ATRIBUIÇÃO DO NOME MARIA LAMAS A UMA ESCOLA DO PORTO
Fina d’Armada
Quando eclodiu a revolução dos cravos, em 1974, a gente quis voar como pássaros a
quem libertam da gaiola. Tínhamos fome de mudança. Eu trabalhava como professora numa escola feminina do Porto que não tinha edifício nem nome. Era uma secção da escola preparatória Gomes Teixeira, com sede na Praça da Galiza, mas funcionava no edifício da escola “secundária” Clara de Resende, em frente ao estádio do Bessa.
Com a revolução e a vontade de construir um mundo novo, os diretores das escolas
foram substituídos por comissões de gestão eleitas. Ora, eu fui uma das eleitas. E um dos nossos objetivos foi lutarmos por uma escola independente. Para isso, precisávamos de arranjar um patrono. Como a escola era feminina, propuseram-se nomes de mulheres.
Surgiram dois fortes – Guilhermina Suggia, uma violoncelista de renome mundial, e
Maria Lamas, talvez sugerida por mim. A primeira estava dentro dos parâmetros da lei – era do Porto e falecida. A segunda não se enquadrava. Era de Torres Novas e ainda viva.
Contudo, Maria Lamas tinha estado exilada em França e chegou com a revolução tal como Álvaro Cunhal e Mário Soares. Ao tempo, se Mário Soares era o pai da Democracia, Maria Lamas era vista como a mãe dessa era nova.
Em reunião de assembleia de escola, ganhou Maria Lamas. E como era o tempo de “o povo é quem mais ordena”…
A comissão de gestão travou uma luta árdua. Recordo que fomos duas vezes a Lisboa,
à Direcção do Ensino Básico. Acho que o diretor era Rogério Fernandes. E fomos também várias vezes (eu recordo ter ido só uma vez, mas outros membros da comissão, éramos cinco, foram mais vezes) falar com o presidente da Câmara do Porto, que era o famoso Carlos Cal Brandão.
A criação da escola preparatória Maria Lamas veio no “Diário de Governo”, a 1 de
Abril de 1975. Eu escrevi um artigo no “Jornal de Notícias”, noticiando a nova escola com uma breve biografia de Maria Lamas, em 11 de Outubro de 1975.
E foi a nossa insistência, as nossas idas a Lisboa, a revolução que tudo alterava, com a
ajuda do presidente da Câmara do Porto e o diretor do Ensino Básico, que conseguimos
atribuir a uma escola um nome “fora da lei”. Maria Lamas soube desde o início dessa
homenagem, nós telefonámos-lhe.
A título de curiosidade, o nome “Maria Lamas” foi atribuído, pelo menos, a 16 ruas do
País.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
segunda-feira, 26 de março de 2012
IDALINA ANDRADE GONÇALVES
Fundadora e Presidente da Associação dos Amigos Escritores e Poetas da Escola*
A Mulher Portuguesa
Em “ O Primeiro Homem ,“ Albert Camus, faz uma discrição da condição do Emigrante. Sua partida por falta de emprego na sua Terra natal. A frustração, a Dor e a Superação. Por isso recorremos a este autor, porque a Emigração é um assunto Universal.
A movimentação dos portugueses pelo mundo, tem algo Bíblico. Foi uma verdadeira Epopeia que de certa forma nos orgulha; a determinação e o patriotismo, que lhes fizeram encarar todas as adversidades que são peculiares a quem saiu de sua Terra Natal.
A palavra diáspora define a dispersão de um povo, em consequência de preconceito, perseguição política, ética e religiosa. O problema da maioria dos portugueses foi de natureza económica.
Com toda a maestria, Eça de Queiroz (1871), escreveu: “Em Portugal não é, como em toda a parte, não é o excesso de uma população que sobra; mas a fuga de um povo que sofre. A emigração não significa a ausência, mas o abandono... “
Maria Archer, foi escritora e jornalista, na época do “Estado Novo “domínio salazarista que desejava a mulher em casa, e de preferência “casadinha “. Mas, mesmo assim, a Guerreira produziu livros e artigos para jornais, em meio a um cenário de vozes masculinas.
Como tudo na vida tem um preço; Portugal indicou-lhe a saída, e, ao que parece esta prática continua em vigência .…...
A um jornal do Rio de Janeiro, Maria Archer declara:
“ Vim para o Brasil, tendo chegado dia,15-07-1955, porque já não podia viver em Portugal. A ação da censura asfixiou-me e tirou-me os meios de vida. Apreenderam-me dois livros publicados, assaltaram-me com policiais a minha casa e levaram-me um original, que ainda estava escrevendo. Violência inédita em países de civilização europeia.” ( Diário de Notícias,15-01-1956)
Recordando Helen Keller , (USA) da mesma época da nossa Homenageada.
“A vida é uma aventura ousada, ou não é nada.
Nunca se deve engatinhar quando o impulso é voar.”...
Nós os portugueses, desde tempos remotos temos necessidade de ir além de; por sermos uma civilização formada de diferentes etnias. Mas, com a alma Lusitana .
O Emigrante, vai na esperança de um futuro misterioso do Eldorado... Partiu, mas preserva o desejo de voltar, como bem expressam os versos do poeta, Vinícius de Moraes em “Pátria Minha, “ falando de um sentimento que não morre.......
“ ...Tenho-te (Pátria), no entanto, em
mim como um gemido.
De Flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma Fé
Sem dogma, tenho-te em tudo em que não
me sinto a Jeito.
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem Pé- Direito...”
Este Poema, é a minha homenagem a Maria Archer e a Todas as Marias, que um Dia, também Partiram.....
* Portuguesa, Açoriana, emigrante no Rio de Janeiro, membro da Associação Mulher migrante
Escola.
A Mulher Portuguesa
Em “ O Primeiro Homem ,“ Albert Camus, faz uma discrição da condição do Emigrante. Sua partida por falta de emprego na sua Terra natal. A frustração, a Dor e a Superação. Por isso recorremos a este autor, porque a Emigração é um assunto Universal.
A movimentação dos portugueses pelo mundo, tem algo Bíblico. Foi uma verdadeira Epopeia que de certa forma nos orgulha; a determinação e o patriotismo, que lhes fizeram encarar todas as adversidades que são peculiares a quem saiu de sua Terra Natal.
A palavra diáspora define a dispersão de um povo, em consequência de preconceito, perseguição política, ética e religiosa. O problema da maioria dos portugueses foi de natureza económica.
Com toda a maestria, Eça de Queiroz (1871), escreveu: “Em Portugal não é, como em toda a parte, não é o excesso de uma população que sobra; mas a fuga de um povo que sofre. A emigração não significa a ausência, mas o abandono... “
Maria Archer, foi escritora e jornalista, na época do “Estado Novo “domínio salazarista que desejava a mulher em casa, e de preferência “casadinha “. Mas, mesmo assim, a Guerreira produziu livros e artigos para jornais, em meio a um cenário de vozes masculinas.
Como tudo na vida tem um preço; Portugal indicou-lhe a saída, e, ao que parece esta prática continua em vigência .…...
A um jornal do Rio de Janeiro, Maria Archer declara:
“ Vim para o Brasil, tendo chegado dia,15-07-1955, porque já não podia viver em Portugal. A ação da censura asfixiou-me e tirou-me os meios de vida. Apreenderam-me dois livros publicados, assaltaram-me com policiais a minha casa e levaram-me um original, que ainda estava escrevendo. Violência inédita em países de civilização europeia.” ( Diário de Notícias,15-01-1956)
Recordando Helen Keller , (USA) da mesma época da nossa Homenageada.
“A vida é uma aventura ousada, ou não é nada.
Nunca se deve engatinhar quando o impulso é voar.”...
Nós os portugueses, desde tempos remotos temos necessidade de ir além de; por sermos uma civilização formada de diferentes etnias. Mas, com a alma Lusitana .
O Emigrante, vai na esperança de um futuro misterioso do Eldorado... Partiu, mas preserva o desejo de voltar, como bem expressam os versos do poeta, Vinícius de Moraes em “Pátria Minha, “ falando de um sentimento que não morre.......
“ ...Tenho-te (Pátria), no entanto, em
mim como um gemido.
De Flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma Fé
Sem dogma, tenho-te em tudo em que não
me sinto a Jeito.
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem Pé- Direito...”
Este Poema, é a minha homenagem a Maria Archer e a Todas as Marias, que um Dia, também Partiram.....
* Portuguesa, Açoriana, emigrante no Rio de Janeiro, membro da Associação Mulher migrante
Escola.
GRAÇA CASTANHO
Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diáspora
O Papel da Mulher Emigrante Açoriana nos Países de Acolhimento
Introdução
A história dos Açores, na sua dimensão humana, sempre esteve conotada com fluxos migratórios. Desde a sua descoberta ou reconhecimento, no séc. XV, que as ilhas têm sido porto de chegada e de partida para milhares de indivíduos.
Apesar desta característica, a emigração dos Açores começou a ganhar um caráter sistemático apenas a partir do séc. XVII. Os destinos preferenciais foram: Brasil; EUA; Bermuda; Havai e Canadá.
Fugindo à tendência mundial, em que, de um modo geral, os homens foram, durante séculos, os grandes protagonistas da emigração, existiram, nos Açores, vários fluxos que contrariaram essa realidade, ao colocar nas rotas migratórias famílias inteiras que emigraram em grupo.
Os fluxos migratórios com estas características foram quase todos motivados por catástrofes naturais, como rebentamento de vulcões, tremores de terra e tempestades que tudo destruíam. Outro motivo que levou à emigração de famílias açorianas teve a ver com políticas do reino que visavam povoar as colónias portuguesas ou terras conquistadas a necessitarem de gente lusa como garante da pertença dessas terras a Portugal.
O fato de muitas mulheres terem partido, em simultâneo com os seus maridos, conferiu às comunidades açorianas, espalhadas pelo mundo, um perfil próprio, caracterizado genericamente pelo apego aos valores da família e às ilhas de origem.
Um pouco de história da emigração no feminino
Gaspar Frutuoso, historiador micaelense, registou a saída das primeiras pessoas para o Brasil no 3º quartel do séc. XVI. Fala da saída de algumas famílias que viviam na mais profunda miséria.
Após a partida das primeiras famílias, no séc. XVI, foi preciso esperar mais um século para que tal façanha se repetisse. Em 1677, cinquenta famílias açorianas rumaram ao atual estado do Pará na sequência de forte atividade sísmica nas ilhas do Faial e Pico.
Em 1747 dá-se o primeiro êxodo com a saída de 6.000 pessoas dos Açores, mais uma vez para o Brasil, numa política concertada do reino que visava o povoamento do sul garantindo a Portugal a pertença desses territórios. Foram para Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Para os EUA, segundo destino de emigração, o número de homens que saíram dos Açores superou, durante séculos, a presença da mulher nas vagas migratórias. Saíram das ilhas, rumo à Califórnia, como caçadores de baleias, mas com o decorrer dos anos foram-se transformando em pescadores, trabalhadores de indústrias conserveiras, lavradores, agricultores, cuidadores de gado, pistoleiros, comerciantes, mineiros, etc. A sua presença fez-se sentir quer na costa oeste quer na leste com histórias de coragem e bravura.
Motivados pela miséria, crise económica e busca de melhores condições de vida, entre 1878 e finais do Século XIX rumaram até ao Havai 6.300 açorianos, agrupados por famílias, para trabalhar nos campos da cana-do-açúcar. No séc. XX, não há registos de partidas para o Havai (então chamado Ilhas Sandwich).
Aos EUA chegaram, mais tarde, muitas famílias do Faial e das restantes ilhas do Grupo Central (S. Jorge e Pico), na sequência do vulcão dos Capelinhos que decorreu em 1957. O efeito das cinzas, a projeção de materiais vulcânicos e a destruição de casas, pastagens, campos agrícolas, nas freguesias do Capelo e Praia Norte, foram generalizados. Dadas as dificuldades em que se encontravam estas famílias, em 1958, os EUA aprovaram o Azorean Refugee Act que conduziu àquele país milhares de açorianos das ilhas mais atingidas e de outras que, aproveitando a abertura dos EUA para aceitar imigrantes açorianos, acabaram por partir também. Partiram famílias inteiras.
Em 1964, fruto da atividade sísmica que ocorreu na ilha de S. Jorge, muitas foram as famílias que escolheram os EUA como destino. Outras, com o apoio do Estado Novo, optaram por Angola, onde se formou o Colonato de Cela, uma colónia jorgense em Angola, a qual depois da independência deste país e com o rebentamento da guerra civil acabou por abandonar estas terras, tendo escolhido as Américas como destino final.
O mesmo não aconteceu com o Brasil para onde até meados do séc. XX partiram açorianos, desta feita para os estados de São Paulo e Rio de Janeiro.
Para os EUA a emigração manteve-se até ao séc. XX e, no caso do Canadá, teve início em 1953, na sequência de acordos bilaterias. Nestas últimas situações, de uma forma geral, partiram os homens primeiro, seguindo-se a curto trecho as mulheres, muitas vezes já com filhos.
