terça-feira, 15 de maio de 2012

SEMINÁRIO SOBRE MARIA ARCHER Mensagem de Cristina Archer


“Foi com enorme surpresa que descobri a obra da minha tia-avó Maria Archer, na homenagem que lhe foi
prestada no dia 29 de Março de 2012 no Teatro Nacional da Trindade.

Surpresa e alegria, por descobrir que foi pioneira a combater "o conceito arcaico da inferioridade mental da
mulher" (nas suas próprias palavras).

Luta com a qual não posso deixar de me identificar, como mulher, na procura de uma sociedade mais
solidária e mais justa, onde todos os seres humanos sejam livres e iguais em dignidade e direitos.

Surpresa e tristeza, por descobrir o afastamento da família, pelos preconceitos de que foi alvo por ter
quebrado as tradições, por não ter chegado a conhecê-la.

É com entusiasmo que inicio um caminho de descoberta, através da leitura dos seus livros!”

Cristina Archer , sobrinha-neta de Maria Archer, 13-05-2012

sexta-feira, 11 de maio de 2012

SAUDADES DE MARIA ARCHER Maria Manuela Aguiar



Poderão  perguntar porque se envolveu a Assoc MM na evocação de Maria Archer, em sucessivas iniciativas -  no Encontro Mundial da Mulheres Portuguesas da Diáspora, em Novembro de 2011, na comemoração do Dia Internacional da Mulher, 2012, na cidade de Espinho e, agora, em Lisboa, nesta sessão que nos reúne no Teatro Nacional da Trindade.
Responderemos que razões não nos faltam para  justificar o empenhamento cívico e o sentido ético com que o fazemos. Uma primeira razão tem evidentemente a ver com o facto de Maria Archer ter sido uma Portuguesa expatriada. Uma grande Portuguesa da Diáspora, que, desde a sua juventude, passou largos anos em cinco países da lusofonia, e em 3 continentes,  olhando sempre em volta, com uma inteira compreensão das pessoas, dos ambientes, dos meios sociais, que  soube traduzir em dezenas de escritos de incomensurável valor literário e, também, de muito interesse etnológico, sociológico e político.... Seria motivo bastante para nos lançarmos na aventura de partir à procura desse legado multifacetado e vasto, que guarda  experiências e segredos de tanta gente
 e de tantas terras.  Mas há mais...

Maria Archer é uma daquelas figuras do passado, que é intemporal, por saber captar as constantes da natureza humana, ou por se constituir na memória crítica de um tempo português, que foi opressivo e cinzento, pautado por estreitos conceitos e por regras de jogo social e político, que  inteligentemente desvenda e que põe em causa,  sem contemplações.
 Ninguém como ela retrata a vida quotidiana desse Portugal estagnado e anacrónico, avesso a qualquer forma de progresso e de modernidade,  em que os mais fracos, os mais pobres não têm um horizonte de esperança, e as mulheres,  em particular, são  dominadas pela força das leis, pelo cerco das mentalidades, pela censura dos costumes, depois de terem sido deformadas pela educação. Tendo por pano de fundo os estereótipos impostos para o relacionamento de sexos, a entronização rígida dos papéis de género dentro da famílias e as consequentes desigualdades, distâncias e preconceitos sociais, num doloroso e longo impasse da nossa história colectiva, .Maria Archer vai dar presença às portuguesas suas contemporâneas, tal como elas foram, com um realismo, que é, sem dúvida e quer ser, uma busca e uma evidência da verdade - doa a quem doer e  para que se saiba... então e no futuro.

 Na melhor tradição nacional, Maria Archer, a mais feminista das escritoras portuguesas, é uma "feminista muito feminina", que ousou ser um ícone de beleza e de distinção e  ter  uma carreira  no jornalismo e  nas Letras , em simultâneo,  fazendo combate pela dignidade  e pela  afirmação das capacidades intelectuais e profissionais negadas à mulher..
 Ousou fazer um nome no mundo fundamentalmente másculo da cultura portuguesa.  Ousou ser Maria Archer, sem pseudónimos...

Na verdade, por tudo isto, julgo que podemos dizer que ela é mais do nosso tempo do que do seu tempo - aliás, uma afirmação que se deve generalizar às mais notáveis feministas do princípio do século XX, que dão rosto à exposição da Câmara Municipal de Espinho, há pouco, inaugurada aqui, nas salas e corredores do Teatro da Trindade.
Maria era, então, demasiado jovem para poder participar nos movimentos revolucionários  em que estiveram a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas ou o Conselho Nacional Das Mulheres Portuguesas, mas iria ser uma das poucas  que, no período de declínio desses movimentos e de desaparecimento de uma geração incomparável,
continuou, a seu modo, solitariamente, uma luta incessante contra o obscurantismo,que condenava a metade feminina de Portugal à subserviência, à incultura, ao enclausuramento doméstico.

 Maria Archer foi uma inconformista,  consciente das discriminações e das injustiças, em geral, e, em particular das  que condicionavam o sexo feminino, numa sociedade  retrógrada e, como se diria em linguagem actual, "fundamentalista", em que o regime  impôs a regressão às doutrinas e práticas de um patriarcalismo ancestral.
A escrita, servida pelos dons de inteligência, de observação e de expressividade  foi  para Maria Archer uma arma de combate  político. Como dizia Artur Portela, "a sua pena parece por vezes uma metralhadora de fogo rasante". 
É um combate em que a sua vida e a sua arte  se fundem - norteadas por um ostensivo  propósito de valorização dos valores femininos, de libertação da mulher e, com ela, da sociedade como um todo.
Ela é já uma Mulher livre num país ainda sem liberdade - coragem que lhe custou o preço de um  tão longo exílio ...

