quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Elisabeth Battista sobre MARIA ARCHER

NAS TRILHAS DA “FILOSOFIA DE UMA MULHER MODERNA”: CONFIGURAÇÕES DA VIDA SOCIAL E AS CRÔNICAS DE MARIA ARCHER.


Elisabeth Battista
Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT/Brasil. Diretora da Faculdade de Educação e Linguagem – FACEL. Docente no Programa de Pós-graduação em Estudos Literários – PPGEL, da Pós-doutora pela Universidade de Lisboa – UL.



Esta leitura articula-se em torno da instigante produção criativa e intensa atividade intelectual de Maria Archer para os meios de imprensa, em meados do século XX, em Portugal, porque nos estudos que estamos realizando sobre a participação de escritoras na imprensa e a circulação literária entre os países que têm o português como língua de comunicação, temos colhido gestos e presenciado a intensa movimentação com vistas à ampliação das relações de trocas e possibilidades de abertura e aproximação cultural nas relações literárias e culturais ibero-afro-americanas.
A coletânea Filosofia duma mulher moderna, de autoria de Maria Archer foi publicada em Lisboa em 1950, pela editora Porto e compõe-se de 27 narrativas. As crônicas literárias, em sua maioria voltam-se para o tema da condição da mulher na sociedade portuguesa, fatos vivenciados por Maria Archer, com base na observação da vida social, na qual faz um engajamento literário nas suas obras. A articulação de elementos da vida social se torna um dos muitos que interferem na economia do livro, ao lado dos psicológicos, religiosos, linguísticos e outros.
É relevante afirmar que a produção e o lançamento de Filosofia de uma mulher moderna (1950) é contemporânea ao lançamento da obra O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, publicada originalmente em 1949. A referida obra francesa, amplamente difundida, é construída em uma perspectiva fenomenológica existencial de gênero, a autora volta-se para o estudo da dinâmica das ações femininas e focaliza o conceito de “experiência vivida”, que contribui para compreensão e o “desalinhamento” da perspectiva do status quo.  Em sua abordagem, Beauvoir será crítica dos parâmetros discursivos da tradição, que se consagram em princípios lógicos e ontológicos, Beauvoir propõe novas formas de abordagem sobre a condição da mulher. Desta forma, na condição de autora, ao lançar um novo olhar sobre a condição feminina, propiciou a reflexão e o surgimento de uma nova visão acerca do perfil feminino.
Beauvoir recusava também enclausurar-se como pensadora e como mulher na esquadria de um sistema de pensamento e, pois, de comportamento já determinado pela história. A condição feminina deveria, então, se voltar para novas vias de ação, de argumentação e de reflexão que não as mesmas trabalhadas pelos homens na história da cultura. (SANTOS, 2012, p.928).


Vale lembrar que as lutas de caráter mais radical pelas igualdades e a construção de uma identidade feminina, bem como o surgimento do atuante movimento feminista, naquela altura, estavam apenas no início. Isto porque os ensaios de Beauvoir em O Segundo Sexo produziram sobre o público leitor um efeito prático, modificando a sua conduta, sua visão de mundo e, sobretudo reforçando o sentimento do valor social da mulher. Para a lusitana Maria Archer, contudo, em Filosofia de uma mulher moderna (1950), a vida social e a condição feminina serão o “fermento orgânico“ de que resultarão em fértil produção criativa e a expressão literária de uma diversidade coesa.
Isto porque, em suas páginas, a autora leva em conta o elemento social como referência em suas crônicas produzidas para os jornais em Lisboa e, posteriormente reunidas na referida coletânea. Neste sentido, a captação do olhar fixado no território da escrita para os jornais serão a expressão de uma certa época e de uma sociedade determinada, que permite situá-la, não somente em seus aspectos sócio-histórico-culturais, mas como fator preponderante na sua elaboração artística, ou seja, sua coletânea deriva no registro literário que sinaliza a interpretação estética da vida social.


O ESBOÇO E O SURGIMENTO DE UMA NOVA MULHER


Nas narrativas para os jornais, a autora coloca em cena a mulher na condição de dona de casa, trabalhadora do lar, viúva, separada, e todos os seus atributos humanos como a ambição, a inveja, egoísmo, maledicência, a mulher estigmatizada que se torna “mal vista” perante a preconceituosa sociedade da época. Seus temas derivam para aquilo que afirma Alfredo Bosi (1996, p. 11),  
É nesse sentido que se pode dizer que a narrativa descobre a vida verdadeira, e que esta abraça e transcende a vida real. A literatura, com ser ficção, resiste à mentira. É nesse horizonte que o espaço da literatura, considerado em geral como o lugar da fantasia, pode ser o lugar da verdade mais exigente.


