quarta-feira, 25 de outubro de 2017
LUXEMBURGO: ROSTOS DA EMIGRAÇÂO/ VISAGES DE L'ÉMIGRATION, NO INSTITUTO CAMÕES
Dia 19 de outubro, Apresentação do livro de TENREIRA MARTINS, nas versões francesa (L ' Harmattan) e portuguesa (Orfeu). Patrocínio do Instituto Camões. Oradores: o Autor, o Padre Melícias Lopes e eu mesma. Presentes a anfitriã, Doutora Adília Martins de Carvalho , o Consul-Geral de Portugal, Dr Manuel Gomes Samuel, o antigo Embaixador em Portugal Paul Schmidt, hoje chefe do Protocolo no MNE luxemburguês, numerosos dirigentes associativos, o Conselheiro das Comunidades e muitos outros compatriotas. Excelente tarde para falar de um livre singular sobre histórias comuns e incomuns das nossas migrações.
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS - OS GRANDES AUSENTES
1 - Nesta campanha os grandes ausentes foram os emigrantes, Sobre eles não ouvi uma só palavra, apesar de a Constituição da República Portuguesa, desde 1976 até hoje, lhes vedar qualquer forma de participação, ao nível local. O direito de voto foi-lhes, sim, reconhecido, no processo eleitoral para a Assembleia da República, desde os alvores da democracia, ainda que limitado à eleição de quatro deputados (uma espécie de quota minimalista). Seguiu-se, após anos e anos de protestos e reivindicações, vindos das comunidades do estrangeiro e dos seus representantes, a concessão do sufrágio nas presidenciais e nos "referenda" de âmbito nacional - com algumas restrições absolutamente injustificadas...
Muito estranho que a sua exclusão nas eleições autonómicas e nas autárquicas, venha sendo, sobretudo nestes últimos tempos, objeto de escassa contestação. No que respeita às Regiões Autónomas, a Lei Fundamental, garante o direito de iniciativa às respetivas Assembleias Legislativas mas, apesar de algumas tentativas de o consagrar, nenhuma foi ainda por diante. Não assim nas autarquias, onde se exige uma revisão constitucional, que passa pelo entendimento entre os maiores partidos portugueses. Não quer isto dizer que os autarcas e a sociedade civil, tanto na emigração como dentro do país, não possam e devam mobilizar-se para colocar na agenda política esta questão, que é, acima de tudo, uma questão de cidadania.
Os emigrantes são portugueses de pleno direito, tal como os vê a própria Constituição, ao assegurar-lhes o sufrágio no que respeita a órgãos de soberania. São, juricamente, parte da Nação e a Nação começa na terra em que nasceram. É à sua aldeia, (ou vila ou cidade) que os prendem, porventura, os laços fortes. É nelas que mais investem, é a elas que regressam, todos os anos, em verdadeiras peregrinações de verão ou que sonham voltar, em definitivo
Face a um quadro semelhante, outros países europeus - o caso paradigmático da França - concederam aos seus expatriados o direito de voto nas eleições municipais várias décadas antes de o alargarem ao âmbito nacional. Nós começamos ao contrário. Isso, agora, pouco importa. Importa é que se complete o estatuto de direitos o mais depressa possível, com o voto dos emigrantes nas autárquicas! É tempo de relançar o tema caído no esquecimento, de exigir ação aos políticos, para darem força de lei à ligação telúrica dos emigrantes à terra-mãe.
2 - Esta é uma realidade que ninguém ousará pôr em dúvida, mas que nenhum candidato ousou fazer bandeira eleitoral na longa e mediática campanha a que acabámos de assistir.
Admito que alguma voz solitária se tenha levantado em seu favor, talvez no interior quase desertificado pelo êxodo para o estrangeiro (ou para o litoral, dentro do país), mas, se isso aconteceu, não teve o devido eco ou impacto...
O mesmo se pode dizer sobre o voto dos estrangeiros no nosso país, que é concedido sem restrições, sob condição de reciprocidade - o que. a nível local, se me afigura errado, discriminatório, porque todos são, afinal, "vizinhos" e merecem, participar, do mesmo modo, na "res publica", Ou seja, não devem ser penalizados pela falta de abertura, ou mesmo de democracia, nos seus Estados de origem, tanto mais quanto essa pode ter sido uma das razões determinantes da sua partida para e emigração ou o exílio.
Até dentro do espaço da CPLP é notória a divisão. Entre os nossos eleitores estão Brasileiros ou Cabo verdeanos, porque Brasil e Cabo Verde nos concedem iguais direitos. Angola ou Moçambique não, pelo que se encontram eleitoralmente sem voz os seus nacionais que connosco vivem. A meu ver, cabe-nos dar, unilateralmente, o bom exemplo, quer se trate de lusófonos, ou de norte coreanos ou paquistaneses....
