segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE JOANA MIRANDA

Joana Miranda
Universidade Aberta/CEMRI

Congressismo e políticas de igualdade de género
Dar voz às mulheres após séculos de silenciamento

Lê-se no artigo 13º da Constituição da República Portuguesa: Princípio da
Igualdade: "Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de
qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça,
língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual."
A realidade está, porém, frequentemente distanciada dos princípios da
constituição e deste princípio, em particular. Apesar de muitas terem sido as
conquistas das mulheres ao longo das últimas décadas e de ter sido longo o caminho
percorrido desde o tempo em que as mulheres não tinham, sequer, o direito ao voto,
estamos ainda longe de uma realidade em que homens e mulheres tenham direitos iguais.

Todas as estatísticas confirmam as desigualdades que as mulheres portuguesas
sentem na pele no dia-a-dia. Continuam a ser as mulheres as principais responsáveis
pelas tarefas domésticas, pelo cuidar dos filhos e dos idosos. O espaço doméstico
continua a ser um espaço marcadamente feminino e o acesso ao espaço público e à
visibilidade que dele decorre continua a ser mais difícil para as mulheres do que para os homens.
A violência doméstica tem por objeto sobretudo as mulheres e por atores sobretudo homens. A grande maioria das mulheres vítimas de violência doméstica tem vergonha e não apresenta queixa das situações de que é vítima. Tem havido evolução a este nível mas, apesar de tudo, são poucas as que têm coragem de o fazer. O tráfico humano vitimiza mais mulheres que homens.
Apesar de o número de mulheres licenciadas ser superior ao número de homens licenciados, são os homens que, em muito maior número, continuam a exercer as funções de topo nas empresas e nas universidades.
Por outro lado, as mulheres que atingem lugares de topo e destaque na vida pública são frequentemente alvo de preconceitos (não só de homens mas também de mulheres), sendo por vezes perspetivadas como menos bem sucedidas nos papéis tradicionalmente associados às mulheres ou menos femininas.
Em média, para um mesmo trabalho, as mulheres continuam a receber remunerações inferiores aos homens, face a qualificações idênticas as empresas contratam mais facilmente homens do que mulheres, facto para o qual não é decerto alheio serem as mulheres a engravidarem e a cuidarem dos seus filhos nos primeiros meses de vida.
As vulnerabilidades das mulheres agravam-se quando, por motivos económicos
ou outros, saem dos seus países de origem e se confrontam com outras realidades.
Tais vulnerabilidades são frequentemente estudadas tendo por objeto as mulheres
imigrantes em Portugal mas a realidade é que também afetam as mulheres portuguesas que saíram do país em busca de outras alternativas de vida. É verdade que muitas vezes as fragilidades se convertem em forças e que as migrações podem constituir fonte de empoderamento das mulheres. Mas o esforço individual para que tal se verifique é enorme e só é possível em determinados contextos culturais e familiares.
Em situações de migração, há que possuir a capacidade de gestão do stress que decorre das situações de mudança, redefinir identidades e pertenças, gerir a identidade e a alteridade, renegociar posições e equilíbrios familiares, preservar o equilíbrio psicológico muitas vezes difícil, gerir a frequente separação dos filhos, dos pais ou de outros familiares próximos, o afastamento dos amigos, gerir a décalage entre o que se sonhou e a realidade que se encontra, lidar com outros hábitos, culturas, aprender outras línguas, adquirir competências profissionais novas, responder a novas exigências laborais, manter uma ligação saudável com o passado e com as raízes, saber projetar o futuro, repensar o retorno ou a permanência.
Os percursos migratórios, se bem sucedidos, podem proporcionar novas conquistas: conquista de estatutos mais elevados, a possibilidade de enriquecimento e de troca cultural, o envio de remessas para a família que ficou no país de origem, gestão de redes familiares transnacionais, criação de novas redes e o estabelecimento de novos afetos. Podem estas mulheres, e aqui tivemos exemplos, virem a destacar-se na vida política no país para onde migraram e através do seu exemplo e envolvimento político, fundar associações, criar movimentos, aceder ao poder local, tornar públicas as dificuldades das mulheres migrantes, pensar políticas e medidas, atuar no terreno,
contribuir para a construção de uma outra realidade social, proporcionando a outras
mulheres migrantes as oportunidades por que um dia elas tiveram que lutar.
Os decisores políticos têm que estar conscientes de que a realidade das mulheres, e das mulheres migrantes em particular, é diferente da realidade dos homens e desenvolver um conjunto articulado de políticas e de medidas que promovam a igualdade. As mulheres têm que ter uma voz ativa na política aos mais diversos níveis de intervenção: comunitário, local, regional, nacional e internacional.
As comunicações do painél que moderei abordaram a evolução das políticas de igualdade de género e o papel da intervenção política com algum detalhe. Mas para além da esfera de intervenção política, subsiste a questão mais profunda da mentalidade da sociedade portuguesa, patriarcal, tradicionalista, fechada. Uma mentalidade que continua a perpetuar papéis de género, estereótipos de género e ideologias de papel de género, que cria expetativas de carreira, de sucesso e de comportamento, diferentes para homens e para mulheres, que celebra e imortaliza os feitos dos homens e invisibiliza as conquistas das mulheres.
Apesar de todos os condicionantes sociais e das mentalidades discriminatórias, é inegável que muitas mulheres se destacam no espaço público em setores tão diversos como a vida política, académica e científica, empresarial e das artes ou mesmo em setores tradicionalmente reservados aos homens como é o caso das Forças Armadas.
Congressos como este contribuem para despertar consciências, homenagear as
mulheres que, no passado, ousaram quebrar o silêncio, lutar pela igualdade quando a igualdade mais não era do que uma utopia longínqua, dar voz a mulheres que, no presente, pela sua capacidade e empenho, têm contribuído para a igualdade de género e para uma maior consciencialização da discriminação de que as mulheres continuam a ser alvo. Congressos como este contribuem para perspetivar as mulheres como protagonistas dos processos migratórios e não como acompanhantes de projetos migratórios masculinos, como mulheres que triunfaram apesar de todas as dificuldades, como interlocutoras do poder político e agentes do poder político, como decisoras e inspiradoras de caminhos e de lutas. É também nestes congressos que se dá voz às mulheres. Dar voz às mulheres após séculos de silenciamento.

