segunda-feira, 30 de novembro de 2015

RECORDANDO LAURA BULGER
Neste ano de 2015, outra das nossas associadas e das mais antigas, nos deixou: Laura Bulger.
Conheci a Laura há trinta anos, em Viana do Castelo, no emblemático 1º Encontro de Portuguesas Migrantes no Associativismo e Jornalismo, organizado pela Secretaria de estado das Comunidades Portuguesas.
Veio em representação do Canadá e, especificamente, enquanto responsável pelos Estudos Portugueses na York University de Toronto, onde era Professora, para nos dar a conhecer a problemática da mulher imigrante numa sociedade pluralista, como é a do Canadá (In Actas do 1º Encontro de portuguesas Migrantes no Associativismo e Jornalismo. Porto: Edição do Centro de Estudos da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, pp. 49-51).
Algum tempo depois e a seu convite, conheci bem de perto os jovens que integram os Estudos Portugueses na York University, quando aí me desloquei para proferir uma conferência e percebi a dinâmica deste grupo que a Laura liderava, na prossecução da missão que encetaram - transmissão de uma herança cultural que seja adequada à realidade atual do país de origem. Efetivamente, os valores tradicionais transmitidos pelos seus Pais e com que se identificam, mantêm uma cultura transplantada de um Portugal de há mais de 25 anos e tal como Laura nos relatava em Viana do Castelo (p 51) … com elementos estáticos que os filhos não conseguem compreender nesta sociedade multifacetada e em constante evolução, pelo que a missão deste grupo de estudos universitários balizava adequar a nossa herança cultural a este País de acolhimento, politicamente multicultural e incentivador da participação ativa do imigrante na nova sociedade, sem ter de abdicar da língua e cultura de origem.
Conheci-a então melhor, não só no seu contexto de trabalho, mas também no seu ambiente familiar, pois fez questão que ficasse alojada em sua casa. Uma moradia antiga, victoriana, localizada num pacato bairro residencial de Toronto. Com o marido John e o seu gato Chomsky, partilhamos momentos fantásticos que nunca esquecerei, impregnados da sua inteligência e do seu sorriso sereno!
Aqui ficou consolidada a nossa amizade e que perdurou.
Encontrávamo-nos, sempre que vinha a Portugal e ao Porto, onde tinha residência.
Mais tarde e de regresso a Portugal, passou a integrar o quadro docente da Universidade de Trás os Montes e Alto Douro (UTAD), mas continuou com residência no Porto.
A Laura era licenciada em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, onde também obteve o seu doutoramento, com uma dissertação onde o objeto de estudos foi A Sibila (1954) de Agustina Bessa Luís, tornando-se uma grande especialista da obra magnífica desta grande mulher da literatura lusófona e também uma grande sua amiga.
Participou em muito eventos científicos organizados pela Associação Mulher Migrante, tais como em 1995 e em Espinho, no Encontro Mundial de Mulheres Migrantes – Gerações em Diálogo, onde foi comentadora da Mesa Redonda A Mulher nas Literaturas de Língua Portuguesa, moderada por Agustina Bessa Luís. E também em 2011, na Maia, no Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diáspora, onde interveio no Painel Cidadania e Cultura, com a comunicação intitulada Agustina revisitada… num relance (In Aguiar, M. & Guedes, G. Orgs. Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diáspora. Edição da Associação Mulher Migrante. Espinho: Tipografia Meneses – Cooperativa Gráfica de Espinho, pp. 62-65).
Cidadania e Cultura, marcam a vida da Laura Bulger e marcaram todos e todas com quem partilhamos momentos de convívio ou de aprendizagens e que nunca esqueceremos.
O seu sorriso sereno e a sua simpatia perdurará em todos nós.