O número de estrangeiros recenseados é, aliás, baixíssimo - apenas 26980, o que corresponde a cerca de 11% do total. 12992 são nacionais da UE e 13988 pertencem a outros países. O número de eleitores da UE vem aumentando, gradualmente, desde o início do século, o dos outros países foi em crescendo de 2000 a 2007, atingindo nesse ano o apogeu, com 19727, e vem diminuindo, desde então, sinal claro do declínio da imigração por motivos de ordem económica, obviamente. Porém, com tão baixa taxa de recenseamento entre eles, é enorme a "margem de progressão", como se diz no futebol As autoridades nacionais e os autarcas devem, pois, chama-los a essa forma de convívio democrático, que é umavia por excelência para a sua plena integração.
Em França, na nossa comunidade, que era pouco participativa, foram os líderes associativos, que mais tentaram (e conseguiram) mobiliza-la. com um slogan que é válido universalmente: "Quem não vota, não conta".
Hoje o número de eleitores e, sobretudo, de eleitos de origem portuguesa em França é verdadeiramente impressionante!
3 - Nós queremos contar tanto com os nossos imigrantes como com os nossos emigrantes, para sermos mais e para sermos melhores.
Queremos um Portugal mais multicultural e mais cosmopolita, onde os estrangeiros, as suas culturas, o perfil dos seus países de origem tenham mais visibilidade e mais simpatia. Um Portugal onde os Portugueses expatriados estejam politica e afetivamente mais próximos. No dia em que puderem votar na sua terra, os autarcas vão ter de os ouvir, de procurar saber onde estão (hoje não sabem, ou têm apenas uma noção vaga...), de os visitar, de conhecer os seus problemas e os seus anseios e de lhes dar resposta. Acho que os emigrantes ganharão muito com isso - e as suas terras ainda mais. A começar pelo crescimento demográfico no mapa eleitoral, que, em alguns concelhos será significativo, a continuar no reforço de solidariedades e de intercâmbios, a culminar na projeção internacional de cada terra, transmutando a ausência física dos seus munícipes em presença no mundo.
Maria Manuela Aguia
domingo, 22 de outubro de 2017
CONFERÊNCIA CEMRI na GULBENKIAN - 27 e 28 de outubro
COMUNICAÇÂO ORAL
Título: AS MULHERES NA HISTÓRIA DAS COMUNIDADES
PORTUGUESAS E DAS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A EMIGRAÇÃO.
MARIA
MANUELA AGUIAR (Ex. Secretária de Estado da Emigração e das Comunidades
Portuguesas; Associação Mulher Migrante)
Resumo
As
migrações portuguesas começam como uma aventura masculina, onde o sexo feminino
só excecionalmente tem lugar. As primeiras políticas públicas neste domínio são
de limitação ou condicionamento dos fluxos migratórios masculinos, quase sempre
considerados excessivos, e de proibição da saída de mulheres, em regra, vista
como contrária aos interesses do País. Ao longo dos tempos, centenas de
milhares de homens e também um número crescente de mulheres, que querem
juntar-se aos maridos ou aos pais, ou mesmo partir com eles, vão ultrapassar
todos os obstáculos para alcançarem o "novo mundo". É com a chegada
das mulheres e a reunificação das famílias que nascem as comunidades de cultura
portuguesa, mas o seu papel, ainda que matricial, é escassamente visível
e reconhecido e a sua participação obedece à divisão tradicional de trabalho
entre os sexos, no associativismo, como no núcleo familiar. Os movimentos
feministas descuram a emigração e são raras e extraordinárias as organizações
femininas de entreajuda até meados do século XX - caso do movimento mutualista
feminino da Califórnia. Após a revolução de 1974, a Constituição de
1976 vem proclamar a igualdade entre Mulheres e Homens e estabelecer a inteira
liberdade de emigrar. As políticas públicas, que, até início da década de 70,
se restringem à proteção dos emigrantes
na viagem de ida e os abandonam nas terras de destino, evoluem para a
defesa dos direitos dos cidadãos e tomada de medidas de apoio social e
cultural, e para o reconhecimento do papel do movimento associativo, Todavia,
só uma década depois, no quadro de funcionamento do Conselho das Comunidades
Portuguesas - quase 100% masculino - se dá o primeiro passo para a
prossecução de políticas com a componente de género, com a convocatória do
"1º Encontro Mundial de Mulheres no Associativismo e no
Jornalismo".(em junho de 1985). Mais de trinta anos decorridos sobre esse
histórico Encontro Mundial, qual o balanço da ação da sociedade civil e do
Estado no campo da igualdade de género nas comunidades do exterior? Eis o que
nos propomos abordar.
