quarta-feira, 25 de novembro de 2015

AS MULHERES NO CCP A Conselheira MARIA DE LURDES ALMEIDA (Venezuela)


1 - Entre os conselheiros eleitos ao 1º CCP, em 1981, não havia uma única mulher. Em 2015, são 12 as conselheiras eleitas. Como avalia esta evolução, face à realidade atual das comunidades portuguesas, por um lado, e, por outro, aos objetivos da Lei da Paridade?

2 - Como surgiu a ideia de se candidatar ao CCP? Foi fácil formar uma lista segundo as regras da Lei da Paridade, organizar o programa eleitoral, fazer campanha?

Teria preferido, na ausencia de imposições jurídicas, elaborar uma lista exclusivamente feminina?

3 - Considera que as mulheres querem e podem levar a debate novas temáticas, uma forma diferente de estar e trabalhar no grande forum democrático que é o Conselho, ou, pelo contrário, pensa que o mais importante é que a igualdade de oportunidades e a participação cívica sejam garantidas, sem que isso signifique, necessariamente, a valorização das particularidades de género?

4 - Quais são as principais propostas que levará a Lisboa, ao próximo plenário do CCP?

5- O "Conselho" português tem avançado, tal como os seus congéneres europeus (o francês,que foi o modelo em que o nosso se inspirou, como aconteceu, alguns anos mais tarde, com o italiano e o espanhol) numa linha de experimentalismo de soluções que melhor sirvam em concreto a prossecução dos seus objetivos. Como vê a nova configuração do CCP?

6 - O CCP tem já uma história muito rica, mas mal conhecida em Portugal (do mesmo, aliás, se queixam os representantes do organismo francês, apesar do seu grau de institucionalização, inclusive, no quadro constutucional, e da sua transformação em "Assembleia dos Franceses do Estrangeiro" , dos meios acrescidos de que dispõe).

O que se poderia fazer para o divulgar?

7 - Seria útil iniciar, numa perspetiva de análise comparativa, e até de articulação de ações, contactos com os membros de outros Conselhos de imigrantes, caso existam no país onde reside? E com o movimento associativo das nossas comunidades - do qual era oriundo o 1º CCP, na década de 80 - mantêm-se ou, se não, devem retomar-se laços de estreita cooperação?

8 - Que papel desempenha ou pode desempenhar o CCP num esforço de concívio e cooperação, não só de género, como de geração, mobilizando para a intervenção cívica os mais velhos, os mais jovens, os recém-cehgados?

9 - A terminar, pedíamos-lhe que nos falasse de si.

Ter sido eleita é, certamente, uma prova de muito trabalho já realizado e de reconhecimento dos comcidadãos. O viver fora de Portugal levou-a a um envolvimento cívico que talvez não tentasse nem conseguisse no país? O que a motivou fundamentalmente? Contou ou não incentivo ou apoio da família para a realização profissional e cívica? O que gosta de fazer nos tempos livres ? Quem são as personalidades que mais admira na história e na atualidade?

 

Respostas

 

1.- Penso que este objetivo da inclusão da mulher é devido à lei da paridade, no entanto ainda vejo com preocupação que a opinião feminina não é uma mais valia neste Conselho. Uma prova de tudo isto, é o último Conselho Permanente, onde havia duas mulheres, as quais em repetidas ocasiões manifestaram o seu desagrado neste aspeto.

2.- A ideia de me candidatar ao CCP surgiu pela minha vocação de serviço à comunidade e devo confessar também que me motivou o fato do meu esposo ter sido Conselheiro em períodos anteriores e pensar que podia melhorar o trabalho que vinham desenvolvendo, o que acabou por não ser bem assim. Mas continuo na luta apesar de ter tido muitas desilusões no anterior Conselho.

Não foi fácil formar lista e fazer campanha nesta oportunidade devido à data das eleições e à nova lei com novos requerimentos. Obvio que teria preferido formar uma lista exclusivamente feminina pois temos demonstrado ao longo dos anos a nossa capacidade organizativa e multifacética.

3.- Penso que o mais importante é que a igualdade de oportunidades e a participação cívica sejam garantidas, no entanto ,e mesmo com a lei da paridade, isto não está a acontecer. Uma prova de tudo isto é que neste vasto mundo do Conselho das Comunidades, a grande maioria dos listados foram liderados pelos homens e as mulheres que formaram parte de listas iam em posições secundárias o que deu como origem a eleição de somente 12 Conselheiras. Vê-se claramente que a inclusão da mulher nos listados foi simplesmente para preencher um formulismo e não por considerarem-na uma mais valia.

 

4.- Temos muitas propostas e seria muito longo enumerar-lhas todas, mas algumas das mais importantes são:

 Impulsar a solidariedade social às famílias portuguesas, particularmente às crianças e aos idosos

Promover e defender o ensino da língua e cultura portuguesas, e apoiar a rede educativa dos respetivos países

Lançar a campanha de cidadania “Quem não vota, Não conta!” para promover o recenseamento eleitoral com o apoio da rede associativa e dos consulados de Portugal


Promover a interculturalidade

5.- Não posso negar que temos avançado bastante com esta nova configuração do CCP, no entanto considero que o caminho é árduo e cheio de escolhos .  Há muito ainda a mudar e a fazer, começando pelo Governo, que no meu modo de ver não dá a importância que deve a este Conselho. Até à data, na maioria das vezes o Governo aplica medidas para as comunidades sem consultar o Conselho. A prova mais recente foi a data marcada para as eleições que prejudicou toda a nossa Comunidade espalhada pelo mundo. Uma data nefasta desde todo ponto de vista, pois foi numa altura em que a grande maioria dos portugueses espalhados pelo mundo encontram-se de visita no país de origem e não no país de residência.

