades de afirmação como escritora e de militância cívica e política: ‘O jornalismo foi

a minha grande escola. Foi ele que me fez tomar consciência da possibilidade de me exprimir

escrevendo, dando-me confiança para o fazer’ diria ela mais tarde.



As décadas que se seguem assistem à continuação da sua actividade como

escritora, tanto de livros infantis (As Aventuras de Cinco Irmãozinhos, 1931; ‘A

Montanha Maravilhosa’, 1933; ‘A Estrela do Norte’, 1934; ‘Os Brincos de

Cereja’, 1935; e ‘O Vala dos Encantos, 1942), como de romances.



‘Para Além do Amor’ (1935) foi o primeiro que assinou com o nome de

Maria Lamas e onde inscreveu o seu ex libris ‘, desenhado por Júlio de Sousa,

Sempre mais alto’, seguindo-se ‘A Ilha Verde’ (1938), passado em S. Miguel,

nos Açores.



A par desta escrita intensa, de caracter romanesco, onde se entrecruzam o mito do amor

romântico e pinceladas neo-realistas, Maria Lamas trabalhava para sobreviver e educar as filhas.

Mas em 1929, ano em que o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, impulsionado por

Adelaide Cabete, apoiava o ‘Congresso Abolicionista da Prostituição’, ela é convidada, através de

Ferreira de Castro, a ingressar na revista ‘Modas & Bordados, suplemento do jornal ‘O Século’, que

iria dirigir durante 20 anos. A partir desta data, a sua profissão central é o jornalismo orientado



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para a vida das mulheres. Chama colaboradores, cria uma coluna de correio com as leitoras

– o Correio da Tia Filomena - publica notícias, obras e fotografias de mulheres portuguesas

e estrangeiras que escrevem, pintam, cantam, dançam, fazem desporto, ganham prémios,

notabilizam-se como cientistas, artistas, empresárias, modelos e artesãs, propõe e ensina

actividades domésticas de saúde, alimentação, lazer e de educação dos filhos.



Maria Lamas não ficou sozinha neste empreendimento. Aliás, uma das características do seu perfil

de liderança, será sempre a de formar equipas, de alargar o círculo da participação, de aceitar a

experiência e a competência de outros para multiplicar os efeitos. As revistas que criou e dirigiu

estão repletas de colaboradores. Podemos lembrar, nomeadamente, outras escritoras: Adelaide

Bramão, Emília de Sousa e Costa, Sara Beirão, Manuela Porto, Branca de Gonta Colaço ou Berta

Leite. Mas também outras Jornalistas e Directoras de Revistas da época, sobretudo no Porto e

em Lisboa, como Carolina Homem-Cristo, anterior Directora do Modas & Bordados, Maria Amélia

Teixeira (do Portugal Feminino), Olga de Morais Sarmento (do Sociedade Futura), ou Albertina

Paraíso (do Jornal da Mulher).



É ao longo destes anos de direcção da Revista que toma consciência

da pobreza educativa e do sofrimento calado em que muitas

mulheres vivem, do seu estatuto cívico de menores (Salazar só

aprova o decreto que concede o voto às mulheres, desde que

tenham estudos secundários, em 1931), ignorando alternativas,

amarradas a um destino que o fascismo e o catolicismo foram

cristalizando em instituições que definiam claramente a função

social da mulher: organização da casa, educação dos filhos, práticas



de caridade e de assistência social. E é para sacudir as mulheres desse torpor sem esperança

que vai tendo mais e mais iniciativas – revistas, como ‘A Joaninha’, exposições, eventos, como

a ‘Exposição da Obra Feminina’, de caracter científico, literário e artístico, que organiza nas

instalações de ‘O Século’, ou um Ciclo de Conferências sobre ‘As mulheres’, que organiza com

Manuela Porto, Sara Beirão e outras, ou ainda a exposição dos Tapetes de Arraiolos feitos por

mulheres da ‘Cadeia das Mónicas’. Mas a que mais impacto político teve foi a ‘Exposição de Livros

Escritos por Mulheres’, que organizou em 1947, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa,

enquanto presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP), cujo catálogo

incluía títulos de escritoras de 28 países da Europa, Ásia e Américas. A exposição terminou com

uma conferência proferida por Maria Lamas, explicando os objectivos da exposição e da instituição

promotora.



Quatro dias depois a o CNMP foi fechado por mandato do governo Civil

de Lisboa, que se justificou: ‘Não precisa de se preocupar com a situação

das mulheres portuguesas. O ‘Estado Novo’ já confiou à ‘Obra das Mães’ o

encargo de as educar e orientar.’



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Mas a sua obra de maior fôlego e que a notabilizou, não só nos meios

académico e literário, mas no meio político, foi ‘As Mulheres do meu País’.



A obra consistiu numa extensa ‘reportagem’ sobre a vida das mulheres portuguesas, publicada

em 24 fascículos pela Editora Actualis (criada por Manuel Fróis de Figueiredo, Orquídea Fróis de

Figueiredo e a própria Maria Lamas) entre 1947 e 1950, data em que aparece em livro.



A sua publicação, ‘nascida da urgência e da ofensa’, como a descreve a sua neta Maria José Lamas

Caeiro no prefácio da obra, foi o culminar de um enorme esforço e determinação para superar,

quer as dificuldades económicas, logísticas e de adaptação cultural que um trabalho etnográfico

de amplitude nacional envolve, mas também a ameaça constante da censura do regime. Alguns

chamaram-lhe ‘jornalismo de iniciativa’, ou ‘jornalismo-reportagem’, aquele que consegue trazer

para a luz do dia as vidas esquecidas ou ocultas daquilo a que hoje chamamos ‘minorias’ – grupos

humanos subordinados, com pouco controlo sobre o seu destino, normalmente ignorados e

estigmatizados pelo grupo dominante na sociedade. Neste caso, as mulheres.