COMUNICAÇÃO DE LAURA BULGER

Investigadora, CEL, Universidade de Trás-os -Montes e alto Douro

Agustina revisitada ... num relance

Hoje em dia, a maioria das histórias que se publicam, avulso ou em colectâneas, não têm propriamente um princípio ou um fim. Umas começam pelo meio, outras chegam ao fim e voltam ao princípio, como em círculo fechado, e a conclusão raramente é conclusiva. No que respeita aos contos de fadas, o clássico era uma vez e o (des)esperado happy ending são agora como as espécies em vias de extinção. Quem diria que, depois de reciclado, o conto de tradição oral e origem popular atingiria o estatuto artístico que agora se lhe reconhece ? E o que é ainda mais espantoso é que, tal como outras ficções mais ou menos curtas, tenha ultrapassado já a popularidade do romance, até há pouco tempo o género literário que colocava o escritor no patamar da grande literatura. Ninguém queria saber se o Tolstoy, a Austen ou o Stendhal escreviam historietas nas horas livres. O Eça, que as escrevia sozinho e a duas mãos, entretinha-se com outras pequeninas ficções, às quais chamava crónicas e cartas, supostamente enviadas de Londres. Quanto ao prolífico Camilo, sempre mostrou queda para a ficçãozinha, quer nos romances folhetinescos quer nas novelas. Mas bastava que fossem romancistas para que a crítica os recebesse com reverência, ainda que a recepção dispensada à tímida Jane fosse, como era de prever, menos efusiva em virtude de sensibilidades e preconceitos que nada tinham que ver com o género literário.
São vários os motivos que justificam a popularidade da ficção dita curta, a designação usada agora para, entre outras formas narrativas, a novela, o conto e a vinheta, de todas, a mais curtinha. Lêem-se relativamente depressa e, ao contrário da ficção dita longa - o romance -, não há que esperar pelo capítulo seguinte para saber o que vai acontecer, ainda que, na maioria das vezes, nada aconteça e, no fim, o leitor tenha de adivinhar o que poderia ter acontecido. Contudo, afirmar, como fez Edgar Allan Poe, que um conto se lê “de uma assentada”, é um exagero, além de dar a impressão de que, depois de lido, é como um assunto encerrado, o que não é verdade até porque Poe, que foi um dos primeiros americanos a trabalhar o conto, ainda hoje nos deixa arrepiados com algumas das suas invenções. Numa delas, o próprio narrador foge a sete pés da casa assombrada, depois de lhe aparecer pela frente o cadáver da Madeline, escondido num armário pelo irmão dela, um tal Roderick Usher ou coisa que o valha, que também morre, acabando assim, tanto a dinastia dos Ushers como o conto que, escrito por Poe, tinha princípio, meio e fim.
Por mais estranho que pareça, estas reflexões sobre a ficção curta vêm a propósito dos contos de Agustina, onde se antecipam ou retomam alguns dos temas e personagens romanescas, uma coincidência frequente na obra de outros romancistas que são, simultaneamente, contistas, como se dizia há uns anos atrás, para separar as águas. Em ambos os géneros praticados pela autora, surgem, por exemplo, o artista incompreendido que procura, geralmente em vão, um meio para comunicar a sua mensagem; ou a solteirona determinada em salvar da ruína a casa de família; ou o rapaz de olho “azulado” que lhe afasta os pretendentes, narrando, com requintes de malvadez, os rituais da matança do porco. Não só deixa os oportunistas sem pinga de sangue, como também os faz desistir da mão da mordoma, que assim fica livre para administrar as terras sem interferência de mão alheia. O campónio, agora de nome Avelino, faz-se passar por tolo e sempre que lhe fazem uma pergunta, responde com uma frase que até parece copiada do príncipe Hamlet: “Não digo que sim, não digo que não”. A duplicidade do estribilho, assim como a estranha relação entre o Avelino e a mordoma dão origem a várias ambiguidades próprias de um conto moderno, por natureza enigmático.
Para os que estejam interessados nas reciprocidades entre os dois géneros trabalhados pela autora, sugerimos que percorram as páginas de Contos Impopulares (1951-53), escritos numa bela prosa lírica e anteriores à publicação da incomparável A Sibila (1954), ou que folheiem A Brusca (1971), a colectânea com a qual a escritora regressa a um género que, na verdade, nunca abandonou.
Mas antes de entrar pelas histórias de Agustina, talvez seja oportuno dizer que o tamanho e a brevidade da ficção curta não chegam para explicar um fenómeno que transcende o das stories publicadas em revistas como o New Yorker, onde vários dos consagrados iniciaram a sua carreira como contadores de histórias ou storytellers. Não estamos a falar de uma americanice literária, embora se diga que o conto americano, sobretudo o minimalista, escrito à maneira de reportagem, seja, de facto, uma ficção made in the USA. Porém, há editores em outras partes do mundo que já começaram a compilar histórias deste ou daquele escritor, alguns também romancistas, vendendo-as depois, como se costuma dizer, por atacado, a um público ávido por ler não uma, mas uma colecção de “boas histórias”. Mas o que é afinal uma “boa história”?
Os jornalistas andam sempre à procura de uma “boa história”, ou seja, de uma notícia dada em primeira mão e com espalhafato jornalístico. Só que o scoop, como lhe chamam em inglês, não se alimenta de fantasias e, se o fizer, a notícia perde credibilidade. Esta questão não se coloca com a ficção, longa ou curta, em que tudo não passa de uma fantasia. Umas são mais fantasiosas do que outras, indo ao extremo de narrar situações inacreditáveis, como faz o Kafka naquela história em que o Gregor Samsa, sem dar por isso, se transforma num insecto repugnante e se vê abandonado por toda a gente, incluindo a própria família. Até o leitor mais céptico fica impressionado com o pesadelo do rapaz e não resiste a perguntar-se: E se uma coisa como esta me acontecesse a mim?
Isto só dá razão aos que acreditam que uma “boa história” poderá dar-nos um murro no estômago ainda mais violento do que o romance e, como vemos aqui, explorar obsessões que, de outro modo, nunca viriam à superfície, satisfazendo, por outro lado, o voyeurismo dos que são atraídos pelo insólito, o grotesco ou o fantástico. À semelhança do thriller, favorece a libertação dos medos que nos atormentam, com a vantagem de não termos de recorrer à psicanálise. É evidente que nem toda a ficção curta mexe com os estados de alma do leitor, mas não se pode negar que o género se ajusta ao psiquismo de uma sociedade como a nossa, exposta continuamente às cenas escabrosas do directo televisivo e às inovações tecnológicas que ameaçam exterminar o prazer táctil do livro de papel, falando-se já do “canibalismo” do livro digital. Num clima contaminado por tanta suspeição, seja devido aos degelos antárcticos, seja às burlas financeiras, parece haver, cada vez menos disponibilidade ou mesmo inclinação para longas e densas tramas romanescas.
Existem, no entanto, paraísos literários, como Portugal, onde o leitor ainda se deleita a ler um bom romance, escrito à maneira de Agustina. Desta vez, não vamos falar dos romances, mas das histórias da autora, cuja releitura também nos leva sempre a descobrir alguma coisa que nos tinha passado despercebida antes. É possível que, numa primeira leitura, tivéssemos prestado pouca atenção ao modo como a romancista se adapta aos constrangimentos da ficção curta, ora mais a jeito de conto, ora de novela, com uma ou outra vinheta em tom ensaístico pelo meio. Não se julgue que escrever ficção em miniatura dá menos trabalho do que escrevê-la em tamanho grande. Não se trata de uma arte menor vis-a-vis outra maior, como nas redondilhas. Para além da economia narrativa, já que a história está como que comprimida em poucas páginas, há também um número reduzido de personagens; a linguagem torna-se ainda mais sibilina, as ambiguidades, mais frequentes, culminando com o chamado fim em aberto, com o leitor a concluir a história como quiser. Não é nenhum rasgo democrático por parte do autor, mas uma tendência do conto moderno, enquanto que, no antigo, nada ficava por resolver, o que nos deixava a nós, leitores, muito mais tranquilos. E o que dizer das figuras anónimas que aparecem sem que se perceba bem como e porquê, e que, sem pronunciar ou fazer coisa nenhuma, desaparecem como por encanto?
Lembramo-nos daquela provinciana que toma um comboio para o Porto e que, durante a viagem, não diz uma única palavra, causando mal-estar entre os quatro estudantes que ocupavam a carruagem. Pela conversa com a “moça”, a quem manda comprar maçãs, já da janela do comboio, sabemos que estará de volta no dia seguinte, pela noitinha, embora nada diga à rapariga sobre o motivo da ida à cidade. Entretanto, os quatro jovens vêem-se obrigados a partilhar o mesmo espaço com a mulher, ainda nova, bonita e sem pinturas na cara. Apesar de a tomarem por pessoa “honesta”, na óptica dos rapazes, a provinciana é uma “intrusa” que, ainda por cima, parece não dar pela presença deles, que já seguiam na carruagem. O alheamento da mulher torna-se ainda mais evidente logo que, depois de arrumar a bagagem, se senta no lugar e come o “rebuçado de avenca” com a boca distorcida, como se a “alma” se lhe tivesse voado do corpo que, no entanto, tem os pés firmes na terra.
O leitor, que tem o privilégio de ver a provinciana por dentro, sabe o que lhe vai na cabeça, tendo a impressão de que a vê pensar em voz alta. A mulher está imersa no seu pequenino mundo, isto é, preocupada com as doenças dos filhos, crianças atreitas a toda a espécie de mazelas, e com as tarefas a decorrer durante a sua ausência na casa de lavoura, das que ainda conservam a “prensa do vinho” e a “chaminé conventual”, onde se cozinha a lenha. Por isso, de nada valem os remoques dos quatro viajantes, nem mesmo quando um deles vem com a ideia da carruagem segregada, onde os homens não tenham de respirar o ar “envenenado” pelas mulheres. A observação, feita para espicaçar a provinciana, não deixa de revelar o preconceito de uma cultura, digamos, tão primitiva como a dos patriarcas bíblicos, a qual, graças a Deus, se vai desenraizando da tradição na qual tem estado enraizada.
A provinciana, que continua a velar pela sua “fazenda”, ignora o dito do rapazote e, lá no íntimo dela, “ouve” os “passos” “do marido, do pai e dum amigo”, certamente figuras tutelares não apenas das suas rêveries, como também do seu quotidiano. A espreitadela à mente da desconhecida é demasiado rápida e circunscrita à sua domesticidade, não dando para ver as demais faces desta Eva oriunda da burguesia rural, as quais permanecem como faces ocultas. Ninguém espera que numa ficção curta como esta se reproduzam torrentes de pensamentos à deriva, como fez o James Joyce num romance tão extenso como o Ulysses, pondo a Molly, no fim, a pensar em tudo o que lhe vinha à cabeça. Nem a provinciana teria, supomos nós, um passado e um presente tão desinibidos como os da irlandesa, cujos pensamentos provocam, ainda hoje, um certo embaraço nos círculos mais circunspectos, sobretudo quando aquela sucessão de “sins”, no final, são repetidos por uma Molly bastante sexy, como já se tem visto, tanto no teatro como no cinema.
Mas voltemos à provinciana. Chegada à Invicta, a mulher prepara-se para sair calada e muda, indiferente a que o comboio venha “à tabela”, pormenor que um dos jovens faz questão de referir em voz alta com o intuito de a provocar novamente. Ela acerta o relógio de pulso, acusando, pela primeira vez, a presença deles, mas, como até ali, faz-se de mouca. A história termina com umas considerações acerca da frustração dos rapazes perante a indiferença da desconhecida que, com o gesto inconsciente, confirma a sua decisão “inabalável” de não perder tempo com superficialidades, muito menos com as graçolas dos quatro metediços. O fim em aberto deixa antever que a provinciana virá a perder-se por entre a multidão urbana e que os futuros licenciados seguirão para Coimbra, onde vão fazer exames de frequência, não sabemos de quê.
Ora aqui está uma “boa história” não tanto pelo que conta, mas pela maneira como conta o percurso das personagens. Apesar de não ser como a versão perversa do Capuchinho Vermelho, da Angela Carter, nem os quatro rapazotes representarem o lobo mau ou a provinciana, a inocente, o relato da viagem causa uma certa tensão no leitor, receoso de que alguma coisa desagradável venha a acontecer se, por acaso, eles ultrapassarem os limites da boa educação e a mulher, desperta do seu transe, sinta que tem de dizer ou fazer alguma coisa para os pôr na ordem. Felizmente, a viagem é curta e, no fim, cada um vai à sua vida sem incidentes, ou assim se conjectura. Mas fica-se como que a ruminar durante algum tempo sobre a “aventura” da provinciana, cujo nome nem sequer conhecemos. Ainda que vista por dentro e por fora, passa tudo num relance e a mulher afigura-se tão enigmática no fim como no princípio da história. O que a teria levado até ao Porto? Uma consulta com o médico? Uma escritura no notário? Um encontro com alguém especial? Teria passado a noite num hotel da Boavista ou em casa da família, na Foz? Estaria assim tão desejosa por regressar ao seu aconchego de castelã rural, para tratar as “dermatoses” dos filhos, fritar os “rissóis” e provar “as sanefas das janelas”? Nunca chegaremos a saber se viagem ao Porto foi um momento decisivo na vida da provinciana.
Os desfechos propostos por Agustina deixarão insatisfeito o leitor que estiver à procura do happy ending ou da moral da história, geralmente implícita numa metáfora. Mas não é apenas isso. Também causa perplexidade a “falta de transparência”, como se diz por aí, as insinuações, as frases indecifráveis, a aura misteriosa das personagens, enfim, todas as ambiguidades criadas em torno de uma história que chega ao fim sem solução à vista. Curiosamente, ficamos suspensos de qualquer coisa, um pouco como nos filmes do Hitchcock, e lemos a história, mais do que uma vez, à procura do que lhe parece faltar para que faça sentido. Mas não será o mesmo que fazemos no nosso dia-a-dia, quando nem um sexto sentido ajuda a perceber o que se passa à nossa volta?
Num outro conto, começa-se por teorizar sobre a “boa história” que narra a “consciência da nossa individualidade”, algo tão extraordinário que, diz-se, só um artista consegue “desvendar.” Depois da introdução um tanto ensaística, passa-se da teoria à prática com o início do relato. Como nos romances, narram-se os antecedentes do Gil e só depois aparece o Gil, um bastardo criado por mulheres infelizes que vão envelhecendo e morrendo nos seus “viveiros”, deixando o rapaz em completa orfandade e com escassos meios de sobrevivência. Anos depois - o tempo passa em dois ou três parágrafos -, o Gil faz-se poeta, quer dizer, um poeta que não “devia escrever versos,” e encontra a Lucinda, uma pianista sem “espaço” senão “para sonhar”. A história termina com a hipotética ligação amorosa entre os dois artistas falhados. Porém, não fica claro se o Gil e a Lucinda vão caminhar juntos ou separados para o resto da vida, se encontram uma terceira via, seguindo “ora mais distantes, ora lado a lado”, como se diz à maneira de final, ou, ainda, se conseguem desvendar a “consciência da individualidade”, o enigma aflorado no princípio. A conclusão será, pois, a que cada um muito bem entender.
Não há dúvida de que o leitor está a ser manipulado por uma contadora de histórias que, desde há muito, pratica a arte ancestral do conto, como se nota através dos vestígios de oralidade espalhados aqui e ali. No momento em que o Bráulio, invejoso da mulher, com quem disputa a companhia de intelectuais e artistas, pensa no convidado escondido debaixo da mesa, entretanto desaparecido, a voz da narração interrompe os pensamentos do Bráulio e, como se estivesse a falar para uma vasta audiência, exclama: “Adeus, senhores, acabou-se o conto”.
Tal como era contado antes, o conto já não conseguia arrebatar o leitor sofisticado, perdido, na altura, nos emaranhados do romance. Daí a necessidade para as inovações, entre elas, a da conclusão inconclusiva, emprestada ao Chekhov, um dos mestres do conto moderno. Há, no entanto, quem prefira o realismo do Maupassant, menos dado a ironias e a ambiguidades. O russo é, contudo, o mais citado pelos modernistas para justificar os modernismos que eles próprios iam trazendo para a ficção, longa e curta, esta muitas vezes prolongada em forma de romance. Veja-se o caso da Virginia Woolf que começou por escrever uma historieta, à qual deu o título de Mrs. Dalloway, e que depois acabou naquilo que se viu, um dos romances mais badalados da escritora inglesa.
Agustina domina os dois tipos de ficção com igual à-vontade e muitos dos seus romances são colectâneas de pequenas ficções ligadas, entre si, por variantes de uma personagem ou de um tema, como já tentámos provar em qualquer lado. Não nos parece estranho que a voz narradora faça questão de mostrar que conhece as regras do jogo, não vá o leitor distrair-se e pensar que, em vez de uma historieta, está a ler um dos romances. Mas nunca vai ao ponto de exibir o know-how teórico com que certos autores pós-modernos procuram deslumbrar o crítico literário. Longe disso. Fica-se pelo número limitado das personagens na história: “Eram apenas dois os personagens que estavam previstos nesta história ... O terceiro personagem pode estragar tudo...”. A alusão é tanto mais irónica se tivermos em conta a multidão de figuras e figurantes dos romances, tantos que o leitor tropeça nos nomes deles e tem dificuldade em distingui-los.
Noutra ocasião, finge não dar ouvidos a boatos ou mesmo à “boa fonte” que, na província, diz incluir “as maiores sevícias morais, as maiores depredações da dignidade humana”. Ironicamente, na história sobre o Camilo Timóteo, afirma que o “desastre físico” do homem vem de “boa fonte”, embora não a identifique, como fazem os jornalistas, até os mais referenciados. Apesar das “sevícias” e “depredações” da “boa fonte”, lá vai dizendo que os filhos da Tília, a prostituta que coabita com o Camilo, não são dele, e que o Camilo os baptiza com os nomes dos seus antepassados, escolhendo um dos rapazes para seu legítimo herdeiro. Camilo morre de velho, na miséria e, por força das circunstâncias, estéril. Era o segundo dono da Brusca, um antigo solar urbano comprado a um senhor d’Além, cheio de pergaminhos, mas falido. Resumindo, destruída pela filharada vadia da Tília, a casa estava em tão mau estado que nem um novo-rico como o Monteiro Branco, que a comprou por tuta-e-meia, conseguiria fazer do “pardieiro” uma pousada para turismo rural, a menos que trasladasse a casa, pedra por pedra, para o litoral ou para o estrangeiro, tão longe como a Suíça, onde o Branco devia ter feito bom dinheiro. E a história termina com um comentário que só um leitor bastante ingénuo poderá levar a sério: “Mas diz-se muita coisa, e há sempre quem exagere”.
Para além dos aspectos formais, as contradições, as ironias, as ambiguidades e tudo o resto, também são evidentes os sinais de mudança numa província - pois estamos a falar dos contos sobre a província - que, devido à emigração e ao êxodo para os centros urbanos, viria a desertificar-se e, mais tarde, a urbanizar-se, um processo de transição que deixaria marcas profundas na ficção, tanto na longa como na curta.
O cinema é outra das causas de mudança, por mostrar ao espectador outros mundos e outras gentes e despertar, às vezes, sonhos irrealizáveis, como se vem a descobrir numa outra história, onde, antes de terminar, a voz da narração declara, usando o sempre envolvente “eu” colectivo: “Mas nada temos já a acrescentar a esta história”. Acontece que, pouco antes, tinha dito que o David, ou alguém parecido com ele, teria sido visto a passear-se pelas ruas da cidade, possivelmente no Porto. Mas tanto diz que “era bem ele”, um David já míope e de cabelos “mais raros”, como, logo a seguir, duvida do que disse: “não podemos jurar”. Ora ninguém faz fé no que se diz e deixa de dizer ou no que se pensa que é e não é, uma das características desta voz narradora, que também passa o tempo a reflectir sobre o escreve, muito à maneira dos pós-modernistas, que vão sempre cogitando sobre a ficção da ficção, com o pretexto de escrever metaficção.
Mas, como íamos dizendo, a revelação feita quase no fim da história, espicaça a curiosidade do leitor em relação ao David, o sobrevivente de uma tentativa de suicídio, numa daquelas tragédias camilianas que ainda hoje fazem as primeiras páginas dos tablóides. Supõe-se que o rapaz se tenha sentido desorientado, ou culpado, por ter escapado da morte, enquanto a mulher amada, atingida “com duas balas no peito” se foi desta vida para sempre.
A defunta era, por seu turno, viúva de um juiz que tinha falecido “em pleno vigor físico,” em vésperas de uma promoção judicial, deixando vários casos por julgar e a mulher, a braços com os nove filhos, dos onze que tinham produzido. Órfãs de um magistrado de província, as crianças seriam criadas como burgueses “pelintras,” vivendo de dádivas e dos fiados, na quase clandestinidade de uma casa de “sobreloja.” O que destaca esta viúva de outras em circunstâncias análogas é a paixão serôdia da mulher - descrita como “gorda”, de “bandós a picarem de cinzento” e “já sem juventude” - pelo David, um rapazinho vindo “das Ilhas,” colega dos filhos mais velhos, com quem ela, segundo constava, encontrou a “felicidade.”
Ou porque não aguentassem a condenação colectiva de um meio provinciano, ou porque os incomodasse a reprovação dos filhos dela, o facto é que os dois amantes resolveram suicidar-se ao mesmo tempo. Não nos devemos preocupar demasiado com as motivações das personagens, como seria normal num romance, onde as causas e os efeitos são importantes para que se entenda o enredo. Aqui, onde nem sequer há enredo, a falta de lógica é perfeitamente aceitável. O que conta é o gesto dos dois amantes, o qual os iria pôr ao nível de outros trágicos amorosos, não tivesse o rapaz sobrevivido, e não fosse a viúva alguém que, para além dos “belos olhos,” não tinha mais nada por onde se lhe pegasse, como se costuma dizer.
O caso dos amantes, com o seu quê de tragicomédia, foi esquecido rapidamente por todos, a não ser pela mestra loura que, tal como a provinciana e a viúva, não tem nome. A mestra não conseguia esquecer a paixão fulminante da defunta, tendo sido ela quem revelou, em primeira mão, que a viúva tinha um amante. Talvez o tenha feito por inveja da mulher que, apesar de “insignificante” e um “tanto estúpida”, se tinha redimido através do amor, acabando por merecer a “aprovação” da mestra que, para além de romântica, era cinéfila.
À medida que a história avança, damo-nos conta de que a figura central não é a viúva, mas a mestra “oxigenada,” para quem a experiência amorosa da outra faz ressaltar o vazio da sua vida, limitada à docência rotineira de uma escola de província. Apesar de ter sido bela e de se ter feito “letrada,” a professora não arranjou marido à sua altura e teve de se contentar com um merceeiro “mesquinho” lá na terra, homem incapaz de pensar noutra coisa senão no dinheiro das vendas.
Também, aqui, nos é dado ver a mestra por dentro, enquanto corrige os trabalhos dos alunos pela noite fora, à luz amarelada da “lampadazinha” que torna ainda mais amarela a sua “cabeça oxigenada”. Vê-se que ela gostaria de ser como as vamps que apareciam nos cartazes da época, “a Brigitte, a Helm, a Marlene”, ou, pelo menos, viver uma paixão tão intensa como a da viúva pelo David, figuras que faz ressuscitar através da memória. Ao mesmo tempo, pensa na filha, a Loló, bonita como ela e, como ela, mal casada, cada vez mais obesa e provinciana, embora fosse prendada e tivesse aprendido a dançar o charleston, para quem não saiba, uma dança amalucada importada da América. A mestra sente inveja não só da viuvez feliz da viúva, mas também da orfandade burguesa dos filhos da viúva, gente “fina” e com oportunidades na vida que a sua Loló nunca teria, apesar de filha única, de pais ainda vivos e, ao que parece, abastados.
Não sabemos o que irá ser a vida da mestra de aqui em diante, mas é possível que, aos domingos, continue a dar uma ajuda no cinema, possivelmente negócio do marido. Põe de lado os trabalhos de casa dos alunos para vender bilhetes e “pastilhas Naval” à garotada que se acotovela para ver os westerns, com sheriffs e um cowboy valentão como o Tim McCoy, antes de o actor enveredar pela televisão. É com os miúdos que ela descarrega o azedume acumulado durante toda a semana, repetindo sempre o mesmo impropério: “Raça!”
O leitor sente compaixão por esta mulher, que já não é nenhuma rapariga loura, e que vê os anos a passarem sem que nada de extraordinário lhe aconteça na vida. Não teve a sorte da viúva que, embora não passasse por viúva alegre, morreu satisfeita, vivendo um grande amor. Nem lhe reconheceram o glamour das Bardots, que pertenciam ao mundo das fitas, fora do seu alcance. Enquanto o David, ou alguém parecido com ele, revisitar a sua memória, é possível que a chamazinha se reacenda, ajudando-a a suportar as tarefas rotineiras da sua docência.
Nesta história, mistura-se a raiva com a inveja, o amor com o desamor, o preconceito de classe com a maledicência, o grotesco com a ironia, tudo visto, num relance, e na perspectiva da mestra, enquanto corrige os trabalhos dos alunos, ao lusco-fusco da lâmpada de mesa. No romance, assim como no cinema, a vida inteira da mulher oxigenada rolaria perante os nossos olhos, mas ninguém pode garantir que se visse tanto como se vê nesta história sobre a mestra loura.
Quem escreve ficções como esta, conhece bem não só o género, mas também o género de audiência que tem pela frente, a quem lança, com ar trocista, um desafio como este : “Se julgam que vou contar-lhes uma história de Natal, com pinheirinhos, presépios e neve fingida, estão muito enganados”. E depois da piscadela de olho, narra a história da mulher estafeta com o “belo casaco cor de pêlo de boi”, que chamava “ele” ao amigo, e que se referia ao marido como “o meu”. Para quem quiser saber mais acerca deste pombo-correio, no feminino, terá de ler a ficçãozinha do princípio ao fim, embora, no fim, se volte ao princípio.


