domingo, 15 de dezembro de 2013

Claudia Rios


 

Boa tarde a todos os participantes e convidados. Por um lapso meu em não me ter apercebido da realização do Encontro da Mulher Migrante – deixei de estar hoje convosco nesta troca de experiencias tão frutuosa.

Será difícil perdoar a mim mesma tal descuido devido a imensa perda a vários níveis  quer pessoal quer por razões de dar a conhecer ao meu público tal empreendimento no campo das Migrações.

Fui com bastante honra uma das participantes do I Encontro da Mulher Migrante – realizado em Viana do Castelo. Esse Encontro foi a realização dum desejo há tanto tempo guardado nos corações das mulheres migrantes espalhadas pelo Mundo.

Foi um impulso cultural orientado pela sempre atenta aos assuntos migratórios – a Dra. Manuela Aguiar e outros afiliados como o Instituto de Apoio a Emigração e Comunidades Portuguesas e a Secretaria de Estado da Emigração, entre outros.

Muitos anos se passaram sobre essa bela semana de adrenalina intensa em cada discurso vindo dos vários Países.  Todas nós mulheres apresentamos as nossas vivências e dificuldades e o sucesso alcançado em Países “la fora”,  como se diz.

Agradeço a oportunidade de estar convosco desta forma, expressando o meu sentimento solidário com a causa que nos toca tão de perto.

Neste meio tempo o meu interesse pela Rádio foi interrompido por uns anos por uma necessidade de descanso mental.

No entanto voltei ao mesmo caminho e na mesma estação em wrtc nos Estados Unidos , costa leste. Lá estou em cada Domingo, cumprindo a missão de servir o público a nível voluntário. Estou a fazer este ano 20 anos de rádio no ar,  mesmo não incluindo o intervalo.

Tem sido resultado de uma dedicação a que não devo dar tréguas pois as pessoas perguntam logo se estou doente, quando eu falto.

Além dos meios tecnológicos ao serviço do Público na época presente, como é o caso da internet, uma rádio com História como é o Programa Amplitude, não deixa de ter a sua audiência fiel localizada e ainda com o acréscimo da transmissão via digital. Este programa está no ar a servir os Portugueses na área de Connecticut, Estados Unidos, desde 1972, ininterruptamente. É uma equipa de voluntários, que não recebe nenhum incentivo pelo seu serviço a não ser a fidelidade da Comunidade.

Através dos anos, eu mesma me correspondi com o Governo Português numa tentativa de apoio cultural ou outro que melhor nos ajudasse a desenvolver e incentivar a nossa presença a nível cultural.

A resposta foi sempre de desinteresse. Os Ministérios não estavam direcionados para prestar esse apoio por mais Comissões que se criassem. Ate hoje temos ‘lavrado’ sós, neste campo de manter a língua Portuguesa viva por terras da estranja. E quem diz esta rádio – (não comercial) – diz o mesmo de outras – pois tantas estão no estrangeiro com o mesmo fim e com os mesmos sacrifícios dos seus voluntários.

Se não fosse a vontade firme de servir a Língua e manter a Cultura através da Música, teríamos certamente caído no negativismo e no ridículo de que – “quem trabalha 20 anos sem ser compensado e faltando à família – não  sendo um tolo ingénuo”.

Devemos no entanto referir que houve uma época em que sentimos a companhia do Governo por obra e arte da Dra. Maria Manuela Aguiar e seus acordos com vários Institutos. Nessa altura recebemos programas feitos em Portugal e divulgados nas nossas emissoras com noticias interessantes e de relevo para as Comunidades no estrangeiro.

Tinha o titulo – De Portugal – Musica e Informação.

Depois voltamos ao abandono e a luta de sempre. Hoje estamos na mesma situação. Ou prosseguimos investindo o nosso tempo e dinheiro por uma causa ou desistimos e cruzamos os braços.

O Português residente no estrangeiro e inovador. Se algo falta, ele inventa e foi o que se gerou.

Hoje em dia, passa mais música Portuguesa no estrangeiro nesses programas do que nunca passara nas rádios Portuguesas dentro de Portugal.

E do conhecimento geral, o ‘comercialismo” que as estações Portuguesas em Portugal tem para passar música estrangeira. São resultado dos acordos com as editoras discográficas que querem vender tudo ‘menos o Português”. Por isso mesmo talvez, por uma reacção psicológica, o público em Portugal enche estádios para ver artistas estrangeiros. A musica do exterior vende.

Os nossos artistas pelo contrário, tem de ir ao estrangeiro para ser conhecidos e depois voltar então a Portugal e talvez tenham sorte de ouvir uma ou duas canções suas nas estações normais.

Por outro lado, eu como locutora – self made – desde os anos 80, também achei ser altura de transmitir a tempo inteiro e fundei a minha própria radio 24 horas no ar, via web com o nome REVIVAL MUSIC RADIO.

Foi no  ano 2010, logo após o regresso à rádio (2009)  na antiga e de sempre - wrtc fm com o Programa – Revival Romance e Paixão. (dentro do Programa Amplitude de novo)

Andávamos numa de “revival’  (palavra Inglesa) – revitalizar – reviver – re-encontrar o perdido – e nesse sentido voltei com mais vitalidade e dedicação a produzir radio.

A Revival Music Radio dá-me a possibilidade de lhe incutir o meu toque pessoal, sem restrições de horários. Além da música Portuguesa em alta escala, do apoio a cem por cento aos artistas Portugueses dentro e fora do País, ainda tenho um leque de música universal para todos os gostos.

Não é que eu deva só falar de mim e dos meus objectivos e sucessos, mas é a realidade. Esta rádio mais uma vez e toda custeada por mim tal como uma rádio normal. Não e um programa inserido num local já custeado pelos donos da radio, é a minha Radio da qual me sinto muito orgulhosa.

O público adora escutar a selecção musical e a voz dos locutores mas  não se sente na obrigação moral de custear seja o que for. Imaginam sempre que obras deste género e com esta latitude são apoiadas financeiramente pelo Governo. Como se enganam.!!!

Esta rádio Revival Music Radio tem aspirações altas – objectivos culturais de larga escala mas quase impossíveis de realizar – tipo – saraus de poesia com gravações em CD para escolas ou outros afins, biografias de autores Portugueses e de Compositores de Musica Clássica e outros temas do mesmo género. A dificuldade reside em vários factores:  apoio financeiro para a produção em massa e qualificadamente sonora, a distribuição, o tempo da produtora e locutora e a investigação meritória para o projecto.

