sábado, 25 de agosto de 2012

Saudades de Maria Archer

Para uma associação de estudos sobre as mulheres no universo da emigração, como é a nossa, Maria Archer é certamente uma personalidade inspiradora, que convida à pesquisa, à reflexão e ao diálogo. Esta não é, devo dizer, a primeira das iniciativas em que ela ocupa um lugar central. Começamos por evocar Maria Archer no Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora, em Novembro de 2011, justamente porque nesse congresso pretendemos partir da história da emigração no feminino, traçando, por um lado, as linhas de evolução de mais de um século de migrações portuguesas, com participação crescentes de mulheres, e, por outro, dando-lhes visibilidade, não só mas também, numa área em que podemos considerar que têm estado, pelo menos,  tão presentes como os homens: o domínio da Cultura, do ensino da Língua, das Letras e das Artes. 
Por ambos os caminhos, os da História e os da Cultura, encontramos Maria Archer.
Seguidamente,  voltou a ser figura de cartaz na comemoração do Dia Internacional da Mulher.  Uma "entrevista imaginária" com a grande escritora, protagonizada  por jovens das Escolas de Espinho, deu a esse evento  simples e didáctico um toque singular e comovente... 
 E agora, aqui, em Lisboa, nesta sessão que nos reúne no Teatro Nacional da Trindade, contámos de novo, com a força do seu pensamento e ideais, na evocação tão bem  conseguida em sucessivas intervenções sobre a sua  vida e obra  - e  num  espaço esplêndido, no salão onde ela própria esteve muitas vezes, com muitas pessoas do seu círculo íntimo de família e de convívio, e com a presença e a palavra, tão honrosas para nós e tão prestigiantes para a sua memória, da Drª Maria Barroso e do  Presidente Mário Soares, símbolos da luta vitoriosa pelo Portugal que ela sonhou, em liberdade, em democracia! 
Mais um reencontro com Maria Archer... 
Razões não nos faltam para  justificar o empenhamento cívico com que a fazemos, assim, companheira de jornadas sobre as temáticas de género, no contexto das migrações.  Ela foi, de facto, uma grande Portuguesa da Diáspora. Sê-lo-ia, em qualquer caso, como intelectual, jornalista, romancista, mas foi - o, igualmente, como verdadeira precursora na  pesquisa e divulgação de usos e costumes dos povos com os quais se viu em contacto.  
Primeiro em África, muito jovem, a acompanhar os Pais por terras do "Ultramar", depois, já sexagenária, no exílio brasileiro,  passou largos anos em cinco países da lusofonia, dispersos em  3 continentes,  sempre atenta ao que acontecia em seu redor, com uma inteira compreensão das pessoas, dos ambientes, dos meios sociais, que  soube traduzir em dezenas de escritos de incomensurável valor literário e de enorme interesse etnológico, sociológico e político.... Seria motivo bastante para nos lançarmos na aventura de partir à descoberta desse legado multifacetado e vasto, que, num estado de quase hibernação, guarda  experiências e segredos de tantas gentes, vivências, situações...
  Mas há mais... 
Maria Archer é uma daquelas figuras do passado, que é intemporal, por saber captar as constantes da natureza humana.  Mas é também testemunha, memória crítica de um tempo português, opressivo e cinzento, pautado por estreitos conceitos e por regras de jogo social e político, que inteligentemente desvenda e põe em causa, sem contemplações. 
Ninguém como ela retrata o quotidiano desse Portugal estagnado e anacrónico, avesso a qualquer forma de progresso e de modernidade,  em que os mais fracos, os mais pobres não têm um horizonte de esperança, e as mulheres, em particular, são  dominadas pela força das leis, pelo cerco das mentalidades, pela censura dos costumes, depois de terem sido deformadas pela educação - tendo por pano de fundo as regras impostas para o relacionamento de sexos, a entronização rígida dos papéis de género dentro da famílias e as consequentes desigualdades, distâncias e preconceitos sociais, o doloroso e longo impasse de uma sociedade fechada ao curso da História, que acontecia na Europa e por esse mundo fora. 
Maria Archer vai dar vida às portuguesas suas contemporâneas, revelando-as tal como elas são, com um realismo, que é, sem dúvida (e quer ser) uma busca e uma evidência da verdade - doa a quem doer e  para que se saiba... Então e no futuro.  Nos seus "apontamentos de romancista", ( em "Eu e elas", em que se nos revela ela própria,  com um fino sentido de humor e toda a "joie de vivre" )) confidencia-nos : "O meu trabalho neste livro foi quase o de um artista plástico. Moldei a obra sobre o modelo vivo". Fica-nos a impressão de que não foi, para ela, experiência única - bem pelo contrário... E até que ponto  se projecta, por simpatia ou por contraste, nas figuras de mulheres que cria ou recria?
