segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE DINA BOTELHO

Homenagem a Maria Archer – Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diáspora
Maia, 24 de Novembro de 2011

Boa noite a todos e em especial aos elementos da mesa a quem cumprimento respeitosamente. Gostaria de começar por agradecer o convite que me foi dirigido pela
Associação Mulher Migrante, através da Dra Rita Gomes, para estar aqui presente esta noite e poder participar numa homenagem, merecida, a Maria Archer.
Fui apresentada como sendo a autora da primeira tese de mestrado sobre a vida e a
obra de Maria Archer. De facto, assim é e apresentei-a em 1994. Intitula-se “Ela é apenas mulher- Maria Archer, Obra e autora” e já na altura disse, apresentando comprovativos, que Maria Archer nasceu em 4 de Janeiro de 1899 e não 1905 como aparece muitas vezes em estudos e até enciclopédias que a estudam ou a ela se referem apenas. É com imensa tristeza que vejo que ainda hoje se desconhece a verdade acerca do ano do seu nascimento. Tenho a certeza que Maria Archer ficaria profundamente contente por saber deste facto até porque era ela própria que o fazia em documentos públicos que preenchia, tal como consta da sua ficha do arquivo biográfico do Diário de Notícias que apresento também na minha tese. Sim, de facto Maria Archer retirava seis anos à sua existência, por um lado por uma questão de vaidade e, por outro lado, porque talvez não gostasse de ter nascido no século anterior. No entanto, chamo desde já a atenção para a necessidade de nós, que a estudamos e por uma questão de veracidade dos factos, devermos apresentar a data correta. Até à minha tese ninguém tinha estudado Maria Archer e ela teve como objetivo iniciar o estudo da autora e da sua obra mas esse estudo não foi, como devem calcular, esgotado dada a riqueza e a
variedade temática da obra de Maria Archer. É necessário continuar a estudá-la sobretudo na vertente da literatura colonial onde considero haver uma grande riqueza por explorar.
Há também que continuar a publicar os seus livros pois representam marcos históricos.
Homenagem seja feita também à editora Parceria António Maria Pereira que já apostou na republicação de dois dos seus livros (Ela é Apenas Mulher e Nada lhe será perdoado). Disse atrás que esta era uma homenagem merecida pois considero que Maria Archer contribuiu imenso para a luta por uma condição mais digna para a mulher e também para a sua igualdade relativamente ao homem, não dizendo ou gritando como referiu a Dra Mª Benedicta sobre Maria Lamas mas mostrando a situação em que viviam as mulheres. Aliás, o tema principal dos seus romances e novelas era a vida da mulher, a sua relação com a família, com o trabalho e com os homens. O título de um dos seus romances mais emblemáticos é Ela é apenas mulher apontando mesmo para a posição decadente da mulher na época em que a escritora viveu e criou. A preocupação fundamental da sua obra era a situação da mulher e as dificuldades por ela sentidas. África era uma paixão na sua obra.
Maria Archer foi uma das poucas mulheres do seu tempo a ter como profissão a de
jornalista e escritora. Ela publicou de 1920 a 1963, tendo havido dois anos em que publicou 4 livros por ano (1938 e 1950) e alguns dos seus livros chegaram mesmo à 3ª edição como por exemplo Há de Haver uma Lei e Aristocratas. Ela é Apenas Mulher é de 1944 e no mesmo ano saiu a 2ª edição tendo chegado à 3ª edição em 1952. Escreveu, pois, 31 livros de 1935 a 1963, 5 deles no Brasil (Terras Onde se Fala Português, África sem Luz, Brasil, Fronteira de África, Os últimos Dias do Fascismo Português e do último nada se sabe), cinco peças de teatro e três traduções. Mas não se julgue que era fácil ser uma mulher escritora na época. Este é outro reconhecido mérito de Maria Archer. Muitas mulheres da época, tais como Maria Lamas e Irene Lisboa, esconderam-se atrás de pseudónimos, quer femininos quer masculinos, para poderem escrever à vontade sem penalizarem a sua vida pessoal ou até mesmo para obterem
maior imparcialidade por parte da crítica. Se agora temos muitas mulheres escritoras, no início do séc. XX, quando uma mulher queria escrever sobre outro tema que não a vida doméstica ou a educação dos filhos refugiava-se atrás de um pseudónimo.
Maria Archer nunca se escondeu, nunca usou pseudónimos, talvez esse mesmo facto
tenha levado ao afastamento da família que, por vezes, não viu com bons olhos certas
publicações suas. Também o seu divórcio (esteve casada apenas 10 anos durante os quais publicou apenas em periódicos) poderá ter tido alguma base na sua profissão apesar da causa pública do mesmo ter mais a ver com questões familiares (sevícias e injúrias graves) e menos profissionais. Maria Archer viveu numa época em que era suposto a mulher ser apenas boa filha, boa esposa e boa mãe. As únicas atividades permitidas à mulher eram a lida doméstica e a educação dos filhos. Maria Archer dizia que escrever era fugir ao longo silêncio a que a mulher da época estava votada. Até o acesso à cultura é negado à mulher na época, como Maria Archer retrata bem na personagem de Adriana (de Casa sem Pão) que tinha de se esconder para ler livros.
Houve mesmo casos em que a crítica a um livro escrito com pseudónimo masculino era
