sexta-feira, 11 de outubro de 2013

António Bento "AS ARTES PLÁSTICAS E LOURDES ABRAÇOS"





A Arte Plástica não é mais do que a manifestação criadora da actividade humana com o objectivo de produzir o belo, ou a  habilidade nata, ou académica, para a consecução de um fim. Seja na pintura, na escultura, no desenho ou noutra actividade criadora, usando as mãos e a sensibilidade.

Quanto maior a sensibilidade da pessoa e a habilidade para usar os instrumentos que lhe estão disponíveis para a realização de um objectivo artístico, mais perfeita sairá a obra idealizada.

 Ao ressaltarmos os méritos que qualquer pessoa deve possuir para ser reconhecida como Artista Plástica, veio-nos à lembrança LOURDES ABRAÇOS que, além de ser Artista é uma reconhecida professora , organizadora de Eventos de Arte, como ainda precursora ou colaboradora de  Associações voltadas para o congraçamento de artistas e divulgação da Arte.
Para melhor conhecimento da Mulher que dá, também, colaboração à Associação da Mulher Migrante, destaquemos o seu “Curriculum Vitae” :


I. DADOS PESSOAIS


      - Maria de Lourdes Ramos Sequeira Abraços

            -Lourdes Abraços (Nome artístico) ;

      - Natural de Silves (Algarve- Portugal) .


-          Professora de Artes Plásticas, com destaque para a pintura em porcelana e em tela; 

-          Formada em Curso Industrial e Desenho e em vários

-          Cursos de Desenho Artístico e de Educação Visual.


-          Estúdio:


                          No Brasil – Rua Júlio de Castilhos, 58/501 – Rio de Janeiro- Telefone

                                              (21) 2513-9099;

        Em Portugal – Rua Guilherme de Faria nº. 5-1º. Dto. – Lisboa

                                 (Alvalade)- telefone 218408119. 


II. EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL


-          Leciona desde 1970 pintura em porcelana a diversas turmas no seu estúdio no Rio de Janeiro;

-          Desde 1970 passou a dar seminários e cursos em Portugal e no Brasil, nomeadamente em Lisboa, Porto, Leiria, Silves, Brasília, Santos, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Valência (Venezuela), México e noutras cidades;

-          Professora de Artes Plásticas, durante alguns anos,  no Colégio Notre Dame – Rio de Janeiro e no Colégio do Leme- Rio de Janeiro. 


III. – EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS


-          Em Fevereiro de 1979 – No Palácio Foz- Lisboa ,- Sala dos Painéis – patrocínio da Secretaria de Estado da Comunicação Social -  expostas 109 peças pintadas de sua autoria ;

-          Em Dezembro de 1984 no mesmo local, com inauguração pela

-          Dra. Manuela Eanes, Esposa de sua Excelência do Presidente da República Portuguesa.;

-          Em Setembro de 1986, na Galeria das Artes do Casino do Estoril;

-          Em Setembro de 1986, no Rio Palace Hotel-Rio de Janeiro, em conjunto com suas alunas;

-          Em Dezembro de 1987, na Pousada Santa Marinha-Guimarães-Portugal

-          Em Agosto de 1988 e Setembro de 1998 no Salão Nobre da Câmara Municipal de Silves-Algarve;

-          Em Setembro de 1994 e Maio de 1998, no Espaço das Artes do Teatro Maria Matos-Lisboa, com o patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa;

-          Em Março e Abril de 1996 no Monumento “Padrão dos Descobrimentos- Belém” com o patrocínio do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa;

-          Em Outubro de 2000 na Galeria do Convento de São José-Lagoa.Algarve;

-          Em Outubro de 2007 e Outubro de 2009 no Palácio da Independência-Sala dos Azulejos- Lisboa.


                   IV – OUTRAS INICIATIVAS
                            Em 1979, logo depois do êxito da sua primeira exposição em Lisboa, iniciou um movimento extraordinário de pintura em porcelana, entre elevado número de senhoras de Lisboa, movimento que se propagou por outras cidades portuguesas, com tanto entusiasmo que levou Lourdes Abraços a fundar uma Associação a que lhe deu o nome de UPAP-União Portuguesa de Arte Em Porcelana, inicialmente  (e por alguns anos) com sede no seu estúdio na Rua Guilherme de Faria, em Lisboa, Promoveu nessa época e nos anos seguintes mais próximos, vários seminários com elevado número de senhoras suas alunas portuguesas, tendo-lhes transmitido as bases e o gosto pela chamada “Arte do Fogo” , Arte que vem sendo, ainda, praticada em todo o país. 


-          Em 1980, organizou a 1ª. Mostra de Arte dos Artistas Plásticos Portugueses no Brasil, no Sheraton Hotel do Rio de Janeiro, com o apoio da TAP Portugal e participação de cerca de 50 Artistas em várias áreas das Artes Plásticas;


-       Em 1982, organizou e coordenou a 2ª. Mostra de Arte dos Artistas Plásticos Radicados no Brasil,  na Embaixada de Portugal em Brasília, com o apoio da TAP e a participação de 41 Artistas Plásticos Portugueses, tendo o Evento sido inaugurado pelo Embaixador de Portugal, Dr. Adriano de Carvalho e da Dra. Esther Ferraz, Ministra da Educação do Governo Brasileiro.


-          Organizou, coordenou e participou em Exposições de Arte no Palácio São Clemente, em seis anos seguidos, sob o patrocínio do então Sr. Cônsul Geral de Portugal no Rio de Janeiro, com a finalidade da integração luso-brasileira nas Artes Plásticas.


   V – PARTICPAÇÕES EM “COLETIVAS”


-          Participou em todas as exposições coletivas no Rio de Janeiro e São Paulo, durante mais de 25 anos e continua a participar. Ainda, em Portugal, New York (Colesiun) , Caracas (Venezuela), Tampa (USA), Albuquerque (USA) , Columbus(USA), Dallas (USA), Faro (Portugal) , Lagos (Portugal) , Lisboa, Cidade do México, Xalapa (México), Palácio Maison France- Amérique (Paris), Montevidéo (Uruguai), Madrid, Hamburg e em outros países e cidades.


