quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
COMEMORAÇÕES DO DIA DA COMUNIDADE LUSO-BRASILEIRA. Entrevista de Maria Manuela Aguiar ao jornal "A TERRA MINHOTA a
1 - A ASSOCIAÇÃO MULHERES MIGRANTES VEM PROPOR A COMEMORAÇÃO DO DIA DA COMUNIDADE LUSO BRASILEIRA EM MONÇÃO. PORQUÊ?
Monção é uma escolha perfeita, porque foi de terras do Minho que partiu a maioria dos emigrantes e dos colonizadores do Brasil. Foi a elas que regressaram os chamados "brasileiros de torna viagem", os portugueses mais ou menos enriquecidos, que se converteram em grandes mecenas e em contadores de relatos fascinantes de um Mundo Novo, o que levava a que cada vez mais conterrâneos os imitassem, atravessando o mar, em busca de fortuna. Nem todos a alcançaram, mas quase todos, de algum modo, trouxeram bem-estar às suas famílias, progresso às suas regiões e ao país, ao mesmo tempo que criavam um outro país, imenso. Muito deve o Brasil a um número incontável de monçanenses e, através deles, muito deve Monção ao Brasil. É disso que vamos falar no Colóquio, na data simbólica da sua descoberta pela expedição de Pedro Álvares Cabral. Desde 1967, por uma iniciativa legislativa do senador brasileiro Vasconcelos Torres, o 22 de abril está oficializada como "Dia da Comunidade Luso Brasileira". Nos termos da lei, cabe aos Governos organizar as comemorações, mas, na prática, tem sido a "sociedade civil" a fazê-lo, de norte a sul do Brasil - sociedade civil ou, mais precisamente, o poderoso movimento associativo da emigração portuguesa, muitas vezes em parceria com municípios, como o de São Paulo e de Santos ou com as autoridades de cada Estado. Este ano, por exemplo, o Governador do Rio Grande do Sul instituiu não só um dia mas uma semana de festejos, em honra da "Comunidade". Em Portugal, a data tem andado quase completamente esquecida. Julgo que Monção será, em 2018, a nossa única Câmara Municipal a celebrar condignamente, a efeméride. Acho importante destacar este facto e tudo faremos, a Drª Arcelina Santiago, ilustre e ativa monçanense, e eu para que tenha o merecido eco junto na nossa Diáspora.
2 - É CURIOSO QUE ESTE PROJETO SEJA PRIORITÁRIO PARA UMA ASSOCIAÇÃO DE MULHERES....
Para nós, faz sentido um grande empenhamento no projeto, porque somos uma associação, formada por mulheres e homens que se preocupam, essencialmente, com questões de emigração, de cidadania e de igualdade - igualdade de género, não discriminação de minorias étnicas e de estrangeiros - , nos vários aspetos em que as consideramos, tais como a defesa do interculturalismo e da aproximação dos povos através dos mais fortes laços que unem os Estados, e que são os laços humanos, aprofundados pela partilha de vidas e experiências, pela convivência e amizade. Vemos como exemplo admirável desta união pela convivialidade a história do Brasil, uma história que nasce das migrações portuguesas, e com elas se continua, antes e sobretudo depois da independência do país. Ao longo de séculos, para lá que se dirigiu um êxodo sem fim de portugueses, e, crescentemente, desde fins do de oitocentos, de mulheres portuguesas. Com elas e com eles, se construiu a nação onde mais se expandiu a lusofonia, num espaço cem vezes maior do que o nosso território! É uma aventura fantástica do nosso passado, que devia ser aprendida, aprofundadamente, no programa das escolas, na disciplina da história de Portugal. Neste colóquio chamaremos a atenção para isso e para o futuro que poderemos dar a essa aventura, bem viva na comunidade luso-brasileira, na língua comum, nas afinidades culturais, no genuíno afeto dos dois povos. Um afeto que se revela tanto mais quanto melhor se conhecem!.
No colóquio de 20 de abril, convidamos à reflexão sobre as formas de potenciar o conhecimento mútuo, num tempo em que há, felizmente, recomeço de partidas para o Brasil, a par do fenómeno inédito de uma imigração significativa de brasileiros entre nós. O título do colóquio expressa exatamente a vontade que nos anima de explorar e de divulgar as variadas facetas do mundo luso-brasileiro, através da partilha de saberes e de memórias, dos resultados de investigações científicas, de pesquisas jornalísticas, de vivências pessoais, de recordações familiares. Penso, por exemplo, em cartas, objetos, fotografias, relatos orais... É uma tarefa inadiável e infindável! Todas as terras deveriam seguir o exemplo de Monção, e iniciar a recolha sistemática de material documental e iconográfico relativo à sua Diáspora. Em alguns casos, esse esforço pode constituir um primeiro passo para a organização de um museu da emigração local e, em qualquer caso, será uma valiosa contribuição para o museu de âmbito nacional, de que tanto se tem falado e que há-de arrancar um dia...