 Maria Archer é uma grande escritora (ou um grande escritor, como alguns preferem precisar, alargando o campo das comparações possíveis). E pode ser lida apenas como tal. Mas permite -nos também diversas outras leituras.
 Uma leitura sociológica, antropológica, política...
 Ninguém. como ela , escrutinou e caracterizou o pequeno mundo da sociedade portuguesa da 1ª metade do século XX, das famílias, pobres ou ricas, decadentes ou ascendentes, aristocratas, burguesas, "povo" - todos  imersos na nebulosa de preconceitos de género e de classe, de vaidades, de ambições, de prepotências e temores...
"Aurea mediocritas", brandos costumes implacáveis... o mundo de contradições   de um Estado velho, que se chamava Estado Novo.
 Ou uma leitura feminista... Ninguém como ela conseguiu corroer essa imagem da "fada do lar", meticulosamente construída sobre a ideia falsa da harmonia de desiguais (em que, noutro plano, se baseava a ideologia corporativa do regime), da falsa brandura do autoritarismo e da subjugação no círculo pequeno da família como no mais alargado, o  do País. Maria Archer é uma retratista magistral da mulher e da sua circunstância... O rigor da narrativa, a densidade das personagens, a qualidade literária, só podiam agravar, aos olhos do regime, a força subversiva da  denúncia. Na crueza da palavra. Na nitidez do traço... 
O regime não gostou desses retratos femininos, como não gostava da Autora. Primeiro, tentou desqualificá-la, desvaloriza-la . Sintomática a opinião de um homem do regime, Franco Nogueira, que em contra-corrente , num texto com laivos misóginos,  a apresenta como apenas uma mulher a falar de coisa ligeiras e desinteressantes, (como o destino das mulheres....). Sintomático também que a crítica seja divulgada pela própria editora da romancista. a par de tantas outras, todas de sentido contrário.
Não tendo conseguido os seus intentos, o Poder passou à acção: os seus livros foram  apreendidos,  os jornais onde trabalhava ameaçados de encerramento... Maria Archer viu-se forçada a partir para o Brasil - uma última e infindável aventura de expatriação, de onde só viria, envelhecida e fragilizada, para morrer em Lisboa.

Mas o desterro não era pena bastante! Teresa Horta, no prefácio da reedição de "Ela era apenas mulher"
afirma que Maria Archer foi deliberadamente apagada da História. Sim, o ser emigrante é já factor comum de esquecimento, como que  natural, na memória da Pátria, mas este caso foi um caso mais grave, e doloso...
Uma outra razão  para intervirmos, pois ainda é tempo de vencermos  o  acto persecutório, implacavelmente executado há décadas, para restituirmos à vida e obra de Maria Archer o lugar que lhes é devido no mundo vivo da
 cultura portuguesa...
E se é certo que revisitar a Mulher de Letras, através dos seus escritos, tem, da nossa parte,  esse objectivo proclamado de desvendar o passado, de lançar luz sobre a realidade insuficientemente analisada e realçada da sociedade portuguesa de 40 e 50,  é também um momento mágico de reencontrar a própria Maria Archer,  bem viva em páginas fulgurantes de tantos dos seus livros, artigos, crónicas - sobretudo quando fala na primeira pessoa do singular. Pela elegância do seu estilo, torna-se, afinal, sempre um prazer acompanhá -la nas incursões ao universo bafiento e confinado que se confrontaram e conviveram as portuguesas e os portugueses durante meio século - e em que as personagens femininas raras vezes cumprem as suas  capacidades e os seus sonhos (mesmo que modestos), e os enredos quase nunca têm um fim feliz  - ou justo...

Elegância é uma palavra que quadra com Maria Archer, que a caracteriza na maneira como pensou, como escreveu, como se vestiu e apresentou em sociedade, como atravessou uma rua de Lisboa ou de São Paulo, como atravessou uma vida inteira, até ao fim...
Até ao fim, não! Estamos aqui justamente reunidos pelo projecto de lhe assegurar uma segunda vida, no sentido em que  Pascoaes dizia: "Existir não é pensar, é ser lembrado".
Este não é o primeiro nem será o nosso último encontro sobre ela, a sua personalidade, o seu exílio, o seu retorno... Talvez um próximo encontro aconteça em São Paulo... sobre a obra ou a pessoa  - qual delas a mais interessante?
A pessoa é certamente tão fascinante como a mensagem da escritora. E ainda mais desconhecida.
Mas só assim continuará se não quisermos conhecê-la, porque ela está lá, eternamente jovem e vibrante, em muitas das páginas que nos deixou, para poderemos ler e reler.
Dizia a   Mariana desse esplêndido romance que é  o "Bato às portas da vida": "Ando na saudade de mim, mesmo perdida no tempo"
E nós queremos, afinal, andar na saudade de Maria Archer, reencontrada no nosso tempo, que esperamos seja o do  início do  correr interminável do seu tempo futuro..

SEMINÁRIO SOBRE MARIA ARCHER - INTERVENÇÃO DE RISOLETA PINTO PEDRO


VIDA E OBRA DE MARIA ARCHER, UMA PORTUGUESA DA DIÁSPORA
29 DE MARÇO DE 2012
A propósito de Maria Archer
Viagens, diásporas e exílios
Ser escritora hoje
Sendo esta iniciativa uma parceria de várias entidades, entre as quais a associação “Mulher Migrante”, acho muito curioso este convite que me foi endereçado, eu que sou uma imigrante de mim em mim mesma. É também interessante o nome desta associação, porque contém em si os dois movimentos: para dentro e para fora, sendo que é sempre muto difícil saber, ao certo, o que é dentro, o que é fora. É muitas vezes quando saímos que encontramos o dentro; e vice-versa.
Disseram-me, há relativamente pouco tempo, para meu espanto: “Para quem gosta tanto de viajar, viajas muito pouco”. O espanto veio-me de nunca ter partilhado, com quem me falava, o meu amor pela viagem, penso até que nem comigo partilhara este secreto gosto, mas também me veio o espanto da declaração de que eu viajo muito pouco. Porque é verdade. Porque não é verdade. Porque nunca pensei nisto nem como um facto nem como uma limitação. Estou como Garrett, no início das Viagens na minha Terra:
“Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo —entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal. Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. “

No entanto, apesar de mais de meio século de diferença, tenho em comum com Maria Archer o facto de ambas termos iniciado a diáspora na infância. As minhas viagens tiveram início logo ao nascer, andei em diáspora fora de mim cá dentro, a viagem dela iniciou-se mais tarde, depois dos 10 anos, creio, mas foi geograficamente muito mais ampla, começou em África e mais tarde ampliou-se ao Brasil. Mantendo a unidade da língua com que pensou, sentiu, viveu e escreveu.