VI – DESTAQUES


-          Vice-Presidente da ABRAP- Associação Brasileira de Arte Sobre Porcelana- Rio de Janeiro durante 4 anos;

-          Diretora Artística da ABRAP durante vários anos;

-          Presidente da UPAP – União Portuguesa de Arte em Porcelana durante 6 anos;

-          “Chairman” Regional da IPAT, em Portugal durante 4 anos;

-          Académica/Comendadora da ALAP – Academia de Letras e Artes Paranapuã – Cadeira 6; e Assessora Internacional da Presidência;

-          Sócia honorária da Associação Algarvia de Pintores em Porcelana;

-          Comendadora “Grande Mestre” da Sociedade Brasileira de Desenho e Artes Visuais;

-          Titular do Diploma e Medalha de “Melhores de 2006” e Moção de Honra do Estado do Rio de Janeiro, outorgado pelo Congresso a Sociedade Cultura Latina-Seção Brasil, na categoria Artista Plástico do Ano;

-          Moção de Reconhecimento e Congratulações da Câmara Municipal do Rio de Janeiro;

-          Homenagem da APPP-Associação Paulista dos Pintores de Porcelana, na Casa de Portugal em São Paulo, durante a 18ª. EXPO APPP. Em 2006, com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura do Gov. Do Estado de São Paulo, como incentivadora das artes do fogo, disseminando a cultura Lusitana no Brasil;

-          Homenagem Especial da Associação de Pintores de Juiz de Fora-Brasil;

-          Medalha ao Mérito e Diploma da Academia Medalhística  do Exército Brasileiro – Rio de Janeiro.


VII – PREMIAÇÕES


-          ENTRE OUTRAS MAIS, AS SEGUINTES:

-          Hors Concours na Expoição da ABRAP no ano de 1987;

-          Medalha de Ouro no IX Salão de Artes “Brasil/Portugal, no ano de 1987- pintura em tela;

-          A melhor Obra do Salão em exposição no Museu Militar “Conde de Linhares” – pintura em tela;

-       Medalha de Ouro na Exposição Internacional da Federacióne Uruguaia de Pintores em Porcelana, em Montevideo;

-          Convidada de Honra e ainda premiada como expositora em Agosto de 2002 no Salão Brasil Arte, com o apoio da Academia Brasileira de Belas Artes;

-          No ano de 2000 no Clube Monte Líbano, considerada “Hors Concours” no concurso sob o tema “500 Anos do Brasil”;

-          -Em 2008 Homenagem da ABRAP com placa de reconhecimento, na qualidade de Grande Mestre” e Divulgadora da pintura em porcelana no Brasil e no Mundo;

-          Detentora da Medalha de Mérito Cultural “Austregésilo Atahide, atribuída pela Academia de Letras e Artes Paranapuã-Rio de Janeiro;

-          Convidada de  Honra em vários Evento de pintura.


VIII – MENSAGENS E APRECIAÇÕES


-          Além das inúmeras mensagens inscritas nos Livros de Honra das visitas a suas exposições, destacam-se as mensagens seguintes:

-           

Do Exmo. Sr. Dr. Lima de Carvalho, Director de Arte do Casino do Estoril:

“ É esta  primeira vez que a Galeria de Arte do Casino do Estoril acolhe no seu espaço uma exposição de pintura em porcelana. E isso acontece por duas razões. Sendo uma arte difícil e que exige uma elevada qualificação técnica, são muito poucos os autores que atingem um nível artístico elevado. E isso foi amplamente conseguido por Lourdes Abraços, culminando com esta mostra um ciclo que injustamente tem sido considerada uma “arte menor”. A porcelana é dos mais difíceis suportes para a pintura, porque além da sensibilidade e formação artística do autor, exige domínio perfeito do binómio pintura/fogo e a disponibilidade de meios técnicos e materiais que estão ao alcance de muito poucos”


E ainda, do Exmo. Sr. Professor Paulo Elpídio de Menezes Neto, da Academia Brasileira de Educação:


“ Em todas as peças que Lourdes Abraços cria, dando-lhes forma e vida, deixa a marca de um talento excepcional, a força de traços decididos, a marca da disciplina do artista cuidadoso, sensível à delicadeza da sua inspiração”



Com testemunhos tão ilustres, além do seu extenso “curriculum”, nada mais há a acrescentar  para se avaliar a tão talentosa Artista Plástica e Mulher Portuguesa que é  LOURDES ABRAÇOS, que nos honra na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e no Brasil das Artes em geral.


                                                    António Bento

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Gonçalo Nuno Perestrelo dos Santos Comunicação

“Pensar Global”
Fundamentação: Os clubes, associações e missões, em boa hora criados pelos emigrantes nos séculos XIX e  XX serviram de “ cordão umbilical” com a Pátria e de meio de proteção do grupo e da sua cultura de origem. O clubes e as associações assumiam assim o relevo de verdadeiras embaixadas capazes de representar o todo na origem e no destino.
A realidade: Com a globalização, com a o surgimento das novas tecnologias de informação, com o “crescimento” natural dos luso-descendentes nos países recetores ( nas sociedades dos países recetores) com a personalização  do individuo, do empresário de sucesso, do académico, do quadro é a unidade que ganha e não o conjunto. As associações ditas representativas tendem pois a secundarizar-se à pessoa. Assiste-se à mudança do paradigma.
Em resumo: A personalização e o recorte individual superam a vida associativa ou o grupo. O individuo é em si próprio um agente multiplicador de opinião muito contribuindo para tal afirmação o seu prestigio e o seu papel na sociedade de acolhimento que é também a sua.


CURRICULUM VITAE




GONÇALO NUNO MENDONÇA PERESTRELO DOS SANTOS, NASCIDO NO MONTE-FUNCHAL A 8 DE MARÇO DE 1955. ESTUDOU LÍNGUAS E LITERATURAS MODERNAS (FRANÇÊS/INGLÊS) NA UNIVERSIDADE DA MADEIRA. COMO COMPLEMENTO ACADÉMICO ESTUDOU ITALIANO E ALEMÃO. INTEGRADO NO QUADRO DE PESSOAL DE TRADUÇÃO E CORRESPONDÊNCIA ESTRANGEIRA DA EX-CAIXA DE PREVIDÊNCIA EM 19-01-1976, ALTURA A PARTIR DA QUAL PASSOU A COORDENAR O SERVIÇO DE MIGRANTES DA SEGURANÇA SOCIAL, FEZ A SUA CARREIRA DE TÉCNICO SUPERIOR, SENDO HOJE ASSESSOR PRINCIPAL, É DESTACADO PARA O EX-CENTRO DO EMIGRANTE A 17 DE JULHO DE 1989 TENDO TOMADO POSSE DE DIRECTOR DO CENTRO DAS COMUNIDADES MADEIRENSES EM 1 DE ABRIL DE 1991.