Muito me regozijo por constatar a recetividade com que a ideia está a ser trabalhada, aqui, pela Autarquia, pelas instituições, pelo jornal Terra Minhota, e também pelo Governo, pelo Secretário de Estado Mestre José Luís Carneiro, com cuja presença contamos nesse dia.
É um esplêndido projeto de recuperação e salvaguarda de memórias, assim aberto a todos, a académicos, a políticos e diplomatas, a técnicos de emigração, a professores e alunos, a antigos emigrantes, a quaisquer cidadãos interessados numa jornada que será uma espécie de nova "viagem de descoberta" do Brasil.
3 - A PENSAR MAIS NA DESCOBERTA DE CABRAL OU NA ATUALIDADE?
Sim, como disse, a escolha da data tem o seu valor simbólico, contudo o colóquio quer ir além da evocação dos feitos e acontecimentos de há quinhentos anos. Procura resultados práticos no relacionamento não só entre os Estados, mas entre gente concreta, procura mobilizar para a ação.. Acreditamos na possibilidade de dinamizar a fraternidade na comunidade transnacional de que somos parte, de despertar o sentimento de pertença, também deste lado do Atlântico. O ambiciosos objetivo é menos difícil se começarmos pelas terras de "tradição brasileira", como são as do Minho!. Para isso, contará muito o diálogo entre as gerações, a procura das raízes pelos mais novos. Não são só os brasileiros que precisam de saber mais sobre o seu passado português. Nós, de igual modo, temos de ir desvendando o nosso passado brasileiro - os nossos antepassados, os parentes que por lá andaram ou por lá ficaram, alguns dos quais já só vivem na recordação dos mais velhos e são um precioso legado para os gerações atuais ou vindouras. O projeto "ateilers de memória", que o "Terra Minhota" tão bem noticiou, é um dos meios de aprofundar a tomada de consciência da existência desta Comunidade, que, enquanto realidade sociológica se deve a um vai-vem migratório multissecular, embora seja recente (de meados do século XX), enquanto estrutura jurídica, que veio instituir a "cidadania luso-brasileira". O estatuto de cidadania luso-brasileira não foi uma proposta do governo português, foi uma reivindicação natural dos nossos emigrantes (nessa época, mais de um milhão!), aceite, espontaneamente, sem controvérsias, pelos políticos brasileiros.
Na sua primeira formulação, no "Tratado de Amizade e Consulta" de 1953, assinado no Rio de Janeiro, o estatuto incluía uma ampla liberdade de circulação, de residência, de estabelecimento para os nacionais de um país no outro e a concessão dos direitos da nacionalidade, que não fossem incompatíveis com as respetivas Constituições. Em 1969, uma emenda à Constituição brasileira veio reconhecer explicitamente aos portugueses direitos civis e políticos a nível local, estadual e federal, incluindo o sufrágio nas eleições legislativas. Portugal soube, então, dar a reciprocidade de tratamento aos brasileiros e, em 1971, foi celebrado por ambas as partes a "Convenção de Igualdade de Direitos e Deveres entre Portugueses e Brasileiros", consagrando, nomeadamente, o acesso à magistratura judicial e o direito de voto num órgão de soberania, o parlamento. Se compararmos este estatuto de direitos com o da "cidadania europeia" constatamos que já na década de 70 conseguimos ir muito mais longe do que ainda agora vai a União Europeia (onde a participação política continua limitada ao nível autárquico...).
Em 1988, o Brasil tomou de novo a dianteira e, na revisão constitucional desse ano, alargou o estatuto de direitos políticos, equiparando plenamente os portugueses aos brasileiros naturalizados, sob condição de reciprocidade - isto é, com direito de voto em todas as eleições, a possibilidade de serem deputados, membros do governo federal ou juízes dos tribunais superiores. Portugal levou treze longos anos e três processos de revisão constitucional, até dar reciprocidade de direitos políticos aos brasileiros, o que só veio a acontecer. em outubro de 2001.
Não há, no nosso tempo, no mundo inteiro, comunidade que consagre estatuto semelhante - o que é muito revelador da fraternidade real, que sobra entre brasileiros e portugueses e falta, ao menos em grau e intensidade, entre europeus, na União Europeia.
4 - A EMIGRAÇÃO FEMININA VAI ESTAR EM FOCO?
