quinta-feira, 14 de julho de 2016

Profª Doutora Isabelle Oliveira - na homenagem à DRª MARIA BARROSO 2 junho

É, de facto, um imenso privilégio estar presente nesta bela homenagem à Dr.ª Maria de Jesus Barroso Soares, que fica “para além do tempo como se a maré nunca a levasse da praia onde foi feliz” para retomar um trecho do poema “Há mulheres que trazem o mar nos olhos” da sua grande amiga Sofia de Mello Breyner. Começo por saudar os ilustres membros da mesa e permitam-me que dirija uma palavra de saudação especial à Senhora Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Dr.ª Catarina Marcelino, que com a sua presença, veio emprestar uma maior solenidade ao acto e conferir-lhe um reforçado carácter responsabilizante. Dirijo igualmente o meu agradecimento e uma especial saudação aos ilustres convidados que, com a sua presença, enobrecem o evento. Propositadamente, deixei para último lugar os agradecimentos à nossa anfitriã, a Universidade Aberta, e toda a minha admiração, a duas ilustres Senhoras, Dr.ª Manuela Aguiar e Dr.ª Rita Gomes, querendo justamente dar-lhes a primazia que lhes é devida pelo seu combate às causas da emigração com sinceridade, dedicação, respeito e humanismo. A todos dirijo uma saudação muito especial. Por tudo isto, no léxico português, só encontro uma palavra que, na sua simplicidade, pode exprimir toda a nossa gratidão e que é: OBRIGADO! ------------------------------------------------------------ TESTEMUNHO Feitas as saudações e os devidos agradecimentos, é tempo de falar de um dos vultos feminino que marcou indelevelmente a História de Portugal. Sinto o peso do exercício desta tarefa nada fácil, tanto pela responsabilidade que acarreta, quanto pelas emoções e recordações que desperta em mim. Tantas recordações e afectos se cruzam e vêm ao de cima, irresistivelmente. Ninguém sai incólume de um encontro com Maria Barroso, uma mulher exemplar, generosa e de uma sinceridade desarmante. As suas palavras atravessam e atravessarão eras e reinventam o passado. Esta Grande Senhora, de pequena estatura, mas de uma enormíssima convicção, dedicou toda a sua vida a lutar contra os sistemas que lesam mulheres e homens, por mais Justiça, pela humanidade e, pura e simplesmente, pela vida. Certamente que terá sido alvo de invídias por parte de minorias, mas a grande maioria continua a venerar com grande admiração o ícone em que se tornou. Dotada de um rigor irrepreensível, no fundo, foi uma eterna rebelde sob um véu de delicadeza. Feminista, sempre defendeu a causa das mulheres com uma firmeza implacável, mas não aderiu às teses daquelas que – à semelhança de Simone de Beauvoir – negavam as diferenças entre os sexos. Está do lado dos mais fracos, mas refuta qualquer tipo de vitimização. A vida – que nem sempre foi um mar de rosas – como que em jeito de desculpa ofereceu-lhe oportunidades incessáveis de reconhecimento da sua pessoa, da sua integridade e do seu talento. A sua curiosidade pelo Mundo e pela sua transformação, pela vida e pelos outros, a abertura ao que é diferente e a alegria de viver – nunca a abandonaram, mesmo nas circunstâncias mais penosas. Foi sempre livre, veemente e serena e assim permanecendo ao longo do seu percurso e além dele. Soube traçar a sua independência em variadíssimos aspectos. Em inúmeras ocasiões, ecoaram palavras sobre a sua personalidade, tanto da parte de vozes modestas quanto de vozes egrégias, todas elas proferidas com respeito, admiração, carinho e determinação: aparentemente a Cara Senhora seria dona de uma personalidade vincada. Vincada! Pois sim! Maria de Jesus Barroso era uma mulher de personalidade e vanguardista em inúmeros domínios! Sabia exactamente aquilo que queria. Ficávamos horas a fio conversando pelo Mundo, em Lisboa, Paris... Dizia que Paris era a sua segunda Pátria, e respondia eu, que França passou a ser a