FOI CONSELHEIRO TÉCNICO DO SECRETÁRIO REGIONAL DOS RECUSRSOS HUMANOS ATÉ 8 DE NOVEMBRO 2011, DATA A PARTIR DO QUAL FOI NOMEADO CONSELHEIRO TÉCNICO DA SECRETÁRIA REGIONAL DA CULTURA,TURISMO E TRANSPORTES.

FORAM-LHE TAMBÉM ATRIBUIDAS RESPONSABILIDADES SOBRE A INTEGRAÇÃO DA PESSOA IMIGRANTE NA MADEIRA E RESPECTIVOS MOVIMENTOS ASSOCIATIVOS.

É MEMBRO EFECTIIVO DO CONSELHO CONSULTIVO PARA OS ASSUNTOS DE IMIGRAÇÃO DO ALTO COMISSARIADO PARA A IMIGRAÇÃO E DIÁLOGO INTERCULTURAL EM REPRESENTAÇÃO DO GOVERNO REGIONAL.

INTEGRA A COMISSÃO INTERMINISTERIAL PARA AS COMUNIDADES PORTUGUESAS.

DEPUTADO Á ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA, CÍRCULO ELEITORAL DE FORA DA

EUROPA NA IX, X E XI LEGISLATURAS.

NOMEADO REPRESENTANTE DO GOVERNO REGIONAL DA MADEIRA NO GRUPO CONSULTIVO PARA A INTEGRAÇÃO DAS COMUNIDADES CIGANAS.


OUTROS CARGOS


·         MEMBRO FUNDADOR DA ASSOCIAÇÃO DOS ESCRITORES DA MADEIRA.

·         PAST-PRESIDENT DO ROTARY CLUB DO FUNCHAL.

·         INTEGROU O GRUPO DE INTERCÂMBIO DE ESTUDOS ROTÁRIOS EM MATO GROSSO – BRASIL.

·         EX.PRESIDENTE DA SOCIEDADE PROTECTORA DOS ANIMAIS DOMÉSTICOS DO FUNCHAL.

·         EX.MEMBRO DO CONSELHO DE DISCIPLINA DA ASSOCIAÇÃO DE DESPORTOS DA MADEIRA.


·         MEMBRO FUNDADOR DA CASA DA EUROPA DA MADEIRA E EX.VICE-PRESIDENTE DA DIRECÇÃO.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Marília Patela Bação Comunicação


REMINISCÊNCIAS DA EMIGRAÇÃO PERSPETIVANDO RUMAR DE NOVO PARA FORA DE PORTUGAL

Marília Patela Bação

 

Estamos no início de 2013 e os tempos que correm assim como a conjuntura do nosso país e da Europa têm-me levado cada vez mais a pensamentos que perturbam a minha paz. Sou mãe, filha, irmã e esposa. Tenho uma profissão com a qual me identifico e que exerço há quase trinta anos. Nasci em Portugal e fui muito jovem para França nos anos 60 e vejo-me agora a pensar na força que terá sido necessária aos meus pais para saírem deste país à beira mar plantado. Penso no mesmo esforço que terão feito tantos outros portugueses que decidiram rumar ao futuro, refazer a sua vida por si e pelos seus filhos. Contudo, por muito que tente pensar que o melhor seria sair e emigrar, contínuo a não querer deixar para trás as raízes que tanto me custaram a criar. Se pensar em mudar de cidade dentro do país já levanta problemas, mais problemas levantará, inevitavelmente (re) construir uma vida noutro país que não na Europa. Tenho visto concursos, falado com colegas e tento, pouco a pouco, equacionar qual será a melhor postura e qual será a decisão mais sensata a tomar. Mas as incógnitas são muitas. Estamos na era da mundialização, estamos numa época de mudanças vertiginosas, tanto económicas como sociais. Sinto-me, talvez como todos nós, à beira do precipício. À beira de um precipício que me atordoa tanto mais porque nele não estou só e tenho consciência que o passo que der arrastará inevitavelmente a minha família. Recuar? Avançar? Os meus filhos estudam e precisam de um futuro. Mas que futuro será o deles? Que futuro está para vir? Ficar? Partir? Para onde? Quanto Tempo? Em que condições? A decisão sendo tão dura e difícil de tomar, resta-me mergulhar no meu passado e relembrar, de entre o que remanesceu, os vestígios do passado aquando dos 14 anos que vivi no Norte de França e tentar encontrar algo que possa contribuir para a tomada de decisão.

As memórias misturam-se, fundem-se, confundem-se e confundem-me. Às imagens que persistem na minha memória, sobrepõem-se ou acrescem às dos relatos dos meus pais, da minha irmã e dos tios e primos que acabaram por ficar na mesma cidade onde morámos. Mas a perspetiva do que eu hoje sei e sinto da emigração já não se cruza apenas com a visão dos que, na época e ainda hoje, me são próximos: Está imbricada em outras histórias, outras vivências e visões: do meu marido, dos meus sogros e cunhado, dos amigos dos meus pais, de tios que foram para Africa, para o Líbano e até de colegas que vieram recentemente de Díli e de tantos outros...

E é com esse olhar sobre o passado, sem esquecer o objetivo presente, que recordo o que foram esses anos que deixaram marcas profundas não só em mim como em todos os que, tendo emigrado, se deixaram marcar por outra cultura, tornando-se pessoas diferentes que acabariam por marcar, por sua vez, os que os rodeiam.

Não restam imagens nem memórias da viagem de comboio que a minha mãe recorda penosamente: malas pesadas que ela tinha de transportar e que eu, devido à minha tenra idade, ficava a guardar enquanto ela estava no seu vai-e-vem logístico, angustiada por me deixar sozinha em solo não português. Imagino-a com o seu olhar perscrutante, tentando não me perder de vista, ansiosa e veloz para rapidamente estar perto de mim. A minha mãe é uma mulher de fibra, uma vencedora, não é fácil demovê-la dos objetivos que define. É uma lutadora, uma leoa. O meu pai é mais calmo, brincalhão, trabalhador, meigo e um pai como todos nós gostaríamos de ter. As regras têm de ser cumpridas mas existe espaço para brincar. Com a mãe as coisas eram bem diferentes. Penso que será ou seria assim com quase todas as mulheres que tiveram de emigrar: pensar nos filhos, lutar muito para mais tarde voltar a Portugal; a brincadeira era um acessório, um luxo que teria de ficar para depois. Só a via descontraída quando vínhamos de férias. Durante o ano era a formiguinha que trabalhava, trabalhava e trabalhava e, ao chegar a casa, continuava a trabalhar. Os homens cumpriam o seu horário de trabalho, faziam uns biscates mas em nada ajudavam nas tarefas domésticas, que, na época, eram muitas. Basta pensar no simples facto de lavar, por exemplo, lençóis à mão.

