sexta-feira, 29 de maio de 2009

MARIA VIOLANTE MARTINS Mensagem


Quero agradecer o convite para o Encontro "Cidadãs da Diáspora" em Espinho.
Foi, para mim, uma honra ter participado, assim como ter compartilhado com amigos das Comunidades Portuguesas de diferentes países dias de convívio e fraternidade entre todos nós.
As mesas dos diversos painéis, com oradores tão sabedores e prestigiados, falando de temas muito próximos da realidade de vida de todos os presentes, os debates animados e sempre cheios de um sentimento de grande Portuguesismo, vão ficar na memória de todos quntos tiveram o privilégio de estar ali .

Também devo dizer que Espinho é uma cidade fantástica e a sua gente muito simpática. Sentimo-nos, todos, como em casa. Revimos amigos e fizemos novos amigos. Partilhamos experiências e ideias, desse intercâmbio surgiram ideias e projectos de trabalhos futuros.

Por isso, ao fazer o balanço final, quero reafirmar que valeu a pena, que aprendemos bastante com os outros e lhes demos conta da nossa própria maneira de atingir objectivos comuns. Estes "Encontros" são uma fonte de conhecimento e de inspiração e aprofundam a solidariedade entre os que vivem longe, sempre trabalhando para o seu País. É importante que continuem a realizar-se, para que a energia, a mobilização criada naqueles momentos altos não se perca, em prol das comunidades portuguesas.

Em nome da Associação Mulher Migrante Portuguesa de Argentina, no meu próprio e, se me permitem, no de tantos compatriotas residentes neste esplêndido pais de acolhimento, a Argentina, em sintonia de pensamento connosco, quero felicitar todos os organizadores do Encontro de Espinho, em especial a Dra. Manuela Aguiar, a Dra. Rita Gomes, que trabalharam de maneira árdua para que tudo fosse um êxito.

Bem-haja "Mulher Migrante" de Portugal !

26 de Maio de 2009

MARIA VIOLANTE MENDES MARTINS
Presidenta Mulher Migrante na Argentina


Cargos anteriormente exercidos pela Senhora Dona Maria Violante:
Presidenta de Damas casa de Portugal (1983-2008)
Vice-Presidenta fundadora (Mulher Migrante 1998-2001)
Presidenta Mulher Migrante (2001-2004)
Secretaria Mulher Migrante (2004-2006)
Presidenta Mulher Migrante (2006-2010)

Distinções pelo trabalho realizado:
Medalha de Mérito da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas (2004)
Plaqueta al mérito comunidades portuguesas da Argentina (2008)







quinta-feira, 21 de maio de 2009

ALICE MATOS Primeira Presidente da Associação "Mulher Migrante" da Argentina

MARIA ALICE MATOS
IMIGRANTE

O ASSOCIATIVISMO , como factor de progresso da Mulher, dependeu do tempo e lugar.
As mulheres imigrantes que, como eu, vieram de diferentes aldeias, cidades, e, todas juntas, sentíamos estar mais pertinho da nossa querida Pátria.
Mais tarde chamavam-lhe convívio.
A mulher começou a ganhar postos nas comissões directivas há 20 anos, quando muito.
Postos directivos para homens (diziam eles).
A finalidade de ambos era reforçar os valores de nossas tradições e cultura, e não esquecer a nossa amada língua.

A MINHA PARTICIPAÇÃO NOS MEIOS ASSOCIATIVOS
Começou como sócia e logo como secretária da Associação da Cidade Tesei, secretária do Conselho das Comunidades Portuguesas da República Argentina. Esta mesmo me designou representante na FAC (Federação Argentina de Colectividades), integrada por mais de 40 colectividades.
Éramos representantes junto do Ministério de Relaciones del Interior e Migraciones.
Também aí, na FAC, ocupei o cargo de Secretária Interinstitucional e Secretária-Geral.
Desejo expor o meu testemunho como desse lugar a "Solidariedade entre Colectividades" promove uma grande participação no associativismo.
E, ao mesmo tempo, exibimos as nossas tradições, a nossa cultura, gastronomia, bailes, admiramos os referentes a outras comunidades, tais como Festas Rotarias de colectividades, Feiras de colectividades. Convites para palestras, simpósios, mesas redondas, etc..