Obviamente, sim!. Temos a preocupação constante de a retirar do esquecimento em que ficavam, desde sempre e até à atualidade, as mulheres migrantes, mas na perspetiva de um movimento global das migrações, reunindo mulheres e homens que se preocupam com os problemas da persistente desigualdade entre os sexos neste domínio, onde as discriminações assumem, com frequência, caraterísticas especiais, tanto na integração na sociedade estrangeira, como no meio português. Este tende a ser muito conservador, pondo, em regra, mais obstáculos à plena participação das mulheres do que a sociedade de acolhimento, onde as mulheres se integram mais depressa e melhor, levando com elas a família inteira para novos patamares de prosperidade. Foi uma Mulher do norte, a Professora Engrácia Leandro, da Universidade do Minho, a primeira a mostrar, numa brilhante tese de doutoramento, esta surpreendente realidade. O seu estudo centrou-se apenas na região de Paris. mas a situação no resto da França é semelhante, e até também o é em outros países, onde as emigrantes acederam à autonomia económica pelo trabalho remunerado e pela aprendizagem da língua e dos costumes, normalmente mais depressa do que os maridos, pelo facto de trabalharem no setor dos serviços, em contacto diário com os naturais desses países.
No Brasil não se põe o problema da língua e há especificidades, também, na forma de inserção. Na emigração tradicional, que ascendeu às classes média ou média/ alta, as mulheres são, em regra, "donas de casa" e praticamente invisíveis na direção das grandes associações portuguesas. Tudo como dantes!.. . Não assim entre as mais jovens. que se afirmam nas mais prestigiadas profissões e carreiras, e participam em atividades cívicas ou políticas..Não sendo embora tema central do colóquio, falaremos de portuguesas que foram, no Brasil, exceções à regra, no século passado, caso da grande escritora feminista Maria Archer e de Ruth Escobar, uma portuguesa do Porto que, para além de ter sido uma grande atriz e empresário de teatro vanguardista, foi a primeira mulher eleita na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo - e ao abrigo da Convenção da Igualdade, pois nunca se naturalizou brasileira.
5 - DIZ-SE QUE, EM QUALQUER EVENTO, O SUCESSO SE MEDE NO DIA SEGUINTE... O QUE ESPERA DESTE COLÓQUIO, COMO RESULTADO CONCRETO?
Espero, sobretudo, que os participantes do colóquio vivam no futuro este espírito de descoberta contínua do Outro, sendo o Outro, neste caso, a grande potência cultural, linguística e económica, que é o Brasil. Espero que todos se sintam mais orgulhosos de Portugal e mais brasileiros, como eu me sinto desde uma primeira visita ao Rio de Janeiro, para as comemorações do 22 de abril de 1980. Em síntese, a mensagem é esta: somos todos luso.brasileiros!.
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
V CONGRESSO DA RUTIS
(As "universidades seniores")
1 - Realizou-se, há poucos dias, no Porto, um Congresso Científico e um Encontro Mundial de Universidades Seniores, promovidos pela RUTIS - a rede que procura abarcar boa parte das chamadas "universidades seniores", que um movimento de cidadãos vem criando, em Portugal, desde as últimas décadas do século XX.
A convite da Universidade Senior de Espinho (USE), tive a sorte de poder participar nestas importantes reuniões internacionais, juntamente com a sua Presidente Drª Glória Rocha e o Sr Van Zeller.
Sou admiradora declarada do paradigma institucional a que, nas últimas décadas, deram e dão vida muitas centenas de iniciativas locais, inspiradas umas nas outras, de norte a sul do continente e nas ilhas atlânticas - entre as quais se distingue a que tenho acompanhado mais de perto, a USE. Esta era, pois, uma oportunidade única para alargar os horizontes do conhecimento sobre tal domínio - o vibrante mundo novo dos mais velhos, unidos e reunidos para voltarem "ao ativo"- olhando-o numa perspetiva comparatista.
Participaram nos trabalhos investigadores, políticos, deputados, autarcas, dirigentes associativos de vários países e continentes, sobretudo da Europa, ocidental e de leste, das Américas, e também da África, com uma presença muito significativa do Brasil e da Galiza, que nos são tão próximos cultural e afetivamente.