Além de radio também escrevo para um jornal com o nome “O Brasileirinho’”. É um jornal comunitário distribuído em 7 estados da costa leste dos Estados Unidos. Apesar de ser um jornal Brasileiro, eu como Portuguesa, abordo temas da poesia e cultura Portuguesa, cantores Portugueses e sua biografia e notícias das festas comunitárias. Se e quando viajo, também comento o meu roteiro.

Ainda dentro de actividades voluntárias ou ‘hobbies’ iniciei há uns anos Blogs na Internet e todos eles são acompanhados da música Revival.

Blog de Culinária – escrito em Português mas também em Inglês com receitas de todo o Mundo

Blog Revival – ligado à rádio com varias secções – incluindo um clube dos artistas e seus portais na net, etc

Blog Pessoal – autobiográfico com fotos

Blog DJ Claudia Rios – programas da wrtc e em directo com Revival também e fotos dos tempos de rádio

E por aí vamos andando.

A minha vida profissional nada tem a ver com estes hobbies. Sou Técnica de Serviço Social e neste momento com especialização em Habitação para classes pobres com crianças em regime de ‘foster care’.  Ajudo as famílias a recuperar seus filhos retirados do seio familiar for falta de condições de natureza vária, sendo muitas vezes habitação imprópria um dos factores. A empresa onde trabalho é comparável à Santa Casa da Misericórdia, sem fins lucrativos.

Agradeço a vossa atenção aos meus enxertos de biografia  durante o tempo de emigração nos Estados Unidos, já 35 anos.

Obrigado a todos e continuação de um Encontro com raízes para o futuro das gerações Migratórias. Com sucesso a vários níveis.

Foi a minha intervenção simples neste Encontro e sentida como se estivesse presente e quero deste modo congratular todos envolvidos neste Programa de grande série de intervenientes e temas.

Claudia Rios – Harford – Connecticut – Estados Unidos






sábado, 14 de dezembro de 2013

Olga Archer Moreira sobre Maria Archer e Isabel Archer



Lampejos da imensidão africana
nas artes de Maria Archer e de Isabel Archer 

Apresento o meu agradecimento aos meus primos Fernando Pádua, Eunice Varela, Francisco Colaço e Luís Manuel Coelho pelas fotografias e artigos que me cederam sobre Isabel Archer e o meu reconhecimento à «Associação Mulher Migrante» na pessoa da Sra. Dra. Manuela Aguiar pelas evocações de Maria Archer e de Isabel Archer, minhas tias-avós, e pela confiança em mim depositada para, em conjunto com a Dra. Rita Gomes, organizarmos a publicação "Vida e Obra de Maria Archer – Uma Portuguesa da Diáspora".

Falar sobre esta publicação, sobre Maria Archer e também sobre Isabel Archer Areosa ou Isabel Archer Poole é um desafio.
Como desafio foi concretizar o projecto da publicação que hoje apresentamos em Lisboa. O livro que nasceu do Encontro, que teve lugar em Março do ano passado no Teatro da Trindade, nesta cidade.



Este livro, que reúne as intervenções proferidas na altura, é um reencontro com esta mulher da diáspora. Ouvimos testemunhos de amigos e familiares, para descobrirmos novas facetas, seleccionámos fotografias para relembrarmos o seu rosto e vogámos ao encontro da crítica da altura. Partimos ao encontro de Maria Archer.

Mas estando concluído o livro uma questão surgiu: que capa dar a esta publicação?

Lembrámo-nos, então, de um quadro de Isabel Archer Areosa que retrata o que ambas sentiam por África. E assim, singelamente, duas irmãs, artistas das artes e das letras, foram concomitantemente relembradas.

A organização e a selecção dos materiais foram horas e dias de deleite, para mim.

É com muito prazer que estou neste magnífico espaço que tanto seria do agrado destas duas irmãs. Falar de ambas é um repto.

Estávamos em 1899. Princípios de Janeiro. Inverno. Nasce, em Lisboa, a mais velha de uma prole de seis – Maria Emília Archer Eyrolles Baltazar Moreira.
Sete anos mais tarde, nasce, a 4 de Julho, na freguesia de S.Vicente, Isabel Archer.



Quando os raios de sol acariciam Isabel, pela primeira vez, já quatro irmãos, Maria, João, Natália e Irene existem. Três anos mais tarde nasce a irmã mais nova, Eugénia.

Em 1910, Isabel, com apenas três anos, Maria, já com onze anos, mudam de continente, da Europa para África. Partem com os pais e com os irmãos mais velhos para a ilha de Moçambique. Maria Archer apelidou-a de "ilha de coral branco". Aí o pai exerce a função de gerente numa agência bancária.

Em 1916 voltam a partir com os pais e o irmão João, meu avô. Desta vez navegam até à Guiné, e vivem um ano em Bolama e outro em Bissau.

Várias foram as mudanças de país e de continente que experimentaram ao longo das suas vidas.

Maria é uma criança persistente. As letras fazem parte do seu imaginário. A crítica está sempre presente. Maria Archer foi escritora, jornalista, conferencista, tradutora. Cedo, muito cedo, começou a escrever.
O seu primeiro artigo é publicado no jornal O Ocidental em Moçambique, em 1913.

Em 1917, na Guiné, dá voz e alma à tertúlia Lides Literárias.

Casa em 1921 com Alberto Teixeira Passos. Vive em Moçambique, durante 5 anos, com o marido e o afilhado. Retornam a Portugal e vivem ora em Vila Real, ora em Faro.



Em 1932 encontra-se divorciada.
Estreia-se nas letras pátrias nos semanários O Algarvio e o Correio do Sul, ambos de Faro.

De novo África surge perante os seus olhos e parte para Angola, onde se encontram os pais, com quem vai viver. O seu primeiro livro aí foi publicado, em 1935. Um livro de novelas e de contos intitulado, Três Mulheres, em parceria com Pinto Quartim. Ainda nesse ano regressa a Portugal e publica África Selvagem.



Escreve sobre os seus ideais, sobre África, sobre a luta pela dignificação da mulher. E escreve, para crianças, contos de encantar sobre África.

