terça-feira, 9 de outubro de 2012
ALEXANDRA MENDES -entrevistada por Ana Grácia Pinto
No dia 3 deste mês, Alexandra Mendes foi eleita presidente do Partido Liberal do Quebeque (PLQ), a ala do Partido Liberal federal naquela província do Canadá. É mais um passo na sua carreira política, já que entre 2008 e 2011 a luso-canadiana foi deputada federal no Parlamento canadiano pelo mesmo partido, tendo representado o círculo eleitoral de Brossard-La Prarie, margem sul de Montreal. O mandato à frente do PLQ termina em 2014, mas Alexandra Mendes já traçou o objetivo seguinte: concorrer às eleições para deputada federal em 2015, como revelou a este jornal.
Luso canadiana foi ainda deputada federal no Canadá entre 2008 e 2011 Alexandra Mendes preside o Partido Liberal no Quebeque
Nascida em Lisboa, mas a viver no Canadá desde os 15 anos, Alexandra Mendes recorda
que o percurso que a levou a avançar para uma carreira política “foi natural”, mas reforçado
pelo resultado das eleições federais em 2006. “O deputado para quem eu trabalhava, Jacques
Saada, perdeu as eleições e decidiu que não se voltaria a candidatar. No final desse ano, forças do partido convidaram-me a candidatar-me às eleições federais seguintes, que não sabíamos como iriam correr. Foi muito naturalmente que decidi candidatar-me, sendo eleita em
2008”, lembrou numa entrevista por telefone a este jornal.
Foi o contato individual com o seu eleitorado que mais a fascinou durante os quatro anos como deputada federal. “Termos o sistema parlamentar britânico em que os deputados são únicos pelo círculo eleitoral, têm escritórios no seu condado, e somos nós que recebemos os contribuintes que vêm apresentar-nos as questões. Isso é para mim o mais fascinante desta função: o encontro, no dia-a-dia, com os cidadãos, o tentar resolver os seus problemas com o Governo federal”, sublinhou.
Para além disso, diz que se «apaixonou» pela vida parlamentar e a possibilidade de “criar algo novo”. “Numa situação de Governo minoritário, como foi o que aconteceu no meu mandato, de 2008 a 2011, foi muito importante estar a contribuir para que a legislação fosse o reflexo eficaz de vários pontos de vista e não apenas o do Governo, que é o que se está a passar agora com um Governo maioritário”, acrescentou.
Em janeiro deste ano, quando concorreu à presidência nacional do Partido Liberal, Alexandra Mendes disse fazê- -lo com a intenção de participar ativamente na reconstrução do PL, para que voltasse a ser uma força política viva no Canadá.
Perdeu essa eleição, mas manteve o mesmo objetivo, quando avançou com a candidatura para a presidência do partido no Quebeque, a província que mais peso terá na reconstrução do PL.
“Esta é a província que em termos demográficos e de peso eleitoral, mais poderá contribuir
para a redinamização do partido. O Quebeque foi sempre, desde a fundação do Canadá, a província «rebelde» da Federação. Por ser francófona, por ser muito progressista a nível social e ter contribuído imenso para que o Canadá definisse uma rede de apoio social e um conjunto de
programas exemplares”, explicou a este jornal.
Nas próximas eleições federais, o Quebeque terá 78 circunscrições eleitorais, contra as atuais 75 (há 308 circunscrições nas dez províncias do Canadá), o que dá àquela província “um peso eleitoral muito forte”, sublinha Alexandra Mendes. “Vai ser a partir do Quebeque que o Partido Liberal poderá, ou não, reconquistar o carinho, a apreciação e o diálogo com os canadianos”, vaticina.
Do total de 308 deputados que compõem o Parlamento federal do Canadá, apenas 34 são do Partido Liberal, uma realidade que a presidente daquela força partidária no Quebeque quer ajudar a mudar. “O desafio de passar de 34 para mais de 100 deputados - o necessário para formar Governo - é obviamente muito grande”, assume Alexandra Mendes, que já delineou as estratégias a seguir pelo seu partido no Quebeque. “É urgente que as nossas associações de circunscrição se reativem, precisamos de uma estrutura eleitoral que funcione e esse é o meu primeiro desafio. O segundo será
contribuir para a elaboração de uma plataforma eleitoral que corresponda às expectativas dos
quebequares”, elege. Sobre a participação política da comunidade portuguesa no Canadá, lamenta que esteja ainda “muito longe do ideal”.
“Uma das visões que partilho com o atual embaixador de Portugal no Canadá é uma ausência
da comunidade portuguesa nos diferentes níveis de governação.
Há alguma presença, mas para uma comunidade do tamanho da nossa e com o tempo de integração
que já tem, havia a expectativa de maior participação e de mais visibilidade”, lamenta.
O mandato à frente do partido termina em 2014, e a luso-canadiana já traçou os objetivos seguintes: concorrer às eleições para deputada federal, em 2015. “É a melhor garantia de que me vou dedicar com muita garra ao trabalho que atualmente tenho pela frente: a vontade de ganhar as próximas eleições. E para isso, é preciso que o partido esteja fortalecido e unido”, vincou.
ALEXANDRA CUSTÓDIO
Autarca durante 11 anos concorre agora às Legislativas de França Alexandra Custódio é candidata a deputada para a Assembleia Nacional francesa
Após sete anos como conselheira municipal na Câmara de Saint-Étienne, a portuguesa Alexandra Custódio aceitou abraçar um desafio maior: a Assembleia Nacional Francesa. E pela primeira vez, é candidata às eleições legislativas em França, pela circunscrição de Saint-Étienne (perto de Lyon) nas listas da UMP, o partido do Presidente Nicolas Sarkozy.
A entrada na vida política foi para Alexandra Custódio, uma “consequência” do seu trabalho
associativo. Era vice-presidente da Associação Cultural Portuguesa de Saint-Étienne e em 2001 o presidente da Câmara convidou-a a concorrer às eleições autárquicas. Aceitou, por achar que “era um sinal de reconhecimento em relação à nossa comunidade”, como afirmou a O Emigrante/Mundo Português. O seu partido venceu as eleições e Alexandra foi durante sete anos, conselheira municipal. Trabalhou no processo de geminação da cidade de Saint- -Étienne com Oeiras e dinamizou vários projetos de intercâmbio entre as duas cidades.
Natural de Tavira, Alexandra Custódio tinha seis anos quando chegou a França com os irmãos e com a mãe, ao encontro do pai. Esteve sempre ligada ao associativismo português, por ter crescido a ver o pai trabalhar no meio associativo. A nível profissional, é diretora financeira numa empresa
em Saint-Étienne e tem ainda um gabinete de contabilidade e gestão.
É também presidente do Portugal Business Club de La Loir e diretora do Business Club de Lyon e defende a importância dos empresários portugueses radicados nas comunidades que afirma serem
“uma mais valia que Portugal não sabe aproveitar”. “Eles são uma plataforma natural para a
entrada dos empresários portugueses no mercado francês e ainda para o investimento dos
empresários franceses em Portugal”, afirmou a este jornal.
Agora, nesta nova etapa da sua vida política, Alexandra Custódio espera contar também
com os votos dos luso-decendentes e dos portugueses com nacionalidade francesa, que podem
votar nas Legislativas deste ano, apesar de ser “muito difícil mobilizar os compatriotas”.
“Os autarcas franceses não sabem aproveitar a força da comunidade portuguesa, mas também muito por conta da própria comunidade, que não se impõe politicamente”, alerta,
defendendo que o universo cultural e associativo português poderia dinamizar mais a
participação política lusa.
Mostra-se confiante na sua eleição “já à primeira volta”, a 10 de junho (a segunda volta acontece no dia 17), mas diz que o resultado das eleições presidenciais - que decorrem a 22 de abril e 6 de maio - terão muita influência sobre legislativas.