A Bermuda, terceiro destino da emigração açoriana, que começou em 1849, obedeceu, no início, aos padrões dos restantes fluxos; contudo, devido às limitações geográficas que caracterizam a Bermuda, viu a sua população imigrante ser reduzida a apenas homens, da ilha de S. Miguel, que até hoje ainda partem com contratos de trabalho sazonais, sem direito a compra de carro, casa, terreno e obtenção da nacionalidade bermudiana para os filhos e filhas nascidos naquele território. A Bermuda, atualmente, é o único destino formal e sistemático da emigração açoriana, narrada no masculino.
A partir do 25 de Abril de 1974, a emigração dos Açores decresceu e, ainda hoje, os números oficiais são muito pouco significativos, quase inexistentes desde a década de noventa até ao começo do séc. XXI.
Neste ano de 2012, as comunidades açorianas de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul no Brasil comemoram mais de 260 anos de presença açoriana, a emigração para a Califórnia mais de cem anos, a emigração em massa para a costa leste dos EUA e Canadá um pouco mais de meio século.
O papel das mulheres nas comunidades açorianas
Dada a antiguidade da emigração dos Açores para várias partes do mundo, quando se fala de comunidades açorianas, há que distinguir duas situações diferentes:
a) as mais antigas, feitas de açordescendentes de várias gerações, como, por exemplo, as comunidades do Brasil, especialmente as de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e as do arquipélago do Havai, que se encontram muito afastadas geográfica e temporalmente da terra natal, mas onde o interesse pelo estudo e resgate das origens ainda é bem visível, e
b) todas as outras situações de emigração mais recentes, onde continua a verificar-se uma vivência regular das diferentes dimensões da açorianidade, retratada numa plêiade de iniciativas e práticas culturais que mantêm viva a açorianidade.
Na impossibilidade de nos referirmos a todas as situações, centraremos a nossa atenção na atuação das mulheres que abandonaram as ilhas rumo aos EUA e Canadá, a partir dos anos 60 e 70 do séc. passado, integradas nas maiores vagas migratórias dos últimos dois séculos.
De uma forma geral, deve-se às mulheres grande parte do entusiasmo na preservação e manutenção da matriz cultural açoriana nos destinos de acolhimento. Fruto desse denominador comum, as comunidades que contaram com a integração das mulheres açorianas exibem traços comuns relevantes que merecem mais estudo e sistematização. Foram muitas as consequências positivas deste fenómeno que levou as mulheres a emigrarem com os seus maridos ou a eles se terem reunido em pouco tempo. Do conjunto de dimensões possíveis, passamos a explanar, de seguida, algumas delas:
1. A partida das mulheres, nos grupos migratórios, favoreceu a reunião familiar. Eram estas que mais pressionavam para que “cartas de chamada” fossem enviadas para pais, mães, irmãos, irmãs, primos, tios, etc. Milhares de famílias conseguiram a reunificação graças ao papel das mulheres que, mais ligadas à família e mais preocupadas com as condições precárias em que viviam os familiares nos Açores, só descansaram quando viram os parentes perto de si e com as suas vidas organizadas.
2. Maior estabilidade emocional às crianças, adolescentes e jovens foi o resultado da presença do pai e da mãe. Esta circunstância ajudou a que a família açoriana se mantivesse unida em torno do sonho de conquistar melhores condições de vida e dar uma vida melhor aos filhos/as.
3. As mulheres partiam para apoiar os maridos, para não os deixar desamparados num país novo. Mesmo quando trabalhavam, sentiam como obrigação sua manter a casa limpa, comida na mesa para o marido (a exercer muitas vezes profissões que exigiam grande esforço físico), roupa lavada, etc.
4. A família açoriana, caracterizada por um microssistema unido, ainda mantém esses traços de unidade e de proteção até aos nossos dias. Não é raro vermos filhos e filhas já casadas a viver na cidade dos pais ou até mesmo na mesma casa dos pais, em andares diferentes, a visitar os pais e mães quase diariamente. Não é raro também vermos os avôs e as avós a tomarem conta dos netos/as quando são pequenos.
5. As mulheres porque trabalhavam a dobrar – em casa e no emprego – para dar mais conforto à família e proteção aos filhos, contribuíram profundamente para uma integração plena nas comunidades. Interessante verificar que, em termos linguísticos, foram as mulheres que mais depressa aprenderam a falar as línguas dos países de acolhimento, favorecendo uma maior e melhor integração.
6. A mulher açoriana ao chegar à diáspora procurava emprego para ajudar a família nas despesas da casa, com a educação dos filhos, compra de casa, carro e todo o tipo de conforto para as suas vidas. A família açoriana passou a contar com os rendimentos dos dois elementos do casal, melhorando significativamente a situação financeira do agregado familiar. Porque contribuíram, com o salário do seu trabalho, para o bem-estar familiar, as mulheres garantiram mais qualidade de vida a toda a família. Foi também com o salário das mulheres que as famílias puderam manter a casa farta e os filhos/as nas escolas.
7. A mulher açoriana emigrada, apesar do seu apego à família, emancipou-se pela força do modelo de mulheres de outras nacionalidades e pela força da lei que há muito protege as mulheres dos EUA e Canadá de situações de abuso com base no género. Com a emancipação das mulheres deu-se a mudança de mentalidade sobre o seu papel e os seus direitos. Importa referir que a mudança de atitudes foi tão flagrante e forte que foi capaz de inspirar as mulheres açorianas a viver nas ilhas. Estas também começaram a ter uma atitude diferente perante os comportamentos e reivindicações das suas irmãs, tias, e amigas que contavam como se vivia nos países de acolhimento.
8. Muitos foram e são os maridos cujo desejo era regressar definitivamente às ilhas. O regresso foi sendo adiado por dezenas de anos, uma vez que as mulheres temiam a perda de direitos e regalias com o regresso às ilhas. Receavam a falta da sua independência, garantida através do carro, do emprego e do dinheiro ganho. As mulheres apegaram-se de forma mais permanente à terra de acolhimento. Com o decorrer dos anos, o regresso ficou ainda mais longe com a chegada dos netos.
9. As mulheres garantiram o sucesso das organizações criadas no seio das comunidades açorianas, como irmandades, filarmónicas, grupos de dança, folclore e música, associações, clubes, paróquias, etc. Durante muitos anos, o papel das mulheres ficou circunscrito às cozinhas das agremiações. Hoje, mais libertas destes afazeres, são muitas as mulheres que estão à frente dos destinos destas organizações, gerindo-as com inteligência e muita dedicação.
10. As mulheres açorianas, nas comunidades, investiram mais na sua formação académica do que os seus pares masculinos. Muitas foram às escolas, terminando o ensino secundário ou a universidade, em busca de melhores oportunidades de vida. Esta é uma realidade cada vez mais visível nos nossos dias, fruto do desemprego que grassa nas unidades fabris, as quais ainda há bem pouco tempo garantiam emprego a milhares de indivíduos sem formação académica especializada. Presentemente, as mulheres procuram atualizar os seus conhecimentos e fazem formação nas mais diversas especialidades, sendo uma das mais relevantes a área emergente da prestação de cuidados a pessoas em idade avançada.
11. Às mães se deve o apego à igreja, à religiosidade e aos rituais. São as mães que tratam das questões atinentes à catequese, comunhões, procissões e missas.
12. A manutenção da língua portuguesa, pela via da aprendizagem formal (na escola) ou informal (no lar), deveu-se, em grande parte, ao papel desempenhado pelas mães de família. Eram e são estas que mais se empenham e se dedicam às tarefas escolares dos filhos e das filhas. São estas também que sentem quão importante é para as gerações mais novas serem capazes de comunicar com os familiares deixados nos Açores, especialmente os avôs e as avós.
13. A ligação à terra natal, melhor dizendo, aos Açores manteve-se viva por via das mulheres. Sabe-se que não gostariam de regressar definitivamente. Importa, porém, referir que as mulheres mantêm os laços afetivos com familiares e amigas por toda a vida. O próprio apoio dado às famílias nos Açores, durante décadas, em tempos de dificuldade, foi protagonizado pelas mulheres.
14. Coube às mulheres da diáspora um papel muito importante na continuidade da matriz cultural açoriana em terras distantes. As mulheres continuaram a comemorar as datas da terra de origem, a celebrar as festas do torrão natal, a cozinhar os pratos típicos, a manter a família unida em torno de rituais seculares.
Desde sempre a mulher açoriana teve um papel importante nas comunidades da diáspora, procurando afirmar-se nos novos espaços, mais propícios à igualdade de géneros muito antes das mudanças verificadas em Portugal, em geral, e nos Açores, em particular. A mulher açoriana emigrada, para os EUA e Canadá, nas décadas de 60 e 70 do século passado, soube afirmar-se na família e fora dela e integrar-se nas sociedades de acolhimento.
Essa integração, porém, não comprometeu até à data a manutenção e preservação da cultura açoriana na diáspora que se foi construindo em torno de manifestações culturais e sociais que são uma constante em todas as comunidades. De realçar as seguintes manifestações: as festas ao Divino Espírito Santo; devoção a Nª Sra. de Fátima e ao Sr. Santo Cristo dos Milagres; a matança de porco (feita, ainda hoje em dia, nas associações); as festas/danças de Carnaval; as filarmónicas; o folclore; a vindima; o artesanato, etc.
Conclusão
Se é bem verdade que a mulher nascida nos Açores, que integrou desde cedo as sucessivas vagas migratórias, teve e tem um papel imprescindível na manutenção das raízes açorianas na diáspora, o que dizer acerca do presente e do futuro desse património à mercê dos jovens?
Acredita-se que as novas gerações estejam a viver uma fase de transição, caracterizada por mudanças importantes que, certamente, influenciarão um novo olhar sobre as origens. Nascidas nos países de acolhimento dos pais e mães, estas gerações encontram-se divididas entre o passado, personificado na figura dos avós e pais, e o seu presente, repleto de referenciais do país onde vivem. Porque o apelo do presente é mais forte do que o do passado, os jovens optam por se integrarem cada vez mais em comunidades de pouca expressão açoriana, afastando-se das manifestações de açorianidade.
Muitas são as pessoas que se queixam do crescente desinteresse dos jovens açordescendentes, em geral, pela manutenção da matriz cultural açoriana. Acreditando que tal está a acontecer junto de parte da juventude, importa recordar que cada vez mais nos deparamos com jovens que visitam os Açores e aqui voltam vezes sem conta com as suas famílias. A atração pela beleza e pela qualidade de vida que os Açores oferecem são fatores, sem dúvida, aliciantes e convidativos.
Numa altura em que a emigração quase estagnou para os EUA e Canadá, urge redimensionar o papel da mulher açoriana ou açordescendente nas comunidades de acolhimento, reconhecendo o seu potencial, dando-lhe mais ferramentas e instrumentos de valorização pessoal e profissional nas comunidades, perspetivando o seu papel de difusora da nossa matriz cultural a outra dimensão, muito para além das comunidades açorianas, ligando-a cada vez mais às ilhas de origem com visitas regulares para que a imagem dos Açores do passado seja suplantada por uma proposta contemporânea, atual e moderna da vida que se leva no arquipélago.
Estamos em crer que o papel da mulher açoriana ou açordescendente nas comunidades, hoje em dia, passa por esta mudança de paradigma. Da mesma espera-se que se afirme, que se integre, mas que, ao mesmo tempo, seja Embaixadora dos Açores nas suas áreas de residência, nos seus empregos, nos seus círculos de amigos.
Para que tal aconteça, o Governo dos Açores encontra-se a promover atividades e projetos cada vez mais vocacionados para a área da (re)descoberta dos Açores. Os programas Saudades dos Açores, de Mãos Dadas com os Açores; Campo de Férias Interculturais; Notáveis dos Açores; Bolsa Dias de Melo; Prémio Jornalismo Comunidades; Programa de Resgate Genealógico, entre outros, são disso exemplo. Os frutos deste esforço são palpáveis no dia a dia do nosso trabalho, caracterizado por uma procura cada vez maior e por um interesse cada vez mais intenso pelas ilhas açorianas.
Graça Castanho
Diretora Regional das Comunidades
Docente da Universidade dos Açores
Bibliografia consultada
Dias, E. M. (1982). Açorianos na Califórnia. Maia, Portugal: Direção Regional da Educação e Direção de Serviços de Emigração.
Leal, J. (2007). Açores, EUA e Brasil. Açores: Governo dos Açores.
Meneses, A. F. (2011). Antigamente, era assim. Ponta Delgada: Publiçor.
Mira, M. (2001). The Portuguese Making of America. USA: The Portuguese-American Historical Research Foundation.
Rosa, V. P. e Trigo, S (1991). Contribuição ao Estudo da Emigração nos Açores. Angra do Heroísmo: Governo dos Açores.
Silva, J. P. (1996). Portugueses no Havai Sécs. XIX e XX. Da imigração à aculturação. Horta: Gabinete de Emigração e Apoio às Comunidades Açorianas.
Teixeira, J. C. (2004). A Presença Açoriana no Canadá (1953-2003). In 50 Anos de Emigração Açores-Canadá. Angra do Heroísmo: Governo dos Açores.