Um olhar ainda que superficial pela coletânea de narrativas percebe-se um elemento curiosos e unificador: o absoluto predomínio de personagens femininas na condição de protagonistas. Os homens assumirão papéis secundários, enquanto a autora descreve a personagem feminina em dois ou mais parágrafos, especificando as qualidades da mulher da época, ela descreverá o homem em pouco mais de um período.
Outro aspecto que marca a coletânea composta de 27 narrativas é o registro de que o tratamento que será dispensado à mulher está diretamente ligado ao seu estado Civil. Neste sentido, as mulheres casadas obterão reconhecimento social, enquanto as desquitadas e divorciadas não encontravam acolhida no seio social, ficando fadadas ao isolamento e impedidas de contraírem uma segunda união conjugal, fora do plano da clandestinidade. Um exemplo emana da regra explícita de que os funcionários públicos, sobretudo os de cargo elevado, não poderiam contrair matrimônio com mulheres desquitadas ou divorciadas.
A crônica Filosofia duma mulher moderna, atendendo ao meio em que fora originalmente publicada, estrutura-se no âmbito de uma linguagem coloquial, de fácil entendimento, a personagem feminina age com a razão e não a emoção, fato que, no plano da narração, é justificado por preferir perder o pretendente a marido, que fora promovido e terá que ser transferido para fora do país, do que arriscar perder o domínio de um vantajoso contrato de locação. Constitui-se uma crônica jornalística, pois ali o que temos são quadros representativos da vida social contemporânea portuguesa.
Narrada a partir de uma visão por trás, narrador onisciente intruso, portanto, é contada em 3º pessoa, conforme os estudos de Gancho (2003), “um narrador que fala com o leitor e julga a conduta da personagem, que fica bem explícito no trecho a seguir, [...] Uma maravilha”! Julgo que ela preferia um ataque de bexigas negras, a queda do cabelo, mesmo o reumatismo, a que lhe tirassem a casa [...] (ARCHER, 1950, p. 10). Ao mesmo tempo em que o narrador avalia os desejos da protagonista Teresa, ele coloca a importância que, mesmo alugada, a casa situada sítio nobre, representa para o conforto da personagem e seu único filho e, portanto, abriria de mão de qualquer coisa, entretanto, abrir mão de um antigo contrato que fixava o valor da renda muito abaixo do valor que a casa representa, estaria fora de questão.
A personagem, aqui representante de uma classe, deriva para aquilo que Abdala (2004, p. 40) define como: “O conceito de pessoa refere-se ao indivíduo pertencente ao espaço humano, enquanto personagem refere-se à persona (máscara) da narrativa. A personagem é um ser fictício, que se refere a uma pessoa”. O ser da ficção, que é representado por uma pessoa, no caso aqui, a Teresa, que tem seu valor para a economia da obra.
As personagens que compõem a narrativa são Teresa, sr. Seabra, o filho deles, Eduardo, a mãe de Teresa e suas amigas. No entanto o Sr. Seabra, as últimas personagens, e o filho de Teresa, são vistos neste espaço como personagens secundárias, atuam na trama, porém, suas intervenções não alteram significativamente seu sentido, diferentemente das personagens centrais, que é o caso de Teresa e Eduardo. A Teresa por sua vez podemos considerá-la ainda, como uma personagem plana, devido as características em que ela se encaixa. Gancho (2003, p. 16) afirma que [...] personagens planos, são caracterizados com um número pequeno de atributos [...] e que pode ser reconhecido por característica típicas, invariáveis, quer sejam elas morais, sociais, econômicas ou de qualquer outra ordem[...], reconhecemos essas características quando a escritora nos descreve Teresa:


Como ia passar dois anos no estrangeiro mostrava-se imensamente «snob» e impertinente. Exibia-se e luzia-se nos conhecimentos da vida dos povos que habitam para lá do nosso modesto horizonte. Não se calcula como nos irritava! E eram as minucias... Não se ia e vinha, como os caixeiros viajantes... Demorava-se... Viveria num hotel de luxo... Compraria peles preciosas...  Vestidos... Perfumes... Voltaria com as malas cheias... Daria passeios lindíssimos... Exercitar-se-ia a falar... Oh! O sotaque, numa língua, dá o tom... (ARCHER, 1950, p. 9).