Exemplos de mecanismos e convénios:
Criação de Cursos para Líderes e Agentes comunitários (capacitação dos dirigentes para as problemáticas sociais e suas possíveis soluções.
O Fomento do desenvolvimento social, económico e cultural das comunidades baseados no reforço, consolidação e criação de redes sociais
Relações Públicas que incluirão encontros entre diferentes sectpores da comunidade, autoridades políticas e empresários.
A criação de um centro permanente onde se possa apresentar preocupações e projectos, a interlocutores idóneos.
Um Prédio destinado a ser Centro Social Cultural e de Negócios, com exposições permanentes e itinerantes.
Uma equipa de profissionais destinados a executar e supervisionar o desenvolvimento do presente programa.

Subscrevi, em nome da "Colectividad Portuguesa " a "Declaration Conjunta de las Colectividades Extranjeras en Nuestro Pais "luego de la Entrevista con el Ministro del Interior Dr. Carlos Corach.

Cada um de nós, representantes, na reunião do coselho das Comunidades, ao qual pertencíamos, informávamos sa novidades, e cada presidente comunicava à sua comissão directiva, e paticipava se desejasse.
Sobretudo me interessava:
a política interna de cada colectividade, a integração entre políticas do governo do País de origem e entre os gogernos locais
A juventude, as crianças, unidas pela apendizagem da língua supervisada por professores;
Interessantes programas de apoio, um grande desenvolvimento social, desportivo e intelectual. Não havia carenciados, a ajuda processava-se através do governo correspondente. Era uma pensão digna, a pessoa que era ajudada tinha conteção moral, não se sentia pobre. E assim funcionavam algumas comunidades.
Outra das finalidades da FAC:

AJUDA AO IMIGRANTE LEGAL
PEDIDO DE MELHORIA NAS INSTALAÇÕES DE MIGRAÇÕES
Depois de vários pedidos de audiências ao Sr. Director das Migrações conseguimos que se mudassem alguns artigos em leis da imigração
O fluxo migratório era cada vez maior e muito diferente dos de outrora.
Muito grande e complicado o prblema de imigrantes ilegais e as suas colectividades lutam para ajudá-los.
Os exemplos expostos mostram parte das actividades realizadas pela FAC.

Visitou-nos no ano de 1998, no Clube Português de Villa Elisa, Dr.ª Manuela Aguiar, onde teve uma reunião com as mulheres presentes, e onde se abordaram temas diversos entre elas - como ajudar os nossos carenciados.
Vocês, mulheres corajosas, que têm tanta força, animem-se a criar uma associação. Dessa forma, podem ajudar, ser conhecidas. quem sabe...
Eu tinha muito presente o que me havia impressionado noutras colectividades, e nem queria crêr que se estava abrindo uma possibilidade, uma intenção, de a mulher integrar um PROJECTO POR SI SÓ!
Meses mais tarde, já estava tomando vida A ASSOCIAÇÃO dA MULHER MIGRANTE NA RUPÚBLICA ARGENTINA, da qual tive a honra de ser a primeira presidente.

E aqui considero o ASSOCIATIVISMO COMO FACTOR DE PROGRESSO DA MULHER


Maria Alice de Matos


Comentários
Maria Manuela Aguiar disse...
Sem o saber, a consciência da necessidade e a vontade de lutar, sem a experiência que Maria Alice de Matos tinha, como uma das primeiras mulheres portuguesas a exercer cargos importantes em instâncias associativas argentinas e luso-argentinas teria sido possível o fulgurante lançamento da nova Associação de Mulheres?
Sempre considerei que o êxito desta iniciativs se deveu ao trabalho conjunto daquelas que conheciam bem os mecanismos da participação asociativa e daquelas que aprendiam depressa!
Parabéns, Maria Alice. Bem-haja, por tudo o que fez e faz pela nossa comunidade, pelos portugueses e por outros imigrantes, e pela Argentina, esse País de oportunidades e de acolhimento.






sexta-feira, 8 de maio de 2009

ALÍPIO JORGE Desporto e Cidadania


Encontro "Cidadãs da Diáspora"

Caríssima Dra. Maria Manuela Aguiar,

Desde já não posso deixar de lhe agradecer o convite, que tanto nos honrou, para fazer parte do painel “Desporto e Cidadania” e simultaneamente felicitá-la pela organização e pelo êxito daquele Encontro.