Teixeira, J. C. (1999). Portugueses em Toronto: Uma comunidade em mudança. Horta: Direção Regional das Comunidades.
O Papel da Mulher Emigrante Açoriana nos Países de Acolhimento
Introdução
A história dos Açores, na sua dimensão humana, sempre esteve conotada com fluxos migratórios. Desde a sua descoberta ou reconhecimento, no séc. XV, que as ilhas têm sido porto de chegada e de partida para milhares de indivíduos.
Apesar desta característica, a emigração dos Açores começou a ganhar um caráter sistemático apenas a partir do séc. XVII. Os destinos preferenciais foram: Brasil; EUA; Bermuda; Havai e Canadá.
Fugindo à tendência mundial, em que, de um modo geral, os homens foram, durante séculos, os grandes protagonistas da emigração, existiram, nos Açores, vários fluxos que contrariaram essa realidade, ao colocar nas rotas migratórias famílias inteiras que emigraram em grupo.
Os fluxos migratórios com estas características foram quase todos motivados por catástrofes naturais, como rebentamento de vulcões, tremores de terra e tempestades que tudo destruíam. Outro motivo que levou à emigração de famílias açorianas teve a ver com políticas do reino que visavam povoar as colónias portuguesas ou terras conquistadas a necessitarem de gente lusa como garante da pertença dessas terras a Portugal.
O fato de muitas mulheres terem partido, em simultâneo com os seus maridos, conferiu às comunidades açorianas, espalhadas pelo mundo, um perfil próprio, caracterizado genericamente pelo apego aos valores da família e às ilhas de origem.
Um pouco de história da emigração no feminino
Gaspar Frutuoso, historiador micaelense, registou a saída das primeiras pessoas para o Brasil no 3º quartel do séc. XVI. Fala da saída de algumas famílias que viviam na mais profunda miséria.
Após a partida das primeiras famílias, no séc. XVI, foi preciso esperar mais um século para que tal façanha se repetisse. Em 1677, cinquenta famílias açorianas rumaram ao atual estado do Pará na sequência de forte atividade sísmica nas ilhas do Faial e Pico.
Em 1747 dá-se o primeiro êxodo com a saída de 6.000 pessoas dos Açores, mais uma vez para o Brasil, numa política concertada do reino que visava o povoamento do sul garantindo a Portugal a pertença desses territórios. Foram para Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Para os EUA, segundo destino de emigração, o número de homens que saíram dos Açores superou, durante séculos, a presença da mulher nas vagas migratórias. Saíram das ilhas, rumo à Califórnia, como caçadores de baleias, mas com o decorrer dos anos foram-se transformando em pescadores, trabalhadores de indústrias conserveiras, lavradores, agricultores, cuidadores de gado, pistoleiros, comerciantes, mineiros, etc. A sua presença fez-se sentir quer na costa oeste quer na leste com histórias de coragem e bravura.
Motivados pela miséria, crise económica e busca de melhores condições de vida, entre 1878 e finais do Século XIX rumaram até ao Havai 6.300 açorianos, agrupados por famílias, para trabalhar nos campos da cana-do-açúcar. No séc. XX, não há registos de partidas para o Havai (então chamado Ilhas Sandwich).
Aos EUA chegaram, mais tarde, muitas famílias do Faial e das restantes ilhas do Grupo Central (S. Jorge e Pico), na sequência do vulcão dos Capelinhos que decorreu em 1957. O efeito das cinzas, a projeção de materiais vulcânicos e a destruição de casas, pastagens, campos agrícolas, nas freguesias do Capelo e Praia Norte, foram generalizados. Dadas as dificuldades em que se encontravam estas famílias, em 1958, os EUA aprovaram o Azorean Refugee Act que conduziu àquele país milhares de açorianos das ilhas mais atingidas e de outras que, aproveitando a abertura dos EUA para aceitar imigrantes açorianos, acabaram por partir também. Partiram famílias inteiras.
Em 1964, fruto da atividade sísmica que ocorreu na ilha de S. Jorge, muitas foram as famílias que escolheram os EUA como destino. Outras, com o apoio do Estado Novo, optaram por Angola, onde se formou o Colonato de Cela, uma colónia jorgense em Angola, a qual depois da independência deste país e com o rebentamento da guerra civil acabou por abandonar estas terras, tendo escolhido as Américas como destino final.
O mesmo não aconteceu com o Brasil para onde até meados do séc. XX partiram açorianos, desta feita para os estados de São Paulo e Rio de Janeiro.
Para os EUA a emigração manteve-se até ao séc. XX e, no caso do Canadá, teve início em 1953, na sequência de acordos bilaterias. Nestas últimas situações, de uma forma geral, partiram os homens primeiro, seguindo-se a curto trecho as mulheres, muitas vezes já com filhos.
A Bermuda, terceiro destino da emigração açoriana, que começou em 1849, obedeceu, no início, aos padrões dos restantes fluxos; contudo, devido às limitações geográficas que caracterizam a Bermuda, viu a sua população imigrante ser reduzida a apenas homens, da ilha de S. Miguel, que até hoje ainda partem com contratos de trabalho sazonais, sem direito a compra de carro, casa, terreno e obtenção da nacionalidade bermudiana para os filhos e filhas nascidos naquele território. A Bermuda, atualmente, é o único destino formal e sistemático da emigração açoriana, narrada no masculino.
A partir do 25 de Abril de 1974, a emigração dos Açores decresceu e, ainda hoje, os números oficiais são muito pouco significativos, quase inexistentes desde a década de noventa até ao começo do séc. XXI.
Neste ano de 2012, as comunidades açorianas de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul no Brasil comemoram mais de 260 anos de presença açoriana, a emigração para a Califórnia mais de cem anos, a emigração em massa para a costa leste dos EUA e Canadá um pouco mais de meio século.
O papel das mulheres nas comunidades açorianas
Dada a antiguidade da emigração dos Açores para várias partes do mundo, quando se fala de comunidades açorianas, há que distinguir duas situações diferentes:
a) as mais antigas, feitas de açordescendentes de várias gerações, como, por exemplo, as comunidades do Brasil, especialmente as de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e as do arquipélago do Havai, que se encontram muito afastadas geográfica e temporalmente da terra natal, mas onde o interesse pelo estudo e resgate das origens ainda é bem visível, e
b) todas as outras situações de emigração mais recentes, onde continua a verificar-se uma vivência regular das diferentes dimensões da açorianidade, retratada numa plêiade de iniciativas e práticas culturais que mantêm viva a açorianidade.
Na impossibilidade de nos referirmos a todas as situações, centraremos a nossa atenção na atuação das mulheres que abandonaram as ilhas rumo aos EUA e Canadá, a partir dos anos 60 e 70 do séc. passado, integradas nas maiores vagas migratórias dos últimos dois séculos.
De uma forma geral, deve-se às mulheres grande parte do entusiasmo na preservação e manutenção da matriz cultural açoriana nos destinos de acolhimento. Fruto desse denominador comum, as comunidades que contaram com a integração das mulheres açorianas exibem traços comuns relevantes que merecem mais estudo e sistematização. Foram muitas as consequências positivas deste fenómeno que levou as mulheres a emigrarem com os seus maridos ou a eles se terem reunido em pouco tempo. Do conjunto de dimensões possíveis, passamos a explanar, de seguida, algumas delas:
1. A partida das mulheres, nos grupos migratórios, favoreceu a reunião familiar. Eram estas que mais pressionavam para que “cartas de chamada” fossem enviadas para pais, mães, irmãos, irmãs, primos, tios, etc. Milhares de famílias conseguiram a reunificação graças ao papel das mulheres que, mais ligadas à família e mais preocupadas com as condições precárias em que viviam os familiares nos Açores, só descansaram quando viram os parentes perto de si e com as suas vidas organizadas.
2. Maior estabilidade emocional às crianças, adolescentes e jovens foi o resultado da presença do pai e da mãe. Esta circunstância ajudou a que a família açoriana se mantivesse unida em torno do sonho de conquistar melhores condições de vida e dar uma vida melhor aos filhos/as.
3. As mulheres partiam para apoiar os maridos, para não os deixar desamparados num país novo. Mesmo quando trabalhavam, sentiam como obrigação sua manter a casa limpa, comida na mesa para o marido (a exercer muitas vezes profissões que exigiam grande esforço físico), roupa lavada, etc.
4. A família açoriana, caracterizada por um microssistema unido, ainda mantém esses traços de unidade e de proteção até aos nossos dias. Não é raro vermos filhos e filhas já casadas a viver na cidade dos pais ou até mesmo na mesma casa dos pais, em andares diferentes, a visitar os pais e mães quase diariamente. Não é raro também vermos os avôs e as avós a tomarem conta dos netos/as quando são pequenos.
5. As mulheres porque trabalhavam a dobrar – em casa e no emprego – para dar mais conforto à família e proteção aos filhos, contribuíram profundamente para uma integração plena nas comunidades. Interessante verificar que, em termos linguísticos, foram as mulheres que mais depressa aprenderam a falar as línguas dos países de acolhimento, favorecendo uma maior e melhor integração.
6. A mulher açoriana ao chegar à diáspora procurava emprego para ajudar a família nas despesas da casa, com a educação dos filhos, compra de casa, carro e todo o tipo de conforto para as suas vidas. A família açoriana passou a contar com os rendimentos dos dois elementos do casal, melhorando significativamente a situação financeira do agregado familiar. Porque contribuíram, com o salário do seu trabalho, para o bem-estar familiar, as mulheres garantiram mais qualidade de vida a toda a família. Foi também com o salário das mulheres que as famílias puderam manter a casa farta e os filhos/as nas escolas.
7. A mulher açoriana emigrada, apesar do seu apego à família, emancipou-se pela força do modelo de mulheres de outras nacionalidades e pela força da lei que há muito protege as mulheres dos EUA e Canadá de situações de abuso com base no género. Com a emancipação das mulheres deu-se a mudança de mentalidade sobre o seu papel e os seus direitos. Importa referir que a mudança de atitudes foi tão flagrante e forte que foi capaz de inspirar as mulheres açorianas a viver nas ilhas. Estas também começaram a ter uma atitude diferente perante os comportamentos e reivindicações das suas irmãs, tias, e amigas que contavam como se vivia nos países de acolhimento.
8. Muitos foram e são os maridos cujo desejo era regressar definitivamente às ilhas. O regresso foi sendo adiado por dezenas de anos, uma vez que as mulheres temiam a perda de direitos e regalias com o regresso às ilhas. Receavam a falta da sua independência, garantida através do carro, do emprego e do dinheiro ganho. As mulheres apegaram-se de forma mais permanente à terra de acolhimento. Com o decorrer dos anos, o regresso ficou ainda mais longe com a chegada dos netos.
9. As mulheres garantiram o sucesso das organizações criadas no seio das comunidades açorianas, como irmandades, filarmónicas, grupos de dança, folclore e música, associações, clubes, paróquias, etc. Durante muitos anos, o papel das mulheres ficou circunscrito às cozinhas das agremiações. Hoje, mais libertas destes afazeres, são muitas as mulheres que estão à frente dos destinos destas organizações, gerindo-as com inteligência e muita dedicação.
10. As mulheres açorianas, nas comunidades, investiram mais na sua formação académica do que os seus pares masculinos. Muitas foram às escolas, terminando o ensino secundário ou a universidade, em busca de melhores oportunidades de vida. Esta é uma realidade cada vez mais visível nos nossos dias, fruto do desemprego que grassa nas unidades fabris, as quais ainda há bem pouco tempo garantiam emprego a milhares de indivíduos sem formação académica especializada. Presentemente, as mulheres procuram atualizar os seus conhecimentos e fazem formação nas mais diversas especialidades, sendo uma das mais relevantes a área emergente da prestação de cuidados a pessoas em idade avançada.
11. Às mães se deve o apego à igreja, à religiosidade e aos rituais. São as mães que tratam das questões atinentes à catequese, comunhões, procissões e missas.
12. A manutenção da língua portuguesa, pela via da aprendizagem formal (na escola) ou informal (no lar), deveu-se, em grande parte, ao papel desempenhado pelas mães de família. Eram e são estas que mais se empenham e se dedicam às tarefas escolares dos filhos e das filhas. São estas também que sentem quão importante é para as gerações mais novas serem capazes de comunicar com os familiares deixados nos Açores, especialmente os avôs e as avós.
13. A ligação à terra natal, melhor dizendo, aos Açores manteve-se viva por via das mulheres. Sabe-se que não gostariam de regressar definitivamente. Importa, porém, referir que as mulheres mantêm os laços afetivos com familiares e amigas por toda a vida. O próprio apoio dado às famílias nos Açores, durante décadas, em tempos de dificuldade, foi protagonizado pelas mulheres.
14. Coube às mulheres da diáspora um papel muito importante na continuidade da matriz cultural açoriana em terras distantes. As mulheres continuaram a comemorar as datas da terra de origem, a celebrar as festas do torrão natal, a cozinhar os pratos típicos, a manter a família unida em torno de rituais seculares.
