segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE ELIZABETH BATTISTA

Maria Archer – O encontro com uma escritora viajante
Elisabeth Battista

Com Maria Archer gasto horas de trabalho e de lazer ficando-me sempre a impressão de haver passado momentos em boa companhia. Conheci Maria Archer na travessia para a outra margem do Atlântico. Sim, depois que li Ela é Apenas Mulher (1944), no contato com Esmeralda, personagem principal do referido romance, foi encanto à primeira leitura. Naquela oportunidade, debrucei-me à janela e fitei, junto com ela, o majestoso Tejo, no seu desembarque em Cacilhas, frente à Lisboa.
Quando isto se deu? Parece que foi ontem, mas remonta a 2003, o tempo em que a Universidade de Coimbra sediou um evento internacional, no qual, em companhia de uma equipe de investigadores do Brasil, participei com apresentação de trabalhos. O grupo de estudiosos da Universidade de São Paulo – USP, dentre os quais a minha orientadora do Doutorado, a Professora. Doutora. Benilde Justo Lacorte Caniato (in memorian), e a Professora. Doutora. Tania Macêdo, tomou parte ativa no evento que congraçou investigadores de diversas áreas e vários países, visto se tratar de um Congresso Internacional Luso Afro Brasileiro de Ciências Sociais.
Entretanto, de passagem por Lisboa, a Professora Benilde Caniato adquiriu a obra Ela é Apenas Mulher, de Maria Archer, reeditada em 2001 pela Editora Parceria A. M. Pereira, e recomendou-me a sua leitura. Esta foi motivação suficiente para que despertasse em mim o desejo de conhecer o conjunto da produção criativa da autora e saber mais sobre a sua biografia.
E tendo o meu Projeto de Doutoramento a finalidade de contribuir para o estudo de autores da literatura de Língua Portuguesa a partir do século XX ainda pouco explorados nas relações literárias Brasil, Portugal e África, a obra de Maria Archer logo me pareceu ser um corpus em potencial.
Foi assim que ao ter elegido como objetivo dar visibilidade à diversidade cultural gerada por essas relações, me lancei na busca de documentos que fornecessem um testemunho da gênese da obra e da vida de Maria Archer, inclusive visitando alfarrabistas e adquirindo todos os títulos disponíveis. Nessas andanças conheci a escritora Maria Albertina Mitelo. À medida que sobre os materiais me debruçava, deparei-me com um fato curioso que corroborou ainda mais a minha reflexão: O fato de tendo ela nascido no limiar do século XX, e tendo contatado direta ou indiretamente com as correntes de pensamento que influenciaram, ou afetaram de forma intensa o ambiente político-cultural português até meados dos anos cinquenta do século passado, e ser, não obstante, pouco estudada pela historiografia literária da Literatura Portuguesa.
Buscando entre os lusitanos notícias sobre a autora e sua obra, contatei a amiga e poetisa Maria Albertina Mitelo , a qual se referiu a uma recente entrevista do Professor Fernando de Pádua à televisão portuguesa, em que ele, na ocasião teria nomeado a escritora Maria Archer como sua tia, e dava a conhecer a última reedição da obra Ela é Apenas Mulher.
De fato, o dado fornecido pela Maria Albertina Mitelo foi fundamental para que eu acessasse um outro estágio da investigação. Isto porque, ao tomar conhecimento dos objetivos que o mesmo perseguia, o Professor Fernando de Pádua, com a generosidade que lhe é peculiar, acolheu-me muito prontamente e concedeu uma entrevista, colocando-me em contato com pessoas simpatizantes à causa. Na oportunidade, citou existência da Dissertação de Mestrado da Professora Dina Botelho, trabalho que mais tarde fez chegar às minhas mãos. Gesto que por si só fala da confiança depositada, motivo pelo qual sou grata.
Trata-se de uma investigação que resultou num primoroso ensaio sobre a obra e a vida de Maria Archer que veio a servir-me de relevante base e fonte de consulta. Encontrei apoio também na pessoa da Dra. Olga Archer Moreira, sobrinha-neta de Maria Archer, que amavelmente me forneceu duas fotografias para ilustração daquela que em 2007 viria a ser a minha futura tese de doutoramento.
De regresso ao Brasil, o percurso investigativo mostrou-se pleno de gratas revelações. A maior delas foi constatar que, em seu longo exílio em terras brasileiras (1955 a 1982), a escritora havia lançado quatro obras e dezenas de crônicas jornalísticas. Note-se que talvez ela tenha sido a primeira autora a ter a noção exata da escassa circulação literária entre a África e o Brasil, o fato logo posto em evidência no seu ensaio jornalístico sobre o tema, “A Censura à Imprensa e ao Livro” (1956), publicado no periódico Portugal Democrático. Aí, reivindica o direito à circulação literária entre os países de Língua Portuguesa.
Sete anos mais tarde, Maria Archer, no prefácio de sua obra África Sem Luz (1962:5-6) é distinguida pelo reconhecimento dos editores em relação ao fato acima. A propósito colhi da Nota explicativa do ensaísta e crítico literário Paulo Dantas , na referida obra, publicada no Brasil, na coleção Círculo do Livro, o seguinte comentário:

(…) Sente-se que a escritora ama o seu mundo africano, compreende a sua gente, capta as suas ingenuidades, desenhando com segurança a paisagem geográfica e social do Continente Negro, no qual tem vivido e participado, através de viagens, pesquisas, passeios etc. (…) Longe de ser uma “mera turista africana”, Maria Archer, já com uma dezena de livros escritos e publicados sobre a África, é uma das vozes esclarecidas do continente. (…) Viveu e habitou na África. Cresceu no seu chão. Formou-se no seu clima. Física e psiquicamente integrada numa grande e total intimidade ecológica, a escritora tornou-se autoridade no assunto, daí o domínio com que aborda a África em todas as suas coordenadas geográficas e latitudes morais, oferecendo-nos valores de comando e interpretação.(...)