Lisboa, 30 de Dezembro de 2009.
Laura Fernanda Bulger

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Comunicação de NATÁLIA M RENDA CORREIA

Presidente da Associação Mulher Migrante Portuguesa da Argentina

História do Movimento Associativo na República Argentina

Somos uma raça antiga a morar na Argentina. Foi Portugal que reconheceu, em primeiro lugar, o 1° governo Argentino e é por isso que a Bandeira Portuguesa pode estar tanto à direita como à esquerda, da "Bandera Nacional".
O Associativismo começa por uma necessidade de estarem juntos, os Imigrantes, para recordarem a Saudade do seu País Natal.
Em Buenos Aires, o Encarregado de Negócios de Portugal dessa altura, o Sr. Álvaro Paes de Faria, fez uma comunicação aos Portugueses residentes na Cidade, para manifestar-lhes o desejo de que, seguindo o exemplo de outras colónias estrangeiras, formassem uma sociedade de Beneficência Portuguesa destinada a auxiliar os compatriotas desvalidos, residentes no país.
Foi assim que um grupo de homens começa a trabalhar no ano 1828 e se funda a Caixa de Socorros “LUSITANIA” , pois o primeiro passo se tinha dado.
Continua como Sociedade Portuguesa de Socorros desde o ano 1883 até 1904, depois muda de nome e passa a chamar-se, “REAL SOCIEDADE PORTUGUESA DE SOCORROS desde 1905 até 1910. Continua como Sociedade Portuguesa de Socorros até que se construiu o Hospital Português.
Foi um contínuo trabalho do Associativismo, anos de Historia, em que toda a Comunidade contribuiu para realizar essa grande Obra. Na maioria, eram socios do Clube Português.
Como Comunidade Estrangeira, dentro do Associativismo, somos a única que tem um Panteón, no "Cimenterio da Recoleta", data desde o 26 de Abril de 1882 - onde descansam os restos de Eva Perón, de vários presidentes e das maiores pessoalidades das Letras, políticos etc. doado pelo Presidente Torcuato de Alvear, casado
com a primeira e única Dama estrangeira que teve o país: era Dona Regina Paccini de Alvear , Portuguesa, Cantante Lírica, mal vista pela Sociedade Argentina nessa altura, mas ela deu exemplo de amor ao desvalido demonstrou ser uma Mulher de grande
humanidade, deixando obras que ainda hoje são Orgulho do que fez uma primeira Dama Portuguesa.
O Associativismo continua com o Clube Português que já fez 93 anos de vida no ano 2011, toda uma História dentro de essas paredes, por aí passaram muitas personalidades do Fado, da Música, das Letras e da Política.
Há, de seguida, um novo movimento dentro desse Associativismo. É que um grupo de Homens das Beiras e do Norte de Portugal tem novas ideias - querem abrir uma nova Casa Portuguesa, e assim nasce o Centro Pátria Portuguesa, dentro do círculo da Capital que, no mês de Setembro de 2011, fez 80 anos de vida.
Surgem mais ideias, projectos... novos Ranchos Folclóricos, como o Grupo Os Pauliteiros de Miranda, que esteve vários anos inactivo, e agora estão para voltar a dinamizar...Tem um Jovem de Vice-Pte.Sr. Dúlio Moreno e Maria Laura Rojas, cantam Fados, mostrando nossa Música. Há outros grupos Argentinos que se dedicam ao Fado, o que é muito interessante para toda a Comunidade, pois até agora não havia nada de semelhante. Essa Instituição também tem O GRUPO COIMBRA, que toca música Portuguesa, e vai actuar em diferentes lugares actuar para muitos públicos.
Dentro da Comunidade há ainda muitos Ranchos Folclóricos das várias Associações.
No ano 1978 fundam-se 3 Associações perto da Cidade de Buenos Aires.
Somos poucos mas temos Associações em diferentes Províncias do país a 2000. Ks. a 600km. A 400ks. a 300ks. E continuam abrindo casas de Cultura. Dentro de estas Associações de tão longe, a que mais actividade tem é a de Comodoro Rivadavia .
Dentro do Associativismos as Mulheres têm feito o trabalho de transmitir aos seus filhos e netos a Cultura, as Costumes do País natal. Os descendentes, quase todos, vão para a Universidade.
As Mulheres convidavam os seus vizinhos portugueses, os seus conhecidos, para que frequentem a Casa Portuguesa. O resultado foi fantástico, hoje muita gente, descendentes de outras raças têm connosco convívio, como também Portugueses de diferentes lugares de Portugal.
A Língua Portuguesa, é e será o Orgulho de todos nós, espalhados pelo mundo fora, e quase todas as Entidades oferecem o ensino da Língua.
A primeira Professora a dar classes foi a Dra. Ângela Rodrigues
Barros, também a primeira Bolseira do Brasil e de Portugal, uma
Argentina que foi Directora de Línguas Vivas de Bs. As. E que, morou
muitos anos em Portugal a pesquisar sua Historia, para poder transmiti-la .