 

6.- Lamentavelmente o CCP não somente é mal conhecido em Portugal, mas o que é mais grave ainda, é que é mal conhecido nos países de residência. Há muita falta de informação e o nosso canal internacional (RTP Internacional) com uma péssima programação por certo, não dá cobertura a este tipo de ato nem do que se trata. É o canal informativo para as comunidades e o que menos destaca são as coisas de importância para as mesmas comunidades. É pena não termos uma informação atualizada dos problemas que nos afetam. No caso particular da Venezuela, a grande maioria não teve conhecimento destas eleições. O trabalho foi feito por nós através das redes sociais e dum meio de comunicação escrito mas isto foi uma milésima parte do que devia ser feito. Com um canal que chega aos portugueses, foi triste e lamentável que nunca dessem informação sobre o CCP e as suas eleições.

7.- O contato com a rede associativa mantem-se. Até à data é o que melhor funciona, mas na rede associativa encontra-se uma mínima parte da nossa comunidade. No caso particular da Venezuela, pertencer a um Club Social requer duma solvência económica que a maioria não tem e como consequência não tem informação nem destes atos nem das visitas oficiais que em algum momento fazem os nossos diplomáticos. Faz rir como os meios de comunicação escrevem que tal o qual diplomático se reuniu com a comunidade, quando em realidade a reunião faz-se neste e naquele clube social e assistem somente os sócios . E eu pregunto: É esta a nossa comunidade?

8.-  O CCP  pode ter mais aproximação com a comunidade se:

Cria uma inter-relação permanente com os portugueses no país de residência , trabalha de “mão na mão” e visita as comunidades portuguesas  residentes em cada provincia do seurespetivo país .

Facilita e promove mais jornadas consulares portuguesas em harmonia com as autoridades lusas competentes. Ao acompanhar estas jornadas têm mais possibilidade de contato com a sua comunidade e dar a conhecer o seu trabalho

É um  porta-voz permanente, ativo e dinâmico de todos os portugueses tanto nos plenários mundiais, continentais e nacionais como nas reuniões oficiais do Conselho das Comunidades Portuguesas

Informa periodicamente do trabalho realizado à comunidade e à comunicação social portuguesas e dá seguimento às ações efetuadas e empreendidas.

9.- Os meus 50 anos a viver fora de Portugal levaram-me a duas etapas na minha vida: a primeira foi a de rejeitar e negar a minha nacionalidade, o meu origem. Quando cheguei à Venezuela com 12 anos ainda vim numa época em que os portugueses eram considerados pessoas de baixo nível socio cultural e éramos vítimas de bullying  nas escolas. Isto trouxe como consequência que em casa vivia a minha portugalidade, mas fora era totalmente venezuelana. Com o tempo e a madurez adquirida voltei aos meus origens e a defender a minha nacionalidade, os meus costumes e a minha tradição. Isto acentuou muito mais quando tive o meu filho, porque quis sempre que ele se sentisse orgulhoso da história dos seus antepassados. Foi assim que comecei a envolver-me no movimento associativo português , a formar parte de grupos folclóricos e a conviver muito mais com a comunidade portuguesa. Assim começou a minha luta por defender os nossos valores socioculturais, por  defender a nossa portugalidade e mostrar ao mundo o porquê nos sentimos orgulhosos de sermos portugueses. Obvio que em tudo isto contei sempre com o apoio da minha família e mais ainda do meu esposo. É um homem que leva dentro o movimento associativo e vocação  de luta por tudo o que significa ser português . Nunca esteve, não está e nunca estará disposto a perder as suas raízes e por isso tenho o seu apoio incondicional em tudo o que implica a defesa da nossa origem. Sempre tem estado ao meu lado tanto na minha vida profissional como nestas atividades à honorem de luta pela nossa coletividade. Tenho uma veia artística que não me permitiram desenvolver quando era adolescente, mas como nunca é tarde, hoje em dia é uma atividade mais que combino. Gosto imenso de cantar e nos meus tempos livres e sempre que me pedem, participo em atividades da nossa coletividade. Pertenci a dois grupos de música típica portuguesa , era a vocalista feminina, e nos últimos 15 anos dediquei-me ao que sempre levei no coração e na alma, o fado. Dizem os que me têm escutado que o faço bastante bem. Adoro este género musical, se assim se pode dizer. Vivo em cada fado que canto e estando tão longe, cada vez que interpreto viajo na distância e por minutos encontro-me em Portugal.

Na história, e talvez porque sou muito romântica, admiro muito um dos nossos reis: D. Pedro. Penso que isto se deve à sua história com Dona Inês de Castro. Nunca me canso de ouvir o relato do seu romance e até gosto que lhe ponham aditivos que talvez a verdadeira história não tenha, dessa defesa do seu grande amor, um amor épico e cheio de romanticismo. Faz-me lembrar a história dum Quijote português na defesa da sua dama.

Na atualidade continuo admirando a nossa grande Amália Rodrigues, uma mulher que sem grande preparação musical deu a conhecer o nosso Portugal em todo o mundo. No que diz respeito a lutas por revindicações migratórias, sociais e de género, Maria Lamas, Maria Archer  e mais na atualidade Maria Manuela Aguiar, quem para mim é um exemplo a seguir.

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