Da minha chegada a França resta-me uma única imagem: na noite, lá em baixo, muitas luzes a brilhar. Mais nada. Recordo o apartamento, estarmos só os três, o frio, a neve e a escola. Da pré-primária tenho recordações estranhas: o cheiro do leite quente que tínhamos de beber e que eu abominava, o recreio, o cheiro das tintas nos nossos desenhos, os corredores, ouvir histórias e, fundamentalmente, o primeiro dia na escola. Desse primeiro dia, ficou a imagem dos muitos meninos à minha volta falando uma língua que desconhecia, dizendo palavras estranhas que finalmente acabei por perceber: “Comment tu t’appelles?”. Para mim isso era “como-te a pele”. Tinha medo. Eles eram muitos, estava insegura e eles queriam comer-me a pele. Disse à minha mãe que não acreditou em mim e foi necessário a ida de uma vizinha espanhola à escola para esclarecer o qui pro quo e acalmar as minhas ânsias. Ela tinha razão e os meus colegas não eram nenhuns canibais. Ambientei-me, fundi-me, pouco a pouco, na nova vida e cultura e cresci. Não me recordo de quando comecei a falar francês. Lembro-me do meu pai a falar fluentemente e da minha mãe ter um ligeiro sotaque. Quando e como aprenderam a língua? Quanto tempo demorou? Não sei e se calhar nem eles sabem. Quando se vai para um país estrangeiro, é tão fundamental a comunicação que qualquer ser humano desenvolve as competências linguísticas rapidamente para poder comunicar pelo menos oralmente. Deve ter sido o que aconteceu com eles. Sei contudo que a aprendizagem não foi fácil e narram episódios tão caricatos como o meu. Mas, se a língua é uma barreira incontestável, creio que o choque das culturas a supera de longe. Recordo as palavras do meu pai dizendo que era uma pouca-vergonha os namorados estarem aos beijos no meio da rua e que não era isso que ele queria para as suas filhas. Como se sentiam eles quanto a esta outra vida? Que sacrifícios tiveram eles de fazer para rumar para um país diferente, sem conhecer a língua, a cultura e os hábitos? O meu pai que, como tantos outros homens, não sabia cozinhar, teve de aprender que os feijões se punham de molho antes de ir para a panela. Ele que é tão brincalhão, recorda frequentemente e apenas episódios engraçados e ainda hoje, quando lhe dizemos que está frio e lhe pedimos para se proteger mais, ri e diz-nos que frio sentiu ele nas obras em França. A minha mãe, tal como referi, levava o dia a trabalhar. Dia e noite. Fez limpezas de casas, de escritórios, tricotava para fora e acabou por trabalhar numa clínica como enfermeira auxiliar. Dos emigrantes que conhecíamos, fomos talvez os que melhor se adaptaram embora mantendo as raízes: os filhos não foram trabalhar aos 16 anos mas continuaram a estudar para prosseguir estudos, compraram casa própria em França e Portugal e fizeram um bom pé-de-meia. Não foi fácil e compreendo o quanto se tiveram de sacrificar. O círculo de amigos era muito reduzido. Só passado uns meses veio uma tia para França, e depois outra e outra: uma irmã do meu pai e duas da minha mãe. Deve ter ajudado imenso a suportar a vida de trabalhos que levavam. Quando terminei o 12º ano já havia muitos portugueses e já eramos tantos que o meu pai e alguns amigos já tinham formado uma Associação de Portugueses que permitiu ajudar tantos emigrantes nos seus diversos problemas e ainda conseguir garantir formação escolar ao nível da 4º classe para os seus filhos independentemente da sua idade e da escolaridade francesa. Era nesse espaço que muitos portuguese -principalmente homens- se encontravam e tentavam recriar um pouco de Portugal. Foi assim que conseguiram espetáculos com artistas portugueses: ilusionistas e até Amália Rodrigues, que conseguiram trazer até Soissons. A associação ganhava força assim como a comunidade portuguesa. Mas a par dessa força de Portugal naquele local, outra força contrária emergia: a influência francesa nos filhos dos emigrantes deixava marcas irreversíveis e levava, cada vez mais, famílias inteiras a ficar por terras alheias. Quem conseguisse trabalho, quem arranjava namorado ou marido acabava, geralmente, por lá ficar. A irmã do meu pai continua lá e os meus primos jamais virão viver para Portugal. As irmãs da minha mãe regressaram embora já só na idade da reforma ou porque a filha, criada por nós, estava connosco em Portugal. Quando encontro os meus primos de França, recordamos as nossas peripécias de infância e de adolescência, os momentos em família e, cada vez mais, falamos das nossas vidas agora, dos projetos, dos filhos. Enveredámos por caminhos diferentes mas une-nos o mesmo sentimento de termos sido portugueses lá fora. Agora eles já não sentem o mesmo, estão mais do que integrados e são quase mais franceses do que portugueses. Têm o cuidado e o carinho de trazer os pais a Portugal pelo menos uma vez por ano e de ver os olhos deles brilharem ao estar de novo em solo português, de novo na cidade que os viu nascer, de novo à beira mar, de novo perto dos seus. Mas vêem também os olhos toldarem-se de lágrimas no momento da partida, o sofrimento ao ver os irmãos doentes que acabaram por partir e ao pensar que esta será talvez a última vez que os verão. Não é fácil sentir que somos a razão pela qual os nossos pais estão tão divididos. Não é fácil sentir que somos a razão pela qual eles tanto se sacrificaram e abandonaram a sua família. A razão pela qual viveram espartilhados entre dois mundos tão diferentes. E, por muito que também pontualmente tenhamos sentido o mesmo desde a escola primária até ao final dosa nossos estudos, não podemos deixar de nos orgulhar na sua capacidade de mudar, de arriscar, de partir para fora e de regressar passados tantos anos. Sim, este também constitui um problema: regressar é também quebrar outras raízes quando se permaneceu longos anos num país e é ter o sentimento de estarmos a arrancar novamente os nossos filhos aos hábitos por eles criados.