Desde sempre a mulher açoriana teve um papel importante nas comunidades da diáspora, procurando afirmar-se nos novos espaços, mais propícios à igualdade de géneros muito antes das mudanças verificadas em Portugal, em geral, e nos Açores, em particular. A mulher açoriana emigrada, para os EUA e Canadá, nas décadas de 60 e 70 do século passado, soube afirmar-se na família e fora dela e integrar-se nas sociedades de acolhimento.
Essa integração, porém, não comprometeu até à data a manutenção e preservação da cultura açoriana na diáspora que se foi construindo em torno de manifestações culturais e sociais que são uma constante em todas as comunidades. De realçar as seguintes manifestações: as festas ao Divino Espírito Santo; devoção a Nª Sra. de Fátima e ao Sr. Santo Cristo dos Milagres; a matança de porco (feita, ainda hoje em dia, nas associações); as festas/danças de Carnaval; as filarmónicas; o folclore; a vindima; o artesanato, etc.
Conclusão
Se é bem verdade que a mulher nascida nos Açores, que integrou desde cedo as sucessivas vagas migratórias, teve e tem um papel imprescindível na manutenção das raízes açorianas na diáspora, o que dizer acerca do presente e do futuro desse património à mercê dos jovens?
Acredita-se que as novas gerações estejam a viver uma fase de transição, caracterizada por mudanças importantes que, certamente, influenciarão um novo olhar sobre as origens. Nascidas nos países de acolhimento dos pais e mães, estas gerações encontram-se divididas entre o passado, personificado na figura dos avós e pais, e o seu presente, repleto de referenciais do país onde vivem. Porque o apelo do presente é mais forte do que o do passado, os jovens optam por se integrarem cada vez mais em comunidades de pouca expressão açoriana, afastando-se das manifestações de açorianidade.
Muitas são as pessoas que se queixam do crescente desinteresse dos jovens açordescendentes, em geral, pela manutenção da matriz cultural açoriana. Acreditando que tal está a acontecer junto de parte da juventude, importa recordar que cada vez mais nos deparamos com jovens que visitam os Açores e aqui voltam vezes sem conta com as suas famílias. A atração pela beleza e pela qualidade de vida que os Açores oferecem são fatores, sem dúvida, aliciantes e convidativos.
Numa altura em que a emigração quase estagnou para os EUA e Canadá, urge redimensionar o papel da mulher açoriana ou açordescendente nas comunidades de acolhimento, reconhecendo o seu potencial, dando-lhe mais ferramentas e instrumentos de valorização pessoal e profissional nas comunidades, perspetivando o seu papel de difusora da nossa matriz cultural a outra dimensão, muito para além das comunidades açorianas, ligando-a cada vez mais às ilhas de origem com visitas regulares para que a imagem dos Açores do passado seja suplantada por uma proposta contemporânea, atual e moderna da vida que se leva no arquipélago.
Estamos em crer que o papel da mulher açoriana ou açordescendente nas comunidades, hoje em dia, passa por esta mudança de paradigma. Da mesma espera-se que se afirme, que se integre, mas que, ao mesmo tempo, seja Embaixadora dos Açores nas suas áreas de residência, nos seus empregos, nos seus círculos de amigos.
Para que tal aconteça, o Governo dos Açores encontra-se a promover atividades e projetos cada vez mais vocacionados para a área da (re)descoberta dos Açores. Os programas Saudades dos Açores, de Mãos Dadas com os Açores; Campo de Férias Interculturais; Notáveis dos Açores; Bolsa Dias de Melo; Prémio Jornalismo Comunidades; Programa de Resgate Genealógico, entre outros, são disso exemplo. Os frutos deste esforço são palpáveis no dia a dia do nosso trabalho, caracterizado por uma procura cada vez maior e por um interesse cada vez mais intenso pelas ilhas açorianas.
Graça Castanho
Diretora Regional das Comunidades
Docente da Universidade dos Açores
Bibliografia consultada
Dias, E. M. (1982). Açorianos na Califórnia. Maia, Portugal: Direção Regional da Educação e Direção de Serviços de Emigração.
Leal, J. (2007). Açores, EUA e Brasil. Açores: Governo dos Açores.
Meneses, A. F. (2011). Antigamente, era assim. Ponta Delgada: Publiçor.
Mira, M. (2001). The Portuguese Making of America. USA: The Portuguese-American Historical Research Foundation.
Rosa, V. P. e Trigo, S (1991). Contribuição ao Estudo da Emigração nos Açores. Angra do Heroísmo: Governo dos Açores.
Silva, J. P. (1996). Portugueses no Havai Sécs. XIX e XX. Da imigração à aculturação. Horta: Gabinete de Emigração e Apoio às Comunidades Açorianas.
Teixeira, J. C. (2004). A Presença Açoriana no Canadá (1953-2003). In 50 Anos de Emigração Açores-Canadá. Angra do Heroísmo: Governo dos Açores.
Teixeira, J. C. (1999). Portugueses em Toronto: Uma comunidade em mudança. Horta: Direção Regional das Comunidades.
RITA GOMES Encerramento
Com os meus cumprimentos junto envio o texto que faltava na sessão de
encerramento, após o do Vereador Ramalho,
ManSenhor Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr. José de
Almeida Cesário
Senhor Vereador da Câmara Municipal da Maia, Dr. Paulo Ramalho
Dig.ºs Representantes das diversas Entidades aqui presentes, que também
nos deram a honra da sua participação.
Minhas Senhoras
Meus Senhores
Como Presidente da Direcção da «Mulher Migrante – Associação de
Estudo, Cooperação e Solidariedade», mais conhecida por «Associação Mulher
Migrante» apresentamos os nossos agradecimentos, em nome da Associação:
- a Sua Excelência o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr.
José Cesário que proporcionou este Encontro Mundial;
- ao Senhor Presidente de Câmara Municipal da Maia, Engº António Gonçalves
Bragança Fernandes pela receptividade e apoios disponibilizados, a vários
níveis;
-a todos os Parceiros e a todas as Entidades que directa ou indirectamente
connosco colaboraram, sendo de salientar: a Universidade Aberta - CEMRI -
Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais; a Fundação
da Ciência e Tecnologia; o Gabinete de S. Exª o Secretário de Estado das
Comunidades Portuguesas; a Comissão para a Cidadania e Igualdade de
Género (CIG); a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego
(CITE); a Fundação Pro – Dignitate; a Revista “As Artes entre as Letras” e o
Observatório dos Luso-Descendentes;
- a outras Instituições que também nos concederam o seu apoio:
ao Senhor Dr. José Silva – Delegação da Caixa de Crédito Agrícola, Delegação
da Maia; à RTP; à RDP; à Lusa; ao Jornal «O Mundo Português»; à Rádio
Média Capital e à SIC Internacional, designadamente.
O nosso maior reconhecimento, também, às restantes Entidades,
Moderadoras, Moderadores, Intervenientes e Colaboradoras/Colaboradores
que, em regime de trabalho voluntário, tornaram possível a realização deste
Encontro Mundial, sendo de salientar o curto espaço de tempo que tivemos
para a sua realização. Refere-se ainda que todo o trabalho foi feito com a
maior e melhor boa vontade e em espírito de excelente colaboração.
Perguntar-se-á o que procurámos conseguir com este Encontro
Mundial? Uma resposta, em síntese, se impõe: procurámos, designadamente,
proporcionar de forma mais imediata, uma maior visibilidade sobre as temáticas
que directa ou indirectamente respeitam à emigração e às comunidades
portuguesas, tendo como especial enfoque as nossas compatriotas emigradas
e a “nova emigração”, envolvendo mulheres jovens qualificadas, mas também
as que partem sem qualificações profissionais.
Lembrámos questões inerentes à solidariedade e à coesão social.
Colocaram-se também em debate: as relações intergovernamentais,
as relações sociais e culturais que sempre se estabelecem no âmbito das
comunidades portuguesas, constituindo uma valiosa contribuição em favor das
portuguesas e dos portugueses, residentes no estrangeiro, contribuição essa
muitas vezes esquecida no nosso País.
Falámos, como dissemos, das Mulheres Portuguesas na Diáspora, da
sua situação presente, da sua Memória e perspectivas e das estruturas que a
nível local as podem apoiar, acolher e incentivar.
Esteve e está em causa a “metade feminina” aquela que muitas
vezes procura reivindicar os seus legítimos direitos a nível social, cultural,
económico e político, mas que com grande dificuldade tem conseguido
algumas melhorias .
E se isso não é fácil para a mulher em geral, como sabemos, são
muitos os motivos que com maior frequência discriminam a mulher migrante,
já de si mais fragilizada, que bem merece a melhor compreensão e apoio.
Esperamos ter dado uma contribuição positiva, durante este Encontro
Mundial, às questões de que nos ocupámos nestes dias, abrangendo as
mulheres que partem agora e aquelas que já vivem, distantes de nós, nos
diversos países de acolhimento, a quem daqui deixamos um abraço fraterno e
dizemos que as não esquecemos.
De salientar que esta Associação, sobretudo a partir de 2005, através
dos «Encontros para a Cidadania», tem vindo a estabelecer contactos mais
directos com as nossas compatriotas no estrangeiro, contactos esses que
pretendemos prosseguir, proporcionando melhor apoio – efectivo e mesmo
afectivo - a fim de que consigam atingir os seus objectivos a nível pessoal e
profissional, com maior celeridade e em paridade.
E a terminar, digamos, esta “saudação final”, fazemo-lo convictas
/ convictos de que, de futuro, se reforçarão os laços entre os grupos
Intervenientes neste Encontro, Jovens e não Jovens, o que poderá permitir
o lançamento de novas Iniciativas, nas Comunidades Portuguesas no
Estrangeiro, algumas delas aqui representadas, como são os casos: da
Argentina, dos EUA, da Venezuela, de Malaca, da França, da Inglaterra, do
Luxemburgo, da Suíça, da Holanda, da Alemanha, do Brasil, do Uruguay, etc.,
que connosco conviveram estes dias, em franca e útil troca de impressões
sobre a vida, entre nós, em Portugal e a que vivem nas comunidades, onde se
instalaram com as suas Famílias.
Apraz-nos, pois salientar esses momentos de trabalho e de convívio
que ficamos a dever a todas e a todos que proporcionaram este Encontro,
bem como a quem nos acompanhou durante esta Iniciativa e com quem nos
orgulhamos de ter partilhado estes dias.
Não esqueceremos as ajudas, os apoios, a compreensão com que nos
rodearam.
encerramento, após o do Vereador Ramalho,
ManSenhor Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr. José de
Almeida Cesário
Senhor Vereador da Câmara Municipal da Maia, Dr. Paulo Ramalho
Dig.ºs Representantes das diversas Entidades aqui presentes, que também
nos deram a honra da sua participação.
Minhas Senhoras
Meus Senhores
Como Presidente da Direcção da «Mulher Migrante – Associação de
Estudo, Cooperação e Solidariedade», mais conhecida por «Associação Mulher
Migrante» apresentamos os nossos agradecimentos, em nome da Associação:
- a Sua Excelência o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr.
José Cesário que proporcionou este Encontro Mundial;
- ao Senhor Presidente de Câmara Municipal da Maia, Engº António Gonçalves
Bragança Fernandes pela receptividade e apoios disponibilizados, a vários
níveis;
-a todos os Parceiros e a todas as Entidades que directa ou indirectamente
connosco colaboraram, sendo de salientar: a Universidade Aberta - CEMRI -
Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais; a Fundação
da Ciência e Tecnologia; o Gabinete de S. Exª o Secretário de Estado das
Comunidades Portuguesas; a Comissão para a Cidadania e Igualdade de
Género (CIG); a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego
(CITE); a Fundação Pro – Dignitate; a Revista “As Artes entre as Letras” e o
Observatório dos Luso-Descendentes;
- a outras Instituições que também nos concederam o seu apoio:
ao Senhor Dr. José Silva – Delegação da Caixa de Crédito Agrícola, Delegação
da Maia; à RTP; à RDP; à Lusa; ao Jornal «O Mundo Português»; à Rádio
Média Capital e à SIC Internacional, designadamente.
O nosso maior reconhecimento, também, às restantes Entidades,
Moderadoras, Moderadores, Intervenientes e Colaboradoras/Colaboradores
que, em regime de trabalho voluntário, tornaram possível a realização deste
Encontro Mundial, sendo de salientar o curto espaço de tempo que tivemos
para a sua realização. Refere-se ainda que todo o trabalho foi feito com a
maior e melhor boa vontade e em espírito de excelente colaboração.
Perguntar-se-á o que procurámos conseguir com este Encontro
Mundial? Uma resposta, em síntese, se impõe: procurámos, designadamente,
proporcionar de forma mais imediata, uma maior visibilidade sobre as temáticas
que directa ou indirectamente respeitam à emigração e às comunidades
portuguesas, tendo como especial enfoque as nossas compatriotas emigradas
e a “nova emigração”, envolvendo mulheres jovens qualificadas, mas também
as que partem sem qualificações profissionais.
Lembrámos questões inerentes à solidariedade e à coesão social.