Geração Luso- Descendente

As Instituições Portuguesa alguma delas estão atravessando uma difícil situação por não terem pessoal que queiram conduzi-las, caso de Mar del Plata, que vai fazer 50 anos de vida o ano que vem, e está com falta de Sócios que queiram continuar com a Entidade. Para cumprir com os Estatutos, teria de ser vendida, e passaria as mãos de um Lar da Cidade onde está.
Deixo uma ideia aqui: poderiam as Autoridades mandar um Professor de guitarra Portuguesa para incentivar o ensino desse instrumento (que na Argentina não há?
Outra reflexão: a gastronomia portuguesa é tão rica, porque não enviar um "chef"" para ensinar a fazer comidas típicas , não só a nível português como a nível das diferentes comunidades de outros Países e das que são originariamente da Argentina... Temos que abrir-nos como fazem outras Comunidades!
Sabemos bem da diferença de preparação de um jovem Profissional e de uma
pessoa que fez a 4ª. Classe há 60 anos atrás.
Pergunto: não seria saudável deixar que os Jovens organizem eles o que queiram, para ver até donde chega a responsabilidade e o interesse de novas ideias. E que os maiores de idade ajudem, para que juntos possamos ter um convívio normal para que sigam funcionando para orgulho de todos, estes grupos Associativos!

SITUACÄO DE GÉNERO

E, por último, quero qualificar o trabalho das Mulheres, que sempre trabalharam á sombra dos homens - ainda hoje elas continuam a trabalhar da mesma maneira, nas pessoas da minha geração. Algumas puderam ocupar lugares em diferentes Associações, mas não foi fácil... tivemos que lutar muito e demonstrar com trabalho que tínhamos capacidade para faze-lo.
A outras ainda não lhe deram o lugar, como sabemos o Homem Português na Argentina tem dificuldade de partilhar cargos Directivos.
Agora, nas gerações jovens, a Mulher ocupa cargos ou profissões em igualdade
com o género masculino.
Aliás, tivemos um grande incentivo duma grande Mulher a Dra. Maria Manuela Aguiar que numa das visitas que fez ä Argentina, nos pediu: porque as Mulheres não se uniam e formavam uma Associação para fazer coisas diferentes? E foi assim que nasceu a Associação da Mulher Migrante na Rep. Argentina. Foi um grande desenvolvimento para as Mulheres, e uma libertação, para que pudessem sair para assistir ás reuniões e dessa maneira ganharem um espaço de afirmação pessoal.
Como disse, antes, as Associações que integram a Comunidade onde se inserem, nasceram para dar respostas aos sócios, fazendo Festas, jogos de mesa, festividades de Romarias e Ranchos folclóricos.
Mas esta MULHER MIGRANTE veio para dar resposta ás dificuldades Económicas que muitos compatriotas tiveram e têm. Mas agora contam com a Solidariedade desta Associação, que começou a trabalhar, e, imediatamente, se viu o resultado - os pedidos vinham de todos lados até de Pcias. a 500 km. de distância, chegavam para pedir ajuda, e lá estava a Mulher Migrante para dar solução ao pedido.
O nosso trabalho teve enfoque na parte Social e de Voluntariado, chegando as casas dos Carentes Portugueses, ou dos casados com nossa raça, para dar ajuda aos seus problemas, foram muitos e de diferente índole.
Também fizemos Teatro de Paródia, imitando Programas da Televisão, e contando anedotas sobre quando chegamos a Argentina, quando não sabíamos o idioma - coisas que aconteciam e que, depois,
até tinham piada.
Neste contexto, a Associação tem feito Seminários, diferentes mostras de Cultura, Exposições diversas., apresentações com meios audio- visuais, onde as pessoas que ajudamos davam testemunha do que sentiam. Foi emocionante vê-los!
Esta Associação foi e será influente nas áreas sócio – culturais, sendo uma Associação de Inovação Social.
Aqui podemos observar a evolução da Mulher no trabalho Associativo. Também damos o nosso trabalho ás autoridades do governo Português na Argentina, ajudando em tarefas que ligam com a comunidade inteira em diferentes cidades de Buenos. Aires - Em busca de informação sobre os casos de necessidade, levando os cheques de Portugal dos subsídios até à própria morada das pessoas.
Neste quadro, e para finalizar, minhas Senhoras e meus e Senhores, posso dizer que o trabalho que tem feito a Associação da Mulher Migrante na Argentina, tem sido brilhante, respeitado não só pela Comunidade Portuguesa , e Sociedade Argentina, também por muitos outros países da Comunidade Europeia e da América do Sul - muitas vezes recebemos pedidos de informação do Brasil, para saberem como implementámos a Associação, e como funcionámos.
Temos imensos convites de Associações de Bem Público, da Comunidade Europeia, como a Rússia, Espanha, Itália e muitas mais.
Temos participado em Seminários dedicados a pessoas que têm Capacidades Diferentes .
O trabalho Voluntário é e será um exemplo de vida para todas as Mulheres que participam para dar seu tempo, ás diversas necessidades de que hoje padece a nossa gente Idosa, digna de ser respeitada pela trajectória de vida que teve.

Só temos quatro Mulheres Presidentes de diferentes Associações.
Peço as Autoridades presentes que vejam de que maneira as Comendas e os prémios ao trabalho são atribuídos. Não só devem ser para o Género Masculino, o Feminino também merece e espera reconhecimento, da mesma maneira.
Muito obrigado a todos, pela atenção e agradeço á Dra. Maria Manuela Aguiar e á Dra. Rita Gomes duas Mulheres que admiro, elas conseguem de nós lá fora tudo o que desejarem, para continuar a trabalhar pelo nosso Portugal, que está a 10.000 km.
de distância, mas tão perto do nosso coração.

Agradeço ao Secretario das Comunidades Portuguesas, a sua Excia. o Dr. José Cesário, pela preocupação que manifesta pelas Comunidades espalhadas pelo mundo fora, também pelo convite que me fizeram, para representar a Associação da Mulher Migrante na Argentina, neste Seminário na Maia nos dias 24-25-26 de Novembro de 2011.

Obrigada.

CV

Sra. Natália María Renda Correia

Estudos Cursados:

Escola em Portugal até 4ta. Classe.

Argentina: Escola Primaria

Argentina Escola Secundaria Normal de Banfield

Argentina Escola Secundaria Nacional de Adrogué

Escola de Música Conservatoria Breyer em Bs.As.

Curso de Faturista: Nomenclador Nacional do Hospital Italiano.

Administrativa de 1° classe na Área da Saúde em Clínica Espora
Adrogué.

Artista Plástica : com Obras no Museo Jorge Luis Borges

Presentando suas Obras em diferentes mostras de arte:

Em Brazil, Uruguai Argentina.

Diretiva da Sociedade Portuguesa de Socorros Mútuos

Diretiva do Clube Portugués: Comisäo de Cultura

Diretiva do Centro Patria Portuguesa

Condutora do Programa Radial: Saudade de Portugal

Pte. Da Associacäo da Mulher Migrante Portuguesa

Socia Fundadora da Mulher Migrante Portuguesa

Voluntaria Dama Cör de Rosa do Hospital Dr. Bernardo Houssay de
Vte. Lopez , desde o ano 1994.

Ornanizou o Seminario no ano 2005, na Biblioteca Nacional Jorge L.
Borges, com a participacäo de Delegacöes de varios Paises.

Participou em diferentes Seminarios falando de diferentes Temas.

Participa em diferentes mostras de Teatro no festejo do Día do
Emigrante.

No Día Internacional da Mulher participa em diferentes palestras.

No ano 2004 participou do Seminario “Mulheres Migrantes das
Diversas Geracöes” em Portugal.

Recebeu a Medalla ao Mérito pelos trabalhos realizados dentro da
Comunidade Portuguesa de parte do Conselho das Comunidades
Portuguesas na Rep. Argentina

Recebeu a Plaqueta ao Mérito no ano 2007 pelo seu Trabalho na
Comunidade Portuguesa, durante 30 anos de actividade.

Ano 2007 representou A Associacäo em Portugal nos “Premios
Talentos 2007”.

Representou no Cono Sul á Associacäo em diferentes
oportunidades, também informando do trabalho realizado.

Participou em Diferentes Seminarios da Casa da Rúsia convidada
Especial.

Participa nos Aniversarios dos Clubes Portugueses da Argentina.

Buenos Aires, 08-11-2011

sábado, 25 de fevereiro de 2012

MENSAGEM DE AURORA CUNHA

Caras amigas,
Em primeiro lugar gostaria de felicitar a organização da Associação Mulher Migrante por mais este congresso realizado na linda cidade da Maia, nos dias 24 a 26 de Novembro de 2011.
Foi com grande satisfação e orgulho que no dia 24 recebi tão sentida homenagem por esta associação entregue pela Doutora Manuela Aguiar, uma grande amiga que, ao longo dos anos, tem tido um papel na igualdade dos direitos e oportunidades da Mulher.
Eu que, durante 20 anos, competi em vários países do mundo, dando muitas vitorias e muitos títulos aos nossos emigrantes e guardo muitas recordações. Actualmente, o meu papel na sociedade está ligado à sensibilização de todas as pessoas para a prática de exercício físico, e consegui implementar em Portugal a corrida da Mulher com a vertente de angariação de fundos para a Liga Portuguesa contra o cancro, onde, mais uma vez, as mulheres portuguesas mostraram ser solidárias, pois chegamos às 15.000 Mulheres.
A todas envio saudações, desejando um feliz 2012, desta vossa amiga Aurora Cunha.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE MARIA FERREIRA

Vim par França em Outubro de 1962.
Já namorava há três anos o meu futuro marido, queríamos casar, mas os nossos pais não tinham dinheiro. Pedi, então ao meu irmão mais velho, que já estava em França, para me chamar.
Vim com um contrato para trabalhar num colégio particular de meninas que lá ficavam, dia e noite.
Estava cá há três meses quando fui ao consulado de Paris fazer o necessário para casarmos por procuração.
Depois, em Junho, fui pedir a carta de chamada e não ma queriam dar porque era a primeira mulher que queria mandar vir o marido (era sempre o marido que mandava vir a mulher). Eu respondi-lhes que havia um princípio para tudo e que, se me tinham dado autorização de casar civilmente, era normal que mandasse vir o meu marido.
Deram-ma, finalmente,e eu fui a Portugal, com os dois meses que tinha de férias do colégio, para casar pela Igreja. E viemos, então, os dois para França.
Depois, fiz vir o irmão e as irmãs do meu marido, os meus irmãos e também as minhas amigas, em nome dos irmãos delas, que estavam cá, mas não conheciam ninguém. Eu, no colégio onde trabalhava, conhecia muitas famílias que queriam criadas. E foi assim que começou a minha missão de ajudar os Portugueses.
Chegavam também famílias completas e homens sozinhos e eu arranjava-lhes trabalho e casa para mandarem vir as famílias. Aqueles que estavam realmente sós iam para as barracas nas obras onde trabalhavam.
Também tratava dos papéis, porque a maioria deles vinham ilegais. Como as pessoas falavam entre elas, tanto em França como em Portugal, eram cada vez mais numerosas a virem pedir ajuda. Até nas instituições francesas, (Câmara, serviços sociais, etc.) os empregados, que já me conheciam, mandavam os Portugueses ter comigo para eu os ajudar em diversos aspectos.
Foi assim que, ao longo dos anos, acabei por ajudar muitos e muitos Portugueses, que vieram para França.
O meu marido nunca me proibiu, ao contrário, apoiava-me e admirava-me por tudo o que eu fazia, porque também gosta de ajudar o próximo.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE ELIZABETH BATTISTA