Regressar a Portugal, para os meus pais, era concluir um ciclo de vida para iniciar outro que se idealizava doce e fácil. Não foi. Um país muda muito em 16 ou 20 anos. Portugal dos anos 80 nada tinha a ver com Portugal dos anos 60 que estava vivo na memória dos meus pais. O choque cultural foi imenso e tiveram dificuldades em evoluir num país tão diferente. A liberdade imperava e o que eles consideravam impensável em Portugal já era banal. O olhar que tinham sobre Portugal nos 30 dias de férias anuais não lhes permitia abranger a totalidade das mudanças, de tal maneira estavam ávidos de estar com a família, saborear o sol, a cidade, a praia e o descanso. O tempo voava e à alegria e lágrimas da chegada davam lugar a angústia, tristeza e lágrimas da partida. A bagageira do carro que vinha cheia de eletrodomésticos e produtos franceses, levava agora os bens preciosos que lhes pudessem recordar Portugal. Só quem não emigra ignora a importância de ter alimentos portugueses, de ter uma penca pelo Natal, um pastel de natas, um caderno pautado dos nossos com capa preta. Só quem já emigrou se angustia com a hipótese de voltar de ter a emigrar…

Na era da globalização e da mundialização, na era das tecnologias de informação e de comunicação, na era em o skype e outros mais meios de comunicação encurtam as distâncias e nos permitem ouvir vozes familiares e ver caras queridas ou conhecidas, na era em que o Facebook nos permite partilhar tanto, assistimos ao desmoronar do espaço para acreditar que Díli, Maputo, Cabo Verde são já ali, ao virar da esquina. Mas não são. Ficam longe, muito longe. E nem sempre o que pode ser dito virtualmente tem o mesmo peso e força do que um olhar verdadeiro, do que um toque real, do que um beijo. Emigrar é partir tentando manter um pouco de si no lugar que nos viu nascer ou crescer, mas emigrar não pode nem deve ser desistir da família para quem se faz esse sacrifício. Não deve ser fazê-los sofrer connosco no momento da partida e no momento do regresso. Emigrar é doloroso e complexo. Emigrar implica perder, ganhar, voltar a perder e a ganhar. Emigrar agora, será necessariamente diferente do que foi nos anos 60, pelo menos para aqueles que têm estudos. Mas emigrar é sempre um passo para uma incógnita que, para quem já foi emigrante, é inquietante: que alterações trará para os meus filhos, meus pais, minha família? Levá-los e obrigá-los a deixar a família, os amigos, a escola, a rotina? Deixá-los e ir perder os bons e maus momentos? Não estar presente quando precisam de nós? Não estar presente quando caem ou triunfam? E os nossos pais? O que pensarão eles? Que somos cobardes porque não tivemos coragem de partir? Que somos corajosos porque tivemos coragem para ficar? Que o esforço que fizeram foi em vão? Que deveriam ter ficado no país para onde emigraram?

No momento em que fecho este texto mais questões se colocam. Mais dúvidas. Mais hesitações. Relembrar o passado catapultou para o presente problemas sentidos outrora e sentimentos pelos quais não sei se quero que a minha família passe. Sei que ficar ancorada no passado não me permitirá antever o futuro e muito menos ainda ter força e coragem para avançar. O que tenho a perder? O que poderei ganhar? Que mal ou que bem farei a quem me acompanhar nesse caminho que apenas se vislumbra entre a bruma das hipóteses, das dúvidas, do passado, do presente e do futuro? O que dirão daqui por uns anos, os meus filhos, a minha família, os meus amigos? Qual será o alcance da decisão tomada, adiada ou por tomar? Quais as consequências na vida dos que me são essenciais? Escrever estas linhas é ter consciência do mal que se pode fazer. Do erro que se pode incorrer. Do flagelo ou da bênção que poderá ser a partida. Neste momento em que exponho o meu pensamento, a “vida” dos meus familiares e os seus sentimentos, num momento intimo eventualmente catártico, uma única pessoa tem acesso à sua leitura. A minha irmã, companheira na emigração passada e eventualmente futura. Talvez ela possa dar outra visão. A sua visão sobre o percurso vivido. Uma visão que só poderá ser enriquecida se outros partilharem a sua experiência e derem voz aos seus sentimentos, à sua vida. Uma voz que neste momento se torna necessária e fundamental para tomadas de decisão. Uma voz que os que pensam em partir precisam de ouvir. Que também eu preciso de ouvir para saber que o meu sentir não é único. Urge que vozes rasguem o silêncio do que foram anos de vivência noutro país, da vergonha que é querer falar e não conseguir. Querer perceber e não ser capaz. Esforçar-se na escola e nunca alcançar objetivos de excelência. É preciso dar a conhecer o que é a vida de homens, mulheres, crianças e jovens que tiveram de partir. Mas também urge expor os problemas que terão ao regressar. O desconforto de não ser nem Português nem Francês. O desconforto de não saber o que fazer, o que dizer, e preferir frequentemente optar pelo silêncio, pela discrição total. Pelo apagar ou recalcar parte de si por nunca se sentir confortável. Mas é também ter capacidade de melhor perceber os outros. Aceitar as diferenças. Tentar sempre ajudar. Questionar sempre a atitude de alguém e arranjar desculpas pelo que ela ou ele fez. Será isso ser europeu? Será isso o que serão os cidadãos do mundo? Estaremos prontos para assumir esse facto? Para pagar a fatura de ter raízes multiculturais e multifacetadas que, se muito nos enriquecem, também muito nos magoam? Outros darão o seu sentir e o seu parecer. Anseio ouvi-los. Anseio eu e tantos outros como eu….

Ilda Januário Comunicação


De convidadas a mordomas:

O papel das mulheres luso-canadianas nas Festas do Espírito Santo

 

 

 

Introdução

 

Cerca de 360.000 pessoas de origem portuguesa habitam no Canadá, sendo elevada percentagem delas (cerca de 60-80%, segundo as localidades) oriundas dos Açores, onde as Festas do Espírito Santo constituem uma tradição muito enraizada na cultura popular religiosa. Os imigrantes das ilhas tentaram reconstituir a tradição das festas na diáspora, até porque estas lhes permitem de reforçar a rede de apoio e sociabilidade da família.