Nota Biográfica
Licenciatura
em Direito pela Universidade de Coimbra. "Diplôme Supérieur d'Études et de Recherche en Droit" pela
Universidade Católica de Paris. É atualmente presidente da Assembleia da Associação Mulher
Migrante: Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade.
Foi docente da Universidade Católica de Lisboa, da Universidade de Coimbra e da
Universidade Aberta, Mestrado de Relações Interculturais (Regeu o curso de
"Políticas e Estratégias para as comunidades Portuguesas). Secretária de
Estado do Trabalho (1978/79) e Secretária de Estado da Emigração e das
Comunidades Portuguesas (1980/87). Vice-Presidente da 2ª Conferência de
Ministros do Conselho da Europa para as Migrações (Roma,1983) e Presidente da
3ª Conferência de Ministros do Conselho da Europa para as Migrações (Porto,
1987). Deputada à Assembleia da República eleita, em mandatos sucessivos, entre
1980 e 2005. Vice-Presidente da Assembleia da República (1987/1991). Presidente
da Subcomissão das Comunidades Portuguesas (2002/05). Presidente da Subcomissão
das Migrações da APCE (1994/1995), Presidente da Comissão das Migrações,
Refugiados e Demografia da APCE (1995/97). Legislação, criação e reforma de organismos
que impulsionou: Comissão para a Igualdade no Trabalho e Empresa (CITE), 1979;
Instituto de Apoio à Emigração e Comunidades Portuguesas (IAECP), 1980;
Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), 1980; Lei da Nacionalidade, 1981;
Centro de Estudo do IAECP e "Fundo Documental e Iconográfico das
Comunidades Portuguesas" (1984); Comissão Interministerial para as
Comunidades Portuguesas (1987). Estatuto de Igualdade de Direitos e Deveres
entre Portugueses e Brasileiros (reciprocidade), 1989-2001; Lei da Nacionalidade
(recuperação automática), 2004; Direito de voto nas eleições para o Parlamento
Europeu (fora do espaço da UE), 2004. Algumas publicações: Políticas para a
Emigração e Comunidades Portuguesas (1986); Emigration policies and the
Portuguese Communities (1987); Portugal, País das Migrações sem fim (1999);
Círculo de Emigração (2002); Mulheres Portuguesas Emigrantes, Rio de Janeiro,
coord. (2004); Comunidades Portuguesas - Os Direitos e os Afectos (2005);
Migrações - Iniciativas para a Igualdade de Género, Coord. (2007); Problemas
Sociais da Nova Imigração, Coord. (2009) Relatórios apresentados na Assembleia
Parlamentar do Conselho da Europa (coletânea); Cidadãs da Diáspora - Encontro
em Espinho, Coord (coletânea). Numerosos artigos publicados em revistas da
especialidade sobre Direito do Trabalho, Migrações, Igualdade de Direitos,
Direitos Humanos. Condecorações: Nacional Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom
Henrique. Estrangeiras: Grã-Cruz da Ordem do cruzeiro do Sul (Brasil), Grã-cruz
da Ordem do Império Britânico (OBE), Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco (Brasil),
Grã-Cruz da Ordem de Mérito (Itália), Grã-Cruz da Ordem de Mérito (Alemanha),
Grã-Cruz da Ordem de Mérito (Luxemburgo), Grã-Cruz da Ordem de Leopold II
(Bélgica), Grã-Cruz da Ordem Fenix (Grécia), Grã-Cruz da Ordem Francisco
Miranda (Venezuela), Grande Oficial da Ordem da Estrela Polar (Suécia), Grande
Oficial da Ordem de Mérito (França).
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
DR. CARLOS LEMOS - O NOSSO ADMIRÁVEL CONSUL EM MELBOURNE
Estão, de novo, em Portugal a Doutora Molly e o Dr. Carlos de Lemos, um dos mais extraordinários casais da nossa Diáspora. Cidadãos exemplares, com impressionantes "curricula" não só no plano académico como no da intervenção cívica. Nonagenários ativos e brilhantes, atentos aos problemas do sociedade atual e capazes de procurar soluções, de tornar o mundo melhor. Viajantes infatigáveis, para quem voar para o outro lado do planeta é coisa de somenos.
