sexta-feira, 9 de novembro de 2012

GG sobre VIANA 85

1º. Encontro Portuguesas Migrantes no Associativismo e no Jornalismo
Viana do Castelo , 16 a 20 de Junho de 1985
Constatando uma enorme carência de dados acerca do papel da mulher migrante
portuguesa nos países de acolhimento, a Secretaria de Estado das Comunidades
Portuguesas, organizou o 1º. Encontro Portuguesas Migrantes no Associativismo e no
Jornalismo, que teve lugar em Viana do Castelo em Junho de 1985, nas instalações
do Instituto Politécnico.
Para a Secretária de Estado, Dra. Manuela Aguiar, esta iniciativa representava um
contributo no ano de encerramento da Década das Nações Unidas sobre a mulher
– década em que a mulher migrante surgiu como tema autónomo enquanto grupo
desfavorecido – balizando proporcionar troca de experiências e de conhecimentos
que as mulheres migrantes portuguesas têm vivenciado no jornalismo e no
associativismo, de forma a que seja conhecida a realidade feminina portuguesa no
mundo. E, para tal, foram convidadas a participar mulheres migrantes de todos
os continentes, cujo papel nas comunidades e nestes contextos era relevante e
conhecido das estruturas diplomáticas, bem como da Direcção dos Serviços da Emigração dos Açores.
Para este Encontro, a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas contou
com o apoio da UNESCO, da Comissão Organizadora do Dia de Portugal, de Camões
e das Comunidades Portuguesas, do Ministério da Cultura, da Comissão da Condição
Feminina, do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, do Governo Civil, da Comissão
Regional de Turismo do Alto Minho, bem como da TAP e do Banco Português do
Atlântico.
Para perpetuar os conhecimentos adquiridos neste Encontro, o Centro de Estudos
da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas que então estava sob a
minha direcção, orgulha-se de ter publicado em 1986 as Actas que contêm todas as
comunicações.
Espinho, Novembro de 2012-11-08
Maria da Graça Sousa Guedes
1º. Encontro Portuguesas Migrantes no Associativismo e no Jornalismo
Viana do Castelo , 16 a 20 de Junho de 1985
Constatando uma enorme carência de dados acerca do papel da mulher migrante
portuguesa nos países de acolhimento, a Secretaria de Estado das Comunidades
Portuguesas, organizou o 1º. Encontro Portuguesas Migrantes no Associativismo e no
Jornalismo, que teve lugar em Viana do Castelo em Junho de 1985, nas instalações
do Instituto Politécnico.
Para a Secretária de Estado, Dra. Manuela Aguiar, esta iniciativa representava um
contributo no ano de encerramento da Década das Nações Unidas sobre a mulher
– década em que a mulher migrante surgiu como tema autónomo enquanto grupo
desfavorecido – balizando proporcionar troca de experiências e de conhecimentos
que as mulheres migrantes portuguesas têm vivenciado no jornalismo e no
associativismo, de forma a que seja conhecida a realidade feminina portuguesa no
mundo. E, para tal, foram convidadas a participar mulheres migrantes de todos
os continentes, cujo papel nas comunidades e nestes contextos era relevante e
conhecido das estruturas diplomáticas, bem como da Direcção dos Serviços de
Emigração dos Açores.
Para este Encontro, a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas contou
com o apoio da UNESCO, da Comissão Organizadora do Dia de Portugal, de Camões
e das Comunidades Portuguesas, do Ministério da Cultura, da Comissão da Condição
Feminina, do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, do Governo Civil, da Comissão
Regional de Turismo do Alto Minho, bem como da TAP e do Banco Português do
Atlântico.
Para perpetuar os conhecimentos adquiridos neste Encontro, o Centro de Estudos
da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas que então estava sob a
minha direcção, orgulha-se de ter publicado em 1986 as Actas que contêm todas as
comunicações.
Espinho, Novembro de 2012-11-08
Maria da Graça Sousa Guedes

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Maria Violante em Fátima

Introdução

Em primeiro lugar, quero agradecer à Secretaria de Estado, Obra
Católica Portuguesa das Migrações e Caritas Portuguesa pelo convite
para participar neste evento que tem um significado muito importante
para todos os que aqui estamos, já que nele poderemos partilhar
experiências e conhecer realidades e problemáticas dos nossos
respectivos países, e as formas de participação a nível de cada uma
das comunidades, com o objectivo comum de difundir a nossa língua e
cultura.

Língua
Para dar início ao tema que me cabe apresentar neste painel, queria
referir-me, primeiramente, à minha história pessoal, já que foi uma
realidade que me marcou.
Cheguei à Argentina com a 4ª classe de Portugal, mas, por falta de
meios, não pude ir a exame, e fui forçada a recomeçar o estudo desde a
2ª classe. Esse foi o primeiro problema que tive de afrontar.
Frequentei uma escola pública, onde, por acaso, me trataram muito bem.
Porém, desde esse momento, começaram a chamar-me "Mendes, a
Portuguesa". Terminei a escola primária e surgiu, então, outro
problema: para poder continuar na escola tinha de aprender castelhano
sem erros e sem incorporar palavras portuguesas. Graças ao convívio
com os meus companheiros, consegui superar as dificuldades e aprender
a ler e escrever correctamente na nova língua.
O meu idioma português passou a segundo plano, não por minha vontade,
mas porque não me permitiam fala-lo. Os meus Pais apenas sabiam ler e
escrever numa mistura de Portunhol, pelo que se recomendava aos pais
que não falassem português com os filhos, porque se o fizessem eles
seriam prejudicados no aproveitamento escolar, com más classificações.
Esta foi uma história de infância comum a muitos de nós, filhos de
portugueses emigrantes, arrancados à sua terra para buscarem uma nova
vida, com mais possibilidades de progresso.

