12 - Comunicação de Maria da Conceição Ramos
Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diáspora
24-26 de Novembro de 2011
Professora Doutora Maria da Conceição Pereira Ramos
Universidade do Porto – Faculdade de Economia
e CEMRI – UAb
e-mail: cramos@fep.up.pt
Comunicação
Trabalho e empreendedorismo social da mulher portuguesa na diáspora
Resumo
A constituição de uma grande diáspora portuguesa e feminina é visível na sua forte representação nos países de acolhimento, onde o trabalho é uma dimensão essencial de autonomia, de integração e de socialização.
Os portugueses imigrantes, homens e mulheres, no passado e no presente, denotam capacidade de organização, de liderança e de comprometimento em organizações de voluntariado, de ordem associativa, organizações sem fins lucrativos, pertencendo ao terceiro sector, à economia social e solidária.
O conjunto de iniciativas socioculturais e político-cívicas (ensino da língua, promoção e divulgação da cultura portuguesa, apoio social, assistência jurídico-informativa, ….) ajudam na integração social dos migrantes e na aproximação e visibilidade da comunidade.
Assinale-se a importância do trabalho das mulheres migrantes, muito dele voluntário, e do seu empreendedorismo para o sistema económico e a solidariedade social. Estas mulheres são agentes de mudança e de desenvolvimento nos países de origem e de acolhimento, onde a sua participação contribui para o aumento da cidadania e da coesão social.
“E aonde chegue um emigrante lusíada chega uma criatura convivente, prestante, diligente e influente, que concilia, congrega, desbrava, cria riqueza, funda instituições benemerentes, semeia humanidade. E chegam sempre portugueses aos mais recônditos confins do globo, de saquita ao ombro e de cordialidade na voz e na alma”.
Miguel Torga, Diário XV, Círculo de Leitores, 2001, p. 1471-1472.
1 – Trabalho das mulheres migrantes e intercâmbios culturais e económicos
Os migrantes, homens e mulheres, têm uma importância fundamental na diáspora de Portugal no mundo, seja pelo seu número, seja pelo papel activo que desempenham no mercado de trabalho, nas redes sociais e associativas, na economia e desenvolvimento dos países de acolhimento e de origem. A constituição de uma grande diáspora portuguesa e feminina é visível na forte representação atingida nos países de acolhimento, onde o seu trabalho é uma dimensão essencial de integração e de socialização.
Importância das mulheres portuguesas nalguns países europeus
Países Nº Portugueses % mulheres
Reino Unido (2009) 96 000 50%
Bélgica (2007) 29 800 49%
França (2007) 491 000 47%
Alemanha (2009) 205 300 46%
Suíça (2009) 205 300 45%
Holanda (2009) 15 400 45%
Fonte: OCDE (2011)
A França e a Alemanha são países de emigração mais antiga, sobretudo a partir dos anos sessenta do século XX, onde os fluxos migratórios já estão consolidados, existindo “segundas” e “terceiras” gerações de migrantes (Ramos, 1999). No Reino Unido e na Suíça, os fluxos de mobilidade são mais recentes e as “segundas” gerações são ainda jovens.
No ano de 2011, as estimativas referem que terão saído 120 mil cidadãos de Portugal. Imperativos de ordem económica e profissional determinam a grande parte destes movimentos migratórios. O aumento da emigração dos mais qualificados ao nível mundial é uma tendência dos últimos anos (Ramos, 2008b). Cerca de 20% dos licenciados portugueses emigram (Docquier e Marfouk, 2006). Actualmente, uma parte significativa desta emigração ocorre no espaço da livre circulação da União Europeia e assume uma lógica temporária e não definitiva, mas também assistimos à descoberta de novos destinos extra-europeus, como o Brasil e Angola. Engenheiros, arquitectos, gestores, face à recessão do sector da construção, começam a dirigir-se para estes destinos mais distantes, onde a oferta de emprego é grande. Enfermeiros, farmacêuticos e médicos-dentistas, por exemplo, têm na Europa o destino privilegiado, estando as mulheres fortemente representadas nestes novos fluxos, nomeadamente associados à saúde e à educação.
Existe uma procura do trabalho feminino na economia global, tanto para actividades mais qualificadas, como menos qualificadas, nas novas tecnologias, na saúde, na educação, nos serviços pessoais e sociais, nomeadamente para o trabalho doméstico e de enfermagem (Ramos, 2009, 2011a). A feminização das migrações internacionais é uma das principais características da nova era das migrações. As mulheres representam 53% dos migrantes na Europa, a taxa mais elevada em relação aos outros continentes (OSCE/OIM/OIT, 2006).
Da análise da emigração portuguesa, constatamos que a emigração feminina transforma a natureza do projecto migratório, reconvertendo-o de temporário em definitivo, ou em mais prolongado. O panorama não se alterou significativamente, até à segunda metade do século XX. É visível o elevado grau de masculinidade na saída de portugueses no período de 1955 a 1974 e incremento da emigração familiar de 1970 a 1974 (Arroteia, 1983; Ramos, 1990). A feminização das migrações ganhou visibilidade no seguimento do choque petrolífero de 1973-74, com as alterações no mercado de trabalho e a reunificação familiar. A família assume um papel determinante no projecto migratório, seja na integração no país de acolhimento, seja na decisão de regresso a Portugal.
A capacidade de decisão e de intervenção das mulheres migrantes portuguesas, bem como o papel activo que desempenham ao nível económico, social e cultural, tem vindo a aumentar. O trabalho, a educação, as competências linguísticas e multiculturais, e a dupla nacionalidade são factores importantes para a integração e a participação cidadã nos países de acolhimento e de origem (Ramos et al, 2007).
Existe heterogeneidade de situações no que respeita à inserção das migrantes portuguesas em diferentes sociedades, sejam de emigração recente ou antiga, sejam mais favoráveis ao emprego e ao empreendedorismo do que outras. No Brasil, por exemplo, os imigrantes portugueses estabeleceram-se nas áreas urbanas e dedicaram-se às actividades comerciais, estando as mulheres portuguesas e o seu trabalho representadas em diferentes estudos (Boschilia, 2005; Pascal, 2005). A importância das mulheres migrantes nos serviços, especialmente trabalho doméstico (Cox, 2006), nomeadamente das mulheres portuguesas, na Europa, é uma realidade (Ramos, 1990, 2009).
As taxas de actividade das emigrantes portuguesas nos países de acolhimento são muito elevadas, superiores às da população residente, autóctone e estrangeira, e a experiência migratória permite-lhes adquirir novas competências. Estando afectadas a serviços pessoais e sociais, têm resistido melhor do que os homens ao contexto de crise actual no mercado de trabalho (OCDE, 2010, 2011), dado que o emprego das mulheres se situa em sectores (sociais e serviços domésticos, por exemplo) que não sofreram tanto com a crise económica. É possível também que as mulheres migrantes tenham aumentado a sua participação no mercado de trabalho, a fim de compensar as perdas de rendimentos dos homens migrantes.
Assinale-se, no entanto, a importância das mulheres migrantes entre os trabalhadores com modalidades atípicas, temporárias e precárias de emprego, onde acumulam algumas discriminações, ocupando mais frequentemente do que as autóctones empregos para os quais são sobrequalificadas e sendo mais afectadas pelo desemprego (Ramos, 2010). É escassa a informação sobre as condições de trabalho das pessoas imigrantes e o efeito que têm sobre a saúde. A invisibilidade das condições de trabalho das mulheres no sector doméstico é um exemplo. Natália Ramos (1993, 2009, 2010, 2011) tem analisado algumas das questões que se colocam à família e à mulher trabalhadora e mãe imigrante em contexto migratório, e às politicas públicas a implementar visando a sua integração, saúde e desenvolvimento.
Nos países de acolhimento, o trabalho das mulheres migrantes é essencial na área dos serviços, verificando-se uma mobilidade ascendente das “segundas” e “terceiras” gerações, nomeadamente através do acesso ao sector público e às actividades mais qualificadas e por conta própria. A inserção laboral das mulheres migrantes é um factor fundamental de autonomia, rompendo muitas vezes com o controlo patriarcal e a situação de “doméstica” antes da emigração, mas é igualmente um factor de socialização e de ajustamento a valores da sociedade de acolhimento, importantes para a integração e o exercício da cidadania.
Há que destacar os projectos de vida das “novas gerações de migrantes”, relacionados com a sua integração social, cultural, laboral e política, nas sociedades de acolhimento e no quadro da União Europeia e dos novos direitos de cidadania (Ramos, 2003b, 2004, 2005, 2007; La Barre, 2006). Os conhecimentos multiculturais e linguísticos abrem novas perspectivas de emprego às gerações descendentes de portugueses, no quadro da globalização. Neste sentido é pertinente estudar os novos comportamentos de mobilidade e a interacção país de origem/país de acolhimento. Os “novos trabalhadores globais” incluem as populações migrantes, necessárias à eficácia económica. Para as empresas, num contexto de globalização, ter pessoal qualificado, capaz de trabalhar em diversos ambientes culturais e em constante mobilidade, é um factor de competitividade. A internacionalização da economia portuguesa passa pela disponibilidade no mercado de trabalho de recursos humanos, tendo este potencial linguístico, cultural e profissional (Ramos, 2003a).
As mulheres migrantes ganham independência, empoderamento e qualificações, no projecto migratório, tendo um papel decisivo na gestão do orçamento familiar e das poupanças. A sua capacidade empreendedora e o peso crescente no envio de remessas financeiras para Portugal, é evidente. As mulheres migrantes contribuem, cada vez mais, para essas remessas, as quais trazem vantagens para o país de origem, no plano social, educativo e sanitário (Martin, 2007; Ramos, 1990, 2003a). A sua capacidade de poupança e de gestão são importantes contributos para a economia familiar e o desenvolvimento, recomendando a ONU às autoridades bancárias, que foquem a sua atenção nas mulheres migrantes, nas suas remessas e apoiem o seu empreendedorismo. Como constatamos (Ramos, 1990), no estudo da emigração portuguesa em França, a contribuição financeira da mulher é importante, por vezes acumulando horas de trabalho como doméstica em particulares, com limpeza de escritórios à noite, com trabalho de porteira, podendo ganhar um salário superior ao do marido (cf. também Leandro, 1995). A autonomia financeira, impensável antes da emigração, acompanha igualmente a usura e desgaste profissional, com longas jornadas de trabalho.
Os migrantes, mulheres e homens, desenvolvem práticas transnacionais e relações sociais de natureza múltiplas, ligando as sociedades de origem e as de acolhimento, através de transacções culturais e económicas. As mulheres migrantes contribuem para diferentes transformações e inovações, novas dinâmicas familiares e demográficas e mudanças progressistas que afectam as mentalidades, os hábitos de vida, a educação e a igualdade entre os géneros (Ramos, 2008a).
2 - Economia solidária, voluntariado e empreendedorismo social migrante feminino
O sector não lucrativo, referido por terceiro sector, economia social ou sector voluntário, é constituído por diferentes instituições organizadas sob a forma de associação, fundação, misericórdia, cooperativa, mutualidade, clube, etc., prosseguindo variados objectivos. As características comuns deste tipo de organização, numa perspectiva económica, residem na regra de não distribuição dos lucros gerados na actividade e no desenvolvimento de uma actividade que prossegue o bem-estar social (Ramos, 2011b).
O empreendedorismo social é uma actividade inovadora de criação de valor social, que pode ser desenvolvido em diferentes esferas – económica, educativa, social e espiritual – com actividades realizadas por indivíduos e organizações, incluindo o sector público, organizações comunitárias, organizações de acção social e instituições de caridade (Weerawardena e Mort, 2006).
O empreendedorismo social está associado ao desenvolvimento de projectos (de indivíduos ou de comunidades, não necessariamente envolvidos numa organização) que visam o interesse geral, o chamado bem comum, ou dar resposta a necessidades sociais não satisfeitas. O empreendedorismo social tem sido visto como um agente de mudança social, tanto em áreas de preocupação social como na área das políticas sociais públicas (Waddock e Post, 1991).
Falar de empreendedorismo migrante feminino é ir além do empreendedorismo económico e abranger áreas como o empreendedorismo associativo, cultural, social ou político, com impacto na capacidade de intervenção e poder das mulheres migrantes. Tem sido pouco estudado este empreendedorismo social, propiciador de práticas de inovação social com impacto na sociedade, mais vasto do que o grupo migrante a que se destina.
A economia solidária coloca desafios e oportunidades de inovação social nas suas relações com o Estado e a sociedade civil. A inovação social diz respeito a novas estratégias, conceitos, ideias e organizações que respondem a necessidades sociais de todos os tipos – desde as condições de trabalho e de educação, até ao desenvolvimento comunitário e à saúde – e que alargam e reforçam a sociedade civil. A inovação é uma componente crucial do empreendedorismo social. Evidenciando a importância desta questão, o ano de 2011 foi o ano europeu consagrado ao voluntariado e, nomeadamente, ao associativismo migrante.
As associações de migrantes portugueses desenvolvem-se sobretudo depois de 1974, através de um reforço institucional da área emigratória. Em 1980, assinale-se a criação do Conselho das Comunidades Portuguesas no Mundo, facilitando o apoio às associações que dele fizerem parte (DL nº 373/80 de 12 de Setembro). Foi “a primeira experiência de audição e diálogo institucional, entre o governo português, a sua emigração e a sua diáspora. Era um órgão consultivo do governo, constituído por representantes eleitos no mundo associativo, apelando à força e ao papel central que as associações têm na construção e preservação das comunidades de emigrantes” (Aguiar, 2009:257).
As mulheres portuguesas na diáspora têm um importante papel nas redes sociais, através das relações interpessoais fomentadas pelo trabalho, associações, geminações, actividades em paróquias. Estas imigrantes participam no quadro de associações mistas, sobretudo criadas e dirigidas por homens.
Destaca-se a capacidade de organização, de liderança e de comprometimento dos homens e mulheres migrantes portugueses, em organizações de voluntariado, sem fins lucrativos, de ordem associativa, organizações pertencendo ao terceiro sector, à economia social e solidária (Ramos, 2011a,b). Assinala-se assim a importância do trabalho das pessoas migrantes, muito dele voluntário , e do seu empreendedorismo para o sistema económico e a solidariedade social.
Assistiu-se ao desenvolvimento do movimento associativo português no mundo, com objectivos assistenciais, culturais e recreativos (DGACCP, 2010). A beneficência foi uma das características do associativismo migrante em todo o mundo desde o início de oitocentos. No Brasil, a comunidade portuguesa foi a primeira a estabelecer uma cadeia de instituições de voluntariado, apoio a trabalhadores, hospitais, bibliotecas, alfabetização,... (Trindade, 1988; Fonseca, 2009). Tais entidades tiveram um importante papel, por exemplo, no Rio de Janeiro, numa cidade onde a colónia portuguesa era grande e quando no Brasil, do século 19 e início do século 20, o Estado pouco intervinha nas relações profissionais, não tendo políticas de saúde, habitação, previdência ou lazer, e funcionando o associativismo como um meio dos indivíduos conquistarem e exercerem os seus direitos como cidadãos.
A promoção da cidadania dos homens e das mulheres migrantes é um factor importante de coesão social, entendida esta como “a capacidade de uma sociedade assegurar o bem estar de todos os seus membros, minimizar as disparidades e evitar a polarização” (Conselho da Europa, 2004, in Ramos et al, 2009).
A instalação das famílias vai dirigir o movimento associativo para outras funções. Com a chegada de mulheres e famílias, o associativismo ultrapassa a sua fase inicial de mero centro de convívio, café, tertúlia, para adquirir a vertente cultural, de transmissão de tradições e saberes da cultura portuguesa, acompanhados pela música, folclore, festas populares, gastronomia, artesanato, teatro, exposições, palestras, cursos de língua. As mulheres vão determinar novas orientações ao nível de actividades socioculturais e socioeducativas, mas também como secretárias e algumas funções directivas (CEDEP, 1986; Ramos, 1990). Dentro do processo migratório, a mulher tem um papel importante na transmissão de tradições e saberes e da cultura portuguesa no estrangeiro (culinária, canto, dança…).
As iniciativas socioculturais e político-cívicas (ensino da língua, promoção e divulgação da cultura portuguesa, apoio social, assistência jurídico-informativa...), realizadas por homens e mulheres migrantes no movimento associativo, promovem a sua integração social e participação cívica, são veículo de aproximação comunitária, visibilidade da comunidade e meio de conservação e de transmissão do património cultural. A necessidade de manter e cultivar a identidade cultural da comunidade portuguesa e de criar mecanismos para a defesa dos seus interesses na sociedade de acolhimento fez surgir no mundo, cerca de 3000 associações de portugueses (DGACCP), o mais vasto movimento associativo comunitário, nomeadamente em França, onde já existiam, em 1980, 460 associações (Ramos, 1990:586). A propensão associativa dos portugueses no estrangeiro é ressaltada por muitos autores e considerada superior à que se verifica no próprio país. As actividades das associações dirigem-se sobretudo aos membros da comunidade .