A sua escrita foi indelevelmente influenciada pelos muitos anos vividos em África. África, esse continente de cores quentes, de paisagens primitivas, de terras de sol.

Fascinou-se com a natureza que a rodeou e pintou-a através da escrita.
A sua obra conta com mais de três dezenas de livros publicados entre 1935 e 1963, alguns dos quais com várias reedições. A sua colaboração em jornais e revistas, em Portugal e no Brasil, ascende às centenas. ENCONTRO MUNDIAL - MULHERES DA DIÁSPORA "Expressões Femininas da Cidadania" 24 de Outubro de 2013 – Fundação Pro Dignitate

Lampejos da imensidão africana nas artes de Maria Archer e de Isabel Archer Fundação Pro Dignitate 24-10- 2011 – 21h30m 5



Em 1938 e em 1947 vive a revolta de ver alguns dos seus livros apreendidos. E, inconformada e perseguida, ruma até ao Brasil em 1955. Regressa em 1979 a Portugal.

Mulher de horizontes, viajada e ousada, admirada por muitos e silenciada por alguns, deixa-nos a 23 de Janeiro de 1982.

No crepúsculo da sua vida pairou o silêncio de um país e de uma sociedade.

Passados trinta anos após a sua morte vogam vestígios desta Mulher de inegável valor em alguns municípios de Portugal apesar do esquecimento a que foi votada.
Almada, Almodôvar, Amadora, Faro, Ferreira do Alentejo, Oeiras e Seixal, homenagearam-na, discretamente, num quase anonimato, entre 1975 e 2010, marcando, de forma perene, as ruas dos seus concelhos.



A mulher que não se escondeu atrás de pseudónimos permanece viva na memória destas edilidades.
Isabel é uma criança ladina, atenta e com grande sentido de humor. É bela. Desde muito nova que desenha, só mais tarde se dedica à pintura. A reprodução de um ramo de flores de um jardim é o seu primeiro trabalho. Está, então, em Sá da Bandeira. Isabel pinta, numa era em que este talento não é acalentado nas mulheres de então. ENCONTRO MUNDIAL - MULHERES DA DIÁSPORA "Expressões Femininas da Cidadania" 24 de Outubro de 2013 – Fundação Pro Dignitate

Lampejos da imensidão africana nas artes de Maria Archer e de Isabel Archer Fundação Pro Dignitate 24-10- 2011 – 21h30m 6



Casa, pela primeira vez, com João José Gomes Areosa, chefe da Delegação Aduaneira de Porto Amboim, e parte para Angola, envolta em sonhos.

Em 1940, fascinada com a natureza que a rodeia não hesita e participa no Salão de Benguela.
É uma autodidacta, como confessa numa entrevista à Vida Mundial, em 1945 e, tal como a sua irmã Maria Archer é uma mulher migrante.

Nesse mesmo ano, com 39 primaveras e tendo vivido dezassete em África, é convidada a expor no estúdio do Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo – SNI, em Lisboa. ENCONTRO MUNDIAL - MULHERES DA DIÁSPORA "Expressões Femininas da Cidadania" 24 de Outubro de 2013 – Fundação Pro Dignitate

Lampejos da imensidão africana nas artes de Maria Archer e de Isabel Archer Fundação Pro Dignitate 24-10- 2011 – 21h30m 7



A 30 de Junho de 1945, sábado, pelas 16h, foi inaugurada a primeira exposição de pintura de Isabel Areosa.

Do catálogo da exposição cito-vos extractos que nos elucidam e apelam ao enlevo da pintura de Isabel:
Isabel Archer Areosa prestando esclarecimentos ao Sr. Manuel Monteiro,

Inspector Superior das Alfândegas Coloniais, o sobrinho Luís Filipe Archer

Moreira e, mais à frente, Maria Archer conversando com o Sr. António Eça

de Queiróz, sub-director do SNI.
"A côr da terra africana chamou os seus olhos e as suas mãos à realização plástica……Nos últimos anos, com a maturidade, dá-se a expansão do seu talento nato, e a paisagem africana, numa integridade de interpretação que maravilha, sai dos seus pincéis com cheiro de mato e esplendor de sertão. (…) Esta exposição tem a novidade de ser a primeira que uma mulher portuguesa realiza, em Portugal, com a representação plástica de África. Tem a novidade de nos fazer presente a terra tropical, longínqua (…). Tem a novidade de pôr ao alcance dos nossos olhos a terra que muitos só viram, até hoje, com o coração.



Os quadros de Isabel Areosa apelam a todos os nossos sentidos. Espalham os cheiros de África, irradiam a luz de África, propagam os sons de África. Transmitem-nos a alma e a natureza africanas. E tudo nos é oferecido pela profusão de tons e policromia da natureza tropical – da selva e da estepe, dominados pelo mistério e pela perspectiva nostálgica dos horizontes que não têm fim. Os nossos sentidos inflamam-se perante os quadros de Isabel Areosa.

Isabel nas suas telas desbravou e desvendou África. Aprendeu a pintar escutando o que o seu coração lhe segredava.
A voz da crítica elogia desta forma o seu talento, Adelaide Félix em artigo de 15 de Agosto de 1945, publicado no Renascença, na secção "Quinzena Artística", afirma: "Não sabemos se o SNI encerrou, com a valiosa e impressionante contribuição de Isabel Areosa, artista de notável talento, a sua temporada plástica de 1944-45. Se se dispôs a fazê-lo, não ficará mal, na circunstância, a frase comum de que essa temporada "fechou com chave de oiro". E, mais à frente, vaticina: "Isabel Areosa, pintor das terras africanas, não oferece nos trabalhos que nos acaba de apresentar garridices habilidosas de colorista elegante; põe-nos, apenas, em face de uma pintura sincera, sugerida pelas impressões vividas ano após ano, num outro continente, impressões em que domina qualquer coisa de epopeia."

Por seu turno, Maria Archer é assim elogiada por João Gaspar Simões, em Outubro de 1949:"Disse que Maria Archer não era uma escritora – mas um verdadeiro escritor. (…) é perante um grande escritor português que nos encontramos, um dos maiores contistas que a nossa literatura tem conhecido (…) Em qualquer país civilizado a autora de Há-de Haver uma Lei… teria, pelo menos, meia dúzia de editores, e dos principais da nação, a disputá-la como seu best-seller. Entre nós, que vemos? Maria Archer … inscreve na capa do seu livro, ali onde costuma figurar a firma do editor, esta legenda que é um labéu para a nossa corporação de livreiros: «Edição da Autora – Lisboa, 1949»!

