quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Maria Manuela Aguiar Abertura do Colóquio de Espinho

A AEMM vem a Espinho iniciar as comemorações dos seus 20 anos. Espinho é uma escolha natural, é a cidade onde a Associação verdadeiramente nasceu, com a sua primeira iniciativa de natureza internacional .De facto, foi a pequena distância daqui, à vista da mesma paisagem do nosso "mar sem fim", que se realizou o Encontro Mundial de 1995, onde se definiram objetivos, se reuniram centenas de mulheres dos cinco continentes, se  motivaram colaborações duradouras, se  mostrou, ao País e às comunidades do estrangeiro, a capacidade de "querer" e de "fazer " de uma pequena organização, criada pouco antes. Foi esse o momento e o lugar em que uma boa ideia passou à prática.  Uma ideia que, não o esqueçamos,  precedeu em cerca de uma década, a corporização da própria Associação, pois foi uma proposta saída do 1º Encontro de Mulheres Migrantes, promovido pela Secretaria de Estado da Emigração em 1985.  Passaram anos, sem que nada acontecesse, até que algumas das intervenientes desse 1º Encontro decidiram repensar um movimento associativo  para a cidadania das mulheres migrantes. Deram-lhe existência jurídica (por escritura pública, datada de 8 de outubro de 1993), e, de seguida, existência real através desse grande congresso de Espinho e de muitos outros projetos, de que se fez um trajeto de duas décadas.
Estas comemorações são, sem prejuízo do seu caráter festivo,  uma ocasião de apresentar um balanço do trabalho feito e, sobretudo, de olhar a evolução do mundo das migrações e de planificar as iniciativas que nos permitam continuar uma intervenção ativa e útil.
A presença do SECP é, para nós, muito significativa, porque nos encoraja a levar para o futuro uma tradição de parceria com  governos e administração pública, no campo dos direitos  de igualdade e de afirmação cívica dos emigrantes. O  fundamental do nosso pensamento está sintetizado no lema que adotámos  desde o início: " Não há estrangeiros numa sociedade que vive os direitos humanos". O que se aplica tanto às as leis como à sua concretização... Sabemos bem que, apesar da importância do papel das mulheres na origem e na sobrevivência das comunidades de cultura portuguesa, as condições que se lhes oferecem para nelas participarem, em pé de igualdade, ficam muito aquém da letra da lei... Cumprir a igualdade, dar voz e oportunidades às mulheres migrantes, são a causa que nos move, numa associação onde mulheres e homens trabalham juntos.
 Queremos agradecer ao Dr. José Cesário - e, na sua veste institucional de Secretário de Estado, a todos os antecessores com quem temos  cooperado -  e reafirmar a disponibilidade de prosseguir esta parceria, em regime de voluntariado.  Uma " parceria público privada" muito especial, porque não é do domínio dos negócios  mas das causas, da luta pela igualdade de género. que andou bastante esquecida nas políticas da emigração. O 1º Encontro Mundial de Mulheres Migrantes de 1985, foi um 1º passo no domínio dessas políticas, mas o 2º iria demorar anos.  A nossa Associação quis fazer a ponte entre esses dois tempos. Não deixa de ser surpreendente que o tenha conseguido,  evidentemente, muito por mérito dos seus interlocutores  em governos que se sucederam .
 No Dr José Cesário temos o mais convicto e coerente dos aliados! Identificamo-nos totalmente com o espírito da Resolução, que apresentou na AR, em 2010, sobre a participação das portuguesas nas comunidades do estrangeiro. Uma Resolução, que não ficou letra morta, cujas grandes linhas de ação vem executando, em colaboração com um conjunto de ONG'S - uma delas a AEMM. 
Agradecemos, igualmente, à Câmara Municipal, aqui representada pela Vereadora da Cultura Leonor Fonseca a sua hospitalidade. Um agradecimento em que recordamos o apoio  fraterno recebido dos anteriores Executivos Municipais. A Drª Leonor é "uma de nós", partilha os nossos ideais de valorização do papel das mulheres como cidadãs! Obrigada pela simpatia com que acolhe esta iniciativa da AEMM, aceitando integrando-la no âmbito da II Bienal  Mulheres d' Artes. abrindo-nos, na véspera da inauguração da Bienal, este esplêndido espaço das Galerias Amadeo Souza Cardoso, transformado em cenário de revelação de talentos artísticos femininos, com muitas participantes vindas das comunidades portuguesas do estrangeiro.
 "Expressões da cidadania no feminino" será o tema recorrente nos vários encontros que irão pontuar o nosso ano de 2013,  olhando a realidade da vida e obra das mulheres migrantes em diferentes domínios da cultura, da intervenção cívica e política, da diplomacia, do empreendedorismo económico. Neste primeiro colóquio, "Migrações e Artes no feminino" começamos pela cultura, como expressão maior da cidadania e vamos ouvir as próprias artistas sobre interrogações a que é preciso dar resposta, tais como estas, que, desde já, proponho para o debate: Há uma relação entre género e expressão artística? O que ganharam as mulheres na sua itinerância por vários universos culturais? Que papel atribuir às artes como formas de intervenção e de repercussão emotiva e artística de experiências de vida, e, também de aproximação das sociedades às quais elas sentem pertencer ? Como ver uma Bienal de Mulheres d'Artes?
  Na Bienal, como neste Encontro, julgo que não se pretende traçar uma linha de fronteira entre géneros, mas, pelo contrário, promover a harmonia e o equilíbrio, que ainda não existirão plenamente, As mulheres vêm, nesta perspetiva, ocupar o lugar da sua própria ausência, ou relativa ausência e marginalização, numa sociedade marcada por padrões masculinos.  Este não é, assim, lugar de separação, mas de reencontro e da procura de reconhecimento  das mulheres migrantes no nosso País.
Como no poema de Isabel Meyrelles, poderíamos dizer a cada uma das artistas presentes, em especial às que vieram de longe: 
"Eis que chegaste/ E cada coisa recomeçou/ No gesto interrompido"
Um recomeço no caminho das artes, que é o da Libertação