No desporto todos devem seguir obrigatoriamente as mesmas regras - as chamadas regras do jogo - independentemente da sua cultura, raça, cor, género, religião, educação, opções políticas...

O desporto é assim um veículo privilegiado no combate à exclusão.

Os objectivos educativos perseguidos pelo desporto são muito semelhantes às competências necessárias para a prática da cidadania; a inserção num grupo social de interesse, o desenvolvimento de atitudes positivas face à concretização de objectivos, a cristalização de valores socialmente aceites, a capacidade de interagir positivamente com os outros, de iniciativas de cooperação, de autonomia e de responsabilidade.

Associados à prática desportiva estão valores como a tolerância, o espírito de inter-ajuda e a solidariedade, que contribuem desse modo para a construção de um mundo melhor e mais pacífico, educando a juventude através do desporto que ao ser praticado sem discriminações, reclama compreensão mútua, espírito de amizade, solidariedade e jogo limpo, competências transversais à cidadania.

A secção feminina de bilhar do FCPorto é, afirmo-o com orgulho, tetra-campeã nacional, para além de ser detentora de inúmeros outros troféus.

As nossas atletas participam activamente nas várias vertentes associadas à vida desportiva; ocupam cargos dirigentes, são formadoras de novos talentos, são árbitras, são participantes activas na organização de eventos do clube, como a já mundialmente celebre TAÇA DO MUNDO.
Aos (bons) resultados não é alheia esta integração.

Apenas mais uma palavra para mencionar as actualmente designadas Filiais e Delegações do FCPorto espalhadas profusamente por Portugal e pelo estrangeiro, pontos de encontro da cultura portuguesa, e do papel activo da Mulher, bem como do seu trabalho e do seu apoio desportivo caloroso e incondicional, de que a minha querida amiga é um magnifico veículo e exemplo para todos nós.

Mais uma vez o meu obrigado pela oportunidade que nos deu, a mim e à Joana, em participar num tão pertinente e oportuno, quão agradável convívio.

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Alípio Jorge Fernandes e Joana Silva

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DRº TERESA HEIMANS Heroínas de ontem e de hoje

segunda-feira, 4 de maio de 2009

MARIA GUERREIRO- Tempo de guardar / Olhar gavetas



Señora
Dra. Manuela de Aguiar

A Sra. Natalia Correia me solicitou um texto sobre meu trabalho.

Eu estive participando no Seminário Português “Encontros para a Cidadanía”.
“A igualdade de Homens e Mulheres nas Comunidades Portuguesas”.
America do Sul Bs.As. 2005
Nessa oportunidade falei sobre a mulher artista, o espaço que ocupava e que hoje ocupa na cultura, no mundo.

Não sei se é valida uma experiência minha como mulher e como artista, mas considero que é universal.
As mulheres alguma vez têm sofrido mudanças de casa, de país e de costumes. No simple ato de ter que descartar
Algumas coisas ou muitas já é um motivo para remover sentimentos.

Mudar coisas de lugar, fazer uma selecção e guardar aquelas que se levam. é todo um jogo.
Os espaços vazios que se produzem são motivos para pensar, para sentir pequenos lutos...más também são espaços que permitirão que nosso espírito, em um futuro, possa ter a sensação de estar completo com coisas novas.
Esses espaços vagos, são o motivo do meu trabalho.