Esperem o juízo do tempo, e verão! Quando em 2049 se celebrar o centenário do aparecimento de Há-de Haver uma lei… todos os editores portugueses dignos desse nome baixarão os olhos, envergonhados, ao ouvir esta tremenda efeméride: em 1949 Maria Archer, autora de duas dezenas de volumes, teve de publicar a expensas suas o seu livro de contos Há-de Haver uma lei… pois não havia então em Portugal um único editor capaz de perceber que este livro era uma colecção de obras-primas do conto português".



Estas duas irmãs, que mutuamente se iluminam, são ambas prezadas pela crítica, na década de 1940, como um pintor e um escritor. Consideração máxima para a época. Os seus espíritos de pioneirismo estão visíveis.
Maria Archer exprime a sua sensibilidade através da escrita, Isabel Archer revela a sua sensibilidade na pintura e nos contos infantis que publica no jornal

infantil semanal "O Papagaio"1 de 1936 a 1944. Também Maria Archer publica contos infantis no "O Papagaio", de 1935 a 1937.



1 Este jornal deu à estampa o seu primeiro número a 18 de Abril de 1935, dirigido pelo prestigiado escritor, poeta e pedagogo Adolfo Simões Muller e pelo excelente artista gráfico Tom.
Nos números 79 e 84 desta revista encontrámos contos assinados quer por Maria Archer, quer por Isabel Areosa. Mas não só para o jornal infantil Isabel escreveu. Também os jornais nacionais conhecem os seus escritos. Colaborou no Século Ilustrado e, tal como sua irmã, é redactora no jornal Humanidade e no Diário de Luanda.



Isabel enfrenta a severidade da vida. Deixa, temporariamente, de pintar os seus óleos, e dedica-se a matizar os cartazes para as fachadas dos principais cinemas daquela época – Éden, Monumental, Império e outros.
A 30 de Março de 1947, a bordo do "Nova Lisboa", Isabel Archer Areosa parte, mais uma vez, para o vermelho quente das noites de "queimada" e para o plúmbeo baço das tardes de cacimbo. Não se despediu de Lisboa, antes prometeu voltar com nova exposição.



A 4 de Maio de 1947 concede a sua primeira entrevista a um jornal angolano, em Luanda, onde afirma: "dentro de seis ou sete meses farei uma exposição em Luanda." Para tal percorre Angola de Norte a Sul, perscrutando aquela terra e os seus locais mais recônditos, onde se depara com a ímpar beleza da natureza.

Finalmente, em Agosto de 1948, Isabel Areosa expõe em Luanda, no Palácio do Comércio, participando nas comemorações do Tricentenário de Angola.

Mais tarde, os seus trabalhos são expostos em Porto Alexandre, Angola.

Os sonhos de um casamento amoroso esmorecem, a separação adivinha-se e, por fim, o divórcio advém. Os tempos foram difíceis e esta época da sua vida foi deletéria. Mas o sol de Verão que esteve presente no dia do seu nascimento brilhou no seu coração e presenteou-lhe uma nova vida.

Em Outubro de 1951 casa com William Michael Poole, engenheiro, que conhecera durante a IIª Guerra Mundial. Ampararam-se mutuamente, sararam feridas em uníssono. Ela torna-se uma guardiã atenta de seu marido e ele vê nela a musa inspiradora de uma vida ao longo de mais de 40 anos.

Acompanhando o marido Bill, ruma até ao Egipto e à Etiópia, onde este trabalhou.
Isabel Archer, agora Isabel Poole, renova a sua pintura. Desta feita, a influência do Egipto sente-se nos novos quadros, na demanda de novos horizontes.



É a representação do deserto que Isabel nos dá a conhecer. Deserto de que o seu marido Bill tanto gosta. As cores quentes dos poentes dão lugar aos castanhos e dourados do deserto.

Anos volvidos atravessam, de novo, o oceano e, sempre, acompanhando o marido, aventura-se no continente americano. A Venezuela foi a sua nova migração.

Vive, ulteriormente, vários anos em Southampton, na Grã-Bretanha, país natal de seu marido.

Após a reforma, decidem regressar a Portugal, onde permanecerão até aos últimos dias de ambos.

Isabel Archer Poole parte, para a sua última viagem, em 2003.
Agora, que escrevo sobre o passado de Maria Archer e de Isabel Archer, paralelamente, e o reinvento pela palavra, não esqueço esse momento de revelação destes lugares mágicos, descobertos, no encantamento de um entardecer.



E, por fim, um agradecimento muito especial. Porque única e sublime é a relação de um pai com os filhos.

Pai, obrigada.

Obrigada, pela partilha das memórias sobre as tias e as histórias contadas, pelos valores transmitidos e pelo amor à família.

Obrigada e que saudades….

Muito obrigada.

Lisboa, 24 de Outubro de 2013
Olga Archer Moreira (vale.olga@gmail.com)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

RECIFE


EXPRESSÕES FEMININAS DE CIDADANIA – A MULHER PORTUGUESA NO RECIFE

Recife, Salão Nobre do Gabinete Português de Leitura, 18 de Novembro de 2013, 19 horas

 APRESENTAÇÃO

Expressões Femininas da Cidadania - A mulher Portuguesa no Recife é o tema do Encontro, que tem o alto patrocínio do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, integrando-se numa série de iniciativas sobre a mesma temática que comemoram ao longo de 2013, o 20º aniversário da Associação de Estudos Cooperação e Solidariedade " Mulher Migrante" e que ganha no Recife um especial significado por se associar às comemorações do Ano de Portugal no Brasil.
Dirigido à comunidade portuguesa e luso-brasileira, a autoridades brasileiras, a universitários e especialistas de questões de género, este Encontro pretende dar visibilidade à contribuição da Mulher Portuguesa na disseminação da Ciência, Literatura, Arte, Cultura, Saúde, Educação, Justiça, Segurança Social, Desporto, Economia e Empreendedorismo na cidade do Recife e, por extensão, em outras comunidades do País, refletindo a sua projeção social e profissional neste espaço da diáspora portuguesa.
No Brasil, eventos desta natureza ganham especial contorno, não apenas pelos laços históricos que unem os dois Povos, mas também pelo relevante desenvolvimento econômico do Brasil no cenário internacional, e pelo papel de crescente importância da mulher portuguesa e brasileira neste espaço da nossa lusofonia, com a identificação dos diversos caminhos que têm e vêm traçando.