Graça Guedes

 

sábado, 28 de novembro de 2015



Antiga secretária de Estado das Comunidades
  1. “Governo tem de reconstituir uma máquina de apoio aos portugueses no estrangeiro”
Manuela Aguiar
Manuela Aguiar
Foto: Alain Piron
Publicado Quarta-feira, 10 Junho 2015 às 14:27
“O Governo português deve reconstituir a Secretaria de Estado da Emigração” para dar resposta aos problemas dos emigrantes, como os novos casos de exploração de portugueses na construção. A antiga secretária de Estado da Emigração e das Comunidades, Manuela Aguiar, esteve no Luxemburgo e defende que o Governo deve ter uma política virada para os portugueses que emigram, mas também para os que regressam.
Maria Manuela Aguiar esteve quinta-feira em Esch-sur-Alzette, enquanto presidente da Assembleia da Associação Mulher Migrante para acompanhar e coordenar a conferência-debate do maestro António Victorino d’Almeida sobre a “Portugalidade” (ver pág. 20).
À margem da conferência, o CONTACTO confrontou a antiga secretária de Estado da Emigração e das Comunidades (1980-1987) com os novos casos de exploração de portugueses a trabalhar na construção. Um dos últimos casos dá conta de subempreiteiros portugueses que exploram imigrantes portugueses numa obra pública num estaleiro dos Caminhos de Ferro Luxemburgueses, na cidade do Luxemburgo (ver pág. 5).
“É uma história clássica de portugueses explorados pelos próprios portugueses. Nos séculos XIX e XX encontramos muitos casos desses e julgamos que não se repetem, mas quando olhamos para estas situações terríveis são muito iguais às do passado e acontecem em países onde menos se espera, como o Luxemburgo, Noruega, Inglaterra ou Holanda. Este é um dos aspectos para o qual sempre chamei à atenção quando estava no Governo”, recorda Manuela Aguiar, que foi convidada em 1980 pelo primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro a integrar o seu executivo.
Depois de ter deixado a Secretaria de Estado da Emigração e das Comunidades, Manuela Aguiar continua a trabalhar com as comunidades portuguesas no estrangeiro. Na Associação Mulher Migrante coordena vários estudos sobre os emigrantes portugueses. Considerada uma das maiores especialistas portuguesas da emigração, critica qualquer governo, mesmo do seu PSD.
“O Governo tem a obrigação constitucional de reorganizar os serviços de emigração, o Governo tem de reconstituir uma máquina de apoio aos portugueses nos países onde estão, para combater estes fenómenos de exploração”, defende Manuela Aguiar.
“Logo a partir de 74, a primeira coisa que os governos provisórios fizeram foi criar uma Secretaria de Estado da Emigração e reorganizar os serviços para servir os portugueses. Mas quando Portugal aderiu à CEE [Comunidade Económica Europeia], achou que a emigração tinha acabado e desmantelou os serviços de emigração. Neste momento, em que temos uma emigração como nos anos 60, temos a obrigação de voltar a ter adidos sociais, que há pouco tempo acabaram, ter pessoas que possam fazer relatórios ao Governo, que possam seguir a situação dessas pessoas exploradas e indicar soluções também para outros casos. Precisamos de novos serviços, à semelhança dos que tivemos, adaptados aos tempos modernos”, propõe Manuela Aguiar.
Para a também antiga deputada eleita pelo círculo da Europa, o Governo português deve também ter uma política virada para os que querem regressar.
“O Governo tem de apoiar os que querem sair, mas também apoiar de todas as formas possíveis os portugueses que querem regressar. Tem de haver uma política de regresso, ainda que não seja um regresso imediato, e chamar as pessoas à medida que for possível. É certo que neste momento são muito mais os que querem sair do que os que querem regressar, mas os governantes têm de adequar os instrumentos, os serviços e os meios institucionais às realidades”, defende Manuela Aguiar, lembrando o “sinal positivo” dado por Pedro Lomba, secretário de Estado do ministro-adjunto, Miguel Poiares Maduro. “Ele apelou ao regresso dos portugueses e é bom que o Governo não tenha apenas o discurso do ’vão embora’”.
Foto: Anouk Antony
    1. MEIO MILHÃO DE PORTUGUESES SAÍRAM NO MANDATO DESTE GOVERNO
Para a dirigente da Associação Mulher Migrante, Portugal está a viver actualmente uma “situação demográfica dramática” e só durante o mandato deste Governo cerca de meio milhão de pessoas já deixaram Portugal. “Há uma emigração como nos anos 60, ainda que mais qualificada e mais dispersa. Estão a sair entre 120 mil a 130 mil pessoas por ano, segundo os números do actual secretário de Estado das Comunidades, José Cesário. Em média dá meio milhão de portugueses durante o mandato deste Governo”, conclui Manuela Aguiar.
Se a política de regresso dos portugueses não for suficiente para “refazer o tecido demográfico de Portugal”, a antiga governante defende a imigração lusófona.
“Os imigrantes podem ser de todos os países de gente de boa vontade, mas acho que seria fantástico que se fizesse dentro do mundo lusófono. Já temos brasileiros cabo-verdianos, angolanos, etc., mas deveríamos reforçar os laços da lusofonia através de imigrações em massa, de preferência imigração altamente qualificada porque estamos a perder jovens altamente qualificados. É um sonho que tenho, mas na prática só podemos fazer isso com o desenvolvimento económico”, sublinha Manuela Aguiar, para quem Portugal é um “país exemplar na política de imigração”.
“Só temos é de saber ensinar os imigrantes a gostar de Portugal. Isso faz-se dando-lhes condições de vida, fazendo-os felizes, iguais, porque um imigrante que se sente bem tratado, bem integrado, com boas condições de trabalho e de convívio é um imigrante que adora o seu país de origem e que adora o seu país de destino”, conclui.
    1. SOUBE 30 ANOS DEPOIS QUE JUNCKER NÃO ERA CONTRA IMIGRAÇÃO PORTUGUESA
Manuela Aguiar foi quem negociou com Jean-Claude Juncker “a cláusula de salvaguarda que o Luxemburgo queria impor à imigração portuguesa” no início da década de 80. Diz que só passados 30 anos é que descobriu que Juncker não era contra essa imposição.
“Foram as primeiras grandes negociações que tive com o Luxemburgo e não foram fáceis. Houve uma imposição do Luxemburgo e da União Europeia e Portugal não pôde fazer nada. Na altura, eu não sabia, mas o Juncker contou depois numa entrevista na Gulbenkian, quase 30 anos depois, que ele era dos que não queriam a cláusula de salvaguarda. Ele queria dar de imediato todos os direitos aos portugueses. Três anos depois ele era primeiro-ministro e acabou com a cláusula de salvaguarda”, conta Manuela Aguiar.
A responsável relembra também o problema do ensino. “A dificuldade do ensino dos filhos dos portugueses em três línguas foi sempre o grande problema que apresentei às autoridades luxemburguesas. A resposta que me davam na altura é a mesma que dão hoje. Continuamos a ter crianças prejudicadas no seu percurso académico por causa disso. O problema não está resolvido”, conclui a antiga secretária de Estado das Comunidades.
Henrique de Burgo