Sempre as mulheres. Em 1949 a Actualis edita os três primeiros volumes de um projecto de

livro, ‘As Quatro Estações’, coordenado por Maria Lamas: a ‘Primavera’, o ‘Verão’ e o ’Outono’

(o ‘Inverno’ não chegará a ser editado). Com a experiência da direcção, durante 20 anos, do

suplemento ‘Modas e Bordados’ do jornal ‘O Século’, este livro tem a marca do projecto de

Maria Lamas: a educação das mulheres através da leitura. “Um bom livro é um companheiro

indispensável na jornada da Vida”, escreve a autora na primeira página. “As ‘Quatro Estações

deseja ser esse companheiro agradável e sincero, ajudando a preencher, com proveito, as

horas em que o espírito procura alargar os seus horizontes, para além da rotina diária, das

responsabilidades e dos cuidados materiais.” Nele encontramos o seu romance autobiográfico ‘O

Despertar de Sílvia: Fragmentos de uma Confissão’, bem como textos de muitas mulheres que

a ela se juntaram neste projecto cívico, como Manuela Porto, Ilse Losa, Emília de Sousa Costa,

Manuela de Azevedo, Maria Elvira Barroso, Graça Brosque, Matilde Rosa Araújo, Maria Lúcia

Namorado, Tereza Águas e Lília da Fonseca. Mas também a colaboração de escritores, ilustradores

e pintores, como Lima de Freitas, Estrela Faria, Fernando Carlos, Maria Keil, Julião Quintinha,

Carlos de Oliveira, Manuel Avelar e Gaspar Santos.



Maria Lamas vai entretanto mudar de rumo e mergulhar na vida política. Mas publica ainda, em

formato de fascículos, o resultado de velhos projectos: ‘A Mulher no Mundo’, editado como livro,

em 2 volumes, em 1952, ‘O Arquipélago da Madeira, Maravilha Atlântica’, em 1956 e ‘O Mundo

dos Deuses e dos Heróis: Mitologia Geral’, em 1961.



Chegamos a Maria Lamas, Mulher lutadora, pelas mulheres, pelos direitos cívicos, contra

o regime da ditadura em Portugal e pela Paz. É durante os anos 40, nomeadamente após a

revitalização do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP) sob a sua presidência,

do impacto público da exposição de ‘Livros escritos por Mulheres’ na Sociedade Nacional de

Belas Artes de Lisboa, do encerramento político do CNMP pelo Governo Civil de Lisboa e da sua

demissão voluntária do jornal ‘O Século’ (´Senhora D. Maria, ou escreve no ‘Século’ ou faz política’,



4



disse-lhe angustiado Pereira da Rosa, o Director do Jornal, sob ameaça da censura e de suspensão

do jornal pela polícia política), e ainda do endurecimento da Ditadura após a 2ª Guerra Mundial,

com um progressivo isolamento em relação às democracias europeias, que a sua consciência cívica

e política está fortalecida, inabalável, e dedica a maior parte dos anos que se seguem a defender

as causas da liberdade, dos direitos das mulheres e da paz no mundo. Ela própria recorda, “como o

meu primeiro acto político”, a assinatura das listas para a formação do MUD juvenil, em 1945.



Aceita fazer conferências, escrever artigos em Jornais, adere a

Associações para a paz, nacionais e estrangeiras, representa Portugal

em conferências internacionais, faz crónicas para a ‘Rádio Moscovo’

(sob o pseudónimo de Helena Torres). Em 1946, por exemplo,

representa Portugal, enquanto Presidente do CNMP, no I Congresso

Mundial das Mulheres, que reuniu mulheres da Resistência, ex-detidas

em campos de concentração nazis, como foi o caso de Eugénie Cotton.



Volta a representá-lo em 1948, no II Congresso da ‘Federação Democrática Internacional das

Mulheres´ (FDIM), entretanto criada. Vêmo-la depois, em 1949, quando sai da prisão, ao lado de

outros ex-presos políticos como Pinto Rodrigues, Rui Luís Gomes, Virgínia Moura, José Morgado,

Albertino de Macedo, Pinto Gonçalves e António Areosa Feio, todos signatários de um ‘abaixo-

assinado’ contra a instalação da Base Americana das Lages nos Açores.



Em 1950 faz a Conferência ‘A paz e a vida’ em Lisboa, no Museu João de Deus, e uma outra no

Porto, no 15º aniversário da Associação Feminina para a Paz, onde afirma: ”A batalha da vida é a

batalha da Paz”. É de novo presa meses depois, em 18 de Julho, por sentença do Tribunal, sendo

libertada em Janeiro de 51. Em 1952 participa no Congresso dos Povos para a Paz, em Viena, e em

1953, está de novo a representar Portugal no III Congresso Mundial das Mulheres, em Copenhaga.



Nesse mesmo ano, ao regressar via Paris de uma reunião na União Soviética,

onde fizera uma intervenção, é de novo presa no Aeroporto, com todos os

que a esperavam (excepto a família), sendo depois libertada sob caução

paga por um dos genros. Nos anos que se seguem é frequentemente instada

pela PIDE para responder pelos seus actos políticos: pela sua participação

no Conselho Mundial da Paz, em Ceilão, em 1956, pelo seu encontro com

Mao- Tse-Tung em Pequim nesse mesmo ano, ou pela visita a Hiroshima

bombardeada.



Encontramos, então, Maria Lamas, expatriada, mergulhando no enorme mundo da Diáspora

portuguesa em França, fazendo a experiência da solidariedade social e política em condições de

extremas restrições económicas. Acontece assim: primeiro em 1956, depois da sua visita a

Hiroshima e do seu encontro com Mao-Tsé-Tung, escapa à perseguição da polícia política

refugiando-se em Paris, numa estadia de alguns meses, voltando depois a Portugal para continuar

as suas actividades. Mas em 1962 participa, em Moscovo, na ‘Conferência Internacional para o

Desarmamento Geral’, o que comprometeu definitivamente a sua segurança em Portugal. No



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regresso ao país a decisão está tomada: exilar-se-á em Paris, onde colaborará com outros

expatriados na luta contra a Ditadura de Salazar. Aí viveu no Quartier Latin, Rue Cujas, no Grand

Hotel Saint Michel onde a visitei em 1967 e 1968, com o meu marida Gonçalo Monteiro.