Dentre os elementos que estruturam a narração identificamos, no tocante ao tempo, que a autora narra a sua contemporaneidade e esta se dá em meados do século XX, momento em que Portugal vivia o regime austero da ditadura Salazarista. Enquanto elemento estruturante, de acordo com Nunes (2002, p. 20), ocorre um tempo cronológico, as cenas vão ocorrendo em uma ordem natural, do início para o fim, “[...] Baseado em movimentos naturais recorrentes, como os cronométricos a que já nos referimos, o tempo cronológico, por esse aspecto ligado ao físico, firma o sistema de calendário [...]” (idem), pois, essa cronometria é que coloca a ordem dos acontecimentos e os qualificas.
O espaço socialmente verificável em que a trama ocorre é na cidade de Lisboa “[...] A mãe de Teresa deixara o sossego da sua casa da província para viver em Lisboa esses dois anos, de guarda a casa da filha [...]” (ARCHER, 1950, p.13). Abdala (2004, p. 48) diz que o espaço se articula com as demais categorias da narrativa ao nível da história, e podem aparecer ligadas a um lugar físico, onde circulam as personagens e se desenvolve a ação.
O ambiente do enredo é mostrado a partir do termino do divórcio de Teresa com o senhor Seabra, já havia nascido um filho, com isso após o desenlace ele deixara a Teresa na confortável casa alugada por uma renda muito accessível. O narrador fornece detalhes do espaço situando-nos acerca do nível de conforto do ambiente.” Imagine-se uma moradia com quintal, e jardim, e um vestíbulo com ferros forjados, e aquecimento central, e três casas de banho, e salas ligadas por arcadas-com o senhorio a morar no primeiro andar e a Teresa no rés-do-chão.”  (ARCHER, 1950, p.10).
Os elementos do espaço serão, para a economia da narrativa, decisivos para a solução estética, como veremos adiante. Percebemos, pela minuciosa descrição do espaço em que se desenrola o enredo da narrativa que trata-se de uma casa ampla e, em muito bom estado de conservação onde Teresa habita com o seu filho menor. Vale registrar que o ambiente eventualmente está presente através de certas indicações que o artista faz, como descrições, atitudes conscientes das personagens, regular disposição de acontecimentos, inversão de fatos, descrição de lugares, resultado inesperado de certas cenas, etc.
Este diz respeito aos aspectos sócio econômicos, ou seja, a situação-ambiente constitui-se, muitas vezes um detalhe não atingível, inapreensível objetivamente na obra, e resulta de uma observação do leitor em torno dos elementos apresentados ou sugeridos pelo artista na combinação das atitudes das personagens e na ação.  Entretanto o ambiente faz referência à vida da personagem. Essa descrição também pode considerar como situação-ambiente conforme define Ataíde (1941): A situação ambiente é como um pano de fundo que serve para o desenrolar da ação e a vivência das criaturas ficcionais. É um resultado da experiência sobre o tempo e espaço. (p. 51).


Consideramos neste contexto a situação-ambiente, pois, é a partir da fruição desta que veremos o desenrolar da exegese ficcional, além de despertar o interesse pela leitura, aproximando a personagem da representação literária da vida social. De certo modo é neste ambiente que ocorrerá o conflito do enredo, criando o ponto culminante da a história, que podemos chamar de clímax, ou seja, o momento em que a narrativa atinge seu maior ponto de tensão, em seguida, temos o desfecho, a solução estética, o qual o autor nos surpreenderá com um final feliz ou não. Solução esta que segundo Gancho (2003, p. 11) “o desfecho é a solução dos conflitos, boa ou má, vale dizer configurando-se num final feliz ou não. Há muitos tipos de desfechos: surpreendente, feliz, trágico, cômico, etc”. O desfecho da narrativa, é surpreendente, pois, Teresa  tinha consciência que o Eduardo estava com ela por causa do filho desta, (no seu primeiro casamento) o Quim, todavia, ela não cogitou em levar o menino consigo.


Toda gente, nas relações do casal, compreendia o assunto e o discutia. Mas toda a gente supunha, eu incluída, que a Teresa gostava do Eduardo. Por isso estranhei a resposta dela, há dias, quando lhe perguntei se levava consigo o filho: - Fica com minha mãe... O advogado insiste em que o deixe ficar... Calei-me – mas os meus olhos devem ter sido eloquentes porque a Teresa, logo em seguida, diz-me, como quem se justifica: - Olha, menina... Um outro marido como o Eduardo arranjo eu... Uma casa como esta é que não... (ARCHER, 1950, p.16).