Minhas Senhoras e meus Senhores:

No que respeita ao nosso lugar em escolas e institutos também foram
muitos os obstáculos e as questões a resolver - os primeiros
professores que ensinaram Português na comunidade eram emigrantes que
por terem estudos mais avançados, adquiridos em Portugal, acediam ao
ensino nas instituições próprias das nossas comunidades, mas, com o
passar do tempo, foram abandonando esse trabalho, por problemas
familiares, doença, morte, etc. Estamos, pois, ainda hoje,
confrontados com esta realidade de carência de docentes na Argentina.
Nos anos 80, devido à criação do Mercosul começa a difundir-se o
Português, como língua curricular, para além do inglês e francês.
Todavia, como Portugueses e Luso-descendentes, continuamos a não
dispor de professores para aprendizagem da língua tal como é falada no
nosso País.

Alteração do nosso Idioma
O Brasil tem, naturalmente, uma grande influência, porque possui
inúmeras empresas na Argentina, o que motiva uma grande procura de
profissionais fluentes em Português.
Nós contamos, na Argentina, com o Instituto Camões, para assegurar a
concessão de títulos nacionais e para traduções, mas dispondo apenas
de um Professor (Leitor) oriundo de Portugal. Os demais são, regra
geral, do Brasil.
Há muitos outros institutos de Português no País, mas sempre com
professores que se exprimem com sotaque brasileiro. Não se ensina o
Português original e, entre os luso-descendentes, existe uma
necessidade, um grande interesse em aprender à nossa maneira, o que só
será possível com professores formados em Portugal - e, como disse,
não os há. É uma privação muito sentida e creio que a Secretaria de
Estado deveria ter em conta a possibilidade de satisfazer os anseios
de tantos compatriotas.

Cultura
A nível cultural, a nossa comunidade está bem presente na Argentina,
tanto no que respeita ao plano associativo, como no domínio
empresarial
A comunidade portuguesa conta com muitas instituições, espalhadas por
diferentes pontos do País, e maioritariamente, em Buenos Aires.
Estas associações encarregam-se de difundir a cultura portuguesa no
seu âmbito, um pouco por todo o lado, através uma forte participação
em eventos organizados pelas diferentes comunidades de imigrantes
radicados na Argentina, assim como nas nossas festividades nacionais,
que são sempre uma oportunidade para dar a conhecer as comidas
típicas, o artesanato, o folclore, os costumes originários do País.
Um acontecimento muito importante é o "Buenos Aires celebra Portugal",
que se realiza nesta cidade. O governo local cede-nos espaço condigno
na Avenida de Mayo
Ao longo do dia, as pessoas degustam pratos característicos da nossa
rica culinária, ao mesmo tempo que ouvem o tradicional "Fado". Ao cair
da tarde desfilam os ranchos folclóricos com as suas variadas danças.
Outro evento que tem grande repercussão na nossa comunidade é a festa
de Nossa Senhora de Fátima, na localidade de Pilar, província de
Buenos Aires.
Para além do aspecto religioso, que é o determinante, esta é mais uma
ocasião de mostrar a singularidade do artesanato, da música, da
gastronomia. O público comparece e desfruta do espectáculo dos Ranchos
folclóricos, das danças e trajes típicos de diferentes regiões de
Portugal. A concluir, realiza-se a procissão e o dia de festa encerra
com uma Missa, em honra da Virgem de Fátima
Todas estas organizações são desenvolvidas com a colaboração activa e
empenhada dos nossos jovens, que tomam a cargo a sua difusão em
programas de rádio, na imprensa diária, na internet.
Apesar do sucesso de todas estas actividades, há que apontar a falta
do apoio de profissionais e formadores em dança, que leva os grupos
folclóricos a recorrem à internet, estudando os videos de que aí
dispõem e procurando imitar os melhores executantes.
Seria, sem dúvida, importante investir na formação de ensaiadores e
professores de dança, para que estes Ranchos, que estão em crescimento
e pretendem divulgar a cultura portuguesa a nível da Argentina, possam
ser ainda melhores e representar, na perfeição, Portugal nos muitos
programas para os quais são convidados pelas mais altas autoridades do
País.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Mulheres em movimento II - Intervenção da Profª Doutora Graça Guedes

II ENCONTRO MULHERES EM MOVIMENTO


Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva
Espinho, 27 de Outubro de 2012

UNIVERSIDADE, POLÍTICA E CIDADANIA

Graça Guedes
Professora Catedrática Aposentada da Universidade do Porto
Professora Catedrática do ISCS-N/CESPU
gracaguedes@net.sapo.pt



É normal pensar que POLÍTICA significa governo dos homens, administração das coisas e direcção dos Estados.
Mas este conceito é muito mais lato e abrangente.
Pode ser considerado Arte, Ciência, Ideologia, Filosofia, Ética, Metafísica, Teologia, com diferentes níveis, dimensões e aspectos, que se interligam ou dialecticamente se postulam. O problema reside em saber o que é que verdadeiramente se encontra unido.
Porque POLÍTICA releva da intuição criadora, do juízo teórico-prático, da percepção das mediações necessárias entre quem governa e a comunidade que é governada, releva também dos diversos corpos que constituem o universo social e estatal que se relacionam com as aspirações que polarizam a vida dos Homens.

E, assim sendo, POLÍTICA é um FAZER e, sobretudo, um AGIR.
Esta perspectiva é aliás já muito antiga e inspirada em Aristóteles, que assim define Política: … uma espécie de savoir-faire, de que nem a sensibilidade nem a imaginação podem estar ausentes, embora a prioridade seja atribuída à racionalização tecnológica e à reflexão crítica.

POLÍTICA será um ponto de focagem de um campo larguíssimo de relações entre governantes e governados; entre as Instituições e a vida real; entre as partes e o todo. E, todos nós, somos a parte deste todo!
Embora lhe estejam normalmente associadas questões ideológicas e partidárias, teremos de pensar sobretudo em CIDADANIA, que deverá nortear os nossos comportamentos e os nossos relacionamentos, qualquer que seja a idade, o género, a etnia, a religião; qualquer que seja o contexto onde possamos estar inseridos.

Cada uma de nós aqui, tem certamente histórias de vida que testemunham os seus contributos para a renovação de uma organização partilhada entre homens e mulheres, a todos os níveis e em todas as esferas, num efetivo exercício de cidadania que sempre caracterizou tudo quanto a vida me fez confrontar.

