segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE SALVATO TRIGO

Maria Lamas e Maria Archer: síntese de discursos diversos na unidade de acção

1. Nascidas no final do século XIX com um intervalo etário de seis anos (Maria Lamas, Torres Novas, 1893; Maria Archer, Lisboa, 1899), estas são certamente duas das mais lídimas e empenhadas representantes, entre nós, do movimento pela dignidade pessoal e pela afirmação social e cidadã da mulher.

2. Não são poucas as similitudes biobibliográficas entre Maria Lamas e Maria Archer: ambas encontraram na literatura e no jornalismo o arrimo mais eficaz, para combaterem por uma causa que só a distorção do patriarcalismo, confundindo a alegoria bíblica com determinações divinas ou naturais, a acomodação na incultura e o marialvismo podem justificar a sua tão tardia consecução histórica.


3. Conhecessem eles Aristófanes (450-386 a.C), o grande dramaturgo da Antiguidade, e tivessem lido, mesmo que apenas extractos, de A Assembleia das mulheres e de Lysastrata, peças em que o autor, preocupado com a reforma de Atenas em crise, evoca a possibilidade de delegar o poder nas mulheres atenienses, “cheias de carácter, de graça, de audácia, de sageza, em que o patriotismo se une à prudência”, tivessem lido tais textos e perceberiam quão fúteis e trágicas têm sido no decurso da história da humanidade as exibições masculinas da razão da força em detrimento do culto feminino da força da razão.

4. Quando a personagem do magistrado pergunta a Lysastrata “Como podereis vós, mulheres, acabar com tanta desordem no nosso país?”, esta responde-lhe sabiamente que usariam para o fazer a experiência que tinham de tecelãs: as desordens e as guerras desembaraçam-se com palavras tal como nós desembaraçamos um novelo de lã, pegando na ponta certa do fio e usando correctamente o fuso. O magistrado, não alcançando a alegoria, impetrou Lysastrata, refutando que as mulheres pudessem ser capazes de combater as desordens, quando não têm qualquer participação na guerra. Lysastra responde-lhe bruscamente: “Eh! miserável, acaso não sofremos nós mais do dobro com esse fardo, nós que, antes, criamos os filhos para vê-los partir para o exército?”


5. O desrespeito da mulher como fonte de vida, que afirma pelo seu direito à maternidade, incultamente transformado pelo homem num dever de procriação, tem, desde Aristófanes, pelo menos, marcado a educação ou, melhor , a pedagogia, no rigor etimológico dessa palavra que, originalmente, como se sabe, significava tomar conta de crianças e orientá-las para a vida futura no respeito pelos valores do passado. Exigir da mulher que ponha no mundo filhos, para satisfazer o instinto predador dos que fazem as guerras só para exibir o poder, é arrogar-se marialvamente como proprietário da existência alheia, vendo-a como materialidade transacionável e não, como a confirmação de que o ideal das criaturas humanas, expulsas do mítico paraíso, é serem companheiras e não, súbditas.

6. Companheiras, na acepção etimológica e na compreensão semântica daí derivada, isto é, companheiro/a é aquele/a com quem partilhamos o pão (cum+ pane-), assim cumprindo o desígnio dos humanos de, biblicamente, ganhar o pão com o suor do rosto.


7. Foi certamente por não terem encontrado nos homens de quem se divorciaram essa compreensão e dimensão de companhia que Maria Lamas e Maria Archer mais terão desenvolvido a sua responsabilidade social de lutar pela dignidade da mulher e pelo seu direito à igualdade cidadã com o homem.

8. O casamento, aos 17 anos, coincidentes com a proclamação da República, com o tenente de cavalaria, Ribeiro da Fonseca, foi para Maria Lamas a porta da entrada na diáspora, acompanhando o marido na comissão militar para a Huíla (Angola), antes de experimentar a amargura do exílio. Os três anos de vivências de África, donde regressou em 1913, inspiraram-lhe a novela Confissões de Sílvia, com que iniciaria a sua vida literária, sendo também motivação para a escrita do romance Diferenças de Raça, publicado em 1924.


9. A implantação da República terá sido para Maria Lamas um dos acontecimentos mais impressivos da sua vida, plantando-lhe no fulgor da juventude as sementes éticas com que conduziria a longa carreira de jornalista que iniciou, pela mão do escritor Ferreira de Castro, em O Século, de Lisboa, onde entrou, no regresso de Angola, para dirigir por vinte anos a revista do lar Modas & Bordados, onde assinou a coluna “O correio da Tia Filomena”, espaço pseudónimo para falar da condição feminina em Portugal.

10. Tia Filomena foi um dos pseudónimos com que começou a sua militância na causa da dignificação feminina, tendo usado também o pseudónimo Rosa Silvestre, para assinar dois livros para a infância, Caminho Luminoso e Para Além do Amor, o pseudónimo Maria Fonseca e o pseudónimo Serrana d’Ayre, para publicar poesia.


11. Essa militância levava-a a conjugar a sua actividade de jornalista com a de dinamizadora cultural, ora organizando exposições dos teares do Minho ora de tapetes de Arraiolos fabricados pelas reclusas da cadeia das Mónicas que, assim, aliviavam as suas condições de detenção.

12. Envolvida ao mesmo tempo nos movimentos associativos femininos, Maria Lamas será eleita, em 1945, presidente do Conselho Nacional das Mulheres, associação fundada na I República que o Estado Novo perseguia sem descanso. Esta função obrigou-a a viajar por todo o país, o que lhe permitiu reunir informações e experiências para a escrita do livro As Mulheres do meu País, publicado em 1948, ano anterior ao da sua participação activa na campanha à presidência da República do general Norton de Matos, sofrendo, por isso, a primeira das várias detenções que o regime de Salazar lhe impôs.


13. A este título seguir-se-ia, quatro anos depois, As Mulheres no Mundo, o que a tornou membro do Conselho Mundial da Paz, a partir de 1961, ano em que partirá para oito anos de exílio em Paris, onde conhece Marguerite Yourcenar, de quem traduziria As Memórias de Adriano, e onde, da janela de seu quarto no Hotel de Saint-Michel, apoiará os jovens do Maio de 68, passando-lhes baldes de água, para eles mitigarem os efeitos dos gases lacrimogéneos.

14. Ainda em Paris, adoptará novo pseudónimo, Helena Torres, sob o qual transmitirá pela Rádio Moscovo mensagens do Conselho Mundial da Paz aos portugueses, antes de regressar a Portugal na “primavera marcelista”, e, sempre solidária, se disponibilizar para testemunha de defesa da romancista Maria Isabel Barreno, no processo das “Três Marias”, quando já começavam a soprar tenuemente os ventos de Abril.


15. Octogenária, mas com o vigor da causa da liberdade por que longamente se bateu, apoia o 25 de Abril e é com justiça agraciada com a Ordem da Liberdade que junta à de Santiago da Espada que, em seu tempo, Óscar Carmona lhe tinha entregado. A dez anos do fim da sua caminhada, Maria Lamas via recompensada a sua militância pela igualdade dos direitos cívicos que defendeu com afinco na sua escrita literária e jornalística.

16. Só na pseudonímia Maria Archer não acompanhou Maria Lamas; na militância pelos direitos cívicos das mulheres, sim. Na pseudonímia, encontraríamos uma companheira para Maria Lamas em Irene Lisboa que, nascida um ano antes, publicaria bem mais tarde, em 1936, o seu primeiro livro, Um dia e outro dia…Diário de uma Mulher, com o pseudónimo João Falco com o qual também escreveu na revista Presença, depois de aí se estrear, quando ainda vivia na Suiça, com o pseudónimo Mara. Irene Lisboa usará ainda os pseudónimos Maria Moina e Manuel Soares, este sobretudo em ensaios de pedagogia, área em que também se destacou.


17. Foi nas páginas da Presença que José Régio, depois de chamar a atenção para a escrita de Maria Archer e de Fernanda de Castro, outra das escritoras da causa feminina tocadas pela diáspora e pelo sortilégio da África, se referiu àquele primeiro livro de Irene Lisboa e a um segundo com o título Outono havias de vir nos seguintes termos: “ Lê-os a gente e pensa: Mas porque é que todas as mulheres não têm escrito assim? Não escrevem assim?”

18. Não se estranhe, por isso, que Adolfo Casais Monteiro, em 1956, tenha escrito de forma tão encomiástica sobre Irene Lisboa: “É contudo o nome de um grande escritor – o da maior escritora portuguesa de hoje, sem discussão possível.” Mas estranhe-se que Casais Monteiro tenha passado ao lado da obra vasta e notável de Maria Archer, até porque coincidiu com ela no tempo e nos motivos do exílio brasileiro, que a escritora iniciaria em 1955.


19. Maria Archer, como deixei dito, tal como Maria Lamas, viverá, na companhia dos pais, na adolescência, três anos na Ilha de Moçambique (1910-1913) e, na juventude, dois anos na Guiné, em Bolama e em Bissau(1916-1918). A Moçambique, voltará já casada, entre 1921 e 1926, ano em que acompanhará o marido para Faro, donde partirão para viver em Vila Real de Trás-os-Montes até 1931. Terminados os dez anos de casamento, Maria Archer regressa a Lisboa, para junto dos pais, mas estes viviam, então, em Angola, para onde a jovem divorciada seguirá, juntando-se-lhes, em 1932.

20. Em Luanda, viverá Maria Archer por quatro anos, tendo-se estreado aí literariamente, em 1935, escrevendo um livro de novelas e de contos, Três Mulheres, em parceria com Pinto Quartim Graça. Nesse ano, terminará também a sua vivência africana e já em Lisboa escreverá o romance África Selvagem(1935) com que se estreou na literatura colonial portuguesa e que lhe mereceu de vários críticos elogios como: “excepcional revelação literária”; obra suficiente “para impor Maria Archer como escritora, para consagrar os seus dotes de narradora perfeita”; “maravilhoso repositório do folclore negro”.


21. A esse romance de estreia seguir-se-ão Sertanejos(1936), Angola Film(1937), Viagem à Roda de África(1938), Colónias Piscatórias em Angola(1938), Caleidoscópio Africano(1938) e Roteiro do Mundo Português(1940). Tal como Maria Lamas, Maria Archer escreveu também para crianças, tendo ganhado o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, em 1938, com o livro Viagem à Roda de África. Escreveria ainda para o público mais pequeno dois ensaios, para que aprendessem a história de Portugal de forma lúdica. A África voltará, mais tarde, à ficção de Maria Archer que, entretanto, escreve o romance Aristocratas (1945), cujas história e personagens têm muito de autobiográfico, o que levou seus pais a romperem com ela, por se sentirem pejorativamente retratados.

22. Este romance vinha afinal confirmar a forma audaciosa como Maria Archer militava a favor da causa da dignificação da mulher portuguesa, o que levou João Gaspar Simões a comentar: “Não conheço mesmo outra escritora portuguesa que à audácia dos temas e das ideias alie uma expressão tão enérgica e pessoal. O seu estilo respira força e solidez.”
23. Aliás, é a própria autora, já depois de ter experimentado a perseguição à sua escrita e aos seus livros, dois dos quais chegaram mesmo a ser apreendidos – Ida e Volta duma Caixa de Cigarros e Casa sem Pão – que, em 1952, dirá da sua obra até então produzida: “A minha obra literária tem sido norteada pelo princípio vital de rebater o conceito arcaico da inferioridade mental da mulher”.