O final, imprevisto para os padrões romanescos, sinaliza para o valor que materialismo e a razão assumem em detrimento da vivência do romance a sensibilidade, na vida da protagonista.  No trecho acima, percebemos que a casa era mais importante para Teresa do que seu companheiro, no recorte selecionado, a importância dos bens materiais prevalecerá para a personagem.
AS TRILHAS E A CONDIÇÃO FEMININA
A crônica é emblemática e sinaliza para o registro literário do nascimento de um novo perfil de mulher, agora mais consciente e menos dependentes dos ditames sociais e de um status quo.  A crônica selecionada por exemplo, permite-nos observar as relevantes mudanças no comportamento da mulher portuguesa que vive no meio urbano, em contato permanente e crescente com a instauração gradativa da modernidade, principalmente no que tange ao processo de formação da sociedade capitalista.
A narrativa intitulada “Faça mal quem o fizer quem o paga é a mulher”, à partida já se nota o um trocadilho, a apropriação da linguagem coloquial, que sua estrutura pode ser separada em versos de forma que temos “Faça o mal quem o fizer/ Quem o paga é a mulher”, este é formado de redondilha maior, com rima rica, e de fácil memorização.
O conflito gira em torno da personagem Anica, que por ter decidido deixar o marido opressor e acompanhar o amante, torna-se mal vista aos olhos da sociedade. A  personagem lança-se ao impulso de suas escolhas emocionais. Anica – um nome próprio no grau diminutivo já é sintomático – será guiada pelo sentimento da paixão, ao invés da razão, não se importando com o futuro. A representação da personagem foi contemplada na ficção de Maria Archer e deriva para aquilo que Anatol Rosenfeld (2011) afirma:
A ficção é um lugar ontológico privilegiado: lugar em que o homem pode viver e contemplar, através de personagens variadas, a plenitude da sua condição, e em que se torna transparente a si mesmo: lugar em que, transformando-se imaginariamente no outro, vivendo outros papéis e destacando-se de si mesmo, verifica, realiza e vive sua condição fundamental de ser autoconsciente e livre, capaz de desdobrar-se, distanciar-se de si mesmo e de objetivar a sua própria situação.


É neste sentido, pois que, em seu percurso, ao longo da breve narrativa, Anica enquanto protagonista, será construída como personagem esférica. As “personagens esféricas” não são claramente definidas por Forster, mas concluímos que as suas características se reduzem essencialmente ao fato de terem três, e não duas dimensões; serão, portanto, organizadas com maior complexidade e, em consequência, capazes de nos surpreender, pois, conforme diz Candido (2000, p.63):
A prova de uma personagem esférica é a sua capacidade de nos surpreender de maneira convincente. Se nunca surpreende, é plana. Se não convence, é plana com pretensão a esférica. Ela traz em si a imprevisibilidade da vida, — traz a vida dentro das páginas de um livro” (Ob. Cit., p.75). Decorre que “as personagens planas não constituem, em si, realizações tão altas quanto as esféricas, e que rendem mais quando cômicas. Uma personagem plana séria ou trágica arrisca tornar-se aborrecida” (Ob. cit., p. 70).
A narrativa breve indica sumariamente que Anica, embora dispusesse de uma condição financeira estável, andava muito insatisfeita com a vida que levava e, na ânsia de dar um novo rumo à sua existência, ao lado de um novo companheiro, lança-se à nova experiência conjugal, sem, entretanto, assegurar-se, muito menos estudar melhor o caráter do novo pretendente.  Desta maneira Anica, como veremos no trecho abaixo, a protagonista inconscientemente assume os riscos, na medida em que não se importou se um dia Ramiro a deixasse e ela viesse a perder tudo, se arrisca para viver uma paixão:


A Anica, desvairada de amor, fruia com intensidade o momento presente e não pensava nas consequências temerosas dos seus passos de mulher banida da vida das famílias nem no que poderia ser o seu futuro, um dia, se o Ramiro a amasse menos, a amasse pouco, ou a abandonasse. (ARCHER, 1950, p. 193).



A narração é feita por um narrador testemunha, aquele que participou e vivenciou os fatos do enredo, que pode ser justificado com a fala dele, [...] Lembro-me bem daquele dia, há anos, em que o escândalo da sua fuga com o Ramiro ribombou por Lisboa e deixou a sociedade – este meio de gente rica e janota e preconceituosa que a si mesmo se classifica de sociedade – deixou-a espantada e atordoada [...]( Idem, p. 191).