Se for eleita, afirma que será “uma deputada de França”, mas sabe que ira passar “uma imagem de sucesso e relevo da comunidade portuguesa”.
“Não serei deputada de uma comunidade e sim do meu círculo eleitoral, mas levarei comigo as mais-valias de minha cultura portuguesa”.
MARIA TERESA PAIVA WEED
18 15 de JUNHO DE 2012
LUSO ELEITOS
A intervenção de portugueses e luso descendentes na vida política além-fronteiras, tem vindo a aumentar e a adquirir uma importância cada vez mais relevante.
Nos dias 24 e 25 de Junho a sociedade portuguesa vai poder conhecê-los no I Encontro a realizar em Cascais, um evento organizado pelo jornal O Emigrante/
Mundo Português com o apoio da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas. Até lá, todas as semanas, nesta página, damos a conhecer eleitos
de origem portuguesa que podem ser um importante elo de união entre Portugal e os países onde residem e exercem os seus cargos políticos.
Neta de emigrantes oriundos da ilha de S. Miguel, Açores, Maria Teresa Paiva Weed foi eleita pela primeira vez para o Senado de Rhode Island em 1992. Em 2009 entrou para a história política de Rhode Island ao ser a primeira mulher a presidir ao Senado local. Já em 2004 tinha feito história ao ser a primeira mulher a liderar a maioria naquele organismo legislativo… Ana Grácio Pinto
MARIA TERESA PAIVA WEED é senadora nos Estados Unidos Luso descendente é a primeira mulher a presidir o Senado de Rhode Island Maria Teresa Paiva Weed integra há 20 anos o Senado de uma dos estados norte-americanos com maior presença de portugueses: Rhode Island. A
democrata representa o Distrito 13, que compreende as cidades de Newport e Jamestown,
a parte mais turística do estado.
A luso descendente foi eleita pelos seus pares, em Janeiro de 2009, para a função de Presidente do Senado de Rhode Island. Ao fazê-lo, tornou-se na primeira mulher na história de Rhode Island
a ocupar esse cargo, mas já anteriormente tinha feito história: nos cinco anos anteriores,
Teresa Paiva Weed serviu como líder da maioria naquele Senado.
De 1997 até 2000, serviucomo presidente da Comissão do Poder Judiciário, tendo sido também a primeira mulher eleita para ocupar este cargo.
De 2000 a 2002, atuou como vice-presidente da Subcomissão das Finanças para a segurança pública e o ambiente e entre 2002 e 2004 foi Vice-presidente da Comissão de Finanças. Antes de sua eleição para o Senado, Teresa Paiva Weed foi presidente da Comissão de Habitação em
Newport. É membro do Comité do Partido Democrata da cidade de Newport desde 1988.
Licenciada em Direito, a senadora confessou que entrou na política por acreditar que “poderia fazer a diferença”.
“Adoro todo o que tenha a ver com governação”, recordou em novembro de 2011 a este jornal, à margem de um encontro de políticos de ascendência portuguesa que reuniu cerca de 80 participantes em National Harbor, Estados Unidos.
Sobre a sua ascendência, diz que “a comunidade portuguesa é parte do que sou”.
“A comunidade portuguesa de Newport teve um papel mais importante na formação daquilo que eu sou, do que propriamente na minha eleição para o Senado do estado. Frequentei a escola portuguesa e a paróquia portuguesa em Newport e ainda participo nas celebrações tradicionais
da minha paróquia portuguesa”, sublinhou.
A senadora refere que os portugueses no estado de Rhode Island compõem “uma comunidade vibrante” que na cidade de Newport, “é um pouco mais antiga do que no resto do estado”.
A ligação a essa comunidade levou-a a envolver-se na criação da Portuguese American Scholarship Foundation, que atribui bolsas de estudo a luso americanos, tendo contribuído no lançamento da
base jurídica da instituição. E não esconde o “orgulho” e ter a seu lado no Senado, representantes políticos de origem portuguesa como o senador Daniel da Ponte e o deputado Hélio Mello, “e em
posições de liderança”. “É também um orgulho vê-los atuar junto da comunidade portuguesa, que nos tem dado o seu apoio. É muito importante trabalharmos juntos, porque podemos promover-
-nos uns aos outros e apoiar mais à comunidade como um todo”, sublinhou
domingo, 7 de outubro de 2012
MARY GIGLITTO
A MARIA ANTÓNIA (MARY) ROSA GIGLITTO
Um dia a Mary meteu-se no carro, foi de San Diego a Tijuana no México e ..."morreu". "Ressuscitou" e quando chegou a casa telefonou e disse-me:
" ... o menino sabe que hoje, pouco depois de chegar a Tijuana, morri ... e não foi a primeira vez?"Havia qualquer coisa com a Mary que de vez em quando lhe dava para "morrer"... mas nunca se esquecia de "ressuscitar"...
Tratava-me, brincalhonamente, por menino. E a graça, a suavidade, a doçura da voz dela?
(O novo Acordo aceita "brincalhonamente""?
A Mary verdadeiramente nunca morreu. Um dia ausentou-se mas ficou indelével, como que esculpida, nos corações de uma multidão. De uma multidão de amigos, de Portugal, do México, de Espanha, da América, do mundo! Durante os escassos meses que precederam a sua partida para o infinito, a Mary arrostou de frente com o inimigo que tanto a martirizava, desafiou-o, bateu-se como leoa, mas o inimigo era brutal.
E quando o insidioso Diabo traiçoeiramente a prostrou, quando se lhe acabaram as formidáveis reservas, quando o sistema fechou e o ocaso deixou a sua tão amada Terra na maior escuridão, a Mary disse "não posso mais" e resolveu ir descansar.
E as vezes que ela me disse ter nascido em Portugal e na América!?
É que quando a família Rosa partiu da Ilha Açoriana do Pico a caminho da Califórnia, já lá vão mais de setenta anos - o seu patriarca alimentando o sonho de triunfar na pesca comercial do atum nas águas abundantes do Pacífico até à distante Samoa -, a Mary já vinha com eles, protegida contra a intempérie no ventre materno, pelo que a Maria Antónia concebida no Pico resultou na Mary nascida e criada em San Diego, Califórnia, Estados Unidos da América, zip code 92106.
E então a nossa Mary - ao contar-me esta primeiríssima história colhida ao seu berço - extravasava de emoção, de orgulho, até de paixão, que ela era Americana, sim, mas Portuguesa também!!!
E revelava-se-me Luso-Americana tão evidente e tão genuina como a areia de todos os desertos, como a seiva que o pinheiro grita, dorido da incisão, como o milagre das papoilas brancas e encarnadas ondulando em Agosto nos trigais da Lusitânia.
A Mary Giglitto foi especial!
Para sua família, uma inexpugnável fortaleza!
Para os seus amigos, epítome de lealdade!
Na sua determinação em fazer, em produzir, em realizar, foi simplesmente infatigável.
Entre gozar a comodidade da sua casa, ou esgrimir, subia resoluta aos estrados onde se travam todos os combates, marcando-os com a sua legenda de brasão, que rezava assim: 'Perder, Talvez, Sem Lutar, Nunca.'
Durante décadas a Mary chamou a si o encargo de organizar em San Diego o Festival Cabrilho, que ela acabou por transformar numa bem-aventurada assembleia em representação de quatro Nações exprimindo em harmonia o seu apreço por coragem, por bravura.A coragem, a bravura daqueles que romperam os mares e encontraram o desconhecido.
A Mary Giglitto conquistou a maior consideração da Marinha Portuguesa, da Espanhola, da Mexicana e da Norte-Americana. Em termos mais claros e precisos, granjeou a reverência de Portugal, Espanha, México e Estados Unidos.
Louvores, aplausos e insígnias honoríficas nunca a motivaram. Mas os louvores, aplausos e as insígnias honoríficas chegaram, que ela os merecia.
Não se esgotou na sua extrema dedicação ao Festival Cabrilho a obra primorosa da nossa Mary.