 PÚBLICO-ALVO:

Comunidade Portuguesa no Recife, Universidade Federal de Pernambuco, Universidade Católica de Pernambuco, Real Hospital Português, Gabinete Português de Leitura, Câmara do Comércio, Vice-Consulado Português no Recife, Clube Português do Recife, Governo do Estado de Pernambuco (Secretaria da Mulher), Prefeitura da Cidade do Recife, Instituições, Entidades e Associações Luso-Brasileiras, bem como pesquisadores interessados na temática voltada à questão de gênero e à influência e conquistas da mulher na sociedade.
PROGRAMA
19 horas: Abertura
Apresentação de fadista acompanhado de guitarra portuguesa (instrumento tocado por brasileiro)
- Presidente do Gabinete Português de Leitura – Boas Vindas (5´)
-  Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas (5´)
- Vice-cônsul de Portugal no Brasil (Dr.Adriano Moutinho) (5’)
- Manuela Aguiar – Presidente da Assembleia Geral da Associação de Estudos Mulher Migrante (10´)
•        Palestra: Cristina Buarque (Secretaria Estadual da Mulher). Tema: questões de gênero (10´Palestra: Prof. Scott (UFPE) Tema: questões de gênero (10´)
 Palestra: Maria do Carmo Lencaster (RHP). Tema: sua atuação frente à Direção técnica do RHP (10
´  Palestra – Laura Areias. Tema: sua contribuição à literatura luso-brasileira (10
´Palestra – Empreendedorismo: palestrante a confirmar (10´)
 Palestra - Berta Guedes – Violência contra a mulher: vicissitudes d´aquém e d´além mar (10´)Palestra
 – Graça Guedes – Um novo associativismo para os mais velhos (10´)
Debate

•        Conclusões / Encerramento
Exposição de Arte – Pintura em tela

•        Coquetel volante
Apresentação de bloco carnavalesco Nem Sempre Lily Toca Flauta e Folia das Deusas

ORGANIZAÇÃO:
Associação de Estudos Mulher Migrante (Lisboa/Recife)~
Associação Folia das Deusas (sem fins lucrativos, tem por objetivo promover ações de apoio às mulheres em suas lutas por igualdade de gênero, oportunidades e justiça social)

 

ORGANIZAÇÃO / CONTACTOS:

Berta Fernanda de Souza Guedes Santana - bertaguedes@hotmail.com /(81) 91014545 e 97308673

Guilherme Venancio Santana - gsantana25@gmail.com /(81) 92915435

Adelina Cristina Augusto Chaves - adelina.chaves@gmail.com / (85)9662-6988

 

 

Sílvia Cordeiro Políticas de Género na Cidade de Recife


POLÍTICAS E GÊNERO NA CIDADE DO RECIFE

 

Sílvia Cordeiro

Secretária da Mulher do Recife

Perfeitura de Recife

 

 

 

O Recife, capital do estado de Pernambuco situado na região do Nordeste do Brasil, tem uma população de 1.537.704 habitantes. Desses, 827.885 mil são mulheres o que representa 53,8 % da população total.

Considerada como uma das capitais do Nordeste mais desenvolvidas,  Recife é ainda uma cidade com muitas desigualdades no que se refere às condições de infra estrutura, moradia, saneamento, saúde, educação e segurança. Recife  é também um importante centro cultural e turístico e possui uma  rede estruturada de  serviços, com universidades, museus, teatros, lindas praias, com forte setor de comércio, tecnologia  e empreendimentos.  

É nesse cenário que se insere a Secretaria da Mulher,  organismo municipal de políticas voltado para o segmento  feminino, conquista da luta  do movimento  de mulheres e feminista por direitos,  que desenvolve e articula políticas públicas de gênero para o empoderamento  das mulheres que vivem e trabalham no Recife, dando prioridade àquelas que precisam da política  pública ou seja as mulheres negras, as mulheres em situação de pobreza, as mulheres lésbicas, as mulheres idosas, as mulheres com deficiência  e as mulheres  em situação de violência  doméstica e sexista.

       Para efetivar as políticas de gênero na cidade, o governo municipal por  meio da Secretaria da Mulher, tem como prioridade, a ação de prevenção e enfrentamento da violência de gênero contra a mulher. Nessa ação estão  as campanhas  informativas pelo fim da violência e a descentralização, implantação qualificação e ampliação dos serviços para as mulheres em situação de violência doméstica e sexual. São também ações prioritárias, a promoção dos direitos de cidadania; a formação em gênero para o conjunto da gestão municipal; o fortalecimento sócio político das mulheres; a autonomia econômica e inserção das mulheres no mundo do trabalho; e a manutenção e fortalecimento do Conselho Municipal da Mulher.

Para ação de prevenção e enfrentamento de  toda forma de violência de gênero contra a mulher, são realizadas campanhas informativas permanentes nas comunidades e escolas,  com o objetivo de  desconstruir e desnaturalizar a cultura patriarcal que oprime as mulheres nos âmbitos privado e público.

Nesse sentido, as campanhas de sensibilização, em grandes eventos  culturais e esportivos da cidade, são estratégias que visam   pactuar  com a sociedade uma vida sem violência para mulheres no Recife. Concebida para contribuir na construção de novas mentalidades e atitudes desde a primeira infância, a campanha “Maria da Penha vai à Escola”, tem como foco o combate aos preconceitos de gênero, racial, contra a livre orientação sexual e contra as pessoas com deficiência.

Quanto aos serviços especializados de atendimento, existem os Centro de Referência Clarice Lispector para mulheres em situação de violência doméstica e sexista, a Casa Abrigo Sempre Viva para mulheres em risco de morte  e a Ouvidoria da Mulher.

No que se refere à promoção de direitos, até 2016, vamos entregar às mulheres do Recife seis Centros Municipais da Mulher, serviços com equipe multidisciplinar, voltados para o direito à cidade segura, que vai dar  suporte de forma descentralizado às ações municipais de promoção dos direitos das mulheres nos territórios, são seis áreas política administrativa que concentram  noventa e quatro bairros.