24. A rebeldia do comportamento político e da escrita com que a manifestava, exibida no empenhamento com que acompanhou, em Lisboa, o julgamento do capitão Henrique Galvão, seu amigo e como ela africanista e opositor do regime, empurrou-a naturalmente para o exílio no Brasil, onde chegou em Julho de 1955. É a própria Maria Archer que, em entrevista ao Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, em Janeiro de 1956, conta os motivos por que saiu de Portugal: “ Vim para o Brasil, tendo chegado no dia 15 de Julho de 1955, porque já não podia viver em Portugal. A ação da censura asfixiou-me e tirou-me os meios de vida. Apreenderam-me dois livros publicados, assaltaram-me com policiais a casa e levaram-me um original que ainda estava escrevendo, violência inédita em países de civilização europeia.”


25. Chegada ao Brasil, como tantos outros exilados portugueses, entre os quais Casais Monteiro, Carlos Maria Araújo, Sidónio Muralha, Jorge de Sena, Castro Soromenho, Mário Henrique Leiria, iniciou, por assim dizer, a sua fase de jornalista, colaborando no célebre jornal O Estado de São Paulo. A actividade jornalística não a impediu de continuar a sua obra literária e ensaística. E assim é que, em 1959, publicará Os Últimos Dias do Fascismo Português, livro que lhe foi inspirado pelo julgamento já mencionado de Henrique Galvão. Seguem-se Terras onde se fala Português , África sem Luz (1962) e Brasil, Fronteira da África (1963).

26. Respigando e aumentando algumas das passagens do Roteiro do mundo português, que escreveu em 1940, como alusão à exposição colonial do mundo português desse ano, Maria Archer escreverá Herança Lusíada, livro valorizado pelo prefácio de Gilberto Freyre, no qual destaca o “talento literário”, a “qualidade da observação”, o “poder de análise”, o “gosto pelo estudo do que do ponto de vista europeu é exótico, pitoresco ou bizarro.” Com este livro encerrou-se praticamente a obra literária de Maria Archer, que o 25 de Abril de 1974 não trouxe a Portugal. Para aqui voltou apenas em 1979, doente, para vir morrer, praticamente na miséria, num lar em Marvila, em 1982.


27. Quem conheça a vasta obra de Maria Archer acompanha convictamente o comentário resumptivo que dela foi feito: óptima romancista e um valor inigualável na literatura feminina do século XX.

28. Os sinos que por ela dobraram, em 1982, e por Maria Lamas, no ano seguinte, tinham o mesmo som daquele “augusto bronze” garrettiano, que nos tange na memória a odisseia da nossa diáspora da qual estas duas mulheres, agentes activas do resgate português da cidadania feminina, foram símbolos maiores.


29. No caso de Maria Archer, não lhe reconheceu a pátria, como deveria ter reconhecido, o seu bom combate pela liberdade e pela igualdade da mulher, porque a pátria, tantas vezes, faz que nos sintamos, como escreveu Irene Lisboa, em O Pouco e o Muito: “Cada um de nós é um ilhéu – ilhotas flutuantes em mares profundos e longuíssimos de solidão. De abandono.”

30. Esse abandono, a que Maria Archer foi votada nos últimos anos de vida, denunciou-o o poeta moçambicano Sebastião Alba no poema “À morte de Maria Archer”:

“Esta melancolia andou desocupada

Que há sempre um guizo mudo
O do cordeiro que seus pastos nos evocam

Direi da minha vida
Não é plena mas contém-me
E ao devaneio em que lhe sou infiel
Já sem nenhum recato

Da sua
Que uma escápula no asilo
Lhe suspendeu pela gola a sombra.”

31. Façamos, então, a síntese dos discursos diversos de Maria Lamas e de Maria Archer, que se cruzaram em espaços e tempos, que reclamavam unidade de acção na busca da igualdade social e da cidadania plena da mulher enquanto mátria, donde a pátria deriva e se alimenta dos filhos que a tornaram, que a tornam ditosa, como cantou o nosso poeta maior!

32. Libertemos, pois, a mater dolorosa e tornemo-la mater gloriosa, para que a vida não seja punição, não seja dominada pela violência, pela dor, antes, fruição de companhia e partilha do pão. Se não, a diáspora não terá valido a pena!


Porto e Forum da Maia, 24 de Novembro de 2011.

Salvato Trigo

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

37 - ARTIGO DE SANDRA DUARTE

Boa tarde minha querida, aqui vão algumas, poucas, linhas sobre o artesanato e alguns artesãos.
Para começar gostaria de me apresentar, sou Sandra Duarte e sou artesã há já alguns anos. Comecei por frequentar a faculdade de Belas Artes de Lisboa, mas não concluí, pois
o que andava a aprender não me satisfazia, o que eu queria eram oficinas, trabalhar com as mãos, e não o blá, blá de história de arte, etc. Fui frequentando diversos cursos, entre
eles de Joalharia no Cindor em Gondomar, durante um ano, de cerâmica em Aveiro, também durante um ano, enfim, sempre na expectativa de descobrir o que realmente me preenchia. O vidro sempre esteve muito próximo de mim, pois minha avó viveu na Marinha Grande e eu adorava visitar aquelas fábricas, ver os fornos gigantes, o vidro soprado, tudo me fascinava no vidro. Surgiu então um dia a oportunidade de fazer um curso na Fundação do Vidro de Barcelona, durante 2 semanas, foi muito pouco mas o suficiente para saber que era realmente isso que eu queria fazer. E desde então, embora ainda numa forma muito "naíf", vou tentando fazer algumas peças, que vendo para as lojas, ou em feiras de artesanato.

O artesanato ainda é, infelizmente, o "parente pobre" da nossa cultura. Nos tempos que correm já se vai mudando mentalidades, mas ainda há muito para andar.
Temos artesãos no nosso país que são reconhecidos internacionalmente, mas que no nosso Portugal, não passam de meros "artesãos".
É tempo de as pessoas se aperceberem que é através do artesanato que se referenciam regiões, locais, cidades e até paises. Temos o nosso Galo de Barcelos, que neste momento não é só de Barcelos, é Portugues, pois o turista que o compra diz que é de Portugal, muitas vezes não se recorda da cidade donde o galo nasceu.

Para dar um pequeno exemplo aqui vai uma história muito interessante e que muito poucos sabem<.
Alexandre Alves Costa, arquitecto e coleccionador de arte popular, conheceu Rosa Ramalho ( 1888-1977), em Barcelos, numa quinta feira que era o dia da feira semanal, daquela cidade. Ficou deslumbrado com as peças de Rosa e depressa se tornaram amigos. Para quem convive, como eu, de perto com a gente de Barcelos sabe que nos abrem as portas de suas casas com a maior das facilidades e nunca se sai de barriga vazia. Retomando a história, dizem os mais antigos, que Alexandre conhecia o pintor Picasso, que vivia em Paris, cidade que Alexandre visitava regularmente. Um belo dia convidou Picasso a ir consigo a Barcelos para conhecer outra artista, Rosa Ramalho, e assim foi, Picasso ficou maravilhado com as peças de Rosa.
Mais tarde, numa das frequentes visitas de Alexandre a Barcelos, este mostrou a Rosa uma fotografia de uma cabra que Picasso havia feito. Esta quando viu a foto respondeu
"Ai o filho da puta que me foi copiar a cabra".
Para quem não sabe ou conhece, a cabra, os bois, o burro, etc, fazem parte do bestiário tradicional do figurado de Barcelos. Pois representa a economia quatidiana da região.

Bom, podia passar a tarde a escrever sobre este tema, mas fica para uma próxima, obrigada Manuela por esta oportunidade , beijinhos grandes


Clique aqui para Responder ou Encaminhar

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

RESUMO DA COMUNICAÇÃO DE MARIA DO CÉU CAMPOS

MULHER MIGRANTE-LUGARES DE TRABALHO DE ONTEM E DE HOJE.

Nos primeiros tempos de emigração,ou seja primeiras gerações,as mulheres,assim como os homens,vinham para o estrangeiro sem conhecimento algum do que os esperava.De país para país diferia muito o modo de vida,a língua e a sociedade.
No que respeita a trabalho,a maioria vinha como trabalhadores não especializados para firmas da ind~ustria textil,metalúrgica,construção de estradas,etc.
As mulheres eram contratadas como ajudantes de produção,muitas em trabalho de empreitada,de limpezas e outros,trabalho duro,pesado e sem grandes condições oque levou a que muitas mulheres sofram de mazelas fruto de anos a fio a fazer o mesmo.
A meta de muita gente era trabalhar uns anos,juntar dinheiro,fazer a sua casa na terra e regressar.
Os anos foram passando,os filhos vieram,muitos seguiram o mesmo destino dos pais,sem formação profissional,o que interessava era ganhar dinheiro.
A sua vida era trabalho-casa;casa-trabalho,não se ia a lado nenhum a não ser à associação,muitos nem isso faziam,pois,diziam a sua meta era poupar o mais que podiam e ir embora.
Eramos vistos,nesse tempo,pelos políticos responsáveis,como hóspedes que,mais dia menos dia,iriam embora e nada foi feito para essa primeira geração,como cursos de alemão,no nosso caso,nem trabalho de integração.
Os problemas começaram a sugir com o desemprego a bater à porta de muitas famílias quando as firmas fechavam e,sem qualificação,não tinham possibilidade de arranjar outro emprego.
Com o tempo as mentalidades foram mudando,os filhos começaram a frequentar o jardim infantil,aprendendo a língua,a escola começou a não ser um problema,como o tinha sido para aqueles nascidos em Portugal e "atirados"para a escola sem saberem uma palavra de alemão,muitos deles não conseguiram completar a escolaridade obrigatória,outros foram mandados para escolas especiais para alunos com dificuldades de aprendizagem,quando o verdadeiro problema era a falta de apoio à aprendizagem da língua do país de acolhimento.Alguns dessses jovens conseguiram um curso de formação profissional,mas com muito sacrifíco,outros ficaram-se por ser trabalhadores não qualificados.

Mas como dizia atrás,as crianças de ontem foram para o jardim infantil,para a escola,completaram-ne e,a maior parte,seguiu a formação profissional.

O trabalho não qualificado já é raro,nas nossas jovens de hoje,alguns e algumas ,para nossa satisfação conseguem a escola intermédia,Realschule,e até já o liceu.

Mas para isso contribuiu um trabalho de aproximação,de integração,as informações eram mais tidas em conta,os pais já não faltavam às reuniões nas escolas,começaram a fazer parte das comissões de país.

Com o tempo o trabalho entrou no contexto da integração e participação,a política para com os trabalhadores estrangeiros mudou radicalmente,no que se refere a um trabalho de acompanhamento tanto nos jardins infantis,onde as mães também podem aprender alemão em cursode formação,como nas escolas onde se procura acompanhar e alertar para qualquer problema que apareça com alguma criança.Há cursos suplementares para alunos com dificuldades de aprendizagem.

Mas para a primeira geração,hoje já muitos ne idade da reforma,volta a haver outro problema:Regressar ou não?Os filhos estão radicados no país onde nasceram,ou para onde foram muito pequenos,os netos já lá nasceram,que vão fazer,sózinhos.para a sua terra natal?Então,alguns estão a optar por passar temporadas na terra e voltarem para junto dos filhos nopaís de acolhimento.

Hoje há instituições de apoio à terceira idade que estão já a desenvolver programas para implantar no caso de alguns estrangeiros optarem por ficar e terem necessidade de apoio num lar ou ajuda domiciliária.