Só que a Mary -- que eu tive a felicidade de conhecer como quem conheceu um tesouro -- não quer que eu diga mais.
Edmundo Macedo
Los Angeles, Outubro 2012
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Andamos na saudade de Maria Archer
Para uma associação de estudos sobre as mulheres da emigração, como é a nossa, Maria Archer é certamente uma personalidade inspiradora, que convida à pesquisa, à reflexão e ao diálogo. Começámos por a lembrar no Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora, em Novembro de 2011, justamente porque nesse congresso pretendemos partir da história da emigração no feminino, traçando, por um lado, as linhas de evolução de mais de um século de migrações portuguesas, com participação crescente de mulheres, e, por outro, dando-lhes visibilidade, não só mas também, numa área em que podemos considerar que têm estado, pelo menos, tão presentes como os homens: o domínio da Cultura, do ensino da Língua, das Letras e das Artes.
Por ambos os caminhos, os da História e os da Cultura, encontrámos Maria Archer.
Ela voltou, seguidamente, ser figura de cartaz na comemoração do Dia Internacional da Mulher. Uma "entrevista imaginária" com a grande escritora, protagonizada por jovens das Escolas de Espinho, deu a esse evento simples e didáctico um toque original e comovente...
E agora, aqui, em Lisboa, no Teatro Nacional da Trindade, partilhamos de novo, a força do seu pensamento e ideais, na evocação da sua vida e obra tão bem conseguida em sucessivas intervenções – neste espaço esplêndido, no salão nobre onde ela própria esteve inúmeras vezes – contando com muitas das pessoas que a conheceram bem, e com a presença e a palavra, tão honrosas para nós e tão prestigiantes para a sua memória, da Dr.ª Maria Barroso e do Presidente Mário Soares, símbolos da luta vitoriosa pelo Portugal em liberdade, em democracia, que ela sonhou.
Razões não nos faltam para justificar o empenhamento cívico com que, assim, fazemos de Maria Archer uma companheira de jornadas sobre as temáticas de género, no universo das migrações. Ela foi, de facto, uma grande Portuguesa da Diáspora. Sê-lo-ia, em qualquer caso, como intelectual, jornalista, romancista, mas foi - o, igualmente, como verdadeira precursora na pesquisa e divulgação de usos e costumes dos povos com os quais se viu em contacto. Primeiro em África, muito jovem, a acompanhar os Pais por terras do” Ultramar", depois, já sexagenária, no exílio brasileiro, passou largos anos em cinco países lusófonos, dispersos em três continentes, sempre atenta ao que acontecia em seu redor, com uma inteira compreensão das pessoas, dos ambientes, dos meios sociais, que soube traduzir em dezenas de escritos de incomensurável valor literário e de enorme interesse etnológico, sociológico e político....
Seria motivo bastante para partirmos à descoberta desse legado multifacetado e vasto, que, num estado de quase hibernação, guarda experiências e segredos de tantas gentes e vivências. De um amor por África, de um enraizamento no mundo lusófono, que o nosso anfitrião Dr. Vítor Ramalho tão bem soube focar.
Mas há mais! Maria Archer é uma daquelas figuras do passado, que é intemporal, por saber captar as constantes da natureza humana - sem deixar de ser, também, testemunha, memória crítica de um muito concreto tempo português, opressivo e cinzento, pautado pelo anacronismo das ideias e das regras de jogo social e político, que desvenda e põe em causa, com lucidez e fulgor - e sem contemplações. Ninguém, como ela, retrata o quotidiano desse Portugal estagnado e arcaico, avesso a qualquer forma de progresso e de modernidade, em que os mais fracos, os mais pobres não têm um horizonte de esperança, e as mulheres, em particular, são dominadas pela força das leis, pelo cerco das mentalidades, pela censura dos costumes, pelo confinamento da educação - tendo por pano de fundo as normas impostas para o relacionamento de sexos, com a entronização rígida dos papéis de género dentro da família, e as consequentes desigualdades, e preconceitos sociais, o doloroso e duradouro impasse de uma sociedade fechada ao curso da História, que acontecia na Europa e por esse mundo fora.
Maria Archer vai dar vida às portuguesas suas contemporâneas, revelando-as tal como elas são, com um realismo, que é, sem dúvida, uma busca uma evidência da verdade, doa a quem doer e para que se saiba... então e no futuro.
Nos seus "apontamentos de romancista" (em "Eu e elas", escrevendo sobre si e sobre os outros, com um fino sentido de humor e toda a "joie de vivre" )) confidencia-nos :"O meu trabalho neste livro foi quase o de um artista plástico. Moldei a obra sobre o modelo vivo".
Fica-nos a impressão de que essa foi uma metodologia que usou largamente…
A mais feminista das escritoras portuguesas, é, contrariando estereótipos universais (embora não o que podemos considerar a melhor "tradição nacional"), uma "feminista muito feminina", que ousou ser um ícone de beleza, ter uma carreira no jornalismo e nas Letras, fazendo, em simultâneo, combate pela dignidade e pela afirmação das capacidades intelectuais e profissionais negadas à mulher comum.
.Ousou fazer um nome no mundo essencialmente masculino da cultura portuguesa.
Ousou ser Maria Archer, sem pseudónimos...
Na verdade, por tudo isto, julgo que podemos dizer que ela é mais do nosso tempo do que do seu tempo - aliás, uma afirmação que se deve generalizar às mais notáveis feministas do princípio do século XX, as que dão rosto à exposição da Câmara Municipal de Espinho, há pouco, inaugurada aqui, nas salas e corredores do Teatro da Trindade.
Maria Emília era, então, demasiado jovem para poder participar nos movimentos revolucionários, em que estiveram envolvidas a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, mas iria ser uma das poucas que, no período de declínio desses movimentos (e de desaparecimento de uma geração ímpar), continuou, a seu jeito, solitariamente, uma lide incessante contra o obscurantismo, que condenava a metade feminina de Portugal à subserviência, ao enclausuramento doméstico e à incultura.
Foi uma inconformista, consciente das discriminações e das injustiças, em geral, e, em especial, das que condicionavam o sexo feminino, numa sociedade retrógrada e "fundamentalista", como dizemos hoje daquelas em que o Estado impõe a regressão às doutrinas e práticas de um patriarcado ancestral, contra o qual, se revoltou, naturalmente...
A escrita, servida pela inteligência, pela capacidade de observação e expressividade, foi para ela uma arma de combate político. Como dizia Artur Portela, "a sua pena parece por vezes uma metralhadora de fogo rasante".
É um combate em que a experiência de vida e a sensibilidade artística se fundem - norteadas por um declarado propósito de valorização do ser feminino e da sociedade como um todo.
É já uma Mulher livre num país ainda sem liberdade - coragem que lhe custou o preço de um tão longo exílio ...
Maria Archer é uma grande escritora (ou um grande escritor, como alguns preferem precisar, alargando o campo das comparações possíveis). E pode ser lida apenas como tal. Mas permite - nos também diversas outras leituras - para além da literária, a sociológica, a etnológica, a feminista...
Ninguém, como ela , escrutinou e descreveu o pequeno mundo da sociedade portuguesa da primeira metade do século XX, os pobres e os ricos, as famílias decadentes ou ascendentes, aristocráticas, burguesas, o povo" . Mulheres e homens imersos na nebulosa de preconceitos de género e de classe, de vaidades, de ambições, de prepotências e temores... "Aurea mediocritas", brandos costumes implacáveis... o mundo de contradições do Estado velho, que se auto-proclamava "Estado Novo".
Gostaria de realçar a"leitura feminista, porque ninguém conseguiu, como ela, soube corroer essa imagem da "fada do lar", laboriosamente construída sobre os conceitos falsos da harmonia de desiguais (em que, noutro plano, se baseava a ideologia do regime “corporativo") e da brandura de costumes - assente, porém, no autoritarismo e subjugação ao "pater familias" no pequeno círculo do lar, ou ao ditador paternalista no círculo alargado ao País.