Em homenagem a todas as mulheres que têm passado alguma vez por esta situação:
Tempo de guardar / Olhar gavetas

Meus melhores cumprimentos,
Maria Guerreiro

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Tempo de guardar / Olhar gavetas

… Levar à luz
Aquilo que está oculto, guardado, velado, escondido, como pequenos segredos
Descobri-los e mostrá-los
Atenta ao causal e ao caso fortuito
Escolher, descartar, deixar espaços vagos, embrulhar e guardar
É um jogo diferente, mas jogo ao fim


Gaveta I

Abri a gaveta...
Três estojos de óculos originam o cheiro
a couro o que se percebeu ao abri-lo.
Uma faca com cabo de prata para abrir cartas Quanto tempo esteve Miguel à tua procura!
Sempre pensou que te tinha perdido em uma das suas viagens
gostava de te levar consigo.
Um apontador e um gude de vidro, dos grandes, com o qual jogava de criança
de vidro azul-verde com estrias brancas.
Uma chave de bronze, que dava corda a um
antigo relógio que se cansou do tique-taque.
Tubos de vidro com minas pretas. Um carimbo com a assinatura de Miguel, com uma marca
Gallo y Torrado S.R.L. PLACAS GRABADOS TE. 31 4138 San Martín 506
Três notas de moeda brasileira, valores, 20, 10 e 5 cruzeiros
Uma nota mais, de 1 peso Moeda Nacional. Uma caixinha cor-cinza com cartões pessoais
Um chaveiro da Frota Mercante do Estado... abrir o passado


Gaveta II

A caixa de profundo azul, mostrava um dos seus lados marcado, estragado
Tentei tirar a tampa, foi muito mais fácil do que achava
Pequenas sacolinhas e estojos de joalharia, veludo vermelho, camurça preta e papéis brilhantes
agradável ver a variedade de cores e texturas.
Os brincos de ouro, com os quais perfuraram as orelhas de Marcela, dixes ganhos de presente, corações, mãozinhas, trevos
Uma cruz de prata, uma medalha da sua primeira comunhão, outra da Virgem quando criança, um braçaletinho com seu nome, um pesebre, preciosa miniatura feita em prata
Risinhos invadiram o lugar....
E meu sorriso quando me lembrava dela


Gaveta III

Todas as paisagens estão aqui, com as fortes cores dos cartões postais
Marrocos, Moçambique, Cabo Verde. Enviados pelo correio com breves cumprimentos
Outros, comparados para não esquecer, para guardar momentos duma viagem
Cartões postais incapazes de transmitir o vivido. Madrid, Lisboa, Roma...
O ar salgado em Vigo. As castanhas assadas em Lisboa e o ronronar do eléctrico.
A chuva molhando o corpo em Roma, no entanto ria e ria por motivos que não quero contar
Sol do Algarve, céu azul, os barcos pesqueiros, outra vez o sol no rosto
Novamente a chuva em Paris sentir a água nos sapatos, e nenhum táxi ao redor (por perto)
caminhar e caminhar., Paris, cor-cinza, Paris com nevoeiro, Paris molhado...comer uma panqueca
....descartar cartões postais.


Gaveta IV

Custou abri-la...Trancavam-na fitas que laçavam uma quantidade de cartas
agora espalhadas na gaveta. Observei os selos dos envelopes, era fácil ver
destinos e destinatários. Nas cartas lia arrivos e despedidas como se seguissem roteiros designados, como se nunca tivessem deixado de viajar
ARGENTINES FINE PIER FOOT 29Th STREET BROOKLYN N.YORK
...será até amanha.
...continuarei escrevendo.
...continuamos fundeados.
...desejo voltar logo.
Algumas fotografias antigas. Numa delas está escrito
Diaca Moçambique15/4/65.
Amostra ao tio Ricardo com dois filhotes de leão nos braços, a seu lado seu colega de viagem, por trás um pequeno aeroplano que ele dirigia
...Histórias, histórias...tudo pode ser reinventado.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

DRª MANUELA AGUIAR Mulheres Migrantes - Trabalho Profissional e Intervenção Cívica

A emigração muda, profundamente, a vida das pessoas, homens e mulheres: muda o relacionamento entre eles, na família, na sociedade, com a terra de origem e de destino, com o mundo dos trabalhos.