As gerações futuras serão de gente mais qualificada no que respeita à profissão,pois,pouco a pouco,o nível de escolaridade aumenta e é com satisfação que vejo que o trabalho desenvolvido dá os seus frutos.


Nunca me fiquei pelo meu cantinho e dediquei,e dedico,muito de meu tempo ao trabalho de integração e de participação cívica e política.Fiz com que muita gente votasse nas eleições autárquicas,fiz do meu telefone o centro de informação,durante muito tempo,na nossa associação procurei motivar as pessoas para a participação cívica e política.
A nossa associação,embora lutando com muitas dificuldades,como luta todo o movimento associativo,é vista pelas autoridades locais como um exemplo a seguir,pois trabalhamos em colaboração com entidades oficiais e outras associações.

O trabalho não está terminado,há muito a fazer,os projectos são muitos e cada vez mais complexos,os tempos são casa vez mais difíceis e exigentes e para isso é preciso que não beixemos os braços e continuemos a colaborar,sózinhos não faremos nada,mas em colaboração podemos construir grandes coisas.

Estive em 2001 em Amesterdão,com a grupo das mulheres da Piko de Gotemburgo,em 2002 na Suiça,em 2004 em Silves no Seminario da Cidadania e participação cívica,em 2006 em Estocolmo con a Piko a a Mulher Migrante.Tenho feito o que posso e,como dizia Miguel Torga "Quem faz o que pode,faz o que deve"E ainda como dizia John Kennedy Não perguntes ao teu país o que ele pode fazer por ti,mas pergunta,antes,o que podes fazer pelo teu país"Portugal precisa da nossa ajuda e nós,mulheres na emigração faremos tudo para sermos as maiores e as melhores embaixadoras do nosso país lá fora.

COMUNICAÇÃO DE JOÃO MIGUEL AGUIAR e PAULA DA COSTA PEREIRA

Género e desigualdades no trabalho: Situação em Portugal e na União Europeia

Introdução
Quando nos debruçamos sobre a relação entre o género e o trabalho percebe-se desde logo que esta não é uma questão meramente ideológica, incorpora, antes de mais, um dado incontornável: a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho e no emprego. No entanto, ao abordar esta temática, temos igualmente de accionar uma perspectiva diacrónica na análise deste processo relacional de mudança social, que tem ocorrido, embora com dinâmicas e incidências diversas, um pouco por todo o mundo ocidental, já que nas sociedades pré industriais não existia uma clara divisão entre actividades produtivas e actividades domésticas.
Sendo assim, com as sociedades industriais desenvolve-se a separação entre trabalho em casa (no contexto doméstico) e o trabalho fora de casa (no contexto do emprego). Inicialmente no sector industrial, durante a 2ª Guerra Mundial, e posteriormente no sector dos serviços, nomeadamente a partir dos anos 60. Isto ocorre fundamentalmente pelas seguintes razões: um progressivo aumento dos níveis de escolaridade das mulheres; profundas alterações no contexto familiar, nomeadamente através de uma redistribuição das tarefas domésticas e um aumento da participação feminina nas tomadas de decisão no seio da família; por uma crescente necessidade de contribuição das mulheres para os orçamentos familiares; e ainda pelo desejo, por parte destas, de realização pessoal e de maior autonomia, não só financeira, mas também no desenho do seu projecto de vida.
Desta forma, com o trabalho aqui desenvolvido, procura-se analisar o panorama actual em Portugal e na União Europeia em geral, relativamente à questão da desigualdade de género no trabalho e no emprego, recorrendo, para tal, à informação estatística existente.
Assim, este trabalho está organizado em dois eixos principais. No capítulo Género e trabalho apresentam-se algumas das principais teorias que consideramos relevantes para a problemática em estudo. No capítulo dedicado ao Género e desigualdades no trabalho, num primeiro momento, analisa-se a informação estatística existente relativamente à situação em Portugal, articulando, sempre que a propósito, com a situação na União Europeia. Num segundo momento procura-se analisar, a partir de alguns documentos oficiais, as políticas de combate à desigualdade e de conciliação do trabalho com a vida familiar.

2. Género e desigualdades no trabalho

2.1. Situação em Portugal e na União Europeia

Se a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho, nomeadamente a partir dos anos 60 do século XX, parece ser consensual, importa perceber de que forma esse processo ocorre e que dimensões atravessa. Essa participação deve-se, fundamentalmente, ao desenvolvimento do sector dos serviços, porque essas actividades, em forte expansão, “ […] são tidas como femininas, […] requerem atributos socialmente reconhecidos às mulheres, designadamente competências emotivas e relacionais” (Falcão Casaca, 2005, pp. 55-56). Esta tendência incorpora, desde logo, uma característica profundamente ambígua, ou seja, tanto pode representar um processo de inclusão feminina no contexto laboral – o que pode reforçar uma maior igualdade entre géneros -, como, ao mesmo tempo, pode revelar um processo de diferenciação e de segregação sexual.
Com o presente trabalho, o que nos parece importante perceber é se de facto as mulheres se encontram inseridas no mercado de trabalho, se, pelo mesmo tipo de trabalho, auferem um salário igual ao dos homens, se apresentam vínculos laborais semelhantes aos dos homens e se têm o mesmo tipo de oportunidades de dedicação às suas carreiras profissionais.
Ao analisarmos os dados estatísticos, tanto nacionais como europeus, pretende-se descrever e interpretar alguns dos aspectos detectáveis deste fenómeno. Percebemos a limitação do alcance dos dados estudados, nomeadamente na detecção das formas «flexíveis» ou «atípicas» de trabalho e emprego – extremamente heterogéneas, de difícil identificação e que facilmente escapam às fontes estatísticas oficiais. No entanto, os dados recolhidos permitem identificar as principais tendências de transformação do mercado de trabalho, as formas contratuais, os tempos de trabalho (laboral e doméstico), ajudando a perceber as implicações dessas transformações a partir de variáveis como «sexo», «idade», «nível de escolaridade», «sector de actividade», entre outras. (Falcão Casaca, 2005, pp. 55-56)
Começando por analisar a taxa de actividade no período entre os anos 2000 e 2009 da população residente em Portugal (Quadro 1), podemos verificar que, apesar da taxa de actividade total (homens e mulheres) ter aumentado neste período, apenas 1,4%, é a taxa de actividade feminina que contribui para tal, passando de 44,8% em 2000 para 48% em 2009. A taxa de actividade dos homens, neste período, regista uma ligeira redução, ou seja, de 57,9% em 2000 passou para 57,3% em 2009.

Quadro nº 1
Sexo Grupo etário
(anos) Taxa de actividade (Série 1998 - %) da população residente por Sexo e Grupo etário; Anual
Período de referência dos dados
2009 2008 2007 2006 2005 2004 2003 2002 2001 2000
HM Total 52,50 53 53 52,80 52,50 52,20 52,30 52,20 51,70 51,10
15 – 24 39,20 41,60 41,90 42,70 43 43,60 45,10 47,40 47 45,70
25 – 34 89,80 90 89,70 89,70 89,70 88,80 88,80 88,30 87,60 87,50
35 – 44 89,70 89,90 90,10 89,60 88,50 88,60 88 87,10 87,20 86,80
45 – 54 83,80 83,80 83,10 83,30 82,40 80,80 80,10 79,90 80,30 79,30
55 – 64 53,90 54,40 54,40 53,50 53,80 53,20 54 53,40 51,90 52,40
Mais de 65 17 17,60 18,20 18 18 17,90 18,70 18,90 18,70 18
H Total 57,30 58,20 58,20 58,20 57,90 58,10 58,40 58,70 58,40 57,90
15 – 24 40,80 44,40 45,30 46,60 46,90 47,60 48,50 52,30 51,70 50,50
25 – 34 92,30 93 92,40 92,80 92,60 91,90 91,90 92,40 92,20 92,50
35 – 44 93,40 94,80 94,70 94,60 94,30 94,50 94,70 94,80 94,80 93,90
45 – 54 91,40 91,60 91,40 91 90,20 89,80 90 89,90 90,50 90,70
55 – 64 62,70 63 63 62,70 62,40 62,80 65,20 64,30 63,60 64,40
Mais de 65 22,20 23,40 24,20 24,60 24,60 25,60 25,80 25,70 25,90 25
M Total 48 48 48,10 47,70 47,40 46,70 46,60 46,10 45,50 44,80
15 – 24 37,50 38,60 38,40 38,70 38,90 39,50 41,50 42,40 42,10 40,80
25 – 34 87,20 86,90 86,90 86,60 86,70 85,70 85,70 84,10 83,10 82,40
35 – 44 86 85 85,70 84,70 82,90 82,90 81,60 79,60 79,80 80
45 – 54 76,50 76,40 75,20 76 74,90 72,20 70,70 70,40 70,80 68,60
55 – 64 45,90 46,60 46,70 45,10 46,10 44,80 44 43,80 41,50 41,90
Mais de 65 13,30 13,50 13,90 13,20 13,20 12,40 13,60 14,10 13,60 12,90
Fonte: INE, Inquérito ao Emprego

Relativamente à taxa de actividade da população da União Europeia (Quadro A1 em anexo), segundo os dados de 2008 do Eurostat, verifica-se que a diferença média entre as taxas de actividade de homens e mulheres dos estados membros da EU é de 14,1%, ou seja, existem em média menos 14,1% de mulheres empregadas/desempregadas, ou à procura de novo ou de primeiro emprego na EU. Portugal situa-se no conjunto de países onde esta diferença é menor do que a média europeia – 10,6%. Se a situação na Finlândia, uma diferença de 4%, e da Suécia (4,8%) indicia uma forte participação feminina no mercado de trabalho, já em Itália (22,8%), Grécia (24%) e Malta (36,7%) essa participação é muito menor.
Importa, neste contexto, perceber como se distribuem as mulheres pelas diferentes actividades profissionais. De uma população média empregada de cerca 5,020 milhões de indivíduos em 2000 passou-se para 5,054 em 2009 – com ligeiras oscilações ao longo deste período - (Quadro A2 em anexo). Se o número de homens empregados apresenta uma diminuição, entre 2000 e 2009, de 110,8 mil indivíduos, já o número de mulheres têm vindo a apresentar um progressivo aumento, passando de 2,255 milhões em 2000 para 2,366 em 2009 – uma tendência para a convergência dos dois contingentes.
Se neste aspecto parece existir uma tendência para a diminuição das resistências no acesso das mulheres ao mercado de trabalho, no que diz respeito ao tipo, situação e qualidade do emprego o panorama é diferente. Ao observarmos os valores da distribuição da população média empregada pelas diferentes profissões, no ano de 2009, segundo o inquérito ao emprego do INE, verificamos que existe uma concentração de mulheres em sectores profissionais como: pessoal administrativo e similares (307,4 mil); pessoal dos serviços e vendedores (543,9 mil); e trabalhadores não qualificados (403,5 mil), ou seja, estes três grupos profissionais representam cerca de 53% do total de mulheres empregadas em Portugal no ano de 2009. (Quadro A2 em anexo).
No entanto, importa salientar dois aspectos: a duplicação do número de mulheres no contingente das forças armadas, passando de 1,6 mil em 2000 para 3,3 mil em 2009 – um sector tradicionalmente mais resistente à contratação de mulheres; e um significativo aumento do número de mulheres nas profissões intelectuais e científicas - ultrapassando o número de homens. Confirma-se assim a crescente participação feminina no mercado de trabalho, embora se torne mais expressiva esta tendência se compararmos com dados relativos a anos anteriores a 2000 (site do INE: www.ine.pt).
Relativamente à situação na profissão (Quadro A3 em anexo), verifica-se uma tendência para a convergência dos dois grupos (homens e mulheres), nomeadamente nos trabalhadores por conta de outrem, embora com o número de homens a diminuir ligeiramente e o das mulheres a aumentar – de 1,662 milhões de mulheres em 2000 para 1,864 em 2009. Quanto aos trabalhadores por conta própria como empregador, em 2009 a situação é de algum equilíbrio entre homens e mulheres, 476,7 mil homens e 403,7 mil mulheres - uma tendência de estabilização do número de homens nesta situação e um crescente aumento do número de mulheres . Outro aspecto a salientar é a tendência para a diminuição do número de «trabalhadores familiares não remunerados», tanto homens como mulheres, embora no caso feminino a descida seja mais acentuada – de 122,5 mil em 2000 para 26,9 mil em 2009.
Analisando a distribuição por sexos da média anual da população empregada segundo o sector de actividade e o nível de escolaridade completo em 2009 (Quadro 2), podemos verificar que o número de mulheres ultrapassa o número de homens em dois grupos opostos, ou seja, entre os indivíduos com nenhum nível de escolaridade – de um total de 215,6 mil, 120,5 mil são mulheres – e no conjunto de indivíduos com nível de escolaridade superior – de um total de 799,7 mil, 476,1 mil são mulheres. Observa-se que de todos estes grupos – segundo o nível de escolaridade – as mulheres tendem a situar-se no sector dos serviços, mesmo nos casos em que são a minoria, ou seja, existindo menos mulheres com o ensino secundário, básico (1º, 2º e 3º ciclo), são estas que mais contribuem para o sector, exceptuando aquelas que não têm nenhum nível de escolaridade, já que estas exercem maioritariamente as suas actividades na agricultura e pescas.
Quadro 2 - População empregada segundo o sector de actividade principal, por nível de escolaridade completo e sexo – Média anual 2009