Agradecendo a honra que me foi dada para participar neste II Encontro Mulheres em Movimento e aqui apresentar um testemunho pessoal, salientarei algumas vivências em diferentes contextos e, consequentemente, com diferentes tipos de intervenção. Seja na Universidade, na vida associativa e desportiva, na política, mas sempre norteada por esteparadigma de CIDADANIA.

Uma carreira académica na Universidade do Porto.
Uma actividade associativa: vice-presidente dos Bombeiros Voluntários de Espinho nos finais dos anos 90; Presidente da Assembleia Geral do Sporting Clube de Espinho; Vice-
Presidente da Assembleia Geral do Orfeão de Espinho.
Na vida política activa, Presidente da Assembleia Municipal de Espinho no anterior mandato.

Profissionalmente, a minha carreira docente universitária impôs a realização de doutoramento e, como na minha área científica ainda não havia em Portugal ninguém com esse grau, tive de emigrar, para em Paris e durante cinco anos, realizar os meus estudos conducentes à obtenção do grau de Doutor em Psicologia. Foram cinco anos difíceis, longe de casa, dos filhos, da família; sem bolsa de estudo. Mas consegui, tendo sido a primeira mulher que em Portugal obteve esse grau para as Ciências do Desporto. Depois, fui novamente a primeira a chegar a Catedrática, depois das provas de agregação e de ter ganho o concurso para este estatuto universitário.
No desporto, pertenci á primeira equipa de voleibol do Sporting Club de Espinho, onde agora e já desde há alguns anos sou Presidente da Assembleia Geral.
Ter sido Vice-Presidente dos Bombeiros Voluntários de Espinho, foi uma experiência enriquecedora, num contexto especial, com pessoas muito especiais, sobretudo porque me foi dado o privilégio de organizar as comemorações do seu centenário.
Ter sido uma das 18 Presidentes das 308 Assembleias Municipais Portuguesas é também algo a que não pude ficar indiferente, como também registo com muito orgulho  e satisfação o resultado da votação para a actual Presidência da Assembleia Municipal de Espinho. Apesar de não ter sido eleita, votaram em mim todos os elementos do CDS-PP, da
CDU, do BE e, obviamente, do Partido Socialista.

Selecionei alguns extratos de intervenções públicas que poderão eventualmentecontribuir para o diálogo que julgo irá acontecer a seguir às nossas intervenções, sobretudo  porque sempre procurei destacar o papel da Mulher na sociedade.


* Saudação no DIA INTERNACIONAL DA MULHER, 2006

Homens e mulheres constituem os dois sexos, diferentes entre si, que compõem a Humanidade.
As sociedades, em função das diferenças biológicas, foram construindo ao longo dos séculos representações, papeis e expectativas, também diferentes entre si, originando o que se passou a designar de género: género feminino e género masculino.
Diferenças de género que, segundo Bordieu (1999), estão bem impressas nas estruturas mentais e sociais da humanidade.
Para Knoppers (1988), estão reconhecidas três concepções de género:
- entendido como um atributo pessoal, que resulta da interacção de factores biológicos, com factores sociais, dando lugar às diferenças de género;
- baseada na noção de papeis, seja associada ao sexo, ou ao género, muito embora subsista ainda uma certa confusão relativa ao significado que , segundo Hall (1985), é atribuído a uns e a ontras;
- concebendo o género em termos de relações sociais entre homens e mulheres, bem como entre o género e as estruturas sociais. Nesta perspectiva, Hall (1985) considera que dado que as relações se constroem socialmente, elas não são imutáveis, pelo que podem sofrer transformações
No passado, as diferenças fundamentavam-se no reconhecimento aos homens e a exclusão às mulheres dos direitos inerentes à autonomia individual e à cidadania. As mulheres eram consideradas desiguais pelo Direito, desigualdade traduzida numa determinada hierarquiaentre uns e outras: os homens, que constituíam um padrão em torno do qual e para a qual a sociedade se organizou; as mulheres, principalmente as casadas, uma “classe” inferior, com capacidade jurídica diminuída e, consequentemente, discriminada.
Actualmente, o Direito português, considera ilegal, no quadro dos Direitos, Liberdades e Garantias Fundamentais, a discriminação em função do género, reconhecendo a igualdade de homens e mulheres: duas expressões concretas do conceito abstracto que é a Pessoa - as duascomponentes da Humanidade. E, como tal, reconhece que todos os Direitos Humanos eLiberdades Fundamentais são inerentes ao mero facto de se ser Pessoa, de ser Mulher, ou Homem.

Mulheres e homens têm direitos iguais, porque a Humanidade se desenvolveu, porque as ciências avançaram, porque as sociedades evoluíram, porque a Justiça e a Democracia são assumidas como ideais em constante aprofundamento.
E o Direito, que é uma construção humana, procurou assim acompanhar e encorajar progressos, avanços, evoluções e aprofundamentos. Hoje, não é aceitável que às mulheres corresponda um estatuto com menos direitos dos que são reconhecidos aos homens, como a título de exemplo, do acesso ou das condições de trabalho remunerado, quando simultaneamente, têm acumuladas responsabilidades familiares, que comodamente os cônjuges tantas vezes não partilham.
Numa sociedade que se pretende justa e democrática, todos devem ter as mesmas oportunidades para aceder ao poder.
E aqui introduzo o conceito de paridade.
Um conceito e um objectivo, através do qual se pretende reconhecer com igualdade o valor das pessoas, não importa o género, a raça ou a etnia.
Um conceito que dá visibilidade à igual dignidade dos homens e das mulheres, balizando renovar a organização social e, consequentemente, que os homens e as mulheres partilhem, de facto, direitos e responsabilidades, de forma a usufruírem, com plena igualdade e liberdade, da participação a todos os níveis e em todas as esferas.
Associando-me às saudações feitas para a comemoração do dia internacional da mulher no próximo dia 8 de Março e acreditando veementemente na implementação de uma efectiva paridade entre géneros, que favorecerá a adaptação do ordenamento das sociedadesdemocráticas às legítimas expectativas de um efectivo exercício de cidadania, cumprimento
afectuosamente todas as mulheres e todas as jovens de Espinho, propondo que num horizonte
próximo a ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE ESPINHO comece a adoptar este paradigma de paridade com uma maior dimensão.