A coletânea de narrativas que integram África Sem Luz apelam à imaginação e evocam a tradição oral – elemento fundamental da cultura desses povos africanos, com quem a autora travou contato. O jogo narrativo sobrepõe-se a dimensão documental. Em suas páginas identificam-se elementos que apontam para o universo plural e diverso que caracteriza as linguagens que a autora buscou exprimir, na sua relação literária e cultural com o continente africano e com o seu tempo.
Acresce ter sido uma excelente jornalista, razoável romancista e ensaísta de certo interesse. Foi sobretudo cronista, autora de vários romances e várias dezenas de contos, como “A Sedução do Mistério” (1944) e “A Japoneza” (1956). A sua escrita tem fascinante clareza. Há uma capacidade de fundir o olhar observador e atento à astúcia de exímia prosadora, elegância no verbo e expressão impactante. Seus textos suportam uma leitura antropológica, e aí parece ter sido precursora.
A melhor fase de sua produção criativa começou na idade madura, ao atingir os 40 anos, mas desde o começo já eram pessoais o seu estilo e visão de mundo. O trato da escrita, no processo literário, em grande parte foi dedicado ao forte sentimento de identidade e divulgação da cultura dos países africanos que se comunicam em Língua Portuguesa.
A cultura portuguesa deve-lhe não apenas as contribuições da escrita perspicaz, mas sobretudo a abordagem lúcida e corajosa de questões que abrangiam a vida social e suas contradições que ela teve a ousadia de levantar sendo este um dos seus traços mais marcantes. A linguagem de Maria Archer não tem banalidades, expõe os conflitos morais e sociais do seu tempo por meio da representação artística. O romance Ela é Apenas Mulher (1944), por si só, constitui-se emblema significativo e, não menos importante, ao tempo de sua permanência no Brasil o seu contributo, ao produzir inúmeros artigos nos jornais O Estado de São Paulo, Semana Portuguesa e Portugal Democrático que deram força à resistência ao regime vigente em Portugal.

Todo o trabalho de investigação culminou na tese de doutoramento intitulada Entre a Literatura e a Imprensa: Percursos de Maria Archer no Brasil defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP/Campus da capital, em 2007, e que teve como objetivos ressaltar as experiências e a contribuição literária desta escritora para a imprensa de Língua Portuguesa para a recuperação e a organização da produção criativa da autora, e sobre a sua obra laborada no período de exílio no Brasil (1955 a 1963).
As preocupações, naquele momento, recaíram principalmente na caracterização e avaliação de sua prática, no contexto dos anos 50-60, período rico e fértil em transformações, tanto no Brasil quanto em Portugal e de intensas lutas pela independência na África lusófana.
Este depoimento, que muito me apraz produzir é também um dos produtos do Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora , dedicado em homenagem à memória das Marias: Archer e Lamas. O evento e a publicação que integrará este e outros textos traduzem-se na atualização da memória e vem, até certo ponto, colmatar uma falha que pesa sobre o nome da autora, e não merece ser deixada ao abandono dos investigadores, tanto mais que é amplamente reconhecida pelo público-leitor.

A literatura de Maria Archer singrou as águas do Índico, do Atlântico e aportou no Brasil. Pode-se dizer que, assim como a força unificadora da língua de expressão portuguesa, a sua produção criativa provou ter vocação marítima, pois transpôs os hostis entraves das fronteiras geográficas, e passou a ser abertura para o estreitamento dos laços identitários entre os países lusófonos.




1 Estágio Pós-Doutoral/Universidade de Lisboa – Bolsa de Investigação/CAPES, na Faculdade de Letras/FLUL/CEC/Portugal. Doutora pela Universidade de São Paulo – USP. Docente no Departamento de Letras do Campus Universitário de Cáceres, e no Programa de Pós-graduação em Estudos Literários – PPGEL, da Universidade do Estado de Mato Grosso -UNEMAT/Brasil.
2 Centro de Estudos de Culturas e Literaturas de Língua Portuguesa – CELP.

3 Maria Albertina Mitelo é autora de quatro obras de poemas: Entre Pássaros e o Mar (2002), O Corpo das Aves (2004), Uma Leve Matéria (2007) e Matéria Brevíssima (2009). Edições Afrontamento.
4 Professor Doutor Fernando Manuel Archer Moreira Paraíso de Pádua, Fundador da Fundação Professor Fernando de Pádua e do Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva – INCP. Autor de O Livro do Coração, (2008) e Conversas no Meu Consultório (2011).
5 BOTELHO, Dina Maria dos Santos. “Ela é Apenas Mulher” Maria Archer Obra e Autora. Dissertação de Mestrado em Estudos Anglo-portugueses, apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sob a orientação da Professora. Dra. Maria Leonor Carvalhão Buescu. Lisboa, 1994, 182p.
6 Paulo Dantas, ensaísta, crítico literário, romancista, jornalista, vice-presidente da Academia de Letras de Campos do Jordão, presidente da Academia Brasileira de Literatura Infanto-Juvenil. Detentor dos prêmios Coelho Neto e Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras.
7 Realizado pela Mulher Migrante - Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade, com apoio da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, na Maia/Porto em novembro de 2011.
8 A autora, além da contribuição à imprensa periódica publicou no Brasil: Terras Onde se Fala Português (1957), Os Últimos Dias do Fascismo Português (1959), África Sem Luz (1962), Brasil, Fronteira da África (1963).

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

GRAÇA GUEDES "O tempo e os modos de viver a cidadania"

Cumprimentos: Mesa e participantes neste painel A todos e a todas aqui presente
É para mim uma honra e uma grata satisfação Moderar o último painel deste ENCONTRO MUNDIAL DE MULHERES PORTUGUESAS NA DIÁSPORA e intitulado O TEMPO E OS MODOS DE VIVER A CIDADANIA agradecendo desde já a intervenção de todos os intervenientes: À Senhora Deputada Maria João Ávila, Aos senhores Deputados Carlos Gonçalves e Carlos Páscoa,
O Dr. António Regedor da Universidade Fernando Pessoa À Dra. Manuela Aguiar, Presidente da Assembleia Geral da Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade Mulher Migrante. À Senhora Cônsul Geral Maria Amélia Paiva, relatora deste painel, que tem a difícil tarefa de nos apresentar uma síntese dos contributos de todos nos diferentes painéis que integram este congresso.
É um Encontro, com uma dimensão mundial, que permite reflectir aprofundadamente e com o maior rigor científico, todas as problemáticas que envolvem questões tão amplas e diversificadas, implícitas à mulher portuguesa na nossa diáspora.
É um Encontro, que afinal é um reencontro de amigas, a quem muito especialmente saúdo e já desde o pioneiro, que aconteceu em Viana do Castelo, em Junho de 1985 –
o 1º ENCONTRO MUNDIAL DE PORTUGUESAS MIGRANTES NO ASSOCIATIVISMO E NO JORNALISMO – organizado pela Secretaria de Estado da Emigração e com o patrocínio da UNESCO
E, 10 anos depois, em Março de 1995, em Espinho,
O ENCONTRO MUNDIAL DE MULHERES MIGRANTES – GERAÇÕES EM DIÁLOGO – organizado pela Associação Mulher Migrante. Esta associação, da qual quase todas fazemos parte, em 2005 retoma a realização destes encontros e, por acção directa das suas representantes nos diversos continentes, organizando os ENCONTROS PARA A CIDADANIA em
Buenos Aires, Newark, Montreal, Toronto, Estocolmo e Joanesburgo. Para além destes Encontros, muitos outros eventos científicos tem realizado no país, razão pela qual merece o nosso reconhecimento e o nosso aplauso. Mas é o momento de iniciarmos os trabalhos, dando de imediato a palavra aos intervenientes, agradecendo o cumprimento rigoroso do tempo que dispõem, de forma a podermos estabelecer depois diálogo com todos.