Maria Archer é uma retratista magistral da mulher e da sua circunstância... O rigor da narrativa, a densidade das personagens, a qualidade literária, só podiam agravar, aos olhos do regime, a força subversiva da denúncia.
Os poderes constituídos não gostaram desses retratos de época, como não gostavam da sua Autora. Primeiro, tentaram desqualificá-la, desvalorizando-a. Sintomática a opinião de um homem do regime, Franco Nogueira, que em contra-corrente, num texto com laivos misóginos, a apresenta como uma mulher a falar de coisa ligeiras e desinteressantes (por tal entendendo a realidade do destino das mulheres, coisa para ele tão sem importância....). Sintomático também que a crítica seja divulgada pela própria editora da romancista, a par de tantas outras, de sentido oposto.
Não tendo conseguido os seus intentos, o Poder passou à acção: livros apreendidos, jornais onde trabalhava ameaçados de encerramento... Maria Archer viu-se forçada a partir para o Brasil - uma última aventura de expatriação, de onde só retornaria, doente e fragilizada, para morrer em Lisboa. Porém, o desterro não seria pena bastante. Teresa Horta, no prefácio da reedição de "Ela era apenas mulher afirma que Maria Archer foi "deliberadamente apagada da História".
Ser emigrante é já factor de esquecimento, regra geral inevitável, na memória da Pátria. Mas o seu caso foi mais grave, deliberado, doloso - ainda que, do nosso ponto de vista, não esteja definitivamente encerrado. É ainda bem possível combater esse acto persecutório, gizado e consumado há décadas.
Como? Restituindo à obra de Maria Archer o espaço que lhe é devido no mundo eterno da cultura portuguesa, revisitando a Mulher de Letras, através dos seus escritos. Em momentos mágicos, percorramos com Maria Archer as páginas fulgurantes dos seus contos, romances e crónicas, desocultando o passado, lançando luz sobre a realidade insuficientemente analisada e realçada da sociedade portuguesa de 40 e 50!
A elegância do seu estilo tempera o cru realismo, o fundo pesado e dramático de qualquer narrativa e torna sempre um prazer a sua companhia nas incursões pelo universo bafiento e confinado em que se cruzaram e confrontaram as portuguesas e os portugueses durante meio século – um universo no qual as personagens femininas raras vezes cumpriram as suas virtualidades e esperanças (mesmo que modestas), e os enredos quase nunca têm um final feliz - ou justo...
Elegância é uma palavra que quadra com Maria Archer, que a caracteriza na maneira como pensou, como escreveu, como se vestiu e apresentou em sociedade, como atravessou uma rua de Lisboa ou de São Paulo, como atravessou uma vida inteira, até ao fim...
Fim não será a palavra mais apropriada... Estamos aqui justamente unidos pelo projecto de lhe assegurar uma segunda vida, objectivo perfeitamente ao nosso alcance, porque "existir não é pensar, é ser lembrado", como disse Pascoaes.
Esta não é, pois, a primeira nem será a nossa última reunião para falar sobre Maria Archer, o seu exílio, o seu retorno - o seu legado ou a sua pessoa - qual deles o mais interessante? A pessoa é certamente tão fascinante como a escritora. E mais desconhecida. Mas só assim continuará por omissão nossa, porque ela está lá, para sempre jovem e vibrante, nas páginas que nos deixou impressas.
Dizia a Mariana desse romance eminentemente "feminista" que é "Bato às portas da vida":
"Ando na saudade de mim, mesmo perdida no tempo".
E nós andamos na saudade de Maria Archer, perdida mas reencontrada no nosso tempo, que queremos seja o do início do correr interminável do seu tempo futuro...
Por ambos os caminhos, os da História e os da Cultura, encontrámos Maria Archer.
Ela voltou, seguidamente, ser figura de cartaz na comemoração do Dia Internacional da Mulher. Uma "entrevista imaginária" com a grande escritora, protagonizada por jovens das Escolas de Espinho, deu a esse evento simples e didáctico um toque original e comovente...
E agora, aqui, em Lisboa, no Teatro Nacional da Trindade, partilhamos de novo, a força do seu pensamento e ideais, na evocação da sua vida e obra tão bem conseguida em sucessivas intervenções – neste espaço esplêndido, no salão nobre onde ela própria esteve inúmeras vezes – contando com muitas das pessoas que a conheceram bem, e com a presença e a palavra, tão honrosas para nós e tão prestigiantes para a sua memória, da Dr.ª Maria Barroso e do Presidente Mário Soares, símbolos da luta vitoriosa pelo Portugal em liberdade, em democracia, que ela sonhou.
Razões não nos faltam para justificar o empenhamento cívico com que, assim, fazemos de Maria Archer uma companheira de jornadas sobre as temáticas de género, no universo das migrações. Ela foi, de facto, uma grande Portuguesa da Diáspora. Sê-lo-ia, em qualquer caso, como intelectual, jornalista, romancista, mas foi - o, igualmente, como verdadeira precursora na pesquisa e divulgação de usos e costumes dos povos com os quais se viu em contacto. Primeiro em África, muito jovem, a acompanhar os Pais por terras do” Ultramar", depois, já sexagenária, no exílio brasileiro, passou largos anos em cinco países lusófonos, dispersos em três continentes, sempre atenta ao que acontecia em seu redor, com uma inteira compreensão das pessoas, dos ambientes, dos meios sociais, que soube traduzir em dezenas de escritos de incomensurável valor literário e de enorme interesse etnológico, sociológico e político....
Seria motivo bastante para partirmos à descoberta desse legado multifacetado e vasto, que, num estado de quase hibernação, guarda experiências e segredos de tantas gentes e vivências. De um amor por África, de um enraizamento no mundo lusófono, que o nosso anfitrião Dr. Vítor Ramalho tão bem soube focar.
Mas há mais! Maria Archer é uma daquelas figuras do passado, que é intemporal, por saber captar as constantes da natureza humana - sem deixar de ser, também, testemunha, memória crítica de um muito concreto tempo português, opressivo e cinzento, pautado pelo anacronismo das ideias e das regras de jogo social e político, que desvenda e põe em causa, com lucidez e fulgor - e sem contemplações. Ninguém, como ela, retrata o quotidiano desse Portugal estagnado e arcaico, avesso a qualquer forma de progresso e de modernidade, em que os mais fracos, os mais pobres não têm um horizonte de esperança, e as mulheres, em particular, são dominadas pela força das leis, pelo cerco das mentalidades, pela censura dos costumes, pelo confinamento da educação - tendo por pano de fundo as normas impostas para o relacionamento de sexos, com a entronização rígida dos papéis de género dentro da família, e as consequentes desigualdades, e preconceitos sociais, o doloroso e duradouro impasse de uma sociedade fechada ao curso da História, que acontecia na Europa e por esse mundo fora.
Maria Archer vai dar vida às portuguesas suas contemporâneas, revelando-as tal como elas são, com um realismo, que é, sem dúvida, uma busca uma evidência da verdade, doa a quem doer e para que se saiba... então e no futuro.
Nos seus "apontamentos de romancista" (em "Eu e elas", escrevendo sobre si e sobre os outros, com um fino sentido de humor e toda a "joie de vivre" )) confidencia-nos :"O meu trabalho neste livro foi quase o de um artista plástico. Moldei a obra sobre o modelo vivo".
Fica-nos a impressão de que essa foi uma metodologia que usou largamente…
A mais feminista das escritoras portuguesas, é, contrariando estereótipos universais (embora não o que podemos considerar a melhor "tradição nacional"), uma "feminista muito feminina", que ousou ser um ícone de beleza, ter uma carreira no jornalismo e nas Letras, fazendo, em simultâneo, combate pela dignidade e pela afirmação das capacidades intelectuais e profissionais negadas à mulher comum.
