segunda-feira, 3 de setembro de 2012

"Ela é apenas mulher"


   “Ela é apenas mulher” é um dos romances mais famosos de Maria Archer.  Lê-lo, foi para mim, um prazer! Foi uma viagem com Maria Archer pelo tempo. Ele é uma verdadeiro testemunho da época, com Maria Archer a revelar-se como escritora e vanguardista nas ideias, verdadeira  defensora da causa das mulheres.
  A sociedade salazarista, repleta de falsos moralismos é aí retratada de forma frontal e desafiadora. Tornou-se incómoda nas verdades que espelhou e pela denúncia da situação das mulheres “ um dos melhores retratos da situação das mulheres portuguesas da primeira metade do século XX… o único retrato de  corpo inteiro…retrato impiedoso, por vezes cruel…arrepiante…comovente… doloroso…retirando a venda dos olhos das pessoas… tirando a máscara embelezadora” como refere  Maria Teresa Horta,  prefaciadora da nova edição do livro.
  Por não obedecer aos cânones habituais de escrita, por denunciar uma sociedade sustentada por falsos moralismos, por ter sido tão lúcida, realista e denunciadora,  foi remetida ao ostracismo na sua época, mas mais grave ainda, continuou a ser por muitos anos. Felizmente chegou a hora de todos, em particular as mulheres, de a homenagearmos, dando voz às suas denúncias e projetando-a  para a rota da ficção portuguesa . Ela merece, não apenas porque a sua escrita tem um marco peculiar mas  por tratar-se de um documento onde a autora é plenamente conhecedora do universo  psicológico  das mulheres e  reveladora de um quadro realístico,  em termos sociológicos.
 Este livro trouxe-lhe dissabores, viu-se envolvida em grande polémica. Foi considerada imoral e acusada de atentado ao pudor . A autora mencionou que “confiava na justiçado tempo”. Tempo que foi longo demais  para lhe dar o destaque que tanto mereceria. No entanto, como diz o ditado “ mais vale tarde do que nunca”.
   Ler esta obra é conhecer melhor Maria Archer,  mulher ousada, destemida, frontal,  conhecedora da realidade do seu tempo, lutadora contra os falsos moralismos, denunciadora  da situação das mulheres através da escrita.
   A sua escrita é fluente, clara, firme. A narrativa dinâmica e expressiva é interrompida por momentos de descrição detalhada e sublime. Aí, o universo subjetivo das personagens, o ambiente que as rodeia, é-nos revelado com pormenores que nos leva a visualizar e a estimular todos os nossos sentidos. Sentimo-nos lá, bem próximos das situações e dos sentimentos. Ficamos mais próximos da personagens, compreendemo-las, desesperamo-nos com as situações, lamentamo-nos e revoltamo-nos também…
  Como gostei, ao longo da obra, acompanhar a trajetória de vida de Esmeralda. Com ela, viajei no tempo e com ela, indignei-me também.  Desde a  sua chegada a Lisboa, com a mala cheia de sonhos, sonhos adequados a uma jovem da altura, até ao  destroçar do seu futuro… A sua perspicácia, capacidade positiva e lutadora contra tantas adversidades, a revolta e a determinação  torna esta personagem uma heroína dos tempos e dos costumes. A narrativa foca outros tantos personagens  que, em torno de Esmeralda, dão corpo a figuras típicas, personagens – tipo , reveladoras de uma sociedade fechada, machista,  autentica  teia de ideias e preconceitos, caso do Gerardo, Juliana, Leonor, as Amaro, Ema, Ester, Manuela…
Como Maria Archer afirmou em Revisão e Conceitos Antiquados em 1952:“A minha obra literária tem sido norteada pelo princípio vital de rebater o conceito arcaico da inferioridade mental da mulher.” Penso que não foi em vão a sua luta, certamente que foi pioneira, no seu tempo, pois ter fomentado polémicas, indignação foi já uma forma de denunciar e mexer com o instituído. Certamente que, mesmo em silenciosos declarados, foi mobilizadora e inspiradora.
   Muito lhe devemos, nós mulheres!
 Como mulher e cidadã, quero prestar a minha homenagem, agradecendo-lhe o que nos deixou e que é imortal, a sua obra, as suas ideias vanguardistas e sempre atuais, a sua postura perante  a vida, cheia de coragem e determinação, mesmo lutando contra  a maré. Maria Archer é um exemplo, uma inspiração para todos, em especial para nós, mulheres!
  A melhor homenagem  é, sem dúvida,  continuar a ler a sua obra fantástica e dá-la  a conhecer aos outros, principalmente aos mais jovens.
                                                                              Maria Arcelina Santiago
  

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