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

ANTÓNIO PACHECO sobre MARIA BARROSO

“SOS-África”- um combate de Maria Barroso pela dignidade dos media, também a partir de Cabo Verde  

A génese


Maria Barroso saíra magoada da Cruz Vermelha Portuguesaem 2003. Não era o afastamento em si,  decidido pelo ministro da altura. O que a incomodava era o modus faciendi", pouco digno de pessoas de caráter: os maneirismos,os complotsos jovens de gabinete do ministro, promovendo notícias e boatos sobre a gestão danosa” da Presidente deixaram-na de rastos.

A nível internacional Maria Barroso estava a trabalhar, a partir do segundo mandato , no  fortalecimento   dos laços entre as CVlusófonas. Era um projeto inovador e que reforçava o peso e a presença da língua portuguesa no espaço internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Em 2003, na reunião de Maputo lançava CPLP da Cruz Vermelha de Língua Portuguesa que ficaria conhecida como o “fórum das sociedades nacionais de língua portuguesa”, uma ideia que seria aprovada por unanimidade e com estatuto legal autorizado em Dezembro de 2003.

Mas toda a gente sabia e era correntemente admitido e pressentido pelas   direções das CP do espaço lusófono que Ministro Paulo Portas queria afastar a curto prazo a Presidente da CVP. Tinham comigo conversas de corredor sobre essa convicção. Eu também sabia que quando do final do primeiro mandato, numa reunião entre Paulo Portas e Maria Barroso pouco se tinha falado dos problemas da CVP; o Ministro passou a maior parte do encontro a falar da “importância e relevo” que a Presidente da CVP tivera, como cidadã,  na eleição do  Mário Soares para a Presidência da República. Eu sempre achara esta conversa desapropriada e relacionada com o risco do prestígio de  Maria Barroso vir a influenciar e promover próximas candidaturas presidenciais. Era desconhecer Maria Barroso…mas para mim, o destino da Presidente ficara traçado nesse momento.