Também na vida política, a participação das mulheres migrantes começa a ser visível, sobretudo das jovens gerações na diáspora, como podemos constatar em França. No movimento associativo, as mulheres destacaram-se, sobretudo as novas gerações, desde os anos 80 do século XX em França, na dinamização de actividades culturais e recreativas (Ramos, 1990, 1999). Muitos jovens, sobretudo do sexo feminino, estão motivados em participar com outros jovens, através de associações por si constituídas, quer para se debruçarem sobre a sua realidade e os seus problemas específicos, quer para encontrarem as melhores formas de preservar a cultura portuguesa nos países onde vivem.
As mulheres portuguesas têm-se progressivamente envolvido em organizações políticas, cívicas e filantrópicas, num crescente processo de associativismo.
O associativismo migrante português tem sido maioritariamente liderado por homens, apesar das mulheres terem criado organizações próprias. Datam do final do século XIX, as pioneiras sociedades fraternais ou de socorros mútuos femininas da Califórnia (Adão, 2005). Na 2.ª metade do século XX, a “Sociedade Beneficente das Damas Portuguesas” de Caracas (1969), a “Liga da Mulher Portuguesa” da África do Sul, ou a “Associação da Mulher Imigrante Portuguesa” da Argentina (1998). Data de 1994, a criação em Portugal da Associação Mulher Migrante. A Sociedade de beneficência de Caracas foi fundada por um grupo de portuguesas com fins exclusivamente beneficentes, sendo os primeiros fundos destinados principalmente ao custeio de rendas de casa de famílias cujos responsáveis estavam doentes ou impossibilitados de trabalhar (A. Vieira, in AAVV, 1986:87).
Os líderes associativos, homens e mulheres, trabalham como membros activos, exercendo influência sobre os membros da comunidade, dada a responsabilidade dos postos que ocupam e do papel informal que desempenham. A liderança, sobretudo exercida por homens, encontra-se associada a determinadas qualidades pessoais e à habilidade com que utilizam os seus recursos: domínio da língua do país de acolhimento; formação académica; nível de rendimentos; competências políticas e credibilidade no seio do grupo (Labelle et al., 1994). Enquanto representantes e porta-vozes das comunidades migrantes, os líderes associativos estão frequentemente ligados à acção política e a reivindicações face ao poder instituído. Detentores de importantes redes de conhecimentos, procuram exercer influência junto de instituições sociais, partidos políticos, etc., procurando melhorar as condições de vida dos seus conterrâneos.
3 – Empreendedorismo e solidariedade associados à Igreja e à Obra Católica das Migrações
É importante assinalar as iniciativas da sociedade civil, da Igreja Católica e das comunidades cristãs que, em Portugal ou nos países de destino, permitem experiências de acolhimento e integração dos migrantes.
A criação das irmandades da Misericórdia, com a sua acção assistencial, médica e social em favor dos carenciados, é um exemplo de difusão de uma das instituições religiosas mais antigas que se espalharam após os Descobrimentos dos portugueses, e foram responsáveis pela criação de numerosas albergarias, hospitais e igrejas, onde se cuidava dos mais necessitados. As Santas Casas de Misericórdia no Brasil, por exemplo, devem-se principalmente à acção da Igreja e acompanharam a fixação de colónias de portugueses no Brasil, país onde se desenvolveram, desde 1539, 110 Santas Casas de Misericórdia (Khoury, 2004), após a criação da Confraria de Nossa Senhora da Misericórdia em Lisboa (em 1498).
Verifica-se a cooperação pessoal e institucional entre estruturas da administração pública, da sociedade civil, da Igreja Católica e de outras igrejas, a nível nacional e internacional, relativamente ao esclarecimento dos migrantes e à respectiva integração em contextos interculturais. Cada vez mais o serviço social da paróquia inclui a componente da mobilidade humana.
Veja-se o papel da Obra Católica Portuguesa das Migrações, fundada juridicamente em 1962 (existia desde 1958), para canalizar o apoio espiritual e religioso aos emigrantes, nomeadamente às comunidades portuguesas no estrangeiro, por exemplo, em termos de capelães, mas também a assistência social aos emigrantes. A Igreja tem sido uma estrutura de enquadramento dos emigrantes, criando numerosas missões católicas nos países de imigração.
A chegada da imigração obrigou a reestruturar os serviços diocesanos, que passaram a incorporar novas valências e a atender os imigrantes através dos Secretariados Diocesanos das Migrações. Há ofertórios, uma vez por ano, em Agosto, na semana Nacional das Migrações, organizada desde 1973, constituindo a base do trabalho das migrações ao nível nacional. Uma parte dessa colecta reverte para o Secretariado Nacional das Migrações, outra para os secretariados locais.
A Igreja Católica dispõe de serviços sociais desenvolvidos e vocacionados para várias áreas, entre as quais a das migrações. Os Secretariados têm apoiado os imigrantes em diferentes domínios (cursos de português, apoio jurídico, bolsa de emprego, apoio à procura de habitação, ….), estabelecendo contactos com o SEF, Segurança Social, albergues nocturnos, entidades patronais, sindicatos, serviços de saúde, hospitais, agências funerárias, senhorios, Consulados dos imigrantes em Portugal, Embaixadas de Portugal e Consulados no exterior, etc.
As mulheres contribuíram sempre, fortemente e de forma benévola, para as actividades sociais associadas à Igreja Católica.
4 - Reflexões finais e recomendações - Migrações, género e co-desenvolvimento
Temos vindo a assinalar, como fizemos também no trabalho para o Conselho da Europa (Ramos et al, 2009), como a participação mais igualitária de homens e mulheres nas migrações contribui para a coesão social e o desenvolvimento. Para potenciar os efeitos positivos das migrações e diminuir os impactos negativos nas sociedades de origem, é necessário construir o co-desenvolvimento através da contribuição das populações migrantes, e das suas associações, nos países de imigração e de emigração. Definimos o co-desenvolvimento pelos laços que “reúnem os migrantes, os governos e outras instâncias públicas e privadas, à volta de um projecto de colaboração visando contribuir para o desenvolvimento do país de origem dos migrantes” (Conselho da Europa, 2007, in Ramos et al, 2009:89).
O co-desenvolvimento implica as associações de migrantes que aspiram a ter um papel de transformação social da sociedade de origem; as organizações locais do país de origem, que orientam os recursos para as necessidades de desenvolvimento; as colectividades territoriais dos países de partida, que desejam contribuir para a definição dos objectivos de desenvolvimento das associações de migrantes; as associações do país de acolhimento, capazes de fornecer apoio em termos de financiamento, formação e formalização do projecto; as colectividades territoriais e outras instituições dos países de acolhimento, envolvidas nesta forma de cooperação.
Assinalemos algumas prioridades a ter em conta:
- É necessário prosseguir a pesquisa sobre as comunidades portuguesas e a sua feminização.
- É importante que os estudos, os programas e as políticas de migrações internacionais sejam sensíveis às questões de género, tendo em atenção a situação social e a inclusão das mulheres e homens migrantes e assegurando o desenvolvimento das suas capacidades de participação no projecto migratório.
- É necessário assumir a igualdade de direitos e deveres entre toda a população, nacional ou estrangeira, denunciando situações injustas, como a discriminação salarial ou o acesso ao mercado de trabalho.
- A área do empreendedorismo social migrante deve merece maior atenção por parte dos investigadores e dos poderes públicos.
- Faltam dados rigorosos, globais, actualizados periodicamente, sobre a verdadeira contribuição do voluntariado e do empreendedorismo social, nomeadamente feminino. No que toca ao movimento associativo migrante, há que registar actividades, funções e cargos ocupados por mulheres e homens, bem como formar para o voluntariado.
- É importante compreender o verdadeiro impacto económico, social e cultural das migrações, tendo a comunicação um papel importante na informação, sensibilização da opinião pública, influenciando mesmo a elaboração de políticas públicas (OCDE, 2010; OIM, 2011).
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Ramos, M. C. Pereira (2009a) "Mulheres Portuguesas na Diáspora - Inserção Laboral e Papel nas Redes Sociais". In The Voice and Choice of Portuguese Women in the Diaspora – A vez e a voz da mulher portuguesa na diáspora: Macau e outros lugares. Universidade de Macau, pp. 301-326.
Ramos, M. C. Pereira (2009b) “Mulheres portuguesas na diáspora – mobilidades, trabalho e cidadania”. In Aguiar M. (Coord.) Cidadãs da diáspora – Encontro em Espinho, ed. Mulher Migrante, Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade, pp. 44-61.
Ramos, M. C. Pereira (2010) “Migrações e Género – Trabalho, Empreendedorismo e Discriminações”. In Seminário Internacional Fazendo Género 9 – Diásporas, Diversidades, Deslocamentos, 23-26/08/2010, Anais electrónicos (http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/) e 1278297633_ARQUIVO_ComunicacaoFlorianopolisMCPR(1).pdf
Ramos, M. C. Pereira (2011a) “Migrações internacionais e género – dinâmicas de participação das mulheres portuguesas imigrantes”. In R. Boschilia e M. L. Andreazza (Orgs.) Portuguesas na diáspora: histórias e sensibilidades, Curitiba, Ed. UFPR, 2011, pp. 137-160.
Ramos, M. C. (2011b) “Economia solidária, plural e ética, na promoção do emprego, da cidadania e da coesão social”, Revista Laboreal, 7, (1), 81-104, http://laboreal.up.pt/revista/artigo.php?id=48u56oTV658223533894:245552
Ramos, M.; Teixeira, A.; Pereira, M.; Gonçalves, M. (2007) "Multiple Citizenship - Case-Studies Among Individual Citizens in Portugal". In P. Pitkanen; D. Kalekin-Fishman (eds.) Multiple State Membership and Citizenship in the Era of Transnational Migration, Rotterdam, Sense Publishers, pp. 41-65.
Ramos, M. C. Pereira; Taran, P.; Ivakhnyuk, I;. Tanner, A. (2009). Economic Migration, social cohesion and development: an integrated approach. Migrations économiques, cohesion sociale et développement: vers une approche intégrée. Strasbourg, Conseil de l'Europe, 214 p.
Ramos, Natália (1993) Maternage en milieu autochtone et immigré. Tese de Doutoramento em Psicologia, I e II Vol., Universidade Rene Descartes, Paris V, Sorbonne.
Ramos, Natalia (2009) “Mulheres portuguesas na diáspora – Maternidade, aculturação e saúde”. In The Voice and Choice of Portuguese Women in the Diaspora – A vez e a voz da mulher portuguesa na diáspora: Macau e outros lugares, edição da Universidade de Macau, Macau, pp. 155-182.
Ramos, Natália (2010) Género e Migração – Questionando dinâmicas, vulnerabilidades e politicas de integração e saúde da mulher migrante. In Seminário Internacional Fazendo Género 9 – Diásporas, Diversidades, Deslocamentos, 23-26/08/2010, Anais electrónicos (http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/) 1278173824_ARQUIVO_Natalia 1RamosFG9.pdf
Ramos, Natália (2011) “Género e migração: dinâmicas e políticas sociais, familiares e de saúde”. In R. Boschilia e M. L. Andreazza (Orgs.) Portuguesas na diáspora: histórias e sensibilidades, Curitiba, Ed. UFPR, pp. 263-282.
Revue Européenne des Migrations Internationales (2005) Femmes, genre, migrations et mobilités, vol 21, nº 1, REMI, Poitiers.
Rocha-Trindade, M. B. (1988) “Espaços da herança cultural portuguesa: gentes, factos e políticas”, Análise Social, nº 100, pp. 313-351.
Waddock, S. A.; Post, J. E. (1991) “Social entrepreneurs and catalytic change”, Public Administration Review, vol. 51, nº 5, pp. 393-401.
Weerawardena, J.; Mort, G. S. (2006). Investigating social entrepreneurship: a multidimensional model, Journal of world business, vol. 41, nº 1, pp. 21-35.
sábado, 3 de março de 2012
quinta-feira, 1 de março de 2012
COMUNICAÇÃO DE CARLOS PÁSCOA
O tempo e os modos de viver a Cidadania
Para falarmos em viver a cidadania precisamos começar
por definir o que é cidadania.
Ser cidadão é respeitar e participar das decisões da
sociedade para melhorar sua vidas e a de outras pessoas.
Ser cidadão é nunca se esquecer das pessoas que mais
necessitam.
A cidadania deve ser divulgada através de instituições
de ensino e meios de comunicação para o bem estar e
desenvolvimento da nação.
A cidadania consiste no simples gesto de não jogar papel
rua, não sujar os muros, respeitar os sinais e placas,
respeitar os mais velhos (assim como a todas as outras
pessoas), saber dizer obrigado, desculpe, por favor
e bom dia quando for o caso … até saber lidar com o
abandono e a exclusão de pessoas necessitadas, o direito
das crianças carentes e outros grandes problemas que
enfrentamos em nosso país.
Como surgiu a cidadania?
A ideia de cidadania surgiu na Idade Antiga, após Roma
conquistar a Grécia (séc. V d.c.), se expandindo para
o resto da Europa. Apenas homens (de maior) eram
cidadãos. Diminuindo assim a ideia de cidadania, já que
mulheres, crianças, estrangeiros e escravos não eram
considerados cidadãos.
Na Idade Média (2ª era – séc. V até XV d.c.), surgiram na
Europa, os feudos (ou fortalezas particulares). A ideia
de cidadania se acaba, pois os proprietários dos feudos
passaram a mandar em tudo, e os servos que habitavam
os feudos não podiam participar de nada.
Após a Idade Média, terminaram-se as invasões Bárbaras,
terminando-se também os feudos, entrando assim, em
uma grande crise.
Os feudos se decompõem, formando cidades e depois
países (os Estados Nacionais).
Entra a 3ª era (Idade Moderna – séc. XV ao XVIII d.c.). Os
países formados após o desaparecimento dos feudos
foram-no em consequência da união de dois grupos: Rei e
a Burguesia.
O Rei mandava em tudo e tinha um grande poder, graças
aos impostos que recebia. Com todo esse dinheiro nas
mãos, o Rei construía exércitos cada vez mais fortes, além
de dar apoio político à Burguesia.
Em consequência dessa união, a Burguesia ficava cada
vez mais rica e era ela quem dava apoio económico aos
Reis (através dos impostos).
Com o tempo o Rei começou a atrapalhar a Burguesia,
pois usava o poder para manipulá-la. A Burguesia ficava
cada vez mais rica e independente, vendo o Rei como um
perigo e um obstáculo ao seu progresso. Para acabar com
o Absolutismo (poder total do Rei), foram realizadas cinco
grandes revoluções burguesas:
- Revolução Industrial
- Revolução Filosófica (Iluminismo)
- Revolução Francesa
- Independência dos Estados Unidos
- Revolução Inglesa
Todas essas cinco revoluções tinham o mesmo objetivo:
tirar o Rei do poder.
Com o fim do Absolutismo, surge um novo tipo de Estado,
o Estado de Direito cuja principal característica é: “todos
têm direitos iguais perante a Constituição”, ocorrendo
assim, uma grande mudança na Cidadania.
A Burguesia precisava do povo e o convencia de que
todos estavam contra o Rei e lutando pela igualdade.
Acontece a grande contradição: Cidadania X Capitalismo.
A Cidadania é a participação de todos em busca de
benefícios sociais e igualdade, a sociedade capitalista se
alimenta da pobreza.
Começaram a ocorrer pressões contra os capitalistas por
parte dos trabalhadores, que visavam uma vida melhor e
sem exploração no trabalho.
Da função de político, o homem passa para a função de
consumidor, o que é alimentado de forma acentuada pela
mídia.
Isso se mantém até aos dias de hoje (ideia de consumo).
Para mudar essas ideias, as pessoas devem criar seus
próprios conceitos e a escola aparece como um fator
fundamental.
Na evolução dos tempos a Cidadania foi ajustando o ser
humano proporcionando-lhe qualidade de vida.
Para terminar gostaria de deixar uma mensagem aos
jovens.
Caros jovens, não permitam que a ideia de que somos
desinteressados da realidade em que vivemos se prolifere:
levante, lute e combata.
Enquanto houver uma criança passando fome, um idoso
abandonado, um jovem que não se levanta para que
um idoso se sente nos meios de transporte, enquanto
não tivermos o hábito de dizer bom dia e obrigado, não
teremos Cidadania.
Conquiste seu título honroso de cidadão combatendo
as atrocidades que se alastram pela nossa sociedade.
É através da Cidadania que alcançaremos uma melhor
qualidade de vida.
Maia, 26 de Novembro de 2011
Carlos Páscoa
Deputado à Assembleia da República
Para falarmos em viver a cidadania precisamos começar
por definir o que é cidadania.
Ser cidadão é respeitar e participar das decisões da
sociedade para melhorar sua vidas e a de outras pessoas.