É verdade em todos os tempos e para todos os povos e nós sabemo-lo por tradição oral, por documentos oficiais, relatos de imprensa, pela experiência de contemporâneos, pelos relativamente poucos estudos sistemáticos que sobre o tema se têm levado a efeito, numa perspectiva comparativa. (1) (2)

Nesta aventura portuguesa sem fim à vista – historicamente, para o Brasil, os EUA, Hawai, Demerara, Argentina, mais tarde para os cinco continentes – o mais intangível, o menos reconhecido é o papel da mulher, a sua quota parte num movimento que foi, largamente, dominado pelo estereótipo masculino, muito embora a proporção de mulheres tivesse aumentado, ao longo do século XIX, atingindo cerca de 30% no início do século passado e sendo, desde as décadas de 60 e 70, de quase 50%. (3)

A componente feminina quando existia em número significativo – ou passava despercebida ou levantava enormes objecções, por parte da “inteligentzia” e do Estado – que não se coibia de tentar limitá-la, através de regulamentação discriminatória.
Elucidativas da percepção geral sobre os inconvenientes da expatriação, das mulheres para políticos e, para cientistas, comentadores são as posições de Emygdio da Silva e de Afonso Costa – na dupla veste de responsável político e, em outra, menos conhecida, de autorizado especialista neste domínio – a considerar a emigração feminina como uma depreciação do fenómeno migratório. (4)

A este juízo não era, como se constata, alheio o facto de a emigração familiar para o Brasil, os EUA, o Hawai, provocar uma inevitável diminuição de remessas e prognosticar o provável enraizamento definitivo no estrangeiro. E assim, ainda que negativamente relevada, a emigração feminina é vista como importante – tão importante que “de per si” pode transformar a natureza do projecto migratório, reconvertendo-o de temporário, em definitivo ou, se não definitivo, mais prolongado. E pouco contava então, numa concepção comum a homens bem pensantes e bem intencionados, a felicidade, a segurança e o sucesso individuais e familiares, quando em oposição (como supunham…) aos interesses colectivos ou do Estado.

2 – A situação das mulheres emigradas, como indivíduos, como cidadãs, não foi, no passado, objecto de particular interesse, de investigação rigorosa, nem a nível de cada país ou grande região, nem a nível global.

Não o foi pelos que se integravam em correntes economicistas (medindo e quantificando em divisas as vantagens da expatriação de trabalhadores) mas também não o foi pelos que se envolveram na luta pelos direitos das mulheres.

Podemos perguntar: porquê? Talvez porque os problemas específicos deste grupo de mulheres se tenham diluído, por um lado, no movimento feminista – movimento social forte e influente desde o último quartel do século XIX (embora mais em outros países do que entre nós, apesar do esforço de uma elite feminista, que nos legou obra, pensamento estratégico e exemplos de determinação e coragem, mas não logrou organizar-se como grupo de pressão…) e, por outro, no domínio mais vasto dos movimentos migratórios, onde o homem ocupava o lugar central, no campo da observação e análise do fenómeno, enquanto a mulher só lateral ou indirectamente via reconhecida a sua presença, quer na decisão de partida (solitária) do companheiro (como decisão comum, que, quase sempre, é…) quer na alternativa de o seguir, no imediato ou no médio prazo.

O panorama não se modificou, substancialmente, até à segunda metade do século XX. A questão feminina, neste domínio, ganhou maior visibilidade no fim de um ciclo de “boom” económico, de desenvolvimento continuado, entre o pós guerra e a crise provocada pelo chamado “choque petrolífero” de 1973-74. É então que a oferta de emprego baixa drasticamente e os mercados de trabalho se fecham aos homens, enquanto as fronteiras se abrem às mulheres (e filhos), a título de reunificação familiar – reclamada e consentida em nome dos direitos humanos fundamentais (face às concepções do início de novecentos um verdadeiro “avanço civilizacional…”.

É uma conjuntura inteiramente nova, e que se irá prolongar por largos anos, caracterizada pela “feminização” das migrações.