Em 2003, de forma discreta mas eficaz, os presidentes das sociedades lusófonas presentes quiseram ultrapassar o risco do afastamento de Maria Barroso, institucionalizando  o cargo de presidente do “Fórum das sociedades de língua portuguesa, propondo, por unanimidade o seu nome  para tais funções.
Um dos grandes promotores deste projeto foi o Dr. Dário Dantas dos Reis, um distinto médico cabo verdiano que regressara ao país depois da independência e que assumira as funções de Presidente da Cruz Vermelha de Cabo Verde.

De volta a Cabo Verde

Em 2004, ainda por influência e sob os auspícios dDr. Dantas, a Presidente da Cruz Vermelha de Cabo Verde e o ministério da defesa, então dirigido pelo comandante Armindo Maurício lançam um repto à Pro Dignitate aquele que seria um dos grandes projetos dos últimos anos da vida de Maria Barroso : O combate contra a violência nos media, sobretudo nas rádios e televisões. Uma luta que conduzira também a partir da Cruz  Vermelha, com mesas redondas envolvendo jornalistas prestigiados, as “ong” e a organização internacional “repórteres sem fronteiras”.

Ano de debate em Cabo Verde.  Havia um verdadeiro caso estudo: o desastre de aviação no aeroporto de Santo Antão. Reinava ainda no ar a poeira dos boatos, má-informação e o “diz-que-diz” à volta de um terrível desastre aéreo que ocorrera alguns anos antes no aeroporto de Santo Antão, que levara ao encerramento do aeroporto por longos anos:

e a sociedade civil como se tinha comportado?

os órgãos de comunicação social tinham sido capazes de transmitir o drama com objetividade, com distanciamento jornalístico, quimicamente puro?


tinham as organizações chamadas para atuar na ocasião -serviço de proteção civil, bombeiros, polícia outras forças de segurança atuado de forma correta?


tinham prestado a informação correta, esclarecedora às populações, através de comunicados transmitidos na rádio e nos restantes mediaEra necessário fazer uma reflexão. Estava tudo debaixo do tapete em aberto.

A proposta que nos fora endereçada, através do ministro da defesa era: está a Presidente da Fundação Pro Dignitate e antiga presidente da CVP  disposta a organizar, aqui em Cabo Verde, um debate sobre esta matéria? Tem equipa para o fazer?

Esta matéria ligava-se a outras duas também fundamentais. É que o jornalismo em situação de crise levanta questões de "direito internacional humanitário” –como proteger e o que proteger. Colocava outro problema: a Fundação devia alargar a sua tarefa à formação de quadros africanos permanentes nas áreas de da atuação do jornalista em situações de crise e de conflito: o tal jornalismo ao serviço da paz .

Todo o sucesso da iniciativa se ficou a dever a uma série de nomes de pessoas de Cabo Verde:
O Ministro da defesa participou e coorganizou o colóquio sobre “o comportamento dos media em situações de crise” que constituiu uma ação de formação para jornalistas, animadores sociais de todo Cabo Verde e que para esse efeito se deslocaram ao Mindelo. Do lado da Pro Dignitate, fora escolhido Ronaldo Monteiro, um estagiário e bolseiro da Fundação para preparar o evento e organizar, in loco,  toda a viagem de Maria Barroso a Cabo Verde.

Presente também Isaura Gomes, Presidente da Câmara de São Vicente, uma grande Amiga de Maria Barroso. Em muitas ocasiões   ouvi Maria Barroso incentivar Isaura: “Não se fique pela Câmara, você tem estofo para vir a ser a primeira Mulher a ocupar o cargo de Presidente da República de Cabo Verde” e perante o silêncio dos presentes acrescentava: “já viu a importância e o exemplo que seria para todo o espaço de língua portuguesa”? E não resisto a uma observação pessoal: acho que Maria Barroso gostaria de ter ocupado tal cargo em Portugal. Recordo a esse propósito uma outra nota: Maria Barroso costumava contar que a Rainha de Espanha a incentivara diversas vezes: “porque não concorres à Presidência?” Nunca respondera mas sempre entendera, julgo eu, que tal facto não seria bem aceite pelo Marido.

Outro dos grandes Amigos com que ficou na altura  foi o Presidente da Câmara de Porto Novo, Dr. Amadeu Cruz. que a convidou para proferir, a 10 de Dezembro, uma palestra sobre os Direitos Humanos e o Direito Internacional Humanitário. Ficou encantada com a visita a Porto Novo, que incluiu visitas ao hospital e a escolas primárias. Ficou sempre ligada à ilha de Santo Antão que tentou apoiar em diversas ocasiões e através de distintos projetos.