A maior parte dos académicos levaram, todavia, o debate para outras configurações deste fenómeno - não as que são comuns num sem número das nossas cidades, vilas e aldeias, mas as que se centram nas próprias universidades públicas ou privadas, em cursos de frequência universitária intergeracional, ou de extensão à comunidade, com ou sem a possibilidade de passar exames (sempre facultativos), e de atribuir, ou não, diplomas oficiais. É uma vertente que se acrescenta e completa a mais corrente entre nós, a de um puro associativismo de base etária, popular e cidadã, e vem privilegiar a perspetiva de "intergeracionalidade" que é aquela em que se colocam as chamadas "age friendly universities" (na tradução portuguesa: "universidades amigas de todas as idades"). Algumas atuam já em redes internacionais, como no caso que nos foi apresentado da Universidade de Leeds. Do Brasil nos chegaram, igualmente, nas jornadas do Porto, bons exemplos de universidades abertas aos mais idosos - de Campinas a Goiás - assim como de Espanha, das Universidades de Vigo, Corunha e Salamanca e do Campo Educativo de S. Alberto (Nóia - Galiza). Da Eslováquia, destacou-se a presença da Universidade Técnica de Zvolen. E de Portugal tivemos mostra convincente de uma adesão crescente a esta corrente, com programas inovadores, como os da Universidade do Porto, em especial da Faculdade de Desporto, ou os do Instituto Politécnico de Leiria. E quantos mais não haverá? Foi o que perguntei a uma das investigadoras presentes. Ao que parece o levantamento está ainda largamente por fazer. Um tema excelente para teses de mestrado, sugeri, e a minha interlocutora concordou.
2 - Uma outra questão quis colocar ali, entre tantos e tão excelentes especialistas: a da pertinência da disseminação das academias séniores no contexto da emigração, como instrumento de convívio, de combate à solidão, de integração em sociedades estrangeiras - um objetivo extra a alcançar, para além das demais finalidades a que, nos seus vários moldes, se votam com enorme sucesso. Aí a resposta que obtive (de Nuno Frazão) foi: "Essa é a pergunta que vale um milhão de dólares" . Também acho, dado que não se trata de tarefa fácil... Sei-o por experiência própria, desde que, em 2008, num encontro com mulheres portuguesa em Joanesburgo, a Professora Graça Guedes lançou a ideia da formação de universidades seniores locais, dando o exemplo da USE. A partir de então, a" Associação Mulher Migrante", a que a Professora e eu pertencemos, transformou a ideia em projeto prioritário, procurando impulsiona-lo no vasto círculo da nossa Diáspora.
Na África do Sul, a Liga da Mulher Portuguesa veio a constituir, algumas das primeiras universidades deste tipo em comunidades de emigração (não digo as primeiras, porque suponho que já então existia a da Paróquia de Santa Cruz, em Montreal, com centenas de alunos e numerosas disciplinas). Seguiu-se a Argentina, por obra da Presidente da Associação Mulher Migrante nesse país, Maria Violante Martins e está em fase de estudo uma outra em Toronto. É ainda pouco para a continuada divulgação que temos feito junto de outras comunidades da emigração. A meu ver, o maior dos obstáculos à sua expansão é o desconhecimento das virtualidades do modelo. Os líderes das comunidades parecem não acreditar na capacidade de empenhamento, de assiduidade dos idosos na vivência desta fórmula de associativismo sócio-cultural. O generalizado êxito das academias ou tertúlias seniores no nosso país demonstra (exuberantemente!) o contrário - mas lá longe isso não é evidente. Se pudéssemos convidar alguns desses líderes a vir a Espinho para acompanhar uma semana de trabalho da USE, aqui mesmo fariam a sua "estrada de Damasco"... O mais complicado é mesmo dar o primeiro passo, implantar as primeiras Universidades, depois o seu exemplo promoverá rapidamente um movimento, que tão eficazmente responde a necessidades e anseios de sociedades com uma forte componente de populações envelhecidas, que, todavia, querem envelhecer com mais força anímica e coragem de combater a visão distorcida das suas reais capacidades.
3 - É extraordinário o surgimento, em Portugal, deste associativismo destinado a idosos, e, note-se, em larga medida, fundado e dirigido pelo grupo etário dos "mais de 50", com uma participação maioritária de mulheres. A sua expansão por todo o território, a sua expressão quantitativa e qualitativa coloca-nos na vanguarda, a nível europeu e universal- constatação tanto mais relevante quanto, a nível de políticas públicas, estamos ainda numa retaguarda, entre aqueles Estados que parecem considerar a terceira idade como um pesado fardo e limitam as suas preocupações para com ela à sustentabilidade do sistema pensões ou aos cuidados de saúde, chegando ao extremo de a discriminar no plano económico, cívico e cultural. Veio tarde - mas mais vale tarde do que nunca - por Resolução do Conselho de Ministros de 29 de novembro de 2016, o reconhecimento governamental do papel das universidades seniores, pela forma como têm colmatado a inércia do Estado na defesa dos direitos dos mais velhos à igualdade de oportunidades, à valorização cultural e à participação cívica e política. A Resolução reconhece a RUTIS, justamente, como entidade parceira no desenvolvimento de "políticas de envelhecimento ativo e da economia social".