O ano passado, o Dr Lemos publicou a sua autobiografia e correu o país de norte a sul apresentando esse seu livro, que tive o privilégio de prefaciar,
Aqui fica o meu restemunho
UMA HISTÓRIA DE VIDA - O NOSSO ADMIRÁVEL CONSUL EM MELBOURNE
Numa linguagem simples, límpida, coloquial. que nos prende da primeira à última página, esta narrativa na primeira pessoa do singular não cessa de nos surpreender e encantar, através de uma vertiginosa sucessão de factos, de aventuras, e de encontros com pessoas, no quadro de variadas realidades sócio-culturais, em paragens longínquas..É uma trajetória individual meteórica que acompanhamos, aceitando o convite do Autor para uma longa viagem de memórias, que atravessa épocas, regiões, continentes, desde remotos lugares do Alto Minho, como Cousso, Cubalhão, a Serra da Peneda (onde um menino orfão e desprivilegiado, pareceria condenado a crescer e trabalhar num confinamento insuperável), até aos espaços imensos, aos horizontes que alargou, com o seu inconformismo e uma insaciável vontade de conhecimento, caminhando, os pés na terra, de terra em terra, incansavelmente, indo cada vez mais longe - primeiro num Portugal que o discurso do "Estado Novo" conceptualizava como uma unidade pátria pluricontinental, que, sob a mesma bandeira, se estendia "do Minho a Timor". O jovem Carlos Lemos vai precisamente do Minho a Timor, cruza os mares, ajuda a desbravar matas virgens, nas margens de rios africanos, a explorar as costas das possessões portuguesas do Indico ao Pacífico, ultrapassa fronteiras, converte-se ao destino tão português da emigração, na lonjura do sul da África e da Oceânia...
"História de uma vida", assim denomina, discretamente, como é seu timbre, tão fascinante encadeamento de relatos, confidências, observações, comentários e ensinamentos do maior interesse histórico, antropológico, político. A primeira tentação de quem a lê é o de lhe acrescentar adjetivos expressivos, como "vida excecional", ou "vida fantástica"!
Desde o princípio, desde a infância, o mais insólito e espantoso é que todas as decisões, afinal tão avisadas, são dele, apenas dele, depois de terminar prematuramente a escola, e de ficar entregue a si mesmo, em trabalhos árduos, trabalhos de adulto, que despertam a sua precocidade e força de ânimo. E, assim, em dificuldades e desafios ilimitados, se forja uma personalidade independente, honesta e tenaz, mas também sensível e gentil.
Num dos seus primeiros empregos urbanos, em Monção, num café bem frequentado, um velho e arguto doutor diz-lhe, a certa altura: "és um perfeito diplomata"!. Retive, muito em especial, essa exclamação profética, porque, cerca de quatro décadas decorridas, quando o Dr. Carlos Lemos organizou a minha primeira visita a Melbourne, e o conheci mais de perto, não fiz, mas poderia ter feito idêntica apreciação. Ali estava um diplomata nato, amabilíssimo, hábil e pragmático, qualidades que juntas, em regra, não se encontram ...Ali estava um emigrante que prosseguia, apaixonada e eficazmente, a missão de enaltecer a história e os valores eternos da lusofonia, e de defender a imagem e os interesses dos seus compatriotas - antes mesmo de ser nomeado cônsul honorário, em1988.
O seu dom natural de se aproximar das pessoas, independentemente da classe social, do estatuto académico, de tendências ideológicas, de origem étnica, a par de uma inteligência invulgar explica, o que, por modéstia, nunca explicita - a facilidade com que, rapaz solitário, vindo de um pequeno povoado rural, é aceite nos círculos mais fechados e "snobs" das elites de então, ou nas tertúlias de estudantes, com quem, sem dúvida, aprende a refectir e debater.sobre quaisquer questões
É nas suas novas funções de topógrafo - com uma formação, em boa hora, adquirida nas Minas da Panasqueira - que conversa, em Cascais, com o Presidente Carmona, e passa a conviver com as netas do Presidente, com jovens da alta burguesia, alguns dos quais virão a ser embaixadores e artistas de renome. A Póvoa do Varzim é o destino seguinte, e bem marcante no longo roteiro que tem pela frente. Faz parte de grupos de estudantes e recém licenciados, como Salgado Zenha. É aí que decide retomar os estudo e completa cinco anos do liceu de uma vez só!
Mais tarde, em Moçambique, conta entre os seus íntimos Paulo Vallada, João Maria Tudela e, como eles, pertence ao mais seletivo dos clubes, o Clube de Lourenço Marques. Em Pretória, é amigo de Mary, a filha de Henry Oppenheimer, de Tamara, a ex-toureira, em Durban. do filho de Alan Paton - em casa de quem conhece Mandela, Oliver Tambo,Sisulu e Lutuli e tem o privilégio de assistir a inúmeras conversações entre eles -, .em Hong Kong do famoso português que, como Presidente da Câmara, projetou a cidade para o apogeu, o Comendador Arnaldo Sales, em Timor, de Ruy Cinatti, a quem admira imensamente, na Austrália de Kenneth McIntyre, cujas teses sobre a descoberta portuguesa deste país defende e apregoa por todo o lado, a começar por Portugal e por Macau (onde, por sua influência, o Museu Marítimo dedica uma secção a esse achamento secreto e onde o texto original inglês é traduzido para a nossa língua).