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

 
 
Comunicado | Mulher Migrante Venezuela: “As novas gerações estão a afastar-se das raízes portuguesas e por isso que Portugal deve reforçar a relação ibero-americana” | Dia Internacional do Migrante
 
Para poder falar da nova emigração é preciso rever a sua história, para assim melhor compreender as mudanças que ao longo do tempo têm vindo a suceder. Para isso é importante saber os motivos que levaram, no passado, o povo português a procurar novos horizontes. Razões várias, dos tempos mais remotos à atualidade, justificam este fenómeno. De assinalar a falta dos meios de subsistência responsáveis pelo "êxodo" de emigrantes isolados e de famílias inteiras, hoje radicadas nos diversos países de imigração. É também importante assinalar as circunstâncias de natureza política que as determinaram, associadas a perseguições desta natureza, à falta de liberdade de expressão, à guerra nas antigas colónias e a práticas sociais dominantes que impulsaram a fuga de muitos jovens, antes ou durante o cumprimento do serviço militar.
 
A família portuguesa tendeu sempre a acentuar o aspeto da identidade, colocando de lado qualquer apelo de integração, pois este era entendido e sentido como uma ameaça à sua identidade. Os emigrantes portugueses procuraram sempre manter uma unidade cultural que os impedia de integrar as sociedades onde se inseriam, mantendo sempre a esperança e o desejo de regressar ao seu país de origem. No entanto, “a dinâmica de uma sociedade multicultural e intercultural assenta, por um lado, na cultura da autonomia, por outro, na obrigatoriedade da participação e o emigrante português, fixado na ideia de regresso, sentia pouca vontade de participar e de se integrar na nova comunidade”.
 