Maria Archer – O encontro com uma escritora viajante
Elisabeth Battista

Com Maria Archer gasto horas de trabalho e de lazer ficando-me sempre a impressão de haver passado momentos em boa companhia. Conheci Maria Archer na travessia para a outra margem do Atlântico. Sim, depois que li Ela é Apenas Mulher (1944), no contato com Esmeralda, personagem principal do referido romance, foi encanto à primeira leitura. Naquela oportunidade, debrucei-me à janela e fitei, junto com ela, o majestoso Tejo, no seu desembarque em Cacilhas, frente à Lisboa.
Quando isto se deu? Parece que foi ontem, mas remonta a 2003, o tempo em que a Universidade de Coimbra sediou um evento internacional, no qual, em companhia de uma equipe de investigadores do Brasil, participei com apresentação de trabalhos. O grupo de estudiosos da Universidade de São Paulo – USP, dentre os quais a minha orientadora do Doutorado, a Professora. Doutora. Benilde Justo Lacorte Caniato (in memorian), e a Professora. Doutora. Tania Macêdo, tomou parte ativa no evento que congraçou investigadores de diversas áreas e vários países, visto se tratar de um Congresso Internacional Luso Afro Brasileiro de Ciências Sociais.
Entretanto, de passagem por Lisboa, a Professora Benilde Caniato adquiriu a obra Ela é Apenas Mulher, de Maria Archer, reeditada em 2001 pela Editora Parceria A. M. Pereira, e recomendou-me a sua leitura. Esta foi motivação suficiente para que despertasse em mim o desejo de conhecer o conjunto da produção criativa da autora e saber mais sobre a sua biografia.
E tendo o meu Projeto de Doutoramento a finalidade de contribuir para o estudo de autores da literatura de Língua Portuguesa a partir do século XX ainda pouco explorados nas relações literárias Brasil, Portugal e África, a obra de Maria Archer logo me pareceu ser um corpus em potencial.
Foi assim que ao ter elegido como objetivo dar visibilidade à diversidade cultural gerada por essas relações, me lancei na busca de documentos que fornecessem um testemunho da gênese da obra e da vida de Maria Archer, inclusive visitando alfarrabistas e adquirindo todos os títulos disponíveis. Nessas andanças conheci a escritora Maria Albertina Mitelo. À medida que sobre os materiais me debruçava, deparei-me com um fato curioso que corroborou ainda mais a minha reflexão: O fato de tendo ela nascido no limiar do século XX, e tendo contatado direta ou indiretamente com as correntes de pensamento que influenciaram, ou afetaram de forma intensa o ambiente político-cultural português até meados dos anos cinquenta do século passado, e ser, não obstante, pouco estudada pela historiografia literária da Literatura Portuguesa.
Buscando entre os lusitanos notícias sobre a autora e sua obra, contatei a amiga e poetisa Maria Albertina Mitelo , a qual se referiu a uma recente entrevista do Professor Fernando de Pádua à televisão portuguesa, em que ele, na ocasião teria nomeado a escritora Maria Archer como sua tia, e dava a conhecer a última reedição da obra Ela é Apenas Mulher.
De fato, o dado fornecido pela Maria Albertina Mitelo foi fundamental para que eu acessasse um outro estágio da investigação. Isto porque, ao tomar conhecimento dos objetivos que o mesmo perseguia, o Professor Fernando de Pádua, com a generosidade que lhe é peculiar, acolheu-me muito prontamente e concedeu uma entrevista, colocando-me em contato com pessoas simpatizantes à causa. Na oportunidade, citou existência da Dissertação de Mestrado da Professora Dina Botelho, trabalho que mais tarde fez chegar às minhas mãos. Gesto que por si só fala da confiança depositada, motivo pelo qual sou grata.
Trata-se de uma investigação que resultou num primoroso ensaio sobre a obra e a vida de Maria Archer que veio a servir-me de relevante base e fonte de consulta. Encontrei apoio também na pessoa da Dra. Olga Archer Moreira, sobrinha-neta de Maria Archer, que amavelmente me forneceu duas fotografias para ilustração daquela que em 2007 viria a ser a minha futura tese de doutoramento.
De regresso ao Brasil, o percurso investigativo mostrou-se pleno de gratas revelações. A maior delas foi constatar que, em seu longo exílio em terras brasileiras (1955 a 1982), a escritora havia lançado quatro obras e dezenas de crônicas jornalísticas. Note-se que talvez ela tenha sido a primeira autora a ter a noção exata da escassa circulação literária entre a África e o Brasil, o fato logo posto em evidência no seu ensaio jornalístico sobre o tema, “A Censura à Imprensa e ao Livro” (1956), publicado no periódico Portugal Democrático. Aí, reivindica o direito à circulação literária entre os países de Língua Portuguesa.
Sete anos mais tarde, Maria Archer, no prefácio de sua obra África Sem Luz (1962:5-6) é distinguida pelo reconhecimento dos editores em relação ao fato acima. A propósito colhi da Nota explicativa do ensaísta e crítico literário Paulo Dantas , na referida obra, publicada no Brasil, na coleção Círculo do Livro, o seguinte comentário:

(…) Sente-se que a escritora ama o seu mundo africano, compreende a sua gente, capta as suas ingenuidades, desenhando com segurança a paisagem geográfica e social do Continente Negro, no qual tem vivido e participado, através de viagens, pesquisas, passeios etc. (…) Longe de ser uma “mera turista africana”, Maria Archer, já com uma dezena de livros escritos e publicados sobre a África, é uma das vozes esclarecidas do continente. (…) Viveu e habitou na África. Cresceu no seu chão. Formou-se no seu clima. Física e psiquicamente integrada numa grande e total intimidade ecológica, a escritora tornou-se autoridade no assunto, daí o domínio com que aborda a África em todas as suas coordenadas geográficas e latitudes morais, oferecendo-nos valores de comando e interpretação.(...)

A coletânea de narrativas que integram África Sem Luz apelam à imaginação e evocam a tradição oral – elemento fundamental da cultura desses povos africanos, com quem a autora travou contato. O jogo narrativo sobrepõe-se a dimensão documental. Em suas páginas identificam-se elementos que apontam para o universo plural e diverso que caracteriza as linguagens que a autora buscou exprimir, na sua relação literária e cultural com o continente africano e com o seu tempo.
Acresce ter sido uma excelente jornalista, razoável romancista e ensaísta de certo interesse. Foi sobretudo cronista, autora de vários romances e várias dezenas de contos, como “A Sedução do Mistério” (1944) e “A Japoneza” (1956). A sua escrita tem fascinante clareza. Há uma capacidade de fundir o olhar observador e atento à astúcia de exímia prosadora, elegância no verbo e expressão impactante. Seus textos suportam uma leitura antropológica, e aí parece ter sido precursora.
A melhor fase de sua produção criativa começou na idade madura, ao atingir os 40 anos, mas desde o começo já eram pessoais o seu estilo e visão de mundo. O trato da escrita, no processo literário, em grande parte foi dedicado ao forte sentimento de identidade e divulgação da cultura dos países africanos que se comunicam em Língua Portuguesa.
A cultura portuguesa deve-lhe não apenas as contribuições da escrita perspicaz, mas sobretudo a abordagem lúcida e corajosa de questões que abrangiam a vida social e suas contradições que ela teve a ousadia de levantar sendo este um dos seus traços mais marcantes. A linguagem de Maria Archer não tem banalidades, expõe os conflitos morais e sociais do seu tempo por meio da representação artística. O romance Ela é Apenas Mulher (1944), por si só, constitui-se emblema significativo e, não menos importante, ao tempo de sua permanência no Brasil o seu contributo, ao produzir inúmeros artigos nos jornais O Estado de São Paulo, Semana Portuguesa e Portugal Democrático que deram força à resistência ao regime vigente em Portugal.

Todo o trabalho de investigação culminou na tese de doutoramento intitulada Entre a Literatura e a Imprensa: Percursos de Maria Archer no Brasil defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP/Campus da capital, em 2007, e que teve como objetivos ressaltar as experiências e a contribuição literária desta escritora para a imprensa de Língua Portuguesa para a recuperação e a organização da produção criativa da autora, e sobre a sua obra laborada no período de exílio no Brasil (1955 a 1963).
As preocupações, naquele momento, recaíram principalmente na caracterização e avaliação de sua prática, no contexto dos anos 50-60, período rico e fértil em transformações, tanto no Brasil quanto em Portugal e de intensas lutas pela independência na África lusófana.
Este depoimento, que muito me apraz produzir é também um dos produtos do Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora , dedicado em homenagem à memória das Marias: Archer e Lamas. O evento e a publicação que integrará este e outros textos traduzem-se na atualização da memória e vem, até certo ponto, colmatar uma falha que pesa sobre o nome da autora, e não merece ser deixada ao abandono dos investigadores, tanto mais que é amplamente reconhecida pelo público-leitor.

A literatura de Maria Archer singrou as águas do Índico, do Atlântico e aportou no Brasil. Pode-se dizer que, assim como a força unificadora da língua de expressão portuguesa, a sua produção criativa provou ter vocação marítima, pois transpôs os hostis entraves das fronteiras geográficas, e passou a ser abertura para o estreitamento dos laços identitários entre os países lusófonos.




1 Estágio Pós-Doutoral/Universidade de Lisboa – Bolsa de Investigação/CAPES, na Faculdade de Letras/FLUL/CEC/Portugal. Doutora pela Universidade de São Paulo – USP. Docente no Departamento de Letras do Campus Universitário de Cáceres, e no Programa de Pós-graduação em Estudos Literários – PPGEL, da Universidade do Estado de Mato Grosso -UNEMAT/Brasil.
2 Centro de Estudos de Culturas e Literaturas de Língua Portuguesa – CELP.

3 Maria Albertina Mitelo é autora de quatro obras de poemas: Entre Pássaros e o Mar (2002), O Corpo das Aves (2004), Uma Leve Matéria (2007) e Matéria Brevíssima (2009). Edições Afrontamento.
4 Professor Doutor Fernando Manuel Archer Moreira Paraíso de Pádua, Fundador da Fundação Professor Fernando de Pádua e do Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva – INCP. Autor de O Livro do Coração, (2008) e Conversas no Meu Consultório (2011).
5 BOTELHO, Dina Maria dos Santos. “Ela é Apenas Mulher” Maria Archer Obra e Autora. Dissertação de Mestrado em Estudos Anglo-portugueses, apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sob a orientação da Professora. Dra. Maria Leonor Carvalhão Buescu. Lisboa, 1994, 182p.
6 Paulo Dantas, ensaísta, crítico literário, romancista, jornalista, vice-presidente da Academia de Letras de Campos do Jordão, presidente da Academia Brasileira de Literatura Infanto-Juvenil. Detentor dos prêmios Coelho Neto e Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras.
7 Realizado pela Mulher Migrante - Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade, com apoio da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, na Maia/Porto em novembro de 2011.
8 A autora, além da contribuição à imprensa periódica publicou no Brasil: Terras Onde se Fala Português (1957), Os Últimos Dias do Fascismo Português (1959), África Sem Luz (1962), Brasil, Fronteira da África (1963).

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

GRAÇA GUEDES "O tempo e os modos de viver a cidadania"

Cumprimentos: Mesa e participantes neste painel A todos e a todas aqui presente
É para mim uma honra e uma grata satisfação Moderar o último painel deste ENCONTRO MUNDIAL DE MULHERES PORTUGUESAS NA DIÁSPORA e intitulado O TEMPO E OS MODOS DE VIVER A CIDADANIA agradecendo desde já a intervenção de todos os intervenientes: À Senhora Deputada Maria João Ávila, Aos senhores Deputados Carlos Gonçalves e Carlos Páscoa,
O Dr. António Regedor da Universidade Fernando Pessoa À Dra. Manuela Aguiar, Presidente da Assembleia Geral da Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade Mulher Migrante. À Senhora Cônsul Geral Maria Amélia Paiva, relatora deste painel, que tem a difícil tarefa de nos apresentar uma síntese dos contributos de todos nos diferentes painéis que integram este congresso.
É um Encontro, com uma dimensão mundial, que permite reflectir aprofundadamente e com o maior rigor científico, todas as problemáticas que envolvem questões tão amplas e diversificadas, implícitas à mulher portuguesa na nossa diáspora.
É um Encontro, que afinal é um reencontro de amigas, a quem muito especialmente saúdo e já desde o pioneiro, que aconteceu em Viana do Castelo, em Junho de 1985 –
o 1º ENCONTRO MUNDIAL DE PORTUGUESAS MIGRANTES NO ASSOCIATIVISMO E NO JORNALISMO – organizado pela Secretaria de Estado da Emigração e com o patrocínio da UNESCO
E, 10 anos depois, em Março de 1995, em Espinho,
O ENCONTRO MUNDIAL DE MULHERES MIGRANTES – GERAÇÕES EM DIÁLOGO – organizado pela Associação Mulher Migrante. Esta associação, da qual quase todas fazemos parte, em 2005 retoma a realização destes encontros e, por acção directa das suas representantes nos diversos continentes, organizando os ENCONTROS PARA A CIDADANIA em
Buenos Aires, Newark, Montreal, Toronto, Estocolmo e Joanesburgo. Para além destes Encontros, muitos outros eventos científicos tem realizado no país, razão pela qual merece o nosso reconhecimento e o nosso aplauso. Mas é o momento de iniciarmos os trabalhos, dando de imediato a palavra aos intervenientes, agradecendo o cumprimento rigoroso do tempo que dispõem, de forma a podermos estabelecer depois diálogo com todos.