Ser cidadão é nunca se esquecer das pessoas que mais
necessitam.
A cidadania deve ser divulgada através de instituições
de ensino e meios de comunicação para o bem estar e
desenvolvimento da nação.
A cidadania consiste no simples gesto de não jogar papel
rua, não sujar os muros, respeitar os sinais e placas,
respeitar os mais velhos (assim como a todas as outras
pessoas), saber dizer obrigado, desculpe, por favor
e bom dia quando for o caso … até saber lidar com o
abandono e a exclusão de pessoas necessitadas, o direito
das crianças carentes e outros grandes problemas que
enfrentamos em nosso país.
Como surgiu a cidadania?
A ideia de cidadania surgiu na Idade Antiga, após Roma
conquistar a Grécia (séc. V d.c.), se expandindo para
o resto da Europa. Apenas homens (de maior) eram
cidadãos. Diminuindo assim a ideia de cidadania, já que
mulheres, crianças, estrangeiros e escravos não eram
considerados cidadãos.
Na Idade Média (2ª era – séc. V até XV d.c.), surgiram na
Europa, os feudos (ou fortalezas particulares). A ideia
de cidadania se acaba, pois os proprietários dos feudos
passaram a mandar em tudo, e os servos que habitavam
os feudos não podiam participar de nada.
Após a Idade Média, terminaram-se as invasões Bárbaras,
terminando-se também os feudos, entrando assim, em
uma grande crise.
Os feudos se decompõem, formando cidades e depois
países (os Estados Nacionais).
Entra a 3ª era (Idade Moderna – séc. XV ao XVIII d.c.). Os
países formados após o desaparecimento dos feudos
foram-no em consequência da união de dois grupos: Rei e
a Burguesia.
O Rei mandava em tudo e tinha um grande poder, graças
aos impostos que recebia. Com todo esse dinheiro nas
mãos, o Rei construía exércitos cada vez mais fortes, além
de dar apoio político à Burguesia.
Em consequência dessa união, a Burguesia ficava cada
vez mais rica e era ela quem dava apoio económico aos
Reis (através dos impostos).
Com o tempo o Rei começou a atrapalhar a Burguesia,
pois usava o poder para manipulá-la. A Burguesia ficava
cada vez mais rica e independente, vendo o Rei como um
perigo e um obstáculo ao seu progresso. Para acabar com
o Absolutismo (poder total do Rei), foram realizadas cinco
grandes revoluções burguesas:
- Revolução Industrial
- Revolução Filosófica (Iluminismo)
- Revolução Francesa
- Independência dos Estados Unidos
- Revolução Inglesa
Todas essas cinco revoluções tinham o mesmo objetivo:
tirar o Rei do poder.
Com o fim do Absolutismo, surge um novo tipo de Estado,
o Estado de Direito cuja principal característica é: “todos
têm direitos iguais perante a Constituição”, ocorrendo
assim, uma grande mudança na Cidadania.
A Burguesia precisava do povo e o convencia de que
todos estavam contra o Rei e lutando pela igualdade.
Acontece a grande contradição: Cidadania X Capitalismo.
A Cidadania é a participação de todos em busca de
benefícios sociais e igualdade, a sociedade capitalista se
alimenta da pobreza.
Começaram a ocorrer pressões contra os capitalistas por
parte dos trabalhadores, que visavam uma vida melhor e
sem exploração no trabalho.
Da função de político, o homem passa para a função de
consumidor, o que é alimentado de forma acentuada pela
mídia.
Isso se mantém até aos dias de hoje (ideia de consumo).
Para mudar essas ideias, as pessoas devem criar seus
próprios conceitos e a escola aparece como um fator
fundamental.
Na evolução dos tempos a Cidadania foi ajustando o ser
humano proporcionando-lhe qualidade de vida.
Para terminar gostaria de deixar uma mensagem aos
jovens.
Caros jovens, não permitam que a ideia de que somos
desinteressados da realidade em que vivemos se prolifere:
levante, lute e combata.
Enquanto houver uma criança passando fome, um idoso
abandonado, um jovem que não se levanta para que
um idoso se sente nos meios de transporte, enquanto
não tivermos o hábito de dizer bom dia e obrigado, não
teremos Cidadania.
Conquiste seu título honroso de cidadão combatendo
as atrocidades que se alastram pela nossa sociedade.
É através da Cidadania que alcançaremos uma melhor
qualidade de vida.
Maia, 26 de Novembro de 2011
Carlos Páscoa
Deputado à Assembleia da República
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
COMUNICAÇÃO DE JOANA MIRANDA
Joana Miranda
Universidade Aberta/CEMRI
Congressismo e políticas de igualdade de género
Dar voz às mulheres após séculos de silenciamento
Lê-se no artigo 13º da Constituição da República Portuguesa: Princípio da
Igualdade: "Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de
qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça,
língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual."
A realidade está, porém, frequentemente distanciada dos princípios da
constituição e deste princípio, em particular. Apesar de muitas terem sido as
conquistas das mulheres ao longo das últimas décadas e de ter sido longo o caminho
percorrido desde o tempo em que as mulheres não tinham, sequer, o direito ao voto,
estamos ainda longe de uma realidade em que homens e mulheres tenham direitos iguais.
Todas as estatísticas confirmam as desigualdades que as mulheres portuguesas
sentem na pele no dia-a-dia. Continuam a ser as mulheres as principais responsáveis
pelas tarefas domésticas, pelo cuidar dos filhos e dos idosos. O espaço doméstico
continua a ser um espaço marcadamente feminino e o acesso ao espaço público e à
visibilidade que dele decorre continua a ser mais difícil para as mulheres do que para os homens.
A violência doméstica tem por objeto sobretudo as mulheres e por atores sobretudo homens. A grande maioria das mulheres vítimas de violência doméstica tem vergonha e não apresenta queixa das situações de que é vítima. Tem havido evolução a este nível mas, apesar de tudo, são poucas as que têm coragem de o fazer. O tráfico humano vitimiza mais mulheres que homens.
Apesar de o número de mulheres licenciadas ser superior ao número de homens licenciados, são os homens que, em muito maior número, continuam a exercer as funções de topo nas empresas e nas universidades.
Por outro lado, as mulheres que atingem lugares de topo e destaque na vida pública são frequentemente alvo de preconceitos (não só de homens mas também de mulheres), sendo por vezes perspetivadas como menos bem sucedidas nos papéis tradicionalmente associados às mulheres ou menos femininas.
Em média, para um mesmo trabalho, as mulheres continuam a receber remunerações inferiores aos homens, face a qualificações idênticas as empresas contratam mais facilmente homens do que mulheres, facto para o qual não é decerto alheio serem as mulheres a engravidarem e a cuidarem dos seus filhos nos primeiros meses de vida.
As vulnerabilidades das mulheres agravam-se quando, por motivos económicos
ou outros, saem dos seus países de origem e se confrontam com outras realidades.
Tais vulnerabilidades são frequentemente estudadas tendo por objeto as mulheres
imigrantes em Portugal mas a realidade é que também afetam as mulheres portuguesas que saíram do país em busca de outras alternativas de vida. É verdade que muitas vezes as fragilidades se convertem em forças e que as migrações podem constituir fonte de empoderamento das mulheres. Mas o esforço individual para que tal se verifique é enorme e só é possível em determinados contextos culturais e familiares.
Em situações de migração, há que possuir a capacidade de gestão do stress que decorre das situações de mudança, redefinir identidades e pertenças, gerir a identidade e a alteridade, renegociar posições e equilíbrios familiares, preservar o equilíbrio psicológico muitas vezes difícil, gerir a frequente separação dos filhos, dos pais ou de outros familiares próximos, o afastamento dos amigos, gerir a décalage entre o que se sonhou e a realidade que se encontra, lidar com outros hábitos, culturas, aprender outras línguas, adquirir competências profissionais novas, responder a novas exigências laborais, manter uma ligação saudável com o passado e com as raízes, saber projetar o futuro, repensar o retorno ou a permanência.
Os percursos migratórios, se bem sucedidos, podem proporcionar novas conquistas: conquista de estatutos mais elevados, a possibilidade de enriquecimento e de troca cultural, o envio de remessas para a família que ficou no país de origem, gestão de redes familiares transnacionais, criação de novas redes e o estabelecimento de novos afetos. Podem estas mulheres, e aqui tivemos exemplos, virem a destacar-se na vida política no país para onde migraram e através do seu exemplo e envolvimento político, fundar associações, criar movimentos, aceder ao poder local, tornar públicas as dificuldades das mulheres migrantes, pensar políticas e medidas, atuar no terreno,
contribuir para a construção de uma outra realidade social, proporcionando a outras
mulheres migrantes as oportunidades por que um dia elas tiveram que lutar.
Os decisores políticos têm que estar conscientes de que a realidade das mulheres, e das mulheres migrantes em particular, é diferente da realidade dos homens e desenvolver um conjunto articulado de políticas e de medidas que promovam a igualdade. As mulheres têm que ter uma voz ativa na política aos mais diversos níveis de intervenção: comunitário, local, regional, nacional e internacional.
As comunicações do painél que moderei abordaram a evolução das políticas de igualdade de género e o papel da intervenção política com algum detalhe. Mas para além da esfera de intervenção política, subsiste a questão mais profunda da mentalidade da sociedade portuguesa, patriarcal, tradicionalista, fechada. Uma mentalidade que continua a perpetuar papéis de género, estereótipos de género e ideologias de papel de género, que cria expetativas de carreira, de sucesso e de comportamento, diferentes para homens e para mulheres, que celebra e imortaliza os feitos dos homens e invisibiliza as conquistas das mulheres.
Apesar de todos os condicionantes sociais e das mentalidades discriminatórias, é inegável que muitas mulheres se destacam no espaço público em setores tão diversos como a vida política, académica e científica, empresarial e das artes ou mesmo em setores tradicionalmente reservados aos homens como é o caso das Forças Armadas.
Congressos como este contribuem para despertar consciências, homenagear as
mulheres que, no passado, ousaram quebrar o silêncio, lutar pela igualdade quando a igualdade mais não era do que uma utopia longínqua, dar voz a mulheres que, no presente, pela sua capacidade e empenho, têm contribuído para a igualdade de género e para uma maior consciencialização da discriminação de que as mulheres continuam a ser alvo. Congressos como este contribuem para perspetivar as mulheres como protagonistas dos processos migratórios e não como acompanhantes de projetos migratórios masculinos, como mulheres que triunfaram apesar de todas as dificuldades, como interlocutoras do poder político e agentes do poder político, como decisoras e inspiradoras de caminhos e de lutas. É também nestes congressos que se dá voz às mulheres. Dar voz às mulheres após séculos de silenciamento.
Universidade Aberta/CEMRI
Congressismo e políticas de igualdade de género
Dar voz às mulheres após séculos de silenciamento
Lê-se no artigo 13º da Constituição da República Portuguesa: Princípio da
Igualdade: "Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de
qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça,
língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual."
A realidade está, porém, frequentemente distanciada dos princípios da
constituição e deste princípio, em particular. Apesar de muitas terem sido as
conquistas das mulheres ao longo das últimas décadas e de ter sido longo o caminho
percorrido desde o tempo em que as mulheres não tinham, sequer, o direito ao voto,
estamos ainda longe de uma realidade em que homens e mulheres tenham direitos iguais.
Todas as estatísticas confirmam as desigualdades que as mulheres portuguesas
sentem na pele no dia-a-dia. Continuam a ser as mulheres as principais responsáveis
pelas tarefas domésticas, pelo cuidar dos filhos e dos idosos. O espaço doméstico
continua a ser um espaço marcadamente feminino e o acesso ao espaço público e à
visibilidade que dele decorre continua a ser mais difícil para as mulheres do que para os homens.
A violência doméstica tem por objeto sobretudo as mulheres e por atores sobretudo homens. A grande maioria das mulheres vítimas de violência doméstica tem vergonha e não apresenta queixa das situações de que é vítima. Tem havido evolução a este nível mas, apesar de tudo, são poucas as que têm coragem de o fazer. O tráfico humano vitimiza mais mulheres que homens.
Apesar de o número de mulheres licenciadas ser superior ao número de homens licenciados, são os homens que, em muito maior número, continuam a exercer as funções de topo nas empresas e nas universidades.
Por outro lado, as mulheres que atingem lugares de topo e destaque na vida pública são frequentemente alvo de preconceitos (não só de homens mas também de mulheres), sendo por vezes perspetivadas como menos bem sucedidas nos papéis tradicionalmente associados às mulheres ou menos femininas.
Em média, para um mesmo trabalho, as mulheres continuam a receber remunerações inferiores aos homens, face a qualificações idênticas as empresas contratam mais facilmente homens do que mulheres, facto para o qual não é decerto alheio serem as mulheres a engravidarem e a cuidarem dos seus filhos nos primeiros meses de vida.
As vulnerabilidades das mulheres agravam-se quando, por motivos económicos
ou outros, saem dos seus países de origem e se confrontam com outras realidades.
Tais vulnerabilidades são frequentemente estudadas tendo por objeto as mulheres
imigrantes em Portugal mas a realidade é que também afetam as mulheres portuguesas que saíram do país em busca de outras alternativas de vida. É verdade que muitas vezes as fragilidades se convertem em forças e que as migrações podem constituir fonte de empoderamento das mulheres. Mas o esforço individual para que tal se verifique é enorme e só é possível em determinados contextos culturais e familiares.
Em situações de migração, há que possuir a capacidade de gestão do stress que decorre das situações de mudança, redefinir identidades e pertenças, gerir a identidade e a alteridade, renegociar posições e equilíbrios familiares, preservar o equilíbrio psicológico muitas vezes difícil, gerir a frequente separação dos filhos, dos pais ou de outros familiares próximos, o afastamento dos amigos, gerir a décalage entre o que se sonhou e a realidade que se encontra, lidar com outros hábitos, culturas, aprender outras línguas, adquirir competências profissionais novas, responder a novas exigências laborais, manter uma ligação saudável com o passado e com as raízes, saber projetar o futuro, repensar o retorno ou a permanência.
Os percursos migratórios, se bem sucedidos, podem proporcionar novas conquistas: conquista de estatutos mais elevados, a possibilidade de enriquecimento e de troca cultural, o envio de remessas para a família que ficou no país de origem, gestão de redes familiares transnacionais, criação de novas redes e o estabelecimento de novos afetos. Podem estas mulheres, e aqui tivemos exemplos, virem a destacar-se na vida política no país para onde migraram e através do seu exemplo e envolvimento político, fundar associações, criar movimentos, aceder ao poder local, tornar públicas as dificuldades das mulheres migrantes, pensar políticas e medidas, atuar no terreno,
contribuir para a construção de uma outra realidade social, proporcionando a outras
mulheres migrantes as oportunidades por que um dia elas tiveram que lutar.
Os decisores políticos têm que estar conscientes de que a realidade das mulheres, e das mulheres migrantes em particular, é diferente da realidade dos homens e desenvolver um conjunto articulado de políticas e de medidas que promovam a igualdade. As mulheres têm que ter uma voz ativa na política aos mais diversos níveis de intervenção: comunitário, local, regional, nacional e internacional.
As comunicações do painél que moderei abordaram a evolução das políticas de igualdade de género e o papel da intervenção política com algum detalhe. Mas para além da esfera de intervenção política, subsiste a questão mais profunda da mentalidade da sociedade portuguesa, patriarcal, tradicionalista, fechada. Uma mentalidade que continua a perpetuar papéis de género, estereótipos de género e ideologias de papel de género, que cria expetativas de carreira, de sucesso e de comportamento, diferentes para homens e para mulheres, que celebra e imortaliza os feitos dos homens e invisibiliza as conquistas das mulheres.
Apesar de todos os condicionantes sociais e das mentalidades discriminatórias, é inegável que muitas mulheres se destacam no espaço público em setores tão diversos como a vida política, académica e científica, empresarial e das artes ou mesmo em setores tradicionalmente reservados aos homens como é o caso das Forças Armadas.
Congressos como este contribuem para despertar consciências, homenagear as
mulheres que, no passado, ousaram quebrar o silêncio, lutar pela igualdade quando a igualdade mais não era do que uma utopia longínqua, dar voz a mulheres que, no presente, pela sua capacidade e empenho, têm contribuído para a igualdade de género e para uma maior consciencialização da discriminação de que as mulheres continuam a ser alvo. Congressos como este contribuem para perspetivar as mulheres como protagonistas dos processos migratórios e não como acompanhantes de projetos migratórios masculinos, como mulheres que triunfaram apesar de todas as dificuldades, como interlocutoras do poder político e agentes do poder político, como decisoras e inspiradoras de caminhos e de lutas. É também nestes congressos que se dá voz às mulheres. Dar voz às mulheres após séculos de silenciamento.