Maia, 26 de Novembro de 2011

Graça Guedes

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE TERESA HEIMANS

Começo por felicitar os membros da mesa,as autoridades
oficiais aqui presentes,bem como todos os/as participantes deste
encontro.
Em relação ao Associativismo não vou repetir o passado
que todos nós conhecemos,mas vou dar uma visão do presente e do
futuro das Associações ,sobretudo na Europa e mais propriamente na
Holanda.
O movimento associativo que durante anos foi o baluarte
social nas comunidades de portugueses no estrangeiro,divulgando
a lingua /a cultura,e fortelecendo os laços de amizade,colaboração
entre as pessoas ,desempenhou igualmente um papel social de
relevancia,encontra-se neste momento em estado muito grave de
sobrevivência.
Os motivos são dois essencialmente;
-Falta de meios financeiros
-Falta de pessoas para os orgãos directivos.
O papel da mulher começou então com uma ascenção vertiginosa.As mulheres deixaram de ser meros meios de decoração,para passarem a ser optimas para angariar fundos tão
necessários.Começam a praticar todo e qualquer tipo de desporto e até as mais idosas se inscrevem em cursos de manutenção.As mulheres passam a estar presentes em todas as acções desportivas/culturais ou de recreio.
Porque razão na grande maioria das associações as mulheres não estavam presentes nos orgãos gerentes ou nas AG?
Felizmente começaram a aparecer casos de grande sucesso de gestão femenina.Isto deveu-se ao facto de diante da decisão dos directores homens, de fechar as colectividades serem as mulheres que decidem ser elas a manter as mesmas, abertas,

Ë necessário abrir ás mulheres os corpos gerentes de todas as organizaçòes.Os homens ao faze-lo não perdem privilégios,passam sim a ter o privilégio de compreender que a
presença,participação,creatividade das mulheres na gestão das organizações,faz parte da sua libertação e promoção social,e que os homens,estão consagrando a sua própria libertação ao fazer e facilitar com que nas colectividades reine a complementaridade entre homem/ mulher,auxiliando-se mutuamente,construindo assim um mundo tão
desejado por ambos.
Vivendo num mundo de mudança,as mulheres mudaram também.Torna-se necessário que o movimento associativo tome consciência que para essa mudança se fazer no tempo,homens e mulheres terão que estar em pé de igualdade como dirigentes,com todas as suas qualidades,o seu tacto femenino,a sua irresistível criatividade.

Este é o futuro.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

INTERVENÇÃO DE ANTÓNIO GONÇALVES BRAGANÇA FERNANDES Presidente da Câmara Municipal da Maia

Foi com subida honra que a Maia acolheu e apoiou o 3º Encontro Mundial de Mulheres
Portuguesas na Diáspora que decorreu de 24 a 26 de Novembro de 2011 no Fórum da Maia,
numa iniciativa conjunta da Secretaria de Estado das Comunidades e da Associação Mulher Migrante e Participante da Diáspora, a qual contou com ilustres personalidades femininas, mas também masculinas.
Tendo integrado esta iniciativa uma Exposição Coletiva de Pintura e Escultura subordinada ao tema “Feminino Plural” e “Rostos da República” que ficou patente na Biblioteca Municipal Dr. Vieira de Carvalho até ao final do ano de 2011, prestou-se assim homenagem de forma simbólica a todas as mulheres portuguesas na diáspora, através da evocação de duas grandes personalidades que muito fizeram, pela Diáspora Feminina. Maria Lamas mulher de personalidade dinâmica e afirmativa, que desenvolveu vários projetos, organizando conferências, concertos e exposições, refletindo na sua obra escrita, a sua experiência de vida quer durante o período em que permaneceu em África depois de casar, quer como membro do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, associação fundada durante a I República, quer ainda como membro do Conselho Mundial da Paz, que a levou ao exílio, durante oito anos, na cidade de Paris, tendo sido uma das primeiras pessoas a receber a Ordem da Liberdade das mãos do Presidente da República, a qual viria a falecer em Portugal ao 90 anos de idade e Maria Archer, ficcionista, ensaísta, tradutora, jornalista, poeta e dramaturga, que
nasceu em 1905, em Lisboa, e faleceu na mesma cidade aos 77 anos, tendo também a sua obra espelhado a sua experiência de mulher migrante por terras de Moçambique, Guiné e Angola até se voltar a fixar na metrópole.
Traduzindo-se o fenómeno da migração feminina num tema que desperta tão grande interesse de estudiosos e investigadores do mundo inteiro, acredito na utilidade destes fóruns de partilha de saberes e de experiências e na importância de uma atuação informativa e sensibilizadora nestas áreas. Considero que mais do que um encontro de mulheres, este Encontro Mundial das Mulheres Portuguesas na Diáspora que se realizou na Maia, foi um encontro sobre as mulheres no contexto da migração e da sua importância ao longo dos tempos e no momento atual, em que a presença feminina assume especial relevância em todos os quadrantes e segmentos da vida política, social, cultural, desportiva e também ao nível da investigação, entre outros.
O Concelho da Maia sempre fez questão de acompanhar a abordagem dos grandes temas da
atualidade, tendo sido com grande satisfação que viu realizar-se este Encontro Mundial em Terras da Maia, que por sua vez também tem tradições migratórias, pelo que em momentos como este aproveito sempre para recordar que foi com a ajuda dos emigrantes que, quando regressavam definitivamente a Portugal, ajudaram a construir este lindo concelho que é a Maia de hoje.

António Gonçalves Bragança Fernandes, Engº.

Presidente da Câmara Municipal da Maia

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE CÉSAR GOMES DE PINA

Como se fundaram as Academias do Bacalhau em Portugal?