Maia, 26 de Novembro de 2011

Graça Guedes

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE ELISABETH BATTISTA

Maria Archer – O encontro com uma escritora viajante

Elisabeth Battista 1

Com Maria Archer gasto horas de trabalho e de lazer ficando-me sempre a impressão de haver passado momentos em boa companhia. Conheci Maria Archer na travessia para a
outra margem do Atlântico. Sim, depois que li Ela é Apenas Mulher (1944), no contato com Esmeralda, personagem principal do referido romance, foi encanto à primeira leitura. Naquela oportunidade, debrucei-me à janela e fitei, junto com ela, o majestoso Tejo, no seu desembarque em Cacilhas, frente à Lisboa. Quando isto se deu? Parece que foi ontem, mas remonta a 2003, o tempo em que a Universidade de Coimbra sediou um evento internacional, no qual, em companhia de uma equipe de investigadores do Brasil, participei com apresentação de trabalhos. O grupo2 de estudiosos da Universidade de São Paulo – USP, dentre os quais a minha orientadora do Doutorado, a Professora. Dra. Benilde Justo Lacorte Caniato (in memorian), e a Professora. Dra. Tania Macêdo, tomou parte ativa no evento que congraçou investigadores de diversas áreas e vários países, visto se tratar de um Congresso Internacional Luso Afro Brasileiro de Ciências Sociais. Entretanto, de passagem por Lisboa, a Professora Benilde adquiriu a obra Ela é Apenas Mulher, de Maria Archer, reeditada em 2001 pela Editora Parceria A. M. Pereira, e recomendou-me a sua leitura. Esta foi motivação suficiente para que despertasse em mim o desejo de conhecer o conjunto da produção criativa da autora e saber mais sobre a sua biografia. E tendo o meu Projeto de Doutoramento a finalidade de contribuir para o estudo de autores da literatura de Língua Portuguesa a partir do século XX ainda pouco explorados nas relações literárias Brasil, Portugal e África, a obra de Maria Archer logo me pareceu ser um corpus em
Foi assim que ao ter elegido como objetivo dar visibilidade à diversidade cultural
gerada por essas relações, me lancei na busca de documentos que fornecessem um testemunho da gênese da obra e da vida de Maria Archer, inclusive visitando alfarrabistas e adquirindo todos os títulos disponíveis. Nessas andanças conheci a escritora Maria Albertina Mitelo. À medida que sobre os materiais me debruçava, deparei-me com um fato curioso que corroborou ainda mais a minha reflexão: O fato de tendo ela nascido no limiar do século XX, e tendo contatado direta ou indiretamente com as correntes de pensamento que influenciaram, ou afetaram de forma intensa o ambiente político-cultural português até meados dos anos cinquenta do século passado, e ser, não obstante, pouco estudada pela historiografia literária da Literatura Portuguesa. Buscando entre os lusitanos notícias sobre a autora e sua obra, contatei a amiga e poetisa Maria Albertina Mitelo3, a qual se referiu a uma recente entrevista do Professor Fernando de Pádua4 à televisão portuguesa, em que ele, na ocasião teria nomeado a escritora Maria Archer como sua tia, e dava a conhecer a última reedição da obra Ela é Apenas Mulher. De fato, o dado fornecido pela Maria Albertina Mitelo foi fundamental para que eu acessasse um outro estágio da investigação. Isto porque, ao tomar conhecimento dos objetivos que o mesmo perseguia, o Professor Fernando de Pádua, com a generosidade que lhe é peculiar,
acolheu-me muito prontamente e concedeu uma entrevista, colocando-me em contato com pessoas simpatizantes à causa. Na oportunidade, citou existência da Dissertação de Mestrado5 da Professora Dina Botelho, trabalho que mais tarde fez chegar às minhas mãos. Gesto que por si só fala da confiança depositada, motivo pelo qual sou grata.
Trata-se de uma investigação que resultou num primoroso ensaio sobre a obra e a vida de Maria Archer que veio a servir-me de relevante base e fonte de consulta. Encontrei apoio também na pessoa da Dra. Olga Archer Moreira, sobrinha-neta de Maria Archer, que amavelmente me forneceu duas fotografias para ilustração daquela que em 2007 viria a ser a minha futura tese de doutoramento.
De regresso ao Brasil, o percurso investigativo mostrou-se pleno de gratas revelações. A maior delas foi constatar que, em seu longo exílio em terras brasileiras (1955 a 1982), a escritora havia lançado quatro obras e dezenas de crônicas jornalísticas. Note-se que talvez ela tenha sido a primeira autora a ter a noção exata da escassa circulação literária entre a África e o Brasil, o fato logo posto em evidência no seu ensaio jornalístico sobre o tema, “A Censura à Imprensa e ao Livro” (1956), publicado no periódico Portugal Democrático. Aí, reivindica o direito à circulação literária entre os países de Língua Portuguesa. Sete anos mais tarde, Maria Archer, no prefácio de sua obra África Sem Luz (1962:5-6) é distinguida pelo reconhecimento dos editores em relação ao fato acima. A propósito colhi da Nota


explicativa do ensaísta e crítico literário Paulo Dantas6, na referida obra, publicada no Brasil, na coleção Círculo do Livro, o seguinte comentário: (…) Sente-se que a escritora ama o seu mundo africano, compreende a sua gente, capta as suas ingenuidades, desenhando com segurança a paisagem geográfica e social do Continente Negro, no qual tem vivido e participado, através de viagens, pesquisas, passeios etc. (…) Longe de ser uma “mera turista africana”, Maria Archer, já com uma dezena de livros escritos e publicados sobre a África, é uma das vozes esclarecidas
do continente. (…) Viveu e habitou na África. Cresceu no seu chão. Formou-se no seu clima. Física e psiquicamente integrada numa grande e total intimidade ecológica, a escritora tornou-se autoridade no assunto, daí o domínio com que aborda a África em todas as suas coordenadas geográficas e latitudes morais, oferecendo-nos valores de comando e interpretação.(...)
A coletânea de narrativas que integram África Sem Luz apelam à imaginação e evocam a
tradição oral – elemento fundamental da cultura desses povos africanos, com quem a autora travou contato. O jogo narrativo sobrepõe-se a dimensão documental. Em suas páginas identificam-seelementos que apontam para o universo plural e diverso que caracteriza as linguagens que a autora buscou exprimir, na sua relação literária e cultural com o continente africano e com o seu tempo. Acresce ter sido uma excelente jornalista, razoável romancista e ensaísta de certo interesse. Foi sobretudo cronista, autora de vários romances e várias dezenas de contos, como “A Sedução do
Mistério” (1944) e “A Japoneza” (1956). A sua escrita tem fascinante clareza. Há uma capacidade de fundir o olhar observador e atento à astúcia de exímia prosadora, elegância no verbo e expressão impactante. Seus textos suportam uma leitura antropológica, e aí parece ter sido precursora. A melhor fase de sua produção criativa começou na idade madura, ao atingir os 40 anos, mas desde o começo já eram pessoais o seu estilo e visão de mundo. O trato da escrita, no processo literário, em grande parte foi dedicado ao forte sentimento de identidade e divulgação da cultura dos países africanos que se comunicam em Língua Portuguesa. A cultura portuguesa deve-lhe não apenas as contribuições da escrita perspicaz, mas sobretudo a abordagem lúcida e corajosa de questões que abrangiam a vida social e suas
contradições que ela teve a ousadia de levantar sendo este um dos seus traços mais marcantes. A linguagem de Maria Archer não tem banalidades, expõe os conflitos morais e sociais do seu tempo por meio da representação artística. O romance Ela é Apenas Mulher (1944), por si só, constitui- se emblema significativo e, não menos importante, ao tempo de sua permanência no Brasil o seu contributo, ao produzir inúmeros artigos nos jornais O Estado de São Paulo, Semana Portuguesa e Portugal Democrático que deram força à resistência ao regime vigente em Portugal.
Todo o trabalho de investigação culminou na tese de doutoramento intitulada Entre a
Literatura e a Imprensa: Percursos de Maria Archer no Brasil defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP/Campus da capital, em 2007, e que teve como objetivos ressaltar as experiências e a contribuição literária desta escritora para a imprensa de Língua Portuguesa para a recuperação e a organização da produção criativa da autora, e sobre a sua obra laborada no período de exílio no Brasil (1955 a 1963).
As preocupações, naquele momento, recaíram principalmente na caracterização e avaliação de sua prática, no contexto dos anos 50-60, período rico e fértil em transformações, tanto no Brasil quanto em Portugal e de intensas lutas pela independência na África lusófana. Este depoimento, que muito me apraz produzir é também um dos produtos do Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora7, dedicado em homenagem à memória das Marias: Archer e Lamas. O evento e a publicação que integrará este e outros textos traduzem-se na atualização da memória e vem, até certo ponto, colmatar uma falha que pesa sobre o nome da autora, e não merece ser deixada ao abandono dos investigadores, tanto mais que é amplamente reconhecida pelo público-leitor.
A literatura de Maria Archer8 singrou as águas do Índico, do Atlântico e aportou no
Brasil. Pode-se dizer que, assim como a força unificadora da língua de expressão portuguesa, a sua produção criativa provou ter vocação marítima, pois transpôs os hostis entraves das fronteirasgeográficas, e passou a ser abertura para o estreitamento dos laços identitários entre os países


1 Estágio Pós -Doutoral/ Universidaade de Lisboa -Bolsa de Investigação/ CAPES na Faculdade de Letras FLUL/CEC
Portugal. Docente no Departamento de Letras do Campus Universitário de Cáceres, e no Programa de Pós-graduação
em Estudos Literários – PPGEL, da Universidade do Estado de Mato Grosso -UNEMAT.

Centro de Estudos de Culturas e Literaturas de Língua Portuguesa – CELP
.do
em Estudos Anglo-portugueses, apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de
Lisboa, sob a orientação da Professora. Dra. Maria Leonor Carvalhão Buescu. Lisboa, 1994, 182p.

3 Maria Albertina Mitelo é autora de quatro obras de poemas: Entre Pássaros e o Mar (2002), O Corpo das Aves
(2004), Uma Leve Matéria (2007) e Matéria Brevíssima (2009). Edições Afrontamento.
4 Professor Doutor Fernando Manuel Archer Moreira Paraíso de Pádua, Fundador do Instituto Nacional de Cardiologia
Preventiva – INCP. Autor de O Livro do Coração, (?) e Conversas no Meu Consultório (2011).
5 BOTELHO, Dina Maria dos Santos. “Ela é Apenas Mulher” Maria Archer Obra e Autora. Dissertação de Mestra
6 Paulo Dantas, ensaísta, crítico literário, romancista, jornalista, vice-presidente da Academia de Letras de Campos do Jordão, presidente da Academia Brasileira de Literatura Infanto-Juvenil. Detentor dos prêmios Coelho Neto e Afonso
Arinos, da Academia Brasileira de Letras.

7 Realizado pela Mulher Migrante - Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade, com apoio da Secretaria de
Estado das Comunidades Portuguesas, na Maia em novembro de 2011.
8 A autora, além da contribuição à imprensa periódica publicou no Brasil: Terras Onde se Fala Português (1957),
Os Últimos Dias do Fascismo Português (1959), África Sem Luz (1962), Brasil, Fronteira da África (1963).