Ele narra em 1ª pessoa, mas é um “eu” já interno à narrativa, que vive os acontecimentos aí descritos como personagem secundaria que pode observar, desde dentro, os acontecimentos, e, portanto, dá-los ao leitor de modo mais direto, mais verossímil. Testemunha, não é à toa esse nome: apela-se para o testemunho de alguém, quando se está em busca da verdade ou querendo fazer algo parecer como tal. (LEITE, 2002, p. 37).


Conforme adianta o narrador testemunha, a qual faz o uso do verbo lembrar, no pretérito, dá a perceber que o narrador conhecia Anica, e vivenciou o fato ocorrido. Segundo Ataíde (1941, p.55) o ponto de vista da trama é visto de modo externo, ou seja, está sendo apresentado por alguém que sabe dos acontecimentos, mas não os vivenciou. Ao olhar para a construção da obra, e para a sua ordem temporal veremos que esta obedece ao tempo cronológico, ou seja, o enredo corre de maneira sucessiva, desde que Anica saiu de casa, passou a viver com Ramiro, mudaram de cidade, e ao fim acaba sendo gradativamente abandonada pelo parceiro e ficando sozinha, isto pode ser percebido nos recortes: (ARCHER, 1950, p. 196) “[...] a Anica via-o partir dia após dia, noite após noite [...] Meses consecutivos, com muitos dias e muitas noites em cada mês[...], para Ataíde:


O tempo cronológico é aquele que se mede pelo relógio, pela sucessividade dos dias e das noites, pelo movimento da terra e da lua, pela alternância das estações. O tempo cronológico consiste num esforço do homem para opor uma barreira ao tumulto subjetivo, às presentificações da memória à duração interior que é imprevisível e incontrolável. (ATAIDE, 1941, p. 47).



A personagem experimenta dupla condenação: o isolamento social por parte dos seus familiares e o afetivo, na medida em que vivenciará o gradativo abandono por parte do amado. Tal constatação deriva do que pode ser percebido na construção narrativa e nos dá a impressão de que os espaços utilizados articulam-se com as demais categorias da narrativa ao nível da história. Na obra são divididos em três sequências, no dizer de Abdala: “Num sentido mais abstrato, é importante que seja considerado o espaço social, a ambiência social pela qual circulam as personagens, e o espaço psicológico, as suas atmosferas interiores”. (ABDALA, 2004, p.48).
Desta forma relacionamos os acontecimentos que ocorrera com Anica, através destes espaços, ao qual, no início, ela circulava tacitamente pelas ruas de Lisboa e fazia parte da alta sociedade, podendo relacionar este como espaço social, em seguida ao fugir com Ramiro, se vê obrigada a passar por sua irmã, e aos poucos acaba ficando isolada em casa, num país estrangeiro, não tendo a liberdade de circular pelas ruas, ou seja, este se torna um espaço físico restritivo, sua vida se restringirá aos limites da sua modesta morada. A partir de então, dará vazão à dimensão do espaço psicológico, pois, a restrição dos deslocamentos funcionará como elemento propulsor para Anica na tomada de consciência do espaço que oprime e como estes podem se tornar espaços de fuga.
Assim, ao impacto das suas constatações, o desfecho da trama se dá quando Anica deixa Ramiro, e volta para Lisboa sem o parceiro e despojada dos seus bens materiais. Notamos a distinção existente entre os homens da trama, enquanto o primeiro faz questão de dizer que é casado com Teresa, Ramiro omite, ou seja, esconde o relacionamento com Anica, sob o pretexto de não perder o emprego, pois o que predomina para ele é posição social, por não aceitarem homens casados com mulheres que fossem divorciadas.
A Anica, nesses anos de peregrinação pelo estrangeiro, desfalcara grandemente os seus haveres. Ao separar-se do Ramiro não dispunha de meios que lhe permitissem fixar residência em Paris. Foi-lhe forçoso regressar a Lisboa, limitar as despesas e viver de pouco. (ARCHER, 1950, p. 199).
As crônicas selecionadas são representativas de distintos perfis femininos. A primeiro trata-se de uma mulher ambiciosa e racional que se arrisca a perder o pretendente a marido, a perder a confortável casa onde vive, e na segunda narrativa, temos a representação da mulher que, ao impulso de viver a segunda experiência conjugal, não se importa com os bens materiais, foi capaz de largar tudo para viver um amor.


TRILHAS QUE SE ABREM...