A primeira Academia a ser fundada fora do continente africano, foi a Academia do Bacalhau do Funchal, na Ilha da Madeira, no dia 10 de Julho de 1987. Depois, outras se seguiram: Lisboa; Porto; Algarve; São Miguel; Costa do Estoril; Estremoz; Viseu; Aveiro; Braga; Terceira; Coimbra; Faial e Setúbal.
PERMITAM-ME AGORA QUE REFIRA DE UMA MANEIRA MUITO ESPECIAL A MINHA MUI
BRIOSA E TRIPEIRA ACADEMIA DO BACALHAU DO PORTO, FUNDADA EM 16 DE SETEMBRO DE 1989.
ACADEMIA DO BACALHAU DO PORTO

Uma Receita de Sucesso.
A Academia do Bacalhau do Porto, há 22 anos a semear amizade, solidariedade e portugalidade, é hoje uma Academia exemplar em Portugal e no mundo e uma referência cultural e filantrópica no distrito e que apesar da crise não pára de crescer pois está perto de atingir 300 associados efectivos (Compadres e Comadres) .
O ano passado bateram-se todos os recordes no que diz respeito a presenças nos Jantares-Tertúlia da Academia do Bacalhau do Porto, com os dados oficiais a apontarem para uma média mensal de 140 compadres e comadres, número este que significa um aumento de cerca 540 por cento face ao período compreendido entre 1996 e 2005.
A justificação para este crescimento sustentado deve-se à introdução de um conceito trazido do meu mundo empresarial, ou seja, uma Gestão Por Objectivos, bem como um princípio que sempre me acompanhou e o qual procuro passar aos mais novos, incentivando-os a sair da vulgaridade, como forma para alcançarem sucesso nos seus projectos de vida. “Sair da vulgaridade é fazer e ser diferente no sentido positivo”.
E, a verdade é que na Academia do Bacalhau do Porto, têm-se introduzido coisas novas, nomeadamente a criação inédita de Vice-Presidências importantes tais como: Área da
Saúde (Vasco Gama, médico cardiologista e Director da Cardiologia do Centro Hospitalar de Gaia e Luís Ferraz, médico urologista e Director de Urologia do mesmo Hospital); Área Cultural (Delfim Sousa, Director da Casa Museu Teixeira Lopes,
Nassalete Miranda, professora universitária e Júlio Couto, escritor); Área da Juventude (Francisco Rodrigues, engenheiro, Marisa Pinho jornalista e Nuno Nóbrega, gestor); Área Jurídica (Rui Duarte e António Duarte- advogados), sempre disponíveis quando solicitados, a prestarem a sua melhor ajuda a Compadres da nossa ou doutras Academias do país e do estrangeiro.
A «receita» para o invulgar crescimento desta Academia está assim relacionada com a visão estratégica de juntar à vertente de tertúlia, a vertente cultural, tornando os
Jantares-Tertúlias mais apelativos por força da presença de reconhecidas personalidades das mais diversas áreas, da saúde à economia, passando pelo mundo académico, cultural, desportivo ou social, as quais apresentam interessantes e úteis palestras subordinadas a temas das suas especialidades. Mas, a mais importante e eficaz “receita” para o sucesso da Academia
do Bacalhau do Porto, reside na motivação, empenhamento e esforço colectivo daqueles Compadres e Comadres que me acompanham e sentem o verdadeiro espírito desta Academia.
E permitam-me citar Aquilino Ribeiro, ”como quem alcança, não cansa”, vamos continuar nesta rota com o mesmo, senão com redobrado entusiasmo e trabalho de equipa cada um
dando o seu melhor para ajudar, dentro das nossas possibilidades, os mais desfavorecidos tendo como prioridades Centros de acolhimento de crianças, Lares para a terceira idade e Instituições Sociais que mitigam a fome a quem, sem culpa própria,
nada tem para comer.
Quanto à integração da Mulher neste movimento, há que reconhecer que numa primeira fase a necessidade de se reforçarem os laços de fraternidade entre os portugueses,
conduziu à criação das Academias muito à semelhança dos clubes masculinos de influência anglo-saxónica. Torna-se claro que a Mulher não teve, no início, uma presença constante nas primeiras tertúlias das Academias, situação que só ocorreu anos mais tarde e duma forma progressiva, como aconteceu na Academia do Bacalhau do Porto, com alguma resistência inicial, mas que acabou por singrar e este exemplo foi a pouco e pouco seguido pela maioria das outras Academias. No que me diz respeito valeu a pena tal esforço e luta. Mas para evitar confusões e más interpretações até já foi aprovada em Congresso Mundial uma moção segundo a qual a mulher pode ocupar quaisquer lugares nos Órgãos Sociais das Academias, desde que seja Comadre efectiva o mesmo é dizer, Comadre de pleno direito,ficando assim bem claro que os corpos
dirigentes não estão apenas destinados aos homens, pois as Academias do Bacalhau, não são nem nunca serão “clubes machistas” sendo necessário e prioritário desmistificar,
de uma vez por todas, esta absurda ideia. As senhoras, designadas Comadres sempre tiveram lugar nas Academias desde a saudosa Amália Rodrigues, Vera Lagoa, a outras que até fizeram parte de Governos como a distinta Comadre Manuela Aguiar, aqui presente e muitas mais.
Felizmente que a maioria das Academias soube interpretar correctamente estes princípios e até algumas, como por exemplo a de Toronto, que tem como Presidente uma Comadre ou como a do Porto, que integra nos seus Órgãos Sociais Comadres, Nassalete Miranda e outras, exemplares no bom desempenho das suas funções, bem como na construção da boa imagem que hoje a nossa Academia desfruta em Portugal e no
mundo. Quem assim não pensa nem procede, não está a interpretar correctamente o verdadeiro espírito das Academias, num mundo onde a Mulher desempenha cada vez mais,
importantes papéis em todas as áreas.
Concluindo, “a presença da mulher é absolutamente necessária e imprescindível em todas as Tertúlias e não somente, como algumas Academias permitem, nos Jantares de Natal ou Aniversários” pois à mulher se deve, a consolidação de ligação do núcleo familiar a Portugal no que respeita: à preservação da língua portuguesa ensinada e falada em casa; aos costumes portugueses (religiosos, gastronómicos, etnográficos,
etc); à transmissão de valores e princípios educacionais, bem como, à
prática de economia familiar de poupança.
BEM-HAJA POIS A TODA AS COMADRES DAS ACADEMIAS DO BACALHAU DO MUNDO
Termino afirmando “em primeira mão” que face à gravíssima situação com que estamos confrontados a SOLIDARIEDADE DA ACADEMIA DO BACALHAU DO PORTO DECLAROU GUERRA SEM
TRÉGUAS CONTRA A CRISE.
Muito ainda ficou por dizer mas saúdo-vos pela paciência e generosidade com que me ouviram. MUITO OBRIGADO E APROVEITO A OPORTUNIDADE PARA A TODOS VÓS E VOSSAS
FAMÍLIAS, DESEJAR UM BOM NATAL E UM PRÓSPERO ANO NOVO, COM MUITAS SAÚDE, PAZ E
SUCESSO.