A maioria dos imigrantes açorianos no Canadá é constituída por micaelenses, seguindo-se terceirenses, picoenses e faialenses, etc., em proporções decrescentes. João Leal, diretor de projeto da pesquisa do CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia) da Universidade Nova de Lisboa, no qual o meu trabalho se insere, distinguiu vários tipos de festas nos Açores (Leal: 1994), sendo no Canadá o modelo micaelense mais comum, embora com alguma influência terceirense. O autor demonstrou também que as festas nos Açores foram dinamizadas pela emigração (Leal: 2000).

O material recolhido é baseado num projeto de pesquisa de três anos, ainda em curso, onde foram observadas festas nas províncias do Ontário, Quebeque, e Colômbia Britânica, as duas últimas de forma incipiente. Os dados aqui apresentados baseiam-se no material recolhido em primeira mão na província do Ontário, particularmente em Toronto, que é o mais completo e sobre o qual foi feita uma primeira comunicação no IV Congresso Internacional das Festas do Espírito Santo (Januário: 2010). Devido ao grande número de festas nessa província, que são cerca de 60, pensa-se aí voltar, para completar o trabalho de terreno, em 2012.

Nesta comunicação pretendo dar uma resenha história sobre as festas, assim como a maneira como se processam em contexto migratório canadiano. No que se refere ao papel das mulheres, este texto pretende aflorar o tópico das diferenças de género, de forma preliminar, já que não tem constituído o enfoque do trabalho de campo.

 

Resenha histórica

 

Para benefício dos que não estão familiarizados com as festas do Espírito Santo, passo a fazer uma resenha histórica das Festas. O culto popular da Terceira Pessoa da Trindade nos Açores remonta a mais quinhentos anos atrás. Na Idade Média, os franciscanos começaram a espalhar a crença, iniciada pelo místico e teólogo Joaquim da Fiore, que estava prestes a começar, em 1260, o Império do Espírito Santo. Este suceder-se-ia aos Impérios do Pai e do Filho. Os leigos - tendo então interiorizado profundamente o Evangelho -, organizar-se-iam entre si para tomarem conta dos necessitados, presos, doentes, viúvas e órfãos. No seu contacto com Deus dispensariam a intervenção do clero, a ser substituído por uma Ordem dos Justos, que viria a ser a dos franciscanos.

Como se pode imaginar, esta nova ideologia era herética e a Igreja conseguiu, com o tempo, extirpar o culto da grande maioria dos centros europeus, apenas sobrevivendo em alguns lugares, como nos Açores e em Portugal continental, em Tomar, ilustrado na famosa Festa dos Tabuleiros. Falamos, bem entendido de festas tradicionais populares, já que a Igreja católica também celebra, de outra forma, o domingo de Pentecostes, incluindo na França, onde se encontra listado nos feriados nacionais religiosos. Lundi de Pentecôte (50 jours après Pâques, le 13 juin en 2011).

 

Pentecôte
50 jours après Pâques. Dimanche et lundi.
Catholique : Commémore la descente du Saint Esprit sur les Apôtres.

 

Em Portugal, a crença e a festa foram adotadas pela rainha D. Isabel de Aragão, esposa de D. Dinis, que lhes deu um cunho especial. Mandaram edificar uma igreja ao Espírito Santo na vila de Alenquer e nela a primeira confraria do Espírito Santo (pensa-se que em 1296), denominada Império. A ele foram chamadas a nobreza e pessoas de outras classes para o socorrerem com esmolas (Mendes, 2006). Os reis organizaram, como primeiro ato devocional, a coroação de um dos mais pobres súbditos no dia de Pentecostes pelo presbítero, que cantou Veni Creator, ao coroar. O coroado foi depois levado para um festim, onde a rainha e suas damas de honor o serviram. Este gesto real causou tamanha impressão nos nobres que logo pediram autorização para repetirem a prática nos seus solares. O rei não só aceitou, como permitiu que fizessem uma cópia da sua coroa, que se passou a chamar “a coroa do Divino Espírito Santo”, símbolo que se foi juntar àqueles que a Igreja havia consagrado: a pomba e as línguas do fogo (Mendes, 2006).

 

 

Objetos de culto e sequência ritual das Festas no Ontário

 

            Os símbolos das festas do Espírito Santo nos Açores e em todos os contextos migratórios, são a coroa e ainda o cetro, ambos encimados por pomba, e a salva para transporte da coroa pela mulher. A bandeira ou o estandarte de damasco grená, com a pomba em relevo no centro, é transportada/o pelo homem. Estes são os símbolos com que nasceram e cresceram muitos milhares de açorianos e por eles são venerados; estes, porém, são muitas vezes desconhecidos, e até mal compreendidos, pelos continentais[i]. A pomba na ponta do cetro e no centro da bandeira/estandarte é beijada no decorrer do culto, ato que traz amiúde lágrimas aos olhos de quem o faz.

 

FOTO 1: Casal desconhecido devolve a coroa e o estandarte à irmandade da igreja durante uma dominga

 

Outros marcadores cultuais das festas são os altares ou quartos improvisados do Espírito Santo, forrados a cetim branco, e decorados com grande criatividade a partir do mesmo repertório limitado de elementos; e ainda os impérios, pequenas capelas desmontáveis de madeira que albergam os símbolos do culto, aos quais por vezes se junta, como nos altares, uma estátua de Nossa Senhora de Fátima.

 

FOTO 2: Altar do Espírito Santo no salão da Igreja de Santa Maria com cesto para esmolas. Após dar a esmola, beija-se a pomba no cetro colocado em cima do cesto

 

Durante o ano, as coroas das igrejas de Toronto (3-24), e das irmandades independentes e de alguns clubes (1-2) circulam entre as casas dos devotos, ou “irmãos”, onde ficam pelo menos uma semana e servem de enfoque à reza do terço, onde se dedica uma divisão para “quarto do Espírito Santo”. Aí acorrem familiares, vizinhos, amigos e irmãos, seguindo-se uma refeição comunal. As coroas são depois devolvidas à igreja e/ou irmandade/clube com uma esmola, ou prenda, de dinheiro. Nos seis domingos que se seguem à Páscoa (também chamados Domingas pelos micaelenses), organizam-se coroações na igreja que têm lugar regra geral depois da missa.

Quem vai a coroar são as pessoas que guardaram a coroa em casa na semana que culmina com a coroação. Trata-se de devotos que fazem ou pagam promessas. Outra maneira de angariar fundos para as Grandes Festas da irmandade/clube, que têm lugar depois das Domingas, no domingo de Pentecostes ou Trindade, é através da organização de jantares com espetáculo durante o ano. O casal mordomo para esse ano é quem se responsabiliza pelos jantares e Festas, com ajuda dos antigos mordomos ou ainda a comissão da irmandade, constituída por casais amigos.