De facto, a RUTIS enquadra uma boa partes das muitas centenas de instituições deste género existentes atualmente. Ao discursar na sessão da abertura do Congresso do Porto, o seu presidente Dr Luís Jacob traçou um quadro com números deveras impressionantes: 302 afiliados, mais de 46.000 alunos e 5.600 professores, com idades e formação variáveis. Cerca de 75% dos frequentadores das "universidades" são mulheres. A média de idades é de 67 anos, a média de habilitações o 9.º ano de escolaridade, a média de propinas pagas de 10 euros. Entre os docentes, as mulheres são 66%, os doutorados 27% e os licenciados ou bacharéis 58%. Quase todos exercem as funções "pro bono", mas, se fossem remunerados, receberiam, anualmente, na estimativa do Presidente da RUTIS, mais de quatro milhões de euros.
Contudo, a meu ver, a maior riqueza criada, quer nas chamadas "universidades" deste grande movimento social, quer nas Universidades oficiais abertas à inclusão da "terceira idade" é a imposição de uma nova imagem, mais real e positiva da qualidade humana de toda uma geração, de rosto rejuvenescido no processo de relativização do envelhecimento.
Imagem que, no mundo académico, vem sendo validada cientificamente em múltiplos domínios, nomeadamente o do empreendedorismo e da "economia grisalha" ("silver economy"), e, no mundo associativo, é credibilizada pela "mais valia" de uma dinâmica intervenção cultural nas comunidades locais. É o caso da USE, na cidade de Espinho.
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
CONGRESSO MUNDIAL DE MULHERES DA DIÁSPORA
Em 2018/2019
O projeto visa reunir num encontro em Portugal mulheres da nossa Diáspora, de vários países e de diferentes áreas académicas e profissionais, individualidades que se impuseram nas Letras e nas ciências, na política, no mundo empresarial, no movimento associativo, no voluntariado, a fim de procederem, em conjunto, a um balanço, quer dos progressos alcançados no campo da igualdade de género e da vivência da cidadania, quer do que falta fazer. Ou seja, do contributo que se sentem capazes, pelo seu próprio exemplo, para o dar visibilidade à comunidade em que se inserem, e para, pela via da comparação de diversos percursos e experiências, pensarem estratégias para a mudança no "status quo", procurando o nivelamento por cima. Espera-se que, da reflexão e debate sobre a história do presente, nasça o impulso de união para dinamizarem a história do futuro. Será, assim, objetivo fundamental o conhecimento de situações concretas, avaliadas pelas próprias mulheres. e, a partir desse conhecimento, o traçar de caminhos para a consecução de mais igualdade, de melhor sociedade e democracia.
Outras finalidades podem vir a enriquecer a iniciativa - por exemplo, a defesa da lusofonia, da língua e da cultura, vertente em que as mulheres se têm distinguido...
A ideia partiu do Secretário de Estado José Luís Carneiro, que aponta para um modo de execução que já deu boas provas no passado - uma parceria com ONG's (lembramos os "Encontros para a Cidadania", presididos pela Drª Maria Barroso, entre 2005 e 2009, uma colaboração entre a Secretaria de Estado das Comunidades, a Associação Mulher Migrante, a Fundação Por Dignitate e outras organizações da sociedade civil).
A "Mulher Migrante - Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade" foi a primeira a aderir ao projeto, que foi apresentado pelo Secretário de Estado José Luís Carneiro e por uma das fundadoras e dirigentes da AMM, Maria Manuela Aguiar, em Viana do Castelo, a 16 de dezembro, durante o II Encontro Mundial de Empresários da Diáspora.
Foi o lugar ideal para fazer o anúncio! Primeiramente, porque Viana é a cidade onde se realizou em junho de 1985 o 1º Encontro Mundial de
A ideia partiu do Secretário de Estado José Luís Carneiro, que aponta para um modo de execução que já deu boas provas no passado - uma parceria com ONG's (lembramos os "Encontros para a Cidadania", presididos pela Drª Maria Barroso, entre 2005 e 2009, uma colaboração entre a Secretaria de Estado das Comunidades, a Associação Mulher Migrante, a Fundação Por Dignitate e outras organizações da sociedade civil).
A "Mulher Migrante - Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade" foi a primeira a aderir ao projeto, que foi apresentado pelo Secretário de Estado José Luís Carneiro e por uma das fundadoras e dirigentes da AMM, Maria Manuela Aguiar, em Viana do Castelo, a 16 de dezembro, durante o II Encontro Mundial de Empresários da Diáspora.