César Gomes de Pina

Maia, 25 de Novembro de 2011

“Papel da Mulher na Integração Social nas Academias do
Bacalhau no Mundo”
Dr. César Gomes de Pina
APRESENTAÇÃO DO ORADOR

Para nos falar deste interessante tema e deste curioso movimento filantrópico, genuinamente português, nascido há quase meio século na África do Sul e hoje espalhado pelos quatro cantos do mundo vamos conversar com Dr. César Gomes de Pina, Gestor Empresarial, que desde 2006 é o Presidente da Academia do Bacalhau do Porto e sem dúvida o seu grande impulsionador ao longo destes 22 anos de existência.
Homem determinado e amigo do seu amigo, considera que a Presidência da Academia, nunca foi um simples “hobby”, mas sim uma verdadeira paixão e a experiência mais gratificante e enriquecedora da sua vida. Com a muita dedicação, amor e entusiasmo contagiante, conseguiu através duma correcta Gestão Por Objectivos e num esforço
colectivo com todos os associados, fazer da Academia do Bacalhau do Porto, uma Academia “exemplar em Portugal e no Mundo”, bem como uma referência cultural e de solidariedade do Distrito do Porto, tendo sido recentemente distinguida com o Troféu Portugalidade e Solidariedade.
O Dr. César Gomes de Pina, foi Capitão Miliciano em Moçambique e findo o seu serviço militar, professor do Ensino Secundário em Lourenço Marques e Gestor duma multinacional americana. Após a descolonização e depois duma breve passagem pela África do Sul, ao serviço daquela empresa, regressou definitivamente a Portugal com sua esposa e dois filhos, tendo exercido como professor do ensino secundário nos Liceus de Guimarães, Gaia e Espinho, antes de ingressar como Gestor Comercial e de Marketing no Grupo Amorim durante cerca de 20 anos, ao fim dos quais se reformou, dedicando-se a tempo inteiro de “alma e coração” à Academia do Bacalhau do Porto em particular e ao movimento das Academias do Bacalhau no mundo em geral.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE DINA BOTELHO

Homenagem a Maria Archer – Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diáspora
Maia, 24 de Novembro de 2011