A coletânea Filosofia de uma mulher moderna, em seu conjunto abordam temas como os vistos acima, exibindo o desafio vivenciado pelas mulheres na luta pela libertação de sua condição de subalternidade, entre outros.  As mulheres dos meados do século XX, época da ditadura salazarista, estavam sujeitas a uma hegemonia masculina, contentando-se apenas com os serviços domésticos e a educação dos filhos. A mulher encontrava-se sob um intenso domínio familiar, antes do casamento submissa ao pai e, após o casamento, ao marido.


Historicamente, a mulher foi sempre mantida como uma figura emudecida e marginalizada em diversos aspectos. O fato de ter sido tomada por sua suposta fragilidade e incapacidade de viver fora do domínio patriarcal implicou, não raro, o sacrifício de sua própria identidade. A tradição sócio histórica relegou à mulher um papel secundário na sociedade. Na esfera doméstica restavam-lhe as atividades de administração dos afazeres do lar e de educação dos filhos de forma que reproduzissem e perpetuassem os papeis sociais preestabelecidos. (ARAUJO, 2012, p. 14).


Da mesma forma, o registro literário na coletânea revela que a condição e o papel reservado para a mulher na vida social daquele momento, onde o lugar privilegiado era destinado aos homens e as personagens femininas, dispunham de espaço restritivo e, não raro, para viver eram submetidas ao regime no qual, sendo vistas como frágeis e incapazes, seu destino seria o casamento. Dessa forma, a literatura de Maria Archer desprende-se do usual, instaura um estilo próprio com seu distinto jeito de escrever, fará aquilo que defende Teixeira: “buscando, por meio de seus personagens, estabelecerem representações que questionam e contestam as posições ocupadas por homens e mulheres na sociedade” (TEIXEIRA, 2008, p. 33 apud MOURA, 2012, p.3).
A representação literária de Archer recria o mundo a partir da sua ótica e fala a por aqueles que não tem voz própria. Como se sabe, eram poucas as mulheres que assumiam a profissão de escritoras naquela altura.  O papel da escrita literária de várias autoras feminina, vista deste modo, era expor o comportamento dos perfis femininos, ligados ao período em que viviam, desta maneira, em suas publicações a representação literária e o engajamento era constante.


Ao recriar na literatura os diferentes grupos sociais é importante um posicionamento condizente com as vivências de tais indivíduos. Compreender o meio social a partir de um único viés não torna possível representar de modo eficaz os grupos que o compõem, já que, mesmo mostrando-se sensíveis e solidários a seus problemas, ainda assim estes não terão as mesmas experiências de vida. (ARAUJO, 2012, p. 34).


A literatura pode ser considerada como uma instituição social, que utiliza como expressão a linguagem, ela pode representar a vida, esta é uma realidade social. O artista se apropria da literatura para através dela fazer uma utilidade social, ou seja, apoia-se em suas vivências para se dirigir ao público. Conforme exprimem  Wellek & Warren, (1955),  ao discutirem a relação entre literatura e a sociedade, é costume começar-se pela frase – derivada de De Bonald - que afirma que “a literatura é uma expressão da sociedade”.


[...] Afirmar que a literatura é o espelho ou a expressão da vida será ainda mais ambíguo. Um escritor não pode deixar de exprimir a sua experiência e a sua concepção total da vida; mas seria manifestamente falso dizer que ele exprime a vida total – ou até mesmo a vida total de uma certa época -  por forma completa e exaustiva. [...] (WELLEK & WARREN, 1955, p. 114).


Desta forma, o artista não é obrigado a escrever sobre aspectos que ocorreram em toda a sua vida, mas sim de determinada época, descrevendo as implicações e relações sociais deste período. Dizer que a literatura exprime a sociedade constitui hoje verdadeiro truísmo; no dizer de Antonio Candido, mas houve tempo em que “foi novidade e representou algo historicamente considerável”.  Na atualidade não é necessário enunciar que a literatura representa a sociedade, conforme defende Candido:
No que toca mais particularmente à literatura, isto se esboçou no século XVIII, quando filósofos como Vico sentiram a sua correlação com as civilizações, Voltaire, com as instituições, Herder, com os povos. Talvez tenha sido Madame de Staél, na França, quem primeiro formulou e esboçou sistematicamente a verdade que a literatura é também um produto social, exprimindo condições de cada civilização em que ocorre. (CANDIDO, 2006, p. 29).