Gradualmente, este tipo de emigração sofreu alterações. Se o projeto primeiro era angariar o máximo de dinheiro no mínimo de tempo, para poder regressar, cedo a família deu-se de conta que esse projeto económico não era realizável no espaço de tempo sonhado e, prolongando-se, entrava em conflito com outros objetivos importantes - A formação escolar das crianças exigia o adiamento do regresso e obrigava a uma certa integração de facto, em conflito com a ideia do regresso. A redistribuição de papéis na família, muitas vezes de forma pouco fiel à tradição, começava a afirmar-se à medida que as mulheres encontravam formas de trabalho remunerado.
 
Através de testemunhos podemos constatar que a educação familiar teve um peso significativo na formação e na vida das mulheres de origem portuguesa, tendo muitas delas relatado que os pais eram severos e austeros, ensinando principalmente os costumes da sociedade portuguesa. Relatam que tiveram uma educação diferenciada em comparação aos irmãos, pois, não gozando de nenhuma liberdade, deveriam ser acompanhadas sempre que saíam de casa, seja pela mãe ou por um irmão. Os pais controlavam bem de perto a sua vida até ao casamento, para entregar a filha "intata" ao futuro marido.
 
No entanto, as mulheres da segunda geração, que atingiram um nível educativo superior, são pessoas na maioria das vezes com uma identidade ambígua. Conhecem bem os padrões da pátria dos seus pais, não partilham a sua rigidez, mas gostam dos seus hábitos alimentares e das reuniões familiares aos domingos e nos dias de festa. No entanto, já não conseguem ter grande fluência na língua dos pais, limitando o seu vocabulário ao indispensável para a comunicação doméstica. Isto traz como consequência que seja mais fácil expressarem-se na língua do país onde vivem e muitas vezes já nem se identificam como portuguesas.
 
Se bem é certo que nos princípios da emigração portuguesa, no que se refere à Venezuela, observamos a típica emigração da mala de cartão, a saudade do país que deixaram atrás e da família que só voltariam a ver depois de muitos anos, não é menos certo que esta emigração logrou inserir na comunidade venezuelana e trespassar as barreiras culturais e linguísticas que num principio lhes parecia quase impossível. Os portugueses estão hoje perfeitamente integrados na cultura, na sociedade e na vida económica venezuelana. No entanto também observamos que as novas gerações estão a afastar-se das raízes portuguesas. É por isto que Portugal deve reforçar a relação ibero-americana, que deve passar pelo fortalecimento nas áreas política e económica, mas também pelas educativa e cultural. Não podemos perder de vista que o multiculturalismo e a globalização são fenómenos crescentes e irreversíveis.
 
A Associação Mulher Migrante na Venezuela deseja a todos os migrantes residenciados neste país um futuro de esperança, paz e armonia. PAZ NA TERRA AOS HOMENS E MULHERES DE BOA VONTADE.

 

Bienal d’ artes em Espinho

 

Notas e imagens que ficam na memória…

 1º intervenção

Isabel Ponce Leão

 

  "A arte como libertação do espírito, permite-nos um constante questionamento e será mesmo de nos interrogar  em que medida esta proporciona uma melhor integração? (…) O papel da mulher é preponderante no mundo artístico, mesmo sendo em minoria e torna-se ainda mais relevante neste mundo de mobilidade cultural . Elas marcam  o painel social porque o território cultural surge através delas.

 O  11 de setembro é um marco. Com  ele,  operam-se mudanças: a noção de classe e género surge como que fulcral na era do pós-colonialismo, onde o papel da mulher   ganha estatuto  e importância, mudando o paradigma anterior...

 

 2º intervenção

 Gabriela …… (Universidade Fernando Pessoa)

 

 

 

 “O que a pós-modernidade nos traz em termos do feminino e da sua identidade: um descentramento, não uma alienação, mas sim um questionamento. A relação que as mulheres têm com o mundo e com os outros está  representada nas novas corpografias no feminino onde se esbate a esfera do público e do privado, do sublime  e do grotesco e onde haverá mais espaço para interrogação e interação . O estudo de artistas controversos e o seu papel na sociedade é uma forma  de questionamento e foi este o alvo do meu estudo . Alteridade afirmada não como  algo menor, mas enquanto diferente e apresentado de forma positiva. Realço o papel da arte ligada á cidadania e a dignidade das mulheres exporem a sua arte.”