Intitulei esta reflexão como “… e hoje?”, mas também poderia chamar-lhe “os exílios”, sendo que este conceito é tão escorregadio como o de diáspora. Porque me parece que o verdadeiro exílio de Maria Archer aconteceu quando voltou para Portugal terminando seus dias num asilo. O asilo foi o exílio. No entanto, não sabemos que viagens esse asilo exílio não terá proporcionado dentro dela, quantos livros para sempre absolutamente inéditos não terá escrito, quantas novas paisagens não terá visitado antes de partir, finalmente, para a que me parece a maior das diásporas, mas não dos exílios.
Gostaria de conseguir fazer aqui em poucas palavras o que me foi sugerido: a ponte entre duas épocas, o início do século XX e o início do século XXI, quase um século depois, que diásporas, que exílios? Somos, aparentemente, de diferentes tempos, no entanto ainda respirámos o mesmo ar do planeta. Pouco depois de eu nascer ela parte para o Brasil e espanta-me que ninguém me tenha dito nada. Se uma fada me tivesse segredado ao ouvido, ainda no berço: “partiu para o Brasil Maria Archer”, que música teria permanecido em mim deste sopro misterioso, que alteração de rota poderia ter sofrido a minha vida? Que outras viagens? Mas pensando bem… não terá a fada segredado algo assim? De onde me teria vindo desde muito pequena a saudade do Brasil onde, aparentemente, nunca estive? Pergunto-me então: Que outra rota teria sido a minha se a fada não me tivesse segredado este segredo? Estaria hoje aqui?
Em 77, já doente, Maria  Archer é internada em S. Paulo e nasce o meu primeiro filho. Em 82 parte para a grande viagem, um dia depois de nascer o meu segundo filho. Ela já não estava cá quando do nascimento da minha terceira filha nem da partida do primeiro. Por essa altura eu andava ainda entretida a ter e a perder filhos. Ela tinha escrito muitos livros e inúmeros artigos.
À escrita dela, João Gaspar Simões atribuiu as características de “força e solidez”, o que poderia ser, se quiséssemos, o estereótipo da escrita de um homem. Mas não é. Acredito numa escrita masculina e numa escrita feminina, mas não acredito numa escrita de homens e numa escrita de mulheres. Tenho visto homens a escrever com tal sensibilidade, que nunca mais poderei garantir, perante uma página anónima, se foi escrita por um homem, se por uma mulher. Por sua vez, Maria Archer parte, muitas vezes, da temática feminina mas fá-lo ultrapassando todos os limites, de forma crítica e política. Com força e solidez. O que não implica ausência de sensibilidade e vulnerabilidade. Ampliou o universo das mulheres, da limitação que então era ainda, ser mulher, fez rampa de lançamento para uma ampla visão social e universal.
E hoje? O que é ser escritora hoje, depois de ter sobrevivido a tantas invisíveis diásporas? Escrevo livros como se pintasse quadros ou como se cozinhasse requintados pratos, ou como se dançasse com o Universo. Ser escritora hoje, é dizer: Estou viva, amo o Sol, sou visitada pela Lua e sou Terra.
A preocupação de Maria Archer com o feminino mantém-se hoje em nós. Com a diferença de que agora temos a consciência mais clara de que o feminino não são apenas as mulheres. O feminino é tudo o que é acolhedor e vulnerável no Universo. São as mulheres, as crianças, todos os seres frágeis e desprotegidos, os próprios homens na confusa busca acerca do seu novo papel no Universo e a natureza. O feminino é, afinal, a Terra, este planeta útero tão maltratado. Da compreensão da importância do feminino depende a nossa sobrevivência. Já não se trata de defender direitos de uma parte. Trata-se de sobrevivermos todos. Enquanto a Terra, essa primeira mulher, for violada, os bebés continuarão a nascer com dor e as mulheres sentirão as dores do planeta. Porque tudo é o mesmo. E não há política mais ou menos rasca que nos salve. No entanto, há sinais de esperança. O planeta começa a ser olhado como Mãe, o nascimento dos bebés a ser compreendido como o momento mais determinante para a vida de um ser, e talvez um dia, quando todos os seres secundarizados como as mulheres, as crianças, os animais, uma parte significativa dos homens e a natureza em geral, viverem com a dignidade que lhes cabe, talvez então os humanos possam realmente sê-lo e encontrar o seu V Império, ou o Espírito Santo, ou a  Graça, e ser felizes. Maria Archer deu o seu contributo, de acordo com a sua época, mais à frente do que a sua época. As escritoras hoje estão, creio, sinto-o nas minhas diásporas fora e dentro de mim, atentas ao tratamento dado a esta grande fêmea que é a Terra. Elas também em diáspora mais à frente que a sua época, para evitar a ameaça do grande de exílio, para que possa haver a próxima época e ainda muitas viagens e, porque não?, muitas diásporas.
Ser escritora hoje é migrar para além da Mulher, é abraçar todos os seres, acolher a Terra e todos os homens. Continua a ser, como para Maria Archer, passar para além dos limites, das fronteiras, das paredes, dos muros, das marcas, de todos os marcos e limitações e reaprender o que só a ilusão nos fez acreditar que deixáramos de ser: Inocentes e Unos. Todos. Sem exceção.