Exemplos, entre centenas. de ilustres personalidades que se nos tornam familiares nas páginas deste livro! De destacar ainda, relacionamentos ocasionais e incomuns, caso de Samora Machel (que dele cuida no Hospital de Lourenço Marques!), e, numa conturbada Indonésia, durante umas férias improváveis, da mulher do General Yani, Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, e ela própria uma celebridade. A Senhora Yani, logo convida o simpático casal Lemos para animados passeios por lugares turísticos, jantares nos melhores restaurantes, e até para uma visita a casa de Sukarno.
Eis um Português de quem, obviamente todos gostam - moçambicanos, timorenses, indonésios, egípcios, sul-africanos, negros e brancos, aborígenes do deserto australiano... artistas, homens de letras e ciências, empresários, embaixadores, políticos de um sem números de países - uma impressionante rede universal de contactos fraternos, que ficam para sempre, que cultiva e reencontra em intermináveis expedições. Como não olhar retrospetivamente séculos de história, e lembrar a velha arte portuguesa de fazer amigos entre gentes de todo o Globo? Eis um português que nos dá a certeza de que somos ainda o mesmo povo, com a mesma ânsia de movimento, de que se teceu o "século de ouro" dos Lusíadas - movimento de caravelas, de homens, de ideias…
Em meados do século XX, a um ousado Carlos Lemos, com pouco mais de 20 anos, a especialização em topografia e hidrografia faculta modernos meios de exploração ou reconhecimento da terra e dos mares, primeiramente ao longo do retângulo continental, depois, em Moçambique, nos vales do Limpopo e do Rio dos Elefantes (já na fronteira norte da RAS) , em Timor, de lés a lés, e, posteriormente, nos desertos da Austrália, onde percorre, em trabalho de campo, 34.000 km, inscrevendo o seu nome como pioneiro em diversos lugares intocados de território austral
Ao tentar esta breve apresentação (certamente arbitrária e redutora....) da sua autobiografia, devo acrescentar que a considero uma digna herdeira da literatura de viagens de sabor quinhentista, na medida em que o Autor vai muito além de uma mera menção de ocorrências, de apontamentos sobre lugares de exótica beleza - que também abundam... - para nos dar a sua visão sobre costumes, conflitos sociais e políticos, sobre personalidades que deixaram indeléveis marcas na história. É a mundivisão de um homem culto e cosmopolita, do sociólogo e do observador político, que já era, antes mesmo de terminar os estudos universitários nestes domínios ( iniciados na África do Sul, na Rhodes University, onde conhece Molly, sua futura mulher, e concluídos, uns anos depois, em Melbourne). Um incansável "peregrino em terra alheia" (como o definiria Adriano Moreira), disposto a partilhar com o leitor mil e uma experiências vividas e o seu olhar sereno sobre vicissitudes com que permanentemente se confronta, o seu sentido de humor, que irrompe aqui e ali, direcionado de preferência a si próprio, na menção de alguns pequenos desaires, pelos quais se penitencia, com muita graça...