Assim, com base na sua produção e seu legado literário será possível afirmar que Maria Archer recusava enclausurar-se como intelectual e como mulher nos modelos impostos pelos ditames sociais. Essa atitude pode ser colhida nas suas produções criativas, uma vez que a autora alinha-se a um sistema de pensamento e de comportamento não previsto para a condição feminina determinado pela história.  Muito pelo contrário, sua atuação revela que a condição feminina deveria se voltar para novas vias de ação, de argumentação e de reflexão que não as mesmas trabalhadas pelos homens na história da cultura do seu tempo.



CONSIDERAÇÕES FINAIS


Foi possível entrever, por meio da representação literária, na qual incumbe-se de exprimir “A filosofia de uma mulher moderna”, como as mulheres, naquela altura, comportam-se perante seus dilemas e suas angústias existenciais. Desde a escolha entre a razão e a emoção, diante do desafio de se entregar a um novo amor, em que a personagem da primeira narrativa, ao mesmo tempo em que ela decide recomeçar sua vida amorosa, ela teme em perder a casa, agindo com a razão, ela decide deixar o filho, assim, estaria segura a sua moradia com o aluguel muito abaixo do valor de mercado.
Paradoxalmente, a protagonista da segunda narrativa selecionada, como amostra para a identificação do delineamento dos perfis femininos, sob a ótica de Maria Archer, vimos que a personagem não imaginou que seu romance poderia não vicejar, como seria evidentemente desejável para a protagonista, desconsiderou a possibilidade de vir a perder o conforto em que vivia. Ou seja, a protagonista peca por ceder ao primeiro impulso e ao excesso de sensibilidade.
A contribuição literária de autoria de Maria Archer vem sendo gradativamente estudada no âmbito de relação literária e cultural ibero/afro/americana, vimos que autora muito tem contribuído para o avanço da literatura nos países de Língua Portuguesa e pela representação feminina neste contexto literário, uma vez que pela sua visão crítica, produz narrativas que estão muito além da literatura considerada apenas como de “sensibilidade contemplativa” e “linguagem imaginativa”. Suas narrativas são inquietantes porque identificam a opressão, evocam a vida, buscam a emancipação da mulher e, talvez por isso seu nome tenha sido gradativamente apagado e, até certo ponto eclipsado na história da literatura portuguesa.
A representação literária na obra de Archer pode ser considerada um genuíno produto de vida social, pois, através de sua criação é possível entrever questões relacionadas a fatos históricos, sociais e culturais, e que ao mesmo tempo pode ser vista ainda, como um modo de comunicação e expressão do seu olhar sobre a sociedade, a qual, por meio do seu gesto de interpretação estética, o conteúdo da mensagem pode alimentar um desejo de mudança no meio social.



REFERÊNCIAS
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ATAÍDE, Vicente de Paula. A Narrativa de ficção. 2. Ed. São Paulo: McGraw-hill do Brasil, 1941.
BATTISTA, Elisabeth. Maria Archer – o legado de uma escritora viajante. Lisboa: Edições Colibri. 2015. 380 p.
BATTISTA, Elisabeth. Entre a Literatura e a Imprensa: Percursos de Maria Archer no Brasil. Tese de doutorado em Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.
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NUNES, Benedito. O Tempo na Narrativa. São Paulo: Ática, 2002. (Série Fundamentos, 31).
SANT’ANNA, Mônica. A censura à escrita feminina em Portugal, à maneira de ilustração: Judith Teixeira, Natália Correia e Maria Teresa Horta. Revista Labirintos, UEFS, v. 6, jul – dez. 2009. Disponível em http://www.uefs.br/nep/labirintos/edicoes/02_2009/07_artigo_monica_santaanna.pdf, Acesso em 10 de janeiro de 2015.
SANTOS, Magda G. Memória e feminino em Simone de Beauvoir: o problema da recepção. Revista Estudos Feministas – PUC – MG. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2012000300018. Acesso 20 de junho de 2015.
WELLEK, René. & WARREN, Austin. Teoria da Literatura. 5ª ed. Publicações Europa-América, 1955.
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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

HOMENAGEM á DOUTORA MARIA de JESUS BARROSO


EMBAIXADORA AMÉLIA PAIVA





Nesta tão justa e merecida homenagem à Dra. Maria de Jesus Barroso tenho muita honra e gosto em associar-me à comemoração que assinala a vida desta notável portuguesa.


A actuação da Dra. Maria Barroso, numa vida longa e plena de causas e projectos, pautou-se sempre pela coerência na defesa dos valores da democracia, neles se integrando a sua postura de defesa e promoção da igualdade de género pelo que com estas minhas palavras, quero prestar o meu apreço e reconhecimento público pela acção consistente em prol desses valores.