COMUNICAÇÃO DE LAURA BULGER
Investigadora, CEL, Universidade de Trás-os -Montes e alto Douro
Agustina revisitada ... num relance
Hoje em dia, a maioria das histórias que se publicam, avulso ou em colectâneas, não têm propriamente um princípio ou um fim. Umas começam pelo meio, outras chegam ao fim e voltam ao princípio, como em círculo fechado, e a conclusão raramente é conclusiva. No que respeita aos contos de fadas, o clássico era uma vez e o (des)esperado happy ending são agora como as espécies em vias de extinção. Quem diria que, depois de reciclado, o conto de tradição oral e origem popular atingiria o estatuto artístico que agora se lhe reconhece ? E o que é ainda mais espantoso é que, tal como outras ficções mais ou menos curtas, tenha ultrapassado já a popularidade do romance, até há pouco tempo o género literário que colocava o escritor no patamar da grande literatura. Ninguém queria saber se o Tolstoy, a Austen ou o Stendhal escreviam historietas nas horas livres. O Eça, que as escrevia sozinho e a duas mãos, entretinha-se com outras pequeninas ficções, às quais chamava crónicas e cartas, supostamente enviadas de Londres. Quanto ao prolífico Camilo, sempre mostrou queda para a ficçãozinha, quer nos romances folhetinescos quer nas novelas. Mas bastava que fossem romancistas para que a crítica os recebesse com reverência, ainda que a recepção dispensada à tímida Jane fosse, como era de prever, menos efusiva em virtude de sensibilidades e preconceitos que nada tinham que ver com o género literário.
São vários os motivos que justificam a popularidade da ficção dita curta, a designação usada agora para, entre outras formas narrativas, a novela, o conto e a vinheta, de todas, a mais curtinha. Lêem-se relativamente depressa e, ao contrário da ficção dita longa - o romance -, não há que esperar pelo capítulo seguinte para saber o que vai acontecer, ainda que, na maioria das vezes, nada aconteça e, no fim, o leitor tenha de adivinhar o que poderia ter acontecido. Contudo, afirmar, como fez Edgar Allan Poe, que um conto se lê “de uma assentada”, é um exagero, além de dar a impressão de que, depois de lido, é como um assunto encerrado, o que não é verdade até porque Poe, que foi um dos primeiros americanos a trabalhar o conto, ainda hoje nos deixa arrepiados com algumas das suas invenções. Numa delas, o próprio narrador foge a sete pés da casa assombrada, depois de lhe aparecer pela frente o cadáver da Madeline, escondido num armário pelo irmão dela, um tal Roderick Usher ou coisa que o valha, que também morre, acabando assim, tanto a dinastia dos Ushers como o conto que, escrito por Poe, tinha princípio, meio e fim.
Por mais estranho que pareça, estas reflexões sobre a ficção curta vêm a propósito dos contos de Agustina, onde se antecipam ou retomam alguns dos temas e personagens romanescas, uma coincidência frequente na obra de outros romancistas que são, simultaneamente, contistas, como se dizia há uns anos atrás, para separar as águas. Em ambos os géneros praticados pela autora, surgem, por exemplo, o artista incompreendido que procura, geralmente em vão, um meio para comunicar a sua mensagem; ou a solteirona determinada em salvar da ruína a casa de família; ou o rapaz de olho “azulado” que lhe afasta os pretendentes, narrando, com requintes de malvadez, os rituais da matança do porco. Não só deixa os oportunistas sem pinga de sangue, como também os faz desistir da mão da mordoma, que assim fica livre para administrar as terras sem interferência de mão alheia. O campónio, agora de nome Avelino, faz-se passar por tolo e sempre que lhe fazem uma pergunta, responde com uma frase que até parece copiada do príncipe Hamlet: “Não digo que sim, não digo que não”. A duplicidade do estribilho, assim como a estranha relação entre o Avelino e a mordoma dão origem a várias ambiguidades próprias de um conto moderno, por natureza enigmático.
Para os que estejam interessados nas reciprocidades entre os dois géneros trabalhados pela autora, sugerimos que percorram as páginas de Contos Impopulares (1951-53), escritos numa bela prosa lírica e anteriores à publicação da incomparável A Sibila (1954), ou que folheiem A Brusca (1971), a colectânea com a qual a escritora regressa a um género que, na verdade, nunca abandonou.
Mas antes de entrar pelas histórias de Agustina, talvez seja oportuno dizer que o tamanho e a brevidade da ficção curta não chegam para explicar um fenómeno que transcende o das stories publicadas em revistas como o New Yorker, onde vários dos consagrados iniciaram a sua carreira como contadores de histórias ou storytellers. Não estamos a falar de uma americanice literária, embora se diga que o conto americano, sobretudo o minimalista, escrito à maneira de reportagem, seja, de facto, uma ficção made in the USA. Porém, há editores em outras partes do mundo que já começaram a compilar histórias deste ou daquele escritor, alguns também romancistas, vendendo-as depois, como se costuma dizer, por atacado, a um público ávido por ler não uma, mas uma colecção de “boas histórias”. Mas o que é afinal uma “boa história”?
Os jornalistas andam sempre à procura de uma “boa história”, ou seja, de uma notícia dada em primeira mão e com espalhafato jornalístico. Só que o scoop, como lhe chamam em inglês, não se alimenta de fantasias e, se o fizer, a notícia perde credibilidade. Esta questão não se coloca com a ficção, longa ou curta, em que tudo não passa de uma fantasia. Umas são mais fantasiosas do que outras, indo ao extremo de narrar situações inacreditáveis, como faz o Kafka naquela história em que o Gregor Samsa, sem dar por isso, se transforma num insecto repugnante e se vê abandonado por toda a gente, incluindo a própria família. Até o leitor mais céptico fica impressionado com o pesadelo do rapaz e não resiste a perguntar-se: E se uma coisa como esta me acontecesse a mim?
Isto só dá razão aos que acreditam que uma “boa história” poderá dar-nos um murro no estômago ainda mais violento do que o romance e, como vemos aqui, explorar obsessões que, de outro modo, nunca viriam à superfície, satisfazendo, por outro lado, o voyeurismo dos que são atraídos pelo insólito, o grotesco ou o fantástico. À semelhança do thriller, favorece a libertação dos medos que nos atormentam, com a vantagem de não termos de recorrer à psicanálise. É evidente que nem toda a ficção curta mexe com os estados de alma do leitor, mas não se pode negar que o género se ajusta ao psiquismo de uma sociedade como a nossa, exposta continuamente às cenas escabrosas do directo televisivo e às inovações tecnológicas que ameaçam exterminar o prazer táctil do livro de papel, falando-se já do “canibalismo” do livro digital. Num clima contaminado por tanta suspeição, seja devido aos degelos antárcticos, seja às burlas financeiras, parece haver, cada vez menos disponibilidade ou mesmo inclinação para longas e densas tramas romanescas.
Existem, no entanto, paraísos literários, como Portugal, onde o leitor ainda se deleita a ler um bom romance, escrito à maneira de Agustina. Desta vez, não vamos falar dos romances, mas das histórias da autora, cuja releitura também nos leva sempre a descobrir alguma coisa que nos tinha passado despercebida antes. É possível que, numa primeira leitura, tivéssemos prestado pouca atenção ao modo como a romancista se adapta aos constrangimentos da ficção curta, ora mais a jeito de conto, ora de novela, com uma ou outra vinheta em tom ensaístico pelo meio. Não se julgue que escrever ficção em miniatura dá menos trabalho do que escrevê-la em tamanho grande. Não se trata de uma arte menor vis-a-vis outra maior, como nas redondilhas. Para além da economia narrativa, já que a história está como que comprimida em poucas páginas, há também um número reduzido de personagens; a linguagem torna-se ainda mais sibilina, as ambiguidades, mais frequentes, culminando com o chamado fim em aberto, com o leitor a concluir a história como quiser. Não é nenhum rasgo democrático por parte do autor, mas uma tendência do conto moderno, enquanto que, no antigo, nada ficava por resolver, o que nos deixava a nós, leitores, muito mais tranquilos. E o que dizer das figuras anónimas que aparecem sem que se perceba bem como e porquê, e que, sem pronunciar ou fazer coisa nenhuma, desaparecem como por encanto?
Lembramo-nos daquela provinciana que toma um comboio para o Porto e que, durante a viagem, não diz uma única palavra, causando mal-estar entre os quatro estudantes que ocupavam a carruagem. Pela conversa com a “moça”, a quem manda comprar maçãs, já da janela do comboio, sabemos que estará de volta no dia seguinte, pela noitinha, embora nada diga à rapariga sobre o motivo da ida à cidade. Entretanto, os quatro jovens vêem-se obrigados a partilhar o mesmo espaço com a mulher, ainda nova, bonita e sem pinturas na cara. Apesar de a tomarem por pessoa “honesta”, na óptica dos rapazes, a provinciana é uma “intrusa” que, ainda por cima, parece não dar pela presença deles, que já seguiam na carruagem. O alheamento da mulher torna-se ainda mais evidente logo que, depois de arrumar a bagagem, se senta no lugar e come o “rebuçado de avenca” com a boca distorcida, como se a “alma” se lhe tivesse voado do corpo que, no entanto, tem os pés firmes na terra.
O leitor, que tem o privilégio de ver a provinciana por dentro, sabe o que lhe vai na cabeça, tendo a impressão de que a vê pensar em voz alta. A mulher está imersa no seu pequenino mundo, isto é, preocupada com as doenças dos filhos, crianças atreitas a toda a espécie de mazelas, e com as tarefas a decorrer durante a sua ausência na casa de lavoura, das que ainda conservam a “prensa do vinho” e a “chaminé conventual”, onde se cozinha a lenha. Por isso, de nada valem os remoques dos quatro viajantes, nem mesmo quando um deles vem com a ideia da carruagem segregada, onde os homens não tenham de respirar o ar “envenenado” pelas mulheres. A observação, feita para espicaçar a provinciana, não deixa de revelar o preconceito de uma cultura, digamos, tão primitiva como a dos patriarcas bíblicos, a qual, graças a Deus, se vai desenraizando da tradição na qual tem estado enraizada.
A provinciana, que continua a velar pela sua “fazenda”, ignora o dito do rapazote e, lá no íntimo dela, “ouve” os “passos” “do marido, do pai e dum amigo”, certamente figuras tutelares não apenas das suas rêveries, como também do seu quotidiano. A espreitadela à mente da desconhecida é demasiado rápida e circunscrita à sua domesticidade, não dando para ver as demais faces desta Eva oriunda da burguesia rural, as quais permanecem como faces ocultas. Ninguém espera que numa ficção curta como esta se reproduzam torrentes de pensamentos à deriva, como fez o James Joyce num romance tão extenso como o Ulysses, pondo a Molly, no fim, a pensar em tudo o que lhe vinha à cabeça. Nem a provinciana teria, supomos nós, um passado e um presente tão desinibidos como os da irlandesa, cujos pensamentos provocam, ainda hoje, um certo embaraço nos círculos mais circunspectos, sobretudo quando aquela sucessão de “sins”, no final, são repetidos por uma Molly bastante sexy, como já se tem visto, tanto no teatro como no cinema.
Mas voltemos à provinciana. Chegada à Invicta, a mulher prepara-se para sair calada e muda, indiferente a que o comboio venha “à tabela”, pormenor que um dos jovens faz questão de referir em voz alta com o intuito de a provocar novamente. Ela acerta o relógio de pulso, acusando, pela primeira vez, a presença deles, mas, como até ali, faz-se de mouca. A história termina com umas considerações acerca da frustração dos rapazes perante a indiferença da desconhecida que, com o gesto inconsciente, confirma a sua decisão “inabalável” de não perder tempo com superficialidades, muito menos com as graçolas dos quatro metediços. O fim em aberto deixa antever que a provinciana virá a perder-se por entre a multidão urbana e que os futuros licenciados seguirão para Coimbra, onde vão fazer exames de frequência, não sabemos de quê.
Ora aqui está uma “boa história” não tanto pelo que conta, mas pela maneira como conta o percurso das personagens. Apesar de não ser como a versão perversa do Capuchinho Vermelho, da Angela Carter, nem os quatro rapazotes representarem o lobo mau ou a provinciana, a inocente, o relato da viagem causa uma certa tensão no leitor, receoso de que alguma coisa desagradável venha a acontecer se, por acaso, eles ultrapassarem os limites da boa educação e a mulher, desperta do seu transe, sinta que tem de dizer ou fazer alguma coisa para os pôr na ordem. Felizmente, a viagem é curta e, no fim, cada um vai à sua vida sem incidentes, ou assim se conjectura. Mas fica-se como que a ruminar durante algum tempo sobre a “aventura” da provinciana, cujo nome nem sequer conhecemos. Ainda que vista por dentro e por fora, passa tudo num relance e a mulher afigura-se tão enigmática no fim como no princípio da história. O que a teria levado até ao Porto? Uma consulta com o médico? Uma escritura no notário? Um encontro com alguém especial? Teria passado a noite num hotel da Boavista ou em casa da família, na Foz? Estaria assim tão desejosa por regressar ao seu aconchego de castelã rural, para tratar as “dermatoses” dos filhos, fritar os “rissóis” e provar “as sanefas das janelas”? Nunca chegaremos a saber se viagem ao Porto foi um momento decisivo na vida da provinciana.
Os desfechos propostos por Agustina deixarão insatisfeito o leitor que estiver à procura do happy ending ou da moral da história, geralmente implícita numa metáfora. Mas não é apenas isso. Também causa perplexidade a “falta de transparência”, como se diz por aí, as insinuações, as frases indecifráveis, a aura misteriosa das personagens, enfim, todas as ambiguidades criadas em torno de uma história que chega ao fim sem solução à vista. Curiosamente, ficamos suspensos de qualquer coisa, um pouco como nos filmes do Hitchcock, e lemos a história, mais do que uma vez, à procura do que lhe parece faltar para que faça sentido. Mas não será o mesmo que fazemos no nosso dia-a-dia, quando nem um sexto sentido ajuda a perceber o que se passa à nossa volta?
Num outro conto, começa-se por teorizar sobre a “boa história” que narra a “consciência da nossa individualidade”, algo tão extraordinário que, diz-se, só um artista consegue “desvendar.” Depois da introdução um tanto ensaística, passa-se da teoria à prática com o início do relato. Como nos romances, narram-se os antecedentes do Gil e só depois aparece o Gil, um bastardo criado por mulheres infelizes que vão envelhecendo e morrendo nos seus “viveiros”, deixando o rapaz em completa orfandade e com escassos meios de sobrevivência. Anos depois - o tempo passa em dois ou três parágrafos -, o Gil faz-se poeta, quer dizer, um poeta que não “devia escrever versos,” e encontra a Lucinda, uma pianista sem “espaço” senão “para sonhar”. A história termina com a hipotética ligação amorosa entre os dois artistas falhados. Porém, não fica claro se o Gil e a Lucinda vão caminhar juntos ou separados para o resto da vida, se encontram uma terceira via, seguindo “ora mais distantes, ora lado a lado”, como se diz à maneira de final, ou, ainda, se conseguem desvendar a “consciência da individualidade”, o enigma aflorado no princípio. A conclusão será, pois, a que cada um muito bem entender.
Não há dúvida de que o leitor está a ser manipulado por uma contadora de histórias que, desde há muito, pratica a arte ancestral do conto, como se nota através dos vestígios de oralidade espalhados aqui e ali. No momento em que o Bráulio, invejoso da mulher, com quem disputa a companhia de intelectuais e artistas, pensa no convidado escondido debaixo da mesa, entretanto desaparecido, a voz da narração interrompe os pensamentos do Bráulio e, como se estivesse a falar para uma vasta audiência, exclama: “Adeus, senhores, acabou-se o conto”.
Tal como era contado antes, o conto já não conseguia arrebatar o leitor sofisticado, perdido, na altura, nos emaranhados do romance. Daí a necessidade para as inovações, entre elas, a da conclusão inconclusiva, emprestada ao Chekhov, um dos mestres do conto moderno. Há, no entanto, quem prefira o realismo do Maupassant, menos dado a ironias e a ambiguidades. O russo é, contudo, o mais citado pelos modernistas para justificar os modernismos que eles próprios iam trazendo para a ficção, longa e curta, esta muitas vezes prolongada em forma de romance. Veja-se o caso da Virginia Woolf que começou por escrever uma historieta, à qual deu o título de Mrs. Dalloway, e que depois acabou naquilo que se viu, um dos romances mais badalados da escritora inglesa.
Agustina domina os dois tipos de ficção com igual à-vontade e muitos dos seus romances são colectâneas de pequenas ficções ligadas, entre si, por variantes de uma personagem ou de um tema, como já tentámos provar em qualquer lado. Não nos parece estranho que a voz narradora faça questão de mostrar que conhece as regras do jogo, não vá o leitor distrair-se e pensar que, em vez de uma historieta, está a ler um dos romances. Mas nunca vai ao ponto de exibir o know-how teórico com que certos autores pós-modernos procuram deslumbrar o crítico literário. Longe disso. Fica-se pelo número limitado das personagens na história: “Eram apenas dois os personagens que estavam previstos nesta história ... O terceiro personagem pode estragar tudo...”. A alusão é tanto mais irónica se tivermos em conta a multidão de figuras e figurantes dos romances, tantos que o leitor tropeça nos nomes deles e tem dificuldade em distingui-los.