O casamento com Marion Murray, a jovem britânica doutorada em psicologia, que se lhe junta nessa "ilha do fim do mundo" , Timor,a revelar um simétrico gosto pela aventura e pelo movimento (juntos, levados pelo trabalho del um ou de outro, ou pelo puro prazer do turismo, darão várias voltas ao mundo.....) iria, a breve prazo, ser o início de uma "segunda vida" para ambos - a vida de emigrantes, definitivamente enraizados num novo país. A carreira académica da Professora Marion, centrada na Austrália, será o factor de estabilização. A partir daqui, a autobiografia regista novas profissões exercidas pelo Autor, em Melbourne - professor da universidade, do liceu, agente de bancos comercias, gestor... - E revela-nos, também, uma nova faceta: a de líder, de principal construtor de uma comunidade forte e coesa, onde antes só havia portugueses dispersos e ignorados na sociedade de acolhimento... A partir de então, com o seu "ímpeto de Portugal ( como diria Pessoa), e capacidade de mobilização, a história portuguesa em Victoria fica intimamente ligada à sua própria história. Um exemplo que os estudiosos da génese das comunidades da emigração contemporânea e da nossa diáspora precisam de analisar, como um "case study"! Na verdade, muitas famílias portuguesas estavam já radicadas naquele Estado, mas sem qualquer dinâmica de agregação entre si. Tudo muda pela ação e pelo carisma de um "homem de causas". Começa pelo fundamental: cria uma escola de português (em 1972), um programa de rádio em língua portuguesa, do qual é diretor e locutor, uma "Comissão de atividades da comunidade", (a que preside, (entre 1976 e 1984). o"Portuguese Community Trust", (1983), destinado a angariar fundos para uma sede associativa condigna, projeto que, por obstáculos burocráticos, é reconvertido, dando origem ao famoso "Café Lisboa", restaurante português de alto nível, no centro de Melbourne, que atrai as elites políticas e culturais da cidade e oferece, como era sua vocação inicial, um espaço aberto a iniciativas comunitárias. O Dr. Carlos Lemos vê-se na obrigação de encabeçar o projeto recconvertido, garantindo-lhe um sucesso espetacular. Aí recebe individualidades do mundo lusófono de visita ao país: D Ximenes Belo, Ramos Horta, Alberto João Jardim, Carlos do Carmo, os escritores da diáspora Vasco Calixto e Marcial Alves, o Secretário de Estado Correia de Jesus, o Governador Rocha Vieira (com quem se inicia uma colaboração estreita com Macau, mantida depois da passagem para administração chinesa), os sucessivos embaixadores e cônsules de Sydney e tantos, tantos mais - sem esquecer o chamativo lançamento de um CD de música para as crianças de Timor, que foi trazido em mão pelo Arcebispo Deacon, depois de aterrar de helicóptero, num terreno contíguo ao Café Lisboa.
Anteriormente, enquanto dirigente da "Comissão de atividades", promovera as primeiras festas a Nª Sª de Fátima, com uma procissão que circulou nas ruas de Melbourne, seguida de um piquenique gigante, ao qual não faltaram o Arcebispo da diocese, o Ministro da Imigração, o Cônsul-Geral de Sidney e outras individualidades (que obviamente aceitaram o convite de um amigo especial...), para além de uma multidão de milhares de portugueses, que, assim, ganham visibilidade na sociedade australiana.
A visibilidade da Pátria - da sua história, das suas tradições e qualidades bem vivas na emigração - é uma causa maior assumida numa ação constante, em que podemos destacar: a divulgação das teses de Kennett McIntyre sobre a descoberta secreta da Austrália pelos navegadores lusos, corroborada pelas investigações de PeterTrickett (sobre o Atlas Vallard de 1547) e do Professor catedrático John Mollony (sobre vocábulos de origem portuguesa entre os aborígenes) e a procura de outros laços de ligação com a Austrália - como o facto do que é considerado o fundador da nação moderna, o Governador Arthur Philip, ter sido oficial da nossa Marinha, ou o enfoque na nacionalidade portuguesa de Artur Loureiro, o grande pintor portuense, porventura, hoje, mais recordado em Melbourne, onde se radicou por uns anos, do que na terra onde nasceu, ou na solidariedade luso- timorense dada a Bernard Collinan, herói australiano, que comandou a "Coluna independente", na resistência ao invasor japonês, durante a grande guerra
Há, porém, um feito que deve ser salientado, como expoente máximo, pois só por si, mais do que justificaria a alta condecoração, que em 2002, lhe foi entregue pelo Presidente Sampaio: a proposta, bem concretizada, de erguer, em solo australiano, um padrão evocativo dos navegadores portugueses! Foram muitas e morosas as diligências que permitiram garantir o espaço perfeito, numa belíssima colina sobre o mar agreste, em Warrenambool, onde, em oitocentos, foram avistados, por inúmeras testemunhas oculares, os vestígios prováveis de uma caravela quinhentista e, ulteriormente, uma inauguração, com honras de presença dos mais altos representantes do Estado. o Governador Geral, o Embaixador, Ministros, deputados, Kenneth McIntyre, uma massa imensa de participantes e, o que não é despiciendo, com uma enorme cobertura dos grandes "media.!
Warrenambool é doravante um lugar de culto da história e da presença portuguesa. O Portuguese Festival, de periodicidade anual. atrai milhares de turistas ao monumento (entretanto enriquecido com a inauguração das estátuas do Infante D Henrique e de Vasco da Gama, oferecidas, por proposta do Dr Carlos Lemos, pelo último Governador de Macau – um evento muito mediático, a colocar Portugal no centro das atenções!).