.Ousou fazer um nome no mundo essencialmente masculino da cultura portuguesa.
Ousou ser Maria Archer, sem pseudónimos...
Na verdade, por tudo isto, julgo que podemos dizer que ela é mais do nosso tempo do que do seu tempo - aliás, uma afirmação que se deve generalizar às mais notáveis feministas do princípio do século XX, as que dão rosto à exposição da Câmara Municipal de Espinho, há pouco, inaugurada aqui, nas salas e corredores do Teatro da Trindade.
Maria Emília era, então, demasiado jovem para poder participar nos movimentos revolucionários, em que estiveram envolvidas a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, mas iria ser uma das poucas que, no período de declínio desses movimentos (e de desaparecimento de uma geração ímpar), continuou, a seu jeito, solitariamente, uma lide incessante contra o obscurantismo, que condenava a metade feminina de Portugal à subserviência, ao enclausuramento doméstico e à incultura.
Foi uma inconformista, consciente das discriminações e das injustiças, em geral, e, em especial, das que condicionavam o sexo feminino, numa sociedade retrógrada e "fundamentalista", como dizemos hoje daquelas em que o Estado impõe a regressão às doutrinas e práticas de um patriarcado ancestral, contra o qual, se revoltou, naturalmente...
A escrita, servida pela inteligência, pela capacidade de observação e expressividade, foi para ela uma arma de combate político. Como dizia Artur Portela, "a sua pena parece por vezes uma metralhadora de fogo rasante".
É um combate em que a experiência de vida e a sensibilidade artística se fundem - norteadas por um declarado propósito de valorização do ser feminino e da sociedade como um todo.
É já uma Mulher livre num país ainda sem liberdade - coragem que lhe custou o preço de um tão longo exílio ...
Maria Archer é uma grande escritora (ou um grande escritor, como alguns preferem precisar, alargando o campo das comparações possíveis). E pode ser lida apenas como tal. Mas permite - nos também diversas outras leituras - para além da literária, a sociológica, a etnológica, a feminista...
Ninguém, como ela , escrutinou e descreveu o pequeno mundo da sociedade portuguesa da primeira metade do século XX, os pobres e os ricos, as famílias decadentes ou ascendentes, aristocráticas, burguesas, o povo" . Mulheres e homens imersos na nebulosa de preconceitos de género e de classe, de vaidades, de ambições, de prepotências e temores... "Aurea mediocritas", brandos costumes implacáveis... o mundo de contradições do Estado velho, que se auto-proclamava "Estado Novo".
Gostaria de realçar a"leitura feminista, porque ninguém conseguiu, como ela, soube corroer essa imagem da "fada do lar", laboriosamente construída sobre os conceitos falsos da harmonia de desiguais (em que, noutro plano, se baseava a ideologia do regime “corporativo") e da brandura de costumes - assente, porém, no autoritarismo e subjugação ao "pater familias" no pequeno círculo do lar, ou ao ditador paternalista no círculo alargado ao País.
Maria Archer é uma retratista magistral da mulher e da sua circunstância... O rigor da narrativa, a densidade das personagens, a qualidade literária, só podiam agravar, aos olhos do regime, a força subversiva da denúncia.
Os poderes constituídos não gostaram desses retratos de época, como não gostavam da sua Autora. Primeiro, tentaram desqualificá-la, desvalorizando-a. Sintomática a opinião de um homem do regime, Franco Nogueira, que em contra-corrente, num texto com laivos misóginos, a apresenta como uma mulher a falar de coisa ligeiras e desinteressantes (por tal entendendo a realidade do destino das mulheres, coisa para ele tão sem importância....). Sintomático também que a crítica seja divulgada pela própria editora da romancista, a par de tantas outras, de sentido oposto.
Não tendo conseguido os seus intentos, o Poder passou à acção: livros apreendidos, jornais onde trabalhava ameaçados de encerramento... Maria Archer viu-se forçada a partir para o Brasil - uma última aventura de expatriação, de onde só retornaria, doente e fragilizada, para morrer em Lisboa. Porém, o desterro não seria pena bastante. Teresa Horta, no prefácio da reedição de "Ela era apenas mulher afirma que Maria Archer foi "deliberadamente apagada da História".
Ser emigrante é já factor de esquecimento, regra geral inevitável, na memória da Pátria. Mas o seu caso foi mais grave, deliberado, doloso - ainda que, do nosso ponto de vista, não esteja definitivamente encerrado. É ainda bem possível combater esse acto persecutório, gizado e consumado há décadas.
Como? Restituindo à obra de Maria Archer o espaço que lhe é devido no mundo eterno da cultura portuguesa, revisitando a Mulher de Letras, através dos seus escritos. Em momentos mágicos, percorramos com Maria Archer as páginas fulgurantes dos seus contos, romances e crónicas, desocultando o passado, lançando luz sobre a realidade insuficientemente analisada e realçada da sociedade portuguesa de 40 e 50!
A elegância do seu estilo tempera o cru realismo, o fundo pesado e dramático de qualquer narrativa e torna sempre um prazer a sua companhia nas incursões pelo universo bafiento e confinado em que se cruzaram e confrontaram as portuguesas e os portugueses durante meio século – um universo no qual as personagens femininas raras vezes cumpriram as suas virtualidades e esperanças (mesmo que modestas), e os enredos quase nunca têm um final feliz - ou justo...
Elegância é uma palavra que quadra com Maria Archer, que a caracteriza na maneira como pensou, como escreveu, como se vestiu e apresentou em sociedade, como atravessou uma rua de Lisboa ou de São Paulo, como atravessou uma vida inteira, até ao fim...
Fim não será a palavra mais apropriada... Estamos aqui justamente unidos pelo projecto de lhe assegurar uma segunda vida, objectivo perfeitamente ao nosso alcance, porque "existir não é pensar, é ser lembrado", como disse Pascoaes.
Esta não é, pois, a primeira nem será a nossa última reunião para falar sobre Maria Archer, o seu exílio, o seu retorno - o seu legado ou a sua pessoa - qual deles o mais interessante? A pessoa é certamente tão fascinante como a escritora. E mais desconhecida. Mas só assim continuará por omissão nossa, porque ela está lá, para sempre jovem e vibrante, nas páginas que nos deixou impressas.
Dizia a Mariana desse romance eminentemente "feminista" que é "Bato às portas da vida":
"Ando na saudade de mim, mesmo perdida no tempo".
E nós andamos na saudade de Maria Archer, perdida mas reencontrada no nosso tempo, que queremos seja o do início do correr interminável do seu tempo futuro...
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
"Ela é apenas mulher" Arcelina Santiago
“Ela é apenas mulher” é um dos romances mais famosos de Maria Archer. Lê-lo, foi para mim, um prazer! Foi uma viagem com Maria Archer pelo tempo. Ele é uma verdadeiro testemunho da época, com Maria Archer a revelar-se como escritora e vanguardista nas ideias, verdadeira defensora da causa das mulheres.
A sociedade salazarista, repleta de falsos moralismos é aí retratada de forma frontal e desafiadora. Tornou-se incómoda nas verdades que espelhou e pela denúncia da situação das mulheres “ um dos melhores retratos da situação das mulheres portuguesas da primeira metade do século XX… o único retrato de corpo inteiro…retrato impiedoso, por vezes cruel…arrepiante…comovente… doloroso…retirando a venda dos olhos das pessoas… tirando a máscara embelezadora” como refere Maria Teresa Horta, prefaciadora da nova edição do livro.
Por não obedecer aos cânones habituais de escrita, por denunciar uma sociedade sustentada por falsos moralismos, por ter sido tão lúcida, realista e denunciadora, foi remetida ao ostracismo na sua época, mas mais grave ainda, continuou a ser por muitos anos. Felizmente chegou a hora de todos, em particular as mulheres, de a homenagearmos, dando voz às suas denúncias e projetando-a para a rota da ficção portuguesa . Ela merece, não apenas porque a sua escrita tem um marco peculiar mas por tratar-se de um documento onde a autora é plenamente conhecedora do universo psicológico das mulheres e reveladora de um quadro realístico, em termos sociológicos.