Os nomes da Rádio Nova, e do seu diretor dessa altura também não podem ser esquecidos.


Não é por acaso que nasce de dois destes Homens, Amadeu Cruz e Ronaldo Monteiro, a ideia de  que se dê continuidade à Pro Dignitate e aos seus programas na área do combate à violência nos media, sobretudo em África, pela criação da ONG-SOS-África, sedeada precisamente em Mindelo, onde se iniciara em 2004, o envolvimento da Pro Dignitate no projeto de jornalismo ao serviço da paz e do desenvolvimento. Trabalharam com Ela nas últimas décadas.

A Comunicação Social no Terceiro e Quarto Mundo infelizmente não acompanha a realidade dos países e das regiões fora do espaço do mundo industrializado; o  poder e os lobbies dos media são controlados por preocupações que nada têm de ético;  as escolas de jornalismo, dentro de uma tradição eurocêntrica e colonial ,  reforçam a perspetiva de uma informação acética que não sabe ler, escutar e ver as comunidades em que se inserem. Esta será a luta que, em nome de Maria Barroso, vamos continuar num verdadeiro esforço SOS.
  

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

MARGARITA SANTOS nova representante da MM Venezuela em Margarita

MMve2015 Margarita CV GloriaSantosGloria Santos nasceu na Murtosa (distrito de Aveiro em Portugal) no ano de 1976, é casada, tem 2 filhas e vive em Margarita.
Estudou informática na Universidade de Carabobo em Valencia e graduou-se de analista programadora.
Pratica natação e gosta de futebol, compartir em família, cozinhar pratos saborosos e a repostaria de doces e bolos. Participa sempre quando pode nas atividades do Centro Social Luso-Venezuelano de Margarita e do grupo folclórico “O Barquinho”.
É adepta da equipa de futebol português do Benfica e dos “Leones del Caracas” (beisebol venezuelano).
Seus pratos típicos portugueses preferidos são o cozido à portuguesa e o bacalhau à Brás. Seu doce português preferido são os pastéis de nata.
Na atualidade é cônsul honoraria de Portugal em Margarita
“Os dias mais marcantes da minha vida e para sempre foram quando me casei e nasceram as minhas duas filhas que tanto amo. Interessei-me pelo projeto associativo da ‘Mulher Migrante’ na Venezuela porque vi nele que é de uma instituição séria que nos abre as portas, a nós as mulheres portuguesas e luso-venezuelanas, e nos dá a oportunidade de ter um espaço de expressão como alcançar metas que pensávamos ser impossíveis de atingir. Agradeço imensamente à nossa Presidente internacional Rita Gomes, à nossa fundadora Manuela Aguiar e obviamente à nossa Presidente nacional em Venezuela Milú de Almeida pelo convite que me fizeram de liderar a comissão regional da ‘Mulher Migrante’ em Margarita. Com muita humildade aceito o desafio e tenho fé de propagar esta ideologia associativa feminina em todo o território do região venezuelana de Nueva Esparta”, disse.

Mestre Dina Botelho sobre MARIA ARCHER


A escritora Maria Archer e o retrato da mulher de meados do séc. XX

 

Maria Archer é uma escritora que vale a pena conhecer. Passear os olhos pelas páginas dos seus livros é transportarmo-nos para meados do século XX e, pouco tempo depois, deixarmos de simplesmente passear e ficarmos presos na sua escrita. O realismo da sua escrita é tão grande e intenso que se nós não nos identificarmos com as suas personagens, com elas identificaremos alguém que conhecemos.

 Considero ter sido um marco para a época em que viveu e é nesse sentido que sempre me deram testemunho quando dela falo com pessoas mais velhas.

 A preocupação/tema principal da sua obra era a situação da mulher e as dificuldades por ela sentidas. A vida da mulher, a sua relação com a família, com o trabalho e com os homens dominavam os seus romances, novelas e peças de teatro.

Mas se o tema dominante era o mesmo havia novidades em todas as suas obras. O estatuto social das mulheres que retratava era diferente, a mulher tanto era vítima como até brincava com os homens e por isso liam-se com empolgamento as suas obras. O seu conhecimento profundo do pensamento da mulher das várias classes sociais permitia-lhe falar com à vontade e realismo das suas vidas. Já João Gaspar Simões falava, em 1950, do seu «superior espírito de observação, penetrante análise social, sólida expressão literária, magistral equilíbrio no doseamento do imprevisto, pelo que não poderia deixar de ser considerada desde já um grande contista, um grande escritor».