A mais feminista das escritoras portuguesas, é, seguramente, no que podemos considerar a melhor "tradição nacional", uma "feminista muito feminina", que ousou ser um ícone de beleza, ter uma carreira no jornalismo e  nas Letras, fazendo, em simultâneo, combate pela dignidade  e pela  afirmação das capacidades intelectuais e profissionais negadas à mulher comum..
 Ousou fazer um nome no mundo fundamentalmente masculino da cultura portuguesa. 
 Ousou ser Maria Archer, sem pseudónimos...
Na verdade, por tudo isto, julgo que podemos dizer que ela é mais do nosso tempo do que do seu tempo - aliás, uma afirmação que se deve generalizar às mais notáveis feministas do princípio do século XX, que dão rosto à exposição da Câmara Municipal de Espinho, há pouco, inaugurada aqui, nas salas e corredores do Teatro da Trindade.
Maria era, então, demasiado jovem para poder participar nos movimentos revolucionários, em que estiveram envolvidas a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, mas iria ser uma das poucas  que, no período de declínio desses movimentos e de desaparecimento de uma geração incomparável, continuou, a seu jeito, solitariamente, uma luta incessante contra o obscurantismo, que condenava a metade feminina de Portugal à subserviência, à incultura, ao enclausuramento doméstico.
 Maria Archer foi uma inconformista, consciente das discriminações e das injustiças, em geral, e, em particular das  que condicionavam o sexo feminino, numa sociedade  retrógrada e fundamentalista, como se diria em linguagem actual. A regressão às doutrinas e práticas de um patriarcalismo ancestral é imposta pelo próprio regime, contra o qual se revolta, naturalmente...
A escrita, servida pelos dons de inteligência, de observação e de expressividade.  foi  para ela uma arma de combate  político. Como dizia Artur Portela, "a sua pena parece por vezes uma metralhadora de fogo rasante". 
É um combate em que a sua vida e a sua arte  se fundem - norteadas por um ostensivo  propósito de valorização dos valores femininos, de libertação da mulher e, com ela, da sociedade como um todo.
É já uma Mulher livre num país ainda sem liberdade - coragem que lhe custou o preço de um  tão longo exílio ...
 Maria Archer é uma grande escritora (ou um grande escritor, como alguns preferem precisar, alargando o campo das comparações possíveis). E pode ser lida apenas como tal. Mas permite - nos também diversas outras leituras - para além da literária, a sociológica, a etnológica, a feminista...
 Ninguém. como ela , escrutinou e caracterizou o pequeno mundo da sociedade portuguesa da primeira metade do século XX, das famílias, pobres ou ricas, decadentes ou ascendentes, aristocráticas, burguesas, "povo" . Mulheres e homens,  todos  imersos na nebulosa de preconceitos de género e de classe, de vaidades, de ambições, de prepotências e temores...
"Aurea mediocritas", brandos costumes implacáveis... o mundo de contradições  de um Estado velho, que se chamava Estado Novo.
 Uma leitura feminista:  ninguém conseguiu, como ela, corroer essa imagem da "fada do lar", meticulosamente construída sobre as ideias falsas da harmonia de desiguais (em que, noutro plano, se baseava a ideologia corporativista do regime), da brandura de costumes, assente no autoritarismo e subjugação  ao "pater familias" no círculo pequeno do lar, ou ao ditador paternalista no do País inteiro. 
Maria Archer é uma retratista magistral da mulher e da sua circunstância... O rigor da narrativa, a densidade das personagens, a qualidade literária, só podiam agravar, aos olhos do regime, a força subversiva da  denúncia.  
Os poderes constituídos não gostaram desses retratos de época, como não gostavam da Autora. Primeiro, tentou desqualificá-la, desvalorizando-a. Sintomática a opinião de um homem do regime, Franco Nogueira, que em contra-corrente, num texto com laivos misóginos,  a apresenta como apenas uma mulher a falar de coisa ligeiras e desinteressantes (por tal entendendo a realidade do destino das mulheres, coisa para ele tão sem importância....). Sintomático também que a crítica seja divulgada pela própria editora da romancista. a par de tantas outras, todas de sentido oposto.