COMUNICAÇÃO DE TERESA HEIMANS

Começo por felicitar os membros da mesa,as autoridades
oficiais aqui presentes,bem como todos os/as participantes deste
encontro.
Em relação ao Associativismo não vou repetir o passado
que todos nós conhecemos,mas vou dar uma visão do presente e do
futuro das Associações ,sobretudo na Europa e mais propriamente na
Holanda.
O movimento associativo que durante anos foi o baluarte
social nas comunidades de portugueses no estrangeiro,divulgando
a lingua /a cultura,e fortelecendo os laços de amizade,colaboração
entre as pessoas ,desempenhou igualmente um papel social de
relevancia,encontra-se neste momento em estado muito grave de
sobrevivência.
Os motivos são dois essencialmente;
-Falta de meios financeiros
-Falta de pessoas para os orgãos directivos.
O papel da mulher começou então com uma ascenção vertiginosa.As mulheres deixaram de ser meros meios de decoração,para passarem a ser optimas para angariar fundos tão
necessários.Começam a praticar todo e qualquer tipo de desporto e até as mais idosas se inscrevem em cursos de manutenção.As mulheres passam a estar presentes em todas as acções desportivas/culturais ou de recreio.
Porque razão na grande maioria das associações as mulheres não estavam presentes nos orgãos gerentes ou nas AG?
Felizmente começaram a aparecer casos de grande sucesso de gestão femenina.Isto deveu-se ao facto de diante da decisão dos directores homens, de fechar as colectividades serem as mulheres que decidem ser elas a manter as mesmas, abertas,

Ë necessário abrir ás mulheres os corpos gerentes de todas as organizaçòes.Os homens ao faze-lo não perdem privilégios,passam sim a ter o privilégio de compreender que a
presença,participação,creatividade das mulheres na gestão das organizações,faz parte da sua libertação e promoção social,e que os homens,estão consagrando a sua própria libertação ao fazer e facilitar com que nas colectividades reine a complementaridade entre homem/ mulher,auxiliando-se mutuamente,construindo assim um mundo tão
desejado por ambos.
Vivendo num mundo de mudança,as mulheres mudaram também.Torna-se necessário que o movimento associativo tome consciência que para essa mudança se fazer no tempo,homens e mulheres terão que estar em pé de igualdade como dirigentes,com todas as suas qualidades,o seu tacto femenino,a sua irresistível criatividade.

Este é o futuro.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

INTERVENÇÃO DE ANTÓNIO GONÇALVES BRAGANÇA FERNANDES Presidente da Câmara Municipal da Maia

Foi com subida honra que a Maia acolheu e apoiou o 3º Encontro Mundial de Mulheres
Portuguesas na Diáspora que decorreu de 24 a 26 de Novembro de 2011 no Fórum da Maia,
numa iniciativa conjunta da Secretaria de Estado das Comunidades e da Associação Mulher Migrante e Participante da Diáspora, a qual contou com ilustres personalidades femininas, mas também masculinas.
Tendo integrado esta iniciativa uma Exposição Coletiva de Pintura e Escultura subordinada ao tema “Feminino Plural” e “Rostos da República” que ficou patente na Biblioteca Municipal Dr. Vieira de Carvalho até ao final do ano de 2011, prestou-se assim homenagem de forma simbólica a todas as mulheres portuguesas na diáspora, através da evocação de duas grandes personalidades que muito fizeram, pela Diáspora Feminina. Maria Lamas mulher de personalidade dinâmica e afirmativa, que desenvolveu vários projetos, organizando conferências, concertos e exposições, refletindo na sua obra escrita, a sua experiência de vida quer durante o período em que permaneceu em África depois de casar, quer como membro do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, associação fundada durante a I República, quer ainda como membro do Conselho Mundial da Paz, que a levou ao exílio, durante oito anos, na cidade de Paris, tendo sido uma das primeiras pessoas a receber a Ordem da Liberdade das mãos do Presidente da República, a qual viria a falecer em Portugal ao 90 anos de idade e Maria Archer, ficcionista, ensaísta, tradutora, jornalista, poeta e dramaturga, que
nasceu em 1905, em Lisboa, e faleceu na mesma cidade aos 77 anos, tendo também a sua obra espelhado a sua experiência de mulher migrante por terras de Moçambique, Guiné e Angola até se voltar a fixar na metrópole.
Traduzindo-se o fenómeno da migração feminina num tema que desperta tão grande interesse de estudiosos e investigadores do mundo inteiro, acredito na utilidade destes fóruns de partilha de saberes e de experiências e na importância de uma atuação informativa e sensibilizadora nestas áreas. Considero que mais do que um encontro de mulheres, este Encontro Mundial das Mulheres Portuguesas na Diáspora que se realizou na Maia, foi um encontro sobre as mulheres no contexto da migração e da sua importância ao longo dos tempos e no momento atual, em que a presença feminina assume especial relevância em todos os quadrantes e segmentos da vida política, social, cultural, desportiva e também ao nível da investigação, entre outros.
O Concelho da Maia sempre fez questão de acompanhar a abordagem dos grandes temas da
atualidade, tendo sido com grande satisfação que viu realizar-se este Encontro Mundial em Terras da Maia, que por sua vez também tem tradições migratórias, pelo que em momentos como este aproveito sempre para recordar que foi com a ajuda dos emigrantes que, quando regressavam definitivamente a Portugal, ajudaram a construir este lindo concelho que é a Maia de hoje.

António Gonçalves Bragança Fernandes, Engº.

Presidente da Câmara Municipal da Maia

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE CÉSAR GOMES DE PINA

Como se fundaram as Academias do Bacalhau em Portugal?

A primeira Academia a ser fundada fora do continente africano, foi a Academia do Bacalhau do Funchal, na Ilha da Madeira, no dia 10 de Julho de 1987. Depois, outras se seguiram: Lisboa; Porto; Algarve; São Miguel; Costa do Estoril; Estremoz; Viseu; Aveiro; Braga; Terceira; Coimbra; Faial e Setúbal.
PERMITAM-ME AGORA QUE REFIRA DE UMA MANEIRA MUITO ESPECIAL A MINHA MUI
BRIOSA E TRIPEIRA ACADEMIA DO BACALHAU DO PORTO, FUNDADA EM 16 DE SETEMBRO DE 1989.
ACADEMIA DO BACALHAU DO PORTO

Uma Receita de Sucesso.
A Academia do Bacalhau do Porto, há 22 anos a semear amizade, solidariedade e portugalidade, é hoje uma Academia exemplar em Portugal e no mundo e uma referência cultural e filantrópica no distrito e que apesar da crise não pára de crescer pois está perto de atingir 300 associados efectivos (Compadres e Comadres) .
O ano passado bateram-se todos os recordes no que diz respeito a presenças nos Jantares-Tertúlia da Academia do Bacalhau do Porto, com os dados oficiais a apontarem para uma média mensal de 140 compadres e comadres, número este que significa um aumento de cerca 540 por cento face ao período compreendido entre 1996 e 2005.
A justificação para este crescimento sustentado deve-se à introdução de um conceito trazido do meu mundo empresarial, ou seja, uma Gestão Por Objectivos, bem como um princípio que sempre me acompanhou e o qual procuro passar aos mais novos, incentivando-os a sair da vulgaridade, como forma para alcançarem sucesso nos seus projectos de vida. “Sair da vulgaridade é fazer e ser diferente no sentido positivo”.
E, a verdade é que na Academia do Bacalhau do Porto, têm-se introduzido coisas novas, nomeadamente a criação inédita de Vice-Presidências importantes tais como: Área da
Saúde (Vasco Gama, médico cardiologista e Director da Cardiologia do Centro Hospitalar de Gaia e Luís Ferraz, médico urologista e Director de Urologia do mesmo Hospital); Área Cultural (Delfim Sousa, Director da Casa Museu Teixeira Lopes,
Nassalete Miranda, professora universitária e Júlio Couto, escritor); Área da Juventude (Francisco Rodrigues, engenheiro, Marisa Pinho jornalista e Nuno Nóbrega, gestor); Área Jurídica (Rui Duarte e António Duarte- advogados), sempre disponíveis quando solicitados, a prestarem a sua melhor ajuda a Compadres da nossa ou doutras Academias do país e do estrangeiro.
A «receita» para o invulgar crescimento desta Academia está assim relacionada com a visão estratégica de juntar à vertente de tertúlia, a vertente cultural, tornando os
Jantares-Tertúlias mais apelativos por força da presença de reconhecidas personalidades das mais diversas áreas, da saúde à economia, passando pelo mundo académico, cultural, desportivo ou social, as quais apresentam interessantes e úteis palestras subordinadas a temas das suas especialidades. Mas, a mais importante e eficaz “receita” para o sucesso da Academia
do Bacalhau do Porto, reside na motivação, empenhamento e esforço colectivo daqueles Compadres e Comadres que me acompanham e sentem o verdadeiro espírito desta Academia.
E permitam-me citar Aquilino Ribeiro, ”como quem alcança, não cansa”, vamos continuar nesta rota com o mesmo, senão com redobrado entusiasmo e trabalho de equipa cada um
dando o seu melhor para ajudar, dentro das nossas possibilidades, os mais desfavorecidos tendo como prioridades Centros de acolhimento de crianças, Lares para a terceira idade e Instituições Sociais que mitigam a fome a quem, sem culpa própria,
nada tem para comer.
Quanto à integração da Mulher neste movimento, há que reconhecer que numa primeira fase a necessidade de se reforçarem os laços de fraternidade entre os portugueses,
conduziu à criação das Academias muito à semelhança dos clubes masculinos de influência anglo-saxónica. Torna-se claro que a Mulher não teve, no início, uma presença constante nas primeiras tertúlias das Academias, situação que só ocorreu anos mais tarde e duma forma progressiva, como aconteceu na Academia do Bacalhau do Porto, com alguma resistência inicial, mas que acabou por singrar e este exemplo foi a pouco e pouco seguido pela maioria das outras Academias. No que me diz respeito valeu a pena tal esforço e luta. Mas para evitar confusões e más interpretações até já foi aprovada em Congresso Mundial uma moção segundo a qual a mulher pode ocupar quaisquer lugares nos Órgãos Sociais das Academias, desde que seja Comadre efectiva o mesmo é dizer, Comadre de pleno direito,ficando assim bem claro que os corpos
dirigentes não estão apenas destinados aos homens, pois as Academias do Bacalhau, não são nem nunca serão “clubes machistas” sendo necessário e prioritário desmistificar,
de uma vez por todas, esta absurda ideia. As senhoras, designadas Comadres sempre tiveram lugar nas Academias desde a saudosa Amália Rodrigues, Vera Lagoa, a outras que até fizeram parte de Governos como a distinta Comadre Manuela Aguiar, aqui presente e muitas mais.
Felizmente que a maioria das Academias soube interpretar correctamente estes princípios e até algumas, como por exemplo a de Toronto, que tem como Presidente uma Comadre ou como a do Porto, que integra nos seus Órgãos Sociais Comadres, Nassalete Miranda e outras, exemplares no bom desempenho das suas funções, bem como na construção da boa imagem que hoje a nossa Academia desfruta em Portugal e no
mundo. Quem assim não pensa nem procede, não está a interpretar correctamente o verdadeiro espírito das Academias, num mundo onde a Mulher desempenha cada vez mais,
importantes papéis em todas as áreas.
Concluindo, “a presença da mulher é absolutamente necessária e imprescindível em todas as Tertúlias e não somente, como algumas Academias permitem, nos Jantares de Natal ou Aniversários” pois à mulher se deve, a consolidação de ligação do núcleo familiar a Portugal no que respeita: à preservação da língua portuguesa ensinada e falada em casa; aos costumes portugueses (religiosos, gastronómicos, etnográficos,
etc); à transmissão de valores e princípios educacionais, bem como, à
prática de economia familiar de poupança.
BEM-HAJA POIS A TODA AS COMADRES DAS ACADEMIAS DO BACALHAU DO MUNDO
Termino afirmando “em primeira mão” que face à gravíssima situação com que estamos confrontados a SOLIDARIEDADE DA ACADEMIA DO BACALHAU DO PORTO DECLAROU GUERRA SEM
TRÉGUAS CONTRA A CRISE.
Muito ainda ficou por dizer mas saúdo-vos pela paciência e generosidade com que me ouviram. MUITO OBRIGADO E APROVEITO A OPORTUNIDADE PARA A TODOS VÓS E VOSSAS
FAMÍLIAS, DESEJAR UM BOM NATAL E UM PRÓSPERO ANO NOVO, COM MUITAS SAÚDE, PAZ E
SUCESSO.