Noutra ocasião, finge não dar ouvidos a boatos ou mesmo à “boa fonte” que, na província, diz incluir “as maiores sevícias morais, as maiores depredações da dignidade humana”. Ironicamente, na história sobre o Camilo Timóteo, afirma que o “desastre físico” do homem vem de “boa fonte”, embora não a identifique, como fazem os jornalistas, até os mais referenciados. Apesar das “sevícias” e “depredações” da “boa fonte”, lá vai dizendo que os filhos da Tília, a prostituta que coabita com o Camilo, não são dele, e que o Camilo os baptiza com os nomes dos seus antepassados, escolhendo um dos rapazes para seu legítimo herdeiro. Camilo morre de velho, na miséria e, por força das circunstâncias, estéril. Era o segundo dono da Brusca, um antigo solar urbano comprado a um senhor d’Além, cheio de pergaminhos, mas falido. Resumindo, destruída pela filharada vadia da Tília, a casa estava em tão mau estado que nem um novo-rico como o Monteiro Branco, que a comprou por tuta-e-meia, conseguiria fazer do “pardieiro” uma pousada para turismo rural, a menos que trasladasse a casa, pedra por pedra, para o litoral ou para o estrangeiro, tão longe como a Suíça, onde o Branco devia ter feito bom dinheiro. E a história termina com um comentário que só um leitor bastante ingénuo poderá levar a sério: “Mas diz-se muita coisa, e há sempre quem exagere”.
Para além dos aspectos formais, as contradições, as ironias, as ambiguidades e tudo o resto, também são evidentes os sinais de mudança numa província - pois estamos a falar dos contos sobre a província - que, devido à emigração e ao êxodo para os centros urbanos, viria a desertificar-se e, mais tarde, a urbanizar-se, um processo de transição que deixaria marcas profundas na ficção, tanto na longa como na curta.
O cinema é outra das causas de mudança, por mostrar ao espectador outros mundos e outras gentes e despertar, às vezes, sonhos irrealizáveis, como se vem a descobrir numa outra história, onde, antes de terminar, a voz da narração declara, usando o sempre envolvente “eu” colectivo: “Mas nada temos já a acrescentar a esta história”. Acontece que, pouco antes, tinha dito que o David, ou alguém parecido com ele, teria sido visto a passear-se pelas ruas da cidade, possivelmente no Porto. Mas tanto diz que “era bem ele”, um David já míope e de cabelos “mais raros”, como, logo a seguir, duvida do que disse: “não podemos jurar”. Ora ninguém faz fé no que se diz e deixa de dizer ou no que se pensa que é e não é, uma das características desta voz narradora, que também passa o tempo a reflectir sobre o escreve, muito à maneira dos pós-modernistas, que vão sempre cogitando sobre a ficção da ficção, com o pretexto de escrever metaficção.
Mas, como íamos dizendo, a revelação feita quase no fim da história, espicaça a curiosidade do leitor em relação ao David, o sobrevivente de uma tentativa de suicídio, numa daquelas tragédias camilianas que ainda hoje fazem as primeiras páginas dos tablóides. Supõe-se que o rapaz se tenha sentido desorientado, ou culpado, por ter escapado da morte, enquanto a mulher amada, atingida “com duas balas no peito” se foi desta vida para sempre.
A defunta era, por seu turno, viúva de um juiz que tinha falecido “em pleno vigor físico,” em vésperas de uma promoção judicial, deixando vários casos por julgar e a mulher, a braços com os nove filhos, dos onze que tinham produzido. Órfãs de um magistrado de província, as crianças seriam criadas como burgueses “pelintras,” vivendo de dádivas e dos fiados, na quase clandestinidade de uma casa de “sobreloja.” O que destaca esta viúva de outras em circunstâncias análogas é a paixão serôdia da mulher - descrita como “gorda”, de “bandós a picarem de cinzento” e “já sem juventude” - pelo David, um rapazinho vindo “das Ilhas,” colega dos filhos mais velhos, com quem ela, segundo constava, encontrou a “felicidade.”
Ou porque não aguentassem a condenação colectiva de um meio provinciano, ou porque os incomodasse a reprovação dos filhos dela, o facto é que os dois amantes resolveram suicidar-se ao mesmo tempo. Não nos devemos preocupar demasiado com as motivações das personagens, como seria normal num romance, onde as causas e os efeitos são importantes para que se entenda o enredo. Aqui, onde nem sequer há enredo, a falta de lógica é perfeitamente aceitável. O que conta é o gesto dos dois amantes, o qual os iria pôr ao nível de outros trágicos amorosos, não tivesse o rapaz sobrevivido, e não fosse a viúva alguém que, para além dos “belos olhos,” não tinha mais nada por onde se lhe pegasse, como se costuma dizer.
O caso dos amantes, com o seu quê de tragicomédia, foi esquecido rapidamente por todos, a não ser pela mestra loura que, tal como a provinciana e a viúva, não tem nome. A mestra não conseguia esquecer a paixão fulminante da defunta, tendo sido ela quem revelou, em primeira mão, que a viúva tinha um amante. Talvez o tenha feito por inveja da mulher que, apesar de “insignificante” e um “tanto estúpida”, se tinha redimido através do amor, acabando por merecer a “aprovação” da mestra que, para além de romântica, era cinéfila.
À medida que a história avança, damo-nos conta de que a figura central não é a viúva, mas a mestra “oxigenada,” para quem a experiência amorosa da outra faz ressaltar o vazio da sua vida, limitada à docência rotineira de uma escola de província. Apesar de ter sido bela e de se ter feito “letrada,” a professora não arranjou marido à sua altura e teve de se contentar com um merceeiro “mesquinho” lá na terra, homem incapaz de pensar noutra coisa senão no dinheiro das vendas.
Também, aqui, nos é dado ver a mestra por dentro, enquanto corrige os trabalhos dos alunos pela noite fora, à luz amarelada da “lampadazinha” que torna ainda mais amarela a sua “cabeça oxigenada”. Vê-se que ela gostaria de ser como as vamps que apareciam nos cartazes da época, “a Brigitte, a Helm, a Marlene”, ou, pelo menos, viver uma paixão tão intensa como a da viúva pelo David, figuras que faz ressuscitar através da memória. Ao mesmo tempo, pensa na filha, a Loló, bonita como ela e, como ela, mal casada, cada vez mais obesa e provinciana, embora fosse prendada e tivesse aprendido a dançar o charleston, para quem não saiba, uma dança amalucada importada da América. A mestra sente inveja não só da viuvez feliz da viúva, mas também da orfandade burguesa dos filhos da viúva, gente “fina” e com oportunidades na vida que a sua Loló nunca teria, apesar de filha única, de pais ainda vivos e, ao que parece, abastados.
Não sabemos o que irá ser a vida da mestra de aqui em diante, mas é possível que, aos domingos, continue a dar uma ajuda no cinema, possivelmente negócio do marido. Põe de lado os trabalhos de casa dos alunos para vender bilhetes e “pastilhas Naval” à garotada que se acotovela para ver os westerns, com sheriffs e um cowboy valentão como o Tim McCoy, antes de o actor enveredar pela televisão. É com os miúdos que ela descarrega o azedume acumulado durante toda a semana, repetindo sempre o mesmo impropério: “Raça!”
O leitor sente compaixão por esta mulher, que já não é nenhuma rapariga loura, e que vê os anos a passarem sem que nada de extraordinário lhe aconteça na vida. Não teve a sorte da viúva que, embora não passasse por viúva alegre, morreu satisfeita, vivendo um grande amor. Nem lhe reconheceram o glamour das Bardots, que pertenciam ao mundo das fitas, fora do seu alcance. Enquanto o David, ou alguém parecido com ele, revisitar a sua memória, é possível que a chamazinha se reacenda, ajudando-a a suportar as tarefas rotineiras da sua docência.
Nesta história, mistura-se a raiva com a inveja, o amor com o desamor, o preconceito de classe com a maledicência, o grotesco com a ironia, tudo visto, num relance, e na perspectiva da mestra, enquanto corrige os trabalhos dos alunos, ao lusco-fusco da lâmpada de mesa. No romance, assim como no cinema, a vida inteira da mulher oxigenada rolaria perante os nossos olhos, mas ninguém pode garantir que se visse tanto como se vê nesta história sobre a mestra loura.
Quem escreve ficções como esta, conhece bem não só o género, mas também o género de audiência que tem pela frente, a quem lança, com ar trocista, um desafio como este : “Se julgam que vou contar-lhes uma história de Natal, com pinheirinhos, presépios e neve fingida, estão muito enganados”. E depois da piscadela de olho, narra a história da mulher estafeta com o “belo casaco cor de pêlo de boi”, que chamava “ele” ao amigo, e que se referia ao marido como “o meu”. Para quem quiser saber mais acerca deste pombo-correio, no feminino, terá de ler a ficçãozinha do princípio ao fim, embora, no fim, se volte ao princípio.
Lisboa, 30 de Dezembro de 2009.
Laura Fernanda Bulger
Agustina revisitada ... num relance
Hoje em dia, a maioria das histórias que se publicam, avulso ou em colectâneas, não têm propriamente um princípio ou um fim. Umas começam pelo meio, outras chegam ao fim e voltam ao princípio, como em círculo fechado, e a conclusão raramente é conclusiva. No que respeita aos contos de fadas, o clássico era uma vez e o (des)esperado happy ending são agora como as espécies em vias de extinção. Quem diria que, depois de reciclado, o conto de tradição oral e origem popular atingiria o estatuto artístico que agora se lhe reconhece ? E o que é ainda mais espantoso é que, tal como outras ficções mais ou menos curtas, tenha ultrapassado já a popularidade do romance, até há pouco tempo o género literário que colocava o escritor no patamar da grande literatura. Ninguém queria saber se o Tolstoy, a Austen ou o Stendhal escreviam historietas nas horas livres. O Eça, que as escrevia sozinho e a duas mãos, entretinha-se com outras pequeninas ficções, às quais chamava crónicas e cartas, supostamente enviadas de Londres. Quanto ao prolífico Camilo, sempre mostrou queda para a ficçãozinha, quer nos romances folhetinescos quer nas novelas. Mas bastava que fossem romancistas para que a crítica os recebesse com reverência, ainda que a recepção dispensada à tímida Jane fosse, como era de prever, menos efusiva em virtude de sensibilidades e preconceitos que nada tinham que ver com o género literário.
São vários os motivos que justificam a popularidade da ficção dita curta, a designação usada agora para, entre outras formas narrativas, a novela, o conto e a vinheta, de todas, a mais curtinha. Lêem-se relativamente depressa e, ao contrário da ficção dita longa - o romance -, não há que esperar pelo capítulo seguinte para saber o que vai acontecer, ainda que, na maioria das vezes, nada aconteça e, no fim, o leitor tenha de adivinhar o que poderia ter acontecido. Contudo, afirmar, como fez Edgar Allan Poe, que um conto se lê “de uma assentada”, é um exagero, além de dar a impressão de que, depois de lido, é como um assunto encerrado, o que não é verdade até porque Poe, que foi um dos primeiros americanos a trabalhar o conto, ainda hoje nos deixa arrepiados com algumas das suas invenções. Numa delas, o próprio narrador foge a sete pés da casa assombrada, depois de lhe aparecer pela frente o cadáver da Madeline, escondido num armário pelo irmão dela, um tal Roderick Usher ou coisa que o valha, que também morre, acabando assim, tanto a dinastia dos Ushers como o conto que, escrito por Poe, tinha princípio, meio e fim.
Por mais estranho que pareça, estas reflexões sobre a ficção curta vêm a propósito dos contos de Agustina, onde se antecipam ou retomam alguns dos temas e personagens romanescas, uma coincidência frequente na obra de outros romancistas que são, simultaneamente, contistas, como se dizia há uns anos atrás, para separar as águas. Em ambos os géneros praticados pela autora, surgem, por exemplo, o artista incompreendido que procura, geralmente em vão, um meio para comunicar a sua mensagem; ou a solteirona determinada em salvar da ruína a casa de família; ou o rapaz de olho “azulado” que lhe afasta os pretendentes, narrando, com requintes de malvadez, os rituais da matança do porco. Não só deixa os oportunistas sem pinga de sangue, como também os faz desistir da mão da mordoma, que assim fica livre para administrar as terras sem interferência de mão alheia. O campónio, agora de nome Avelino, faz-se passar por tolo e sempre que lhe fazem uma pergunta, responde com uma frase que até parece copiada do príncipe Hamlet: “Não digo que sim, não digo que não”. A duplicidade do estribilho, assim como a estranha relação entre o Avelino e a mordoma dão origem a várias ambiguidades próprias de um conto moderno, por natureza enigmático.
Para os que estejam interessados nas reciprocidades entre os dois géneros trabalhados pela autora, sugerimos que percorram as páginas de Contos Impopulares (1951-53), escritos numa bela prosa lírica e anteriores à publicação da incomparável A Sibila (1954), ou que folheiem A Brusca (1971), a colectânea com a qual a escritora regressa a um género que, na verdade, nunca abandonou.
Mas antes de entrar pelas histórias de Agustina, talvez seja oportuno dizer que o tamanho e a brevidade da ficção curta não chegam para explicar um fenómeno que transcende o das stories publicadas em revistas como o New Yorker, onde vários dos consagrados iniciaram a sua carreira como contadores de histórias ou storytellers. Não estamos a falar de uma americanice literária, embora se diga que o conto americano, sobretudo o minimalista, escrito à maneira de reportagem, seja, de facto, uma ficção made in the USA. Porém, há editores em outras partes do mundo que já começaram a compilar histórias deste ou daquele escritor, alguns também romancistas, vendendo-as depois, como se costuma dizer, por atacado, a um público ávido por ler não uma, mas uma colecção de “boas histórias”. Mas o que é afinal uma “boa história”?
Os jornalistas andam sempre à procura de uma “boa história”, ou seja, de uma notícia dada em primeira mão e com espalhafato jornalístico. Só que o scoop, como lhe chamam em inglês, não se alimenta de fantasias e, se o fizer, a notícia perde credibilidade. Esta questão não se coloca com a ficção, longa ou curta, em que tudo não passa de uma fantasia. Umas são mais fantasiosas do que outras, indo ao extremo de narrar situações inacreditáveis, como faz o Kafka naquela história em que o Gregor Samsa, sem dar por isso, se transforma num insecto repugnante e se vê abandonado por toda a gente, incluindo a própria família. Até o leitor mais céptico fica impressionado com o pesadelo do rapaz e não resiste a perguntar-se: E se uma coisa como esta me acontecesse a mim?
Isto só dá razão aos que acreditam que uma “boa história” poderá dar-nos um murro no estômago ainda mais violento do que o romance e, como vemos aqui, explorar obsessões que, de outro modo, nunca viriam à superfície, satisfazendo, por outro lado, o voyeurismo dos que são atraídos pelo insólito, o grotesco ou o fantástico. À semelhança do thriller, favorece a libertação dos medos que nos atormentam, com a vantagem de não termos de recorrer à psicanálise. É evidente que nem toda a ficção curta mexe com os estados de alma do leitor, mas não se pode negar que o género se ajusta ao psiquismo de uma sociedade como a nossa, exposta continuamente às cenas escabrosas do directo televisivo e às inovações tecnológicas que ameaçam exterminar o prazer táctil do livro de papel, falando-se já do “canibalismo” do livro digital. Num clima contaminado por tanta suspeição, seja devido aos degelos antárcticos, seja às burlas financeiras, parece haver, cada vez menos disponibilidade ou mesmo inclinação para longas e densas tramas romanescas.
Existem, no entanto, paraísos literários, como Portugal, onde o leitor ainda se deleita a ler um bom romance, escrito à maneira de Agustina. Desta vez, não vamos falar dos romances, mas das histórias da autora, cuja releitura também nos leva sempre a descobrir alguma coisa que nos tinha passado despercebida antes. É possível que, numa primeira leitura, tivéssemos prestado pouca atenção ao modo como a romancista se adapta aos constrangimentos da ficção curta, ora mais a jeito de conto, ora de novela, com uma ou outra vinheta em tom ensaístico pelo meio. Não se julgue que escrever ficção em miniatura dá menos trabalho do que escrevê-la em tamanho grande. Não se trata de uma arte menor vis-a-vis outra maior, como nas redondilhas. Para além da economia narrativa, já que a história está como que comprimida em poucas páginas, há também um número reduzido de personagens; a linguagem torna-se ainda mais sibilina, as ambiguidades, mais frequentes, culminando com o chamado fim em aberto, com o leitor a concluir a história como quiser. Não é nenhum rasgo democrático por parte do autor, mas uma tendência do conto moderno, enquanto que, no antigo, nada ficava por resolver, o que nos deixava a nós, leitores, muito mais tranquilos. E o que dizer das figuras anónimas que aparecem sem que se perceba bem como e porquê, e que, sem pronunciar ou fazer coisa nenhuma, desaparecem como por encanto?