* Sessão Extraordinária para a Comemoração do 25 de Abril de 2006

Nesta Sessão Extraordinária da Assembleia Municipal de Espinho e exclusivamente destinada a comemorar a Revolução de Abril, acabamos de ouvir dos senhores vogais, representantes dos partidos que aqui têm assento, elogios e críticas; sonhos que se concretizaram ou que ficaram inacabados; alegrias e frustrações; esperança e desilusão.

Opiniões e perspectivas, que traduzem afinal a grande conquista de Abril – a DEMOCRACIA – e reflectem a sociedade actual. Tal como há um ano atrás o meu digníssimo antecessor afirmava e citando-o “ …uma sociedade assente nos princípios e valores da democracia; uma sociedade em que não existe um pensamento único, corporizado em alguém infalível e absoluto, que impunha um sistema sem alternativas e castrador da liberdade das pessoas e das comunidades “.

Minhas senhoras e meus senhores.

Antes de dar por encerrada esta cerimónia solene, gostaria de aqui deixar algumas reflexões pessoais.
Há 32 anos, Abril chegou.
Chegou límpido de esperança, de amor, de sonho; não utópico nem inatingível, mas ali, à distância da mão de todos nós (Fausto Neves, 2005).
Uma data que hoje e aqui comemoramos e que permitiu traçar o caminho do nosso colectivo. Mas os traços deste caminho que percorremos nestes últimos trinta anos, foram rigorosamente riscados numa Constituição.
Uma Constituição, aprovada em 2 de Abril de 1976 e que foi elaborada por uma Assembleia Constitucional durante longos meses de trabalhos, desenvolvidos em tempo de conflito, entre a legitimidade revolucionária e a legitimidade democrática.
Legitimidade democrática que acabou por prevalecer.
Uma Constituição, muito preocupada com os direitos fundamentais dos cidadãos e dos trabalhadores, bem como com o equilíbrio do poder entre os Órgãos de soberania.
Uma Constituição, que estabelece a igualdade para homens e mulheres, numa multiplicidade de domínios e que possibilita um quadro jurídico novo, no que se refere às mulheres e à igualdade.
Uma preocupação que então já era pertinente, uma vez que 1975 foi uma data internacionalmente marcante na evolução das questões relativas à condição feminina e à igualdade: foi proclamado o Ano Internacional da Mulher das Nações Unidas e realizou-se na Cidade do México a I Conferência Mundial sobre as Mulheres.

Valerá a pena salientar e com orgulho, que esta tomada de consciência que então se começou a esboçar no mundo, em Portugal já remonta a 1970, quando apesar dos constrangimentos políticos que vivíamos, é criado um grupo de trabalho para a Participação da Mulher na Vida Económica e Social, ao qual se lhe seguiu, em 1973, a Comissão para a Política Social Relativa à Mulher.

Esta Comissão atravessa intocável a Revolução de Abril e, em Janeiro de 1975, por iniciativa da Dra. Maria de Lourdes Pintassilgo, então Ministra dos Assuntos Sociais, é substituída pela Comissão da Condição Feminina, ficando em regime de instalação até 1977, altura em que é institucionalizada e são definidos os seus objectivos, bem como as atribuições e competências– apoiar todas as formas de consciencialização das discriminações contra elas praticada em ordem à sua inserção no processo de transformação da sociedade portuguesa de acordo com os princípios consignados na Constituição.
Em 1991, esta Comissão adopta uma nova filosofia, com melhores possibilidades de intervenção e passa a ser denominada Comissão para a Igualdade e para os Direitos da Mulher (CIDM), na medida em que a Igualdade é um direito fundamental dos homens e das mulheres
Valerá também a pena salientar que em 1979 a então Secretaria de Estado do Trabalho, com a Dra. Manuela Aguiar ao leme, prepara uma legislação que veio a instituir a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, que procurou assegurar as condições de acesso epromoção da mulher em contexto laboral.

Minhas senhoras e meus senhores

Foi esta Constituição, que permitiu que 1980 Portugal fosse um dos primeiros países a ratificar, sem reservas, a Convenção das Nações Unidas para a Eliminação de todas as formas de descriminação contra as mulheres, adoptada pela Assembleia Geral em 1979.
Como referia Jorge Miranda há alguns dias no Jornal Público, “ …é uma Constituição garantia e uma constituição prospectiva ”.

Uma Constituição, que após sete revisões, a entrada de Portugal para a Comunidade Europeia e a passagem desta para a União Europeia, para além da imensidade de transformações que se foram registando no país e no mundo, continua sendo a mesma Constituição que a Assembleia Constituinte aprovou em 1976, pelo facto de ser um complexo de princípios e não de preceitos.

Já houve toda a espécie de governos, de maioria ou não, com legislaturas completas ou interrompidas, com o Parlamento dissolvido por três vezes pelos Presidentes da República, mas esta Constituição permanece a defender os direitos e deveres fundamentais em que aceita a dignidade humana.
Efectivamente, foram modificados múltiplos artigos, testemunho de novas respostas aos novos desafios inerentes ao processo de desenvolvimento, mas permaneceram os princípios cardeais que lhe conferem sentido e coerência. Citando novamente Jorge Miranda, “… a Constituição continua sendo Constituição de liberdade e Constituição de solidariedade “
Foi um fenómeno de desenvolvimento constitucional e não de ruptura, aquele que atravessou a Constituição de 1976 ao longo destas três décadas, por efeito da jurisprudência, das revisões constitucionais e da interacção dialéctica da aplicação das normas e do crescimento da cultura cívica de Portugal.