otimista e depois de se saber que havia sido escrito por uma mulher, o mesmo crítico dizia o contrário do que havia dito antes. João Gaspar Simões foi, dos críticos literários da época, o que melhor entendeu a luta da mulher escritora. Disse ele que «Em Portugal uma mulher que queira falar de si mesma com franqueza equivalente à de um homem quase pudico corre risco de enxovalho» Maria Archer mostrou as vozes profundas do seu ser sem nunca recorrer a pseudónimos o que fez dela única na sua época e no seu meio. Maria Archer partia do real e era esse real que interessava aos seus leitores. Ela própria reconheceu que a literatura feminina da sua época não era criativa «pois a mulher encontrava-se subjugada pela estrutura social e familiar repressiva.»
Um dos grandes elogios que lhe fazem na época foi feito pelo próprio João Gaspar
Simões que dela fala como se de um homem se tratasse: «Abram os olhos, Exmos Srs – têm diante de vós um escritor (teimo em chamar-lhe escritor porque os seus contos, embora tenham sexo na observação que denunciam e nos temas que tratam, não o têm – são, portanto do sexo nobre – pelo menos num país em que o homem ainda é considerado o 1º sexo- não o têm no estilo, na expressão, na visão , na forma)em nada inferior, como contista, a qualquer dessas incontestadas glórias». E mais à frente diz «esta autora não pode deixar de ser considerada desde já um grande contista, um grande escritor».
Mas sendo este um encontro sobre as mulheres da diáspora não podemos deixar de
referir a sua ida para o Brasil em 5 de Julho de 1955 no navio Sta Maria, com destino a Santos. Tendo publicado dois livros no ano anterior e reeditado um terceiro poderemos questionar- nos acerca dos motivos que a terão levado a partir. Por um lado não estaria contente com a falta de liberdade dos escritores, por outro tinha de evitar ser presa. Maria Archer em 1945 havia já participado no MUD – Movimento de Unidade democrática que era uma frente de oposição ao salazarismo, em 1949 apoiou publicamente a candidatura do general Norton de Matos à Presidência da República, acompanhou , em 1952, o julgamento do capitão Henrique Galvão - contestador da ditadura salazarista prometendo sobre ele escrever um livro e, em 1953, viu a sua casa invadida pela PIDE tendo-lhe sido confiscado o manuscrito do livro referido. Valeu-lhe na época ter já enviado parte do manuscrito para um seu amigo (Tomás
Ribeiro Colaço) no Brasil. Parte assim desgostosa com o seu país que perseguiu também a sua obra por duas vezes. Em 1939 fora-lhe apreendido o livro Ida e Volta de Uma Caixa de Cigarros e, posteriormente, em 1947 o livro Casa sem Pão. No Brasil escreveu em periódicos como O Estado de S. Paulo, Portugal Democrático e Semana Portuguesa, chegando mesmo a ser diretora deste jornal. Também publicou, como atrás referi, vários livros. De 1955 a 1971 esteve em S. Paulo, donde vai para uma estância em
Campos de Jordão por “Intoxicação da bexiga” e, de 1971 a 1977 encontramo-la em Poços
de Caldas. Nesta altura começa a sentir-se pobre e doente e é então que começa a enviar correspondência para a família e advogada. Começa a sofrer de dores nos joelhos, zumbidos contínuos nos ouvidos e diminuição do campo de visão. Em 1974 falava na possibilidade de escrever um livro sobre um assunto novo que a estava a fascinar mas a saúde não a ajudava. Nesse ano chegou a corrigir discursos de candidatos às eleições legislativas e a escrever publicidade para a rádio local. Em 1977 voltou de novo para S. Paulo tendo estado primeiro no Hospital S. Joaquim e depois na Casa de Saúde Nª Sra do Carmo. Saíu desta última para vir para Portugal mas só depois de receber resposta favorável de Marcelo Caetano ao seu pedido.
Promete «ser neutra à espera da morte em sossego e paz» numa carta de onze páginas que escreve ao seu sobrinho, o Prof. Fernando de Pádua. Em 1973 Marcelo Caetano promete que não a incomodará mas ela só regressará em 1979, com 80 anos pois pretendia ainda ver reeditados alguns dos seus livros para não regressar como uma desconhecida e também porque a doença e as dificuldades económicas não o permitiram.
Quando regressou tinha muitos jornalistas à sua espera mas a mulher que encontram
é uma senhora com dificuldades em ouvir e em falar que os deixa sem respostas. Também
Maria Archer fica desiludida consigo mesma pois, não conseguindo ultrapassar as limitações da doença, refugia-se nas lágrimas. É levada para a Mansão de Sta Maria em Marvila situação tratada mesmo na Assembleia da República a pedido do deputado Vasco da Gama Fernandes que solicitou que se mudasse a escritora do local onde se encontrava. Só conseguiu que a escritora fosse mudada para o único quarto individual desta casa. Faleceu a 23 de Janeiro de 1982 com arterosclerose cerebral.
Termino apresentando duas citações da própria Maria Archer:
«Saibam quantos fazem coro no desprestígio da obra literária das mulheres que os
nossos livros são momentos heróicos. Custam-nos coragem, e angústias, que os homens, para igual feito, desconhecem de todo» (in “Revisão de Conceitos Antiquados” Out. 1952) «Eu precisarei de morrer para que a minha obra seja avaliada na altura que eu lhe atribuí quando a escrevi – como um documento histórico duma época e da situação da mulher. » (1973)
Lanço então o desafio – Não deixemos que a sua obra morra, pois muito ainda há a
fazer, nomeadamente estudos sobre os seus cadernos coloniais e estudos sobre as suas peças de teatro. Devemos enaltecer e reconhecer a sua luta pela dignificação da condição da mulher através da apresentação da realidade que a mulher da sua época vivia. A vida da mulher de meados do séc. XX não está bem conhecida – os jovens de hoje não a conhecem e através da obra de Maria Archer poderão conhecê-la.

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