Boa noite a todos e em especial aos elementos da mesa a quem cumprimento respeitosamente. Gostaria de começar por agradecer o convite que me foi dirigido pela
Associação Mulher Migrante, através da Dra Rita Gomes, para estar aqui presente esta noite e poder participar numa homenagem, merecida, a Maria Archer.
Fui apresentada como sendo a autora da primeira tese de mestrado sobre a vida e a
obra de Maria Archer. De facto, assim é e apresentei-a em 1994. Intitula-se “Ela é apenas mulher- Maria Archer, Obra e autora” e já na altura disse, apresentando comprovativos, que Maria Archer nasceu em 4 de Janeiro de 1899 e não 1905 como aparece muitas vezes em estudos e até enciclopédias que a estudam ou a ela se referem apenas. É com imensa tristeza que vejo que ainda hoje se desconhece a verdade acerca do ano do seu nascimento. Tenho a certeza que Maria Archer ficaria profundamente contente por saber deste facto até porque era ela própria que o fazia em documentos públicos que preenchia, tal como consta da sua ficha do arquivo biográfico do Diário de Notícias que apresento também na minha tese. Sim, de facto Maria Archer retirava seis anos à sua existência, por um lado por uma questão de vaidade e, por outro lado, porque talvez não gostasse de ter nascido no século anterior. No entanto, chamo desde já a atenção para a necessidade de nós, que a estudamos e por uma questão de veracidade dos factos, devermos apresentar a data correta. Até à minha tese ninguém tinha estudado Maria Archer e ela teve como objetivo iniciar o estudo da autora e da sua obra mas esse estudo não foi, como devem calcular, esgotado dada a riqueza e a
variedade temática da obra de Maria Archer. É necessário continuar a estudá-la sobretudo na vertente da literatura colonial onde considero haver uma grande riqueza por explorar.
Há também que continuar a publicar os seus livros pois representam marcos históricos.
Homenagem seja feita também à editora Parceria António Maria Pereira que já apostou na republicação de dois dos seus livros (Ela é Apenas Mulher e Nada lhe será perdoado). Disse atrás que esta era uma homenagem merecida pois considero que Maria Archer contribuiu imenso para a luta por uma condição mais digna para a mulher e também para a sua igualdade relativamente ao homem, não dizendo ou gritando como referiu a Dra Mª Benedicta sobre Maria Lamas mas mostrando a situação em que viviam as mulheres. Aliás, o tema principal dos seus romances e novelas era a vida da mulher, a sua relação com a família, com o trabalho e com os homens. O título de um dos seus romances mais emblemáticos é Ela é apenas mulher apontando mesmo para a posição decadente da mulher na época em que a escritora viveu e criou. A preocupação fundamental da sua obra era a situação da mulher e as dificuldades por ela sentidas. África era uma paixão na sua obra.
Maria Archer foi uma das poucas mulheres do seu tempo a ter como profissão a de
jornalista e escritora. Ela publicou de 1920 a 1963, tendo havido dois anos em que publicou 4 livros por ano (1938 e 1950) e alguns dos seus livros chegaram mesmo à 3ª edição como por exemplo Há de Haver uma Lei e Aristocratas. Ela é Apenas Mulher é de 1944 e no mesmo ano saiu a 2ª edição tendo chegado à 3ª edição em 1952. Escreveu, pois, 31 livros de 1935 a 1963, 5 deles no Brasil (Terras Onde se Fala Português, África sem Luz, Brasil, Fronteira de África, Os últimos Dias do Fascismo Português e do último nada se sabe), cinco peças de teatro e três traduções. Mas não se julgue que era fácil ser uma mulher escritora na época. Este é outro reconhecido mérito de Maria Archer. Muitas mulheres da época, tais como Maria Lamas e Irene Lisboa, esconderam-se atrás de pseudónimos, quer femininos quer masculinos, para poderem escrever à vontade sem penalizarem a sua vida pessoal ou até mesmo para obterem
maior imparcialidade por parte da crítica. Se agora temos muitas mulheres escritoras, no início do séc. XX, quando uma mulher queria escrever sobre outro tema que não a vida doméstica ou a educação dos filhos refugiava-se atrás de um pseudónimo.
Maria Archer nunca se escondeu, nunca usou pseudónimos, talvez esse mesmo facto
tenha levado ao afastamento da família que, por vezes, não viu com bons olhos certas
publicações suas. Também o seu divórcio (esteve casada apenas 10 anos durante os quais publicou apenas em periódicos) poderá ter tido alguma base na sua profissão apesar da causa pública do mesmo ter mais a ver com questões familiares (sevícias e injúrias graves) e menos profissionais. Maria Archer viveu numa época em que era suposto a mulher ser apenas boa filha, boa esposa e boa mãe. As únicas atividades permitidas à mulher eram a lida doméstica e a educação dos filhos. Maria Archer dizia que escrever era fugir ao longo silêncio a que a mulher da época estava votada. Até o acesso à cultura é negado à mulher na época, como Maria Archer retrata bem na personagem de Adriana (de Casa sem Pão) que tinha de se esconder para ler livros.
Houve mesmo casos em que a crítica a um livro escrito com pseudónimo masculino era
otimista e depois de se saber que havia sido escrito por uma mulher, o mesmo crítico dizia o contrário do que havia dito antes. João Gaspar Simões foi, dos críticos literários da época, o que melhor entendeu a luta da mulher escritora. Disse ele que «Em Portugal uma mulher que queira falar de si mesma com franqueza equivalente à de um homem quase pudico corre risco de enxovalho» Maria Archer mostrou as vozes profundas do seu ser sem nunca recorrer a pseudónimos o que fez dela única na sua época e no seu meio. Maria Archer partia do real e era esse real que interessava aos seus leitores. Ela própria reconheceu que a literatura feminina da sua época não era criativa «pois a mulher encontrava-se subjugada pela estrutura social e familiar repressiva.»
Um dos grandes elogios que lhe fazem na época foi feito pelo próprio João Gaspar
Simões que dela fala como se de um homem se tratasse: «Abram os olhos, Exmos Srs – têm diante de vós um escritor (teimo em chamar-lhe escritor porque os seus contos, embora tenham sexo na observação que denunciam e nos temas que tratam, não o têm – são, portanto do sexo nobre – pelo menos num país em que o homem ainda é considerado o 1º sexo- não o têm no estilo, na expressão, na visão , na forma)em nada inferior, como contista, a qualquer dessas incontestadas glórias». E mais à frente diz «esta autora não pode deixar de ser considerada desde já um grande contista, um grande escritor».
Mas sendo este um encontro sobre as mulheres da diáspora não podemos deixar de
referir a sua ida para o Brasil em 5 de Julho de 1955 no navio Sta Maria, com destino a Santos. Tendo publicado dois livros no ano anterior e reeditado um terceiro poderemos questionar- nos acerca dos motivos que a terão levado a partir. Por um lado não estaria contente com a falta de liberdade dos escritores, por outro tinha de evitar ser presa. Maria Archer em 1945 havia já participado no MUD – Movimento de Unidade democrática que era uma frente de oposição ao salazarismo, em 1949 apoiou publicamente a candidatura do general Norton de Matos à Presidência da República, acompanhou , em 1952, o julgamento do capitão Henrique Galvão - contestador da ditadura salazarista prometendo sobre ele escrever um livro e, em 1953, viu a sua casa invadida pela PIDE tendo-lhe sido confiscado o manuscrito do livro referido. Valeu-lhe na época ter já enviado parte do manuscrito para um seu amigo (Tomás
Ribeiro Colaço) no Brasil. Parte assim desgostosa com o seu país que perseguiu também a sua obra por duas vezes. Em 1939 fora-lhe apreendido o livro Ida e Volta de Uma Caixa de Cigarros e, posteriormente, em 1947 o livro Casa sem Pão. No Brasil escreveu em periódicos como O Estado de S. Paulo, Portugal Democrático e Semana Portuguesa, chegando mesmo a ser diretora deste jornal. Também publicou, como atrás referi, vários livros. De 1955 a 1971 esteve em S. Paulo, donde vai para uma estância em
Campos de Jordão por “Intoxicação da bexiga” e, de 1971 a 1977 encontramo-la em Poços
de Caldas. Nesta altura começa a sentir-se pobre e doente e é então que começa a enviar correspondência para a família e advogada. Começa a sofrer de dores nos joelhos, zumbidos contínuos nos ouvidos e diminuição do campo de visão. Em 1974 falava na possibilidade de escrever um livro sobre um assunto novo que a estava a fascinar mas a saúde não a ajudava. Nesse ano chegou a corrigir discursos de candidatos às eleições legislativas e a escrever publicidade para a rádio local. Em 1977 voltou de novo para S. Paulo tendo estado primeiro no Hospital S. Joaquim e depois na Casa de Saúde Nª Sra do Carmo. Saíu desta última para vir para Portugal mas só depois de receber resposta favorável de Marcelo Caetano ao seu pedido.
Promete «ser neutra à espera da morte em sossego e paz» numa carta de onze páginas que escreve ao seu sobrinho, o Prof. Fernando de Pádua. Em 1973 Marcelo Caetano promete que não a incomodará mas ela só regressará em 1979, com 80 anos pois pretendia ainda ver reeditados alguns dos seus livros para não regressar como uma desconhecida e também porque a doença e as dificuldades económicas não o permitiram.
Quando regressou tinha muitos jornalistas à sua espera mas a mulher que encontram
é uma senhora com dificuldades em ouvir e em falar que os deixa sem respostas. Também
Maria Archer fica desiludida consigo mesma pois, não conseguindo ultrapassar as limitações da doença, refugia-se nas lágrimas. É levada para a Mansão de Sta Maria em Marvila situação tratada mesmo na Assembleia da República a pedido do deputado Vasco da Gama Fernandes que solicitou que se mudasse a escritora do local onde se encontrava. Só conseguiu que a escritora fosse mudada para o único quarto individual desta casa. Faleceu a 23 de Janeiro de 1982 com arterosclerose cerebral.
Termino apresentando duas citações da própria Maria Archer:
«Saibam quantos fazem coro no desprestígio da obra literária das mulheres que os
nossos livros são momentos heróicos. Custam-nos coragem, e angústias, que os homens, para igual feito, desconhecem de todo» (in “Revisão de Conceitos Antiquados” Out. 1952) «Eu precisarei de morrer para que a minha obra seja avaliada na altura que eu lhe atribuí quando a escrevi – como um documento histórico duma época e da situação da mulher. » (1973)
Lanço então o desafio – Não deixemos que a sua obra morra, pois muito ainda há a
fazer, nomeadamente estudos sobre os seus cadernos coloniais e estudos sobre as suas peças de teatro. Devemos enaltecer e reconhecer a sua luta pela dignificação da condição da mulher através da apresentação da realidade que a mulher da sua época vivia. A vida da mulher de meados do séc. XX não está bem conhecida – os jovens de hoje não a conhecem e através da obra de Maria Archer poderão conhecê-la.