Descobrimos aí uma avó de 74 anos, a viver num pequeno quarto do hotel, onde preparava

refeições simples e onde recebia ininterruptamente membros das oposições ao regime - do grupo

de Argel aos membros do Partido Comunista na clandestinidade e aos desertores das guerras de

África - jovens emigrados ao desamparo, amigos de Lisboa e pessoas sozinhas a precisar de uma

palavra. Lembro-me de ver entrar Jorge Reis, António José Saraiva, Maria Nobre Franco, José

Carlos Ferreira de Almeida, João Freire, a Miriam e a Teresa Rita Lopes, Helena Pato e Mário

Neves, Eugénia Pereira de Moura e Helena Neves. Procuravam ajuda, mas também lhe escreviam

cartas e lhe traziam notícias, coisas suas, como presentes: livros, pintura, gravura, desenho,

escultura, fotografias, roupa, alimentos. Passavam, ficavam, partiam. Iam passear com ela para o

Jardim do Luxemburgo. Às centenas. Era a ‘Avó Maria´. Que continuava a trabalhar nos intervalos

nos seus projectos, na sua correspondência e nas suas traduções, na pequena mesa que tinha no

quarto, dedilhando a máquina de escrever com estojo verde, qua ainda hoje guardo comigo.

Quem não leu, por exemplo, a sua belíssima tradução de ´As Memórias de Adriano’, de Marguerite

Yourcenar? Nós ficávamos também no Hotel. Tínhamos ido frequentar, através da ‘Pragma,

Associação Cultural’ que a PIDE viria a encerrar algum tempo depois, primeiro um curso de

formação em Animação Cultural, e no ano seguinte uma formação em Dinâmica de Grupos, ambos

promovidos para sindicalistas da CFDT. Mas nos intervalos saíamos com a Avó, esfomeados de

bons filmes, de teatro, jornais e livros a que não podíamos ter acesso em Portugal: Bunuel,

Bergman, Nicholas Ray, Fellini, Jean Cocteau, Elia Kazan, Fritz Lang, Murnau, Claudel, Genet. Foi

um deslumbramento que a companhia da Avó enriquecia com reflexões e comentários, de tal

modo que a sua idade não era um peso, mas uma energia e uma boa surpresa.



Em Paris, Maria Lamas continuou a sua actividade política. Em 1963,

estava na Mesa da Presidência do V Congresso Mundial das Mulheres,

em Moscovo, que reuniu 1400 delegadas de todo o mundo. Ao seu

lado, estavam Dolores Ibarrurri, a Passionária, Eugénie Cotton, Marie

Claude Couturier, heroína da resistência francesa, Gusta Fuchikova,

resistente checoslovaca e Valentina Teereskova, primeira mulher

cosmonauta a viajar no Cosmos.



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,

Mas a sua presença na Diáspora portuguesa em Paris ficou também marcada por inúmeros

À

testemunhos de uma sua actividade mais silenciosa: a do apoio a outros portugueses, emigrantes

p

o

ou, como ela, refugiados políticos. Deixamos aqui o testemunho de uma outra mulher (1) sobre

r

o tseu encontro com Maria Lamas: “O meu contacto mais estreito com Maria Lamas remonta ao

Outono de 1957, em Paris. Já na minha qualidade de funcionária do Partido Comunista Português

a

d

no desempenho de uma tarefa, rumei a França, onde nunca havia estado, com a minha filha de 8

o

meses. Levava apenas a indicação de procurar Maria Lamas no velhinho Hotel Saint-Michel (em

G

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Paris), ponto obrigatório de encontro dos intelectuais progressistas portugueses, e pedir-lhe que

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me pusesse em contacto com um camarada. Porque era inconveniente, na situação em que me

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encontrava, ficar muito tempo no hotel, frequentemente ‘visitado’ pela polícia, os camaradas

franceses resolveram o problema da minha instalação num apartamento desabitado, no último

andar de um velho prédio no Boulevard Saint Germain. Aí fiquei 3 semanas. Foi-me recomendado

que saísse à rua o menos possível, apenas o estritamente necessário para resolver problemas de

alimentação.



Eram tempos difíceis, esses que então se viviam em França. Estava-se em plena guerra da Argélia,

o povo argelino lutava pela sua independência. O ambiente em Paris era de cortar à faca. (…)

Durante as três semanas que aí permaneci, invariavelmente ao entardecer Maria Lamas batia-me

à porta. Chegava calma, um sorriso aberto no rosto, uma palavra amiga, nas mãos um jornal, uma

revista, um doce, uma flor. (…) Seguiam-se, ao crepúsculo, longas conversas, palavras cheias de

confiança, de esperança. De uma discrição absoluta, jamais me perguntou o que fazia ali, com os

meus 23 anos e uma filha de meses nos braços…



Um dia perguntei-lhe porque chegava sempre ao entardecer. Razões haveria, certamente.

Olhando-me nos olhos, tomando entre as suas as minhas mãos, disse, com serenidade e voz

calma: Venho a esta hora porque sei, por experiência, que é ao entardecer que nós, mulheres,

somos assaltadas por pensamentos mais tristes e não quero que te sintas só. Era assim, também,

Maria Lamas, a combatente anti-fascista, batalhadora e corajosa, a da solidariedade activa, a da

palavra amiga e do gesto carinhoso no momento certo.”



De regresso a Portugal em 1969, na ‘abertura’ da Primavera Marcelista, espera-a ainda muita

actividade. O seu entusiamo com a Revolução de Abril, em 1974, trouxe-a para a rua, a desfilar no

1º de Maio ao lado da multidão. E uma das actividades mais importantes foi o seu papel central,

de novo em favor das mulheres portuguesas, na criação do Movimento Democrático de Mulheres,

de que foi eleita Presidente Honorária em 1975. A sua posição de Directora da revista ‘Mulheres’

criada pelo Movimento em 1978 representou, antes de mais, para Maria Lamas, o regresso à

imprensa feminina, onde a sua vida profissional começara.