Em fase preliminar das Grandes Festas, procede-se à decoração do salão da igreja ou do clube e às compras e preparação dos ingredientes para as Sopas (entre 250 e a mais de 1.000 são servidas ao público gratuitamente em Toronto) e para as Pensões compradas pelos irmãos (entre 120 a 1.200): carne, vinho, pão e massa sovada. Segue-se a fase intensiva das Festas que começa com a reza do terço na igreja, ou no salão desta, e a distribuição das Pensões.

 

 

FOTO 3: Pensões do Espírito Santo aguardam a entrega aos irmãos no salão da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Vê-se o pão, a massa sovada e o vinho. Na altura da entrega, junta-se o tabuleiro da carne. Ao fundo, o altar do Espírito Santo iluminado pelo M de Maria.

 

A Festa culmina no domingo de Pentecostes ou Trindade com uma missa seguida da coroação de grupo das Domingas, ou só do mordomo e sua família, seguida de procissão com banda filarmónica. Servem-se depois as Sopas, no salão ou mais raramente, no parque de estacionamento da igreja ou escola, altura em que os comensais poderão contribuir com mais uma esmola. Faz-se depois o arraial com variedades, quermesse (chamado “bazar”) e outras diversões. Segue-se, enfim, o sorteio dos nomes para as Domingas do ano seguinte e a eleição do mordomo, já tarde, invariavelmente depois das 21 ou 22h.

 

FOTO 4: Coroação numa das igrejas com irmandade

 

O dinheiro angariado, no valor de milhares, ou dezenas de milhares de dólares, é entregue ao padre para a diocese, ficando amiúde uma percentagem para a irmandade. Se esta não se encontra situada numa igreja, ou seja, se é independente ou funciona num clube, o dinheiro angariado reverte para a instituição e não para a igreja. Esta prática levou a diocese a proibir as coroações na igreja para estas irmandades, sobretudo se aí se pratica a venda de Pensões, em contravenção com o que se praticava nas Ilhas, em que as Festas eram de leigos para leigos.

Por vezes existe um presidente laico da irmandade contudo, segundo os estatutos da arquidiocese de Toronto (1999), o presidente deverá ser o padre, o que constitui outra forte contradição com os padrões tradicionais das Festas do Espírito Santos, onde as irmandades são independentes da Igreja e os padres só são chamados para benzer e para coroar.

           

FOTO 5: Procissão do Espírito Santo, que segue a coroação e antecede as Sopas

 

Divisão de tarefas entre homem e mulher

 

Em Toronto, é portanto nas igrejas onde se encontra a maioria das irmandades do Espírito Santo (ES), por uma razão de conveniência, dado que as igrejas têm salões equipados de cozinhas e palcos – que se podem converter em altares do Espírito Santo – e a missa da coroação constitui um elemento essencial das Festas. É costume a mordomia e as comissões serem constituídas na base dos casais e, se por acaso um mordomo solteiro for eleito, espera-se que ele assuma a mordomia com a mãe. O envolvimento do casal é o caso da maioria das irmandades do Ontário, embora nos estatutos sobre as irmandades da arquidiocese seja feita apenas referência ao Mordomo, sem alusão a casais.

Um autor (Mendes), falando das Festas atuais na ilha Terceira, onde as irmandades são independentes da igreja, diz-nos o seguinte sobre o desempenho dos papéis segundo o género:

 

“A comensalidade está muito reservada aos varões, sobretudo no que se passa à volta da “despensa” ou da casa do Império; o processo de iniciação dá-se no masculino: são os foliões, os mordomos, os criadores, os cantores e os irmãos. As mulheres, que podem ser irmãs, pagam as “pautas”, fazem as limpezas, as decorações, cuidam da cozinha e retiram-se: serão convidadas para a “função” e estarão juntas no arraial, alumiações e arrematações.” (2006: p. 63)

 

Embora as irmãs luso-canadianas se encontrem mais intimamente envolvidas a todos os níveis, este quadro ainda se aplica no que diz respeito à divisão de tarefas segundo o sexo. Em Toronto, esta é ainda bem delineada mas algo fluida, como é o caso de servir as sopas e de fazer as compras. Assim, as mulheres têm um papel particularmente ativo nas rezas em casa; nas Festas distinguem-se na decoração dos altares do ES e na cozinha, onde são consideradas indispensáveis; são elas ainda elementos importantes na organização da quermesse, onde as tarefas constam em recolher ou comprar presentes, numerá-los e enrolar as rifas para venda.

Elas podem ou não ser chamadas mordomas, geralmente assumindo a mordomia com os maridos, mas é muito raro usarem a faixa de mordomo, a tiracolo. São os homens que desempenham este papel público, nas ocasiões necessárias. Observei que ainda se fala de Mordomo no singular, atribuindo ao homem o papel de liderança tácita.

Os homens fazem a carpintaria, tratam das questões da matança do gado, quando é ofertado pelos chamados criadores, e ainda do corte ou compras das carnes e do vinho, distribuem as Pensões, servem à mesa e fazem as arrematações, ou leilões de prendas oferecidas por irmãos e simpatizantes da irmandade ou ainda, por casas comerciais. Contudo, tanto mulheres como homens desfilam na procissão, recorrendo algumas irmandades à prática de contratar uma cozinheira para assumir a responsabilidade das Sopas, de maneira a libertar as senhoras para as Grandes Festas, onde o traje formal é de rigor.

Várias mulheres assumem discretamente o papel de liderança nas tarefas e até na mordomia, pois é reconhecido terem tanto ou mais sentido de organização, responsabilidade e orientação do que os maridos. Algumas disseram-me que têm que lembrar aos homens as diversas tarefas que os esperam, acaso se esqueçam, por isso na realidade “women are in charge”, ponto de vista avançado por mulheres de primeira, mas sobretudo de segunda geração. Como nos explica Giles (2002), às mulheres portuguesas de primeira geração cabe a reconstituição do lar e da cultura familiar no país de acolhimento, com a conivência do Estado canadiano que lhes franqueou a entrada como dependentes económicas. Enquanto as mulheres de segunda geração, ou seja, aquelas que nasceram no Canadá, ou emigraram antes da idade escolar, têm a tendência para resistir às relações tradicionais entre sexos, esperando partilha ou ajuda nas tarefas domésticas.