Em que outro país ou continente, dos que foram, como sabemos, descobertas secretas de Portugal, conseguiu a nossa diplomacia algo de semelhante? Obviamente, em mais nenhum…
É, assim, uma realização esplêndida e única, a coroar uma consistente trajetória de intervenção, em defesa das pessoas e dos valores nacionais, junto dos Governos, de lá e de cá - intervenção lúcida e corajosa nos domínios da emigração, da lusofonia, da política internacional, com uma participação ativa nos “fora” e congressos mundiais da Diáspora, com uma voz que clama, desassombradamente, contra o negativismo dos historiadores, ao renegarem teses verosímeis, favoráveis à grandeza pátria, ou contra a mediocridade dos políticos e servidores públicos, contra a injustiça e a intolerância.
Uma palavra final para agradecer ao Dr. Carlos Lemos a sua amizade e a sua preciosa colaboração de décadas, na luta pelos direitos dos emigrantes e dos timorenses e, também, para manifestar ao escritor e ao Homem, a minha admiração, pela forma como soube dar um sentido humanista e fraternal ao movimento incessante da sua vida, que muitos feitos nos promete ainda, futuramente
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
BRASIL PORTUGAL a descoberta continua 14 de OUTUBRO - ESPAÇO PORTO CRUZ
CONVITE
Maria Manuela Aguiar – ex- Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas e Fundadora da AMM – Associação da Mulher Migrante, Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade; Francisco Gil Silva - Diretor da Escola Artística e Profissional Árvore-Porto, Professor de História, Consultor Cultural do Espaço Porto Cruz ; NassaleteMiranda, Diretora do Jornal As Artes entre as Letras e Constância Nèry, artista plástica e poetisa, Comissária da exposição de 26 artistas brasileiros e portugueses,
Organizadores da iniciativa "Portugal-Brasil, a descoberta contínua” têm o prazer de o convidar V.Exa para a sessão de encerramento que decorrerá no dia 14 de outubro às 17 horas, no Hotel Porto Cruz, em Gaia, conforme programa em anexo.
O evento “Portugal-Brasil, a descoberta contínua”, tem como objectivo principal sublinhar as virtualidades das relações fraternas entre Portugal e Brasil e repensar a sua importância na expansão do mundo da lusofonia no século XXI. Assim, procura-se dar ênfase às datas do Descobrimento e da Independência do Brasil país que, tal como Portugal, abraça com generosidade cidadãos do mundo inteiro, na busca de uma permuta cultural constante.
Esta segunda edição do evento, teve lugar no dia 8 de setembro, no emblemático espaço do Hotel Porto Cruz em Gaia.Do programa constou a abertura da exposição seguindo-se a intervenção do Professor Dr. Salvato Trigo, Reitor da Universidade Fernando Pessoa com o tema "Da descoberta da mátria aos equívocos da pátria: ou de como se reinventa a história das relações luso-brasileiras". Segui-se a intervenção da Historiadora, Dra. Maria do Carmo Serén, com o tema "Dois brasileiros no Porto - Encontros e Desencontros de José Bonifácio de Andrada e Silva e D.Pedro I".
PROGRAMA
Sessão de encerramento - dia 14 outubro
. 17:00h - visita à exposição de obras de 26 artistas plásticos brasileiros e portugueses
. 18:00h às 18h20, "Lusos Ilustres no Cinema Brasileiro - a outra Carmen e o Português da Cinemoda" - Escritor Danyel Guerra
. 18h25 às 18h45 "Maria Archer, uma portuguesa no Brasil" - Mestre Arcelina Santiago; Entrevista imaginária a Maria Archer pelas alunas universitárias Mariana Patela e Cíntia Ribas Silva
. 18h50 às 19h10 "Quatro coroas de D.Pedro, ou uma inspiração para o movimento Elista" Dr. Joaquim Matos Pinheiro, economista, escritor e Presidente do Elos Clube do Porto
. Debate
Moderadora: Dra Nassalete Miranda
. Encerramento das comemorações pelo Senhor Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Mestre Luís Carneiro.
terça-feira, 13 de junho de 2017
VIVER A DEMOCRACIA NUM PAÍS DE EMIGRAÇÃO E DIÁSPORA
Breve comentário ao colóquio de 24 de maio, na Sociedade de Geografia
A Comissão das Migrações da Sociedade de Geografia (atualmente presidida pela Profª Maria Beatriz Rocha Trindade), em parceria com a Associação Mulher Migrante, escolheu esta temática para debate, sobretudo, porque ela não tem sido suficientemente pensada, nem na agenda do "congressismo" voltado para as nossas migrações, nem nos "fora" sobre o estado da democracia em Portugal, onde se tende sempre a esquecer os emigrados...