Lembramo-nos daquela provinciana que toma um comboio para o Porto e que, durante a viagem, não diz uma única palavra, causando mal-estar entre os quatro estudantes que ocupavam a carruagem. Pela conversa com a “moça”, a quem manda comprar maçãs, já da janela do comboio, sabemos que estará de volta no dia seguinte, pela noitinha, embora nada diga à rapariga sobre o motivo da ida à cidade. Entretanto, os quatro jovens vêem-se obrigados a partilhar o mesmo espaço com a mulher, ainda nova, bonita e sem pinturas na cara. Apesar de a tomarem por pessoa “honesta”, na óptica dos rapazes, a provinciana é uma “intrusa” que, ainda por cima, parece não dar pela presença deles, que já seguiam na carruagem. O alheamento da mulher torna-se ainda mais evidente logo que, depois de arrumar a bagagem, se senta no lugar e come o “rebuçado de avenca” com a boca distorcida, como se a “alma” se lhe tivesse voado do corpo que, no entanto, tem os pés firmes na terra.
O leitor, que tem o privilégio de ver a provinciana por dentro, sabe o que lhe vai na cabeça, tendo a impressão de que a vê pensar em voz alta. A mulher está imersa no seu pequenino mundo, isto é, preocupada com as doenças dos filhos, crianças atreitas a toda a espécie de mazelas, e com as tarefas a decorrer durante a sua ausência na casa de lavoura, das que ainda conservam a “prensa do vinho” e a “chaminé conventual”, onde se cozinha a lenha. Por isso, de nada valem os remoques dos quatro viajantes, nem mesmo quando um deles vem com a ideia da carruagem segregada, onde os homens não tenham de respirar o ar “envenenado” pelas mulheres. A observação, feita para espicaçar a provinciana, não deixa de revelar o preconceito de uma cultura, digamos, tão primitiva como a dos patriarcas bíblicos, a qual, graças a Deus, se vai desenraizando da tradição na qual tem estado enraizada.
A provinciana, que continua a velar pela sua “fazenda”, ignora o dito do rapazote e, lá no íntimo dela, “ouve” os “passos” “do marido, do pai e dum amigo”, certamente figuras tutelares não apenas das suas rêveries, como também do seu quotidiano. A espreitadela à mente da desconhecida é demasiado rápida e circunscrita à sua domesticidade, não dando para ver as demais faces desta Eva oriunda da burguesia rural, as quais permanecem como faces ocultas. Ninguém espera que numa ficção curta como esta se reproduzam torrentes de pensamentos à deriva, como fez o James Joyce num romance tão extenso como o Ulysses, pondo a Molly, no fim, a pensar em tudo o que lhe vinha à cabeça. Nem a provinciana teria, supomos nós, um passado e um presente tão desinibidos como os da irlandesa, cujos pensamentos provocam, ainda hoje, um certo embaraço nos círculos mais circunspectos, sobretudo quando aquela sucessão de “sins”, no final, são repetidos por uma Molly bastante sexy, como já se tem visto, tanto no teatro como no cinema.
Mas voltemos à provinciana. Chegada à Invicta, a mulher prepara-se para sair calada e muda, indiferente a que o comboio venha “à tabela”, pormenor que um dos jovens faz questão de referir em voz alta com o intuito de a provocar novamente. Ela acerta o relógio de pulso, acusando, pela primeira vez, a presença deles, mas, como até ali, faz-se de mouca. A história termina com umas considerações acerca da frustração dos rapazes perante a indiferença da desconhecida que, com o gesto inconsciente, confirma a sua decisão “inabalável” de não perder tempo com superficialidades, muito menos com as graçolas dos quatro metediços. O fim em aberto deixa antever que a provinciana virá a perder-se por entre a multidão urbana e que os futuros licenciados seguirão para Coimbra, onde vão fazer exames de frequência, não sabemos de quê.
Ora aqui está uma “boa história” não tanto pelo que conta, mas pela maneira como conta o percurso das personagens. Apesar de não ser como a versão perversa do Capuchinho Vermelho, da Angela Carter, nem os quatro rapazotes representarem o lobo mau ou a provinciana, a inocente, o relato da viagem causa uma certa tensão no leitor, receoso de que alguma coisa desagradável venha a acontecer se, por acaso, eles ultrapassarem os limites da boa educação e a mulher, desperta do seu transe, sinta que tem de dizer ou fazer alguma coisa para os pôr na ordem. Felizmente, a viagem é curta e, no fim, cada um vai à sua vida sem incidentes, ou assim se conjectura. Mas fica-se como que a ruminar durante algum tempo sobre a “aventura” da provinciana, cujo nome nem sequer conhecemos. Ainda que vista por dentro e por fora, passa tudo num relance e a mulher afigura-se tão enigmática no fim como no princípio da história. O que a teria levado até ao Porto? Uma consulta com o médico? Uma escritura no notário? Um encontro com alguém especial? Teria passado a noite num hotel da Boavista ou em casa da família, na Foz? Estaria assim tão desejosa por regressar ao seu aconchego de castelã rural, para tratar as “dermatoses” dos filhos, fritar os “rissóis” e provar “as sanefas das janelas”? Nunca chegaremos a saber se viagem ao Porto foi um momento decisivo na vida da provinciana.
Os desfechos propostos por Agustina deixarão insatisfeito o leitor que estiver à procura do happy ending ou da moral da história, geralmente implícita numa metáfora. Mas não é apenas isso. Também causa perplexidade a “falta de transparência”, como se diz por aí, as insinuações, as frases indecifráveis, a aura misteriosa das personagens, enfim, todas as ambiguidades criadas em torno de uma história que chega ao fim sem solução à vista. Curiosamente, ficamos suspensos de qualquer coisa, um pouco como nos filmes do Hitchcock, e lemos a história, mais do que uma vez, à procura do que lhe parece faltar para que faça sentido. Mas não será o mesmo que fazemos no nosso dia-a-dia, quando nem um sexto sentido ajuda a perceber o que se passa à nossa volta?
Num outro conto, começa-se por teorizar sobre a “boa história” que narra a “consciência da nossa individualidade”, algo tão extraordinário que, diz-se, só um artista consegue “desvendar.” Depois da introdução um tanto ensaística, passa-se da teoria à prática com o início do relato. Como nos romances, narram-se os antecedentes do Gil e só depois aparece o Gil, um bastardo criado por mulheres infelizes que vão envelhecendo e morrendo nos seus “viveiros”, deixando o rapaz em completa orfandade e com escassos meios de sobrevivência. Anos depois - o tempo passa em dois ou três parágrafos -, o Gil faz-se poeta, quer dizer, um poeta que não “devia escrever versos,” e encontra a Lucinda, uma pianista sem “espaço” senão “para sonhar”. A história termina com a hipotética ligação amorosa entre os dois artistas falhados. Porém, não fica claro se o Gil e a Lucinda vão caminhar juntos ou separados para o resto da vida, se encontram uma terceira via, seguindo “ora mais distantes, ora lado a lado”, como se diz à maneira de final, ou, ainda, se conseguem desvendar a “consciência da individualidade”, o enigma aflorado no princípio. A conclusão será, pois, a que cada um muito bem entender.
Não há dúvida de que o leitor está a ser manipulado por uma contadora de histórias que, desde há muito, pratica a arte ancestral do conto, como se nota através dos vestígios de oralidade espalhados aqui e ali. No momento em que o Bráulio, invejoso da mulher, com quem disputa a companhia de intelectuais e artistas, pensa no convidado escondido debaixo da mesa, entretanto desaparecido, a voz da narração interrompe os pensamentos do Bráulio e, como se estivesse a falar para uma vasta audiência, exclama: “Adeus, senhores, acabou-se o conto”.
Tal como era contado antes, o conto já não conseguia arrebatar o leitor sofisticado, perdido, na altura, nos emaranhados do romance. Daí a necessidade para as inovações, entre elas, a da conclusão inconclusiva, emprestada ao Chekhov, um dos mestres do conto moderno. Há, no entanto, quem prefira o realismo do Maupassant, menos dado a ironias e a ambiguidades. O russo é, contudo, o mais citado pelos modernistas para justificar os modernismos que eles próprios iam trazendo para a ficção, longa e curta, esta muitas vezes prolongada em forma de romance. Veja-se o caso da Virginia Woolf que começou por escrever uma historieta, à qual deu o título de Mrs. Dalloway, e que depois acabou naquilo que se viu, um dos romances mais badalados da escritora inglesa.
Agustina domina os dois tipos de ficção com igual à-vontade e muitos dos seus romances são colectâneas de pequenas ficções ligadas, entre si, por variantes de uma personagem ou de um tema, como já tentámos provar em qualquer lado. Não nos parece estranho que a voz narradora faça questão de mostrar que conhece as regras do jogo, não vá o leitor distrair-se e pensar que, em vez de uma historieta, está a ler um dos romances. Mas nunca vai ao ponto de exibir o know-how teórico com que certos autores pós-modernos procuram deslumbrar o crítico literário. Longe disso. Fica-se pelo número limitado das personagens na história: “Eram apenas dois os personagens que estavam previstos nesta história ... O terceiro personagem pode estragar tudo...”. A alusão é tanto mais irónica se tivermos em conta a multidão de figuras e figurantes dos romances, tantos que o leitor tropeça nos nomes deles e tem dificuldade em distingui-los.
Noutra ocasião, finge não dar ouvidos a boatos ou mesmo à “boa fonte” que, na província, diz incluir “as maiores sevícias morais, as maiores depredações da dignidade humana”. Ironicamente, na história sobre o Camilo Timóteo, afirma que o “desastre físico” do homem vem de “boa fonte”, embora não a identifique, como fazem os jornalistas, até os mais referenciados. Apesar das “sevícias” e “depredações” da “boa fonte”, lá vai dizendo que os filhos da Tília, a prostituta que coabita com o Camilo, não são dele, e que o Camilo os baptiza com os nomes dos seus antepassados, escolhendo um dos rapazes para seu legítimo herdeiro. Camilo morre de velho, na miséria e, por força das circunstâncias, estéril. Era o segundo dono da Brusca, um antigo solar urbano comprado a um senhor d’Além, cheio de pergaminhos, mas falido. Resumindo, destruída pela filharada vadia da Tília, a casa estava em tão mau estado que nem um novo-rico como o Monteiro Branco, que a comprou por tuta-e-meia, conseguiria fazer do “pardieiro” uma pousada para turismo rural, a menos que trasladasse a casa, pedra por pedra, para o litoral ou para o estrangeiro, tão longe como a Suíça, onde o Branco devia ter feito bom dinheiro. E a história termina com um comentário que só um leitor bastante ingénuo poderá levar a sério: “Mas diz-se muita coisa, e há sempre quem exagere”.
Para além dos aspectos formais, as contradições, as ironias, as ambiguidades e tudo o resto, também são evidentes os sinais de mudança numa província - pois estamos a falar dos contos sobre a província - que, devido à emigração e ao êxodo para os centros urbanos, viria a desertificar-se e, mais tarde, a urbanizar-se, um processo de transição que deixaria marcas profundas na ficção, tanto na longa como na curta.
O cinema é outra das causas de mudança, por mostrar ao espectador outros mundos e outras gentes e despertar, às vezes, sonhos irrealizáveis, como se vem a descobrir numa outra história, onde, antes de terminar, a voz da narração declara, usando o sempre envolvente “eu” colectivo: “Mas nada temos já a acrescentar a esta história”. Acontece que, pouco antes, tinha dito que o David, ou alguém parecido com ele, teria sido visto a passear-se pelas ruas da cidade, possivelmente no Porto. Mas tanto diz que “era bem ele”, um David já míope e de cabelos “mais raros”, como, logo a seguir, duvida do que disse: “não podemos jurar”. Ora ninguém faz fé no que se diz e deixa de dizer ou no que se pensa que é e não é, uma das características desta voz narradora, que também passa o tempo a reflectir sobre o escreve, muito à maneira dos pós-modernistas, que vão sempre cogitando sobre a ficção da ficção, com o pretexto de escrever metaficção.
Mas, como íamos dizendo, a revelação feita quase no fim da história, espicaça a curiosidade do leitor em relação ao David, o sobrevivente de uma tentativa de suicídio, numa daquelas tragédias camilianas que ainda hoje fazem as primeiras páginas dos tablóides. Supõe-se que o rapaz se tenha sentido desorientado, ou culpado, por ter escapado da morte, enquanto a mulher amada, atingida “com duas balas no peito” se foi desta vida para sempre.
A defunta era, por seu turno, viúva de um juiz que tinha falecido “em pleno vigor físico,” em vésperas de uma promoção judicial, deixando vários casos por julgar e a mulher, a braços com os nove filhos, dos onze que tinham produzido. Órfãs de um magistrado de província, as crianças seriam criadas como burgueses “pelintras,” vivendo de dádivas e dos fiados, na quase clandestinidade de uma casa de “sobreloja.” O que destaca esta viúva de outras em circunstâncias análogas é a paixão serôdia da mulher - descrita como “gorda”, de “bandós a picarem de cinzento” e “já sem juventude” - pelo David, um rapazinho vindo “das Ilhas,” colega dos filhos mais velhos, com quem ela, segundo constava, encontrou a “felicidade.”
Ou porque não aguentassem a condenação colectiva de um meio provinciano, ou porque os incomodasse a reprovação dos filhos dela, o facto é que os dois amantes resolveram suicidar-se ao mesmo tempo. Não nos devemos preocupar demasiado com as motivações das personagens, como seria normal num romance, onde as causas e os efeitos são importantes para que se entenda o enredo. Aqui, onde nem sequer há enredo, a falta de lógica é perfeitamente aceitável. O que conta é o gesto dos dois amantes, o qual os iria pôr ao nível de outros trágicos amorosos, não tivesse o rapaz sobrevivido, e não fosse a viúva alguém que, para além dos “belos olhos,” não tinha mais nada por onde se lhe pegasse, como se costuma dizer.
O caso dos amantes, com o seu quê de tragicomédia, foi esquecido rapidamente por todos, a não ser pela mestra loura que, tal como a provinciana e a viúva, não tem nome. A mestra não conseguia esquecer a paixão fulminante da defunta, tendo sido ela quem revelou, em primeira mão, que a viúva tinha um amante. Talvez o tenha feito por inveja da mulher que, apesar de “insignificante” e um “tanto estúpida”, se tinha redimido através do amor, acabando por merecer a “aprovação” da mestra que, para além de romântica, era cinéfila.
À medida que a história avança, damo-nos conta de que a figura central não é a viúva, mas a mestra “oxigenada,” para quem a experiência amorosa da outra faz ressaltar o vazio da sua vida, limitada à docência rotineira de uma escola de província. Apesar de ter sido bela e de se ter feito “letrada,” a professora não arranjou marido à sua altura e teve de se contentar com um merceeiro “mesquinho” lá na terra, homem incapaz de pensar noutra coisa senão no dinheiro das vendas.
Também, aqui, nos é dado ver a mestra por dentro, enquanto corrige os trabalhos dos alunos pela noite fora, à luz amarelada da “lampadazinha” que torna ainda mais amarela a sua “cabeça oxigenada”. Vê-se que ela gostaria de ser como as vamps que apareciam nos cartazes da época, “a Brigitte, a Helm, a Marlene”, ou, pelo menos, viver uma paixão tão intensa como a da viúva pelo David, figuras que faz ressuscitar através da memória. Ao mesmo tempo, pensa na filha, a Loló, bonita como ela e, como ela, mal casada, cada vez mais obesa e provinciana, embora fosse prendada e tivesse aprendido a dançar o charleston, para quem não saiba, uma dança amalucada importada da América. A mestra sente inveja não só da viuvez feliz da viúva, mas também da orfandade burguesa dos filhos da viúva, gente “fina” e com oportunidades na vida que a sua Loló nunca teria, apesar de filha única, de pais ainda vivos e, ao que parece, abastados.
Não sabemos o que irá ser a vida da mestra de aqui em diante, mas é possível que, aos domingos, continue a dar uma ajuda no cinema, possivelmente negócio do marido. Põe de lado os trabalhos de casa dos alunos para vender bilhetes e “pastilhas Naval” à garotada que se acotovela para ver os westerns, com sheriffs e um cowboy valentão como o Tim McCoy, antes de o actor enveredar pela televisão. É com os miúdos que ela descarrega o azedume acumulado durante toda a semana, repetindo sempre o mesmo impropério: “Raça!”