Risoleta C. Pinto Pedro
http://aluzdascasas.blogspot.pt

terça-feira, 8 de maio de 2012

Academias do Bacalhau - Encontro em PUTEAUX

Fui, desde a primeira hora, uma incondicional admiradora das Academias
de Bacalhau. Ou seja, desde a tomada de conhecimento do modelo
associativo que representam e do primeiro contacto com  os Fundadores
da Academia "mãe de todas as outras", que é a de Joanesburgo. Foi o
próprio Dr Durval Marques quem me explicou o modo de funcionamento, os
grandes objectivos e as grandes realizações que, já então, numa fase
ainda inicial, levavam a cabo os auto denominados "Compadres".
Estava, sem sombra de dúvida, perante um desenvolvimento absolutamente
original e extraordinário do movimento associativo português na
Diáspora. A ideia era genial: partir do convívio de amigos, festivo e
informal, enquadrado, porém, em rituais inspirados em divertidas
"praxes" de inspiração académica, para recolher fundos que permitissem
responder a projectos culturais e a necessidades e problemas sociais
sentidos na comunidade. Mas, claro, não bastava a "ideia" - para lhe
dar vida eram necessários os "idealistas". Ora, felizmente, desde o
momento da criação da primeira Academia até aos nossos dias, foi o que
nunca faltou!
As Academias não precisam ,para funcionar, de sedes de pedra e cal -
elas estão onde está a sua gente, actuante e dinâmica, pronta a reunir
em encontros que podem acontecer em qualquer lugar  - à imagem do
próprio País, que é mais a sua Cultura, a coesão de um projecto
nacional, o seu Povo, a sua Diáspora, do que o seu pequeno
território...
Achando o esquema perfeito, não podia, porém, nessa época, adivinhar o
crescimento e a dimensão universal que este paradigma associativo
assumiria no futuro. Uma feliz evolução, que se iniciou, de uma forma
espontânea e natural, quando emigrantes regressados da África do Sul
trouxeram consigo a boa tradição convivial e benemerente das
Academias, que logo se espalharam pelo País. E, nesse "élan", não
pararam nas nossas fronteiras geográficas, depressa chegaram às
comunidades da Diáspora. E aqui assumiram um papel singular e
verdadeiramente único no domínio do movimento associativo português,
que é forte por todo o lado, grandioso, mesmo, em vários países e
continentes, mas ao qual faltava, o que existe nos outros países
europeus de emigração: a vertente de diálogo e de ligação
internacional entre comunidades dispersas no mundo inteiro.
Hoje, os Congressos das Academias do Bacalhau são verdadeiros
congressos universais de Portugalidade, de afirmação da cultura e da
solidariedade.
Que fantástica história de sucesso!
E como mostra virtualidades de responder aos desafios dos novos
tempos, em França, na Europa e em outros continentes, agora que emerge
uma emigração portuguesa tão diferente da que marcou o século XX!  Uma
emigração inesperada (pelo menos para alguns, para os mais desatentos)
nas características, no volume, na forma de de relacionar com a
sociedade de destino e com a terra de origem.
O associativismo tradicional tem o seu lugar, com um património
histórico e uma capacidade demonstrada de estruturação da vivência
colectiva de muitos, mas novas fórmulas são essenciais para trazer
outros, também muitos e cada vez mais, para a vida comunitária. A
Academia da Bacalhau de Paris está numa verdadeira "linha da frente"
para atrair e congregar uma nova geração de mulheres e homens, capazes
de grandes empreendimentos pessoais e, também, colectivos, se tiverem
ao dispor os instrumentos adequados.
Foram momentos inesquecíveis, os que passei, com os Compadres e
Comadres da Academia de Paris numa dessas belas Associações, que chamo
"tradicionais", em Puteaux, e espero que encontros nas "casas
portuguesas" da Diáspora possam, assim, prosseguir - em boa harmonia e
cooperação.
Agradeço essa oportunidade de convívio inesquecível, e também, a de
lhes poder dar a minha visão pessoal da importância de todas as
"Academias" e da de Paris em particular.
Celebrar alegria de viver, num círculo de amigos, e fazer beneficência
e progresso no círculo alargado dos que de nós precisam, é um belo
projecto, que convosco partilho.


MARIA MANUELA AGUIAR

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A ATRIBUIÇÃO DO NOME DE MARIA LAMAS A UMA ESCOLA DO PORTO

Fina d’Armada Quando eclodiu a revolução dos cravos, em 1974, a gente quis voar como pássaros a quem libertam da gaiola. Tínhamos fome de mudança. Eu trabalhava como professora numa escola feminina do Porto que não tinha edifício nem nome. Era uma secção da escola preparatória Gomes Teixeira, com sede na Praça da Galiza, mas funcionava no edifício da escola “secundária” Clara de Resende, em frente ao estádio do Bessa. Com a revolução e a vontade de construir um mundo novo, os diretores das escolas foram substituídos por comissões de gestão eleitas. Ora, eu fui uma das eleitas. E um dos nossos objetivos foi lutarmos por uma escola independente. Para isso, precisávamos de arranjar um patrono. Como a escola era feminina, propuseram-se nomes de mulheres. Surgiram dois fortes – Guilhermina Suggia, uma violoncelista de renome mundial, e Maria Lamas, talvez sugerida por mim. A primeira estava dentro dos parâmetros da lei – era do Porto e falecida. A segunda não se enquadrava. Era de Torres Novas e ainda viva. Contudo, Maria Lamas tinha estado exilada em França e chegou com a revolução tal como Álvaro Cunhal e Mário Soares. Ao tempo, se Mário Soares era o pai da Democracia, Maria Lamas era vista como a mãe dessa era nova. Em reunião de assembleia de escola, ganhou Maria Lamas. E como era o tempo de “o povo é quem mais ordena”… A comissão de gestão travou uma luta árdua. Recordo que fomos duas vezes a Lisboa, à Direcção do Ensino Básico. Acho que o diretor era Rogério Fernandes. E fomos também várias vezes (eu recordo ter ido só uma vez, mas outros membros da comissão, éramos cinco, foram mais vezes) falar com o presidente da Câmara do Porto, que era o famoso Carlos Cal Brandão. A criação da escola preparatória Maria Lamas veio no “Diário de Governo”, a 1 de Abril de 1975. Eu escrevi um artigo no “Jornal de Notícias”, noticiando a nova escola com uma breve biografia de Maria Lamas, em 11 de Outubro de 1975. E foi a nossa insistência, as nossas idas a Lisboa, a revolução que tudo alterava, com a ajuda do presidente da Câmara do Porto e o diretor do Ensino Básico, que conseguimos atribuir a uma escola um nome “fora da lei”. Maria Lamas soube desde o início dessa homenagem, nós telefonámos-lhe. A título de curiosidade, o nome “Maria Lamas” foi atribuído, pelo menos, a 16 ruas do País.