minha primeira Pátria pelo facto do Marquês de Pombal ter incorporado apenas algumas ideias do Século das Luzes, o que levou Portugal a depor “as armas da razão” que produz injustiças, desigualdades … Que não é para nos autoflagelarmos, mas para pressionar no sentido de uma mudança urgente: acabar com a impunidade, a corrupção, os incompetentes, através da sanção moral pública, restabelecer, como exemplo, a honradez republicana como uma honra para servir o Estado e os outros e nunca para se servir a si próprio. Com o seu sorriso protector, dizia-me que incarnava melhor do que ninguém esta nova geração na qual deposita a sua confiança, para não deixar de lutar pelos meus ideais (só era vencido quem deixava de lutar), por uma justiça social que era o pilar principal para que uma sociedade fosse mais pacífica, coesa e equilibrada. Que ainda somos o país com maiores desigualdades no quadro europeu, onde a distância entre os mais pobres e os mais ricos é maior. Que isso é inaceitável, anos após a Revolução dos Cravos! E se quisermos justamente evitar revoltas anárquicas, toda a espécie de violência, e uma grande crispação e mal-estar social, é necessário ter a coragem de fazer as reformas que se impõem, com os olhos postos nas pessoas. Que precisávamos mais do nunca de uma Justiça – isenta, independente e justa – sendo outra das prioridades, para dar confiança aos portugueses e para prestigiar no estrangeiro o nome de Portugal. Saboreava uma a uma, cada uma das suas palavras perdendo a ilusão do tempo. Parecia encerrar um segredo: uma aliança entre tradição e modernidade numa única pessoa. Quando a observava, lembrava-me daquelas grandes senhoras de outros tempos, cuja distinção e porte impunham respeito. E, ao acompanhar o seu percurso, considerei-a sempre uma figura de proa, que lidera destemidamente a história. A sua curiosidade insaciável e o seu sentido de minúcia são característicos de uma natureza inquieta e fervorosa que faz avançar o mundo. Foi consigo que fiquei a saber que, na vida, aprendemos mais com as nossas perguntas do que com as nossas respostas. É verdade que era uma mulher enigmática, um enigma claro e reluzente capaz de atingir uma diafaneidade digna de admiração embora, no seu caso, se sentisse ainda algo mais: respeito, afecto, uma espécie de fascínio. Muitos, tanto em Portugal quanto além-fronteiras, se regozijariam por tê-la como confidente e amiga. Tive a sorte inaudita de ser sua amiga e a felicidade de partilhar momentos inesquecíveis consigo, aprendendo com a sua meticulosidade, a sua sabedoria, o seu humanismo e a sua liberdade. Entre todas as figuras da nossa era, a Maria Barroso é inquestionavelmente uma das preferidas dos portugueses, e não só. A admiração e o afecto são os sentimentos predominantes que é capaz de inspirar em todos nós. Personifica brilhante e incomparavelmente a resistência aos tempos terríveis que atravessamos, em que a violência se propagou talvez como nunca na história da Humanidade e, ao longo da qual, alguns – como foi o seu caso – lutaram contra as adversidades, com coragem e determinação, ilustrando os princípios da igualdade e fraternidade que em nada nos são estranhos. Para concluir, devo ainda acrescentar que existem pessoas extraordinárias que fazem mudar a forma como vemos as coisas e acreditar no sonho de um mundo melhor, sem recorrer à rispidez, mas antes à força da vida, beleza e ao poder da sua maneira de ser. O seu único defeito residia em esquecer-se de si própria em favor dos outros, mas quem poderia recriminar-lhe isso? Hoje, almejo sobretudo recordar esses momentos que partilhámos e que me inspiram a travar, com a ajuda de outros, as lutas que também travou. A sua memória perdurará para sempre entre nós! E afianço-lhe que a ponte que lançou entre dois mundos também!

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