Foi o lugar ideal para fazer o anúncio! Primeiramente, porque Viana é a cidade onde se realizou em junho de 1985 o 1º Encontro Mundial de
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
MESTRE BALBINA MENDES
A 13 de dezembro, no Museu Teixeira Lopes, a Amiga Balbina Mendes, que tantas vezes tem participado nas iniciativas da AEMM, defendeu brilhantemente a sua tese de mestrado e foi aprovada com 18 valores
MUITO IMPORTANTE. ENSINO DA EMIGRAÇÃO NAS ESCOLAS
Resolução da Assembleia da República n.º 267/2017
Recomenda ao Governo a valorização do ensino da história
da emigração portuguesa
A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do
artigo 166.º da Constituição, recomendar ao Governo que:
1 — Reforce a presença nos currículos escolares da
história da emigração portuguesa, de forma integrada e
nas suas várias dimensões.
2 — Apoie o desenvolvimento da investigação sobre a
emigração portuguesa nas instituições de ensino superior
portuguesas e estrangeiras, em particular em países com
presença relevante de comunidades portuguesas.
Aprovada em 27 de outubro de 2017.
O Presidente da Assembleia da República Ferro Rodrigues
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
AS ACADEMIAS DE BACALHAU E A QUESTÃO DE GÉNERO - ASSOCIATIVISMO FEMININO, MASCULINO E GLOBAL
Em 1980, por gratificante "dever de ofício", como membro do Governo responsável pela emigração, iniciei um infindável roteiro de viagens ao mundo da nossa Diáspora, que até aí desconhecia na sua verdadeira dimensão, como era comum e ainda hoje é, entre os portugueses que de deixaram ficar no território das fronteiras geográficas.
Cheguei à África do Sul, em setembro desse ano, já com a experiência de contactos com coletividades portuguesas de três continentes, e, assim, facilmente, pude constatar, viver e sentir a absoluta originalidade das Academias de Bacalhau, enquanto modelo de reunir os portugueses para fazerem coisas grandes na campo dos valores do humanismo, da lusofonia, da entreajuda, em ambiente de tertúlia, a partir da festa, de ditames e rituais, que se diria (e bem...) inspirados nas tradições académicas, numa fraternidade de jovens de espírito, se não de idade... Nos momentos divertidos em que levantava, baixava e bebia um copo de vinho no meu primeiro " gavião de penacho", pensava: "que ideia tão bem achada e tão bem conseguida!". Estava em Joanesburgo, na Academia-mãe, num almoço certamente mais formal do que habituais, mas onde (não obstante esse "senão"...), o espírito da festa se mantinha intacto. Entre tiradas de humor, graça "académica", boa disposição geral, ao lado do mítico fundador Durval Marques, aprendi que nas Academias, já então pujantes em outras cidades do África austral, ninguém se ficava no "convívio pelo convívio". Eram todos militantes da intervenção solidária na sociedade! Aprendi que a ação se desenrolava, sempre, em dois tempos sucessivos:
Primeiro, o dos almoços de amigos, puramente lúdicos, com as suas regras estritas de convivialidade, as proibições (como falar de religião, de política...), cuja infração frequente, garantia multas pesadas:
Segundo, o da gestão das generosas "multas". Com essas verbas lançaram,por exemplo, a primeira pedra do lar de terceira idade de Joanesburgo, que talvez seja o melhor de todos os que existem na Diáspora, prestaram assistência aos refugiados de Moçambique e Angola, em 1974 e 1975, e prosseguem, hoje nos quatro cantos da terra, projetos adequados ao perfil de cada comunidade, ás suas aspirações culturais ou ao apoio a desfavorecidos.
Aquele primeiro "almoço de descoberta" converteu-me em incondicional admiradora de tão eficaz paradigma de, "ridendo", fazer o bem ! Ainda por cima, vi.me aceite como membro da "Academia-mãe", com um sentimento de genuína adesão aos seus princípios e práticas, fundados na amizade, na alegria de conviver e na vontade de tornar o mundo melhor e mais divertido.
Não era, diga.se, a primeira portuguesa a ser assim chamada ao convívio dos auto-designados "compadres". Na altura, os almoços e, com eles, a titularidade de associado, eram, em regra, reservados aos "compadres", mas tudo o que se passava em horário pós-laboral, jantares, encontros, abrangiam as mulheres, as "comadres". Era a evidência de que a "praxis" se baseava em formas de relacionamento preexistentes - o do almoço, na pausa do trabalho, entre profissionais (todos homens, porque a metade feminina estava, de facto, ausente desse círculo), o do jantar, naturalmente, reunindo famílias inteiras. Nunca foram, bem pelo contrário, uma espécie de "clube inglês" segregacionista! Quando as Academias chegaram a comunidades onde as mulheres partilhavam com colegas homens o meio profissional, logo se abriram à sua plena participação e logo as vimos assumirem cargos de direção e até a presidência - o que nas instituições mais tradicionais foi, ou ainda é, um caminho longo...