O poema de Vitor Cordeiro

Poema
  

Luz e sol

sorrisos e olhares bonitos

palavras sábias

certeiras e doces

como só a mulher sabe dizer


Num repente

emergiu

um jardim

de camélias,

rosas,

papoilas e violetas


num repente

brilhou sol

no Guarani

numa tarde cinzenta

de chuvoso janeiro



Um poema ali mesmo criado por Vitor Cordeiro, enquanto corria a sessão
de lançamento da revista Entre Portuguesas

Migrações e Artes no Feminino Súmula do Encontro por Arcelina Santiago


Súmula do Encontro de Espinho

31 de Maio de 2013

 

Foi com muito prazer que elaborei as breves notas finais deste Encontro que, tal como os anteriores, acolhe sempre conteúdos ricos, mas este, dotado de grande simbolismo porque marcou o início das comemorações dos 20 anos da Associação de Estudos Mulher Migrante (AEMM) em torno das questões de igualdade de género em contexto migratório. Dar início a esta efeméride, integrada na II Bienal “Mulheres d´Artes”, promovido pela Câmara Municipal de Espinho, que reuniu muitas artistas da diáspora, foi  uma oportunidade de ouvir as próprias artistas sobre interrogações a que é importante dar resposta, e que também suscitaram curiosidade dos jovens estudantes, presentes neste Encontro. Esta bienal de artes no feminino, por ser representativa do universo de mulheres das artes e, neste caso, da Diáspora, é algo de único no país e, por isso, coloca Espinho como pioneira na  rota  deste  tipo  de  evento  o  que  muito  nos  orgulha.   

Também a parceria com o Jornal As artes entre as Letras merece um destaque especial na concretização deste Encontro.

 

“Expressões da Cidadania no feminino” será o tema recorrente, como referiu a Dr. Manuel Aguiar da AEMM e que procurará pôr em foco a realidade da vida e obra das mulheres em diferentes domínios da cultura, da intervenção cívica e política, da diplomacia, do empreendedorismo económico.

 

A Associação, através das suas Presidentes, da Assembleia Geral e da Direção, respetivamente Dr.ª Manuela Aguiar e Dr.ª Rita Gomes, agradeceram e enalteceram a colaboração da Câmara Municipal, em particular, da Senhora vereadora, Dr.ª Leonor Fonseca, alma deste evento e do Dr. Armando Bouçon, director do Museu Municipal – FACE, que conseguiram acolher uma exposição com esta dimensão.

Destacaram também o conjunto de actividades desenvolvidas pela AEMM, realçando-se que só foi possível tal ação, graças ao apoio dado pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas.

 

A mensagem cheia de significado do Senhor Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr. José Cesário, cuja presença honrou a Associação, foram reveladoras de que esta continua a exercer o seu papel na defesa das mulheres em contexto migratório, no reforço da lusofonia e da Portugalidade e divulgação das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Destacou também a importância destas não apenas na perspetiva empreendedora, da área dos negócios e comércio, das remessas, mas também no potencial cultural que elas possuem. Referiu-se á outra metade dos portugueses e seus descendentes que habitam em tantos lugares do mundo e que fazem de Portugal um grande país, não apenas o país de 10 milhões, mas muito mais, e que a importância do nosso país é notória e reconhecida em todo o mundo. Daí haver representantes portugueses em todo os organismos de carácter internacional.

 

Os poemas declamados pelos dos alunos da Escola Básica e Secundária Domingos Capela (EBSDC), sobre o mar e sobre a diáspora, temas de autores portugueses, foram palavras inspiradoras e carregadas de simbolismo, como refere Vergílio Ferreira “da minha língua vê-se o mar”. Também simbólico foi a exposição das magníficas caravelas feitas pelos alunos, com  material reciclado, representando “a partida” que faz parte da nossa longa história da diáspora portuguesa.