terça-feira, 1 de maio de 2012

OLGA ARCHER MOREIRA - VIDA E OBRA DE MARIA ARCHER Uma Mulher da Diáspora 29 de Março de 2015 - Teatro Nacional da Trindade e

OLGA ARCHER MOREIRA

 Senhor Professor Fernando Pádua, Senhora Dra. Rita Gomes, Minhas Senhoras e Meus Senhores,

 Boa tarde
Apresento, por uma questão de justiça, alguns agradecimentos. Registo os agradecimentos institucionais ao Museu Ferreira de Castro e à Fundação António Quadros e, pessoais, ao Professor Doutor Carlos Mendes Sousa, à Professora Doutora Clara Rocha, filha do escritor Miguel Torga, ao Dr. Pacheco Pereira e à Dra. Teresa Martins por me iluminarem os mil rostos de Maria Archer. E, por fim, apresento os agradecimentos à «Associação Mulher Migrante» na pessoa da Sra. Dra. Manuela Aguiar, pelas homenagens a Maria Archer já realizadas na Maia e em Espinho e, claro está, por esta, que hoje, está a ser prestada.
 Foi com muito prazer que aceitei vir falar sobre a minha tia-avó. Não podia vir falar-vos da saudade que a minha idade e a diáspora não deixaram nascer. Mas a honra, sim, sinto-a e está presente. Nas matizadas pesquisas que fiz sobre a minha tia-avó, encontrei, com mágoa, a referência a que tinha morrido no esquecimento. Ainda hoje, vários estudiosos me mencionam esse facto indelével.
As suas obras de inegável valor foram olvidadas e, pairou sobre a sua pessoa e os seus testemunhos, o silêncio. Morreu no esquecimento, mas não foi nem será esquecida. Mas é verdade. Uma mulher da dimensão de Maria Archer não podia ter morrido, oito anos depois do 25 de Abril. Merecia que um país já em plena democracia lhe manifestasse um maior reconhecimento.
Apraz-me relembrar uma frase que Maria Archer proferiu em relação à polémica que o seu livro “Ela é apenas Mulher” suscitou: “Confio na justiça do Tempo”.
 Abrem-se os portões e encontramos uma mulher da diáspora que ousou afrontar os “costumes” organizados de então. Mulher de acção pela palavra, pela escrita. Escritora, jornalista, conferencista, tradutora. Mulher autodidacta terminou apenas, oficialmente, a 4.ª classe, mas é senhora de uma cultura exuberante. Mulher viajada. Rasgou horizontes. Gilberto Freyre lavrou na Introdução do livro Herança Lusíada: “pouco falta às páginas da talentosa escritora portuguesa para serem ensaio de luso-tropicalismo de todo consciente da unidade na diversidade que parece dar à simbiose luso-trópico definido carácter de área susceptível de ser considerada e estudada sociologicamente…. Para tais estudos o livro da Sra. Maria Archer representa decerto valiosa contribuição.” Os seus livros são fruto da ousadia e da coragem que a caracterizam. Estão frequentemente ligados a problemas sociais e às questões da condição feminina. E, como recompensa, sofreu o isolamento e a discriminação da sociedade da época.
 Relembremos o que escreveu Maria Archer, em Parques Infantis, nos idos anos de 1943 “…Não é demais pôr em relevo a figura da criadora dos Parques Infantis, a grande poetisa Fernanda de Castro, que concebeu uma obra social limada de asperezas, que soube amparar as crianças com a mesma alma em flôr com que escreveu os seus versos.” Em 1944 é lançado o seu romance Ela é Apenas Mulher que, segundo Maria Teresa Horta afirma no prefácio à reedição de 2001, “Na altura em que surgiu, foi uma autêntica pedrada no charco. Escrevendo, afinal, aquele que hoje é um dos melhores retratos da situação das mulheres portuguesas da primeira metade do século XX. Sinto-me tentada a dizer: o único retrato autêntico, de corpo inteiro.”
Como afirmou Maria Archer em Revisão e Conceitos Antiquados de 1952:“A minha obra literária tem sido norteada pelo princípio vital de rebater o conceito arcaico da inferioridade mental da mulher.”
A leitura das suas obras convida ao fascínio da descoberta. Os seus livros sobre África são pontes para a reflexão mágica, para a beleza. A densidade da escrita enleia-nos tal floresta tropical. A sua escrita é o lugar dos contrários, é a conjugação da água e do fogo, a simbiose da terra e do mar. Hoje, aqui, em Lisboa, homenageamo-la pelas suas manifestações de cidadania, pela obra que nos deixou. Trinta anos após a sua morte. Mas nunca é tarde. Como diz o Prof. Eduardo Lourenço “um tempo é todos os tempos. Não antecipa só o futuro. Recicla todos os passados”.
 Maria Archer, de seu nome Maria Emília Archer Eyrolles Baltazar Moreira, nasce em Janeiro de 1899. Nos anos seguintes nascem os cinco irmãos, João, meu avô, Natália, Irene, Isabel e Eugénia. Em 1910, com 11 anos, parte com os pais e com 4 irmãos para a ilha de Moçambique, onde vive, até 1913. Maravilha-se com a paisagem que diariamente lhe inunda o imaginário e apelida-a de “ilha de coral branco”. Assim tiveram início as suas Idas e Voltas até ao continente africano. Em 1914, regressa a Portugal. A nova incursão por terras de África ocorre em 1916 acompanhando os pais, o irmão João, um ano mais novo, e a irmã Isabel. Desta vez ruma até à Guiné, “a verdadeira África maravilhosa”. Aqui vive durante dois anos. Em 1921, encontra-se em Faro e em 29 de Agosto desse ano casa civilmente com Alberto Teixeira Passos que tinha conhecido na ilha de Moçambique alguns anos antes e, religiosamente, em 31 do mesmo mês, em Almodôvar. Os primeiros cinco anos de vida do jovem casal são vividos em Ibo-Moçambique. Em 1926 regressam a Faro, indo depois para Vila Real de Trás-os-Montes, donde era procedente a família de Alberto Passos. O seu matrimónio dura 10 anos. Em 1932, já oficialmente separada, navega até Angola para viver com os pais.