Colocaram-se também em debate: as relações intergovernamentais,
as relações sociais e culturais que sempre se estabelecem no âmbito das
comunidades portuguesas, constituindo uma valiosa contribuição em favor das
portuguesas e dos portugueses, residentes no estrangeiro, contribuição essa
muitas vezes esquecida no nosso País.
Falámos, como dissemos, das Mulheres Portuguesas na Diáspora, da
sua situação presente, da sua Memória e perspectivas e das estruturas que a
nível local as podem apoiar, acolher e incentivar.
Esteve e está em causa a “metade feminina” aquela que muitas
vezes procura reivindicar os seus legítimos direitos a nível social, cultural,
económico e político, mas que com grande dificuldade tem conseguido
algumas melhorias .
E se isso não é fácil para a mulher em geral, como sabemos, são
muitos os motivos que com maior frequência discriminam a mulher migrante,
já de si mais fragilizada, que bem merece a melhor compreensão e apoio.
Esperamos ter dado uma contribuição positiva, durante este Encontro
Mundial, às questões de que nos ocupámos nestes dias, abrangendo as
mulheres que partem agora e aquelas que já vivem, distantes de nós, nos
diversos países de acolhimento, a quem daqui deixamos um abraço fraterno e
dizemos que as não esquecemos.
De salientar que esta Associação, sobretudo a partir de 2005, através
dos «Encontros para a Cidadania», tem vindo a estabelecer contactos mais
directos com as nossas compatriotas no estrangeiro, contactos esses que
pretendemos prosseguir, proporcionando melhor apoio – efectivo e mesmo
afectivo - a fim de que consigam atingir os seus objectivos a nível pessoal e
profissional, com maior celeridade e em paridade.
E a terminar, digamos, esta “saudação final”, fazemo-lo convictas
/ convictos de que, de futuro, se reforçarão os laços entre os grupos
Intervenientes neste Encontro, Jovens e não Jovens, o que poderá permitir
o lançamento de novas Iniciativas, nas Comunidades Portuguesas no
Estrangeiro, algumas delas aqui representadas, como são os casos: da
Argentina, dos EUA, da Venezuela, de Malaca, da França, da Inglaterra, do
Luxemburgo, da Suíça, da Holanda, da Alemanha, do Brasil, do Uruguay, etc.,
que connosco conviveram estes dias, em franca e útil troca de impressões
sobre a vida, entre nós, em Portugal e a que vivem nas comunidades, onde se
instalaram com as suas Famílias.
Apraz-nos, pois salientar esses momentos de trabalho e de convívio
que ficamos a dever a todas e a todos que proporcionaram este Encontro,
bem como a quem nos acompanhou durante esta Iniciativa e com quem nos
orgulhamos de ter partilhado estes dias.
Não esqueceremos as ajudas, os apoios, a compreensão com que nos
rodearam.
sexta-feira, 23 de março de 2012
Prefácio JOSÉ DE ALMEIDA CESÁRIO - SECRETÁRIO DE ESTADO DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS
PREFÁCIO
Foi com grande satisfação e orgulho que me associei e participei no Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diáspora, que decorreu de 24 a 26 de Novembro de 2011, no Fórum da Maia, organizado pela Associação Mulher Migrante. Durante 3 dias, mulheres dos 4 cantos do mundo debateram temas ligados à questão de género, cidadania e importância da mulher portuguesa na diáspora.
O Governo definiu como objectivo da sua Política Externa a revalorização das Comunidades Portuguesas no estrangeiro, tanto as habitualmente apelidadas de tradicionais como as mais recentes, que representam um valor estratégico da maior importância para o nosso sucesso e a nossa afirmação externa.
E como valorizar as Comunidades Portuguesas sem reconhecer, destacar e valorizar o papel que a mulher vem nelas historicamente desempenhando? Sem refletir nos desafios futuros que se apresentam?
Este Congresso, juntando um conjunto de destacadas personalidades do universo feminino, cuja contribuição tão decisiva, tão diversa e por vezes tão pouco reconhecida, veio assim contribuir para uma resposta a estas questões, preenchendo uma lacuna e simultaneamente iniciando um novo ciclo, uma nova forma de olhar para a nossa Diáspora.
Seja-me permitido, em breves linhas referir-me aos desígnios estratégicos que o Governo delineou tendo em mente a necessidade de dar um novo impulso à ligação efetiva entre Portugal e os seus cidadãos no estrangeiro e que passam por quatro medidas essenciais:
a) Eleger o ensino do português como âncora da política da diáspora;
b) Desburocratizar os procedimentos administrativos, simplificar os atos consulares e estabelecer uma ligação direta, rápida e fácil aos serviços centrais do estado;
c) Promover a constituição de uma rede de políticos de origem portuguesa no estrangeiro;
d) Reconhecer o papel do Conselho das Comunidades Portuguesas enquanto órgão consultivo do Governo para as políticas de Emigração e Comunidades Portuguesas.
Estas quatro medidas refletem a nossa vontade de projetar as Comunidades Portuguesas na sociedade que as acolheu, através da participação política e social nessas sociedades, reforçar a defesa da língua e cultura portuguesas como elemento de ligação a Portugal e ainda melhorar a qualidade de vida dos portugueses residentes no estrangeiro através do apoio e modernização consular. Dessa forma, as nossas Comunidades, para além do reconhecimento nos países de acolhimento terão igualmente um maior e mais justo reconhecimento dentro do nosso próprio país.
Em todas estas dimensões, o papel das mulheres migrantes é central para que possamos ter o sucesso almejado. E, se em algumas das áreas a participação das mulheres é já uma realidade que muito nos orgulha e cujo contributo tanto enriquece a vida colectiva das nossas Comunidades, a realidade é que noutras podemos e devemos ir mais longe.
Desejamos contar com um reforço do número de luso-eleitos, a diversos níveis, quer o municipal, como acontece mais frequentemente na Europa, quer ao nível do poder central ou federal como acontece por exemplo nos Estados Unidos, Canadá e Venezuela.
A existência de eleitos de origem portuguesa em todo o mundo deve ser vista como um património que urge reconhecer e implementar, no sentido de criar formas de representação formal e institucional dos interesses das próprias Comunidades e, de uma forma mais geral, dos interesses de Portugal junto desses países. Reciprocamente, este facto é também gerador de responsabilidade por parte do Estado Português no sentido de patrocinar uma plataforma de troca de informação e reflexão.
A representatividade da mulher, apoiada numa integração e numa consciência cívica promovidas pela Comunidade mas também por associações como a “Associação da Mulher Migrante”, pode e deve crescer, quer ao nível dos luso-eleitos nos países de acolhimento quer no Conselho das Comunidades Portuguesas. Pela minha parte podem contar com todo o apoio para que tal se torne numa realidade cada vez mais visível.
Seja-me também permitida uma palavra sobre a diplomacia económica, no âmbito específico das Comunidades Portuguesas, as quais desejamos que sejam um factor ainda mais potenciador da nossa economia.
Não apenas os portugueses residentes no estrangeiro possuem muitas vezes uma experiência empresarial de vanguarda que, bem aproveitada, pode constituir um valor acrescentado para o crescimento da economia portuguesa, designadamente em matéria de internacionalização e penetração nos mercados internacionais, como têm em muitos casos possibilidade de investir em Portugal e ainda representar um mercado importante para as nossas exportações.
Nesse sentido, o Governo está a trabalhar na criação de uma rede operativa, alicerçada na informação, na cooperação empresarial e na diplomacia económica / comercial, tendo por base o entrosamento dos empresários das Comunidades Portuguesas com os empresários residentes em Portugal, valorizando a língua e a cultura como factores de aproximação e de negócio.
A língua e cultura portuguesas constituem justamente um factor de ligação das Comunidades à sua Pátria natal que pretendemos igualmente promover. O Instituto Camões, que tem a seu cargo todas as ações culturais externas e o ensino de Português no estrangeiro, passará a ter um papel mais ativo nas ações culturais na vertente comunidades.
Queremos desenvolver parcerias, pois temos a noção que o Estado não pode fazer tudo, sobretudo num período de restrições financeiras. É importante juntar esforços públicos e privados em áreas como a promoção da Língua e da Cultura, do Associativismo (que tanto tenho defendido como factor de identidade e unidade) e da participação cívica. Precisamos, mais do que nunca, de juntar esforços, de recorrer à determinação e criatividade, de uma grande participação das mulheres da nossa diáspora para, deste período difícil sairmos unidos e reforçados.
Um bom exemplo de parceria é a Mulher Migrante, Associação de Estudo Cooperação e Solidariedade, cujo lema é “Nenhuma pessoa é estrangeira na sociedade que vive os Direitos Humanos” e tem como escopo o apoio à integração das mulheres nos países onde vivem e a defesa dos seus direitos de participação social, económica e política, através do estudo dos problemas da Mulher Migrante, em cooperação com as várias Associações das Comunidades Portuguesas do Mundo. O seu papel como elemento da sociedade civil, na relação com os portugueses residentes no estrangeiro, ilustra perfeitamente o ponto que desejo fazer.
É nesta perspectiva que a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas tem colaborado, com redobrado prazer, com a Associação Mulher Migrante reconhecendo a importância da sua intervenção cívica em prol de um sector específico da história da Emigração Portuguesa, tantas vezes esquecida, que são as mulheres na Diáspora.
Este encontro teve ainda a importante virtude de colocar em contacto diferentes realidades e experiências, permitindo nessa interação um benefício coletivo. Os laços criados, estou convencido, darão a muito breve prazo os seus frutos.
Saímos da Maia com a certeza de que valeu a pena, mais enriquecidos e motivados para lutar por causas, não só nas questões de género, mas de uma forma generalizada, em tudo o que concerne as Comunidades Portuguesas.
Neste encontro, de forma merecida e também com um grande simbolismo para todas as mulheres portuguesas na diáspora, que tanto têm feito por Portugal e pelas Comunidades, tanto têm lutado e dado provas da sua mais-valia, capacidade e sucesso, tive a honra entregar condecoração da Ordem de Mérito, à Sr.ª Teresa Heimans Ferreira Magno, residente na Holanda.
Uma última palavra de apreço às mulheres portuguesas da diáspora, que tanto dignificam Portugal nos seus países de acolhimento perante quem renovo o compromisso do Governo português em desenvolver políticas e medidas tendentes a reduzir as desigualdades, promover a integração e participação cívica e permitir um futuro solidário e de maior esperança.
Foi com grande satisfação e orgulho que me associei e participei no Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diáspora, que decorreu de 24 a 26 de Novembro de 2011, no Fórum da Maia, organizado pela Associação Mulher Migrante. Durante 3 dias, mulheres dos 4 cantos do mundo debateram temas ligados à questão de género, cidadania e importância da mulher portuguesa na diáspora.
O Governo definiu como objectivo da sua Política Externa a revalorização das Comunidades Portuguesas no estrangeiro, tanto as habitualmente apelidadas de tradicionais como as mais recentes, que representam um valor estratégico da maior importância para o nosso sucesso e a nossa afirmação externa.
E como valorizar as Comunidades Portuguesas sem reconhecer, destacar e valorizar o papel que a mulher vem nelas historicamente desempenhando? Sem refletir nos desafios futuros que se apresentam?
Este Congresso, juntando um conjunto de destacadas personalidades do universo feminino, cuja contribuição tão decisiva, tão diversa e por vezes tão pouco reconhecida, veio assim contribuir para uma resposta a estas questões, preenchendo uma lacuna e simultaneamente iniciando um novo ciclo, uma nova forma de olhar para a nossa Diáspora.
Seja-me permitido, em breves linhas referir-me aos desígnios estratégicos que o Governo delineou tendo em mente a necessidade de dar um novo impulso à ligação efetiva entre Portugal e os seus cidadãos no estrangeiro e que passam por quatro medidas essenciais:
a) Eleger o ensino do português como âncora da política da diáspora;
b) Desburocratizar os procedimentos administrativos, simplificar os atos consulares e estabelecer uma ligação direta, rápida e fácil aos serviços centrais do estado;
c) Promover a constituição de uma rede de políticos de origem portuguesa no estrangeiro;
d) Reconhecer o papel do Conselho das Comunidades Portuguesas enquanto órgão consultivo do Governo para as políticas de Emigração e Comunidades Portuguesas.
Estas quatro medidas refletem a nossa vontade de projetar as Comunidades Portuguesas na sociedade que as acolheu, através da participação política e social nessas sociedades, reforçar a defesa da língua e cultura portuguesas como elemento de ligação a Portugal e ainda melhorar a qualidade de vida dos portugueses residentes no estrangeiro através do apoio e modernização consular. Dessa forma, as nossas Comunidades, para além do reconhecimento nos países de acolhimento terão igualmente um maior e mais justo reconhecimento dentro do nosso próprio país.
Em todas estas dimensões, o papel das mulheres migrantes é central para que possamos ter o sucesso almejado. E, se em algumas das áreas a participação das mulheres é já uma realidade que muito nos orgulha e cujo contributo tanto enriquece a vida colectiva das nossas Comunidades, a realidade é que noutras podemos e devemos ir mais longe.