O Colóquio, organizado no passado dia 24 de maio, centrou-se na caminhada democrática, que tem, gradualmente, aproximado os portugueses, aquém e além fronteiras, Como indica o título, "Dar voz à Diáspora Portuguesa - Perspetiva Diacrónica dos Mecanismos de Diálogo", esteve em análise a natureza e a direção do movimento, que se iniciou antes mesmo de 1974 e que progrediu, depois, com novas políticas públicas e novos direitos, na procura do aperfeiçoamento de meios concretos de ação. O diálogo foi convertido em instrumento privilegiado de construção de um todo nacional verdadeiramente inclusivo, não só no campo juridico-constitucional e político, mas, mais latamente, nos vários domínios da vida coletiva. A reflexão tinha, obrigatoriamente, de começar nos anos sessenta do século passado, na primeira grande iniciativa que "deu voz à Diáspora", equacionou as formas de a unir e de expandir o mundo da lusofonia: os Congressos das Comunidades de Cultura Portuguesa, promovidos pela Sociedade de Geografia, sob a presidência e com a visão do Prof Adriano Moreira. O colóquio realizava-se, pois, num lugar muito significativo, no Auditório que recebeu o seu nome, e com ele mesmo a recordar, num empolgante improviso, esses míticos Encontros pioneiros em que se projetava o futuro da "Nação peregrina em terra alheia", como realidade "sui generis", que haveria de sobreviver ao fim do império.
Seguidamente, o Deputado José Cesário levou-nos, com a força do seu entusiasmo, a lançar "um olhar retrospetivo projetado sobre o futuro", ou seja, à análise do que foi feito e do "por fazer", numa perspetiva pragmática, para facilitar, por exemplo, o exercício do voto no estrangeiro, a transmissão da nacionalidade, ou a operacionalidade do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP).
Coube-me trazer a discussão o acidentado percurso do primeiro CCP, órgão de representação e audição da Diáspora, que foi sendo implementado , em interação Governo/sociedade civil, numa busca nem sempre fácil, mas eminentemente democrática, de consensos, de expressão das preocupações sentidas pelas pessoas e da sua vontade de influir na mudança, através daquela instituição inovadora. A voz das comunidades ouviu-se no Conselho, ao longo de sete anos (1981/88), através dos dirigentes das suas organizações e dos seus "media", sem os quais as comunidades, como presença coletiva, não existem. O CCP renasceria em 1996, com idêntica finalidade, ainda que em moldes diversos, aliás, objeto de sucessivas modificações, que nunca alteraram a sua identidade. A única "assembleia" de cidadãos emigrados em todos os continentes é imprescindível e insubstituível, mas não veio diminuir a importância de outras componentes do espaço de cooperação e fraternidade de que falávamos. Particular destaque mereceu o primeiro jornal que, a partir de Lisboa, quis ser um traço de união entre as comunidades emergentes.nos inícios da década de setenta, O painel intitulado "O Emigrante/Mundo Português - razões de um projeto singular" teve como oradores o Padre Vitor Melícias, um dos fundadores do jornal, e o Dr Carlos Morais, seu atual diretor, que evocaram, emotivamente, os tempos da chamada "emigração a salto" e, também, a memória do co-fundador falecido poucos dias antes - o Comendador Valentim Morais, que muitos de nós tivemos o privilégio de conhecer e que todos admiramos como "homem de causas".
O papel da Igreja neste campo (" a igreja face à mobilidade - solidariedade e ação social") foi historiado por Dom Januário Torgal Ferreira, Bispo Emérito das Forças Armadas (que, como estudante, acompanhou, de perto, a realidade da emigração portuguesa em Paris, no seu período mais dramático) e a Drª Eugénia Quaresma (a primeira mulher a dirigir a "Obra Católica das Migrações"), focando as preocupações sociais e culturais das paróquias do estrangeiro e os relevantíssimos serviços que, nessas vertentes, têm prestado aos portugueses
O último painel foi dedicado a "novas formas de diálogo", com Mestre Emmanuelle Afonso a salientar os contributos reais e potenciais da "geração Europa", a que ela própria pertence, e os estudos promovidos pelo "Observatório dos Luso Descendentes", e com o Prof José Marques a trazer-nos testemunhos filmados de uma emigração passada e, afinal, ainda presente, agora que o êxodo migratório recomeçou, .
É tarefa difícil sumariar as intervenções de uma jornada que constituiu ocasião para ampla troca de ideias e de experiências muito variadas, abriu perpetivas para outras abordagens e apontou para outros campos de intervenção. Diz-se que qualquer realização só deve ser avaliada pelo "dia seguinte". Esta promete continuação em próximos debates, onde se possa refletir sobre o progresso da democracia, como tempo e lugar de reencontro entre os portugueses, numa emigração crescente e cada vez mais heterogénea
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