Não tendo conseguido os seus intentos, o Poder passou à acção: livros apreendidos, jornais onde trabalhava ameaçados de encerramento... Maria Archer viu-se forçada a partir para o Brasil - uma última aventura de expatriação, de onde só retornaria, doente e fragilizada, para morrer em Lisboa.
Porém, o desterro não seria pena bastante. Teresa Horta, no prefácio da reedição de "Ela era apenas mulher"
afirma que Maria Archer foi deliberadamente apagada da História. Ser emigrante é já factor de esquecimento, regra geral inevitável, na memória da Pátria. Mas o seu caso foi mais grave, deliberado, doloso. - embora, do nosso ponto de vista,  não definitivamente encerrado. É ainda bem possível combater esse acto persecutório, executado há décadas, restituindo à obra de Maria Archer o espaço que lhe é devido no mundo eterno da  cultura portuguesa...
Revisitar a Mulher de Letras, através dos seus escritos, tem, da nossa parte, este objectivo de desocultar o passado e lançar luz sobre a realidade insuficientemente analisada e realçada da sociedade portuguesa de 40 e 50.  E é também um momento mágico de deparar com Maria Archer, de percorrer com ela as páginas fulgurantes dos seus livros, artigos, crónicas. A elegância do seu estilo tempera o realismo, o "élan" dramático da narrativa e torna, afinal, sempre um prazer acompanhá -la nas incursões pelo universo bafiento e confinado em que se cruzaram e confrontaram as portuguesas e os portugueses durante meio século. Em que as personagens femininas raras vezes cumpriram as suas capacidades e os seus sonhos (mesmo que modestos). E em que os enredos quase nunca têm um final feliz  - ou justo...

Elegância é uma palavra que quadra com Maria Archer, que a caracteriza na maneira como pensou, como escreveu, como se vestiu e apresentou em sociedade, como atravessou uma rua de Lisboa ou de São Paulo, como atravessou uma vida inteira, até ao fim...
Fim não será a palavra mais apropriada...  Estamos aqui justamente unidos pelo projecto de lhe assegurar uma segunda vida, absolutamente ao nosso alcance, porque "existir não é pensar, é ser lembrado", como dizia Pascoaes.
Esta não é o primeira nem será a nossa última reunião sobre ela, o seu exílio, o seu retorno... Talvez a próxima aconteça em São Paulo... sobre o seu legado ou a sua pessoa  - qual deles o mais interessante?
A pessoa é certamente tão fascinante como a mensagem da escritora. E ainda mais desconhecida.
Mas só assim continuará por omissão nossa, porque ela está lá, eternamente jovem e vibrante, nas páginas que nos deixou escritas.
Dizia a Mariana desse romance paradigmático que é  o "Bato às portas da vida": "ando na saudade de mim, mesmo perdida no tempo"
E nós andamos na saudade de Maria Archer, perdida mas  reencontrada no nosso tempo, que esperamos seja o do  início do  correr interminável do seu tempo futuro..

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Sobre as Academias do Bacalhau

As Academias de Bacalhau estão hoje espalhadas no mundo, como
verdadeiros padrões de presença portuguesa, cumprindo uma  vocação
matricial de convivialidade, que vem marcando o seu trajecto  de
várias décadas, sempre a irradiar alegria, a expandir a nossa cultura
e os nossos costumes, a oferecer solidariedade a quem precisa.
A ideia que lhes deu origem é, em si mesma, uma ideia felicíssima e
singular: partir de uma simples tertúlia de amigos, reunidos num
almoço habitual, e juntar-lhe - numa fórmula que faz toda a diferença
- as componentes essenciais da cultura e da beneficência.
Mas por muito interessante que fosse este "achado", ao colocar uma
forma de associativismo lúdico ao serviço dos mais nobres objectivos
da sociedade, os seus autores não terão, com certeza, imaginado a
assombrosa aventura humana em que haveria de se traduzir!
O mundo da Diáspora portuguesa era formado por um sem número de
comunidades engendradas pela mesma vontade de preservar a
identidade nacional e de conservar os laços afectivos de ligação à Pátria, mas
que, não obstante o que as unia, permaneciam distantes e
incomunicáveis entre si.