 

A Introdução ao tema pela Profª Doutora Isabel Ponce de Leão – Universidade Fernando Pessoa levou-nos à reflexão em torno de questões que se prendem com o papel das mulheres no mundo artístico e de mobilidade cultural. Referiu o marco da nova corrente estética, o pós-colonialismo, onde ocorre um novo paradigma de sociedade e onde a mulher ganha um novo estatuto e importância própria.

 

A segunda comunicação, pela Profª Doutora Ana Gabriela Macedo, da Universidade do Minho (“Novas Corpografias de Arte no Feminino”) deu-nos a conhecer, de forma muito breve, o seu estudo académico sobre a representação do feminino e da sua identidade na área da pós-modernidade com incidência na obra de Paula Rêgo, obra inspiradora que provoca admiração e, por vezes, choque.

 

A relação que as mulheres têm com o mundo e com os outros remete-nos para as artistas controversas como uma forma de questionamento e reflexão. A alteridade afirmada não é apresentada como algo menor mas enquanto diferente e de forma positiva. Por fim, realçou as novas corpografias no feminino e a arte ligada à cidadania onde as mulheres continuam a ter dificuldade em expor a sua arte.

 

 

 

As intervenções de algumas artistas levou-nos a concluir muito da sua forma de estar no mundo das artes e o seu papel enquanto cidadãs da diáspora e quão rica foi a interligação cultural para o seu desenvolvimento como pessoas e artistas. Foram levantadas questões diversas a suscitar reflexão: redução das horas dedicadas à Educação Visual no sistema de ensino em Portugal; das dificuldades burocráticas portuguesas no transporte de obras de arte; a necessidade de uma maior intervenção do Estado em prol das artes; o elevado custo dos mestrados em Portugal em relação ao estrangeiro; os subsídios e sua dependência ou até que ponto o artista terá de ficar enformado pelo circuito comercial para poder sobreviver em vez de ser um criador pleno.

 

Algumas artistas da diáspora (fotógrafa, pintora, galerista, poetisa…) deram testemunho das suas histórias de vida, onde ficou patente o seu ecletismo cultural e desassossego permanente, importante para o seu sucesso enquanto mulheres, cidadãs e artistas.

 

A intervenção dos alunos da EBSDC, jovens criadores orientados pelas professoras, Filomena Bilber da Educação Visual e Nelma Patela da Língua Portuguesa, foi uma forma inspiradora e reveladora de que a AEMM, ao fazer os seus 20 anos de actividade, tem já os olhos postos no futuro, simbolizado aqui pela presença destes jovens.

 

O envolvimento dos mais jovens sobre as questões aqui apresentadas torna-se, na verdade, enriquecedor. O projecto que aqui começou terá continuidade com as entrevistas que serão realizadas a algumas artistas plásticas da diáspora aqui presentes nesta exposição. Desta forma, obter-se-á a visão dos jovens sobre a questões da cidadania, das mulheres da diáspora e do seu papel nas artes.

Este é um sinal de vitalidade desta Associação que, este ano, celebra 20 anos.

 

 

Arcelina Santiago

Arcelina Santiago síntese das conclusões do Encontro Mundial

Foi um Encontro intenso pela abrangência dos conteúdos e pela pluralidade de participantes, nacionais e internacionais. Todos foram convocados para a reflexão e diálogo aberto e produtivo. Foi esta a melhor maneira de celebrar os 20 anos da “Mulher Migrante – Associação de Estudos, Cooperação e Solidariedade”, duas décadas de atenção às migrações portuguesas, especialmente no feminino.