Aos anos que se seguem chamei ‘Maria Lamas, uma Memória’. A

par das suas intensas relações com os amigos de toda a vida, que

a visitavam em Évora ou em Lisboa, em casa das filhas, sucedeu-

se um sem número de apelos à sua presença nos mais variados

eventos: conferências, visita a escolas, a fábricas, reuniões com

escritores, artistas, entrevistas na rádio, na televisão, em jornais.

De tal modo que se tornou difícil situá-la. Vivera? Vivia? Iria chegar ela mesma, em pessoa? Já não

estava connosco?

Em 1974 Maria Lamas e Elina Guimarães foram homenageadas no programa da RTP ‘Nome-

Mulher’, dirigido pelas jornalistas Maria Antónia Palla e Antónia de Sousa.

Em 1982 o MDM organizou em Lisboa uma exposição evocadora da vida e obra de Maria Lamas,

que ela visita, enquanto emocionadamente revisita a sua própria vida enquanto memória de

outros. E o concelho de Torres Novas emite, nesse ano, uma medalha em sua homenagem com a

sua efígie.



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Maria Lamas morreu em Lisboa em 1983, alguns dias depois de completar 90 anos.



Medalhas, evocações, nomes de ruas e de escolas, tapeçarias, desenhos, quadros e placas

comemorativas multiplicam a sua memória: das Mulheres Democratas do Barreiro, da Sociedade

Cooperativa Piedense, da Voz do Operário, do Coral Phydellius de Torres Novas, da Escola

Preparatória de Maria Lamas, no Porto, de muitas mais.



Em 1993, a Biblioteca Nacional de Lisboa comemorou o centenário do seu nascimento com uma

grande exposição do seu espólio literário e pessoal.

Em 2003 foi editada a sua primeira Biografia, escrita por Maria Antónia

Fiadeiro, e em 2004 o MDM organizou no Porto o Congresso ‘A memória,

a obra e o pensamento de Maria Lamas ‘, cujas intervenções foram

posteriormente editadas no livro com o mesmo título, coordenado por

Regina Marques. O reconhecimento cruza-se com a nossa memória

da vida e trabalho de Maria Lamas. Reconhecimento também feito

de gestos públicos: a medalha da Ordem da Liberdade, em 1980, que

recebe pela mão do Presidente da República, General Ramalho Eanes; a

primeira ‘Medalha de Honra’ do MDM, em 1982; e a ‘Medalha Eugénie

Cotton’, em 1983, da Federação Democrática Internacional de Mulheres.



Evocar Maria Lamas neste contexto é para mim motivo de profunda comoção, mas também de

honra, pela saudade que guardo da minha avó Maria, do seu nobre coração de mulher, da sua

profunda empatia com o sofrimento dos outros, do seu valente afrontamento do poder ilegítimo,

do seu feminismo que uniu homens e mulheres no mesmo abraço, da sua insaciedade em busca

do amor. Nesta revista de evocação das mulheres portuguesas da Diáspora, junto-me convosco,

como membro da comunidade científica e como parte dessa ‘metade da humanidade’ que nós,

mulheres, constituímos. E não sei qual dessas pertenças, que não consigo separar, me ditou mais

as palavras que aqui lhe dedico. Não importa. O registo de universalidade em que Maria Lamas

inscreveu a sua vida e o seu trabalho farão dela, seguramente, uma mulher sem tempo e sem

pertenças.



Lisboa, Novembro de 2012



( 1) Depoimento de Maria da Piedade Morgadinho na obra “A memória, a obra e o pensamento de Maria

Lamas” (pp. 137-138). Editado em 2004, em Lisboa, pelas Edições Colibri, com a coordenação de Regina

Marques.



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Olga Archer sobre Maria Archer

Os Caminhos até Maria Archer
Estávamos em 1899. Princípios de Janeiro. Já Inverno. Nascia, em Lisboa, a mais velha de uma prole
de seis – Maria Emília Archer Eyrolles Baltazar Moreira.
Maria Archer foi escritora, jornalista, conferencista, tradutora. Cedo, muito cedo, começou a
escrever. E cedo, muito cedo, tiveram início as suas idas e voltas até ao continente africano.
O seu primeiro artigo foi publicado no jornal “O Ocidental” em Moçambique, em 1913.
Em 1917, na Guiné, deu voz e alma à tertúlia Lides Literárias. Em 1918 publicou, ainda na Guiné, o
seu poema Desejo Mórbido e é reconhecida, ainda hoje, como a “poeta do exotismo”.
Estreou-se nas letras pátrias nos semanários “O Algarvio” e o “Correio do Sul”, ambos de Faro.
Maria Archer era admirada como a mulher mais bonita e, pelo menos, a mais cosmopolita de Faro.
O seu primeiro livro foi publicado em Angola, em 1935. Um livro de novelas e de contos intitulado,
Três Mulheres, em parceria com Pinto Quartim.
Escreveu sobre os seus ideais, sobre África, sobre a luta pela dignificação da mulher.
Reconhecida pelos críticos literários da época como “a revelação da literatura portuguesa de 1935,
com uma obra de linguagem rica, de uma perfeita plasticidade e de um colorido brilhante como só
grandes escritores sabem utilizar”, “Prosadora vigorosa, as suas histórias moldadas à maneira de
Maupassant, num estilo mais másculo que feminino abordam problemas ousados nas relações da
mulher com o homem e nas da situação daquela numa sociedade pouco afeita ainda a reconhecer
direitos iguais aos dois sexos.”.
Como recompensa, sofreu o isolamento e a discriminação da sociedade da época.
Viveu a revolta de ver alguns dos seus livros apreendidos. E, inconformada e perseguida, ruma até
ao Brasil em 1955. Regressa em 1979 a Portugal.
Mulher de horizontes, viajada e ousada, admirada por muitos e silenciada por alguns deixa-nos em
No crepúsculo da sua vida pairou o silêncio de um país e de uma sociedade.
Passados trinta anos após a sua morte vogam vestígios desta Mulher de inegável valor em alguns
municípios de Portugal apesar do esquecimento a que foi votada.
Almada, Almodôvar, onde em 1921 foi celebrado o seu casamento religioso, Amadora, Cascais,
Faro, onde viveu com seus pais, casou civilmente e mais tarde viveu com o seu afilhado e com o seu
marido, Alberto Teixeira Passos, Ferreira do Alentejo, Oeiras e Seixal, homenagearam-na,
discretamente, num quase anonimato, entre 1975 e 2010, marcando, de forma perene, as ruas dos
A mulher que não se escondeu atrás de pseudónimos permanece viva na memória destas
Agora, que escrevo sobre o passado e o reinvento pela palavra, não esqueço esse momento de
revelação destes lugares mágicos, descobertos, no encantamento de um entardecer.
Nada será mais autêntico do que, reencontrarmo-nos com Maria Archer, através das suas próprias
palavras “Confio na justiça do Tempo.”
Queluz, 20 de Novembro de 2012