Porém, numa primeira fase, ter-se-á mantido, como preocupação maior ligada a esta imparável inversão da proporção dos sexos no êxodo migratório, o receio pela sorte das mulheres no país de destino, como estrangeiras mais vulneráveis, mais isoladas, menos capazes de adaptação cultural e económica. Creio que subsiste ainda a ideia de que elas estão talhadas para ser objecto de uma dupla discriminação: como imigrantes, face aos homens e mulheres do outro Estado; como imigrantes, face aos homens e mulheres do outro Estado; como mulheres, face aos homens imigrados. (5)

Oriundas, na sua maioria, de meros meios rurais, com deficiente formação escolar e profissional pareciam, de facto, condenadas a ocupar os últimos lugares da escala no mercado de “mão de obra”, os de mais baixos salários e menores responsabilidades. Ou pior ainda: ao desemprego, que as deixaram na dependência dos maridos e confinadas no “guetto” familiar.

Nos inícios de 80, os resultados de um inquérito pioneiro, conduzido pela Comissão da Condição Feminina, apontavam, como se esperava, para uma percentagem muito elevada das emigrantes portuguesas, que partilhavam dos preconceitos contra a reivindicação de um papel mais assertivo e igualitário no interior da família e numa ocupação fora de casa.

Estamos confrontados com um pano de fundo onde se projectavam elementos que pesavam, todos, negativamente na previsão dos trajectos migratórios femininos – e que tinham, note-se, fundamento na realidade, ainda que numa realidade estática – sem atender aos que poderiam surgir em função de novas dinâmicas de integração, em sociedades mais prósperas, mais modernas e mais igualitárias, de cujos direitos e liberdades – algumas e, progressivamente, cada vez mais – haveriam de aproveitar.

No começo, os obstáculos surgiam como intransponíveis.

Não se acreditava na atracção exercida por diferentes formas de viver os papéis masculinos e femininos, na família e na sociedade, sobre os nossos emigrantes. Porém, conhecidas as suas tão glosadas capacidades de convívio e de colaboração com diferentes povos, bem podíamos ter previsto as mudanças de mentalidades e de atitudes que iria, em tantos casos, verificar-se – por mimetismo, por adesão natural, pela vontade de ser aceite e respeitado pelos outros…

Neste contexto, a mulher ganha consciência de direitos e de causas que ignorava. Redescobre-se, descobrindo novas maneiras de ser mulher, mãe, trabalhadora. (6)

É, pois, fundamental, acompanhar o percurso da mulher migrante em períodos sucessivos e realçar o circunstancialismo mais ou menos favorável à sua ascensão nos vários círculos em que se move.

3 – Para historiar a evolução do estatuto e das realizações das mulheres nos núcleos de emigração, havia que ouvi-las falar de si: como sujeitos do seu destino, conscientes de problemas, de dificuldades e virtualidades de actuação, no plano individual e colectivo.

A primeira audição mundial de portuguesas da Diáspora aconteceu em Junho de 1985, por iniciativa da Secretaria de Estado da migração, e trouxe a Portugal (Viana do Castelo) uma elite, que então despontava, de dirigentes associativos e de jornalistas.

A proposta para a organização desse grande Encontro foi aprovada, como recomendação ao governo, na secção regional do CCP (Conselho das Comunidades Portuguesas) efectuado em Outubro de 1984, em Danbury, Connecticut. (7)

Uma das constatações do Encontro (que, segundo opinião dos participantes vindos de todo o mundo, expressa nas conclusões, terá sido o primeiro do género convocado por um governo de um país de emigração) é a existência de uma grande heterogeneidade de situações, no que respeita à inserção das migrantes em diferentes sociedades, de emigração recente ou antiga – umas muito mais favoráveis ao emprego e ao empreendedorismo feminino do que outras.