Maria Archer dizia que escrever era fugir ao longo silêncio a que a mulher da época estava votada. Até o acesso à cultura era negado à mulher na época, como Maria Archer retrata bem na personagem de Adriana (de Casa sem Pão) que tinha de se esconder para ler livros.

Maria Archer mostrou as vozes profundas do seu ser, sem nunca recorrer a pseudónimos, o que fez dela única na sua época e no seu meio. Ela partia do real e era esse real que interessava aos seus leitores. Ela própria reconheceu que a literatura feminina da sua época não era criativa «pois a mulher encontrava-se subjugada pela estrutura social e familiar repressiva.»

Diz-nos o ensaísta João Gaspar Simões que «se existir um tema nos seus contos este é o tema social: a rebelião da mulher contra as normas sociais sacrificadoras da sua sagrada independência». O conto de Maria Archer é o conto de fundo social, o conto de costumes.» Ela é considerada por ele «um dos nossos primeiros contistas contemporâneos, um dos nossos mais fortes temperamentos de escritor». Como diz o Prof. Fernando de Pádua, seu sobrinho, a propósito destes elogios carregados de masculinidade, «só faltaria dizer que Maria Archer é um homem».

Termino com duas confissões da própria escritora, datadas de out. de 1952 (in “Revisão de Conceitos Antiquados”) que mostra bem o que passou, e o que passava qualquer mulher escritora na altura, para escrever:

«Saibam quantos fazem coro no desprestígio da obra literária das mulheres que os nossos livros são momentos heróicos. Custam-nos coragem, e angústias, que os homens, para igual feito, desconhecem de todo.»

Assim, não retrata só na escrita o que era a vida da mulher no início e meados do séc. XX mas ela própria e a sua vida foram um ótimo exemplo das vivências da mulher da época.

                                                             novembro de 2015
                                                                       Dina Botelho

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

AS MULHERES NO CCP A Conselheira MARIA DE LURDES ALMEIDA (Venezuela)


1 - Entre os conselheiros eleitos ao 1º CCP, em 1981, não havia uma única mulher. Em 2015, são 12 as conselheiras eleitas. Como avalia esta evolução, face à realidade atual das comunidades portuguesas, por um lado, e, por outro, aos objetivos da Lei da Paridade?

2 - Como surgiu a ideia de se candidatar ao CCP? Foi fácil formar uma lista segundo as regras da Lei da Paridade, organizar o programa eleitoral, fazer campanha?

Teria preferido, na ausencia de imposições jurídicas, elaborar uma lista exclusivamente feminina?

3 - Considera que as mulheres querem e podem levar a debate novas temáticas, uma forma diferente de estar e trabalhar no grande forum democrático que é o Conselho, ou, pelo contrário, pensa que o mais importante é que a igualdade de oportunidades e a participação cívica sejam garantidas, sem que isso signifique, necessariamente, a valorização das particularidades de género?

4 - Quais são as principais propostas que levará a Lisboa, ao próximo plenário do CCP?

5- O "Conselho" português tem avançado, tal como os seus congéneres europeus (o francês,que foi o modelo em que o nosso se inspirou, como aconteceu, alguns anos mais tarde, com o italiano e o espanhol) numa linha de experimentalismo de soluções que melhor sirvam em concreto a prossecução dos seus objetivos. Como vê a nova configuração do CCP?

6 - O CCP tem já uma história muito rica, mas mal conhecida em Portugal (do mesmo, aliás, se queixam os representantes do organismo francês, apesar do seu grau de institucionalização, inclusive, no quadro constutucional, e da sua transformação em "Assembleia dos Franceses do Estrangeiro" , dos meios acrescidos de que dispõe).

O que se poderia fazer para o divulgar?

7 - Seria útil iniciar, numa perspetiva de análise comparativa, e até de articulação de ações, contactos com os membros de outros Conselhos de imigrantes, caso existam no país onde reside? E com o movimento associativo das nossas comunidades - do qual era oriundo o 1º CCP, na década de 80 - mantêm-se ou, se não, devem retomar-se laços de estreita cooperação?