Orgulhamo-nos do 25 de Abril que estamos hoje aqui a comemorar, mas também no orgulhamos e igualmente teremos de comemorar a nossa Constituição, que tão bem traçou o caminho que foi aberto pela Revolução dos Cravos.
Mas também será legítimo e oportuno aqui e hoje comemorarmos os poucos dias de vida de uma nova e bem recente conquista, na senda de um novo paradigma – a democracia paritária - já defendido em 1989 no Conselho da Europa e que fez caminho entre nós.
Um conceito que assenta no reconhecimento da dualidade da humanidade, que é composta por homens e mulheres, iguais em direitos e iguais em dignidade, independentemente das diferenças que lhes são próprias.

Um conceito que reconhece e valoriza a diferença, combatendo a discriminação e adesigualdade. Consequentemente, exige a plena e igual participação de homens e de mulheres a todos os níveis da vida social e política, incluindo os níveis de decisão e de poder.
Mulheres e homens têm direitos iguais, porque a Humanidade se desenvolveu, porque as ciências avançaram, porque as sociedades evoluíram, porque a Justiça e a Democracia são assumidas como ideais em constante aprofundamento (Guedes, 2006).
E em Portugal, porque houve Abril e porque a Constituição de 1976 delineou os traços do caminho da liberdade que temos percorrido.
Viva a democracia e a liberdade.
Viva Portugal.



*CENTENÁRIO DA REPÚBLICA PORTUGUESA

Homenagem a Carolina Beatriz Ângelo - Espinho, 28 de Maio de 2010

Integrada num vasto e dignificante programa de comemorações do Centenário da República Portuguesa que se realizam em Espinho e pela mão da Dra. Manuela Aguiar, que merece o nosso maior aplauso, é hoje homenageada Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher que em Portugal exerceu o seu direito de voto, há exactamente 99 anos, interferindo assim na
república dos homens, com a maior coragem e determinação.
Lamentando não poder estar presente, não queria deixar de me associar a este momento simbólico, como simbólica é esta sessão, no contexto do centenário da república portuguesa.
Apesar dos homens e das mulheres constituírem os dois sexos que compõem a Humanidade, as sociedades, em função das diferenças biológicas, foram construindo ao longo dos séculos representações, papeis e expectativas, também diferentes entre si, originando o que se passou a designar de género: género feminino e género masculino. Diferenças de género, que desde sempre estiveram impressas nas estruturas mentais e sociais da humanidade.

No passado, as diferenças fundamentavam-se no reconhecimento aos homens e a exclusão às mulheres dos direitos inerentes à autonomia individual e à cidadania. As mulheres eram consideradas desiguais pelo Direito, cuja desigualdade se traduzia numa determinada hierarquia entre uns e outras: os homens, que constituíam um padrão em torno do qual e para a qual a sociedade se organizou; as mulheres, principalmente as casadas, uma “classe” inferior, com capacidade jurídica diminuída e, consequentemente, discriminada.

Há 99 anos, Carolina Beatriz Ângelo, atenta aos ganhos civilizacionais e jurídicos, ousou interferir com o seu voto numa república recém criada, constituindo um modelo de mulher que ainda não era suficientemente aceite pela sociedade, mas que deveria ser uma referência  para todas nós e que esta sessão dará a conhecer melhor esta figura.


Já passaram quase 100 anos desde esse momento histórico e, actualmente, o Direito português, no quadro dos Direitos, Liberdades e Garantias Fundamentais, considera ilegal a discriminação em função do género, reconhecendo a igualdade de homens e mulheres: duas expressões concretas do conceito abstracto que é a Pessoa - as duas componentes da Humanidade.
E, como tal, reconhece que todos os Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais são inerentes ao mero facto de se ser Pessoa, de ser Mulher, ou Homem.
Mulheres e homens têm hoje direitos iguais, porque a Humanidade se desenvolveu, porque as ciências avançaram, porque as sociedades evoluíram, porque a Justiça e a Democracia são assumidas como ideais em constante aprofundamento.

Numa sociedade que se pretende justa e democrática, todos devem ter as mesmas oportunidades para aceder ao poder, mas importa que cada uma de nós tenha a coragem e a determinação de enfrentar todas as vicissitudes que encontre no caminho.
Este testemunho pessoal que aqui humildemente vos deixo, procurou expressar momentos da minha vida, com diferentes vivências e em diferentes contextos, como exercício de CIDADANIA, que sempre caracterizou tudo quanto a vida me fez confrontar.



Espinho, 27 de Outubro de 2012



Graça Guedes

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Maria do Céu Cunha Rego sobre o Encontro de Viana 85


Recordando o 1º Encontro de Portuguesas Migrantes no Associativismo e no Jornalismo


Maria do Céu da Cunha Rêgo


No fim da primavera de 1985, quando Portugal aderiu às então designadas Comunidades Europeias em busca de crescimento e de sustentabilidade para a democracia, Manuela Aguiar, então Secretária de Estado da Emigração, chamou a Viana do Castelo mulheres das comunidades portuguesas, que se tivessem distinguido nas áreas do associativismo ou do jornalismo nos países que também tinham feito seus. Antecipou assim, em cerca de 10 anos, o que haveria de ser uma das principais recomendações da IV Conferência Mundial sobre as Mulheres organizada pelas Nações Unidas em Pequim, em 1995: a indispensabilidade do empoderamento das mulheres, de que são pressupostos, a visibilidade e o reconhecimento. Foi, com efeito, antes de mais, uma acção positiva: as reuniões institucionais de representantes das comunidades portuguesas eram, em princípio, redutos de homens. Dar voz às mulheres, constatar as suas realizações, ouvir as suas críticas e as suas vontades, registar as suas propostas, celebrar este encontro em Portugal foram objectivos conseguidos.


As comunicações - seleccionadas de entre as que enviaram “mulheres consideradas relevantes quer no jornalismo quer no associativismo pela estrutura diplomática e consular”, no dizer de Maria Luísa Pinto, então presidente Instituto de Apoio à Emigração - agruparam-se em três temas e foram apresentadas por portuguesas de todos os continentes e de diversas idades:  

·         As mulheres migrantes na sociedade (com comunicações do Brasil, da República da África do Sul, do Luxemburgo, de França, do Canadá, da Austrália e dos Estados Unidos da América);

·         As mulheres migrantes e o jornalismo (com comunicações do Reino Unido, da Argentina, dos Estados Unidos da América, do Brasil, de França e do Canadá);

·         As mulheres migrantes e o associativismo (com comunicações dos Estados Unidos da América, da Venezuela,  da Argentina, de França e do Canadá).