COMUNICAÇÃO DE RITA GOMES

«História do Movimento Associativo – Questões de Género e de Geração».

Não seria necessário salientar que estamos perante um tema de grande significado no contexto das Migrações, mas fazemo-lo para melhor evidenciar a sua importância. E, neste Painel, deve também ser referido o facto de nele terem sido inseridas as «Questões de Género e de Geração», que bem merecem ser sempre devidamente analisadas e sobretudo na actual conjuntura.
Ao falar de Associativismo, sabemos que a ele estão ligadas, nomeadamente, a solidariedade e a cidadania, que, embora diferentes, convivem, bem como, por exemplo, a generosidade e a cooperação.
As Associações de Migrantes, enquanto organizações de voluntariado, de cooperação e de solidariedade social, como sucede com a «Mulher Migrante – Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade», que aqui representamos, muitos contributos proporcionam à cidadania e à defesa dos direitos dos cidadãos migrantes nas sociedades onde vivem e trabalham, incluindo os respectivos deveres.
Com a cidadania temos a liberdade de iniciativa pessoal e colectiva, mas também associativa e o caminho para a democratização. A solidariedade está ligada a um conjunto alargado de situações históricas, politicas e sociais. A cooperação, constitui instrumento indispensável, muito especialmente nas políticas sobre Migrações a vários níveis: local, regional e internacional (bilateral e multilateral).
Lembramos, a propósito, os Acordos vários, nomeadamente, a nível bilateral que Portugal celebrou a partir de 1974, com Países da Europa sobre os nossos Trabalhadores emigrantes e suas Famílias, para além dos relativos à Segurança Social, que também abrangeram Países fora da Europa...Por experiência profissional vivida, conhecemos a importância que têm para os Migrantes as suas Associações, em Portugal e no Estrangeiro. E o reconhecimento dessa importância é bem sentido pelos nossos
compatriotas emigrados que nelas trabalharam e trabalham com o maior empenhamento e espírito de entre – ajuda, em regime de voluntariado, assim contribuindo para a melhoria de vida de muitos deles e até de nós.
Esse «Movimento Associativo», existe, conforme sabemos, nas mais diversas actividades. Por exemplo, no apoio a idosos, à deficiência, à integração, à igualdade de género, a migrantes e especificamente a mulheres migrantes de diversas etnias, a mulheres ciganas… É através do Associativismo em geral, em que se insere o Associativismo Migrante, que se consegue na maioria dos casos uma contribuição
indispensável para que se atinjam os objectivos em que se envolvem as Associações, Clubes, entre outros. E isso naturalmente, a par da solidariedade e cooperação entre os diversos actores, com o incitamento à vantagem da participação activa das/dos cidadãs/aos migrantes nas sociedades de origem e nas de acolhimento, em que se inclui a ajuda proporcionada ao desenvolvimento dos Países implicados.
Neste campo – do desenvolvimento – tem sido evidenciado o contributo da mulher migrante, com o seu muito trabalho (trabalho extra e em mais de uma actividade) e respectivas poupanças, sendo de considerar as que são enviadas para os seus Países, onde mantêm parte da sua Família e onde pensam vir a reinstalar-se …..
Outro aspecto a salientar: o Associativismo, com a sua faceta de voluntariado, constitui uma forma de reduzir as desigualdades, de permitir, como já referimos, uma melhor cidadania, até se conseguir alcançar a cidadania plena, do maior significado para os migrantes, mas sobretudo para a mulher migrante, por mais vulnerável, muito especialmente na fase de inserção no novo País e sobretudo na fase da feminização das migrações, que continuamos a viver, ultimamente acrescida pelos fluxos da nova
emigração, em que se inclui um considerável número de mulheres jovens, qualificadas e indiferenciadas, cuja dimensão e características, muito interessa conhecer.
Há, ainda que conseguir que seja evidenciado e avaliado devidamente o trabalho desenvolvido, pelo «movimento associativo» e a sua evolução positiva, bem como o mérito, quantas vezes conseguido por esse trabalho de que pouco se fala.
Para avaliar melhor a sua importância referimos, por exemplo, as actividades desenvolvidas pelas Associações, Clubes, Federações, etc., em que por vezes, até se promove – apesar das críticas que sempre surgem - o
Ensino da Língua do País de Origem. Foram e nalguns casos continuam a ser esses «núcleos», digamos, que contribuíram e que ainda contribuem em maior ou menor dimensão para a manutenção da Cultura, dos Hábitos e Tradições – incluindo o Folclore dos países de proveniência dos imigrantes – e até o Desporto. E, isso, para além da sua «função social» e mesmo de entre – ajuda, conforme já referimos, sobretudo em relação aos compatriotas recém- chegados, desconhecedores da língua, dos direitos e deveres e de muita informação indispensável ao seu «Novo Mundo», à sua Nova Vida, e
designadamente à adaptação a outros trabalhos. Casos houve em que a ajuda na fase de «reagrupamento familiar», por exemplo, proporcionada pelo Associativismo local em ligação com as Instituições existentes – do País de Origem e Estrangeiras – foram também da maior utilidade.
E, se pensarmos no «Associativismo Português» numa forma mais ampla, como o faz a Drª Manuela Aguiar, lembramos por exemplo, as Beneficências Portuguesas, os Gabinetes Portugueses de Leitura (Brasil), as Fundações, os Clubes, os Centros Culturais, os Centros de Apoio a Idosos e outros: Grupos de Dança, de Música, de Folclore, de Desporto, etc. encontramos, então, um património de valor inestimável espalhado pela
nossa Diáspora, criado por portugueses e a quem muito se deve.
A Iniciativa e Vontade de «bem fazer» do «Movimento Associativo». conseguiram e conseguirão quantas vezes – com o seu dinamismo - ultrapassar mesmo a função que mais adequadamente caberia às Instituições Estatais e outras dos Países de Origem e de Acolhimento.
Devemos lembrar ainda a contribuição desses «Núcleos» para a participação cívica e política das / dos suas e seus Associadas / os, nomeadamente.
Em suma, esses «Núcleos» são «estruturas» com envolvimento nas áreas: social, educativa, cultural, política e económica e que desempenham funções de grande mérito.
No que respeita ao papel das «Mulheres» nas «estruturas associativas», há que referir que houve uma fase em que as mesmas não conseguiam chegar aos lugares de Dirigentes, mas o seu trabalho voluntário, na sombra, digamos, em diversas áreas nas Associações, Clubes e noutras Instituições, era da maior importância. Essa situação, porém, tem evoluído favoravelmente, hoje, as Mulheres assumem cargos Dirigentes nessas estruturas associativas e em Empresas nas mais diversas funções, mas não ainda como merecem e nem de acordo com as suas qualificações.