César Gomes de Pina

Maia, 25 de Novembro de 2011

“Papel da Mulher na Integração Social nas Academias do
Bacalhau no Mundo”
Dr. César Gomes de Pina
APRESENTAÇÃO DO ORADOR

Para nos falar deste interessante tema e deste curioso movimento filantrópico, genuinamente português, nascido há quase meio século na África do Sul e hoje espalhado pelos quatro cantos do mundo vamos conversar com Dr. César Gomes de Pina, Gestor Empresarial, que desde 2006 é o Presidente da Academia do Bacalhau do Porto e sem dúvida o seu grande impulsionador ao longo destes 22 anos de existência.
Homem determinado e amigo do seu amigo, considera que a Presidência da Academia, nunca foi um simples “hobby”, mas sim uma verdadeira paixão e a experiência mais gratificante e enriquecedora da sua vida. Com a muita dedicação, amor e entusiasmo contagiante, conseguiu através duma correcta Gestão Por Objectivos e num esforço
colectivo com todos os associados, fazer da Academia do Bacalhau do Porto, uma Academia “exemplar em Portugal e no Mundo”, bem como uma referência cultural e de solidariedade do Distrito do Porto, tendo sido recentemente distinguida com o Troféu Portugalidade e Solidariedade.
O Dr. César Gomes de Pina, foi Capitão Miliciano em Moçambique e findo o seu serviço militar, professor do Ensino Secundário em Lourenço Marques e Gestor duma multinacional americana. Após a descolonização e depois duma breve passagem pela África do Sul, ao serviço daquela empresa, regressou definitivamente a Portugal com sua esposa e dois filhos, tendo exercido como professor do ensino secundário nos Liceus de Guimarães, Gaia e Espinho, antes de ingressar como Gestor Comercial e de Marketing no Grupo Amorim durante cerca de 20 anos, ao fim dos quais se reformou, dedicando-se a tempo inteiro de “alma e coração” à Academia do Bacalhau do Porto em particular e ao movimento das Academias do Bacalhau no mundo em geral.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE DINA BOTELHO

Homenagem a Maria Archer – Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diáspora
Maia, 24 de Novembro de 2011

Boa noite a todos e em especial aos elementos da mesa a quem cumprimento respeitosamente. Gostaria de começar por agradecer o convite que me foi dirigido pela
Associação Mulher Migrante, através da Dra Rita Gomes, para estar aqui presente esta noite e poder participar numa homenagem, merecida, a Maria Archer.
Fui apresentada como sendo a autora da primeira tese de mestrado sobre a vida e a
obra de Maria Archer. De facto, assim é e apresentei-a em 1994. Intitula-se “Ela é apenas mulher- Maria Archer, Obra e autora” e já na altura disse, apresentando comprovativos, que Maria Archer nasceu em 4 de Janeiro de 1899 e não 1905 como aparece muitas vezes em estudos e até enciclopédias que a estudam ou a ela se referem apenas. É com imensa tristeza que vejo que ainda hoje se desconhece a verdade acerca do ano do seu nascimento. Tenho a certeza que Maria Archer ficaria profundamente contente por saber deste facto até porque era ela própria que o fazia em documentos públicos que preenchia, tal como consta da sua ficha do arquivo biográfico do Diário de Notícias que apresento também na minha tese. Sim, de facto Maria Archer retirava seis anos à sua existência, por um lado por uma questão de vaidade e, por outro lado, porque talvez não gostasse de ter nascido no século anterior. No entanto, chamo desde já a atenção para a necessidade de nós, que a estudamos e por uma questão de veracidade dos factos, devermos apresentar a data correta. Até à minha tese ninguém tinha estudado Maria Archer e ela teve como objetivo iniciar o estudo da autora e da sua obra mas esse estudo não foi, como devem calcular, esgotado dada a riqueza e a
variedade temática da obra de Maria Archer. É necessário continuar a estudá-la sobretudo na vertente da literatura colonial onde considero haver uma grande riqueza por explorar.
Há também que continuar a publicar os seus livros pois representam marcos históricos.
Homenagem seja feita também à editora Parceria António Maria Pereira que já apostou na republicação de dois dos seus livros (Ela é Apenas Mulher e Nada lhe será perdoado). Disse atrás que esta era uma homenagem merecida pois considero que Maria Archer contribuiu imenso para a luta por uma condição mais digna para a mulher e também para a sua igualdade relativamente ao homem, não dizendo ou gritando como referiu a Dra Mª Benedicta sobre Maria Lamas mas mostrando a situação em que viviam as mulheres. Aliás, o tema principal dos seus romances e novelas era a vida da mulher, a sua relação com a família, com o trabalho e com os homens. O título de um dos seus romances mais emblemáticos é Ela é apenas mulher apontando mesmo para a posição decadente da mulher na época em que a escritora viveu e criou. A preocupação fundamental da sua obra era a situação da mulher e as dificuldades por ela sentidas. África era uma paixão na sua obra.
Maria Archer foi uma das poucas mulheres do seu tempo a ter como profissão a de
jornalista e escritora. Ela publicou de 1920 a 1963, tendo havido dois anos em que publicou 4 livros por ano (1938 e 1950) e alguns dos seus livros chegaram mesmo à 3ª edição como por exemplo Há de Haver uma Lei e Aristocratas. Ela é Apenas Mulher é de 1944 e no mesmo ano saiu a 2ª edição tendo chegado à 3ª edição em 1952. Escreveu, pois, 31 livros de 1935 a 1963, 5 deles no Brasil (Terras Onde se Fala Português, África sem Luz, Brasil, Fronteira de África, Os últimos Dias do Fascismo Português e do último nada se sabe), cinco peças de teatro e três traduções. Mas não se julgue que era fácil ser uma mulher escritora na época. Este é outro reconhecido mérito de Maria Archer. Muitas mulheres da época, tais como Maria Lamas e Irene Lisboa, esconderam-se atrás de pseudónimos, quer femininos quer masculinos, para poderem escrever à vontade sem penalizarem a sua vida pessoal ou até mesmo para obterem
maior imparcialidade por parte da crítica. Se agora temos muitas mulheres escritoras, no início do séc. XX, quando uma mulher queria escrever sobre outro tema que não a vida doméstica ou a educação dos filhos refugiava-se atrás de um pseudónimo.
Maria Archer nunca se escondeu, nunca usou pseudónimos, talvez esse mesmo facto
tenha levado ao afastamento da família que, por vezes, não viu com bons olhos certas
publicações suas. Também o seu divórcio (esteve casada apenas 10 anos durante os quais publicou apenas em periódicos) poderá ter tido alguma base na sua profissão apesar da causa pública do mesmo ter mais a ver com questões familiares (sevícias e injúrias graves) e menos profissionais. Maria Archer viveu numa época em que era suposto a mulher ser apenas boa filha, boa esposa e boa mãe. As únicas atividades permitidas à mulher eram a lida doméstica e a educação dos filhos. Maria Archer dizia que escrever era fugir ao longo silêncio a que a mulher da época estava votada. Até o acesso à cultura é negado à mulher na época, como Maria Archer retrata bem na personagem de Adriana (de Casa sem Pão) que tinha de se esconder para ler livros.
Houve mesmo casos em que a crítica a um livro escrito com pseudónimo masculino era
otimista e depois de se saber que havia sido escrito por uma mulher, o mesmo crítico dizia o contrário do que havia dito antes. João Gaspar Simões foi, dos críticos literários da época, o que melhor entendeu a luta da mulher escritora. Disse ele que «Em Portugal uma mulher que queira falar de si mesma com franqueza equivalente à de um homem quase pudico corre risco de enxovalho» Maria Archer mostrou as vozes profundas do seu ser sem nunca recorrer a pseudónimos o que fez dela única na sua época e no seu meio. Maria Archer partia do real e era esse real que interessava aos seus leitores. Ela própria reconheceu que a literatura feminina da sua época não era criativa «pois a mulher encontrava-se subjugada pela estrutura social e familiar repressiva.»
Um dos grandes elogios que lhe fazem na época foi feito pelo próprio João Gaspar
Simões que dela fala como se de um homem se tratasse: «Abram os olhos, Exmos Srs – têm diante de vós um escritor (teimo em chamar-lhe escritor porque os seus contos, embora tenham sexo na observação que denunciam e nos temas que tratam, não o têm – são, portanto do sexo nobre – pelo menos num país em que o homem ainda é considerado o 1º sexo- não o têm no estilo, na expressão, na visão , na forma)em nada inferior, como contista, a qualquer dessas incontestadas glórias». E mais à frente diz «esta autora não pode deixar de ser considerada desde já um grande contista, um grande escritor».
Mas sendo este um encontro sobre as mulheres da diáspora não podemos deixar de
referir a sua ida para o Brasil em 5 de Julho de 1955 no navio Sta Maria, com destino a Santos. Tendo publicado dois livros no ano anterior e reeditado um terceiro poderemos questionar- nos acerca dos motivos que a terão levado a partir. Por um lado não estaria contente com a falta de liberdade dos escritores, por outro tinha de evitar ser presa. Maria Archer em 1945 havia já participado no MUD – Movimento de Unidade democrática que era uma frente de oposição ao salazarismo, em 1949 apoiou publicamente a candidatura do general Norton de Matos à Presidência da República, acompanhou , em 1952, o julgamento do capitão Henrique Galvão - contestador da ditadura salazarista prometendo sobre ele escrever um livro e, em 1953, viu a sua casa invadida pela PIDE tendo-lhe sido confiscado o manuscrito do livro referido. Valeu-lhe na época ter já enviado parte do manuscrito para um seu amigo (Tomás
Ribeiro Colaço) no Brasil. Parte assim desgostosa com o seu país que perseguiu também a sua obra por duas vezes. Em 1939 fora-lhe apreendido o livro Ida e Volta de Uma Caixa de Cigarros e, posteriormente, em 1947 o livro Casa sem Pão. No Brasil escreveu em periódicos como O Estado de S. Paulo, Portugal Democrático e Semana Portuguesa, chegando mesmo a ser diretora deste jornal. Também publicou, como atrás referi, vários livros. De 1955 a 1971 esteve em S. Paulo, donde vai para uma estância em
Campos de Jordão por “Intoxicação da bexiga” e, de 1971 a 1977 encontramo-la em Poços
de Caldas. Nesta altura começa a sentir-se pobre e doente e é então que começa a enviar correspondência para a família e advogada. Começa a sofrer de dores nos joelhos, zumbidos contínuos nos ouvidos e diminuição do campo de visão. Em 1974 falava na possibilidade de escrever um livro sobre um assunto novo que a estava a fascinar mas a saúde não a ajudava. Nesse ano chegou a corrigir discursos de candidatos às eleições legislativas e a escrever publicidade para a rádio local. Em 1977 voltou de novo para S. Paulo tendo estado primeiro no Hospital S. Joaquim e depois na Casa de Saúde Nª Sra do Carmo. Saíu desta última para vir para Portugal mas só depois de receber resposta favorável de Marcelo Caetano ao seu pedido.
Promete «ser neutra à espera da morte em sossego e paz» numa carta de onze páginas que escreve ao seu sobrinho, o Prof. Fernando de Pádua. Em 1973 Marcelo Caetano promete que não a incomodará mas ela só regressará em 1979, com 80 anos pois pretendia ainda ver reeditados alguns dos seus livros para não regressar como uma desconhecida e também porque a doença e as dificuldades económicas não o permitiram.
Quando regressou tinha muitos jornalistas à sua espera mas a mulher que encontram
é uma senhora com dificuldades em ouvir e em falar que os deixa sem respostas. Também
Maria Archer fica desiludida consigo mesma pois, não conseguindo ultrapassar as limitações da doença, refugia-se nas lágrimas. É levada para a Mansão de Sta Maria em Marvila situação tratada mesmo na Assembleia da República a pedido do deputado Vasco da Gama Fernandes que solicitou que se mudasse a escritora do local onde se encontrava. Só conseguiu que a escritora fosse mudada para o único quarto individual desta casa. Faleceu a 23 de Janeiro de 1982 com arterosclerose cerebral.
Termino apresentando duas citações da própria Maria Archer:
«Saibam quantos fazem coro no desprestígio da obra literária das mulheres que os
nossos livros são momentos heróicos. Custam-nos coragem, e angústias, que os homens, para igual feito, desconhecem de todo» (in “Revisão de Conceitos Antiquados” Out. 1952) «Eu precisarei de morrer para que a minha obra seja avaliada na altura que eu lhe atribuí quando a escrevi – como um documento histórico duma época e da situação da mulher. » (1973)
Lanço então o desafio – Não deixemos que a sua obra morra, pois muito ainda há a
fazer, nomeadamente estudos sobre os seus cadernos coloniais e estudos sobre as suas peças de teatro. Devemos enaltecer e reconhecer a sua luta pela dignificação da condição da mulher através da apresentação da realidade que a mulher da sua época vivia. A vida da mulher de meados do séc. XX não está bem conhecida – os jovens de hoje não a conhecem e através da obra de Maria Archer poderão conhecê-la.