Unidade: Milhares de indivíduos
Nível de escolaridade completo Sexo Total Agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca Indústria, construção, energia e água Serviços
População empregada HM 5 054,1 564,8 1 425,7 3 063,6
H 2 687,6 293,7 1 040,1 1 353,8
M 2 366,5 271,0 385,6 1 709,9
Nenhum HM 215,6 138,7 35,2 41,6
H 95,1 55,1 30,9 9,1
M 120,5 83,7 4,3 32,5
Básico - 1º ciclo HM 1 260,9 306,8 417,1 537,1
H 705,7 162,6 312,4 230,8
M 555,2 144,3 104,7 306,3
Básico - 2º ciclo HM 876,0 61,4 387,2 427,4
H 529,3 36,1 283,1 210,1
M 346,7 25,3 104,1 217,3
Básico - 3º ciclo HM 1 053,0 39,1 331,3 682,7
H 597,0 25,5 243,1 328,4
M 456,1 13,6 88,2 354,3
Secundário/pós-secundário HM 848,8 11,6 171,0 666,2
H 436,9 8,9 117,8 310,2
M 412,0 2,7 53,3 356,0
Superior HM 799,7 7,1 83,9 708,7
H 323,5 5,5 52,9 265,1
M 476,1 1,6 31,0 443,5
Fonte: INE, Estatísticas do Emprego.

Confirmado o crescimento do contingente feminino no mercado de trabalho, a sua situação na profissão, o aumento dos níveis de escolaridade, verifica-se uma tendência para que exerçam funções no sector dos serviços e trabalhos menos qualificados. Importa, assim, ter em atenção os rendimentos mensais líquidos da população empregada por conta de outrem, nomeadamente comparando a evolução das remunerações líquidas no período entre 2000 e 2009. (Quadro A4 em anexo)
Podemos confirmar a existência de divergências salariais relevantes em todas as actividades profissionais. Em termos gerais, no 4º trimestre de 2009, os homens auferem, em média, 831 € e as mulheres 712€, apesar da tendência, ainda que ligeira, de redução da diferença salarial em função do sexo. Segundo os dados do INE (Quadro A4 em anexo), no mesmo período de 2000, os homens auferiam em média um salário líquido de 604€ e as mulheres 499€, ou seja, se em 2000 as mulheres auferiam 82,6% da remuneração média mensal dos homens, em 2009 esse valor passou para 85,7%.
É importante verificar como se comporta esta diferenciação salarial em determinadas categorias profissionais, nomeadamente naquelas em que o contingente feminino é maior do que o masculino (serviços e agricultura e pescas) e aquele em que as mulheres, pelo forte aumento das suas qualificações académicas, poderiam apresentar um quadro remuneratório mais favorável (especialistas das profissões intelectuais e científicas).
No que diz respeito aos trabalhadores da agricultura e pescas, as baixas remunerações imperam, apenas 504€ de rendimento médio mensal líquido no 4º trimestre de 2009. Se em 2000 as mulheres empregadas nestas categorias profissionais auferiam 76% do salário dos homens, em 2009 passaram a auferir apenas 71%, ou seja, aumentou, nos últimos 10 anos, a diferença salarial entre homens e mulheres. Nos profissionais dos serviços, em 2000, as mulheres auferiam 68% do salário médio mensal dos homens, passando, em 2009, a receber 72%. Na categoria dos especialistas das profissões intelectuais e científicas a tendência mantém-se, embora o valor de referência [4º trimestre de 2000] seja elevado, isto é, em 2000 as mulheres com estas categorias profissionais recebiam 84% da remuneração dos homens, passando a receber no mesmo período de 2009, em média, 90% da remuneração líquida dos homens.
A merecer nota de destaque surge o caso dos quadros superiores da administração pública e quadros superiores de empresas, já que, em 2000, as mulheres destas profissões auferiam cerca de 90% da remuneração média mensal dos homens, passando em 2009 para 82%, uma variação negativa de 8% superior à das trabalhadoras da agricultura e pescas.
A evolução do rendimento médio mensal líquido da população tendo em consideração a diferenciação por sexo, segundo os dados estatísticos do INE no 4º trimestre de 2009 (Quadro A4 em anexo), apresenta em linhas gerais, dois aspectos significativos e que merecem toda a atenção: é nas categorias profissionais onde as mulheres auferem as mais baixas remunerações (agricultores e trabalhadores qualificados da agricultura e pescas com 383€ em média por mês) e onde auferem as mais altas remunerações, ou seja, os quadros superiores da administração pública e dirigentes e quadros superiores de empresas, com 1397€ no mesmo período, que se verifica uma tendência contrária à das restantes actividades profissionais, ou seja, observa-se um aumento da diferença salarial em relação aos homens.
Neste domínio, segundo os dados do Eurostat (Quadro A5 em anexo), Portugal parece situar-se bem acima da média da EU-27, ou seja, em 2008, apresenta uma diferença no salário bruto entre homens e mulheres de 9,2%, enquanto a média da União Europeia situa-se nos 18%. Note-se que em alguns países as disparidades salariais entre homens e mulheres têm vindo a aumentar. Itália (4,9%), Eslovénia (8,5%) e Bélgica (9%), são os países que apresentam menos diferenças salariais entre homens e mulheres, no ano de 2008. República Checa (26,2%), Áustria (25,5%) e Alemanha (23,2%), são os que apresentam maiores diferenças.
No entanto, importa ressalvar que este quadro foi construído na forma não ajustada. O «Gender pay gap» (GPG) sob forma não corrigida representa a diferença entre a remuneração média ilíquida/hora de homens e mulheres. Embora o valor do GPG certamente dê uma indicação da situação que enfrentam as mulheres no mercado de trabalho europeu, faz sentido considerar outros indicadores, a fim de obter uma imagem mais completa das possíveis razões subjacentes a essas disparidades salariais.
Um desses indicadores é o trabalho em «part-time». E aí convém sublinhar que, nos países do norte da Europa, as tarefas em «part-time» reflectem, de uma maneira geral, as preferências das mulheres e a sua necessidade de combinar o trabalho com a educação dos filhos, enquanto que, no sul da Europa, as tarefas em «part-time» são, muitas vezes, involuntárias (Petrongolo, 2004).
Outra categoria que importa analisar é o tempo dedicado à actividade profissional de homens e mulheres. Analisando a duração semanal efectiva de trabalho da população empregada em Portugal, verifica-se que os homens trabalham 38 horas e as mulheres 34 horas (Quadro 3).


Quadro 3 - Duração semanal efectiva de trabalho da população empregada por Sexo, Sector de actividade económica e Regime de duração de trabalho
Sexo Sector de actividade económica Período de referência dos dados
4.º Trimestre de 2009
Regime de duração de trabalho
Total Tempo completo Tempo parcial
h h h
HM Total 36 38 17
Agric., prod. animal, caça, floresta e pesca 29 42 16
Indústria, construção, energia e água 37 37 16
Serviços 36 38 18
H Total 38 39 17
Agric., prod. animal, caça, floresta e pesca 32 43 16
Indústria, construção, energia e água 37 38 16
Serviços 39 40 18
M Total 34 37 17
Agric., prod. animal, caça, floresta e pesca 25 40 15
Indústria, construção, energia e água 35 36 17
Serviços 34 37 18
Fonte: INE, Inquérito ao Emprego

Esta diferença poderá estar relacionada com o tempo dedicado pelas mulheres às tarefas domésticas, ou seja, as mulheres que exercem uma actividade profissional e têm de assegurar o trabalho doméstico e o cuidado à família deparam-se com a necessidade de conciliação das duas actividades – aquilo que se designou como a «dupla jornada de trabalho». Segundo o inquérito à ocupação do tempo levado a cabo pelo INE em 1999, verifica-se que as mulheres, embora consagrem menos 2,20 horas por dia às suas actividades profissionais e estudo, dedicam mais 3 horas por dia, do que os homens, ao trabalho doméstico e cuidados à família e menos 90 minutos às actividades de lazer. Esta realidade pode explicar a necessidade das mulheres dedicarem menos horas às suas actividades profissionais. (Quadros 3 e A6)

2.2. Políticas de combate à desigualdade e de conciliação do trabalho com a vida familiar

A participação do Estado nestes processos torna-se da maior importância, nomeadamente ao nível das decisões governamentais e instrumentos políticos. A Europa do sul em geral e particularmente Portugal apresentam um conjunto de características resultantes de condições peculiares da sua construção histórica e realidade económico-social que explicam a existência de um modelo atípico de Estado-Providência.
Neste sentido, importa perceber qual o quadro político/legal que a problemática da (des)igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho e no emprego assume em Portugal, já que só em 1976, com a nova constituição da república portuguesa, se passou a consignar a igualdade entre homens e mulheres em vários domínios da sociedade portuguesa. Mais tarde, com a entrada em vigor do Decreto-Lei nº 329/79, de 20 de Setembro, passam a estar previstos princípios igualitários entre homens e mulheres referentes às condições de trabalho, nomeadamente: no acesso ao emprego e à formação, à carreira profissional e à remuneração. Consequentemente, verifica-se uma transformação ao nível das políticas públicas, ou seja, de uma perspectiva baseada na manutenção das funções sociais de esposa e mãe (saúde da mulher e maternidade), para uma perspectiva assente em princípios não discriminatórios em função de género. (Cerdeira, 2009, pp. 87-89)
Actualmente, o panorama legislativo português traduz aquilo que são as directivas comunitárias no que concerne à “ […] aplicação do princípio da igualdade de oportunidades e da igualdade de tratamento entre homens e mulheres no emprego e na actividade profissional.” (Jornal Oficial da União Europeia, 2006, L 204/26). Com a entrada em vigor do novo código de trabalho, Lei nº 7/2009, de 12 de Fevereiro, pretendeu-se garantir, não só o cumprimento da directiva comunitária, mas também o seu controlo e sancionamento dos transgressores.
Outro instrumento que visa combater a discriminação das mulheres na actividade profissional é a comissão para a igualdade no trabalho e no emprego (CITE), criada em 1979. Esta Comissão é constituída por representantes do governo e pelos parceiros sociais – Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional (CGTP-IN), Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) e União Geral de Trabalhadores (UGT). As suas principais atribuições são: “ […] a promoção da igualdade e da não discriminação entre mulheres e homens no trabalho, no emprego e na formação profissional; a protecção na parentalidade; a conciliação da vida profissional, familiar e pessoal.” (Site do CITE em: www.cite.gov.pt)

