sexta-feira, 27 de abril de 2012

O 25 de Abril de 1974 é, para mim, hoje um data já marcada pela nostalgia, pela memória de um dos períodos fascinantes da nossa História, que então se iniciava. Durante os muitos anos em que estive envolvida na política nacional, convivi sempre com a certeza de que a evolução nos levaria em frente, num percurso reformista ascensional - e nenhum dos obstáculos encontrados no percurso abalou o meu invariável optimismo. Afinal, havia liberdade (coisa admiravelmente original no meu tempo de vida), havia eleições, respeito pelo veredicto popular, qualquer que ele fosse, havia políticos de grande dimensão moral e intelectual, havia mais direitos e mais igualdade, também para as mulheres. Estávamos na Europa, não só pela geografia, mas pelas afinidades políticas e pela abertura da sociedade à mudança, consolidando um novo relacionamento entre portuguesas e portugueses e entre eles e o Estado. Para usar um termo datado, sentia que se iriam “cumprir as promessas de Abril”. E penso que, na verdade, se cumpriu fundamentalmente o projecto de democratização e de europeização do País, num ciclo em que a sua consecução foi alcançada na dupla vertente nacional e internacional até à década de noventa. Todavia, com a chegada ao poder de uma nova geração de homens (homens, porque as mulheres são ainda uma minoria nas instâncias do poder...) e com a alteração substancial da realidade dos poderes fácticos da Europa, agora também com outros protagonistas e outras formas de liderança, podemos falar de uma nova época sombria, num inseguro novo século...
Aprendemos, à nossa custa, que a qualidade da governação democrática não é nunca uma conquista definitiva, antes provem das pessoas que, pela inteligência, pela visão e capacidade de acção política, ou pela falta delas, a defendem ou a perdem.
Estamos hoje de volta a um passado de pobreza, de emigração em massa, forçada pela miséria (que é uma forma de exílio), e de dependência dos credores externos, da “soi-disant” União Europeia, dividida numa linha Norte/Sul.
Será esta é ainda a democracia construída a partir da Constituição de 1976, num Estado soberano, democrático solidário?
Não há certezas, nem sobre Portugal, nem sobre a Europa. A Europa de Estados iguais, a Europa da “távola redonda”, que olhávamos como o garante da irreversibilidade da nossa democracia e do Estado Social, parece pronta a regredir à idade e ao lugar dos egoísmos nacionais e da prepotência dos mais fortes, sobre o pano de fundo de um capitalismo selvagem. Será, se assim for, o princípio de uma decadência fatal.
Todavia, em qualquer caso, continuo a acreditar em nós, talvez porque, a partir de fora, no longo contacto com as comunidades da Diáspora, vi que Portugal existe na sua gente, na sua cultura, no espaço da lusofonia.
É pela afirmação da cidadania e da cultura que havemos de resistir, num interregno de indefinida duração, até até nos reencontrarmos num futuro ciclo de ressurgimento.

SEMINÁRIO SOBRE MARIA ARCHER - INTERVENÇÃO DA VEREADORA LEONOR FONSECA

Imagine-se que alguém, nascido ainda no século XIX, termina a quarta classe por iniciativa própria, aos 16 anos. Esse alguém imaginário casa aos 22 anos, separando-se ao fim de dez. Faz das letras a sua vida, colaborando com jornais e editando obra própria, o que lhe custa não só a relação com a família – fruto de pinceladas autobiográficas vertidas para um romance Os Aristocratas – como perseguições políticas, nomeadamente após declarar a intenção de escrever um livro sobre Henrique Galvão e também por lhe terem sido apreendidas obras pela PIDE (a saber, Ida e volta de uma caixa de cigarros e Casa sem pão).
Esta personagem imaginária parte para o Brasil em 55 e aí mantém a veia literária, editando e colaborando de novo com a imprensa. Regressará a Portugal em 79, já doente, vindo a falecer em 1982, em Lisboa.
Novelista, contista, romancista, jornalista, cidadão na verdadeira acepção da palavra – pois afirmou inequivocamente a sua oposição ao regime de Salazar -, escritora de literatura de viagens, de livros infantis, de ensaios sobre usos e costumes africanos, a tudo isto se soma ainda a nobilíssima missão de retratar - e defender - a condição da mulher portuguesa ao longo do século XX.
Comecei por vos falar em imaginar. Pensar uma personagem. Talvez porque, remetendo-nos nós para inícios de 1900’s, dificilmente poderíamos imaginar a materialização de uma mulher assim. Existiram, é um facto: Olinda da Conceição, Margarida Marques, Ana de Castro Osório, Carolina Beatriz Ângelo. Mas eram poucas, e menos ainda as que tinham tão particular vivência, errância e que, mesmo assim, não perderam o seu norte, as suas convicções, não soçobraram ao machismo vigente.
Maria Archer é pois a nossa personagem imaginária. Ela é apenas uma mulher, dir-se-á – e a própria disse-o, dando a essa frase o título de uma das suas obras. Mas uma mulher maior porque, na grandeza das suas atitudes, se efabulou para todas e todos nós. Alcançou o justo lugar de exemplo, apenas por viver. Mas viver plenamente, activamente, numa altura em que viver, para uma mulher, era sinónimo de submissão. Maria Archer abdicou do conforto, da riqueza, para ser livre, criativa, participante.
É pois, para mim, uma personagem imaginária. Real, mas imaginária. Porque é nesse lugar que guardo as pessoas capazes das coisas impossíveis.