Desejamos contar com um reforço do número de luso-eleitos, a diversos níveis, quer o municipal, como acontece mais frequentemente na Europa, quer ao nível do poder central ou federal como acontece por exemplo nos Estados Unidos, Canadá e Venezuela.
A existência de eleitos de origem portuguesa em todo o mundo deve ser vista como um património que urge reconhecer e implementar, no sentido de criar formas de representação formal e institucional dos interesses das próprias Comunidades e, de uma forma mais geral, dos interesses de Portugal junto desses países. Reciprocamente, este facto é também gerador de responsabilidade por parte do Estado Português no sentido de patrocinar uma plataforma de troca de informação e reflexão.
A representatividade da mulher, apoiada numa integração e numa consciência cívica promovidas pela Comunidade mas também por associações como a “Associação da Mulher Migrante”, pode e deve crescer, quer ao nível dos luso-eleitos nos países de acolhimento quer no Conselho das Comunidades Portuguesas. Pela minha parte podem contar com todo o apoio para que tal se torne numa realidade cada vez mais visível.
Seja-me também permitida uma palavra sobre a diplomacia económica, no âmbito específico das Comunidades Portuguesas, as quais desejamos que sejam um factor ainda mais potenciador da nossa economia.
Não apenas os portugueses residentes no estrangeiro possuem muitas vezes uma experiência empresarial de vanguarda que, bem aproveitada, pode constituir um valor acrescentado para o crescimento da economia portuguesa, designadamente em matéria de internacionalização e penetração nos mercados internacionais, como têm em muitos casos possibilidade de investir em Portugal e ainda representar um mercado importante para as nossas exportações.
Nesse sentido, o Governo está a trabalhar na criação de uma rede operativa, alicerçada na informação, na cooperação empresarial e na diplomacia económica / comercial, tendo por base o entrosamento dos empresários das Comunidades Portuguesas com os empresários residentes em Portugal, valorizando a língua e a cultura como factores de aproximação e de negócio.
A língua e cultura portuguesas constituem justamente um factor de ligação das Comunidades à sua Pátria natal que pretendemos igualmente promover. O Instituto Camões, que tem a seu cargo todas as ações culturais externas e o ensino de Português no estrangeiro, passará a ter um papel mais ativo nas ações culturais na vertente comunidades.
Queremos desenvolver parcerias, pois temos a noção que o Estado não pode fazer tudo, sobretudo num período de restrições financeiras. É importante juntar esforços públicos e privados em áreas como a promoção da Língua e da Cultura, do Associativismo (que tanto tenho defendido como factor de identidade e unidade) e da participação cívica. Precisamos, mais do que nunca, de juntar esforços, de recorrer à determinação e criatividade, de uma grande participação das mulheres da nossa diáspora para, deste período difícil sairmos unidos e reforçados.
Um bom exemplo de parceria é a Mulher Migrante, Associação de Estudo Cooperação e Solidariedade, cujo lema é “Nenhuma pessoa é estrangeira na sociedade que vive os Direitos Humanos” e tem como escopo o apoio à integração das mulheres nos países onde vivem e a defesa dos seus direitos de participação social, económica e política, através do estudo dos problemas da Mulher Migrante, em cooperação com as várias Associações das Comunidades Portuguesas do Mundo. O seu papel como elemento da sociedade civil, na relação com os portugueses residentes no estrangeiro, ilustra perfeitamente o ponto que desejo fazer.
É nesta perspectiva que a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas tem colaborado, com redobrado prazer, com a Associação Mulher Migrante reconhecendo a importância da sua intervenção cívica em prol de um sector específico da história da Emigração Portuguesa, tantas vezes esquecida, que são as mulheres na Diáspora.
Este encontro teve ainda a importante virtude de colocar em contacto diferentes realidades e experiências, permitindo nessa interação um benefício coletivo. Os laços criados, estou convencido, darão a muito breve prazo os seus frutos.
Saímos da Maia com a certeza de que valeu a pena, mais enriquecidos e motivados para lutar por causas, não só nas questões de género, mas de uma forma generalizada, em tudo o que concerne as Comunidades Portuguesas.
Neste encontro, de forma merecida e também com um grande simbolismo para todas as mulheres portuguesas na diáspora, que tanto têm feito por Portugal e pelas Comunidades, tanto têm lutado e dado provas da sua mais-valia, capacidade e sucesso, tive a honra entregar condecoração da Ordem de Mérito, à Sr.ª Teresa Heimans Ferreira Magno, residente na Holanda.
Uma última palavra de apreço às mulheres portuguesas da diáspora, que tanto dignificam Portugal nos seus países de acolhimento perante quem renovo o compromisso do Governo português em desenvolver políticas e medidas tendentes a reduzir as desigualdades, promover a integração e participação cívica e permitir um futuro solidário e de maior esperança.
quinta-feira, 22 de março de 2012
CV PROFª DOUTORA MARIA BENEDICTA MONTEIRO
Nota Biográfica
Maria Benedicta Vassalo Pereira Bastos Monteiro é natural de Lisboa onde completou os estudos superiores em Filologia Germânica (1964) e em Psicologia (1974). Obteve o grau de Doutor em Psicologia Social na Universidade de Lovaina, na Bélgica (1984), e a Agregação em Psicologia Social no ISCTE (1995), onde é professora catedrática desde 1996.
Desenvolve investigação em diversas áreas da Psicologia Social da Educação e das Relações Interculturais, nomeadamente sobre Efeitos da exposição à TV em comportamentos de agressão, Crenças dos educadores sobre desenvolvimento e educação das crianças, Desenvolvimento e redução do preconceito racial na infância, Discriminação de minorias sociais e acção colectiva e Processos de aculturação de minorias migrantes, sobre os quais apresentou Conferências
e Comunicações em dezenas de Universidades e publicou livros, capítulos de livros e artigos científicos em Editoras e Revistas portuguesas e estrangeiras.
Foi professora convidada nas Universidades de Paris, Cambridge, Roma, Pádua, Liège, Barcelona, Sergipe, Paraíba e Recife e em várias universidades portuguesas. Desempenhou vários cargos de consultoria e de direcção, tais como, Presidente do Departamento de Psicologia Social e das Organizações do ISCTE (1999-2006), Presidente do Centro de Investigação e de Intervenção Social (ISCTE, 1999-2002), Presidente da Associação Portuguesa de Psicologia (2000-2006), Directora da Revista Psicologia (2002-2010), Directora dos Estudos Doutorais em Psicologia no ISCTE (2002- 2006), Consultora da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) em Avaliação de Projectos de Investigação Científica (2002-2005), Consultora do Ministério da Educação (GAVE) em Avaliação de Programas de Psicologia (2001-2005), Consultora da Comissão Europeia em avaliação de candidaturas Marie Curie (1998-2001).
Por convite de instituições educativas e de saúde e de Associações privadas e municipais, fez intervenções públicas sobre violência na escola, racismo e políticas públicas, delinquência, educação multicultural e sucesso escolar, negociação de conflitos e situação dos grupos migrantes em Portugal.
Lisboa, Março de 2012
Maria Benedicta Vassalo Pereira Bastos Monteiro é natural de Lisboa onde completou os estudos superiores em Filologia Germânica (1964) e em Psicologia (1974). Obteve o grau de Doutor em Psicologia Social na Universidade de Lovaina, na Bélgica (1984), e a Agregação em Psicologia Social no ISCTE (1995), onde é professora catedrática desde 1996.
Desenvolve investigação em diversas áreas da Psicologia Social da Educação e das Relações Interculturais, nomeadamente sobre Efeitos da exposição à TV em comportamentos de agressão, Crenças dos educadores sobre desenvolvimento e educação das crianças, Desenvolvimento e redução do preconceito racial na infância, Discriminação de minorias sociais e acção colectiva e Processos de aculturação de minorias migrantes, sobre os quais apresentou Conferências
e Comunicações em dezenas de Universidades e publicou livros, capítulos de livros e artigos científicos em Editoras e Revistas portuguesas e estrangeiras.
Foi professora convidada nas Universidades de Paris, Cambridge, Roma, Pádua, Liège, Barcelona, Sergipe, Paraíba e Recife e em várias universidades portuguesas. Desempenhou vários cargos de consultoria e de direcção, tais como, Presidente do Departamento de Psicologia Social e das Organizações do ISCTE (1999-2006), Presidente do Centro de Investigação e de Intervenção Social (ISCTE, 1999-2002), Presidente da Associação Portuguesa de Psicologia (2000-2006), Directora da Revista Psicologia (2002-2010), Directora dos Estudos Doutorais em Psicologia no ISCTE (2002- 2006), Consultora da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) em Avaliação de Projectos de Investigação Científica (2002-2005), Consultora do Ministério da Educação (GAVE) em Avaliação de Programas de Psicologia (2001-2005), Consultora da Comissão Europeia em avaliação de candidaturas Marie Curie (1998-2001).
Por convite de instituições educativas e de saúde e de Associações privadas e municipais, fez intervenções públicas sobre violência na escola, racismo e políticas públicas, delinquência, educação multicultural e sucesso escolar, negociação de conflitos e situação dos grupos migrantes em Portugal.
Lisboa, Março de 2012
quarta-feira, 21 de março de 2012
CUSTÒDIA DOMINGUES
O jornalismo feminino da Diáspora
O caso de França: a afirmação de uma autonomia
Custódia Domingues
Maia - Novembro 2011
Resumo
Em primeiro lugar permitam - me dizer o quanto dou valor a esta iniciativa
da associação “Mulher Migrante”. Considero que é um trabalho marcante
o que tem sido e está a ser feito por esta associação, em prol das
mulheres das comunidades portuguesas. O contributo que tem dado para
permitir uma maior visibilidade e um conhecimento real da história destas
mulheres ficará para o futuro.
Introdução
A evolução das comunidades portuguesas, e em particular as mulheres,
conheceu várias idades, desde os anos mais longínquos da emigração –
com carácter legal ou não – e da chegada aos países que as receberam até
aos dias de hoje. Este trabalho vai centrar-se no caso de França como país
de acolhimento, pois não é possível tratar o tema sem o limitar em termos
geográficos.
Caracterização
Para memória: na altura da Segunda Guerra Mundial, o número de
portugueses em França era cerca de 22 mil. (1)
A partir das décadas seguintes, é possível caracterizar melhor a emigração
portuguesa em França:
- Final dos anos 50 até 1974: A idade da emigração como procura da
sobrevivência e de uma vida material mais sólida. Em 1968, contavam-se
cerca de 500 mil portugueses em França. (2)
- Após 1974 até aos anos 90: A idade de uma conquista económica
baseada no trabalho, na procura da estabilidade financeira e na
transmissão de novos valores aos filhos.
(1) Janus 2001 –Estudo sobre a comunidade portuguesa em França
(2) “Le va-et-vient des Portugais en Europe” - revue Projet – 2001
Nos anos 90, as estatísticas francesas falavam de 900 mil a 1 milhão
de portugueses no país, ou até mais.
- Dos anos 90 até hoje: A idade da afirmação de uma autonomia
para a comunidade portuguesa que é igualmente o tempo de uma
segunda e mesmo de uma terceira geração que nasceu, cresceu e se
tornou adulta em território francês.
São os binacionais, ou luso-descendentes, que vivem, em simultâneo, a
riqueza e a complexidade de pertencerem a duas culturas. Em termos
demográficos, é complexo saber o número exato das pessoas nesta
situação, uma vez que o processo de «melting-pot» é pujante e significa
que os padrões de classificação são claramente difusos. De qualquer
modo, embora o ministério português dos Negócios Estrangeiros fale em
cerca de cinco milhões de portugueses e luso-descendentes espalhados
pelo mundo, este número será possivelmente mais elevado, com algumas
fontes a apontarem para números entre 10 e 15 milhões. Destes,
seguramente, mais de um milhão encontra-se em França.
- Ainda está para chegar, com plena maturidade e sobretudo com
maior visibilidade e reconhecimento a idade do exercício da cidadania.
Uma idade de poder político, poder no mundo dos negócios e poder cívico
com consciência.
É importante, no entanto, referir que algum caminho já foi percorrido e
existem hoje em França cerca de três mil luso-descendentes eleitos para
cargos políticos. Podemos citar os casos de algumas mulheres como Alda
Pereira-Lemaître, presidente da câmara de Noisy-le-Sec entre 2008 e
2010 ou Cristelle de Oliveira, a primeira portuguesa a apresentar-se como
candidata às eleições para o Parlamento Europeu. Existe ainda a CIVICA
- Associação de autarcas portugueses e luso-descendentes em França.
Segundo dados fornecidos por esta instituição, nas eleições municipais
francesas, em 2001, foram eleitos 350 autarcas de origem portuguesa.
As Mulheres da Diáspora em França: da idade da sobrevivência à idade
da autonomia
As mulheres tiveram um papel notório no movimento da emigração, em
particular nos anos 60, quando começaram a juntar-se aos familiares que
já se encontravam no país e a dedicar-se a tarefas pouco qualificadas
como, por exemplo, trabalhos domésticos e funções de «concierges».