3. Notas finais

De uma forma geral, com este trabalho podemos perceber que, apesar do enquadramento legal e da acção política assentes na igualdade de oportunidades e na igualdade de tratamento entre homens e mulheres no emprego e na actividade profissional, tanto em Portugal como na União Europeia, persistem fortes indicadores de segregação sexual.
Ao nível das ocupações, homens e mulheres tendem a dedicar-se a diferentes tipos de trabalho e sectores de actividade - segregação horizontal -, conduzindo as mulheres para a profissionalização em sectores onde as rotinas e os baixos salários são mais comuns - segregação vertical (Giddens, 2004, pp. 393-394).
Outra forma é a concentração das mulheres em actividades a tempo parcial, ou seja, as mulheres recorrem a este tipo de trabalho, normalmente pouco qualificado e precário, no sentido de poderem conciliar a vida profissional e a vida familiar. Isto acontece mais no Norte da Europa e menos em Portugal, embora se possa considerar, no caso português, a redução de horário de trabalho como um modo de parcialização do tempo de trabalho (Giddens, ibidem).
Por fim, surge a segregação por via da disparidade salarial entre homens e mulheres, ou seja, as mulheres auferem salários inferiores aos dos homens e estão mais representadas em categorias profissionais onde a média salarial é mais baixa (Giddens, ibidem).
As disparidades salariais também têm um impacto importante sobre a poupança e as pensões das mulheres. Ganhar salários mais baixos significa ter uma pensão mais baixa, o que provoca um maior risco de pobreza das mulheres mais velhas. As disparidades salariais entre homens e mulheres são uma consequência da discriminação e desigualdades no mercado de trabalho que, na prática, afectam principalmente as mulheres. O diferencial na remuneração está ligado a uma série de factores legais, sociais e económicos que vão muito além da questão do salário igual para trabalho igual.




Bibliografia consultada:

AGACINSKI, Sylviane (1999) – Política dos Sexos. Oeiras: Celta Editora. ISBN: 972-774-036-7.

AMÂNCIO, Lígia (1994) – Masculino e feminino: a construção social da diferença. Porto: Edições Afrontamento. ISBN: 972-36-0333-0.

CASACA, Sara Falcão (2006) - Flexibilidade, emprego e relações de género: a situação de Portugal no contexto da União Europeia, in Kovács, I. (Org.) et al., Flexibilidade de Emprego: Riscos e Oportunidades, Lisboa: Celta Editora, pp. 55-89.

CASACA, Sara Falcão (2005) - Flexibilidade, Trabalho e Emprego - Ensaio de Conceptualização, Working Paper, SOCIUS nº 10/2005, ISEG-UTL.

CASACA, Sara Falcão (2009) - Revisitando as teorias sobre a divisão sexual do trabalho. Lisboa: Instituto Superior de Economia e Gestão – SOCIUS, nº 4-2009.

CERDEIRA, Maria da Conceição (2009) – A perspectiva de género nas relações laborais portuguesas. Sociologia, Problemas e Práticas. Nº 60 (Abril 2009), p. 81-103. ISSN: 0873-6529.

GIDDENS, Anthony (2004) – Sociologia. 5ª Edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. ISBN 978-972-31-1075-3.

TORRES, Anália Cardoso (2004) – Vida conjugal e trabalho: uma perspectiva sociológica, Oeiras: Celta Editora. ISBN: 972-774-206-8.

DECRETO-LEI nº. 7/2009. Diário da República, 1.ª série — N.º 30 — 12 de Fevereiro de 2009, p. 926-930.

DIRECTIVA 2006/54/CE DO PARLAMENTO EUROPEU E DO CONSELHO (5 de Julho de 2006), L 204/23.

Consulta de documentação e sistemas de informação [Em linha]:

CITE, Comissão para a igualdade no trabalho e no emprego [em linha], [consultado em 15-04-2010], disponível em: http://www.cite.gov.pt/pt/acite/mulheresehomens02.html.

EUROSTAT [em linha], [consultado em 14-04-2010], disponível em: http://epp.eurostat.ec.europa.eu/portal/page/portal/eurostat/home/.

INE, Instituto Nacional de Estatística [em linha], [consultado em 16-04-2010], disponível em: http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpgid=ine_main&xpid=INE.

MTSS – Ministério do Trabalho e da Segurança Social [em linha], [consultado em 18-04-2010], disponível em: http://www.mtss.gov.pt/.

PETRONGOLO, Barbara (2004) - Gender Segregation in Employment Contracts. Journal of the European Economic Association, Vol. 2, No. 2/3, Documentos e Processos do XVIII Congresso Anual da Associação Económica Europeia (Abril - Maio de 2004), pp. 331-345. [Em Linha], [consultado em 06-04-2010]. Disponível em: The MIT Press on behalf of European Economic Association Stable http://www.jstor.org/stable/40004908.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE TÂNIA REIS