Em qualquer caso, a capacidade individual, a vontade de participação cívica e profissional, é um dado de decisiva relevância. Se as mulheres permanecem isoladas no interior da sua casa, ou mesmo do seu grupo etário, como aproveitar os direitos e as oportunidades que uma sociedade avançada lhes oferece? Como escapar a um “duplo guetto” familiar e social? (8) Provavelmente não fazer o seu caminho entre dois mundos, numa linha de fronteiras psicológica e cultural, que não ultrapassam, de vez, mantendo distâncias no contacto com os naturais do país, por dificuldades de domínio da língua, de compreensão das facilidades do novo meio. O “low-profile” – o perfil das portuguesas como as viam numa pequena comunidade rural de França (corajosas, laboriosas, apagadas), nas conclusões finais, como retrato datado de uma geração. (9)

A aprendizagem da língua, o exercício de uma actividade profissional remunerada, exercida no exterior do lar, o contacto, o diálogo, a convividalidade com mulheres e famílias da sociedade de acolhimento são indispensáveis para a transformação da mentalidade e de condutas. (9)

Outro aspecto abordado no “Encontro” foi o do estatuto da mulher emigrada no interior das organizações do seu próprio grupo étnico – na medida em que estas contribuem para a criação de um espaço cultural, em que se “transplanta” a sociedade de origem (um fenómeno de “extra-territorialidade).

Haverá, em principio, ritmos diversos de progressão das portuguesas na sociedade estrangeira (onde essa progressão se verifica…) e naquela que podemos considerar “sociedade portuguesa” prolongada em comunidades, (vistas como unidades sociais coesas e dinâmicas, animadas por um projecto de futuro e formadas, essencialmente, por uma rede associativa forte e extensa). (10)

É com a chegada das mulheres, de famílias inteiras, que o associativismo ultrapassa a sua fase inicial de mero centro de convívio, café, tertúlia para adquirir a vertente cultural, de guardião de tradições, de modos de ser e de estar colectivamente e de persistir e sobreviver na cadeia de gerações. É com a presença da mulher que clubes e centros associativos se tornam a “casa comum” portuguesa, a sede de uma vivência comunitária, animada pela música, pelo folclore, pelas festas populares, pela gastronomia, pelo teatro, exposições, palestras, cursos de língua pátria…

Todavia, neste associativismo que podemos chamar “misto” – por contraposição ao associativismo feminino – era então, e quase três décadas depois ainda é, maioritariamente liderado por homens. As mulheres, mesmo as que, no estrangeiro, se destacaram na profissão e na intervenção cívica, vêem-se subalternizadas nesta espécie de retorno ao “mundo português”.

A mulher retrocede ao papel que tem, não na família “moderna” em que se insere, mas na família tradicional… A arcaica e rígida divisão de tarefas é a que rege aquele espaço associativo – como se este quisesse propiciar o regresso ao país e ao país do passado: conserva-se tudo, incluindo anacronismo no relacionamento entre os sexos. (11)

A primeira reacção a este estado de coisas – que se manifesta nas comunidades nos quatro cantos do mundo, a indicar a espontaneidade, a vontade de “regresso às origens”, neste particular aspecto em desfavor da participação feminina… - foi a criação de organizações próprias. São dos fins do século XX as pioneiras sociedades fraternais da Califórnia. Hoje, para além dessas seguradoras, de enorme dimensão, podemos referir várias esplêndidas instituições, nascidas no século XX (segunda metade): a “Sociedade Beneficente das Damas Portuguesas” de Caracas, a “Liga da Mulher Portuguesa” da África do Sul, a “Federação das Mulheres Portuguesas” de Piko – com sede em Estocolmo – ou, a mais recente, a “Associação da Mulher Imigrante Portuguesa” da Argentina (criada em 1998). (12) (13)

Terá futuro o associativismo feminino?

Creio que a resposta será dada, em definitivo, quando a participação de mulheres e homens no associativismo misto atingir níveis próximos da paridade. É natural que, então, as instituições femininas acabem por se diluir no “mainstream”, por manter interesse histórico ou simbólico. Mas para já, a paridade é uma meta longínqua. E, a meu ver, todos os meses são bons para fomentar uma maior intervenção cívica das mulheres – em organizações próprias, ou “mistas”, e dentro destas, eventualmente, em áreas específicas.

O diálogo e debate sobre a questão de género estão no seu ponto alto – porque nunca a esperança de obter resultados foi tão grande.