 É em Angola, em 1935, que é editado o seu primeiro livro. Um livro de novelas e de contos intitulado, Três Mulheres, em parceria com Pinto Quartim.
 Ainda no curso do ano de 1935, já em Portugal, publica o romance África Selvagem – a sua estreia na literatura colonial portuguesa. Aqui vive, empenhada e militantemente, do seu trabalho de escrita para jornais e revistas, dos direitos de autor dos livros que publica e que, amiúde, tanta polémica provocam pela incomodidade ao pensamento dominante. Após regressar de Luanda, Maria Archer participa em várias conferências e palestras sobre o ultramar, na Sociedade de Geografia de Lisboa, aos microfones da Emissora Nacional, em liceus da capital, nomeadamente no Liceu Pedro Nunes, e em estabelecimentos militares. Aventura-se também na literatura para crianças com o livro Viagem à Roda de África, tendo ganho o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, em 1938.
Os muitos anos vividos em África influenciam a sua escrita. A sua sensibilidade foi tocada pela paisagem primitiva dos trópicos e pela cor das terras do sol. Olhou para a natureza que a rodeava e pintou-a, feericamente, através da escrita. A árvore da escrita perpetuou-se na pujante criação enquanto o tronco se contorceu tentando alcançar o sol, a luz.
 A convivência de Maria Archer com os irmãos foi intermitente. A vida familiar decorria ora em Portugal, ora em África. Ainda assim, os laços de sangue são mais fortes. Esta união afectiva é retratada, por exemplo, no conto Eu vi o pelicano abrir o peito, de 1944 ou, no texto que escreveu para o catálogo da exposição da pintora Isabel Areosa, sua irmã, em 1945, ou ainda, na carta que endereçou à sua advogada em 1972 onde indicava ter enviado fotografias antigas para o sobrinho Luís Filipe o qual nunca recebeu a mencionada correspondência.
Viveu a revolta de ver alguns dos seus livros apreendidos. Como afirmou Maria Teresa Horta: “Tudo o que Maria Archer dizia, era proibido.” Tendo Miguel Torga conhecido a mesma situação – o coarctar da liberdade de pensamento através da apreensão das obras - relembremos uma carta de Fevereiro de 1940 endereçada ao escritor aquando a apreensão do seu livro “Quarto Dia”: “V. decerto ignora que eu tive, faz agora um ano, um dos meus livros apreendido. Calculo que o ignore, como deve ignorar a minha existência e de livros meus. Digo-lho para que compreenda o motivo por que muito desejo ler o seu livro apreendido, motivo que agrava o interesse que a sua arte me desperta, sempre e sempre.” Seis dias após o envio desta carta outra será remetida a Torga, após a leitura do livro solicitado “Gostei muito do “Quarto Dia”, onde encontro o mesmo vigor que V. derramou nos anteriores, nesse ciclo fulgurante da “Criação do Mundo”. Confesso, porém, que “Os dois primeiros dias” me deram um deslumbramento maior. Deslumbramento é assim mesmo. Graças por me ter confiado o seu livro e pelo prazer que me deu ao lê-lo. Maria Archer”
 Em 1952 foi credenciada como jornalista por Jaime Carvalhão Duarte, durante o julgamento de Henrique Galvão. E em 1955 exila-se no Brasil como consequência última do seu trabalho como repórter do jornal República. Relembre-se a frase de Miguel Torga:”A Liberdade é uma penosa conquista da Solidão.” Apesar de ter sido repentina a saída do país, dois ilustres escritores, Ferreira de Castro e Aquilino, acompanham-na no momento da despedida, demonstrando a sua solidariedade e companheirismo naquele momento difícil. Laços estes que tinham sido firmados muitos anos antes e que se revisitam na carta de Ferreira de Castro, de 9 de Agosto de 1936, ao reafirmar: “Não é possível que depois de tantos anos de luta, a ideia duma Humanidade redimida num mundo justo possa ser sufocada!”
 No Brasil colabora nos Jornais O Estado de S. Paulo, Semana Portuguesa e Portugal Democrático e dá à estampa quatro livros: Terras onde se fala Português (1957), Os últimos Dias do Fascismo Português (1959), África sem Luz (1962) e Brasil, Fronteira da África (1963). Em 23 de Junho de 1973, cinco dias após ter recebido o pedido que Maria Archer expressou ao seu sobrinho Fernando Pádua, o então Primeiro - Ministro de Portugal, Professor Doutor Marcello Caetano, autoriza o seu regresso com estas palavras “… Sra. D. Maria Archer pode vir para Portugal quando quizer. Não será incomodada.”
 Em 26 de Abril de 1979 regressa, finalmente, a Portugal, doente e já com 80 anos, seis anos após ter obtido a anelada permissão e com um novo regime político. No regresso, vinte e quatro anos volvidos desde o dia em que deixou Portugal, e ao contactar com a família, dificilmente reconhece as irmãs e os sobrinhos. No entanto, uma das suas características mantém-se inalterada até ao fim: a vaidade feminina.
Deixa-nos em 23 de Janeiro de 1982. Raul Rego, no artigo “Maria Archer”, para o Diário Popular, escrito dias após sua morte, curva-se sobre a actuação sócio-política da escritora em Portugal. O jornalista elucida como a sua postura anti-conformista a “afastou logo de muitos meios oficiais e de muitos salões de tertúlias, arrastando-a para os contactos com a oposição.” E prossegue: “Ela era uma mulher livre, escritora de garra, senhora de si e impondo-se pelo talento”, o que na altura, não agradava a muitos.
 Passados mais de 100 anos sobre o seu nascimento o que ficou, então? Ficaram os valores e os princípios. Ficaram os fins e os propósitos. Ficou o espírito de pioneirismo. É uma honra muito grande, para mim, como mulher e portuguesa, ser familiar de Maria Archer.
Muito Obrigada.