         Com esse desenho, estamos  estruturando uma rede de proteção para as mulheres, articulada com o conjunto dos serviços municipais e  ações de prevenção, afinada com os anseios das recifenses e  mulheres que vivem, trabalham e/ou transitam na capital pernambucana.

Essa rede  em articulação com a rede de saúde, educação, desenvolvimento social, planejamento e desenvolvimento econômico, segurança municipal e estadual, com o sistema judiciário e o Ministério Público, além dos institutos de pesquisa e das instituições de ensino superior que atuam  no Recife, será o caminho para construir uma cidade segura para as mulheres e por conseguinte para todas as pessoas.

Dessa forma a rede de proteção para a cidade segura, aponta para descentralização dos serviços, criação de mais espaços de acolhimento, aproximação da relação com os diversos segmentos de mulheres, ampliação dos canais de escuta e desenvolvimento de políticas públicas de gênero em parceria com a Secretaria da Mulher de Pernambuco, a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República e os organismos de políticas públicas para as mulheres que compõem o Fórum de Gestoras da Região Metropolitana.

 No tocante a relação dessa política com  a questão da migração de mulheres que buscam o Recife como  lugar de oportunidades  é possível abrir  canais de interlocução que proporcionem conhecimento  sobre migração nos  aspectos externo e interno, compreendendo que a política migratória internacional é atribuição do governo federal , mas rebate diretamente nos municípios , uma vez que é nesses espaços que as mulheres migrantes buscam as estruturas  e políticas municipais para estabelecer os vínculos de vida e trabalho.

A experiência do Recife como capital e rota do tráfico de pessoas, do ponto de vista da Secretaria da Mulher em parceria com outros  organismos, é  acolher, proteger  e inserir socialmente mulheres que passaram por situação de tráfico internacional, regional e  nacional  com fins de exploração sexual.

As ações municipais desde a Secretaria da Mulher, para esse  enfrentamento estão voltadas para a prevenção, com campanhas informativas, acolhimento  na Casa Abrigo  e apoio aos comitês estadual e nacional de tráfico de pessoas.

No que se refere à situação da migração de mulheres portuguesas para o Recife, precisamos conhecer a comunidade portuguesa, portanto, momentos como esse proporcionado pelo Encontro EXPRESSÕES FEMININAS DE CIDADANIA –A MULHER PORTUGUESA NO RECIFE, promovido pela organização MULHER MIGRANTE - Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade, com o apoio  da organização não governamental FOLIA DAS DEUSAS, são inspiradores e contribuem  para a formação e construção de estratégias de aproximação, além de difundir e articular com os movimentos de mulheres e feminista local, nacional  e internacional  uma agenda propositiva sobre como lidar com o tema da migração de mulheres, quer seja a migração voluntária em busca de oportunidades, conhecimentos e apoio técnico, quer seja a migração  forçada por questões relacionadas ao tráfico para fins sexuais, trabalho escravo e crises econômicas em seus estados, municípios e países de origem.

Para finalizar manifestamos o interesse da Secretaria da Mulher do Recife em estreitar as relações com a comunidade  portuguesa e com os  grupos  que se organizam em torno do tema da migração.

 

Berta Fernanda Souza Guedes Santana comunicação


 Serviço de Apoio à Mulher Wilma Lessa (SAMWL): Um exemplo de Atendimento a Mulheres Vítimas de Violência

Berta Fernanda de Souza Guedes Santana

Psicóloga

Vice-presidente da ‘Folia das Deusas”

 

Cumprimento a mesa, agradecendendo terem aceite honrar-nos com o vosso saber neste Encontro que a Associação Mulher Migrante aqui decidiu realizar, pela primeira vez no Recife e também no nordeste brasileiro, na decorrência de uma modesta proposta que me atrevi a fazer a esta Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade, com sede em Lisboa, razão pela qual expresso o meu agradecimento às Presidentes da Assembleia Geral e da Direção, Dras. Manuela Aguiar e Rita Gomes, a quem cumprimento respeitosamente, por me terem dado a oportunidade de vivenciar todo este processo, que embora penoso mas ajudado, contibuiu para mais uma vivência pessoal em termos de cidadania.

 Sou portuguesa nascida em Lisboa, cidade que adoro, de alma lusa e nordestina de coração. Filha de português, do Porto, da Foz do Douro e de brasileira, de Recife. Sou portanto resultado do encontro de 3 rios – Tejo, Douro e Capibaribe – todos deságuam no oceano Atlântico, oceano que aqui me trouxe, fazendo-me lembrar Fernando Pessoa: “…navegar é preciso, viver não é preciso”. Meus avós maternos, que alguns aqui neste salão com certeza conheceram, eram de Trás-os- Montes: Berta e João de Souza, um dos sócios fundadores do Clube Português, sócio benfeitor do Real Hospital Português, reconhecidos anfitriões, sempre prontos a acolher os seus conterrâneos, como tantos outros de seu tempo. Vim para Recife às vésperas de completar 12 anos e aqui estudei, formei-me e comecei minha vida profissional, sem maiores dificuldades por ser esta a terra natal da minha mãe, cidade onde passei muitas férias e que tão bem me acolheu.

Como fonoaudióloga e psicóloga, trilhei caminhos ou naveguei por águas que sempre me levaram para as minorias ou os menos favorecidos: desde os beneficiários do INSS[i], deficientes físicos e mentais na APAE[ii], usuários de álcool e outras drogas quando estive na coordenação clínica do CAPSad[iii] Professor Luiz Cerqueira e, atualmente, trabalhando como psicóloga, no acolhimento, apoio e acompanhamento a mulheres vítimas de violência no Serviço de Apoio à Mulher Wilma Lessa[iv], e é desta experiência que falarei.

Violência contra as mulheres, alguns podem estar se perguntando porquê o tema num encontro como este?

Além da relevância do assunto, estamos antecipando em uma semana o dia internacional para a eliminação da violência contra a mulher, que é o dia 25/11, e que no ano passado recebeu a seguinte mensagem do Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon:

Milhões de mulheres e meninas em todo o mundo são agredidas, espancadas, estupradas, mutiladas ou até mesmo assassinadas, atos que constituem violações atrozes dos direitos humanos. Do campo de batalha para a casa, nas ruas, na escola, no local de trabalho ou na sua comunidade, cerca de 70% das mulheres sofrem de violência física ou sexual em algum momento de sua vida. Um quarto de todas as mulheres grávidas é afetado.[v]

Portanto, infelizmente, violência contra a mulher é um flagelo mundial, uma prática que atravessa os anos e com características muito semelhantes em países cultural e geograficamente distintos, mais e menos desenvolvidos, de tal ordem, que a ONU criou em 2010 uma entidade – a ONU Mulheres - para promover a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres em todo o mundo.