Rita Gomes sobre iniciativas da OCPM

Durante o ano de 2012, a Obra Católica Portuguesa das Migrações - OCPM- voltou
a organizar várias Iniciativas, caracterizadas pela qualidade dos trabalhos apresentados e debatidos na área da as migrações
A «Associação de Estudos Mulher Migrante»  participou activamente nesses trabalhos, o que permitiu uma melhoria considerável de conhecimentos e um mais alargado mundo de contatos..
Salientamos:
- 21/01/12 – Sessão Solene de Abertura das celebrações dos 50 anos da fundação da
OCPM – Fátima.
 20 a 22 de Janeiro de 2012 «XII Encontros de Formação de Agentes
Sócio pastorais das Migrações», sobre o tema «Portugal entre a Emigração e a
Imigração». As Conclusões deste Encontro constituem um excelente documento de
trabalho. Participaram pela AEMM: a Drª Manuela Aguiar e a Drª Rita Gomes..
 02 a 06 de Julho de 2012  – Encontro Internacional da Pastoral de Migrações Celebrar a Memória para Projetar o Futuro. Foi feito o lançamento e a apresentação do livro «A Igreja Fase ao Fenómeno Migratório: 50 anos da Obra Católica Portuguesa das Migrações». O Livro é da Autoria da Profª Doutora Maria Beatriz Rocha Trindade, (VP da AG da AEMM), em colaboração com a Drª Eugénia Quaresma da OCPM.
Em 02/06/12  foi feita, com boa receptividade, a apresentação do projecto ASAS – Academias
Seniores de Artes e Saberes, pelas Drªs Manuela Aguiar e Rita Gomes, em Sessão
 presidida por Frei Salles Diniz.
De 02 a 04 de Novembro -  «Encontro dos Promotores Sócio Culturais das Comunidades
Portuguesas», que se realizou em Fátima, de 02 a 04 de Novembro de 2012. Uma organização da OCPM e Caritas Portuguesa, em parceria com a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas.
com  presença de representantes de 16 Países.
Pela «Associação de Estudos Mulher Migrante» participaram: a Drª Manuela Aguiar,
Drª Rita Gomes e a Drª Ana Paula Barros. A Drª Manuela Aguiar moderou o Painel I – Envelhecimento e apresentou o Projeto ASAS, designadamente.
Entre as Conclusões, destacamos a criação de uma Plataforma constituída por representantes: da OCPM nos diversos Países, por Associações de Portugueses no Estrangeiro e e outras Instituições em Portugal e noutros Países, nomeadamente, para o estudo da temática das Migrações utilizando, desde já, o Facebook. A AEMM propôs-se integrar esta Plataforma.

Rita Gomes

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

MARY GIGLITTO


Mary ensinou-me, por palavras e actos, que os portuguesas já nascidos no estrangeiro podem ser tão ou mais patriotas do que nós e melhor continuar uma história antiga de convivialidade no mundo.


O Festival Cabrilho, que não pode ser dissociado do seu nome, como uma autêntica "alma mater", é a evidência do seu querer e do seu "poder": se Portugal esteve e está no centro das Comemorações (através da Marinha, representada ao mais alto nível numa “cimeira” de altas patentes da Marinha de quatro países, que se juntam para homenagear o navegador), a ela isso se deve. E acho que até se lhe deve também o facto de Cabrilho, que, ao serviço de Castela " realizou a viagem de achamento da Califórnia, aí manter, intocada, a sua nacionalidade portuguesa - pois sem Mary, no terreno da disputa, o teriam, com toda a probabilidade, feito postumamente castelhano... (tentativas houve, mas não fizeram vencimento...)

História, cultura, comunidades portuguesas encontraram nela uma defensora (ou porque não dizer, uma "guerreira"?), que sabia ganhar as batalhas com as armas que cada ocasião reclamasse: irreverência ou diplomacia, confronto ou consenso... mas sempre com os argumentos da inteligência, da simpatia irradiante, da impetuosidade lusíada e de um sentido de humor muito americano,

A tese doutrinal da dupla pertença, da dupla nacionalidade, tem em Mary, na sua pessoa e na sua obra, a mais perfeita encarnação.

E porque era na América que vivia, Portugal tornou-se mais a sua causa, a sua missão!