Gradualmente, chegaram a um lugar e um espaço próprio: o do respeito
e o da autonomia. As mulheres conquistaram o respeito dos maridos,
dos filhos e da própria sociedade de acolhimento. Foram as grandes
transmissoras de valores no interior da família e fizeram a ponte entre
as duas sociedades. Foram elas que procuraram escolarizar os filhos
e permitiram a comunicação entre as duas culturas através de uma
aproximação e convivência com a sociedade de acolhimento, em
particular por meio das tarefas profissionais que exerciam. Essas mulheres
conquistaram autonomia financeira ao trabalharem tanto como os
maridos e contribuíram para o crescimento das capacidades financeiras
das famílias. Em paralelo, tomaram consciência do seu papel na sociedade
e souberam transmitir à geração seguinte o sentido da cidadania, em
particular através do acesso à educação, caminho para a autonomia.
A chegada das mulheres emigrantes aos media confunde-se com a
história da diáspora.
Porquê, dir-me-ão, a necessidade de descrever, mesmo que em grandes
linhas, a evolução histórica e social da emigração e das mulheres, quando
o que se pretende é caracterizar o papel das mulheres na comunicação
social da diáspora em França?
Porque o caminho é o mesmo.
Porque uma história confunde-se com a outra.
Porque se existem – e existem ainda que em quantidade limitada –, em
2011, mulheres jornalistas binacionais ou luso-descendentes é porque
foi traçado um percurso, o da idade da sobrevivência até à idade da
afirmação da autonomia.
Essa autonomia é, hoje, a de mulheres de segunda ou terceira geração
capazes de viver e trabalhar na sociedade francesa, inclusivamente nos
media, onde continuam a fazer crescer as consciências e o saber.
Os desafios atuais
Mulheres franco-portuguesas nos media franceses
Vamos citar alguns nomes presentes nos media nacionais franceses:
- Helena Morna – TV5
- Dulce Dias – Jornalista freelancer instalada na região de Lyon, que
também trabalha para a redacção portuguesa da Euronews.
A Radio France Internationale é um meio de comunicação francês que
conservou uma redacção de língua portuguesa, após vários meses de
luta por parte dos jornalistas. Salientamos que uma mulher da segunda
geração, Úrsula Soares, dirige a redacção de língua portuguesa para os
países africanos francófonos.
E, porque não referir alguns nomes no masculino?
- Paul Moreira – Trabalhou na RFI e atualmente desenvolve a sua atividade
no conhecido magazine “90 minutes” do Canal Plus
- Jorge Silva – Apresenta uma crónica na TV5 e trabalhou alguns anos no
programa “Encore” com a jornalista de origem espanhola Christine Bravo.
Quando assistimos ao telejornal da TF1 ou da France 2, é já relativamente
frequente, quando citam os repórteres, ouvirem-se nomes com
ressonância portuguesa: Paul Teixeira, Carine Santos, etc.
Mulheres franco-portuguesas nos media da Comunidade Portuguesa
Podem ser igualmente referidas aqui jovens jornalistas, presentes em
meios associativos e que escrevem para media menos conhecidos. São os
casos, por exemplo, de Liliane Saraiva, Stéphanie Ribeiro, Estelle Valente
na revista CapMag ou Carina Branco e Christine Soares da Lusopress TV.
É igualmente relevante citar alguns dos desafios que se colocam hoje às
mulheres da diáspora, apesar do percurso já feito. As mulheres jornalistas
da comunidade portuguesa em França conhecem problemas similares
aos das colegas jornalistas francesas, sendo que como se pode entender
a realidade da imprensa de língua portuguesa em França nada tem a ver
com a realidade do mercado profissional da comunicação e imprensa
francês:
-O nível de responsabilidades nas redacções é inferior ao dos
colegas homens.
- O nível de remuneração é inferior ao dos homens.
Alguns aspetos particulares da imprensa da comunidade portuguesa em
França:
- A precariedade da atividade: Ela é desenvolvida em carácter
de free-lance ou até sem verdadeiro vínculo ou estatuto e em órgãos
de comunicação que por vezes se encontram em situações demasiado
frágeis do ponto de vista económico e que não possuem uma estrutura
suficientemente profissionalizada.
- A escassa credibilidade dos media e da sua robustez financeira.
- A dificuldade em conquistar a geração mais recente de
binacionais/luso-descendentes para trabalharem nos media das
comunidades portuguesas.
Um parêntese curto
Este último aspecto está ligado, globalmente, a uma imagem de
Portugal que perdeu influência nas segundas e terceiras gerações das
comunidades portuguesas, na Europa e fora de Europa.
Se me permitem, no início dos anos 90 vim para Portugal para
dirigir e implementar, em equipa, um projecto que fazia todo o sentido: A
Confederação Mundial dos Empresários das Comunidades Portuguesas -
CMECP, de que fui secretária-geral.
O projeto que surgiu nos anos 90, de forma a implementar uma rede
de influência junto das comunidades portuguesas, estava certo e o timing
era também o certo.
Um projeto empolgante e com muito sentido para quem vive
e conhece a problemática das comunidades portuguesas e a sua
necessidade de se congregar em network, numa rede de influência
empresarial/económica, em particular após a entrada de Portugal na
Comunidade Europeia, em 1986.
Esse projeto, ao qual estive ligada até meados da década de 90, foi
desvirtuado por interesses financeiros e económicos e ficou pelo caminho.
Não serviu os interesses dos empresários da Diáspora, nem, infelizmente,
do país. Mas, o mundo empresarial das Comunidades – para quem o
conhece – continua a existir e com apreciáveis casos de sucessos.
É de lamentar que, perante a crise em que as economias mundiais
e portuguesa se encontram, não ter sido até agora concebido e criado
com seriedade uma verdadeira “Câmara de Comércio das Comunidades
Portuguesas”. Não ouvi até hoje nenhum decisor pensar nesses termos.
Essa sim, bem conduzida e com uma estratégia adequada a realidade
atual, pode dar frutos.
Imprensa online
Os suportes online existem na imprensa de língua portuguesa em França e
permitem a um público mais jovem, e feminino, expressar-se:
Sites:
Três de importância:
-Portugal vivo
- CapMag
-Luso.fr
A blogosfera bilingue
Alguns exemplos
- Fenêtre sur le Portugal
-Portugalmaniac´s
- Oi-campinas
-Aldeia- de-Gralhas.fr
Etc.
Existem luso-franceses e mulheres a trabalharem em jornais, revistas e
rádios das comunidades. Citamos os media mais conhecidos:
- Lusojornal
- Lusopress News
- Encontro
- Portugal Sempre
- Correio Português
- Action Catholique Ouvrière
- Cap Mag
- Vida Lusa
- Rádio Alfa
A este propósito é de referir que existem em França 42 rádios locais com
programas em língua portuguesa, bem como um canal de televisão por
cabo: a Lusopress TV.
Hoje em dia a rádio Alfa é sem dúvida “ la radio des Portugais de France”,
uma rádio com jornalistas profissionais que emite 24 horas por dia na
frequência FM 98.6. É conhecida e ouvida pela comunidade portuguesa e
lusófona em Paris, toda a região parisiense e em França. Existe desde 1987
e é uma referência para a comunidade.
Seria necessário confirmar, via um estudo científico mais aprofundado,
aquilo que nesta fase apurámos através de um levantamento mais
limitado, ou seja a direção dos media acima referidos, por exemplo, ainda
é na sua maioria masculina, com uma excepção, pelo menos segunda
a informação que obtivemos, pois na Lusopress News, é uma mulher a
dirigir a publicação: Lídia Sales.
Breve caracterização histórica dos media da diáspora em França
O jornalismo da comunidade portuguesa em França só começou a dar
mais espaço às mulheres – e elas próprias só começaram a conquistar
mais esse espaço – a partir de finais dos anos 80, princípios dos anos 90
com as chamadas «rádios livres».
Em 1982, o Estado francês emitiu várias licenças de rádio e foi a partir daí
que começou a irromper uma geração de jovens mulheres animadoras
de programas de rádio em toda a França (são os casos dos conhecidos
Radio Club Portugais, Radio Eglantine e Rádio Portugal no Mundo). Este
fenómeno também está ligado à vida associativa, muito intensa em
França: cada organismo criava o seu boletim informativo e o respetivo
espaço de expressão. Hoje, o número de associações que publicam com
regularidade um boletim informativo anda à volta de 30, mas na altura
representavam mais de uma centena.
O jornal «Presença Portuguesa» (1965-1996) foi a publicação que
inicialmente mais marcou a emigração portuguesa em França, pela sua
qualidade e a sua duração no tempo.
A seguir podem- se destacar, pelas suas reportagens e artigos:
- «Publi-Portugal» (anos 80 a 90)
- «Traço-de-União» (1985 – 1992)
- A revista «Peregrinação – des Arts et des Lettres de la diaspora
portugaise» (1983–1990) na qual modestamente publiquei alguns
escritos, também foi um marco na área literária. Existia um espaço para a
escrita feminina e uma expressão mais trabalhada teve oportunidade de
se dar a conhecer nos campos da literatura, teatro e poesia.
- «Luso-jornal» que iniciou a sua atividade em 2004 e que continua
presente no espaço da comunidade portuguesa de França. Trata da
atualidade e também tem um espaço mais dedicado à vida cultural.
Conclusão
O papel das mulheres nos media de expressão portuguesa em França
evoluiu dos anos 70 até ao presente. Passaram do invisível para o visível,
conquistaram um lugar na sociedade e, por consequência, no espaço de
expressão que é a comunicação social.
Tratam temas de atualidade, politica, desporto, economia, literatura
e talvez tenham uma vivência que lhes permite tratar com maior
sensibilidade os temas de cariz social.
As mulheres de segunda e terceira geração estão, na sua grande maioria,
a viver na sociedade de acolhimento que as viu nascer e deram um salto
qualitativo em termos de formação e educação. Da «concierge» passou-
se para mulheres com um currículo universitário e que vivem plenamente
a sua cidadania num mundo global. São cidadãs jornalistas, advogadas,
músicas, empregadas de escritório, administrativas, professoras
universitárias, médicas, etc.
Em 2011, existe ainda um trabalho de informação e comunicação por
fazer em Portugal sobre a evolução das comunidades portuguesas.
Esse trabalho seria, aliás, um motivo de auto-estima para os próprios
portugueses que vivem no território português. Para além de apaziguar
e repor alguma justiça numa imagem das comunidades no exterior que
continua desajustada no tempo, daria trunfos a Portugal.
É que as novas gerações não ficaram paradas no tempo. Souberam evoluir
e de uma primeira geração mais limitada e sacrificada passou-se para uma
terceira geração que está, ainda lentamente mas certamente, a fazer um
caminho de conhecimento da sua identidade e de qualificação do seu
estatuto profissional e cívico.
As mulheres jornalistas da diáspora são umas guerreiras e mensageiras
que continuam a dar voz, visibilidade, expressão e sentido à vivência de
milhões de portugueses espalhados pelo mundo.
.BIO ( que também vai em anexo)
Custódia Domingues
-Especialista em Estratégia de Comunicação e Negociação/ Gestão de Redes deIinfluência/ Assessoria de Imprensa/ Jornalismo. Business/ Development/ Experiência em Internacionalização
O caso de França: a afirmação de uma autonomia
Custódia Domingues
Maia - Novembro 2011
Resumo
Em primeiro lugar permitam - me dizer o quanto dou valor a esta iniciativa
da associação “Mulher Migrante”. Considero que é um trabalho marcante
o que tem sido e está a ser feito por esta associação, em prol das
mulheres das comunidades portuguesas. O contributo que tem dado para
permitir uma maior visibilidade e um conhecimento real da história destas
mulheres ficará para o futuro.
Introdução
A evolução das comunidades portuguesas, e em particular as mulheres,
conheceu várias idades, desde os anos mais longínquos da emigração –
com carácter legal ou não – e da chegada aos países que as receberam até
aos dias de hoje. Este trabalho vai centrar-se no caso de França como país
de acolhimento, pois não é possível tratar o tema sem o limitar em termos
geográficos.
Caracterização
Para memória: na altura da Segunda Guerra Mundial, o número de
portugueses em França era cerca de 22 mil. (1)
A partir das décadas seguintes, é possível caracterizar melhor a emigração
portuguesa em França:
- Final dos anos 50 até 1974: A idade da emigração como procura da
sobrevivência e de uma vida material mais sólida. Em 1968, contavam-se
cerca de 500 mil portugueses em França. (2)
- Após 1974 até aos anos 90: A idade de uma conquista económica
baseada no trabalho, na procura da estabilidade financeira e na
transmissão de novos valores aos filhos.
(1) Janus 2001 –Estudo sobre a comunidade portuguesa em França
(2) “Le va-et-vient des Portugais en Europe” - revue Projet – 2001
Nos anos 90, as estatísticas francesas falavam de 900 mil a 1 milhão
de portugueses no país, ou até mais.
- Dos anos 90 até hoje: A idade da afirmação de uma autonomia
para a comunidade portuguesa que é igualmente o tempo de uma
segunda e mesmo de uma terceira geração que nasceu, cresceu e se
tornou adulta em território francês.