Era preciso dar um passo em frente para formas mais englobantes de cooperação
 entre  instituições congéneres, entre Portugueses dispersos no espaço
geográfico
 dos cinco continentes. Uma meta que, face à experiência do passado, parecia
inatingível. Seriam os portugueses, ao invés de tantos outros povos
europeus da emigração, definitivamente, avessos ao envolvimento num
amplo movimento de
convergência? As Academias do Bacalhau  vieram  provar que não. Ao longo
de mais  de quatro décadas, mostraram tanto uma enorme capacidade plástica
 de se moldarem à situação e características das sociedades em que se inseriam,
como uma surpreendente facilidade de vencer as distâncias geográficas,
estabelecendo
 a ligação permanente entre todas, pontuada por congressos mundiais,
que juntam centenas
 e centenas de "compadres", em sessões de trabalho e em convívio fraterno.
Do acolhimento se encarrega, com invariável eficiência, a Academia anfitriã.
Este movimento converteu-se, assim, em paradigma de diálogo e articulação de
projectos a nível intercontinental, e é também o único actuante, em simultâneo,
com o mesmo espírito e as mesmas regras, na Diáspora e em Portugal.

E pensar que tudo começou, em Março de 1968, num restaurante de Joanesburgo,
durante um almoço oferecido por quatro amigos a Manuel Dias, o mítico
jornalista
portuense!
 Aí surgiu a ideia, segundo nos conta o fundador e presidente
honorário das Academias,
Dr. Durval Marques. Depois, os quatro (Dr. Durval Marques, Eng.º José Ataíde,
Ivo Cordeiro e Rui Pericão) suscitaram adesões e trabalharam em
conjunto para dar
configuração ao projecto, definindo os princípios informadores, as
particularidades
 e formato original da futura agremiação. A Academia do Bacalhau de
Joanesburgo seria
 lançada logo a 10 de Junho desse ano, durante a primeira grande
comemoração do Dia
Nacional na capital do Gauteng. Estava bem gizada e pronta a dinamizar acções
mobilizadoras em seu redor, com o seu exemplo, promovendo,  a disseminação das
Academias em outras cidades.
A designação "Academia"  não tem conotações elitistas - as regras  de tratamento
 no seu interior excluem, aliás, o uso de quaisquer títulos
universitários ou profissionais -
antes apela à camaradagem, à união, sem excluir a dose certa de
irreverência, que quadra
na perfeição com  as praxes e rituais adoptados, a fazerem lembrar os
das nossas
organizações académicas, sobretudo as do Porto, do Orfeão
Universitário,  de onde vem
 o "gavião de penacho", que se canta em coro, em momentos altos.
A "Academia-tertúlia" não tem sede, o seu património são as pessoas, que podem
 reunir em qualquer lugar, à volta de uma mesa de restaurante, em
frente a um prato
 de bacalhau, "o fiel amigo". A focagem na amizade revela-se, igualmente,  na
denominação de cada um dos seus membros: " compadre",  sinónimo de "melhor
amigo", aquele que se convida para padrinho dos filhos. Ali não há
"doutores" todos se
tratam, familiarmente, por "compadres". As suas mulheres, as chamadas
"comadres", desde sempre, estiveram presentes nas festas especiais,
como convidadas,
não inicialmente como sócias.
Este é um aspecto que não gostaria de omitir, e que, do meu ponto de
vista, deve ser
situado no seu contexto histórico. A génese da tertúlia de Joanesburgo
explica "de per si"
 o "porquê" da estrutura ser, na origem, exclusivamente  masculina, e
afasta a hipótese de
qualquer intenção deliberadamente discriminatória: eram os homens que
conviviam, entre si,
na pausa de trabalho, ao almoço. As mulheres, simplesmente, não estavam lá, não
partilhavam o mesmo círculo de actividades ou de camaradagem
profissional.  Por isso,
quando essa factualidade se alterou, com as mulheres a surgirem, lado
a lado, com
os homens no campo profissional ou associativo, foram sendo admitidas,
  em muitas das Academias, como filiadas de pleno direito, e logo as vimos
 em lugares de direcção ou  mesmo na presidência, por exemplo, em
Toronto, na Nova
Inglaterra, em Brasília.  O que não tem paralelo em outros ramos do
nosso associativismo
mais antigo e tradicionalista.
Refiro-me ao acesso em massa das mulheres, que aconteceu,
primeiramente,  em países,
onde a igualdade de género era mais conseguida. Mas, de facto, a
título excepcional,
algumas senhoras haviam sido, muito antes, admitidas, como membros da
Academia Mãe de Joanesburgo, mulheres de Artes, de Letras, como Amália
Rodrigues (a primeira de todas), Vera Lagoa, Graça Sousa Guedes, ou
oriundas da política, como eu mesma. Aceitei, com entusiasmo, esse
estatuto por um lado, porque
estava ciente da importância de abrir precedentes e confiava  na
capacidade de ajustamento
 daquele modelo organizacional a uma realidade em evolução, (não só,
mas também, no
que respeita à colaboração igualitária de mulheres e homens) e, por
outro lado, porque
 admirava as Academias e acreditava nas suas virtualidades de fazerem
coisas cada vez mais
 extraordinárias.