O leitor sente compaixão por esta mulher, que já não é nenhuma rapariga loura, e que vê os anos a passarem sem que nada de extraordinário lhe aconteça na vida. Não teve a sorte da viúva que, embora não passasse por viúva alegre, morreu satisfeita, vivendo um grande amor. Nem lhe reconheceram o glamour das Bardots, que pertenciam ao mundo das fitas, fora do seu alcance. Enquanto o David, ou alguém parecido com ele, revisitar a sua memória, é possível que a chamazinha se reacenda, ajudando-a a suportar as tarefas rotineiras da sua docência.
Nesta história, mistura-se a raiva com a inveja, o amor com o desamor, o preconceito de classe com a maledicência, o grotesco com a ironia, tudo visto, num relance, e na perspectiva da mestra, enquanto corrige os trabalhos dos alunos, ao lusco-fusco da lâmpada de mesa. No romance, assim como no cinema, a vida inteira da mulher oxigenada rolaria perante os nossos olhos, mas ninguém pode garantir que se visse tanto como se vê nesta história sobre a mestra loura.
Quem escreve ficções como esta, conhece bem não só o género, mas também o género de audiência que tem pela frente, a quem lança, com ar trocista, um desafio como este : “Se julgam que vou contar-lhes uma história de Natal, com pinheirinhos, presépios e neve fingida, estão muito enganados”. E depois da piscadela de olho, narra a história da mulher estafeta com o “belo casaco cor de pêlo de boi”, que chamava “ele” ao amigo, e que se referia ao marido como “o meu”. Para quem quiser saber mais acerca deste pombo-correio, no feminino, terá de ler a ficçãozinha do princípio ao fim, embora, no fim, se volte ao princípio.
Lisboa, 30 de Dezembro de 2009.
Laura Fernanda Bulger
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Comunicação de NATÁLIA M RENDA CORREIA
Presidente da Associação Mulher Migrante Portuguesa da Argentina
História do Movimento Associativo na República Argentina
Somos uma raça antiga a morar na Argentina. Foi Portugal que reconheceu, em primeiro lugar, o 1° governo Argentino e é por isso que a Bandeira Portuguesa pode estar tanto à direita como à esquerda, da "Bandera Nacional".
O Associativismo começa por uma necessidade de estarem juntos, os Imigrantes, para recordarem a Saudade do seu País Natal.
Em Buenos Aires, o Encarregado de Negócios de Portugal dessa altura, o Sr. Álvaro Paes de Faria, fez uma comunicação aos Portugueses residentes na Cidade, para manifestar-lhes o desejo de que, seguindo o exemplo de outras colónias estrangeiras, formassem uma sociedade de Beneficência Portuguesa destinada a auxiliar os compatriotas desvalidos, residentes no país.
Foi assim que um grupo de homens começa a trabalhar no ano 1828 e se funda a Caixa de Socorros “LUSITANIA” , pois o primeiro passo se tinha dado.
Continua como Sociedade Portuguesa de Socorros desde o ano 1883 até 1904, depois muda de nome e passa a chamar-se, “REAL SOCIEDADE PORTUGUESA DE SOCORROS desde 1905 até 1910. Continua como Sociedade Portuguesa de Socorros até que se construiu o Hospital Português.
Foi um contínuo trabalho do Associativismo, anos de Historia, em que toda a Comunidade contribuiu para realizar essa grande Obra. Na maioria, eram socios do Clube Português.
Como Comunidade Estrangeira, dentro do Associativismo, somos a única que tem um Panteón, no "Cimenterio da Recoleta", data desde o 26 de Abril de 1882 - onde descansam os restos de Eva Perón, de vários presidentes e das maiores pessoalidades das Letras, políticos etc. doado pelo Presidente Torcuato de Alvear, casado
com a primeira e única Dama estrangeira que teve o país: era Dona Regina Paccini de Alvear , Portuguesa, Cantante Lírica, mal vista pela Sociedade Argentina nessa altura, mas ela deu exemplo de amor ao desvalido demonstrou ser uma Mulher de grande
humanidade, deixando obras que ainda hoje são Orgulho do que fez uma primeira Dama Portuguesa.
O Associativismo continua com o Clube Português que já fez 93 anos de vida no ano 2011, toda uma História dentro de essas paredes, por aí passaram muitas personalidades do Fado, da Música, das Letras e da Política.
Há, de seguida, um novo movimento dentro desse Associativismo. É que um grupo de Homens das Beiras e do Norte de Portugal tem novas ideias - querem abrir uma nova Casa Portuguesa, e assim nasce o Centro Pátria Portuguesa, dentro do círculo da Capital que, no mês de Setembro de 2011, fez 80 anos de vida.
Surgem mais ideias, projectos... novos Ranchos Folclóricos, como o Grupo Os Pauliteiros de Miranda, que esteve vários anos inactivo, e agora estão para voltar a dinamizar...Tem um Jovem de Vice-Pte.Sr. Dúlio Moreno e Maria Laura Rojas, cantam Fados, mostrando nossa Música. Há outros grupos Argentinos que se dedicam ao Fado, o que é muito interessante para toda a Comunidade, pois até agora não havia nada de semelhante. Essa Instituição também tem O GRUPO COIMBRA, que toca música Portuguesa, e vai actuar em diferentes lugares actuar para muitos públicos.
Dentro da Comunidade há ainda muitos Ranchos Folclóricos das várias Associações.
No ano 1978 fundam-se 3 Associações perto da Cidade de Buenos Aires.
Somos poucos mas temos Associações em diferentes Províncias do país a 2000. Ks. a 600km. A 400ks. a 300ks. E continuam abrindo casas de Cultura. Dentro de estas Associações de tão longe, a que mais actividade tem é a de Comodoro Rivadavia .
Dentro do Associativismos as Mulheres têm feito o trabalho de transmitir aos seus filhos e netos a Cultura, as Costumes do País natal. Os descendentes, quase todos, vão para a Universidade.
As Mulheres convidavam os seus vizinhos portugueses, os seus conhecidos, para que frequentem a Casa Portuguesa. O resultado foi fantástico, hoje muita gente, descendentes de outras raças têm connosco convívio, como também Portugueses de diferentes lugares de Portugal.
A Língua Portuguesa, é e será o Orgulho de todos nós, espalhados pelo mundo fora, e quase todas as Entidades oferecem o ensino da Língua.
A primeira Professora a dar classes foi a Dra. Ângela Rodrigues
Barros, também a primeira Bolseira do Brasil e de Portugal, uma
Argentina que foi Directora de Línguas Vivas de Bs. As. E que, morou
muitos anos em Portugal a pesquisar sua Historia, para poder transmiti-la .
Geração Luso- Descendente
As Instituições Portuguesa alguma delas estão atravessando uma difícil situação por não terem pessoal que queiram conduzi-las, caso de Mar del Plata, que vai fazer 50 anos de vida o ano que vem, e está com falta de Sócios que queiram continuar com a Entidade. Para cumprir com os Estatutos, teria de ser vendida, e passaria as mãos de um Lar da Cidade onde está.
Deixo uma ideia aqui: poderiam as Autoridades mandar um Professor de guitarra Portuguesa para incentivar o ensino desse instrumento (que na Argentina não há?
Outra reflexão: a gastronomia portuguesa é tão rica, porque não enviar um "chef"" para ensinar a fazer comidas típicas , não só a nível português como a nível das diferentes comunidades de outros Países e das que são originariamente da Argentina... Temos que abrir-nos como fazem outras Comunidades!
Sabemos bem da diferença de preparação de um jovem Profissional e de uma
pessoa que fez a 4ª. Classe há 60 anos atrás.
Pergunto: não seria saudável deixar que os Jovens organizem eles o que queiram, para ver até donde chega a responsabilidade e o interesse de novas ideias. E que os maiores de idade ajudem, para que juntos possamos ter um convívio normal para que sigam funcionando para orgulho de todos, estes grupos Associativos!
SITUACÄO DE GÉNERO
E, por último, quero qualificar o trabalho das Mulheres, que sempre trabalharam á sombra dos homens - ainda hoje elas continuam a trabalhar da mesma maneira, nas pessoas da minha geração. Algumas puderam ocupar lugares em diferentes Associações, mas não foi fácil... tivemos que lutar muito e demonstrar com trabalho que tínhamos capacidade para faze-lo.
A outras ainda não lhe deram o lugar, como sabemos o Homem Português na Argentina tem dificuldade de partilhar cargos Directivos.
Agora, nas gerações jovens, a Mulher ocupa cargos ou profissões em igualdade
com o género masculino.
Aliás, tivemos um grande incentivo duma grande Mulher a Dra. Maria Manuela Aguiar que numa das visitas que fez ä Argentina, nos pediu: porque as Mulheres não se uniam e formavam uma Associação para fazer coisas diferentes? E foi assim que nasceu a Associação da Mulher Migrante na Rep. Argentina. Foi um grande desenvolvimento para as Mulheres, e uma libertação, para que pudessem sair para assistir ás reuniões e dessa maneira ganharem um espaço de afirmação pessoal.
Como disse, antes, as Associações que integram a Comunidade onde se inserem, nasceram para dar respostas aos sócios, fazendo Festas, jogos de mesa, festividades de Romarias e Ranchos folclóricos.
Mas esta MULHER MIGRANTE veio para dar resposta ás dificuldades Económicas que muitos compatriotas tiveram e têm. Mas agora contam com a Solidariedade desta Associação, que começou a trabalhar, e, imediatamente, se viu o resultado - os pedidos vinham de todos lados até de Pcias. a 500 km. de distância, chegavam para pedir ajuda, e lá estava a Mulher Migrante para dar solução ao pedido.
O nosso trabalho teve enfoque na parte Social e de Voluntariado, chegando as casas dos Carentes Portugueses, ou dos casados com nossa raça, para dar ajuda aos seus problemas, foram muitos e de diferente índole.
Também fizemos Teatro de Paródia, imitando Programas da Televisão, e contando anedotas sobre quando chegamos a Argentina, quando não sabíamos o idioma - coisas que aconteciam e que, depois,
até tinham piada.
Neste contexto, a Associação tem feito Seminários, diferentes mostras de Cultura, Exposições diversas., apresentações com meios audio- visuais, onde as pessoas que ajudamos davam testemunha do que sentiam. Foi emocionante vê-los!
Esta Associação foi e será influente nas áreas sócio – culturais, sendo uma Associação de Inovação Social.
Aqui podemos observar a evolução da Mulher no trabalho Associativo. Também damos o nosso trabalho ás autoridades do governo Português na Argentina, ajudando em tarefas que ligam com a comunidade inteira em diferentes cidades de Buenos. Aires - Em busca de informação sobre os casos de necessidade, levando os cheques de Portugal dos subsídios até à própria morada das pessoas.
Neste quadro, e para finalizar, minhas Senhoras e meus e Senhores, posso dizer que o trabalho que tem feito a Associação da Mulher Migrante na Argentina, tem sido brilhante, respeitado não só pela Comunidade Portuguesa , e Sociedade Argentina, também por muitos outros países da Comunidade Europeia e da América do Sul - muitas vezes recebemos pedidos de informação do Brasil, para saberem como implementámos a Associação, e como funcionámos.
Temos imensos convites de Associações de Bem Público, da Comunidade Europeia, como a Rússia, Espanha, Itália e muitas mais.
Temos participado em Seminários dedicados a pessoas que têm Capacidades Diferentes .
O trabalho Voluntário é e será um exemplo de vida para todas as Mulheres que participam para dar seu tempo, ás diversas necessidades de que hoje padece a nossa gente Idosa, digna de ser respeitada pela trajectória de vida que teve.
Só temos quatro Mulheres Presidentes de diferentes Associações.
Peço as Autoridades presentes que vejam de que maneira as Comendas e os prémios ao trabalho são atribuídos. Não só devem ser para o Género Masculino, o Feminino também merece e espera reconhecimento, da mesma maneira.
Muito obrigado a todos, pela atenção e agradeço á Dra. Maria Manuela Aguiar e á Dra. Rita Gomes duas Mulheres que admiro, elas conseguem de nós lá fora tudo o que desejarem, para continuar a trabalhar pelo nosso Portugal, que está a 10.000 km.
de distância, mas tão perto do nosso coração.
Agradeço ao Secretario das Comunidades Portuguesas, a sua Excia. o Dr. José Cesário, pela preocupação que manifesta pelas Comunidades espalhadas pelo mundo fora, também pelo convite que me fizeram, para representar a Associação da Mulher Migrante na Argentina, neste Seminário na Maia nos dias 24-25-26 de Novembro de 2011.
Obrigada.
CV
Sra. Natália María Renda Correia
Estudos Cursados:
Escola em Portugal até 4ta. Classe.
Argentina: Escola Primaria
Argentina Escola Secundaria Normal de Banfield
Argentina Escola Secundaria Nacional de Adrogué
Escola de Música Conservatoria Breyer em Bs.As.
Curso de Faturista: Nomenclador Nacional do Hospital Italiano.
Administrativa de 1° classe na Área da Saúde em Clínica Espora
Adrogué.
Artista Plástica : com Obras no Museo Jorge Luis Borges
Presentando suas Obras em diferentes mostras de arte:
Em Brazil, Uruguai Argentina.
Diretiva da Sociedade Portuguesa de Socorros Mútuos
Diretiva do Clube Portugués: Comisäo de Cultura
Diretiva do Centro Patria Portuguesa
Condutora do Programa Radial: Saudade de Portugal
Pte. Da Associacäo da Mulher Migrante Portuguesa
Socia Fundadora da Mulher Migrante Portuguesa
Voluntaria Dama Cör de Rosa do Hospital Dr. Bernardo Houssay de
Vte. Lopez , desde o ano 1994.
Ornanizou o Seminario no ano 2005, na Biblioteca Nacional Jorge L.
Borges, com a participacäo de Delegacöes de varios Paises.
Participou em diferentes Seminarios falando de diferentes Temas.
Participa em diferentes mostras de Teatro no festejo do Día do
Emigrante.
No Día Internacional da Mulher participa em diferentes palestras.
No ano 2004 participou do Seminario “Mulheres Migrantes das
Diversas Geracöes” em Portugal.
Recebeu a Medalla ao Mérito pelos trabalhos realizados dentro da
Comunidade Portuguesa de parte do Conselho das Comunidades
Portuguesas na Rep. Argentina
Recebeu a Plaqueta ao Mérito no ano 2007 pelo seu Trabalho na
Comunidade Portuguesa, durante 30 anos de actividade.
Ano 2007 representou A Associacäo em Portugal nos “Premios
Talentos 2007”.
Representou no Cono Sul á Associacäo em diferentes
oportunidades, também informando do trabalho realizado.
Participou em Diferentes Seminarios da Casa da Rúsia convidada
Especial.
Participa nos Aniversarios dos Clubes Portugueses da Argentina.
Buenos Aires, 08-11-2011
História do Movimento Associativo na República Argentina
Somos uma raça antiga a morar na Argentina. Foi Portugal que reconheceu, em primeiro lugar, o 1° governo Argentino e é por isso que a Bandeira Portuguesa pode estar tanto à direita como à esquerda, da "Bandera Nacional".
O Associativismo começa por uma necessidade de estarem juntos, os Imigrantes, para recordarem a Saudade do seu País Natal.
Em Buenos Aires, o Encarregado de Negócios de Portugal dessa altura, o Sr. Álvaro Paes de Faria, fez uma comunicação aos Portugueses residentes na Cidade, para manifestar-lhes o desejo de que, seguindo o exemplo de outras colónias estrangeiras, formassem uma sociedade de Beneficência Portuguesa destinada a auxiliar os compatriotas desvalidos, residentes no país.
Foi assim que um grupo de homens começa a trabalhar no ano 1828 e se funda a Caixa de Socorros “LUSITANIA” , pois o primeiro passo se tinha dado.
Continua como Sociedade Portuguesa de Socorros desde o ano 1883 até 1904, depois muda de nome e passa a chamar-se, “REAL SOCIEDADE PORTUGUESA DE SOCORROS desde 1905 até 1910. Continua como Sociedade Portuguesa de Socorros até que se construiu o Hospital Português.
Foi um contínuo trabalho do Associativismo, anos de Historia, em que toda a Comunidade contribuiu para realizar essa grande Obra. Na maioria, eram socios do Clube Português.
Como Comunidade Estrangeira, dentro do Associativismo, somos a única que tem um Panteón, no "Cimenterio da Recoleta", data desde o 26 de Abril de 1882 - onde descansam os restos de Eva Perón, de vários presidentes e das maiores pessoalidades das Letras, políticos etc. doado pelo Presidente Torcuato de Alvear, casado
com a primeira e única Dama estrangeira que teve o país: era Dona Regina Paccini de Alvear , Portuguesa, Cantante Lírica, mal vista pela Sociedade Argentina nessa altura, mas ela deu exemplo de amor ao desvalido demonstrou ser uma Mulher de grande
humanidade, deixando obras que ainda hoje são Orgulho do que fez uma primeira Dama Portuguesa.
O Associativismo continua com o Clube Português que já fez 93 anos de vida no ano 2011, toda uma História dentro de essas paredes, por aí passaram muitas personalidades do Fado, da Música, das Letras e da Política.