Houve ainda teatro e cinema sobre a emigração portuguesa em França apresentado por jovens residentes naquele país, concertos, palestras, exposições e momentos de lazer e de convívio.


A iniciativa, organizada pela Secretária de Estado e pelo então Instituto de Apoio à Emigração, foi apoiada pela UNESCO e outras instituições a nível nacional e local. Nela intervieram, para além das entidades organizadoras e de elementos do Conselho das Comunidades Portuguesas, figuras públicas residentes em Portugal - deputadas, escritoras, académicos, jornalistas e representantes de diversos departamentos da Administração Pública.


Ficaram conclusões que, nos anos seguintes, vieram a inspirar políticas públicas em Portugal e iniciativas das comunidades portuguesas por todo o mundo, incluindo a criação da Associação Mulher Migrante, que actualmente integra o Conselho Consultivo da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Ficou um livro a dar conta de tudo, editado pelo Centro de Estudos da Secretaria de Estado, ao tempo já designada das Comunidades Portuguesas. E ficou uma saudade de repetição, só concretizada 20 anos depois, numa versão actualizada, com os “Encontros para a Cidadania: A igualdade de homens e mulheres nas comunidades portuguesas” que tiveram lugar em diversos continentes entre 2005 e 2009 e que encerraram em Espinho.


E eu que, pelas funções que fui exercendo, contribuí para a organização de vários destes encontros, só posso agradecer o privilégio, a alegria e o enriquecimento que este trabalho me deu.