HOMENAGEM A MARIA ARCHER INTERVENÇÃO DE MESTRE DINA BOTELHO


 Muito boa tarde a todos.
 Começo por cumprimentar os meus companheiros de mesa e todos os que se quiseram juntar a nós nesta justa homenagem a Maria Archer, uma das nossas melhores escritoras da primeira metade do séc. XX.
 Aproveito também para agradecer o convite que me foi endereçado pela Associação Mulher Migrante, através da Dra Rita Gomes, a quem dou desde já os parabéns por ter organizado mais esta homenagem a Maria Archer desta vez em Lisboa, que se segue à da Maia, no final do ano passado, e à de Espinho no dia da Mulher.
Maria Archer, escritora é o tema que eu tenho para desenvolver. Depois de aqui se ter falado da Maria Archer mulher, irei abordar a Maria Archer escritora que não está tão dissociado assim da sua posição enquanto mulher, como iremos ver.
Eu tomei contacto com Maria Archer num alfarrabista de Lisboa relativamente perto do local onde hoje nos encontramos. Hoje, e ainda bem que assim é, temos já 3 livros de Maria Archer reeditados e que podem ser comprados nas livrarias Ela é apenas mulher, Nada lhe será perdoado e Memórias da linha de Cascais, dois deles (os 2 primeiros) graças à editora Parceria António Maria Pereira que apostou na sua republicação e portanto não é só através de alfarrabistas que podemos tomar contacto com a sua escrita, que considero ter sido um marco para a época em que viveu e é nesse sentido que sempre me deram testemunho quando dela falo com pessoas mais velhas.
 Maria Archer foi uma das poucas mulheres do seu tempo a ter como profissão a de jornalista e escritora. Ela publicou de 1920 a 1963, tendo havido dois anos em que publicou 4 livros por ano (1938 e 1950) e alguns dos seus livros chegaram mesmo à 3ª edição como por exemplo Há de Haver uma Lei e Aristocratas.
 Ela é Apenas Mulher é de 1944 e no mesmo ano saiu a 2ª edição tendo chegado à 3ª edição em 1952. Escreveu, pois, 31 livros de 1935 a 1963, 5 deles no Brasil (Terras Onde se Fala Português, África sem Luz, Brasil, Fronteira de África, Os últimos Dias do Fascismo Português e do último nada se sabe), cinco peças de teatro e três traduções. Mas não se julgue que era fácil ser uma mulher escritora na época. Este é outro reconhecido mérito de Maria Archer. Muitas mulheres da época, tais como Maria Lamas e Irene Lisboa, esconderam-se atrás de pseudónimos, quer femininos quer masculinos, para poderem escrever à vontade sem penalizarem a sua vida pessoal ou até mesmo para obterem maior imparcialidade por parte da crítica. Se agora temos muitas mulheres escritoras, no início do séc. XX, quando uma mulher queria escrever sobre outro tema, que não a vida doméstica ou a educação dos filhos, refugiava-se atrás de um pseudónimo.
Maria Archer nunca se escondeu, nunca usou pseudónimos. Talvez esse mesmo facto tenha levado ao afastamento da família que, por vezes, não viu com bons olhos certas publicações suas. Também o seu divórcio (esteve casada apenas 10 anos durante os quais publicou apenas em periódicos) poderá ter tido alguma base na sua profissão apesar da causa pública do mesmo ter mais a ver com questões familiares (sevícias e injúrias graves) e menos profissionais. Maria Archer viveu numa época em que era suposto a mulher ser apenas boa filha, boa esposa e boa mãe. As únicas atividades permitidas à mulher eram a lida doméstica e a educação dos filhos. Maria Archer dizia que escrever era fugir ao longo silêncio a que a mulher da época estava votada. Até o acesso à cultura é negado à mulher na época, como Maria Archer retrata bem na personagem de Adriana (de Casa sem Pão) que tinha de se esconder para ler livros. Houve mesmo casos em que a crítica a um livro escrito com pseudónimo masculino era otimista e depois de se saber que havia sido escrito por uma mulher, o mesmo crítico dizia o contrário do que havia dito antes.
 João Gaspar Simões foi, dos críticos literários da época, o que melhor entendeu a luta da mulher escritora. Disse ele que «Em Portugal uma mulher que queira falar de si mesma com franqueza equivalente à de um homem quase pudico corre risco de enxovalho»
 Maria Archer mostrou as vozes profundas do seu ser sem nunca recorrer a pseudónimos o que fez dela única na sua época e no seu meio.
 Ela partia do real e era esse real que interessava aos seus leitores. Ela própria reconheceu que a literatura feminina da sua época não era criativa «pois a mulher encontrava-se subjugada pela estrutura social e familiar repressiva.» Talvez por ter sido tão direta e tão profunda nas suas obras tenha visto duas delas (Ida e volta duma caixa de cigarros (1938) e Casa sem pão (1947) apreendidas pela Censura.
Mas passando agora à sua escrita em si. A preocupação/tema principal da sua obra era a situação da mulher e as dificuldades por ela sentidas. A vida da mulher, a sua relação com a família, com o trabalho e com os homens dominavam os seus romances e novelas. Mas se o tema dominante era o mesmo havia novidades em todas as suas obras. O estatuto social das mulheres que retratava era diferente, a mulher tanto era vítima como até brincava com os homens e por isso lia-se com empolgamento as suas obras. O seu conhecimento profundo do pensamento da mulher das várias classes sociais permitia-lhe falar com à vontade e realismo das suas vidas. Já João Gaspar Simões falava, em 1950, do seu «superior espírito de observação, penetrante análise social, sólida expressão literária, magistral equilíbrio no doseamento do imprevisto, pelo que não poderia deixar de ser considerada desde já um grande contista, um grande escritor» .