A organização de reuniões internacionais - como as que se vem efectuando década a década - têm sido um instrumento eficaz para a tomada de consciência dos problemas e a busca de soluções. Tem permitido um balanço da evolução verificada e do seu diferente ritmo nas várias comunidades, a tendência para uma maior visibilidade do papel da mulher e para a dinamização que pode trazer a um dirigismo, que em algumas partes do mundo, parece em crise de afirmação.

É no continente norte-americano que os progressos são mais notórios, sobretudo em organizações de juventude. O rejuvenescimento conduz aí, em linha recta, a paridade – o que não é necessariamente verdade em outros continentes. (15)

Mulheres e jovens de ambos os sexos, têm sido, genericamente, marginalizados nas associações mais tradicionais – e, por isso, constituem uma reserva que não pode ser desperdiçada, sobretudo numa conjuntura em que crescem as dificuldades em garantir militância e adesões.

Neste universo, muito heterogéneo (com crescimento e até nascimento de novos centros associativos e o declínio de outros…), em tempo de grandes mutações e incertezas, é um sinal dos tempos – ver mulheres à frente de algumas das mais antigas e prestigiadas associações nas comunidades mais “improváveis”.

Por exemplo, na Argentina, no emblemático “Clube Português” de Buenos Aires, ou na quase centenária “Associação de Comodoro” – Rivadávia.

É também no Equador, no Hawai, na América do Norte (em Mississauga, Toronto, Montreal, Vancouver, San Diego, Elizabeth, N.Y), na Europa, no Brasil (não ainda nas instituições centenárias, mas em Câmaras do Comércio ou Elos Clubes), na Venezuela, na Austrália. E até já em “Academias de Bacalhau” que começaram por ser um paradigma de associativismo especificamente masculino (16), já há mulheres presidente de Academias.

Conhecemos casos pontuais que somados representam uma alteração significativa. A quebra de um tabu, mas num quadro ainda de excepcionalidade e não absolutamente transparente.

Faltam-nos dados rigorosos globais actualizados periodicamente. Por isso, nos “Encontros para a Cidadania” em sido proposta a ideia da criação de um “observatório” para a igualdade (17), ao qual caberia, entre outras finalidades, a de registar os cargos e actividades das mulheres no movimento associativo, sem esquecer as suas realizações à latera do poder formal das direcções, por exemplo em organizações “satélites” ou redutos que lhes estão reservados, como os femininos, ou de senhoras auxiliares, comissões femininas ou os “comités de damas (em países de língua castelhana”). (18)

3 – Partimos de conceitos e preconceitos sobre o destino das mulheres nas comunidades da emigração que, algumas décadas decorridas, tivemos de considerar em larga medida, infundados, pela história das suas vidas.

E não porque não tivessem deparado com situações de discriminação, sob a forma previsível e prevista (isto é, de relativo desfavorecimento para as mulheres e homens do país, assim como aos homens emigrantes).

Porém, mesmo nesse condicionalismo, a simples possibilidade de exercer uma actividade remunerada, deu a muitas mulheres imigradas, uma independência e benefícios materiais, a que não poderia ter aspirado na sua terra. E ganha, com isso, um estatuto de igualdade (ou quase igualdade) na contribuição para o nível de vida familiar (19 (20)

Porque errou a previsão comum?

Creio que por erro de perspectiva, ao não tomar, como referência para aferação, as mulheres portuguesas não emigrantes, as que não tiveram a oportunidade de testar as suas capacidades num contexto de maior abertura à igualdade dos sexos.

Neste quadro de comparação, na maioria dos casos, a mulher emigrante é, afinal, uma dupla vencedora.

Como emigrante, porque pertence a uma “geração de triunfadores” e contribuiu decisivamente, como diria Eduardo Lourenço, com independência, para o sucesso do projecto de emigração e a ascendência alcançada na família e no exterior.

Como mulher, porque soube ultrapassar a distância entre a sua contradição anterior e as possibilidades reais de emancipação, que a emigração lhe permitiu, pelo trabalho independente e pela valorização do seu papel na família e na sociedade

Maria Manuela Aguiar