PORTO – SÃO PAULO – UMA DECISÃO DE VIDA

Quando o convite me foi formalizado pela Doutora Maria Manuela Aguiar, confesso que fiquei surpresa e um pouco inquieta.
Embora para mim este convite seja uma honra, deparei-me com o facto de que, tendo já participado de vários encontros e congressos, sempre estive do lado de quem faz, de quem produz, de quem idealiza. Então, ter que escrever uma comunicação fez-me estremecer, pois estarreci com a ideia de não saber muito bem aquilo que deveria partilhar e o que vos interessaria saber, ouvir.
E, depois: que desejo eu passar, aos que neste momento me estão a ouvir?! Que mensagem devo passar, para aqueles que pretendem um dia, sair de Portugal e tentar a vida noutro País?
Depois de muito pensar, acredito que contar a minha experiência pessoal, seja o mais rico que tenho em contar.
Vivo no Brasil, nomeadamente em São Paulo, desde Agosto de 2008, e olhando para trás, vejo que tomei uma decisão, que na época não me pareceu tão aventureira, como agora.
Mas antes de vos avançar a vivência de agora preciso voltar ao contexto e ao ano 2007, quando fui pela primeira vez ao Brasil como actriz. Recebi o convite para fazer uma peça de teatro infantil, no sertão de pernambuco, “Cor da Pele, Um rosto diferente”. Naquela época, eu trabalhava como produtora cultural - uma área pela qual sempre me interessei bastante.
Expectante pelo convite, e pelo o que isso iria resultar em consequências directas no meu dia a dia, acabei por aceitar, e iniciei a jornada que ainda hoje estou vivenciando, com muita luta (mas o que não nos desafia não nos dá tanta fibra e faz crescer, sobretudo no crescimento pessoal), mas ciente de que é aquilo que me deixa mais realizada e leve, porque amo a minha profissão: e quando fazemos aquilo que mais gostamos, por mais que isso nos custe, acredito, deixa-nos um pouco melhor com a vida, com os outros porque estamos a ser honestos com a nossa natureza.
Fui, e passei lá 3 meses nesse inóspito e quente sertão pernambucano. Longos. Rápidos. Sofridos. Intensos. O sertão de Pernambuco, ou qualquer outro sertão brasileiro, em nada se assemelha ao que qualquer novela, ou folhetim da televisão, que nos acostumamos a ver ao longo dos anos, nos mostra.
O sertão é rude, é duro, é poético, é arrebatador e assustador. Nos 3 meses que lá vivi, tive vários choques culturais, conheci pessoas cujos olhos brilham, só porque têm o chão para cultivar, o sol para aquecê-los. E convivi com crianças cuja fome cultural é incompreendida e desconhecida de nós, que estamos habituados à urbanidade e nem nos apercebemos como ela nos contagia em vários sentidos.
O olhar de uma criança, vendo a peça, no banco da praça municipal, me fez chorar várias vezes. E não quero aqui ser piegas, mas de facto, aquelas pessoas, aquelas crianças, nunca tiveram na vida oportunidade para ir no cinema, ao teatro, a um show musical. Essa realidade para elas é tão distante, que qualquer manifestação cultural, para eles, é um acontecimento digno de feriado. Há essa espontaneidade.
Após esta experiência, voltei para Portugal, para o Porto, onde durante 5 meses, continuei o meu trabalho nesta peça, mas agora, com as crianças de Valongo, onde a realidade é outra. A fome cultural, é outra.
Já tendo visitado o Brasil, por diversas vezes, e quase sempre em trabalho, a ideia de me mudar, e conquistar outras frentes, não me saía da cabeça.
Após muito pensar, aconselhar-me com amigos e família, nos 5 meses que estive em Portugal, tratei de tudo o que era necessário, fiz as malas, e mudei-me com a cara e a coragem para São Paulo.
Longe de imaginar, a dura realidade de uma cidade tão cosmopolita, enorme e voraz como a nossa Sampa, como é carinhosamente apelidada.
Lembro-me até hoje com os mínimos detalhes da saga da viagem. Começou em Lisboa, com excesso de peso, na mala (pudera...) e com a dificuldade em comprar outra mala, para dividir bagagem, no aeroporto de Lisboa, lotado de turistas, que iam para o Brasil, de férias. Depois de quase perder o voo, lá embarquei, e tinha 12 horas até ao meu destino.
Ocorre-me que durante a viagem, pensava se tinha certeza do que estava a fazer. Do que tinha deixado para trás. Se aqueles que não tinham entendido a minha decisão, não estariam certos no que me diziam....mas depois, também me ocorria esse ADN do Fado que nos é tão peculiar, e que nos impede, muitas vezes, nós portugueses, de dar passos, pelo medo, de pura e simplesmente falhar.
Entre pensamentos, dormitar, eis que já estava sobrevoando São Paulo. Era noite, e quando olhei pela janela, fiquei assustada com o trânsito, com as luzes, com a confusão, que do ar já era possível ver. E me questionei: Onde te vieste meter, Tania Reis!!!! Sim, era claro que estava assustada. Afinal, eu estava prestes a chegar a uma cidade em que o estado tem 3 vezes mais que a população portuguesa.
Cheguei e quando pousei, pensei que a saga teria terminado, mas não. As minhas malas tinham ficado em Belo Horizonte, e durante 4 dias, não tinha mais do que a roupa que tinha no corpo. Além do facto de que por erro de comunicação, também não tinha onde dormir, e tive que ir para um hotel, durante 3 dias, no centro da cidade.
Tudo era diferente, e eu estava por minha conta.
Até hoje, nem sei como tive tanta coragem, como consegui não ter medo. Mas aos poucos, as coisas foram indo para o lugar, e volto nesse momento, e o que me lembro é do cheiro da cidade, do meu olhar de “turista”, a tentar entender como funcionava a cidade, quais os hábitos dela, como ela pulsava...como ela pulsa.
Demorei uns 3 meses a adaptar-me, e senti-me muito sozinha nesse tempo, até conseguir decidir o que fazer, como começar, por onde começar.
Quando decidi vir para o Brasil viver, decidi frequentar um curso de teatro, onde seria a forma mais célere de integrar-me na cidade, no País, na sua cultura, no seu quotidiano, e ao mesmo tempo, aprender e analisar o modus operandi dos brasileiros, nomeadamente no Teatro.
Acredito até hoje que tomei a melhor decisão.
No curso conheci pessoas, que ajudaram a ajustar-me e a conhecer esta Sampa tão rude, e ao mesmo tempo tão encantadora.
Comecei a ir ao teatro, a conhecer pessoas do meio, a ver como a cultura pulsava. Para terem uma ideia, São Paulo tem 200 peças em cartaz por mês, bem longe da nossa realidade, em que se tivermos na cidade do Porto, por exemplo, duas peças em cartaz, já é uma sorte. Além de exposições, filmes, mostras de cinema europeu, latino, japonês, etc, e galerias de arte, shows musicais, diversos restaurantes, manifestações na Avenida Paulista, lançamentos de livros, e por ai adiante.
Aproveitei o curso para entender-me, para entender como acontecia este país, e esta cidade, capital económica do Brasil.
Estudei como funcionam as leis, como as companhias de teatro conseguem fazer as suas montagens, onde conseguem o dinheiro, como sobrevivem os artistas.
E claro, fiz o que se espera de quem vive no Brasil, e tem esta profissão, contactei as televisões, dei-me a conhecer e fiz o meu cadastro, para quiçá, precisem de uma portuguesa, mais jovem, saibam que existe.
Deparei-me com algumas curiosidades. Aqui não existe o conceito de companhia de teatro. Existem poucas. Existem projectos, hoje eu estou a trabalhar com fulano, e amanhã com cicrano. Os atores, pela concorrência, inventam projectos, para conseguirem trabalhar, e enquanto isso, vão tentando sobreviver, indo a testes de publicidade, pois o mercado é imenso, na expectativa de agarrarem um comercial – que é um anúncio publictário-, e ganhar duma vez só, uns 10 mil reais. Enquanto isso não acontece, ganham 30 reais, como caché-teste. Conheci atores e atrizes que vão a 3 e 4 testes por dia, e assim, conseguem ir pagando as suas contas.
É... viver em São Paulo é muito caro, muito mais caro que Portugal. Ir jantar fora, é um luxo para poucos, pois pode sair uns 100 reais por pessoa, o que estamos a falar de mais ou menos 50 euros.
Após 3 meses, e quase sem dinheiro, comecei a procurar alguma coisa, que me desse o sustento. E eis que, virei empregada de mesa, lá chamada de “garçonete”. E durante um ano, servia às mesas num bistrô em Pinheiros, durante o dia, estudava à noite, e tentava entender cada vez mais como pulsava este lugar.
Foi uma experiência engraçada. As pessoas achavam chique ter uma portuguesa lhes servindo. O brasileiro, embora um povo alegre, simpático e acolhedor, ainda tem muito o preconceito de colonizado e, às vezes, se acha inferior ao que vem de fora. Coisa que só vivendo para entender, donde vem este sentimento, tão fora da realidade. Eles, brasileiros, são um povo rico, capaz, imaginativo, e muito empreendedor.
Com as dificuldades financeiras, e numa cidade tão cara, e sendo estrangeira, eu tinha que me virar, como eles dizem.
Hoje, passados três anos, olho para trás, e surpreendo-me com tudo o que já passei, com esta decisão, que na época me pareceu tão singela.
Passei muitas dificuldades, já andei quilometros a pé, por não ter dinheiro para apanhar uma autocarro, já chorei, já sorri, já conquistei, já derrubei barreiras que julgava intransponíveis.
Acredito que a que mais pesou, foi a de sentir-me estrangeira num País, que sinto, como meu. Escolhi o Brasil para viver, e muitas vezes irrito-me com a falta de consciência cívica dos governantes, da falta de educação dos Patricinhos, os chamados betinhos, ou meninos com posses, onde o dinheiro paga e compra tudo, mas emociono-me com o sorriso daqueles que conseguem as suas conquistas diárias, da boa disposição, mesmo nas adversidades.
Os 3 anos foram duros, mas valeram e continuam a valer a pena. Conquistei muita coisa, encontrei muitos amigos.
E por falar em amigos, não posso deixar de falar nesta nova leva portuguesa no Brasil. Tem sido inacreditável a quantidade de portugueses, que conheço, que chegaram ou acabaram de chegar para trabalhar no Brasil.
Uns com o visto resolvido, outros não. É, para quem não sabe, já lá vai o tempo, em que o português, não precisava de visto para viver no brasil. E esta também, foi uma grande luta minha, a conquista de um visto. Já lá vamos!
O brasil hoje, está na mira mundial, e é ele quem dita as regras.
È dificil conseguir-se um visto, nomeadamente de trabalho, e demora tempo, e é caro, além das imensas filas, e burocracias que temos que passar. O que leva, que muitos deles, deixem-se ficar ilegais, e tentando encontrar uma solução, que um dia virá, e enquanto não vem, passam pela dura realidade de não poder visitar a terrinha.
Antes de viver no Brasil, a questão do visto, para mim era uma epopeia dos anos 50, com a emigração dos nossos bisavós, e que afinal se tornou presente e vivenciado.
Embora a emigração seja outra, a de mão de obra especializada, as dificuldades e os encantamentos são os mesmos.
Quando alguém do meu círculo de amigos do Porto, me escreve ou liga, e diz,: “Tu é que tens sorte. Estás no Brasil, vais para a praia, tens sol e samba...”, eu penso, como estão enganados....O país é lindo de facto, mas é dificil viver por aqui. É preciso muita persistência, muita força de vontade, de acreditar muito que somos capazes e vamos conseguir...E também tem as saudades!!!
Ai, claro, acabamos por nos encontrar todos, para de alguma forma colmatar este sentimento que herdamos do fado, no boteco mais conhecido, dito “Ministrão”, do Sr. Fernando, português do centro de portugal, que com 13 anos veio para o Brasil de barco, sozinho, e que passou fome, frio e encontrou muitas vezes a solidão nas calçadas paulistanas. Raro o português que não se emociona com a história que ele nos conta. E também muito recorrente, estas histórias dos que vieram para o Brasil no passado.
E tudo ao sabor de uma Original, ou uma Bohemia de 600 ml, vamos contando as nossas experiências, vamos rindo, vamos fazendo palhaçadas, pedindo ajuda, nos apoiando e também nos apaixonando.
E esta nova leva, vai-se encontrando em botecos e provas de vinho. E ai perguntam, mas não existem organismos em São Paulo, portugueses, onde este novo emigrante se dirija. Existem sim, mas não são próximas.
Esta é uma questão, que pessoalmente me inquieta.
Temos a Casa de Portugal e o Clube Português em São Paulo. Distintos no público que atingem, mas com a mesma filosofia – Rancho Folclórico e aluguer do espaço das suas sedes, para festas de 15 anos, casamentos...
Já fui por diversas vezes almoçar à Casa de Portugal, ao famoso “almoço das quintas”. Inclusive foi lá que conheci a Drªa Maria Manuela Aguiar, e que nos tornamos amigas, pela empatia imediata.
Mas sou, provavelmente, a única pessoa da minha geração que lá vai, por amigos que tenho. E por que isso acontece? Porque, por muito valor que as pessoas que fundaram e estão na Casa tenham tido e continuem a ter, elas estão apegadas, à filosofia de um Portugal dos anos 50, porque essa é a realidade que viveram. E compete à nova geração mostrar e partilhar o país de hoje.
Este não é o Portugal que a minha geração viveu. Não existem nas comunidades portuguesas, os nossos “Xutos e Pontapés”, os “Ornatos Violeta”, “Cristina Branco” e “Bernardo Sassetti”, “António Lobo Antunes2 e “Saramago”, “José Luís Peixoto”, “Graça Morais”, “Noiserv”, “João Canijo”...para enumerar apenas alguns nomes do nosso cenário contemporâneo artístico.
Não me entendam mal, não estou a fazer uma crítica. Apenas a dizer que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, mas mais do que isso, reinventa-se a fibra cultural de um país que mudou, que muito deve à sua herança e legado, mas precisa de se mostrar como é moderno, empreendedor... E sinto, no grupo de amigos que tenho, que em nada se identificam com a Casa de Portugal, e por isso não a frequentam. Então pergunto-me: A Casa vai morrer com a geração que a criou? Espero que não, e tenho tido algumas tentativas até ao momento, falhadas, de organizar eventos, palestras e outras coisas que aproximem esta nova leva de emigrantes no Brasil, no qual me incluo. Por isso estou ciente que a responsabilidade de pôr mãos à obra também é minha.
Porque não deixar aqui o desafio, formalmente?
Sinto que temos que mudar a ideia que tem do português, por este mundo a fora. Temos um exemplo, que são os personagens portugueses nas novelas, nomeadamente na TV Globo. Todos, eles e elas, tem bigode, dizem “oh pá” e “ora pois, pois”, e ainda fazem contas de lápis na cabeça.
Se calhar por isso, que ainda hoje, as piadas preferidas dos brasileiros, sejam exactamente as dos portugueses.
Mas tem um lado muito bom. O português é visto, pelos brasileiros, como o irmão, o que fala a mesma língua, o povo que é trabalhador e honesto. E isto sim, para mim, é uma das melhores qualidades que os nossos antepassados nos deixaram de herança. Sem falar, claro, no nosso incrivel Fernando Pessoa, tão apreciado por terras de tupi guarani.
Devo dizer, que esta tem sido a melhor experiência da minha vida. Onde cresci, onde me tornei uma pessoa melhor, onde hoje a Tânia Reis que saiu de Portugal, em Agosto de 2008, já não existe. Hoje sou um ser humano melhor, mais consciente, mais predisposto a ter cada vez mais uma papel mais activo na sociedade, tanto portuguesa, como brasileira.
Com o tempo, e aos trancos e barrancos, fui encontrando o meu lugar.
Hoje, já tenho no CV 4 peças que fiz neste período, participação num filme, atriz num video-clip de uma Banda Rock que foi para o “Rock in Rio”, e acabei de ajudar a produzir a “Balada Literária”, que foi o sexto ano, idealizada por Marcelino Ferire.
E estou com um grupo de pessoas, formando uma empresa de Produção e Criação Cultural, onde temos projectos desde peças infantis, encontros literários, peças adultas, e aulas para crianças e adultos.
Para finalizar, e por acreditar que faz todo o sentido, termino com um poemo do nosso querido Fernando Pessoa, que gosto muito:
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas...
Que já tem a forma do nosso corpo...
E esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares.

È o tempo de travessia...
E, se não ousarmos fazê-la...
Teremos ficado...para sempre...
Á margem de nós mesmos.”

Muito obrigada.