Defensora, como sou, de uma associativismo misto, onde os géneros de completam como fator de progresso e democracia, compreendo a existência de organizações femininas - ou masculinas - quando moldam realidades de cooperação, que, de outro modo, seriam prejudicadas, esperando, embora, vê-las evoluir para um harmonioso encontro das duas metades, do todo. Também neste aspeto, que tende a ser sempre menos valorizado, as Academias de Bacalhau nos deram uma lição de boas práticas, na rota dos bons princípios!
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
PORTO, CONFERÊNCIA PORTUGAL /BRASIL - HOMENAGEM A RUTH ESCOBAR
DE MARIA RUTH DOS SANTOS A RUTH ESCOBAR
Ruth Escobar foi, porventura, no Brasil, a mais destacada mulher portuguesa da sua geração. Nome célebre na cultura, na política - ativista de direitos humanos, voz indomável contra a ditadura, feminista tardia mas convicta, pioneira na vida política brasileira, primeira mulher eleita deputada, em dois sucessivos mandatos, à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo,
Maria Ruth dos Santos, na pré-história de Ruth Escobar, foi uma emigrante comum. Aos 16 anos acompanhou a mãe numa partida, de onde não haveria retorno. Invulgar era, sim, o facto de ser uma aventura no feminino, de uma mulher solteira e da sua filha única - a menina rebelde que estava destinada a convolar o modesto projeto de futuro, com o ímpeto da sua ambição e o fulgor da sua personalidade, num trajeto épico de permanentes rupturas e incríveis desafios, em rota da continuada transcendência do seu "eu", no cenário movente de novas fronteiras físicas e culturais. O seu saber é todo "de experiência feito" - as viagens pela geografia, pelas alteridades culturais, são fonte de conhecimentos avidamente absorvidos e inspiradores de ação. Ousada e vanguardista, fará dessa mundividência em progressão uma arma para mudar o mundo, e, com ela,om ela haveria de revolucionar a realidade e o devir do teatro brasileiro.
Através de todas as metamorfoses, Maria Ruth será, porém, sempre a portuguesa do Porto, nascida em Campanhã, criada na rua do Bonjardim, no coração da cidade que levou consigo, em gratas recordações, A sua autobiografia, desde o primeiro parágrafo, é uma história portuense, começa num calcorrear de ruas e praças familiares, nas festas do São João, nas sessões de cinema do Rivoli, nas excursões de elétrico até à Foz, quando chegava o verão, ou até aos jardins do Palácio de Cristal, e, também, nos longos dias de aulas no Carolina Michaellis, onde se inicia na arte dramática, a representar, ao som dos primeiros aplausos, todos os diabos dos autos de Gil Vicente...
Nas suas próprias palavras: "quando embarquei para o Brasil, no Serpa Pinto, com a minha mãe, levava também a certeza de um destino, pois soube que tudo o que sucedeu na minha vida, mesmo antes do meu nascimento, estava moldado por uma força universal, cósmica, transcendente".
Na esteira dessa certeza, a sua vida avançará, vertiginosamente. No "Roosevelt" , mal acabara de chagar, a sua graça em palco, encarnando, de novo, os diabos de Gil Vicente logo, granjeia-lhe o prémio oficial de "rainha" do colégio. Passa os exames, sem dificuldade. Todavia, logo troca os estudos pelo trabalho, a vender a "Revista das Indústrias". É um sucesso, já ganha mais do que a mãe, mas depressa dá um passo em frente, angariando apoios na comunidade portuguesa para criar e vender a sua própria revista, "Ala Arriba". Tem apenas 18 anos. Na sua nova veste, apercebe-se das ameaças que se desenham sobre a presença portuguesa na Índia e propõe-se defende-la à volta do planeta.
Corria o ano de 1954 e, uma vez mais, com o patrocínio dos compatriotas de S Paulo, a improvisada jornalista, ainda "teenager", vai ombrear com os melhores correspondentes de imprensa internacional, entrevistando uma longa lista de celebridades, como Foster Dulles e Christian Pinaud, Bulganin e Krushev, o Principe Norodan Sihanouk, o presidente das Filipinas, os primeiros-ministros da Turquia e da Tailândia, o mítico Nasser (a única a ter esse privilégio, no meio de quinhentos jornalistas presentes no Cairo!), e entre compatriotas, os governadores de Macau e da Índia e até Salazar. Os seus exclusivos são disputados por revistas como a "Life" e por prestigiados jornais de S, Paulo e Lisboa, É um primeiro vislumbre de fama.... Convidada a integrar a comitiva do Presidente Craveiro Lopes na visita oficial a Moçambique, acaba expulsa por ato considerado subversivo - a revelação perante os "media" nacionais e internacionais de um trágico acidente aéreo, que a propaganda do regime queria ocultar. Será o primeiro de muitos gritos de liberdade, pelos quais não hesitará nunca em arriscar tudo,
Na casa dos seus vinte anos, lança-se como empresária e produtora teatral, depois como atriz. Constrói um teatro com o seu nome, na cidade de São Paulo, e e faz história com a fundação, em 1963, do Teatro Nacional Popular, que leva ao povo das periferias do Estado, a muitos milhares de pessoas, espetáculos de qualidade (Martins Pera, Suassuna...) no palco improvisado num velho autocarro.