Em 2003, a Organização Mundial da Saúde considerou que a violência doméstica “é um grave problema de saúde pública e que as conseqüências que lhe estão associadas são devastadoras para a saúde e para o bem–estar de quem a sofre, comprometendo o desenvolvimento da criança, da família, da comunidade e da sociedade em geral”[vi], representando enormes gastos para os cofres públicos.

Segundo o Conselho da Europa, a violência contra as mulheres no espaço doméstico é a maior causa de morte e invalidez entre mulheres dos 16 aos 44 anos, ultrapassando o câncer, acidentes de viação e até a guerra.[vii] Estes dados internacionais cruzados com outros disponíveis em Portugal sugerem que, semanalmente, morrem mais de cinco mulheres por razões direta e indiretamente relacionadas aos atos de violência doméstica.

Estudos de 2002 e 2003 indicam que, em Portugal, cerca de 1/3 das mulheres com 18 anos ou mais são vítimas de violência e que o custo médio com a saúde por mulher vítima de violência doméstica é de cerca de 140€ por ano, sendo que desse valor 127€ /ano são suportados pelo Serviço Nacional de Saúde, o equivalente a 91% dos custos.[viii]

Comparando com os dados internacionais, verificamos que, com uma taxa de 4,4 homicídios em 100 mil mulheres, o Brasil ocupa a 7ª posição e Portugal a 72ª, no contexto dos 84 países, estados-membros da ONU, com dados atualizados na OMS entre 2006 e 2010.[ix]

No Brasil, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)[x], ocorrem, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, o que corresponde a 15,52 mortes por dia, ou seja, um óbito a cada hora e meia.

O Mapa da Violência contra a mulher de 2012, baseado em dados do SINAM[xi] (Sistema de Informação de Notificação de Agravos à Saúde da Mulher) sinaliza que uma mulher é agredida a cada 5 minutos no Brasil, que a região Nordeste (entre 2009 e 2011) lidera o ranking com a maior taxa de feminicídios do País: 6,9 mortes violentas por cada 100 mil mulheres. Esse mesmo mapa indica que Pernambuco ocupa a 10ª posição entre os estados da federação e que Recife é a 6ª capital do país em número de mulheres mortas em conseqüência de violência.

Tanto Portugal quanto o Brasil tem vindo a desenvolver políticas continuadas e serviços que visam dirimir ou amenizar as conseqüências que a violência provoca na vida das mulheres bem como promovendo ações preventivas.

No Brasil muito vem sendo feito neste sentido e, atualmente, com uma mulher na presidência, mas também desde a criação, ainda no governo Lula, da Secretaria de Políticas para a Mulher, com status de Ministério, esperamos que as políticas nesta área sigam avançando. A nossa realidade estadual e municipal acompanha esse quadro nacional, com inúmeras iniciativas, que perpassam várias secretarias, em ações inter-setoriais, como muito bem já falaram a Secretária Estadual, Dra. Cristina Buarque[xii] e a Secretária Municipal, Dra. Sílvia Cordeiro[xiii].

Todos nós, de uma forma ou de outra, já nos deparamos com alguma situação desta natureza e é nosso dever, enquanto cidadãs e cidadãos (pois falo também para os homens) contribuir para transformar esta realidade tão sofrida.

Trago o exemplo de uma iniciativa pioneira implantada no Hospital Agamenon Magalhães[xiv], que é um equipamento público, estadual onde existe uma ilha de excelência no atendimento às mulheres vítimas de violência. Este serviço chamado Serviço de Apoio à Mulher Jornalista Wilma Lessa, mulher que muito lutou pela causa feminista, foi inaugurado em 2001 num espaço diferenciado e reservado do hospital e funciona em regime de plantão, 24h, de 2ª a 2ª, inclusive feriados. É constituído por uma equipe multiprofissional da qual fazem parte médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e que integro desde 2006.

Esta equipe é responsável por acolher a mulher vítima, prestar-lhe os primeiros socorros, examiná-la do ponto de vista tanto clínico quanto biopsicossocial, estabelecer e aplicar a conduta médica obedecendo o protocolo adequado ao tipo de violência sofrida.

É realizado o acolhimento e prestada a assistência psicológica não só no 1º atendimento, mas durante o período em que a paciente apresente sintomas de estresse pós-traumático, ajudando-a na recuperação da sua auto-estima e na reconstrução do seu projeto de vida.

O serviço acompanha esta paciente durante o tempo necessário ao seu restabelecimento e promove também a conversa com os outros organismos e instituições envolvidas para que a paciente tenha toda a atenção e cuidados pertinentes, cuidados estes que envolvem desde esclarecimentos sobre a Lei Mª da Penha e seus encaminhamentos (a lei que tipifica a violência doméstica como crime), ao aborto previsto por lei (que se aplica aos casos em que a gestação é fruto de um estupro), passando por toda a conduta de prevenção e profilaxia para DST/AIDS bem como a realização da cadeia de custódia.

Eis alguns números do serviço neste ano de 2013, contabilizados até Setembro:

Nº de atendimentos de novos casos: 512 (257 vítimas de violência sexual, 224 vítimas de violência física, 29 vítimas de ambas as violências e 2 sofreram ameaças)

Nº de retornos ao serviço: 677

Nº de casos encaminhados para o Programa de Aborto Legal: 8

Nº de casos em Programa Pré-Natal no serviço: 17

Nº de casos de reincidência: 9 (4 vítimas de violência sexual, 4 vítimas de violência física e 1 vítima de ambas as violências).