 O  lugar ímpar e cimeiro a que as Academias ascenderam no universo da
emigração,
 ficou, evidentemente, a dever-se à qualidade dos seus dirigentes. Tanto os
pioneiros, como os que lhes sucederam eram (são!) líderes de larga visão,
conhecedores da importância de conjugar esforços para consolidar e engrandecer
verdadeiras comunidades em terra estrangeira. Sabiam bem que estas
podem datar o
seu nascimento e formação do início do associativismo.  Podem mesmo, a meu ver,
sintetizar a sua história  numa glosa lapidar: "Associo-me, logo
existo".   Este poder criador
 e estruturante de comunidades, em sentido orgânico, está, de há
muito, estudado e definido
  e é corrente distinguir,  de acordo com as finalidades principais,
as instituições
de assistência e solidariedade, as agremiações de fins culturais, os
clubes e centros
 e recreativos. Todavia, as Academias do Bacalhau escapam a essa
divisão clássica,
devido ao ecletismo e pluralidade dos seus fins e à singularidade dos
meios utilizados
 para lhes dar cumprimento. Conseguem ser, do lado da Diáspora, um elo de
ligação à Pátria, e, também, a partir das Academias existentes no nosso país,
um meio de compreensão  e de convivência ecuménica  com a Diáspora.
 Há, entre os seus membros muitos emigrantes ou ex-emigrantes,
considerados, justamente,
“gente de sucesso” É excelente lembrar o percurso individual de cada
um,  mas sem
esquecer o que tende a ser mais subestimado: as suas realizações colectivas..
 Um longo relacionamento com as comunidades, leva-me a acreditar no papel
insubstituível do associativismo, em que vejo," um ímpeto de
Portugal", de que falava
Pessoa - o ímpeto que despertou para a acção concreta  os fundadores
das Academias,
no sul da África, e, depois, um pouco por todo o lado, em instituições
que avançaram  e
cresceram à medida dos desafios com que foram deparando.
Julgo que o processo de descolonização de Moçambique e Angola, e, com ele, a
necessidade de valer a dezenas de milhares de refugiados, foi um dos
factores decisivos de
 uma rápida evolução para patamares  de actuação cada vez mais
elevados, com a criação
da Sociedade de Beneficência de Joanesburgo e do Lar Santa Isabel,  na
segunda metade
 da década de 70. Um passo de gigante, que centrou a acção das
Academias definitivamente,
 na acção humanitária.
E o regresso, em grande número, da África do Sul, anos mais tarde,
terá sido determinante
 na constituição de novas Academias no nosso próprio País. Os
"compadres" retornados
trouxeram consigo a saudade de África e a determinação de retomar o
convívio e o trabalho
beneficente, em terras portuguesas.
O Porto foi uma das primeiras cidades do país em que isso aconteceu -
como não poderia
deixar de ser,  já que, através de ilustres portuenses, havia  estado
presente em Joanesburgo,
no momento verdadeiramente genesíaco, e em todo o processo em que tão
grande aventura
se veio a desenvolver. E bem pode dizer-se que a imagem de marca da
cidade - força de
trabalho, poder de iniciativa, extroversão  da alegria de viver - se
evidencia, hoje, na
dimensão e no dinamismo da sua Academia.
A fase seguinte foi a de expansão em novos destinos  da Diáspora, o
que nos leva a
perguntar:  e agora, que futuro para as "Academias"?
 Em tempo de crise sem  fim à vista, num ponto de partida de grandes
vagas migratórias
- a chamada "nova emigração", fenómeno recorrente em Portugal, em ciclos que se
encadearam, inparavelmente, nos últimos cinco séculos - quantos
desafios vemos pela frente!
É o momento de pormos nas Academias do Bacalhau as maiores esperanças, apostando
na sua experiência para enfrentar conjunturas difíceis e, como é da
sua natureza, fazer
história em gestos de solidariedade e simpatia.
Afirmação que avançamos, de caso pensado, com segurança, pois estamos
a falar, afinal,
naquele que se transformou no mais moderno e dinâmico movimento de união dos
Portugueses do mundo inteiro.