Não é menos arrebatadora é a sua vida fora de cena, com quatro filhos de três casamentos (o primeiro anterior a esta década, o segundo com o poeta e dramaturgo Carlos Escobar, o terceiro com o arquiteto Wladimir Cardoso, que viria a ser o cenógrafo das suas peças de enorme êxito artístico - como "Cemitério de automóveis" de Arrabal, com montagem do argentino Vitor Garcia, e encenação dela mesma: Uma dupla que, em 1969, com "O balcão" de Jean Genet, venceria todos os prémios, no Brasil.
Os trinta anos de Ruth são passados no tempo conturbado de repressão e de medo em que se afunda o país, a partir de 1964. O seu teatro converte-se em palco de luta pela liberdade de expressão, Sucedem-se as ameaças, as pressões, os ataques de comandos para-militares, a violência sobre os próprios atores. Na sua autobiografia, Ruth Escobar diz-nos que perdeu a conta ao número de ameaças, de prisões e interrogatórios, aos quais ia respondendo sempre com desafios a rondar o excessivo, como reconhecerá, retrospetivamente. De uma das vezes, é Cacilda Becker, sua referência, mentora e grande amiga, que intervém junto do Prefeito de São Paulo para conseguir liberta- la: "Prefeito, temos de tirar a Ruth, aquela portuguesa vai pôr fogo no quartel, é um serviço que o Senhor vai prestar às Forças Armadas, tire-a de lá quanto antes". E ele tirou...
É nesta sua década que traz a Portugal alguns dos maiores sucessos, "Missa leiga" e "Cemitério de automóveis" , logo proibida em Lisboa, mas não em Cascais, onde, pelo visto, a censura supunha ser inacessível a camadas populares...
É então que conhece as três Marias, lê as " Novas cartas portuguesas", Simone de Beauvoir, e se converte ao feminismo, uma metamorfose que contribuirá para a conduzir aos hemiciclos da intervenção parlamentar, onde volta a fazer história como pioneira, no universo masculino e fechado da política brasileira (ao abrigo do Tratado de Igualdade de Direitos entre Portugueses e Brasileiros, visto que nunca teve outra nacionalidade além da portuguesa). Como feminista, torna-se a primeira Presidente do "Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres" e, durante muitos anos, a Representante do Brasil nas Nações Unidas para o acompanhamento da Convenção contra a discriminação das Mulheres.
Entretanto, tinha casado, uma última vez, e tido o seu quinto filho.
Em 1974, organizara o primeiro Festival Internacional de Teatro. Ela que, aos 19 anos, fora de São Paulo explorar as riquezas culturais do mundo, traz, então, a São Paulo, o mundo das artes cénicas - o que de melhor se apresentava nas grandes capitais. Em 1976, igual iniciativa teria a mesma força renovadora no panorama da arte dramática brasileira.
Depois de quase uma década nos palcos políticos de um Brasil democrático, regressa, nos anos noventa, aos palcos do teatro, como atriz e como empresária e como promotora de festivais, em novos moldes, porventura menos elitistas, mas mais abrangentes de outras artes ,
Conheci-a em 82, num jantar na residência do nosso Cônsul- Geral de São Paulo, em que estávamos lado a lado e, como toda a gente, não fiquei imune ao seu carisma, que era feito de espontaneidade e de extroversão, de inteligência e de humor, de uma vivacidade incomparável. Do que falámos? Do Porto, é claro, da sua e da minha cidade, que nos uniu em afinidades imediatas. Era evidente que ela permanecera portuguesa e portuense, e sempre, assim, se sentira parte do Brasil. A sua herança teatral, enraizada no Gil Vicente da juventude, e no vanguardismo em que projetou o seu talento ao longo de décadas, mudou para sempre a face do moderno teatro brasileiro . A sua última produção - a que, por sorte, pude assistir - pôs em cena "Os Lusíadas" , bem no centro de São Paulo, e, depois, em Portugal.
Em vida, Ruth recebeu as mais altas condecorações brasileiras. a Legião de Honra da França. E até também Portugal a distinguiu, com a Ordem do Infante Dom Henrique.
Fica a faltar o Porto. Mas, talvez, agora que ela nos deixou, o Porto a queira reclamar, bem viva na sua memória e na toponímia da cidade
Subscrever:
Mensagens (Atom)