Nas irmandades onde os irmãos são menos instruídos, mais idosos e tradicionais, diz-se no entanto, abertamente: “precisamos é de mulheres na cozinha”. Nas palavras de uma senhora de primeira geração:

 

No Espírito Santo, são mais os homens que dão as opiniões, mas nós somos fortes para o trabalho, somos unidas, não acho bem; devia envolver-se mais as senhoras nas opiniões, pois se estão lá para trabalhar também deviam ter o direito de as dar. Nós falamos muito a respeito disso.

 

Outras entrevistas dão-nos uma visão diferente, ou seja, que, nos últimos vinte anos, as coisas têm mudado: algumas das tarefas já não são exclusivamente atribuídas a um ou outro sexo, verificando-se uma maior diversificação do trabalho voluntário feminino, e partilha-se a opinião de que, seja como for, “tem que haver o consentimento da mulher”. Efetivamente, segundo elas e o que pudemos observar, a tendência é cada vez mais as opiniões das mulheres serem solicitadas, assumirem tarefas que lhes eram vedadas e de repartir com elas, e de maneira pública, o cargo da mordomia. Nas palavras de uma das senhoras de segunda geração, ecoam as do autor supracitado, que se nos anos setenta as mulheres eram “convidadas”, como na ilha de origem; a partir do fim dos anos oitenta são solicitadas a contribuir a todos os níveis.

 

 

Conclusão

 

Nas irmandades, o discurso nunca foi de complementaridade de tarefas e de papéis, mas tem vindo a assumir essa forma nos últimos vinte anos, graças aos ditames da imigração - que resulta num maior esbatimento dos papéis tradicionais -, e ao maior envolvimento da segunda geração nas irmandades e nas Festas do Espírito Santo, embora esse envolvimento seja bastante limitado.

A pesquisa sobre as Festas do Espírito Santo continuará em 2011, 2012 e 2013 estou certa que, durante o trabalho de campo que se aproxima, poderei continuar a averiguar como se manifesta a participação dos sexos e das gerações, em todas as áreas das Festas. Estas são um meio de afirmar a fé, de desenvolver as sociabilidades dos açor-canadianos e de reforçar a identidade étnica do povo açoriano na diáspora, sobretudo para a primeira geração. Poderei então chegar a conclusões bastante melhor cimentadas e completas sobre o tópico que aqui tentei abordar de maneira preliminar.

 

 

 

Nota: esta comunicação foi apresentada no âmbito do V Colóquio Internacional


Les femmes portugaises dans la Diaspora : en France et dans le monde/ A vez e a voz da Mulher Portuguesa em França e Outros Lugares, que teve lugar na Université Paris Ouest, Nanterre La Défense, Nanterre a 11, 12 e 13 maio de 2011.



 

Bibliografia

 

Giles, Wenona. Portuguese Women in Toronto. Gender, Immigration, and Nationalism. Toronto, University of Toronto Press. 2002

 

Januário, Ilda. As Festas do Espírito Santo no Ontário, Canadá. The Holy Ghost Festas. A Historic Perspective of the Portuguese in California. CD published by Portuguese Heritage Publications of California, Inc., Special Edition on the Occasion of the IV International Conference on the Holy Spirit. California, June 24-27. 2010

 

Leal, João. As Festas do Espírito Santo nos Açores, Um Estudo de Antropologia Social. Lisboa, Publicações Dom Quixote. 1994

 

Leal, João. “Traditions Locales et Émigration: les Fêtes du Saint-Esprit aux Açores”, Ethnologie Française XXX (1). 2000, 51-60.

 

Mendes, Hélder Fonseca. Do Espírito Santo à Trindade. Um programa social de cristianismo inculturado.

Porto, Universidade Católica Portuguesa. 2006.


 

Resumé

 

Le rôle des femmes luso-canadiennes dans les Fêtes du Saint-Esprit

 

Environ 360.000 personnes d’origine portugaise habitent le Canada, dont le 80% sont issues des Açores où les Fêtes du Saint-Esprit constituent une tradition très ancrée dans la culture populaire religieuse. Les immigré(e)s s’empressent à reconstituer ces fêtes dans la diaspora, pour des raisons religieuses et sociales.

Dans le cadre d’une recherche anthropologique initiée en 2008, on a calculé que le nombre de fêtes au Canada s’élève à presque une centaine, dont environ 60 ont lieu en Ontario, avec la participation de milliers de bénévoles.

Ayant déjà participé dans une recherche approfondie en Ontario, je me propose documenter le rôle des femmes dans l’organisation et célébration de ces Fêtes qui s’appuient sur le travail des couples bénévoles. À travers d’interviews avec quelques un(e)s de ces femmes et hommes déjà identifié(e)s, je tâcherai d’analyser le rôle que jouent ces femmes dans les Fêtes.

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Resumo

 

O papel das mulheres luso-canadianas nas Festas do Espírito Santo

 

Cerca de 360.000 pessoas de origem portuguesa habitam no Canadá, sendo cerca de 80% delas oriundas dos Açores onde as Festas do Espírito Santo constituem uma tradição muito enraizada na cultura popular religiosa. Os imigrantes das ilhas tentaram de reconstituir a tradição das festas na diáspora por razões religiosas e sociais.

Dentro do âmbito de uma pesquisa antropológica iniciada em 2008, calcula-se que o número de Festas se eleve a quase uma centena, cerca de 60 no Ontário, com a participação de milhares de voluntários.

Tendo já participado numa pesquisa aprofundada no Ontário, proponho-me documentar o papel das mulheres na elaboração e celebração das Festas que se apoiam no trabalho voluntário de casais. Mediante entrevistas com homens e mulheres já identificados na pesquisa, tentarei analisar o papel que desempenham as mulheres nas Festas.


 

Biografia

 

Ilda Januário é Mestre em Antropologia Cultural pela Universidade de Montreal. Encontra-se atualmente reformada do OISE/ Universidade de Toronto, onde trabalhou como Senior Research Officer até 2008. Integra desde então o projeto de pesquisa do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA) do Departamento de Antropologia da Universidade Nova de Lisboa. O projeto “Ritual, Transnacionalidade, Etnicidade: Um Estudo Comparativo”é dirigido pelo Prof. Dr. João Leal.

 

 

 




[i] Uma paroquiana continental em Vancouver referiu-se à coroa como “uma brincadeira”, pois ignorava por completo a origem continental do símbolo.