8 - Que papel desempenha ou pode desempenhar o CCP num esforço de concívio e cooperação, não só de género, como de geração, mobilizando para a intervenção cívica os mais velhos, os mais jovens, os recém-cehgados?

9 - A terminar, pedíamos-lhe que nos falasse de si.

Ter sido eleita é, certamente, uma prova de muito trabalho já realizado e de reconhecimento dos comcidadãos. O viver fora de Portugal levou-a a um envolvimento cívico que talvez não tentasse nem conseguisse no país? O que a motivou fundamentalmente? Contou ou não incentivo ou apoio da família para a realização profissional e cívica? O que gosta de fazer nos tempos livres ? Quem são as personalidades que mais admira na história e na atualidade?

 

Respostas

 

1.- Penso que este objetivo da inclusão da mulher é devido à lei da paridade, no entanto ainda vejo com preocupação que a opinião feminina não é uma mais valia neste Conselho. Uma prova de tudo isto, é o último Conselho Permanente, onde havia duas mulheres, as quais em repetidas ocasiões manifestaram o seu desagrado neste aspeto.

2.- A ideia de me candidatar ao CCP surgiu pela minha vocação de serviço à comunidade e devo confessar também que me motivou o fato do meu esposo ter sido Conselheiro em períodos anteriores e pensar que podia melhorar o trabalho que vinham desenvolvendo, o que acabou por não ser bem assim. Mas continuo na luta apesar de ter tido muitas desilusões no anterior Conselho.

Não foi fácil formar lista e fazer campanha nesta oportunidade devido à data das eleições e à nova lei com novos requerimentos. Obvio que teria preferido formar uma lista exclusivamente feminina pois temos demonstrado ao longo dos anos a nossa capacidade organizativa e multifacética.

3.- Penso que o mais importante é que a igualdade de oportunidades e a participação cívica sejam garantidas, no entanto ,e mesmo com a lei da paridade, isto não está a acontecer. Uma prova de tudo isto é que neste vasto mundo do Conselho das Comunidades, a grande maioria dos listados foram liderados pelos homens e as mulheres que formaram parte de listas iam em posições secundárias o que deu como origem a eleição de somente 12 Conselheiras. Vê-se claramente que a inclusão da mulher nos listados foi simplesmente para preencher um formulismo e não por considerarem-na uma mais valia.

 

4.- Temos muitas propostas e seria muito longo enumerar-lhas todas, mas algumas das mais importantes são:

 Impulsar a solidariedade social às famílias portuguesas, particularmente às crianças e aos idosos

Promover e defender o ensino da língua e cultura portuguesas, e apoiar a rede educativa dos respetivos países

Lançar a campanha de cidadania “Quem não vota, Não conta!” para promover o recenseamento eleitoral com o apoio da rede associativa e dos consulados de Portugal


Promover a interculturalidade

5.- Não posso negar que temos avançado bastante com esta nova configuração do CCP, no entanto considero que o caminho é árduo e cheio de escolhos .  Há muito ainda a mudar e a fazer, começando pelo Governo, que no meu modo de ver não dá a importância que deve a este Conselho. Até à data, na maioria das vezes o Governo aplica medidas para as comunidades sem consultar o Conselho. A prova mais recente foi a data marcada para as eleições que prejudicou toda a nossa Comunidade espalhada pelo mundo. Uma data nefasta desde todo ponto de vista, pois foi numa altura em que a grande maioria dos portugueses espalhados pelo mundo encontram-se de visita no país de origem e não no país de residência.

 

6.- Lamentavelmente o CCP não somente é mal conhecido em Portugal, mas o que é mais grave ainda, é que é mal conhecido nos países de residência. Há muita falta de informação e o nosso canal internacional (RTP Internacional) com uma péssima programação por certo, não dá cobertura a este tipo de ato nem do que se trata. É o canal informativo para as comunidades e o que menos destaca são as coisas de importância para as mesmas comunidades. É pena não termos uma informação atualizada dos problemas que nos afetam. No caso particular da Venezuela, a grande maioria não teve conhecimento destas eleições. O trabalho foi feito por nós através das redes sociais e dum meio de comunicação escrito mas isto foi uma milésima parte do que devia ser feito. Com um canal que chega aos portugueses, foi triste e lamentável que nunca dessem informação sobre o CCP e as suas eleições.