Fernanda Ramos


Quando comparo Fernanda Ramos com as outras grandes líderes das comunidades ortuguesas, que fizeram história da nossa diáspora, impondo-se, como iguais, num universo de homens, tenho de a considerar um caso absolutamente atípico: é a única que começa por fazer a opção de se dedicar à família. Brilhante jovem engenheira formada pela Universidade de Coimbra, não chega a exercer a profissão: casa com um empresário português de Montes Claros, Minas Gerais, e torna-se a mãe de nove filhos!
Tem mão firme na excelente educação de todos eles - a mesma mão firme com que, depois de enviuvar, controla e expande os negócios de família, ao mesmo tempo que se envolve, cada vez mais, na vida da comunidade luso-brasileira em Montes Claros, em Belo Horizonte, e, logo depois, no Brasil inteiro, através de um percurso fulgurante no movimento elista, e em Portugal, onde viria a ser a trave mestra da criação da Associação de Estudo Mulher Migrante.
Conheci a Fernanda há mais de 30 anos, num convívio do Centro Português de Belo Horizonte. Gravei na memória o momento, o gesto cerimonioso com que me presenteou com uma placa do Elos clube - figura magestosa de matriarca, num elegante fato de linho brasileiro...
Não podia, então, imaginar que, alguns anos depois, a encontraria muitas vezes na qualidade de presidente do Elos Clube Internacional, a primeira mulher eleita como nº 1, na cúpula do "Elismo",  ao serviço do ideal do fraternalismo no mundo luso-brasileiro. Uma presidência histórica, que, a meu ver, nunca mais seria igualada. Quem poderia rivalizar com a sua determinação e energia, com a sua paixão pelo Brasil e por Portugal, com aquela visão larga das coisas e profunda das pessoas, de quem sabia exigir e conseguir o melhor?
Não podia, nesse primeiro encontro, antever que a havia de chamar "a mãe brasileira", porque me sentiria, na afeição, como me sinto, agora, na saudade, uma filha mais.
Foi como Mãe, Mãe muito  forte, corajosa e exultante, que Fernanda fez a sua caminhada pela vida, abraçando causas e pessoas.
Melhor do que nas minhas palavras a vejo retratada nestas estrofes de um poema da sua grande amiga Cèly Vilhena, da Academia de Letras de MG
Entre, Fernanda, vem ver seu espaço
neste céu iluminado, seu conhecimento
 inato - lutou, sofreu, amou
cuidou dos seus e de outros com o
carinho de poucos, com a grandeza dos eleitos 
Do seu mundo, as caravelas sairam de Portugal
 
João F. Santos
Um português no Canadá/Toronto
Em Parceria entre a Universidade Aberta – CEMRI – Centro de Estudos das Migrações
e das Relações Interculturais, através da sua Coordenadora Profª Doutora Ana Paula
Beja Horta – e a «Associação de Estudos Mulher Migrante», a pedido do Autor João F.
Santos, foi lançado o seu livro “Canadá é o meu país, Portugal a minha Pátria”, no dia
12 de Setembro de 2012, no Palácio Ceia – Lisboa.
O Livro foi apresentado pela Profª Doutora Ana Paula Beja Horta, Mestre Aida Baptista
e Drª Rita Gomes. Estiveram presentes: Familiares, Amigos e alguns Orgãos da
Comunicação Social
O Senhor João F. Santos, no seu Livro, conta-nos em pormenor a sua “História de
Vida”. Quem dera que outras /outros o tivessem feito, dando assim uma contribuição
positiva para a tão desejável “Memória” das comunidades portuguesas.
O titulo do Livro revela desde logo, o sentir de um cidadão português que não
esqueceu a sua origem e que se sente bem no novo Mundo que escolheu, como
ele próprio refere, para encontrar a sua felicidade, e onde sabia poder usufruir de
melhores oportunidades.
Trata-se de uma pessoa determinada que sabe o que quer e que procurou o seu
percurso passo a passo, utilizando e melhorando sempre os seus conhecimentos:
profissionais e a nível de estudos.
Preparou a sua ida para o estrangeiro, cuidadosamente, decidiu, por exemplo que só
iria legalmente e a saber a língua do país de destino, condições essenciais para o
sucesso.
Em 1960, com 25 anos estava no Canadá. A nível da sua personalidade, salientamos
que queria voltar a Portugal para pagar a dívida que cá deixara, a fim de poder
emigrar. Mas ... havia também outro motivo que o trouxe ao nosso País – encontrar
uma noiva portuguesa.
Estávamos, então em Dezembro de 1962 – veio no paquete Vulcania (símbolo da ida e
vinda de tantos portugueses e de outros estrangeiros).
Não se espantem! Na altura era assim: as Mulheres disponíveis, no Canadá, para
casarem não abundavam. Contraiu matrimónio com uma portuguesa - Senhora Dona
Maria da Conceição Santos, em 1963 – de quem tem 2 filhos – e que, em conjunto,
muito contribuiu para os êxitos do marido e naturalmente do casal e restante Família.
Consegue licença de agente imobiliário. Em 1971 já era, solicitador. Passou a Corretor
e a proprietário de uma agência imobiliária.
A nível da Comunidade Portuguesa, é de salientar a sua excepcional participação
no «First Portuguese – Canadian Club of Toronto», como sócio desde 1971 e até
1978, exercendo cargos dirigentes ao mais alto nível, durante 4 mandatos anuais. O
Clube passou a ter um edifício fantástico a partir de 11 de Outubro de 1973, durante a
gerência do Senhor João F. Santos.
Apoiou os seus compatriotas dos Açores que, em 1973, sofreram o terramoto.
Desenvolveu também actividades noutras organizações luso – canadianas: foi
criada a Câmara de Comércio Portugal Canadá, em Edminton, (1996), pertenceu ao
Conselho Consultivo do CIRV Rádio e apoiou a criação do «Real Museu Histórico Luso
Canadiano» (07/03/2009). Pertenceu e pertence ao «Orfeão Stella Maris».
Quanto ao seu envolvimento político: pertenceu ao Partido Liberal. Foi nomeado para
o Conselho Consultivo Canadiano sobre o Multiculturalismo, estava ligado a Pierre
Elliot Trudeau. Quase chegou a Senador, mas a política não permitiu.
Este é o percurso, embora em síntese, de um grande Senhor, o Comendador João
F. Santos, um português da Diáspora – Toronto / Canadá, a quem deixamos, nestas
palavras, em nome da «Associação de Estudos Mulher Migrante», a nossa homenagem
e agradecimento pelo magnífico trabalho em favor de Portugal, dos Portugueses e no
Canadá.
Desejamos-lhe a continuação de muitos êxitos!
20 de Novembro de 2012