Este livro trouxe-lhe dissabores, viu-se envolvida em grande polémica. Foi considerada imoral e acusada de atentado ao pudor . A autora mencionou que “confiava na justiçado tempo”. Tempo que foi longo demais para lhe dar o destaque que tanto mereceria. No entanto, como diz o ditado “ mais vale tarde do que nunca”.
Ler esta obra é conhecer melhor Maria Archer, mulher ousada, destemida, frontal, conhecedora da realidade do seu tempo, lutadora contra os falsos moralismos, denunciadora da situação das mulheres através da escrita.
A sua escrita é fluente, clara, firme. A narrativa dinâmica e expressiva é interrompida por momentos de descrição detalhada e sublime. Aí, o universo subjetivo das personagens, o ambiente que as rodeia, é-nos revelado com pormenores que nos leva a visualizar e a estimular todos os nossos sentidos. Sentimo-nos lá, bem próximos das situações e dos sentimentos. Ficamos mais próximos da personagens, compreendemo-las, desesperamo-nos com as situações, lamentamo-nos e revoltamo-nos também…
Como gostei, ao longo da obra, acompanhar a trajetória de vida de Esmeralda. Com ela, viajei no tempo e com ela, indignei-me também. Desde a sua chegada a Lisboa, com a mala cheia de sonhos, sonhos adequados a uma jovem da altura, até ao destroçar do seu futuro… A sua perspicácia, capacidade positiva e lutadora contra tantas adversidades, a revolta e a determinação torna esta personagem uma heroína dos tempos e dos costumes. A narrativa foca outros tantos personagens que, em torno de Esmeralda, dão corpo a figuras típicas, personagens – tipo , reveladoras de uma sociedade fechada, machista, autentica teia de ideias e preconceitos, caso do Gerardo, Juliana, Leonor, as Amaro, Ema, Ester, Manuela…
Como Maria Archer afirmou em Revisão e Conceitos Antiquados em 1952:“A minha obra literária tem sido norteada pelo princípio vital de rebater o conceito arcaico da inferioridade mental da mulher.” Penso que não foi em vão a sua luta, certamente que foi pioneira, no seu tempo, pois ter fomentado polémicas, indignação foi já uma forma de denunciar e mexer com o instituído. Certamente que, mesmo em silenciosos declarados, foi mobilizadora e inspiradora.
Muito lhe devemos, nós mulheres!
Como mulher e cidadã, quero prestar a minha homenagem, agradecendo-lhe o que nos deixou e que é imortal, a sua obra, as suas ideias vanguardistas e sempre atuais, a sua postura perante a vida, cheia de coragem e determinação, mesmo lutando contra a maré. Maria Archer é um exemplo, uma inspiração para todos, em especial para nós, mulheres!
A melhor homenagem é, sem dúvida, continuar a ler a sua obra fantástica e dá-la a conhecer aos outros, principalmente aos mais jovens.
Maria Arcelina Santiago
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Sobre as Academias do Bacalhau
As Academias de Bacalhau estão hoje espalhadas no mundo, como
verdadeiros padrões de presença portuguesa, cumprindo uma vocação
matricial de convivialidade, que vem marcando o seu trajecto de
várias décadas, sempre a irradiar alegria, a expandir a nossa cultura
e os nossos costumes, a oferecer solidariedade a quem precisa.
A ideia que lhes deu origem é, em si mesma, uma ideia felicíssima e
singular: partir de uma simples tertúlia de amigos, reunidos num
almoço habitual, e juntar-lhe - numa fórmula que faz toda a diferença
- as componentes essenciais da cultura e da beneficência.
Mas por muito interessante que fosse este "achado", ao colocar uma
forma de associativismo lúdico ao serviço dos mais nobres objectivos
da sociedade, os seus autores não terão, com certeza, imaginado a
assombrosa aventura humana em que haveria de se traduzir!
O mundo da Diáspora portuguesa era formado por um sem número de
comunidades engendradas pela mesma vontade de preservar a
identidade nacional e de conservar os laços afectivos de ligação à Pátria, mas
que, não obstante o que as unia, permaneciam distantes e
incomunicáveis entre si.
Era preciso dar um passo em frente para formas mais englobantes de cooperação
entre instituições congéneres, entre Portugueses dispersos no espaço
geográfico
dos cinco continentes. Uma meta que, face à experiência do passado, parecia
inatingível. Seriam os portugueses, ao invés de tantos outros povos
europeus da emigração, definitivamente, avessos ao envolvimento num
amplo movimento de
convergência? As Academias do Bacalhau vieram provar que não. Ao longo
de mais de quatro décadas, mostraram tanto uma enorme capacidade plástica
de se moldarem à situação e características das sociedades em que se inseriam,
como uma surpreendente facilidade de vencer as distâncias geográficas,
estabelecendo
a ligação permanente entre todas, pontuada por congressos mundiais,
que juntam centenas
e centenas de "compadres", em sessões de trabalho e em convívio fraterno.
Do acolhimento se encarrega, com invariável eficiência, a Academia anfitriã.
Este movimento converteu-se, assim, em paradigma de diálogo e articulação de
projectos a nível intercontinental, e é também o único actuante, em simultâneo,
com o mesmo espírito e as mesmas regras, na Diáspora e em Portugal.
E pensar que tudo começou, em Março de 1968, num restaurante de Joanesburgo,
durante um almoço oferecido por quatro amigos a Manuel Dias, o mítico
jornalista
portuense!
Aí surgiu a ideia, segundo nos conta o fundador e presidente
honorário das Academias,
Dr. Durval Marques. Depois, os quatro (Dr. Durval Marques, Eng.º José Ataíde,
Ivo Cordeiro e Rui Pericão) suscitaram adesões e trabalharam em
conjunto para dar
configuração ao projecto, definindo os princípios informadores, as
particularidades
e formato original da futura agremiação. A Academia do Bacalhau de
Joanesburgo seria
lançada logo a 10 de Junho desse ano, durante a primeira grande
comemoração do Dia
Nacional na capital do Gauteng. Estava bem gizada e pronta a dinamizar acções
mobilizadoras em seu redor, com o seu exemplo, promovendo, a disseminação das
Academias em outras cidades.
A designação "Academia" não tem conotações elitistas - as regras de tratamento
no seu interior excluem, aliás, o uso de quaisquer títulos
universitários ou profissionais -
antes apela à camaradagem, à união, sem excluir a dose certa de
irreverência, que quadra
na perfeição com as praxes e rituais adoptados, a fazerem lembrar os
das nossas
organizações académicas, sobretudo as do Porto, do Orfeão
Universitário, de onde vem
o "gavião de penacho", que se canta em coro, em momentos altos.
A "Academia-tertúlia" não tem sede, o seu património são as pessoas, que podem
reunir em qualquer lugar, à volta de uma mesa de restaurante, em
frente a um prato
de bacalhau, "o fiel amigo". A focagem na amizade revela-se, igualmente, na
denominação de cada um dos seus membros: " compadre", sinónimo de "melhor
amigo", aquele que se convida para padrinho dos filhos. Ali não há
"doutores" todos se
tratam, familiarmente, por "compadres". As suas mulheres, as chamadas
"comadres", desde sempre, estiveram presentes nas festas especiais,
como convidadas,
não inicialmente como sócias.