Há, de seguida, um novo movimento dentro desse Associativismo. É que um grupo de Homens das Beiras e do Norte de Portugal tem novas ideias - querem abrir uma nova Casa Portuguesa, e assim nasce o Centro Pátria Portuguesa, dentro do círculo da Capital que, no mês de Setembro de 2011, fez 80 anos de vida.
Surgem mais ideias, projectos... novos Ranchos Folclóricos, como o Grupo Os Pauliteiros de Miranda, que esteve vários anos inactivo, e agora estão para voltar a dinamizar...Tem um Jovem de Vice-Pte.Sr. Dúlio Moreno e Maria Laura Rojas, cantam Fados, mostrando nossa Música. Há outros grupos Argentinos que se dedicam ao Fado, o que é muito interessante para toda a Comunidade, pois até agora não havia nada de semelhante. Essa Instituição também tem O GRUPO COIMBRA, que toca música Portuguesa, e vai actuar em diferentes lugares actuar para muitos públicos.
Dentro da Comunidade há ainda muitos Ranchos Folclóricos das várias Associações.
No ano 1978 fundam-se 3 Associações perto da Cidade de Buenos Aires.
Somos poucos mas temos Associações em diferentes Províncias do país a 2000. Ks. a 600km. A 400ks. a 300ks. E continuam abrindo casas de Cultura. Dentro de estas Associações de tão longe, a que mais actividade tem é a de Comodoro Rivadavia .
Dentro do Associativismos as Mulheres têm feito o trabalho de transmitir aos seus filhos e netos a Cultura, as Costumes do País natal. Os descendentes, quase todos, vão para a Universidade.
As Mulheres convidavam os seus vizinhos portugueses, os seus conhecidos, para que frequentem a Casa Portuguesa. O resultado foi fantástico, hoje muita gente, descendentes de outras raças têm connosco convívio, como também Portugueses de diferentes lugares de Portugal.
A Língua Portuguesa, é e será o Orgulho de todos nós, espalhados pelo mundo fora, e quase todas as Entidades oferecem o ensino da Língua.
A primeira Professora a dar classes foi a Dra. Ângela Rodrigues
Barros, também a primeira Bolseira do Brasil e de Portugal, uma
Argentina que foi Directora de Línguas Vivas de Bs. As. E que, morou
muitos anos em Portugal a pesquisar sua Historia, para poder transmiti-la .
Geração Luso- Descendente
As Instituições Portuguesa alguma delas estão atravessando uma difícil situação por não terem pessoal que queiram conduzi-las, caso de Mar del Plata, que vai fazer 50 anos de vida o ano que vem, e está com falta de Sócios que queiram continuar com a Entidade. Para cumprir com os Estatutos, teria de ser vendida, e passaria as mãos de um Lar da Cidade onde está.
Deixo uma ideia aqui: poderiam as Autoridades mandar um Professor de guitarra Portuguesa para incentivar o ensino desse instrumento (que na Argentina não há?
Outra reflexão: a gastronomia portuguesa é tão rica, porque não enviar um "chef"" para ensinar a fazer comidas típicas , não só a nível português como a nível das diferentes comunidades de outros Países e das que são originariamente da Argentina... Temos que abrir-nos como fazem outras Comunidades!
Sabemos bem da diferença de preparação de um jovem Profissional e de uma
pessoa que fez a 4ª. Classe há 60 anos atrás.
Pergunto: não seria saudável deixar que os Jovens organizem eles o que queiram, para ver até donde chega a responsabilidade e o interesse de novas ideias. E que os maiores de idade ajudem, para que juntos possamos ter um convívio normal para que sigam funcionando para orgulho de todos, estes grupos Associativos!
SITUACÄO DE GÉNERO
E, por último, quero qualificar o trabalho das Mulheres, que sempre trabalharam á sombra dos homens - ainda hoje elas continuam a trabalhar da mesma maneira, nas pessoas da minha geração. Algumas puderam ocupar lugares em diferentes Associações, mas não foi fácil... tivemos que lutar muito e demonstrar com trabalho que tínhamos capacidade para faze-lo.
A outras ainda não lhe deram o lugar, como sabemos o Homem Português na Argentina tem dificuldade de partilhar cargos Directivos.
Agora, nas gerações jovens, a Mulher ocupa cargos ou profissões em igualdade
com o género masculino.
Aliás, tivemos um grande incentivo duma grande Mulher a Dra. Maria Manuela Aguiar que numa das visitas que fez ä Argentina, nos pediu: porque as Mulheres não se uniam e formavam uma Associação para fazer coisas diferentes? E foi assim que nasceu a Associação da Mulher Migrante na Rep. Argentina. Foi um grande desenvolvimento para as Mulheres, e uma libertação, para que pudessem sair para assistir ás reuniões e dessa maneira ganharem um espaço de afirmação pessoal.
Como disse, antes, as Associações que integram a Comunidade onde se inserem, nasceram para dar respostas aos sócios, fazendo Festas, jogos de mesa, festividades de Romarias e Ranchos folclóricos.
Mas esta MULHER MIGRANTE veio para dar resposta ás dificuldades Económicas que muitos compatriotas tiveram e têm. Mas agora contam com a Solidariedade desta Associação, que começou a trabalhar, e, imediatamente, se viu o resultado - os pedidos vinham de todos lados até de Pcias. a 500 km. de distância, chegavam para pedir ajuda, e lá estava a Mulher Migrante para dar solução ao pedido.
O nosso trabalho teve enfoque na parte Social e de Voluntariado, chegando as casas dos Carentes Portugueses, ou dos casados com nossa raça, para dar ajuda aos seus problemas, foram muitos e de diferente índole.
Também fizemos Teatro de Paródia, imitando Programas da Televisão, e contando anedotas sobre quando chegamos a Argentina, quando não sabíamos o idioma - coisas que aconteciam e que, depois,
até tinham piada.
Neste contexto, a Associação tem feito Seminários, diferentes mostras de Cultura, Exposições diversas., apresentações com meios audio- visuais, onde as pessoas que ajudamos davam testemunha do que sentiam. Foi emocionante vê-los!
Esta Associação foi e será influente nas áreas sócio – culturais, sendo uma Associação de Inovação Social.
Aqui podemos observar a evolução da Mulher no trabalho Associativo. Também damos o nosso trabalho ás autoridades do governo Português na Argentina, ajudando em tarefas que ligam com a comunidade inteira em diferentes cidades de Buenos. Aires - Em busca de informação sobre os casos de necessidade, levando os cheques de Portugal dos subsídios até à própria morada das pessoas.
Neste quadro, e para finalizar, minhas Senhoras e meus e Senhores, posso dizer que o trabalho que tem feito a Associação da Mulher Migrante na Argentina, tem sido brilhante, respeitado não só pela Comunidade Portuguesa , e Sociedade Argentina, também por muitos outros países da Comunidade Europeia e da América do Sul - muitas vezes recebemos pedidos de informação do Brasil, para saberem como implementámos a Associação, e como funcionámos.
Temos imensos convites de Associações de Bem Público, da Comunidade Europeia, como a Rússia, Espanha, Itália e muitas mais.
Temos participado em Seminários dedicados a pessoas que têm Capacidades Diferentes .
O trabalho Voluntário é e será um exemplo de vida para todas as Mulheres que participam para dar seu tempo, ás diversas necessidades de que hoje padece a nossa gente Idosa, digna de ser respeitada pela trajectória de vida que teve.
Só temos quatro Mulheres Presidentes de diferentes Associações.
Peço as Autoridades presentes que vejam de que maneira as Comendas e os prémios ao trabalho são atribuídos. Não só devem ser para o Género Masculino, o Feminino também merece e espera reconhecimento, da mesma maneira.
Muito obrigado a todos, pela atenção e agradeço á Dra. Maria Manuela Aguiar e á Dra. Rita Gomes duas Mulheres que admiro, elas conseguem de nós lá fora tudo o que desejarem, para continuar a trabalhar pelo nosso Portugal, que está a 10.000 km.
de distância, mas tão perto do nosso coração.
Agradeço ao Secretario das Comunidades Portuguesas, a sua Excia. o Dr. José Cesário, pela preocupação que manifesta pelas Comunidades espalhadas pelo mundo fora, também pelo convite que me fizeram, para representar a Associação da Mulher Migrante na Argentina, neste Seminário na Maia nos dias 24-25-26 de Novembro de 2011.
Obrigada.
CV
Sra. Natália María Renda Correia
Estudos Cursados:
Escola em Portugal até 4ta. Classe.
Argentina: Escola Primaria
Argentina Escola Secundaria Normal de Banfield
Argentina Escola Secundaria Nacional de Adrogué
Escola de Música Conservatoria Breyer em Bs.As.
Curso de Faturista: Nomenclador Nacional do Hospital Italiano.
Administrativa de 1° classe na Área da Saúde em Clínica Espora
Adrogué.
Artista Plástica : com Obras no Museo Jorge Luis Borges
Presentando suas Obras em diferentes mostras de arte:
Em Brazil, Uruguai Argentina.
Diretiva da Sociedade Portuguesa de Socorros Mútuos
Diretiva do Clube Portugués: Comisäo de Cultura
Diretiva do Centro Patria Portuguesa
Condutora do Programa Radial: Saudade de Portugal
Pte. Da Associacäo da Mulher Migrante Portuguesa
Socia Fundadora da Mulher Migrante Portuguesa
Voluntaria Dama Cör de Rosa do Hospital Dr. Bernardo Houssay de
Vte. Lopez , desde o ano 1994.
Ornanizou o Seminario no ano 2005, na Biblioteca Nacional Jorge L.
Borges, com a participacäo de Delegacöes de varios Paises.
Participou em diferentes Seminarios falando de diferentes Temas.
Participa em diferentes mostras de Teatro no festejo do Día do
Emigrante.
No Día Internacional da Mulher participa em diferentes palestras.
No ano 2004 participou do Seminario “Mulheres Migrantes das
Diversas Geracöes” em Portugal.
Recebeu a Medalla ao Mérito pelos trabalhos realizados dentro da
Comunidade Portuguesa de parte do Conselho das Comunidades
Portuguesas na Rep. Argentina
Recebeu a Plaqueta ao Mérito no ano 2007 pelo seu Trabalho na
Comunidade Portuguesa, durante 30 anos de actividade.
Ano 2007 representou A Associacäo em Portugal nos “Premios
Talentos 2007”.
Representou no Cono Sul á Associacäo em diferentes
oportunidades, também informando do trabalho realizado.
Participou em Diferentes Seminarios da Casa da Rúsia convidada
Especial.
Participa nos Aniversarios dos Clubes Portugueses da Argentina.
Buenos Aires, 08-11-2011
sábado, 25 de fevereiro de 2012
MENSAGEM DE AURORA CUNHA
Caras amigas,
Em primeiro lugar gostaria de felicitar a organização da Associação Mulher Migrante por mais este congresso realizado na linda cidade da Maia, nos dias 24 a 26 de Novembro de 2011.
Foi com grande satisfação e orgulho que no dia 24 recebi tão sentida homenagem por esta associação entregue pela Doutora Manuela Aguiar, uma grande amiga que, ao longo dos anos, tem tido um papel na igualdade dos direitos e oportunidades da Mulher.
Eu que, durante 20 anos, competi em vários países do mundo, dando muitas vitorias e muitos títulos aos nossos emigrantes e guardo muitas recordações. Actualmente, o meu papel na sociedade está ligado à sensibilização de todas as pessoas para a prática de exercício físico, e consegui implementar em Portugal a corrida da Mulher com a vertente de angariação de fundos para a Liga Portuguesa contra o cancro, onde, mais uma vez, as mulheres portuguesas mostraram ser solidárias, pois chegamos às 15.000 Mulheres.
A todas envio saudações, desejando um feliz 2012, desta vossa amiga Aurora Cunha.
Em primeiro lugar gostaria de felicitar a organização da Associação Mulher Migrante por mais este congresso realizado na linda cidade da Maia, nos dias 24 a 26 de Novembro de 2011.
Foi com grande satisfação e orgulho que no dia 24 recebi tão sentida homenagem por esta associação entregue pela Doutora Manuela Aguiar, uma grande amiga que, ao longo dos anos, tem tido um papel na igualdade dos direitos e oportunidades da Mulher.
Eu que, durante 20 anos, competi em vários países do mundo, dando muitas vitorias e muitos títulos aos nossos emigrantes e guardo muitas recordações. Actualmente, o meu papel na sociedade está ligado à sensibilização de todas as pessoas para a prática de exercício físico, e consegui implementar em Portugal a corrida da Mulher com a vertente de angariação de fundos para a Liga Portuguesa contra o cancro, onde, mais uma vez, as mulheres portuguesas mostraram ser solidárias, pois chegamos às 15.000 Mulheres.
A todas envio saudações, desejando um feliz 2012, desta vossa amiga Aurora Cunha.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
COMUNICAÇÃO DE MARIA FERREIRA
Vim par França em Outubro de 1962.
Já namorava há três anos o meu futuro marido, queríamos casar, mas os nossos pais não tinham dinheiro. Pedi, então ao meu irmão mais velho, que já estava em França, para me chamar.
Vim com um contrato para trabalhar num colégio particular de meninas que lá ficavam, dia e noite.
Estava cá há três meses quando fui ao consulado de Paris fazer o necessário para casarmos por procuração.
Depois, em Junho, fui pedir a carta de chamada e não ma queriam dar porque era a primeira mulher que queria mandar vir o marido (era sempre o marido que mandava vir a mulher). Eu respondi-lhes que havia um princípio para tudo e que, se me tinham dado autorização de casar civilmente, era normal que mandasse vir o meu marido.
Deram-ma, finalmente,e eu fui a Portugal, com os dois meses que tinha de férias do colégio, para casar pela Igreja. E viemos, então, os dois para França.
Depois, fiz vir o irmão e as irmãs do meu marido, os meus irmãos e também as minhas amigas, em nome dos irmãos delas, que estavam cá, mas não conheciam ninguém. Eu, no colégio onde trabalhava, conhecia muitas famílias que queriam criadas. E foi assim que começou a minha missão de ajudar os Portugueses.
Chegavam também famílias completas e homens sozinhos e eu arranjava-lhes trabalho e casa para mandarem vir as famílias. Aqueles que estavam realmente sós iam para as barracas nas obras onde trabalhavam.
Também tratava dos papéis, porque a maioria deles vinham ilegais. Como as pessoas falavam entre elas, tanto em França como em Portugal, eram cada vez mais numerosas a virem pedir ajuda. Até nas instituições francesas, (Câmara, serviços sociais, etc.) os empregados, que já me conheciam, mandavam os Portugueses ter comigo para eu os ajudar em diversos aspectos.
Foi assim que, ao longo dos anos, acabei por ajudar muitos e muitos Portugueses, que vieram para França.
O meu marido nunca me proibiu, ao contrário, apoiava-me e admirava-me por tudo o que eu fazia, porque também gosta de ajudar o próximo.
Já namorava há três anos o meu futuro marido, queríamos casar, mas os nossos pais não tinham dinheiro. Pedi, então ao meu irmão mais velho, que já estava em França, para me chamar.
Vim com um contrato para trabalhar num colégio particular de meninas que lá ficavam, dia e noite.
Estava cá há três meses quando fui ao consulado de Paris fazer o necessário para casarmos por procuração.
Depois, em Junho, fui pedir a carta de chamada e não ma queriam dar porque era a primeira mulher que queria mandar vir o marido (era sempre o marido que mandava vir a mulher). Eu respondi-lhes que havia um princípio para tudo e que, se me tinham dado autorização de casar civilmente, era normal que mandasse vir o meu marido.
Deram-ma, finalmente,e eu fui a Portugal, com os dois meses que tinha de férias do colégio, para casar pela Igreja. E viemos, então, os dois para França.
Depois, fiz vir o irmão e as irmãs do meu marido, os meus irmãos e também as minhas amigas, em nome dos irmãos delas, que estavam cá, mas não conheciam ninguém. Eu, no colégio onde trabalhava, conhecia muitas famílias que queriam criadas. E foi assim que começou a minha missão de ajudar os Portugueses.
Chegavam também famílias completas e homens sozinhos e eu arranjava-lhes trabalho e casa para mandarem vir as famílias. Aqueles que estavam realmente sós iam para as barracas nas obras onde trabalhavam.
Também tratava dos papéis, porque a maioria deles vinham ilegais. Como as pessoas falavam entre elas, tanto em França como em Portugal, eram cada vez mais numerosas a virem pedir ajuda. Até nas instituições francesas, (Câmara, serviços sociais, etc.) os empregados, que já me conheciam, mandavam os Portugueses ter comigo para eu os ajudar em diversos aspectos.
Foi assim que, ao longo dos anos, acabei por ajudar muitos e muitos Portugueses, que vieram para França.
O meu marido nunca me proibiu, ao contrário, apoiava-me e admirava-me por tudo o que eu fazia, porque também gosta de ajudar o próximo.
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