FESTIVAL CABRILHO 2011 - MEMÓRIA DE MARY GIGLITTO

Festival Cabrillo 2011
Nos dias 1 e 2 de Outubro teve lugar o Festival Cabrillo 2011 em San Diego,
comemorando a chegada de João Rodrigues Cabrillo, Português ao serviço de
Espanha, primeiro europeu a pisar as terras do oeste do que hoje é o México e Estados
Unidos.
Cheio de nostalgia e saudade, o Festival Cabrillo foi dedicado à memória de Mary Rosa
Giglitto, a força e entusiasmo do mesmo desde o seu início.
As atividades no primeiro dia iniciaram-se com a Cerimonia Comemorativa, realizada
na área onde o Museu Marítimo de San Diego está a construir a réplica da nau San
Salvador, barco de Cabrillo.
Para iniciar as cerimónias, um quinteto da marinha Americana, tocou os hinos de
Espanha, México, Portugal e Estados Unidos.
As cerimónias foram orientadas pelo Superintendente do Cabrillo National Monument,
Tom Workman, que aludiu à memória de Mary Rosa Giglitto e os seus contributos para
com o Festival Cabrillo.
Presentes estavam entidades representando Portugal. Cônsul Geral de Portugal em
San Francisco, Dr. António Costa Moura, Capitão Paulo Sousa Costa, representando
o Chefe de Estado-maior da Armada, de Espanha, Cônsul Geral em Los Angeles,
Enrique Ruiz Molero, que foi o orador principal, Nico Saad, Presidente Emérito do
Festival Cabrillo, Ensenada, Xavier Rival, em representação do Presidente Municipal,
Enrique Ruiz Torres de Ensenada, México, assim como Zé Duarte Garcia, Presidente
do Festival Cabrillo, Miss Cabrillo, Juliette Simões, Donald Valadão, personificando
Cabrillo, e numerosa assistência.
Foi orador principal o Cônsul Geral de Espanha, que no seu discurso, teceu a historia
de Cabrillo, assim como as excelente relações entre Portugal e Espanha.
Logo em seguida seguiu o depor de duas coroas de flores em honra de João Rodrigues
Cabrillo, por parte dos representantes do Cabrillo National Monument e pelos
representantes do Cabrillo Civic Club #16 e pelo Portuguese American Social and Civic
Club em San Diego.
Antes de terminar as cerimonias, os oficiais, diretores e amigos de Mary Rosa Giglitto
foram convidados a por uma rosa vermelha na coroa de flores oferecida pelo Cabrillo
National Monument.
Para fechar as cerimónias, foi colocado na mesma coroa, quatro ramos de poejo pelo
representante dos indígenas Kumeyaay, que viviam nas áreas onde chegou Cabrillo
como sinal de amizade entres os povos representados pelas várias nações.
A bênção foi oferecida na língua, Kumeyaay, por Jane Dumas, anciã no na Nação
Kumeyaay.
Apos a cerimonia, as duas coroas de flores foram levadas para o Cabrillo Monument,
para estarem patentes ao público em frente à estátua de João Rodrigues Cabrillo.
Seguiu-se o jantar e serão, Cabrillo Banquet, organizado pelo Cabrillo Civic Club #16
e Portuguese American Social and Civic Club, que serviria para a ocasião solene do
desvelar do busto em bronze em memória de Mary Rosa Giglitto.
Terminado o jantar, seguiram as apresentações pela mestre-de-cerimónias, Dinisa
Valadão que pediu a palavra aos vários representantes dos países que fazem parte da
história de Cabrillo.
Nico Saad lembrou com muita emoção, os seus quarenta anos de trabalhar com a
Mary Rosa Giglitto, desde a fundação do Festival Cabrillo em Ensenada, à sua visita a
Portugal com a Mary, para pedir um busto de Cabrillo que hoje se encontra numa praça
em Ensenada, à sua contínua promoção da história de Cabrillo.
Falaram também, Xavier Rivas, representante do Presidente Municipal de Ensenada
que falou das boas relações entre Ensenada e a comunidade portuguesa em San
Diego.
O Cônsul Geral de Espanha reiterou as boas relações entre Espanha e Portugal,
especialmente nesta altura em que ambos os países enfrentam tempos difíceis.
Tom Workman, descendentes de madeirenses que imigraram para o Havai e
Superintendente do Cabrillo National Monument, ofereceu à Família Giglitto, uma placa
alusiva ao contributo da Mary para com o monumento.
Zé Duarte Garcia, Presidente do Festival Cabrillo de igual modo, ofereceu à Família
Giglitto, em prol do Festival Cabrillo, uma placa que citava o trabalho de Mary Rosa
Giglitto para que o Festival Cabrillo, ficara reconhecido como o primário festival
internacional nos Estados Unidos.
Em representação do Chefe de Estado-maior da Armada Portuguesa, o Capitão Paulo
Sousa Costa, aludiu à ligação da Marinha com o Festival Cabrillo e importância que
esta amizade tem para a Marinha, interlaçando a os feitos de Cabrillo com os da
comunidade.
Finalizando, pediu ao Cônsul Geral, Dr. António Costa Moura que o acompanhasse no
pódio, para atribuir à Miss Cabrillo Festival, Juliette Simões, a oferta de uma bolsa de
estudo no valor de $3,000 em nome da Marinha Portuguesa.
A seguir o Cônsul Geral discursou sobre as boas relações entre os países, a
importância do Festival Cabrillo, e salientou a importância da comunidade participar
ativamente na vida política, não só na Califórnia, como em Portugal. Adicionalmente
aludiu à importância de reconhecer os tempos difíceis que Portugal está a atravessar e
o quanto tão importante é o contributo da comunidade.
Adicionalmente salientou o trabalho feito por vários indivíduos em prol da comunidade,
tendo dado especial enfase à obra desenvolvida por Mary Rosa Giglitto.
Para encerrar a noite, a mestre-de-cerimónias, chamou ao palco José Alves, que com
os Comendadores Capitão Cristiano DaRosa e José Vitorino Silva, tinha coordenado o
projeto da escultura do busto em bronze de Mary Rosa Giglitto.
Este projeto que foi custeado por ofertas de amigos de Mary Rosa Giglitto teve um
contributo muito especial por parte do Governo Regional dos Açores.
A sua conceção teve início logo após o falecimento da homenageada e foi elaborado
pela artista local Kitty Cantrell de Ramona e fundido na Bronze Artworks em Escondido.
Para o desvelar do busto, foram convidado ao palco, os familiares de Mary, Frank
Giglitto, viúvo, filhos Ângela e Frankie, irmãs gémeas, Antoinette e Bernadette, Miss
Cabrillo, Presidente do Festival Cabrillo e os Comendadores Capitão Cristiano DaRosa
e José Vitorino Silva.
A meio do palco encontrava-se o busto, coberto pelas bandeiras, americana e
portuguesa,
Depois de feitas as apresentações, José Alves, agradeceu aos clubes Cabrillo Civic
Club #16 e Portuguese American Social and Civic Club a autorização para que
decorresse a cerimónia durante o Cabrillo Banquet, assim como ao Portuguese
Historical Center por ser a entidade que recebeu e dispersou os fundos para o projeto.
Seguidamente historiou o projeto, e pediu a comparência no palco do Cônsul Geral
em San Francisco, Dr. António Costa Mouta e do Cônsul Honorário em Los Angeles,
Edmundo Macedo, amigo íntimo da Mary e grande impulsionador do projeto que dirigiu
a seguinte mensagem aos presentes:
Good evening,
My unforgettable friend Mary Rosa Giglitto built an outstanding pyramid consisting of
laborious activity, amazing imagination, indomitable courage, sense of humility and
unmatched class.
I do not expect the value of Mary's contribution to society to dissipate like smoke into
the clouds, but to live among us and future generations as a precious example of
what people can do when people are guided by a clear conscience, by tolerance and
fairness.
In her quest for greatness, Mary succeeded.
Plain and simple, "Our Mary" was bigger than life!
Thank you.
A pedido de José Alves, os Cônsules, convidaram a família Giglitto e Rosa a desvelar o
busto em homenagem a Mary Rosa Giglitto.
Com muita emoção Frank, Ângela e Frankie Giglitto, destaparam o busto deixando
cair para diante as bandeiras que exemplificavam o amor de Mary por Portugal e pelos
Estados Unidos.
No Busto a simples legenda:
Mary Rosa Giglitto
“Our Mary”
1938 – 2011
Noite extremamente comovente para todos presentes, a assistência, de pé,
acompanhou com uma grande salva de palmas um momento que se pode dizer único
na comunidade portuguesa de San Diego.
Ficaria assim memorializada Mary Rosa Giglitto, mulher de grandes dons, que deixou
um vacum na comunidade portuguesa, podia dizer-se mesmo na Califórnia, que jamais
poderá ser preenchido.
Frank Giglitto agradeceu em nome das famílias a homenagem prestada à sua
companheira vitalícia.
Em seguida, o Cônsul Geral ofereceu à família Giglitto, uma réplica em resina do busto.
José Alves agradeceu a participação de todos devolveram o serão à mestre-de-
cerimónias, que encerrou o serão com um convite ao baile que seguia.
No dia 2, e na Base de Submarinos em Point Loma, pelas 11 Horas da manhã, o local
abriu ao público.
Patentes estavam várias barracas com manjares das nações representadas, assim
como artesãos e barracas de organizações comunitárias assim como uma área para
crianças.
Para abrir as atividades do dia, a Filarmónica União Portuguesa de San Diego tocou
uma variedade de números.
No coreto em frente ao palco principal, local onde se sentaram as entidades e
convidados de honra, incluindo o Comandante da Base de Submarinos, estava patente
para apreciação pelo público, o busto de Mary Rosa Giglitto.
O entretenimento da tarde principiou com danças por parte de Abel Silvas, membro
dos Kumyeaay com o programa Running Grunion, que reconta a história dos indígenas
destas paragens., seguido com o grupo Soaring Eagles, membros do Nação Lakota,
índios de North Dakota.
Seguia-se a atração principal da tarde, a encenação do desembarque de João
Rodrigues Cabrillo, na Baía de San Diego a 28 de Setembro de 1542.
Acompanhado por uma narração da viagem de Cabrillo por José Alves, que serviu de
mestre-de-cerimónias durante o dia, via-se ao longe a nau San Salvador, que depois
da entrada no “bom e calmo porto de San Miguel (San Diego) prosseguiu até à área
hoje denominada por Balast Point, onde Cabrillo, o Frei Franciscano e dois soldados,
remaram até chegar a terra no pequeno barco denominado por “chalupa”, onde depois
de desembarcar, declaravam a sua descoberta para o Rei Carlo I de Espanha.
Uma assistência de uns milhares de pessoas assistiu ao desembarque, com emoção e
que depois tiveram ocasião de falar e ser fotografados com Cabrillo e sua companha.
A seguir houve a apresentação das bandeiras em que foram portadores membros da
marinha americana acompanhada pelos hinos do Espanha, Portugal, México e Estados
Unidos.
O Presidente do Festival Cabrillo 2011, Zé Duarte Garcia apresentou as entidades
presentes que de perto e de longe vieram para participar no festival e agradeceu à
assistência pela sua presença, com votos de que estivessem a gozar a linda tarde e a
experiencia da história da viagem de Cabrillo.
De novo, no palco voltaram as atuações, principiando com o grupo folclórico,
Portuguese American Dancers de San Diego, fundado em 1955 pela madeirense, Mary
Moniz, e hoje sob a direção de antigos participantes no grupo.
Sempre uma apresentação muito emocionante, este ano teve especial significado, pois
pela primeira vez atuou no grupo uma sobrinha-neta de Mary Rosa Giglitto.
Apos esta apresentação seguiu o grupo Hispanic Mexican Ballet Folklórico, que
agraciou a assistência com vários bailas coloridos.
Para terminar as atuações da tarde, exibiu-se o grupo espanhol Olé Flamenco muito
apreciado pelos presentes.
O Festival Cabrillo 2011 foi o quadragésimo oitavo. Celebrado em memória de
Mary Rosa Giglitto, apesar de ter decorrido com o brilhantismo a que o público está
acostumado, não foi difícil sentir a ausência da sua maior impulsionadora e alma, a
Presidente Emérita, Mary Rosa Giglitto.
José Maurício Lomelino Alves
Vista, Califórnia
5 De Outubro de 2011
Inclusões: fotos
1. Busto MRG
2. Foto Cônsul Geral, Cônsul Honorário, Representante do CEMA
3. Grupo Portuguese American Dancers
4. Cabrillo, Frei e soldados