Este é um aspecto que não gostaria de omitir, e que, do meu ponto de
vista, deve ser
situado no seu contexto histórico. A génese da tertúlia de Joanesburgo
explica "de per si"
o "porquê" da estrutura ser, na origem, exclusivamente masculina, e
afasta a hipótese de
qualquer intenção deliberadamente discriminatória: eram os homens que
conviviam, entre si,
na pausa de trabalho, ao almoço. As mulheres, simplesmente, não estavam lá, não
partilhavam o mesmo círculo de actividades ou de camaradagem
profissional. Por isso,
quando essa factualidade se alterou, com as mulheres a surgirem, lado
a lado, com
os homens no campo profissional ou associativo, foram sendo admitidas,
em muitas das Academias, como filiadas de pleno direito, e logo as vimos
em lugares de direcção ou mesmo na presidência, por exemplo, em
Toronto, na Nova
Inglaterra, em Brasília. O que não tem paralelo em outros ramos do
nosso associativismo
mais antigo e tradicionalista.
Refiro-me ao acesso em massa das mulheres, que aconteceu,
primeiramente, em países,
onde a igualdade de género era mais conseguida. Mas, de facto, a
título excepcional,
algumas senhoras haviam sido, muito antes, admitidas, como membros da
Academia Mãe de Joanesburgo, mulheres de Artes, de Letras, como Amália
Rodrigues (a primeira de todas), Vera Lagoa, Graça Sousa Guedes, ou
oriundas da política, como eu mesma. Aceitei, com entusiasmo, esse
estatuto por um lado, porque
estava ciente da importância de abrir precedentes e confiava na
capacidade de ajustamento
daquele modelo organizacional a uma realidade em evolução, (não só,
mas também, no
que respeita à colaboração igualitária de mulheres e homens) e, por
outro lado, porque
admirava as Academias e acreditava nas suas virtualidades de fazerem
coisas cada vez mais
extraordinárias.
O lugar ímpar e cimeiro a que as Academias ascenderam no universo da
emigração,
ficou, evidentemente, a dever-se à qualidade dos seus dirigentes. Tanto os
pioneiros, como os que lhes sucederam eram (são!) líderes de larga visão,
conhecedores da importância de conjugar esforços para consolidar e engrandecer
verdadeiras comunidades em terra estrangeira. Sabiam bem que estas
podem datar o
seu nascimento e formação do início do associativismo. Podem mesmo, a meu ver,
sintetizar a sua história numa glosa lapidar: "Associo-me, logo
existo". Este poder criador
e estruturante de comunidades, em sentido orgânico, está, de há
muito, estudado e definido
e é corrente distinguir, de acordo com as finalidades principais,
as instituições
de assistência e solidariedade, as agremiações de fins culturais, os
clubes e centros
e recreativos. Todavia, as Academias do Bacalhau escapam a essa
divisão clássica,
devido ao ecletismo e pluralidade dos seus fins e à singularidade dos
meios utilizados
para lhes dar cumprimento. Conseguem ser, do lado da Diáspora, um elo de
ligação à Pátria, e, também, a partir das Academias existentes no nosso país,
um meio de compreensão e de convivência ecuménica com a Diáspora.
Há, entre os seus membros muitos emigrantes ou ex-emigrantes,
considerados, justamente,
“gente de sucesso” É excelente lembrar o percurso individual de cada
um, mas sem
esquecer o que tende a ser mais subestimado: as suas realizações colectivas..
Um longo relacionamento com as comunidades, leva-me a acreditar no papel
insubstituível do associativismo, em que vejo," um ímpeto de
Portugal", de que falava
Pessoa - o ímpeto que despertou para a acção concreta os fundadores
das Academias,
no sul da África, e, depois, um pouco por todo o lado, em instituições
que avançaram e
cresceram à medida dos desafios com que foram deparando.
Julgo que o processo de descolonização de Moçambique e Angola, e, com ele, a
necessidade de valer a dezenas de milhares de refugiados, foi um dos
factores decisivos de
uma rápida evolução para patamares de actuação cada vez mais
elevados, com a criação
da Sociedade de Beneficência de Joanesburgo e do Lar Santa Isabel, na
segunda metade
da década de 70. Um passo de gigante, que centrou a acção das
Academias definitivamente,
na acção humanitária.
E o regresso, em grande número, da África do Sul, anos mais tarde,
terá sido determinante
na constituição de novas Academias no nosso próprio País. Os
"compadres" retornados
trouxeram consigo a saudade de África e a determinação de retomar o
convívio e o trabalho
beneficente, em terras portuguesas.
O Porto foi uma das primeiras cidades do país em que isso aconteceu -
como não poderia
deixar de ser, já que, através de ilustres portuenses, havia estado
presente em Joanesburgo,
no momento verdadeiramente genesíaco, e em todo o processo em que tão
grande aventura
se veio a desenvolver. E bem pode dizer-se que a imagem de marca da
cidade - força de
trabalho, poder de iniciativa, extroversão da alegria de viver - se
evidencia, hoje, na
dimensão e no dinamismo da sua Academia.
A fase seguinte foi a de expansão em novos destinos da Diáspora, o
que nos leva a
perguntar: e agora, que futuro para as "Academias"?
Em tempo de crise sem fim à vista, num ponto de partida de grandes
vagas migratórias
- a chamada "nova emigração", fenómeno recorrente em Portugal, em ciclos que se
encadearam, inparavelmente, nos últimos cinco séculos - quantos
desafios vemos pela frente!
É o momento de pormos nas Academias do Bacalhau as maiores esperanças, apostando
na sua experiência para enfrentar conjunturas difíceis e, como é da
sua natureza, fazer
história em gestos de solidariedade e simpatia.
Afirmação que avançamos, de caso pensado, com segurança, pois estamos
a falar, afinal,
naquele que se transformou no mais moderno e dinâmico movimento de união dos
Portugueses do mundo inteiro.
verdadeiros padrões de presença portuguesa, cumprindo uma vocação
matricial de convivialidade, que vem marcando o seu trajecto de
várias décadas, sempre a irradiar alegria, a expandir a nossa cultura
e os nossos costumes, a oferecer solidariedade a quem precisa.
A ideia que lhes deu origem é, em si mesma, uma ideia felicíssima e
singular: partir de uma simples tertúlia de amigos, reunidos num
almoço habitual, e juntar-lhe - numa fórmula que faz toda a diferença
- as componentes essenciais da cultura e da beneficência.
Mas por muito interessante que fosse este "achado", ao colocar uma
forma de associativismo lúdico ao serviço dos mais nobres objectivos
da sociedade, os seus autores não terão, com certeza, imaginado a
assombrosa aventura humana em que haveria de se traduzir!
O mundo da Diáspora portuguesa era formado por um sem número de
comunidades engendradas pela mesma vontade de preservar a
identidade nacional e de conservar os laços afectivos de ligação à Pátria, mas
que, não obstante o que as unia, permaneciam distantes e
incomunicáveis entre si.
Era preciso dar um passo em frente para formas mais englobantes de cooperação
entre instituições congéneres, entre Portugueses dispersos no espaço
geográfico
dos cinco continentes. Uma meta que, face à experiência do passado, parecia
inatingível. Seriam os portugueses, ao invés de tantos outros povos
europeus da emigração, definitivamente, avessos ao envolvimento num
amplo movimento de
convergência? As Academias do Bacalhau vieram provar que não. Ao longo
de mais de quatro décadas, mostraram tanto uma enorme capacidade plástica
de se moldarem à situação e características das sociedades em que se inseriam,
como uma surpreendente facilidade de vencer as distâncias geográficas,
estabelecendo
a ligação permanente entre todas, pontuada por congressos mundiais,
que juntam centenas
e centenas de "compadres", em sessões de trabalho e em convívio fraterno.
Do acolhimento se encarrega, com invariável eficiência, a Academia anfitriã.
Este movimento converteu-se, assim, em paradigma de diálogo e articulação de
projectos a nível intercontinental, e é também o único actuante, em simultâneo,
com o mesmo espírito e as mesmas regras, na Diáspora e em Portugal.