 Esteve em debate: a dimensão das mulheres na política, no mundo empresarial e nos órgãos de decisão, com testemunhos de mulheres vencedoras, referências numa área ainda marcada pelo masculino. Foi realçado o empreendedorismo cultural, palco onde as mulheres das artes se reinventam, recriam e lutam por causas nobres; as novas formas de associativismo, as casas de cidadania, com dimensões muito abrangentes para fazer face ao novo rosto do fluxo migratório; o fenómeno migratório português apresentado através de vários discursos, permitindo-nos um melhor conhecimento das várias vertentes do poliedro migratório; nova corrente do estudo do género presente neste Encontro Mundial, onde a combinação dos termos “mulher” e “migrante” é reflexo do hibridismo académico e da interdisciplinaridade na investigação.

  A Exposição coletiva de pintura - "Mulheres d'Artes em Movimento"  e os painéis sobre Artes e Letras foram  pontos altos , onde foi destacado o contributo das mulheres intelectuais e criativas para as mudanças do meio cultural e na luta pela igualdade. Transportou-se para ribalta, trajetórias identitárias de mulheres que, até agora, estiveram nas margens, e exaltou-se o papel da língua, fator de identidade cultural. Desfilaram trajetórias de vida a par de estudos académicos…  

 Destacamos algumas propostas: revisão da Lei da paridade; novas estratégias  para uma melhor integração das mulheres na política; incentivo às novas formas de associativismo – casas de cultura; maior apoio estatal ao ensino da língua portuguesa e cultura da lusofonia; promoção da imagem de Portugal com o incentivo de novas formas de empreendedorismo no feminino; promoção e incentivo a estudos sobre empreendedorismo da diáspora, no feminino, e do universo dos lusodescendentes; desenvolvimento de parcerias através de estratégias de coaching e mentoring para promoção das mulheres; reforçar o apoio ao Observatório da Emigração e dos Lusodescendentes e agilizar as redes de contacto nas e entre as comunidades; maior incentivo e divulgação das expressões de cidadania através das artes e letras das mulheres da diáspora; apelar à subscrição da Convenção 97, dos Direitos dos Cidadãos nos países de destino, aos países que ainda não o fizeram, caso dos países africanos.

De significado relevante neste encontro, no ano da celebração do 20º aniversário da Associação, foi o tempo de memórias, presente na homenagem a duas mulheres notáveis: Maria Lamas, que festejaria este ano 120 anos se fosse viva e Maria Archer a jornalista, escritora e tradutora Prestou-se também justa homenagem a Fernanda Ramos, cofundadora da Associação Mulher Migrante.

 Este  Encontro  foi cenário para se festejar, refletir, questionar as muitas facetas femininas da cidadania. Foi dado mais um passo na longa caminhada que temos pela frente, no mundo da Diáspora e, em particular, da Diáspora no Feminino. Como disse o poeta,” o caminho faz-se caminhando “ e nesta caminhada da Associação, encetada por mulheres e homens, lutadores de causas e desejosos de um mundo melhor, estaremos todos mais confiantes no presente, mesmo apesar dos constrangimentos, mas já com os olhos postos no futuro.

Para ti, Maria

(Poema de homenagem a Maria Archer)

 

 

Conta-me a tua história de menina

Com dedos de piano,

Desata os teus laços de cetim

E corre, corre sem desengano.

Estreita as cores ateadas

Nas tuas saias rodadas,

Acereja a tua boca,

Com aquele tom carmim.

 

Ai se eu cresço, quando cresço?

Tudo depende de mim.

Nada me serve de estorvo.

Nem o sítio, nem o espaço,

Nem o canto longe do meu quarto.

Nem a distância ou o mar,

Nem o diferente luar.

E que nem me adiem a paixão,

Ou a força de lutar

Por esta esquina de pão.

 

Nunca fui mais que um avesso.

Mesmo assim, insisto em inverter

O uso fácil de mim.

Enceno então uma calma,

Ou visto uma alma qualquer.

Porque todos podem ser diferentes,

Eu não, que sou mulher! 

 

 

 

 

 

 

 

 

Helena Rocha Ferreira, Poema de Homenagem a Maria Archer

Espinho, 2 setembro 2012