São os binacionais, ou luso-descendentes, que vivem, em simultâneo, a
riqueza e a complexidade de pertencerem a duas culturas. Em termos
demográficos, é complexo saber o número exato das pessoas nesta
situação, uma vez que o processo de «melting-pot» é pujante e significa
que os padrões de classificação são claramente difusos. De qualquer
modo, embora o ministério português dos Negócios Estrangeiros fale em
cerca de cinco milhões de portugueses e luso-descendentes espalhados
pelo mundo, este número será possivelmente mais elevado, com algumas
fontes a apontarem para números entre 10 e 15 milhões. Destes,
seguramente, mais de um milhão encontra-se em França.
- Ainda está para chegar, com plena maturidade e sobretudo com
maior visibilidade e reconhecimento a idade do exercício da cidadania.
Uma idade de poder político, poder no mundo dos negócios e poder cívico
com consciência.
É importante, no entanto, referir que algum caminho já foi percorrido e
existem hoje em França cerca de três mil luso-descendentes eleitos para
cargos políticos. Podemos citar os casos de algumas mulheres como Alda
Pereira-Lemaître, presidente da câmara de Noisy-le-Sec entre 2008 e
2010 ou Cristelle de Oliveira, a primeira portuguesa a apresentar-se como
candidata às eleições para o Parlamento Europeu. Existe ainda a CIVICA
- Associação de autarcas portugueses e luso-descendentes em França.
Segundo dados fornecidos por esta instituição, nas eleições municipais
francesas, em 2001, foram eleitos 350 autarcas de origem portuguesa.
As Mulheres da Diáspora em França: da idade da sobrevivência à idade
da autonomia
As mulheres tiveram um papel notório no movimento da emigração, em
particular nos anos 60, quando começaram a juntar-se aos familiares que
já se encontravam no país e a dedicar-se a tarefas pouco qualificadas
como, por exemplo, trabalhos domésticos e funções de «concierges».
Gradualmente, chegaram a um lugar e um espaço próprio: o do respeito
e o da autonomia. As mulheres conquistaram o respeito dos maridos,
dos filhos e da própria sociedade de acolhimento. Foram as grandes
transmissoras de valores no interior da família e fizeram a ponte entre
as duas sociedades. Foram elas que procuraram escolarizar os filhos
e permitiram a comunicação entre as duas culturas através de uma
aproximação e convivência com a sociedade de acolhimento, em
particular por meio das tarefas profissionais que exerciam. Essas mulheres
conquistaram autonomia financeira ao trabalharem tanto como os
maridos e contribuíram para o crescimento das capacidades financeiras
das famílias. Em paralelo, tomaram consciência do seu papel na sociedade
e souberam transmitir à geração seguinte o sentido da cidadania, em
particular através do acesso à educação, caminho para a autonomia.
A chegada das mulheres emigrantes aos media confunde-se com a
história da diáspora.
Porquê, dir-me-ão, a necessidade de descrever, mesmo que em grandes
linhas, a evolução histórica e social da emigração e das mulheres, quando
o que se pretende é caracterizar o papel das mulheres na comunicação
social da diáspora em França?
Porque o caminho é o mesmo.
Porque uma história confunde-se com a outra.
Porque se existem – e existem ainda que em quantidade limitada –, em
2011, mulheres jornalistas binacionais ou luso-descendentes é porque
foi traçado um percurso, o da idade da sobrevivência até à idade da
afirmação da autonomia.
Essa autonomia é, hoje, a de mulheres de segunda ou terceira geração
capazes de viver e trabalhar na sociedade francesa, inclusivamente nos
media, onde continuam a fazer crescer as consciências e o saber.
Os desafios atuais
Mulheres franco-portuguesas nos media franceses
Vamos citar alguns nomes presentes nos media nacionais franceses:
- Helena Morna – TV5
- Dulce Dias – Jornalista freelancer instalada na região de Lyon, que
também trabalha para a redacção portuguesa da Euronews.
A Radio France Internationale é um meio de comunicação francês que
conservou uma redacção de língua portuguesa, após vários meses de
luta por parte dos jornalistas. Salientamos que uma mulher da segunda
geração, Úrsula Soares, dirige a redacção de língua portuguesa para os
países africanos francófonos.
E, porque não referir alguns nomes no masculino?
- Paul Moreira – Trabalhou na RFI e atualmente desenvolve a sua atividade
no conhecido magazine “90 minutes” do Canal Plus
- Jorge Silva – Apresenta uma crónica na TV5 e trabalhou alguns anos no
programa “Encore” com a jornalista de origem espanhola Christine Bravo.
Quando assistimos ao telejornal da TF1 ou da France 2, é já relativamente
frequente, quando citam os repórteres, ouvirem-se nomes com
ressonância portuguesa: Paul Teixeira, Carine Santos, etc.
Mulheres franco-portuguesas nos media da Comunidade Portuguesa
Podem ser igualmente referidas aqui jovens jornalistas, presentes em
meios associativos e que escrevem para media menos conhecidos. São os
casos, por exemplo, de Liliane Saraiva, Stéphanie Ribeiro, Estelle Valente
na revista CapMag ou Carina Branco e Christine Soares da Lusopress TV.
É igualmente relevante citar alguns dos desafios que se colocam hoje às
mulheres da diáspora, apesar do percurso já feito. As mulheres jornalistas
da comunidade portuguesa em França conhecem problemas similares
aos das colegas jornalistas francesas, sendo que como se pode entender
a realidade da imprensa de língua portuguesa em França nada tem a ver
com a realidade do mercado profissional da comunicação e imprensa
francês:
-O nível de responsabilidades nas redacções é inferior ao dos
colegas homens.
- O nível de remuneração é inferior ao dos homens.
Alguns aspetos particulares da imprensa da comunidade portuguesa em
França:
- A precariedade da atividade: Ela é desenvolvida em carácter
de free-lance ou até sem verdadeiro vínculo ou estatuto e em órgãos
de comunicação que por vezes se encontram em situações demasiado
frágeis do ponto de vista económico e que não possuem uma estrutura
suficientemente profissionalizada.
- A escassa credibilidade dos media e da sua robustez financeira.
- A dificuldade em conquistar a geração mais recente de
binacionais/luso-descendentes para trabalharem nos media das
comunidades portuguesas.
Um parêntese curto
Este último aspecto está ligado, globalmente, a uma imagem de
Portugal que perdeu influência nas segundas e terceiras gerações das
comunidades portuguesas, na Europa e fora de Europa.
Se me permitem, no início dos anos 90 vim para Portugal para
dirigir e implementar, em equipa, um projecto que fazia todo o sentido: A
Confederação Mundial dos Empresários das Comunidades Portuguesas -
CMECP, de que fui secretária-geral.
O projeto que surgiu nos anos 90, de forma a implementar uma rede
de influência junto das comunidades portuguesas, estava certo e o timing
era também o certo.
Um projeto empolgante e com muito sentido para quem vive
e conhece a problemática das comunidades portuguesas e a sua
necessidade de se congregar em network, numa rede de influência
empresarial/económica, em particular após a entrada de Portugal na
Comunidade Europeia, em 1986.
Esse projeto, ao qual estive ligada até meados da década de 90, foi
desvirtuado por interesses financeiros e económicos e ficou pelo caminho.
Não serviu os interesses dos empresários da Diáspora, nem, infelizmente,
do país. Mas, o mundo empresarial das Comunidades – para quem o
conhece – continua a existir e com apreciáveis casos de sucessos.
É de lamentar que, perante a crise em que as economias mundiais
e portuguesa se encontram, não ter sido até agora concebido e criado
com seriedade uma verdadeira “Câmara de Comércio das Comunidades
Portuguesas”. Não ouvi até hoje nenhum decisor pensar nesses termos.
Essa sim, bem conduzida e com uma estratégia adequada a realidade
atual, pode dar frutos.
Imprensa online
Os suportes online existem na imprensa de língua portuguesa em França e
permitem a um público mais jovem, e feminino, expressar-se:
Sites:
Três de importância:
-Portugal vivo
- CapMag
-Luso.fr
A blogosfera bilingue
Alguns exemplos
- Fenêtre sur le Portugal
-Portugalmaniac´s
- Oi-campinas
-Aldeia- de-Gralhas.fr
Etc.
Existem luso-franceses e mulheres a trabalharem em jornais, revistas e
rádios das comunidades. Citamos os media mais conhecidos:
- Lusojornal
- Lusopress News
- Encontro
- Portugal Sempre
- Correio Português
- Action Catholique Ouvrière
- Cap Mag
- Vida Lusa
- Rádio Alfa
A este propósito é de referir que existem em França 42 rádios locais com
programas em língua portuguesa, bem como um canal de televisão por
cabo: a Lusopress TV.
Hoje em dia a rádio Alfa é sem dúvida “ la radio des Portugais de France”,
uma rádio com jornalistas profissionais que emite 24 horas por dia na
frequência FM 98.6. É conhecida e ouvida pela comunidade portuguesa e
lusófona em Paris, toda a região parisiense e em França. Existe desde 1987
e é uma referência para a comunidade.
Seria necessário confirmar, via um estudo científico mais aprofundado,
aquilo que nesta fase apurámos através de um levantamento mais
limitado, ou seja a direção dos media acima referidos, por exemplo, ainda
é na sua maioria masculina, com uma excepção, pelo menos segunda
a informação que obtivemos, pois na Lusopress News, é uma mulher a
dirigir a publicação: Lídia Sales.
Breve caracterização histórica dos media da diáspora em França
O jornalismo da comunidade portuguesa em França só começou a dar
mais espaço às mulheres – e elas próprias só começaram a conquistar
mais esse espaço – a partir de finais dos anos 80, princípios dos anos 90
com as chamadas «rádios livres».
Em 1982, o Estado francês emitiu várias licenças de rádio e foi a partir daí
que começou a irromper uma geração de jovens mulheres animadoras
de programas de rádio em toda a França (são os casos dos conhecidos
Radio Club Portugais, Radio Eglantine e Rádio Portugal no Mundo). Este
fenómeno também está ligado à vida associativa, muito intensa em
França: cada organismo criava o seu boletim informativo e o respetivo
espaço de expressão. Hoje, o número de associações que publicam com
regularidade um boletim informativo anda à volta de 30, mas na altura
representavam mais de uma centena.
O jornal «Presença Portuguesa» (1965-1996) foi a publicação que
inicialmente mais marcou a emigração portuguesa em França, pela sua
qualidade e a sua duração no tempo.
A seguir podem- se destacar, pelas suas reportagens e artigos:
- «Publi-Portugal» (anos 80 a 90)
- «Traço-de-União» (1985 – 1992)
- A revista «Peregrinação – des Arts et des Lettres de la diaspora
portugaise» (1983–1990) na qual modestamente publiquei alguns
escritos, também foi um marco na área literária. Existia um espaço para a
escrita feminina e uma expressão mais trabalhada teve oportunidade de
se dar a conhecer nos campos da literatura, teatro e poesia.
- «Luso-jornal» que iniciou a sua atividade em 2004 e que continua
presente no espaço da comunidade portuguesa de França. Trata da
atualidade e também tem um espaço mais dedicado à vida cultural.
Conclusão
O papel das mulheres nos media de expressão portuguesa em França
evoluiu dos anos 70 até ao presente. Passaram do invisível para o visível,
conquistaram um lugar na sociedade e, por consequência, no espaço de
expressão que é a comunicação social.
Tratam temas de atualidade, politica, desporto, economia, literatura
e talvez tenham uma vivência que lhes permite tratar com maior
sensibilidade os temas de cariz social.
As mulheres de segunda e terceira geração estão, na sua grande maioria,
a viver na sociedade de acolhimento que as viu nascer e deram um salto
qualitativo em termos de formação e educação. Da «concierge» passou-
se para mulheres com um currículo universitário e que vivem plenamente
a sua cidadania num mundo global. São cidadãs jornalistas, advogadas,
músicas, empregadas de escritório, administrativas, professoras
universitárias, médicas, etc.
Em 2011, existe ainda um trabalho de informação e comunicação por
fazer em Portugal sobre a evolução das comunidades portuguesas.
Esse trabalho seria, aliás, um motivo de auto-estima para os próprios
portugueses que vivem no território português. Para além de apaziguar
e repor alguma justiça numa imagem das comunidades no exterior que
continua desajustada no tempo, daria trunfos a Portugal.
É que as novas gerações não ficaram paradas no tempo. Souberam evoluir
e de uma primeira geração mais limitada e sacrificada passou-se para uma
terceira geração que está, ainda lentamente mas certamente, a fazer um
caminho de conhecimento da sua identidade e de qualificação do seu
estatuto profissional e cívico.
As mulheres jornalistas da diáspora são umas guerreiras e mensageiras
que continuam a dar voz, visibilidade, expressão e sentido à vivência de
milhões de portugueses espalhados pelo mundo.
.BIO ( que também vai em anexo)
Custódia Domingues
-Especialista em Estratégia de Comunicação e Negociação/ Gestão de Redes deIinfluência/ Assessoria de Imprensa/ Jornalismo. Business/ Development/ Experiência em Internacionalização
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