7.- O contato com a rede associativa mantem-se. Até à data é o que melhor funciona, mas na rede associativa encontra-se uma mínima parte da nossa comunidade. No caso particular da Venezuela, pertencer a um Club Social requer duma solvência económica que a maioria não tem e como consequência não tem informação nem destes atos nem das visitas oficiais que em algum momento fazem os nossos diplomáticos. Faz rir como os meios de comunicação escrevem que tal o qual diplomático se reuniu com a comunidade, quando em realidade a reunião faz-se neste e naquele clube social e assistem somente os sócios . E eu pregunto: É esta a nossa comunidade?

8.-  O CCP  pode ter mais aproximação com a comunidade se:

Cria uma inter-relação permanente com os portugueses no país de residência , trabalha de “mão na mão” e visita as comunidades portuguesas  residentes em cada provincia do seurespetivo país .

Facilita e promove mais jornadas consulares portuguesas em harmonia com as autoridades lusas competentes. Ao acompanhar estas jornadas têm mais possibilidade de contato com a sua comunidade e dar a conhecer o seu trabalho

É um  porta-voz permanente, ativo e dinâmico de todos os portugueses tanto nos plenários mundiais, continentais e nacionais como nas reuniões oficiais do Conselho das Comunidades Portuguesas

Informa periodicamente do trabalho realizado à comunidade e à comunicação social portuguesas e dá seguimento às ações efetuadas e empreendidas.

9.- Os meus 50 anos a viver fora de Portugal levaram-me a duas etapas na minha vida: a primeira foi a de rejeitar e negar a minha nacionalidade, o meu origem. Quando cheguei à Venezuela com 12 anos ainda vim numa época em que os portugueses eram considerados pessoas de baixo nível socio cultural e éramos vítimas de bullying  nas escolas. Isto trouxe como consequência que em casa vivia a minha portugalidade, mas fora era totalmente venezuelana. Com o tempo e a madurez adquirida voltei aos meus origens e a defender a minha nacionalidade, os meus costumes e a minha tradição. Isto acentuou muito mais quando tive o meu filho, porque quis sempre que ele se sentisse orgulhoso da história dos seus antepassados. Foi assim que comecei a envolver-me no movimento associativo português , a formar parte de grupos folclóricos e a conviver muito mais com a comunidade portuguesa. Assim começou a minha luta por defender os nossos valores socioculturais, por  defender a nossa portugalidade e mostrar ao mundo o porquê nos sentimos orgulhosos de sermos portugueses. Obvio que em tudo isto contei sempre com o apoio da minha família e mais ainda do meu esposo. É um homem que leva dentro o movimento associativo e vocação  de luta por tudo o que significa ser português . Nunca esteve, não está e nunca estará disposto a perder as suas raízes e por isso tenho o seu apoio incondicional em tudo o que implica a defesa da nossa origem. Sempre tem estado ao meu lado tanto na minha vida profissional como nestas atividades à honorem de luta pela nossa coletividade. Tenho uma veia artística que não me permitiram desenvolver quando era adolescente, mas como nunca é tarde, hoje em dia é uma atividade mais que combino. Gosto imenso de cantar e nos meus tempos livres e sempre que me pedem, participo em atividades da nossa coletividade. Pertenci a dois grupos de música típica portuguesa , era a vocalista feminina, e nos últimos 15 anos dediquei-me ao que sempre levei no coração e na alma, o fado. Dizem os que me têm escutado que o faço bastante bem. Adoro este género musical, se assim se pode dizer. Vivo em cada fado que canto e estando tão longe, cada vez que interpreto viajo na distância e por minutos encontro-me em Portugal.

Na história, e talvez porque sou muito romântica, admiro muito um dos nossos reis: D. Pedro. Penso que isto se deve à sua história com Dona Inês de Castro. Nunca me canso de ouvir o relato do seu romance e até gosto que lhe ponham aditivos que talvez a verdadeira história não tenha, dessa defesa do seu grande amor, um amor épico e cheio de romanticismo. Faz-me lembrar a história dum Quijote português na defesa da sua dama.

Na atualidade continuo admirando a nossa grande Amália Rodrigues, uma mulher que sem grande preparação musical deu a conhecer o nosso Portugal em todo o mundo. No que diz respeito a lutas por revindicações migratórias, sociais e de género, Maria Lamas, Maria Archer  e mais na atualidade Maria Manuela Aguiar, quem para mim é um exemplo a seguir.