Tânia Reis/Atriz

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE JOAN MARBECK

‘ Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diaspora’
At Forum da Maia, Portugal on 24, 25 and 26 November 2011

Towards the Revival, Recognition, Development and Acceptance of the Malaysian-Eurasian people through the Kristang Language, Culture and their Euro-Asian Ethnicity.
Introduction:
Melaka, once the Kingdom of a Prince of Palembang, a Sultanate Seat, a busy Entrepot Port of the Portuguese, later captured by the Dutch and then ruled by the British as one of its Straits Settlements in Peninsula Malaysia, charmingly called a ‘ Sleepy Hollow’ with only a population of a 100,000 persons, is today a feverishly bustling State of Independent Malaysia with UNESCO’s Heritage Twin- City Status. Yes, this is also where it all began for the Eurasian Community of Malaysia.
The beginnings of the Eurasian people in Malaysia came about through marriage of the local population with the Portuguese. The Portuguese were encouraged by the Crown to marry local native women, already existing from among some Arab but mostly Indian traders and their offspring.
By the time the Dutch arrived in the early 17th.Century and the British in the early 19th.Century, the population of Malacca was already very heterogeneous. Its community was formed from several original groups practicing different customs and occupations, each group living in its own quarters of the town and observing its own customs and traditions. There was nevertheless constant contact among them despite being engaged in different occupations like agriculture and other small industries. Fishing was the occupation of a great number of people, the humblest part of the population.
Up to the present day, you will find that the friendliest people in Malaysia come from Melaka and from those whose livelihood was once linked to the sea. Go to any Eurasian home in Melaka unannounced and you might be asked to join them for a meal or a cup of tea, coffee or drink ‘ agu di lanya’ ( young coconut water).
The Eurasians evolved as a people in Melaka and spread to other parts of the Malay Peninsula, the Indonesian Islands and other parts of South East Asia not by choice but by circumstance. In the early 1960s and 70s, when the United Kingdom, Australia, Canada, New Zealand and the US opened its doors to immigrants, there was a huge exodus of Eurasians from Malaysia and Singapore to these countries. This nomadic trend will continue as Eurasians try to identify their ‘ homeland’.
1950s - Present
Today, the approximately 28,000Eurasians living and breathing in Malaysia have a mission to accomplish. We have to establish our rights and privileges as responsible citizens of Malaysia, our country and homeland. To be loyal to our roots, to the King and Government of Democratic Malaysia. After 50 years of Independence and Democracy,Our Community looks forward to be identified as Malaysian- Eurasians or Serani and not anymore to come under the general term of ‘Others’.
Towards the Commemoration of the 500th. Anniversary of the Arrival of the Portuguese in Malacca and the beginnings of colonial power in Malaya, we reflect on the strengths, the culture, the language and the Heritage that the Malaysian-Eurasian Community has contributed to the growth of young Democratic Malaysia.
Language
Most Malaysian-Eurasians are tri-lingual. All speak Bahasa Malaysia and English. Some speak ‘ Kristang’. Others speak fluently other ethnic language like Hokkien, Cantonese, Tamil or a Sabahan/ Sarawakan Tribal dialect. My focus is to concentrate on the Malacca-Portuguese Creole Language, Papiah Kristang or Bahasa Serani and make it the language that will identify the Malaysian – Eurasians.
Most Eurasians who had their beginnings in Melaka have forgotten how to speak Kristang or have simply been too embarrassed to even acknowledge it as their Mother-Tongue because of the prescribed use and prestige of both the Malay and English Languages. Most residents in the Portuguese Settlement in Melaka can and still speak an evolving ‘ Papiah Kristang’This has led to the belief among the Eurasian Community outside of Melaka and the other races, that only the residents of the Portuguese Settlement in Melaka are the descendents of the Portuguese ( Orang keturunan Portugis) and speak the ‘Portugis’ Language. The reality is that no resident speaks Standard Portuguese in the Settlement and that no one can make claim to having an ancestor or that his homeland is Portugal. The myth has to be dispelled.

Investing in the Maintenance of the Papiah Kristang Language and Culture in Malaysia among the Malaysian- Eurasians.
Alan Baxter in his book, ‘ A Grammar of Kristang’ says ‘The Malacca- Creole Language is a fascinating reflex of the rich cultural exchange which took place between speakers of Portuguese during the Portuguese period 1511-1641. Thus the Malayanisation of Portuguese in Malacca led to the creation of a new language, properly termed Malacca-Melayu Portuguese Creole. Referred to by its speakers as Kristang’
As a native-speaker of Papiah Kristang, I took up the challenge of documenting the Kristang Language since 1990. After much research and many discussions with several linguists and Eurasians on the orthography that would be simple enough for the Malaysian- Eurasians to read Kristang texts, I immediately began to register Kristang vocabulary. Then with the support of The Calouste-Gulbenkian Foundation, I wrote and published two books ‘Ungua Adanza’ in 1995 and ‘Linggu Mai’ in 2004. In 2006, I wrote a Kristang Monodrama ‘Seng Marianne’ for the Lusophonia Festival in Macau. Unfortunately Entry was late and the monodrama was not staged. This is one of my literary works that needs to be published.
In March 2007, I was fortunate to be nominated and then selected as one of Digi’s Amazing Malaysians. Digi named me the ‘ Kristang Poet of Melaka’ The award required that I initiate a project involving 60 schoolchildren and a few adult Eurasians. I produced a Musical entitled ‘Kazamintu na Praiya’ and wrote the Kristang lyrics of all the songs in the Musical, which was showcased on the 24th.November 2007 at the Portuguese Settlement in Melaka.
In early 2012, I will launch yet another of my Kristang publications, ‘The Serani Series’ It is a set of 3 works comprising ‘ Bersu Serani’, ‘Speak Serani’ and a ‘Commemorative Bahasa Serani Dictionary’
Why a ‘ Commemorative Bahasa Serani Dictionary’ ?
A Language’s Vocabulary is an organized catalogue of a given culture’s essential concepts and elements.
The Language is traditionally associated with a culture’s environment and local ecosystem, the plants and animals it uses for food, medicine and other purposes and expresses local value systems and worldviews. ( Fishman 1991 )
Languages are therefore not just a means of communication but represent the very fabric of CULTURAL EXPRESSIONS, the CARRIERS OF IDENTITY, VALUES and WORLD VIEWS.
Papiah Kristang/ Bahasa Serani hopes to be the tool that will enable Malaysian –Eurasians after 500 years to be identified as a race through their oneness in Culture and Customs. They have the edge because they speak, read and write the international language, that is English, fluently. However, points that should be considered in resuscitating Papiah Kristang is its present vitality and viability.
• Number of speakers
• Intergenerational language transmission
• Community members’ attitudes towards their own language.
• Shifts in domains of language use
• Type and quality of documentation - Translation as a tool for dialogue/ revival..................this is the method I have used so far.
• Response to new domains and media – Internet ( FACEBOOK) and Mobiles – successful
• Availability of materials for language education and literacy – not enough
Only 1. Kristang Dictionary by Scully and Alcantra ( Singapore)
2. Kristang Dictionary by Baxter and De Silva
3. Ungua Adanza
Linggu Mai
Kristang Phrasebook
Kristang Speech and Song CD
Bersu Serani
Speak Serani
Commemorative Bahasa Serani Dictionary by Joan M. Marbeck
Unpublished
Christmas Carols translated into Papiah Kristang
Kristang Monodrama ‘ Seng Marianne’
Kristang Musical ‘ Kazamintu na Praiya’
4. CD of Traditional Kristang songs – by Horace Sta Maria
- by Noel Felix
- by Joe Bosco Lazaroo
- by Martin Theseira and Don Beins

‘Languages are a critical marker of the vitality of cultural diversity, for they are , above and beyond, tools of communication – the prism through which individuals and communities apprehend and give meaning to their relationships and environment. From this perspective, any form of linguistic decline has to be taken as a sign of cultural impoverishment and the disappearance of any language as an irreplaceable loss for the common Heritage of mankind.’ ( Investing in Cultural Diversity)
UNESCO World Report 2000

Project Proposal
Taking the Preservation of the Kristang Language and Culture to another level will have its oppositions, presuppositions, positive and negative approaches and attitudes of some members of the community and others in the country and region. But, most importantly it will also jolt the Malaysian, Asian and International Communities to realising that ‘Saving an already Endangered Language after 500 years, is NOT an impossiblity’.
This is why I propose a Visible Entity - A Foundation for all Malaysian –Eurasians in the beating heart of Melaka. The Foundation should accomodate
• A Research and Development Centre
• A Library and Language Laboratory
• A Eurasian Art/ Heritage Museum
• Theatre/ Music/ Dance Studios - Asian/ European
• Cafetaria
Now we need the experts, the architects who will fortify the construction to last for another 500 years, the specialists, to co-ordinate the action-plans from ground to roof and the philanthropists.
We also need, more than ever before, the belief, cooperation and a united front of Eurasians in Malaysia to realize the importance and necessity of this proposal. This will be the level and space where every child, young adult and senior Eurasian will have the possibility to meet, enjoy the camaraderie which is typical of a true-blue Serani, speak in their revived, perhaps by then, already their ‘ Secret Language’, verify their identity and be proud of their customs, traditions and a UNIQUE HERITAGE which we definitely owe to the PORTUGUESE.
I also call on the women participating in this Congress to lend us your hands and speak of support and commitment in saving our closely related Language and Heritage.
As women we can impact our beliefs and realize our dreams because we know that we are the ‘ BASTIONS’ of our communities, the practitioners and the treasure –keepers of our Heritage.
Before I conclude , allow me to thank the following persons who have cooperated and assisted me in my quest of reviving and saving the Malacca- Portuguese Language and Culture.
The late Rev. Fr. Manuel Pintado - Melaka
Prof. Dr. Pierre F.G. Guisan- Brazil
Rev. Fr. Lancelot Rodrigues – Macau
Dr. Jorge Rangel – Macau
Fundacao Macau - Macau
Fundacao Oriente- Macau
Dr. Jose Blanco – Portugal
Dr. Joao Pedro Garcia – Portugal
Fundacao Calouste Gulbenkian - Portugal
Dra. Maria Manuela Aguiar - Portugal
Prof. Mario Pinharanda Nunes – Kuala Lumpur
Prof. Carla Belo – Kuala Lumpur
Philomena Mary Marbeck- Kennedy – Ireland
Griffin & Theresa Hendroff – Kuala Lumpur
My children, Prof. Dr. David Cheong – ILO, Geneva
Elaine –Jean Cheong Mertel – Munich
Anne Marie Cheong – Malaysia
Martin Cheong – London, UK
And my dear friends, Sandra Shunmugam, Martin Theseira, Melba Nunis and family, Justin Ee, Cheryl Teh, Vernon Emuang, YB. Teh Kok Kiew
To all , my heartfelt appreciation.
Mutu Grandi Merseh.
Paper presented by

domingo, 1 de janeiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE MARIA LÚCIA DA SILVA BANDEIRA

A emigração no singular: a inaudita guerra de Laura

Antes de mais, gostaria de saudar a mesa e todos os presentes, e agradecer a oportunidade concedida para participar neste Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora. Felicito e encorajo a organização do evento. Formulo um agradecimento especial à Dra. Manuela Aguiar e à Professora Donzília Moreira.
A minha prestação neste encontro incidirá sobre a vivência de uma mulher e da sua família, salientando factos relacionados com a preocupação da formação dos filhos em contexto de emigração. Poderíamos ter focado outros aspectos das suas vidas, como por exemplo, as condições de trabalho, de habitação, de adaptação. Por que razão, então, salientar memórias da educação? Talvez por ser o aspeto mais presente, mais visível, mais circular.
Aceitar a memória como fonte produtora de testemunhos é aceitar tacitamente que uma linha muito ténue possa separar a sublimação do facto histórico. O tempo poderá ter estilizado algumas facetas dos factos sem, contudo, os destituir da sua veracidade, sem diminuir o alcance da sua profundidade.
Cultivar memórias, transmiti-las, partilhá-las é participar ativamente na construção da História e na (re)construção de histórias de vidas; é um dever cívico e moral.
O Salmo 78 intitula-se “Sem memória não há fidelidade”. Nele podemos ler e reter a importância do testemunho para as gerações vindouras:
«O que nós ouvimos e aprendemos,
O que nos contaram os nossos pais,
Não o esconderemos aos seus filhos,
Nós o contaremos à geração futura (…) »