terça-feira, 20 de novembro de 2012

SIMPÓSIO Rosa dos Ventos - Portugês nos Quatro Cantos do Mundo


Manuela Bairos e Maria Manuela Aguiar participaram no II Simpósio Internacional "Rosa dos Ventos O Português nos quatro cantos do mundo", que, comemporava 65 anos de ensino de Português na Universidade de Toronto. Com uma excelente organização da Profª Manuela Marujo e da sua equipa e intervenções, nomeadamente, do Professor Malaca Casteleiro, da Presidente do Instituto Camões, do Cônsul de Portugal, Dr Júlio Vilela e de conferencistas brasileiros, contando com a presença de alunos da Universidade e de membros da comunidade portuguesa, o simpósio decorreu nos dias 28 e 29 de Setembro.
No painel dedicado ao tema "A língua portuguesa e a Diáspora" , moderado pelo Cônsul Geral Júlio Vilela, Manuela Bairos falou sobre "A diplomacia da língua portuguesa e a Diáspora" e Manuela Aguiar sobre " Histórias de vida" - ASAS para voar - lançamento do projecto na Diáspora portuguesa" (Academias Seniores de Artes e Saberes)
No final dos trabalhos, Manuela Bairo e um grupo de participantes do simpósio visitaram o Museu Português de Toronto, enquanto Manuela Aguiar partiu para a festa do 56º aniversário do First Portuguese Canadian Cultural Centre, onde teve ocasião de se dirigir aos presentes, enaltecendo a acção do First nos vários domínios em que foi pioneiro, mas, muito em particular, co campo da acção para os mais idosos, qualificando o seu Centro de III Idade, como uma verdadeira universidade sénior, em pleno funcionamento.
No dia 30, antes do regresso ao Porto, Manuela Aguiar esteve na Casa dos Açores com Virgílio Pires e com Manuela Marujo e Aida Baptista, que aí realizaram a primeira das actividades do projecto ASAS em Toronto - uma aula sobre escrita criativa, com enfoque no tema narrativas de vida: "Minha vida numa moldura". Um sucesso, que se espera tenha continuidade ao longo dos próximos meses.

Síntese da Intervenção de Maria Manuela Aguiar
Manuela Aguuiar começou por referenciar os esforços da Associação a que pertence, e, antes disso, até dos seus próprios projectos na Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, para promover a recolha de narrativas de vida de emigrantes, como embrião de um futuro Museu das Migrações. Um Museu cujo primeiro património seria a história das pessoas e das instituições de que se são formadas as comunidades portuguesas, em sentido orgânico - uma forma ideal de fazer a história das migrações, como parte da história da Nação portuguesa - guardando a riqueza. das singuralidades de experiências individuais imersas na grande vaga dos movimentos de expatriação e de retorno,
O Museu da Emigração sueca , em Vaxö , com os seus registos de milhares de imagens e de entrevistas de gente comum foi o modelo inspirador do Fundo Documental e iconográfico das Comunidades Portuguesas, criado na primeira metade da década de 80, (no âmbito do Instituto de Apoio à Emigração e às Comunidades Portuguesas), para proceder à recolha de imagens e de contributos de investigadores e dos próprios emigrantes, e à sua publicação, mas o "Fundo" acabou por não ter continuidade.
Manuela Aguiar não escondeu as dificuldades com que tem deparado os projectos da Associação de Estudos Mulher Migrante, que se enquadram no mesmo tipo de preocupações - incluindo o que está em curso, com a denominação de "Ateliers da memória" . Resultados concretos foram obtidos no Rio de Janeiro, onde a Directora do Jornal "Portugal em Foco" Benvinda Maria impulsionou uma publicação com narrativas de vida de cerca de 120 mulheres portuguesas e luso-brasileiras e na região de Buenos Aires está em curso um projecto semelhante, encabeçado pela Associação Mulher Migrante Portuguesa da Argentina.
Segundo Manuela Aguiar o próprio projecto da criação de Academias Séniores de Artes e Saberes foi desde o início visto como um meio de incentivar a recolha das narrativas, pela via da oralidade ou pela escrita. Essa é a única matéria que se coloca como prioritária no programa de funcionamento das "Academias" tudo o mais sendo deixado ao critério de cada organização, por se entender que só cada um dos interlocutores saberá como adaptar o paradigma das chamadas universidades sénires às características do associativismo local .Mais importante do que o número inicial de participantes, o número de cursos ou actividades. a própria designação que cada iniciativa tome, é que se vá num crescendo de participação, que signifique mobilização dos mais velhos para o intercâmbio de saberes, para o convívio, lúdico e útil, para o aumento da auto-estima. Para que se sintam cidadãos que ainda podem dar muito de si aos outros, à sua comunidade Para que possam ajudar a combater a tão falada decadência de boa parte das associações portuguesas.
Somos quatro alunas do Ensino Secundário da Escola SecundáriaDr. Manuel Laranjeira e no ano passado, lermos pequenos excertos de algumas obras da célebre autora Maria Lamas.
Nenhuma de nós conhecia esta escritora e interveniente política, porém, foi interessante conhecer a sua história e personalidade convicta e determinada. Embora a história não tivesse sido contada na primeira pessoa, contámos com a ajuda da sua neta e historiadora que muito contribuiu para que o público desta sessão conhecesse várias histórias e acontecimentos da época.
Entre o final do século XIX e início século XX a situação das mulheres agravou-se, pois a sua participação no mundo do trabalho assumiu novas exigências. Contudo, continuavam a ser discriminadas tanto na vida política e económica como no direito ao voto e o acesso à instrução. Foi aqui que Maria Lamas tentou alterar o modo como as mulheres eram vistas na sociedade, tornando-se uma ativista política feminista portuguesa. Era de facto uma mulher com um objetivo bem definido para os seus princípios e ideias exatas.
Por outro lado, nós portuguesas podemos ser grandes em tudo aquilo que fazemos. E Maria Lamas foi um ótimo exemplo na medida em que demonstrou ser uma mulher de garra capaz de enfrentar tudo e todos com um único objetivo: ser feliz e deixar que as mulheres portuguesas também o
pudessem ser. Esta célebre escritora teve uma palavra de ordem, a palavra que nos uniu a todas para lutar pelos nossos direitos. E é assim que na atualidade podemos caraterizar a autora com uma personalidade admirável, lutadora, intensa e generosa. E, embora tenha sido forçada a abandonar o
país, teve a capacidade de continuar a sua luta numa tentativa de educar as mulheres e as crianças a serem algo melhor, através daquilo que ela melhor sabia fazer: escrevendo.
Apesar de Maria Lamas ter sido uma mulher muito à frente do seu tempo, ao contrário de muitas outras personalidades que à sua semelhança também o foram, não é na atualidade estudada pelos mais jovens nas escolas, podendo mesmo dizer-se que são poucos aqueles que na nossa geração
conhecem Maria Lamas e sabem o que esta senhora fez pelo Mundo do seu tempo e o quanto batalhou para que este mudasse. Por isso, todas nós, agradecemos o facto de nos terem dado o prazer de conhecer esta fantástica senhora.
Por fim, fazemos todas um balanço muito positivo desta sessão, já que ficámos a conhecer uma personalidade da nossa história que teve grande importância na vida das mulheres da sua época e que veio a repercutir-se no futuro. As suas palavras foram uma salvação da mentalidade que pouco a
pouco foi modificando para melhor, e Portugal tem muito que agradecer a esta corajosa mulher e a muitas outras que seguiram este exemplo. E não podemos esquecer: devemos sempre lutar pelos nossos sonhos e também ajudar os outros a realizarem os seus, lutando da mesma forma como Maria Lamas lutou - com garra, fé e acima de tudo, com amor. Porque ela nunca duvidou: “ os meus problemas eram os problemas de todas as mulheres, embora alguns revestissem, para cada uma, aspetos diferentes"- Maria Lamas.