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

LEONOR XAVIER sobre BENVINDA MARIA

Benvinda Maria ou Memória Viva no Rio

Para nós, os que alguma vez fomos portugueses no Brasil, Portugal é a patriamada. A distância é sofrimento, a possível viagem de férias é uma alegria, o regresso é um sonho. E as notícias são o fermento que dá sentido a tudo o mais, na realidade imensa do Novo Mundo.

Penso na Benvinda Maria, que neste contexto e além de todas as adversidades, por mérito alcançou estatuto de liderança na comunidade portuguesa do Rio de Janeiro. Conheci-a nos primeiros meses de 1981, quando comecei a trabalhar na redação de O Mundo Português, chefiada pelo meu querido Rocha Mendes, um dos históricos jornalistas portugueses, a quem devo a tarimba do ofício, o aprendizado de tudo ou quase tudo o que sei da profissão. O Rochinha, assim chamado, tinha tido estreia no jornal Correio Português em 1941, numa época em que a imprensa portuguesa, com vários títulos, ainda era referência de informação no Brasil.

Quarenta anos mais tarde, e ao longo dos anos 80, O Mundo Português, a Voz de Portugal e o Portugal em Foco eram os três semanários que entre si disputavam lugar de destaque nas bancas da cidade. Quando assim me iniciei no jornalismo, O Mundo Português, do qual Benvinda Maria tinha sido dona e diretora, pertencia ao grupo Espírito Santo e a António Champalimaud, tinha Luis Oliveira Dias como diretor. Na Voz de Portugal, o jornalista maior era o veterano José Maria Rodrigues. No Portugal em Foco, o jornal mais recente, a fundadora, proprietária e diretora era a Benvinda Maria.

Imponente no porte, conheci-a cheia de vivacidade na fala, exuberante nos modos, ocupando espaço. Sempre em primeiro plano nos acontecimentos, nas datas patrióticas, nas homenagens e celebrações, nos casamentos e batizados, nos festejos dos clubes e casas regionais, a Benvinda Maria não deixava nunca de se manifestar, sempre exprimindo as posições mais conservadoras nos temas da atualidade, de acordo com o pensamento da ala mais tradicional da comunidade portuguesa no Rio de Janeiro. Lembro-me de como era forte e impressiva a sensação de assistir às apresentações do Grupo de Folclore que ela criou, muitas vezes trouxe em digressão a Portugal, e algumas vezes eu acompanhei no Rio. A riqueza dos trajes, a variedade nos adereços, e além de tudo, a originalidade do folclore cantado e dançado por gente nova, pronúncia luso-brasileira, tons de pele diversos, a demonstrar a mistura de sangue, branco, negro e índio que faz a graça e a fertilidade do Brasil.

Admiro a capacidade de Benvinda Maria para exercer a sua influência na captação de apoios, de subsídios, de poderes para concretizar os seus projetos, sempre por amor à presença de Portugal no Brasil. Num ambiente machista, adverso a novidades, em que as mulheres não eram aceites sem um longo e duro período de análise e provação, é notável o percurso de Benvinda Maria. In memoriam a evoco, e a guardo na minha galeria de personagens, onde se alinham aqueles homens e mulheres que em algum momento foram importantes na minha vida. Como se fosse hoje, relembro a voz e o riso com que, algum tempo depois de nos conhecermos, a Benvinda me puxou de lado e quase em segredo me disse “você é a jornalista, eu a jornaleira.” Curta e forte frase de estímulo, que foi abrindo caminho no fio destas minhas andanças de escrever em jornal, até hoje.

Leonor Xavier

25 de Outubro de 2012