Pela sua obra passam desde a jovem inocente que vem da província para a cidade para trabalhar na casa senhorial por intercessão de uma tia (Esmeralda de Ela é apenas mulher) que conhece toda a vida diferente da cidade e se apaixona por um mulherengo que lhe jura fazer por ela todos os sacrifícios mas que, quando ela lhe diz que pensa estar grávida, a abandona e ela vê-se desgraçada, de volta à terra do Alentejo onde até os pais a tratam mal por terem tomado conhecimento do seu namoro na cidade. De regresso à cidade, já a pensar ganhar a vida com um trabalho decente verifica que é difícil uma jovem arranjar trabalho em Lisboa sem ter de “ser simpática para os homens”. Decide afinal casar por dinheiro e depois acaba por trair o marido com o homem que, nos primeiros tempos, a abandonara.
Também temos a mulher da alta sociedade que vive pelo dinheiro e pensa (Maria Benta de Aristocratas p.129) que «na vida tudo falha, menos o gosto de gastar dinheiro, de ter dinheiro, de fazer coisas que se podem fazer com dinheiro». É esta a personagem que considera que com 20 anos a jovem deve casar. Também a única personagem da comédia “Alfacinha” se preocupa com o facto de ter vinte anos e ainda não ter casado. Neste caso vemos uma jovem da burguesia que apesar de amar muito um jovem, como este ainda pensava tirar o curso o que pressupunha uma espera de 5 anos, ela decide jogar com vários outros mostrando toda a sua arte de sedução para ver qual decide casar com ela enquanto ainda «fazia vista».
Também a vivência de uma vida de aparências e de preconceitos pode ser vista em Filosofia duma mulher moderna onde vemos uma mãe aristocrata (“Sujeição”) a convidar a filha e o marido, de quem esta está separada, para almoçarem em sua casa ao domingo. Também o drama da solteirona, cujo pai foi para África para casar as filhas que viam no casamento uma libertação, tendo na época, ao contrário das irmãs, decidido não casar, quando o quis fazer já era tarde de mais.
 Em Ida e volta duma caixa de cigarros temos a descrição pormenorizada de uma mulher que vive o prazer do sexo em sucessivos encontros até que vê o seu sonho destruído por uma mulher que reclama «os direitos do seu ventre fecundado» e depois vinga-se do homem que entretanto conhece e que por ela demonstra amor. Mas com nenhum dos dois fica. Conhecera o amor verdadeiro e o amor carnal, agora queria o amor integral.
 No romance Bato às Portas da Vida temos o problema da adolescência gerida pelas aparências, a necessidade de, independentemente de como se ganha o dinheiro, aparentar um estatuto superior ao que se poderia alcançar, mas que vem de família. Mais uma vez temos a jovem voluntariosa que rejeita vender-se por um estatuto mas que depois de ter o seu dinheiro fruto de árduo trabalho, acaba por casar entregando o seu dinheiro ao marido, que lho rouba quando se separam. A solidão é uma constante deste romance onde as decisões mais importantes são tomadas por ela sem qualquer apoio.
Mas também temos, como disse no início, a vítima que ama e se vê traída ( a Adriana de Casa sem pão) mas que salva a casa quando o marido perde o emprego, fazendo traduções. Conhecemos o marido com dupla vida. O marido que reconhece a mulher como santa mas a quem não deseja. O que quer a mulher que todos desejariam ter e por isso casa com ela e nem imaginaria separar-se dela.
 Em Nada lhe será perdoado conhecemos o drama de uma mulher enganada até aos 41 anos pela família do marido e por ele. Vê-se obrigada a refazer a sua vida, não conseguindo permanecer muito tempo nos vários empregos por ter sido educada «para menina rica, para ser servida, para a inutilidade.»
 Maria Archer queixou-se de como as mulheres escritoras têm de trabalhar «Trabalhamos sem poder sair do círculo de arame farpado com que o clã e a sociedade nos limitam a criação» (in “Revisão de conceitos Antiquados”, Ler, out. 1952) mas parece que ela conseguiu sair desse círculo mostrando e descrevendo a vida social da época como nenhuma outra. Também como contista sobressai. É João Gaspar Simões (em Filosofia de uma mulher moderna) que diz que Maria Archer em alguns contos de Há-de Haver uma Lei nos faz pensar em Eça de Queirós e Singularidades de uma rapariga loira. Diz mesmo que ela se aparenta a Camilo. Diz-nos o mesmo ensaísta que se existir um tema nos seus contos este é o tema social: a rebelião da mulher contra as normas sociais sacrificadoras da sua sagrada independência». O conto de Maria Archer é o conto de fundo social, o conto de costumes.» Ela é considerada por ele «um dos nossos primeiros contistas contemporâneos, um dos nossos mais fortes temperamentos de escritor».
Termino apresentando duas citações da própria Maria Archer seguidas de um desafio: «Saibam quantos fazem coro no desprestígio da obra literária das mulheres que os nossos livros são momentos heróicos. Custam-nos coragem, e angústias, que os homens, para igual feito, desconhecem de todo» (in “Revisão de Conceitos Antiquados” Out. 1952) «Eu precisarei de morrer para que a minha obra seja avaliada na altura que eu lhe atribuí quando a escrevi – como um documento histórico duma época e da situação da mulher. » (1973) Lanço então o desafio – Não deixemos que a sua obra morra, pois muito ainda há a fazer, nomeadamente estudos sobre os seus cadernos coloniais e estudos sobre as suas peças de teatro. Devemos enaltecer e reconhecer a sua luta pela dignificação da condição da mulher através da apresentação da realidade que a mulher da sua época vivia. A vida da mulher de meados do séc. XX não está bem conhecida – os jovens de hoje não a conhecem e através da obra de Maria Archer poderão conhecê-la.
É também com satisfação que vejo que investigadores de outros países se interessam por esta nossa escritora e escrevem artigos e teses sobre ela. Aproveito para mencionar a dra Elizabeth, aqui ao meu lado, da Universidade de Mato-Grosso que se entusiasmou com a minha tese de mestrado sobre Maria Archer e sobre ela escreveu a sua tese de doutoramento tendo por base a sua vertente mais jornalística. Bem hajam todos por nos fazerem reviver a vida da mulher do início do séc. XX nas suas diversas vertentes.