No dia 3 de Junho de 1973, a grande lição de vida era dada aos filhos quando Laura embarcou no comboio, rumo a França. Saíram da estação de Espinho. Laura dera a cada filho um lenço branco para dizer adeus quando passassem perto da terra natal. Ficaram todos em filinha para acenar com o lenço à família, amigos e vizinhos que ficaram. Deve ter sido uma prova bem difícil para Laura; uma dor que os filhos ainda não podiam calcular, ainda não tinham olhos de alma para ver.
A passagem da fronteira foi aterrorizadora. Laura tinha ensaiado os filhos para o desfile decadente, mas redentor, da fronteira. Todos em fila, como se não se conhecessem, a passar à frente da polícia que se detinha, arma em punho, a vigiar e fiscalizar as milhares de pessoas que ali se aglutinavam, com olhares desconfiados, com fome de liberdade, de paz e de esperança… Não havia razão para que não corresse bem. Tinham os documentos exigidos pela Junta de emigração. As fotografias dos filhos de Laura estavam lindas no passaporte. Para o efeito, Laura tinha comprado roupa nova para ficarem bem apresentados. Aquele carimbo, com data de 3 de Junho de 1973, marcou o fim de uma vida e o início de outra. O único filho que tinha acabara de escapar ao fantasma da guerra do ultramar; não voltaria atrás para não fazer correr o risco de ser chamado. A guerra parecia não ter fim!
Laura leu, banhada em lágrimas, a primeira carta dos pais que falava de saudade. Seu pai passava o tempo sentado na soleira da porta de Laura. Sentia a falta dos netos. Sentia-se só.
A segunda carta vinda de Portugal trazia a triste notícia do falecimento do pai. Diz-se que morrera de saudade, na soleira da porta de Laura, com as chaves da casa na mão. Era véspera de São João. Desde então, nunca mais se festejou São João.
Em relação aos filhos, a primeira preocupação de Laura e do marido foi a de procurar uma professora de Português para que os filhos pudessem continuar a estudar português. A Professora Alice Albuquerque apareceu meses depois de José ter entregue uma abaixo-assinado no Consulado com uma lista de interessados em aprender a Língua.
Assim, a par do estudo na escola francesa, os filhos frequentavam a escola portuguesa e realizaram os exames ad-hoc da 4ª classe, do 9º e 11º anos. Quão importante foi esta formação em Língua Portuguesa!
A filha do meio, com apenas dez anos, tornara-se a escritora de cartas dos portugueses que ali viviam e que não sabiam ler nem escrever. Laura sentia-se orgulhosa da filha que, às quartas-feiras, lia notícias de famílias de São João da Madeira, de Vinhais, da Guarda, da Póvoa do Lanhoso e outras. As saudades iam e vinham, por carta. A menina quase decorara os textos ditados que se repetiam, inexoravelmente. Por vezes, tinha pena que as senhoras não soubessem ler nem escrever.
Da instrução que recebera, Laura era capaz de motivar os filhos para o real valor do conhecimento e do respeito que o estudo impõe.
Os filhos depressa aprenderam a falar francês; a santa inocência das crianças levara-as à rua brincar com outros jovens e com eles, foram aprendendo a falar a nova língua.
Laura nunca andara na rua; não aprendeu a falar francês.
Na aldeia donde partiram, não havia bibliotecas; a escola não emprestava livros. Mas ali, naquela aldeia de montanha, havia biblioteca, a escola tinha livros para emprestar. Os filhos de Laura liam, liam. Durante as férias de Verão, a menina que escrevia as cartas, procurava, na lixeira, livros que alguns deitavam fora. Os arrumos de uns, permitia o crescimento de outros! As noites de fim-de-semana eram passadas a ler revistas e outros livros, e as quatro filhas trocavam impressões sobre as leituras, sem saberem que estruturavam ali a sua formação. Por vezes, Laura tinha que desligar o contador da luz porque “as pequenas” liam toda a noite. Apercebera-se, um dia, que as meninas tinham contornado a questão com pilhas elétricas que escondiam debaixo da roupa da cama.
Certo dia, Laura recebeu em casa uma senhora que viera fazer perguntas para um estudo. Laura receava falar com estranhos, desconfiava sempre dos estranhos. Corria a década de 70. Viera-se a descobrir, em 2010, que a senhora das perguntas era a Doutora Maria Beatriz Rocha-Trindade, que recolhia dados para a sua investigação. Laura respondera ao inquérito.
Pacientemente, Laura via crescer o interesse dos filhos pelo estudo. Na escola, a filha tornara-se uma das melhores alunas, mas a mãe não o sabia; nunca ia falar com os professores; os filhos tinham que se orientar sozinhos. No entanto, nunca faltaram os livros e, quando o marido comprou para a escritora de cartas um dicionário – que livro grande! -, foi uma festa!
Contrariamente a outros imigrantes que ali viviam, Laura não obrigara os filhos a irem trabalhar cedo para ganharem dinheiro para a casa.
«Estudem até onde quiserem; mas se reprovarem, acabam-se os estudos!»
A escritora de cartas foi crescendo com o entusiasmo e a ansiedade do saber.
Laura ia várias vezes a Portugal visitar a mãe que estava muito doente. Relatava muitas aventuras presenciadas e vividas no comboio durante essas longas viagens.
Um dia, trouxera para a filha escritora de cartas, uma História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva. Foi o delírio! Da história da Língua portuguesa a Gil Vicente, Camões, Garrett, Eça de Queirós… tudo foi lido.
Laura nunca soubera as horas de prazer que a filha tinha com aqueles livros! Também não soubera que o estudo da Língua Portuguesa permitira à filha dar respostas brilhantes nas aulas de Francês.
A escritora de cartas foi alimentando a saudade; escrevia poemas que lia na rádio Altitude, rádio pirata para onde levavam os discos portugueses escondidos, num estúdio escondido. Carlos Albuquerque foi o impulsionador deste acontecimento. A direção da rádio, já legal, dera umas horas de Antena aos portugueses, ao domingo de manhã. Ali se construíra um templo à saudade; os imigrantes telefonavam a pedir e a dar informações de Portugal, participavam no espaço dos “Discos pedidos” onde o conjunto Maria Albertina, todas as semanas, cantava “Longe da terra distante, longe do seu Portugal”
Enquanto os acontecimentos se sucediam, a filha ia acariciando o sonho de estudar em Portugal. Os livros e jornais portugueses eram de difícil acesso. O marido de Laura dera um dia a informação de que a Michelin, onde trabalhava, tinha uma biblioteca com livros em português e noutras línguas para os imigrantes da fábrica. A escritora de cartas frequentou esse espaço onde, pela primeira vez, se deparou com uma biblioteca multilingue. Aqueles patrões deviam ser amigos dos seus empregados para pôr à sua disposição livros na língua de origem! Laura nunca tinha visto uma biblioteca; sabia porém que a filha passava horas a folhear livros, a percorrer estantes.
Os anos iam passando e, já com algum conhecimento das duas línguas, a filha fora convidada para fazer traduções de Certidões de casamento, de nascimento e de óbito, num gabinete de apoio ao imigrante.
A jovem ia trazendo para casa histórias de portugueses que não sabiam ler nem escrever, mas que precisavam daqueles documentos; e que queriam agradecer as traduções, pagando o que não lhes era pedido. Ali, o analfabetismo e a ignorância andavam de mãos dadas com a resignação e a humilhação.
Laura compreendia que a filha ficasse sensibilizada pela situação; ensinava a nunca ficar contrariada por ajudar os outros.
«Feliz de quem sabe, para si e para os outros.», dizia a mãe à filha.
A filha entendia a lição, mas continuava, como sempre, a achar triste o mundo do analfabetismo e da humilhação. Se estivesse ao seu alcance, ensinaria a ler e a escrever a todas estas pessoas!
Em 1983, a escritora de cartas, agora a frequentar o 12º ano, foi convidada a colaborar na realização de um documentário sobre os portugueses e o sentimento do exílio, para o canal televisivo TF1. O realizador François Ribadeau vinha de Paris, de quando em vez, recolher informações que a jovem ia selecionando. Laura proibira a filha de estar com o senhor; não sonhava porém que a jovem organizara todo o programa às escondidas dos pais, que desconfiavam sempre de estranhos. O programa foi um sucesso.
Na hora de fazer opções para o seu percurso de estudos superiores, a filha decidira estudar em Portugal e ser professora de Português e de Francês, de modo a, em consciência, ajudar a combater a tristeza do não-saber.
Laura continua a ter orgulho no percurso de estudos da filha.
Hoje, neste tempo tão estranho, Laura, após o regresso definitivo à sua terra natal, ouve as notícias e diz à filha que para o ano já não se ensinará línguas nas escolas, que o Francês vai acabar; que o ensino de Português em França está a acabar e que a situação é preocupante. A filha, tristemente, concorda; triste lhe parece esta circularidade dos factos; esta sombra da ignorância imposta, acompanhada de humilhação.
Laura e o marido receiam que a filha ouça o apelo da partida para fora; receiam que a filha, em cumprimento do ensinar e do saber, parta. Já há muito que não ouviam dizer que «Este parte, aquele parte, e todos, todos se vão». A História parece repetir-se na vida de Laura.
A História é feita de vidas; a epopeia de Laura faz parte da História.

Maia, 25 de novembro de 2011



A emigração no singular: a inaudita história de Laura; por Maria Lúcia da Silva Bandeira
RESUMO
3 de Junho de 1973. Laura, como tantos outros portugueses e portuguesas, passou a fronteira, rumo a França. Levou os seus cinco filhos para os quais ela e o marido haviam planeado um futuro diferente daquele que Portugal lhes oferecia. A família integrou-se no seio da nova comunidade. Os filhos foram sempre motivados para o estudo; o pai trabalhava de noite e de dia, e Laura organizava a economia familiar. A convivência com a restante comunidade era reduzida; Laura nunca aprendera a falar francês, mas o percurso dos filhos na escola dava-lhe alento. A informação da revolução dos cravos chegara pela televisão a preto e branco. O casal suspirou de alívio: a guerra colonial acabaria; os filhos de Portugal voltariam para suas mães. O deles tinha escapado e teria sido essa a razão da partida do casal com os filhos: evitar que o filho fosse para a guerra.
Esta família, como tantas outras, constou de números para fins estatísticos sobre emigração. No entanto, cada português da diáspora apresenta vivências que os inquéritos e estudos não revelam; dramas e alegrias que a história ainda não registou porque as vozes não foram ainda ouvidas. Os filhos dos que ousaram partir têm agora consciência da proeza que foi a partida. De facto, eles foram tão longe e puderam dar aos filhos a visão de outro mundo; talvez a visão da fronteira entre a ignorância e o saber; entre a coragem e a inércia. Foi necessário partir para estar mais perto.
Laura é um caso entre casos.
Palavras-chave: partida, adaptação, comunidade, saber, estudo, educação, liberdade, regresso.