E pensar que tudo começou, em Março de 1968, num restaurante de Joanesburgo,
durante um almoço oferecido por quatro amigos a Manuel Dias, o mítico
jornalista
portuense!
Aí surgiu a ideia, segundo nos conta o fundador e presidente
honorário das Academias,
Dr. Durval Marques. Depois, os quatro (Dr. Durval Marques, Eng.º José Ataíde,
Ivo Cordeiro e Rui Pericão) suscitaram adesões e trabalharam em
conjunto para dar
configuração ao projecto, definindo os princípios informadores, as
particularidades
e formato original da futura agremiação. A Academia do Bacalhau de
Joanesburgo seria
lançada logo a 10 de Junho desse ano, durante a primeira grande
comemoração do Dia
Nacional na capital do Gauteng. Estava bem gizada e pronta a dinamizar acções
mobilizadoras em seu redor, com o seu exemplo, promovendo, a disseminação das
Academias em outras cidades.
A designação "Academia" não tem conotações elitistas - as regras de tratamento
no seu interior excluem, aliás, o uso de quaisquer títulos
universitários ou profissionais -
antes apela à camaradagem, à união, sem excluir a dose certa de
irreverência, que quadra
na perfeição com as praxes e rituais adoptados, a fazerem lembrar os
das nossas
organizações académicas, sobretudo as do Porto, do Orfeão
Universitário, de onde vem
o "gavião de penacho", que se canta em coro, em momentos altos.
A "Academia-tertúlia" não tem sede, o seu património são as pessoas, que podem
reunir em qualquer lugar, à volta de uma mesa de restaurante, em
frente a um prato
de bacalhau, "o fiel amigo". A focagem na amizade revela-se, igualmente, na
denominação de cada um dos seus membros: " compadre", sinónimo de "melhor
amigo", aquele que se convida para padrinho dos filhos. Ali não há
"doutores" todos se
tratam, familiarmente, por "compadres". As suas mulheres, as chamadas
"comadres", desde sempre, estiveram presentes nas festas especiais,
como convidadas,
não inicialmente como sócias.
Este é um aspecto que não gostaria de omitir, e que, do meu ponto de
vista, deve ser
situado no seu contexto histórico. A génese da tertúlia de Joanesburgo
explica "de per si"
o "porquê" da estrutura ser, na origem, exclusivamente masculina, e
afasta a hipótese de
qualquer intenção deliberadamente discriminatória: eram os homens que
conviviam, entre si,
na pausa de trabalho, ao almoço. As mulheres, simplesmente, não estavam lá, não
partilhavam o mesmo círculo de actividades ou de camaradagem
profissional. Por isso,
quando essa factualidade se alterou, com as mulheres a surgirem, lado
a lado, com
os homens no campo profissional ou associativo, foram sendo admitidas,
em muitas das Academias, como filiadas de pleno direito, e logo as vimos
em lugares de direcção ou mesmo na presidência, por exemplo, em
Toronto, na Nova
Inglaterra, em Brasília. O que não tem paralelo em outros ramos do
nosso associativismo
mais antigo e tradicionalista.
Refiro-me ao acesso em massa das mulheres, que aconteceu,
primeiramente, em países,
onde a igualdade de género era mais conseguida. Mas, de facto, a
título excepcional,
algumas senhoras haviam sido, muito antes, admitidas, como membros da
Academia Mãe de Joanesburgo, mulheres de Artes, de Letras, como Amália
Rodrigues (a primeira de todas), Vera Lagoa, Graça Sousa Guedes, ou
oriundas da política, como eu mesma. Aceitei, com entusiasmo, esse
estatuto por um lado, porque
estava ciente da importância de abrir precedentes e confiava na
capacidade de ajustamento
daquele modelo organizacional a uma realidade em evolução, (não só,
mas também, no
que respeita à colaboração igualitária de mulheres e homens) e, por
outro lado, porque
admirava as Academias e acreditava nas suas virtualidades de fazerem
coisas cada vez mais
extraordinárias.
O lugar ímpar e cimeiro a que as Academias ascenderam no universo da
emigração,
ficou, evidentemente, a dever-se à qualidade dos seus dirigentes. Tanto os
pioneiros, como os que lhes sucederam eram (são!) líderes de larga visão,
conhecedores da importância de conjugar esforços para consolidar e engrandecer
verdadeiras comunidades em terra estrangeira. Sabiam bem que estas
podem datar o
seu nascimento e formação do início do associativismo. Podem mesmo, a meu ver,
sintetizar a sua história numa glosa lapidar: "Associo-me, logo
existo". Este poder criador
e estruturante de comunidades, em sentido orgânico, está, de há
muito, estudado e definido
e é corrente distinguir, de acordo com as finalidades principais,
as instituições
de assistência e solidariedade, as agremiações de fins culturais, os
clubes e centros
e recreativos. Todavia, as Academias do Bacalhau escapam a essa
divisão clássica,
devido ao ecletismo e pluralidade dos seus fins e à singularidade dos
meios utilizados
para lhes dar cumprimento. Conseguem ser, do lado da Diáspora, um elo de
ligação à Pátria, e, também, a partir das Academias existentes no nosso país,
um meio de compreensão e de convivência ecuménica com a Diáspora.
Há, entre os seus membros muitos emigrantes ou ex-emigrantes,
considerados, justamente,
“gente de sucesso” É excelente lembrar o percurso individual de cada
um, mas sem
esquecer o que tende a ser mais subestimado: as suas realizações colectivas..
Um longo relacionamento com as comunidades, leva-me a acreditar no papel
insubstituível do associativismo, em que vejo," um ímpeto de
Portugal", de que falava
Pessoa - o ímpeto que despertou para a acção concreta os fundadores
das Academias,
no sul da África, e, depois, um pouco por todo o lado, em instituições
que avançaram e
cresceram à medida dos desafios com que foram deparando.
Julgo que o processo de descolonização de Moçambique e Angola, e, com ele, a
necessidade de valer a dezenas de milhares de refugiados, foi um dos
factores decisivos de
uma rápida evolução para patamares de actuação cada vez mais
elevados, com a criação
da Sociedade de Beneficência de Joanesburgo e do Lar Santa Isabel, na
segunda metade
da década de 70. Um passo de gigante, que centrou a acção das
Academias definitivamente,
na acção humanitária.
E o regresso, em grande número, da África do Sul, anos mais tarde,
terá sido determinante
na constituição de novas Academias no nosso próprio País. Os
"compadres" retornados
trouxeram consigo a saudade de África e a determinação de retomar o
convívio e o trabalho
beneficente, em terras portuguesas.
O Porto foi uma das primeiras cidades do país em que isso aconteceu -
como não poderia
deixar de ser, já que, através de ilustres portuenses, havia estado
presente em Joanesburgo,
no momento verdadeiramente genesíaco, e em todo o processo em que tão
grande aventura
se veio a desenvolver. E bem pode dizer-se que a imagem de marca da
cidade - força de
trabalho, poder de iniciativa, extroversão da alegria de viver - se
evidencia, hoje, na
dimensão e no dinamismo da sua Academia.
A fase seguinte foi a de expansão em novos destinos da Diáspora, o
que nos leva a
perguntar: e agora, que futuro para as "Academias"?
Em tempo de crise sem fim à vista, num ponto de partida de grandes
vagas migratórias
- a chamada "nova emigração", fenómeno recorrente em Portugal, em ciclos que se
encadearam, inparavelmente, nos últimos cinco séculos - quantos
desafios vemos pela frente!
É o momento de pormos nas Academias do Bacalhau as maiores esperanças, apostando
na sua experiência para enfrentar conjunturas difíceis e, como é da
sua natureza, fazer
história em gestos de solidariedade e simpatia.
Afirmação que avançamos, de caso pensado, com segurança, pois estamos
a falar, afinal,
naquele que se transformou no mais moderno e dinâmico movimento de união dos
Portugueses do mundo inteiro.
Subscrever:
Mensagens (Atom)