O empreendedorismo feminino vai crescendo… também um pouco em relação às mulheres migrantes, nomeadamente através da utilização de recursos financeiros da União Europeia, de crédito bancário, do micro crédito, e de outros, mas continua a carecer-se de maior empoderamento da Mulher. Evidenciámos o muito trabalho desempenhado por Associações de Migrantes e estruturas similares, em que se incluem, não esqueçamos,
a «informação e o aconselhamento qualificado sobre as diversas temáticas», bem como o «encaminhamento de casos», que no conjunto facilitam a integração dos novos imigrantes.
No que respeita a «Questões de Género» consideramos oportuno referirmos, para conhecimento, a existência em Portugal dos dois seguintes Departamentos do Estado que se ocupam dessa temática:
(a)CIG - Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género tutelada pela Secretaria de Estado da Igualdade – Presidência do Conselho de Ministros – e que integra no seu Conselho Consultivo, Organizações não Governamentais, umas 40 Associações de Mulheres (na sua maioria), entre as quais a nossa Associação, que trabalham as mais diversas modalidades: Planeamento Familiar, Mulheres contra a Violência, Mulheres Juristas, Mulheres Agricultoras, Mulheres Empresárias, Associação da Cultura e Desenvolvimento, Mulheres e o Desporto, Mulheres Cientistas, Movimento Democrático de Mulheres (MDM),
Rede Jovens para a Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens,
União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), etc. Além de representantes das Associações, no referido Conselho Consultivo, há ainda conselheiras de diversos Departamentos do Estado Português, assim se conseguindo a desejável transversabilidade sobre a temática da Mulher, no que respeita à Cidadania e à Igualdade de Género.
A nível da CIG realizam – se Reuniões e Actividades no âmbito das Questões da Cidadania e da Igualdade de Género, com a participação das Instituições e Entidades que integram essas áreas.
b)CITE – Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego – que tem
como tutela o Ministério da Solidariedade e da Segurança Social.
Dado o relevante papel desenvolvido em Portugal pela CIG e pela CITE, obtivemos a colaboração destas Entidades neste Encontro Mundial, que organizámos na Maia, através da concessão de várias das suas Publicações sobre a temática de que se ocupam em favor da Mulher. Essas Publicações foram distribuídas a Participantes nesta nossa Iniciativa, algumas e alguns vindas/os das Comunidades Portuguesas, assim se conseguindo a nível interno e externo, uma maior divulgação das Questões relativas à Cidadania e à Igualdade de Género, bem como à Igualdade no Trabalho e no Emprego.
Ainda quanto a «Questões de Geração e de Género» referimos especialmente os trabalhos desenvolvidos, por Universidades, em Portugal, como por exemplo a Universidade Aberta – CEMRI, Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais – aqui presente e que foi um dos nossos Parceiros neste Encontro Mundial e noutros que temos realizado, sendo de citar os «Encontros para a Cidadania».
Estes Encontros tiveram lugar: na América do Sul – Buenos Aires, em 2005; Europa – Estocolmo, em 2006; América do Norte – Newark, em 2006; América do Norte – Toronto, em 2007; em África – África do Sul – Joanesburgo, em 2008 e na América do Norte – Montréal, Toronto, etc., em 2009. Através deles foram tratadas as mais diversas temáticas na área da Igualdade e da Cidadania, junto dessas Comunidades Portuguesas.
Relativamente ao tema deste Painel: «História do Movimento Associativo. Questões de Género e de Geração», parece – nos ser de sugerir que:
- se consiga promover cada vez mais: a igualdade no trabalho, a igualdade de direitos e uma melhor integração da Mulher, incluindo naturalmente a Mulher Migrante, nas diversas actividades – em paridade;
- se faça um reconhecimento do trabalho já desenvolvido pelas Associações dos nossos Emigrantes, a nível local, a fim de que se consiga uma melhor utilização das suas capacidades, seleccionando-se as áreas que mais se adequam à melhoria da actual situação das Comunidades: por exemplo, a nível intergeracional e de apoio à mulher migrante;
- se procure utilizar os ensinamentos dos membros da comunidade ligados ao Associativismo – voluntário e não voluntário – adaptando as estruturas existentes às novas exigências da vida dos nossos dias;
- se tente conseguir, que os Jovens recém - chegados às Comunidades Portuguesas e outros que já residam localmente – incluindo os luso- descendentes - melhorem, a nível do voluntariado, a qualidade das actividades nas organizações existentes e a reestruturar;
- se incentivem, os nossos compatriotas e os cidadãos dos Países de Acolhimento a uma participação mais activa, actualizada, diferente, para que em conjunto, utilizem as suas qualificações e a sua experiência nas mais diversas áreas do conhecimento, melhor dizendo em todos os domínios da vida social, cultural, económica e política;
E, por último, enaltecidos que foram, em síntese, os esforços desenvolvidos por organizações de voluntariado, de solidariedade, e de cooperação em favor dos migrantes em que se destacaram também os apoios à «mulher migrante», bem como questões de género e de geração, terminamos:
- lembrando que a mobilidade social e a sua dinâmica impõem políticas sempre actualizadas, exigindo rápida adequação à conjuntura das migrações, envolvendo os migrantes e os Países de saída e de entrada, exigindo por isso, nomeadamente, estudo, reflexão e trabalho conjunto e numa mais estreita cooperação e concertação por parte desses Países, designadamente, entre as respectivas Instituições Estatais da
especialidade, incluindo também:
a) as Universidades de «cá e de lá», se possível, que se dedicam ao Estudo das Migrações;
b) as Organizações Intergovermentais ligadas a esta temática;
c) as Organizações Não Governamentais do Movimento Associativo Migrante;
d) a Obra Católica Portuguesa das Migrações – OCPM, designadamente
através das suas Missões Católicas nos Países de Acolhimento, onde
vivem portugueses.
Há, pois, muito trabalho a realizar tanto mais que Portugal está a assistir a um novo êxodo de portugueses para Países da Europa e de fora da Europa. Saem milhares: jovens qualificados, é certo, mas também outros sem essas qualificações e com diversas idades.
Impõe-se que haja um conhecimento tão actualizado, quanto possível desta «nova realidade», que para além de estudos, envolve ainda muito empenhamento em várias áreas e por parte de diversas Instituições, mas que exige prioridade, a fim de se procurar conseguir proporcionar o apoio de que efectivamente carecem - em cada caso, em cada situação
- as portuguesas e os portugueses que saíram e saem de Portugal para viverem e trabalharem no Estrangeiro.

12 de Janeiro de 2012.