 

Há um soneto de Florbela Espanca que muito me lembra o sofrimento das mulheres que diariamente nos procuram no serviço, por falar de um vazio, de um desamparo, de um sentimento de não-pertencimento que é tão comum a estas mulheres:
 
 Lágrimas ocultas
 
Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
 
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
 
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
 
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
 
                             Florbela Espanca[xv]

 

Finalizo citando novamente o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon:

A violência contra as mulheres não pode ser tolerada, de nenhuma forma, em nenhum contexto, em nenhuma circunstância, por nenhum líder político nem por nenhum governo. [xvi]

Queria situar que foi destas experiências de trabalho que surgiu a idéia de criar uma associação que cuidasse das mulheres, mas de outra perspectiva, com foco nos seus direitos de cidadã, na sua saúde e educação, autonomia financeira, criatividade, enfim, visando o tão necessário e desejado empoderamento. Em conversas com amigas e colaboradores concluímos que por meio de um bloco de Carnaval, instituição enraizada na nossa cultura, poderíamos chamar a atenção da sociedade para essas questões e, assim, nasceu “Folia das Deusas”, associação que organizou este evento.

Por fim, peço às portuguesas e luso-descendentes que não fizeram parte desta mesa que não se sintam desprestigiadas e sim estimuladas a participar da próxima edição, contribuindo com as suas experiências.

Não queria encerrar sem antes agradecer ao nosso anfitrião, o Dr. Celso Stamford Gaspar, Presidente em exercício do Gabinete Português de Leitura, pela cedência deste espaço e de todo o apoio da sua equipe, ao Vice-Cônsul de Portugal no Brasil, Dr. Adriano Moutinho por todo o apoio e incentivo dado a esta organização, à jornalista Geórgia Alves pela divulgação e articulação com a comunicação social, bem como aos nossos patrocinadores, Sra. Dona Fernanda Dias, da Casa do Frios, Sr. Manuel Tavares, do Conselho da Comunidade Portuguesa de Pernambuco e o Real Hospital Português.

Muito obrigada!

 




[i] Instituto Nacional do Seguro Social, órgão do Governo Federal responsável pela Seguridade Social no Brasil, cuja missão é “garantir proteção ao trabalhador e sua família, por meio de sistema público de política previdenciária solidária, inclusiva e sustentável, com o objetivo de promover o bem-estar social.”

[ii] Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, associação sem fins lucrativos que tem por missão educar, prestar atendimento médico, suprir as necessidades básicas de sobrevivência e lutar por direitos dos portadoras de deficiências  mentais, na perspectiva da inclusão social.

[iii] CAPSad Professor Luiz Cerqueira, Centro de Apoio Psicossocial para usuários de Álcool e Outras Drogas localizado no Distrito Sanitário I em Recife. O CAPS é um serviço de saúde aberto e comunitário do SUS (Sistema Único de Saúde), local de referência e tratamento para pessoas que sofrem com transtornos mentais, psicoses, neuroses graves e persistentes e demais quadros que justifiquem sua permanência num dispositivo de atenção diária, personalizado e promotor da vida.

[iv] Serviço de Apoio à Mulher Wilma Lessa é uma unidade de serviço que atende mulheres vítimas de violência de gênero no Hospital Agamenon Magalhães, hospital público estadual, de grande porte, localizado na cidade do Recife.

[v] Ban Ki Moon, Secretário Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), mensagem proferida em 25 de novembro de 2012, no Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher..

[vi] II Plano Nacional Contra a Violência Doméstica em Portugal, Diário da República Nº154 de 07.06.2003.

[vii] II Plano Nacional Contra a Violência Doméstica em Portugal, Diário da República Nº154 de 07.06.2003.

[viii] LISBOA, Manuel e BARROS, Pedro Pita. “Custos Sociais e Econômicos da Violência Exercida Contra as Mulheres em Portugal: dinâmicas e processos socioculturais”. Universidade Nova de Lisboa.

[ix] WHOSIS, CENSUS, IBGE

[x] IPEA: Instituto Brasileiro de Pesquisa Aplicada é uma fundação pública federal vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Suas atividades de pesquisa fornecem suporte técnico e institucional às ações governamentais para a formulação e reformulação de políticas públicas e programas de desenvolvimento brasileiros.

[xi] SINAM: O Sistema de Informação de Agravos de Notificação - Sinan é alimentado, principalmente, pela notificação e investigação de casos de doenças e agravos que constam da lista nacional de doenças de notificação compulsória (Portaria GM/MS Nº 104, DE 25 DE JANEIRO DE 2011.

[xii] Cristina Maria Buarque é feminista e ocupa, desde janeiro de 2007, o cargo de Secretária da Mulher do Governo do Estado de Pernambuco. Sua experiência no campo do feminismo e da defesa dos direitos das mulheres é reconhecida pelos movimentos sociais de mulheres urbanas e rurais, nos âmbitos nacional e internacional. Formada em Ciências Econômicas, Cristina Buarque fez mestrado em Ciência Política e, atualmente, é doutoranda em Sociologia. Antes de ocupar o cargo de Secretária de Estado, Cristina, que também é pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco, idealizou a Rede Mulher & Democracia cujo principal objetivo é promover a inserção das mulheres nos espaços de poder. Além disso, é presidenta do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim-PE), coordenadora dos fóruns Regional e Estadual de Organismos Governamentais de Políticas para as Mulheres e membro do Fórum Nacional de Organismos Governamentais de Políticas para as Mulheres.

[xiii] Sílvia Cordeiro, atual secretária da Mulher da Prefeitura Municipal da Cidade do Recife é médica sanitarista e feminista. Fundadora e ex-coordenadora do Centro das Mulheres do Cabo, integrou a Rede Mulher e Democracia, iniciativa de lideranças do movimento de mulheres e feminista do Nordeste que tem o objetivo de fortalecer e ampliar a participação e representação política das mulheres . Participou  também do Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social do Governo do Estado. Há 30 anos, tem atuação destacada junto aos grupos de mulheres populares em diversas categorias.

[xiv] Hospital Agamenon Magalhães é um dos mais importantes suportes ao SUS em Pernambuco, hospital público estadual, de grande porte, credenciado como hospital de ensino, localizado na cidade do Recife. Atende mais de 10 mil pacientes nas emergências e mais de 7 mil pacientes no ambulatório de especialidades por mês. 

[xv] Florbela Espanca (1894-1930), poetisa portuguesa nascida em Vila Viçosa, no Alentejo. Florbela viveu durante trinta e seis anos, teve uma vida tumultuada e cheia de sofrimentos, que eram transformados em poesias, cheias de erotização e feminilidade.

[xvi] Ban Ki Moon é atual Secretário-Geral das Nações Unidas. Campanha do Secretário-Geral das Nações Unidas “Una-se pelo Fim da Violência Contra as Mulheres” América Latina.