Ana Rita Monteiro 11ºG
Ana Sofia Pinto 11ºA
Joana Faria 11ºA
Maria Teresa Castro 11ºA

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Introdução - nova revista









MALICE

Maria Alice, jornalista e directora do mais antigo jornal de língua portuguesa em Toronto era uma Mulher de cultura, de Letras e de causas, com um intenso interesse pelas coisas da política, tanto nacional, como canadiana e mais ainda pelas da sua comunidade. Sempre pronta a conversar à mesa do café, ou ao telefone, como se o tempo que perdia connosco, não o fosse gastar em noitadas de porfiado trabalho.
Sim, havia o seu “quê” de excessivo na personalidade de Maria Alice – mas todos os seus excessos eram virtuosos (salvo o de ser fumadora inveterada): excesso de generosidade, de voluntariado, de cuidado com o detalhe, com o sucesso de todas as vertentes de uma acção, que a fazia uma parceira mais do que fiável, infalível, em qualquer iniciativa conjunta. As suas organizações tinham o rigor de um relógio suíço, a par de um entusiasmo e uma emotividade muito à portuguesa. Amigos não lhe faltavam, Sabia escolhe-los na perfeição, e pô-los a trabalhar para o “bem comum”. Foi através dela que conheci o filantropo Virgílio Pires, o Manuel Leal (que ela achava “esquerdista” – que exagero! …) ou o Laurentino Esteves, o jovem promissor, que tratava como um segundo filho.
Só ela me faria estar numa passagem de ano em Toronto (porque para além da minha família portuguesa, achava que eu tinha obrigações para com a minha vasta família de afectos luso-canadiana…). E não nos limitamos a confraternizar em duas ou três festas de associações, mas em quatro ou cinco, umas visitadas no ano que findava e outras já no ano seguinte,,, No meio de um nevão que cobria os passeios, onde se afundavam os nossos sapatos de salto alto. Coisa benigna, quando comparada a uma ida de Toronto a Kingston, que durou horas e horas, sob sucessivas tempestades de neve, com o Virgílio Pires firmemente ao volante do seu Cadillac, que resvalava aqui e ali, mas sempre sem perder o rumo…. E, depois de cumprirmos na íntegra o programa – visita à Igreja portuguesa, encontro no clube, entrevistas à rádio e à televisão e jantar como Mayor – regressamos à aventura de mais umas horas de condução exímia do Virgílio, sob a fúria da intempérie. Em ininterrupta e divertida conversação a três, naturalmente… Com Malice não havia silêncios nem tempos mortos, era assim, cheia de energia, de ideias e de projectos, que levava por diante contra todos os obstáculos, fossem os da natureza ou os dos seus opositores - que nunca a venceram nem convenceram...
O que a movia? Julgo que era, antes do mais, o portuguesismo, a vontade de defender a cultura portuguesa na imensa panóplia de culturas conviventes no Canadá e também o inconformismo face às práticas e tradições que desvalorizavam o modo de ser feminino.
O Correio Português era o jornal da Maria Alice e do António Ribeiro, numa paridade completa, pragmática e eficaz. Mas para Malice, como os amigos lhe chamavam, o jornal foi mais do que um jornal bem gerido e bem escrito. Com ele deu voz à comunidade, fez a história da comunidade, mas também soube ter voz própria e ser protagonista de primeiro plano na construção de um universo luso canadiano que não parava de crescer, após o início das migrações em massa dos anos 50.
Do seu pioneirismo no campo da escrita e do jornalismo ao seu pioneirismo na representação dos emigrantes no Conselho das Comunidades Portuguesas, desde os anos 8o até ao último dia de uma luta contra grave doença, fica a força de um exemplo de vida, Fica a memória da fase primordial da emigração portuguesa no Canadá, em páginas e páginas do seu "Correio". E fica, também, à espera dos investigadores que o possam tratar e divulgar, um precioso arquivo fotográfico, recolhido no Museu Português de Toronto, graças a uma intervenção atempada de Virgílio Pires.
Na verdade, Malice tinha sempre à mão, para além do inevitável maço de cigarros, a sua máquina fotográfica de profissional...Nesse arquivo, está, em imagens, muito do passado português em Toronto – cabe agora ao “Museu” revela-lo, valorizando-se.
E, por fim, numa revista que fala de mulheres na diáspora não poderíamos esquecer que a ela se deve a proposta para a realização do “1º Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas no Associativismo e no Jornalismo”, em 1985. Esse seu gesto é, de algum modo, o precursor da longa caminhada, em que andamos, e em que a sua memória nos acompanha.

Maria Manuela Aguiar