Ao longo dos anos tive o privilégio e o gosto de poder, em diversas ocasiões, privar da companhia e da sabedoria da Dra. Maria de Jesus Barroso, quer quando pela primeira vez tive a oportunidade de a conhecer no papel de Primeira-Dama em Nova Iorque, por ocasião da celebração do 50º aniversário das Nações Unidas, quer mais tarde na minha qualidade de Presidente da Comissão para Igualdade e para os Direitos das Mulheres. Uns anos mais tarde voltámos a encontrar-nos, em Toronto, onde fui co-organizadora dos “Encontros para a Cidadania: A Igualdade entre Mulheres e Homens nas Comunidades Portuguesas” naquela cidade, em 2007, promovidos pela Associação Mulher Migrante. Tive então o grande gosto de receber a Dra. Maria de Jesus Barroso que, com as suas intervenções, muito enriqueceu os debates que, nesse contexto, aí tiveram lugar. Cruzei-me e tive ainda a oportunidade de trocar ideias com a Dra. Maria de Jesus quando coincidimos em várias Conferências e Congressos, o último dos quais nos Açores.


A sua postura pautou-se sempre pela inteligência, sensibilidade e integridade na defesa do respeito dos direitos humanos e, dos direitos das mulheres, em particular. Nas suas intervenções, de grande qualidade e entendimento das realidades sobre as quais se debruçava, mostrou sempre um enorme empenhamento na defesa da igualdade de género e da cidadania em geral, que sempre ancorou num profundo humanismo.


Mª Amélia Paiva
Embaixadora de Portugal em Varsóvia


ANTÓNIO PACHECO



“SOS-África”- um combate de Maria Barroso pela dignidade dos media, também a partir de Cabo Verde

- A génese


Maria Barroso saíra magoada da Cruz Vermelha Portuguesaem 2003. Não era o afastamento em si, decidido pelo ministro da altura. O que a incomodava era o modus faciendi", pouco digno de pessoas de caráter: os maneirismos,os complots, os jovens de gabinete do ministro, promovendo notícias e boatos sobre a gestão danosa” da Presidente deixaram-na de rastos.

A nível internacional Maria Barroso estava a trabalhar, a partir do segundo mandato , no fortalecimento dos laços entre as CVlusófonas. Era um projeto inovador e que reforçava o peso e a presença da língua portuguesa no espaço internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Em 2003, na reunião de Maputo lançava a CPLP da Cruz Vermelha de Língua Portuguesa que ficaria conhecida como o “fórum das sociedades nacionais de língua portuguesa”, uma ideia que seria aprovada por unanimidade e com estatuto legal autorizado em Dezembro de 2003.

Mas toda a gente sabia e era correntemente admitido e pressentido pelas direções das CP do espaço lusófono que o Ministro Paulo Portas queria afastar a curto prazo a Presidente da CVP. Tinham comigo conversas de corredor sobre essa convicção. Eu também sabia que quando do final do primeiro mandato, numa reunião entre Paulo Portas e Maria Barroso pouco se tinha falado dos problemas da CVP; o Ministro passou a maior parte do encontro a falar da “importância e relevo” que a Presidente da CVP tivera, como cidadã, na eleição do Mário Soares para a Presidência da República. Eu sempre achara esta conversa desapropriada e relacionada com o risco do prestígio de Maria Barroso vir a influenciar e promover próximas candidaturas presidenciais. Era desconhecer Maria Barroso…mas para mim, o destino da Presidente ficara traçado nesse momento.

Em 2003, de forma discreta mas eficaz, os presidentes das sociedades lusófonas presentes quiseram ultrapassar o risco do afastamento de Maria Barroso, institucionalizando o cargo de presidente do “Fórum das sociedades de língua portuguesa, propondo, por unanimidade o seu nome para tais funções.
Um dos grandes promotores deste projeto foi o Dr. Dário Dantas dos Reis, um distinto médico cabo verdiano que regressara ao país depois da independência e que assumira as funções de Presidente da Cruz Vermelha de Cabo Verde.

De volta a Cabo Verde

Em 2004, ainda por influência e sob os auspícios do Dr. Dantas, a Presidente da Cruz Vermelha de Cabo Verde e o ministério da defesa, então dirigido pelo comandante Armindo Maurício lançam um repto à Pro Dignitate, aquele que seria um dos grandes projetos dos últimos anos da vida de Maria Barroso : O combate contra a violência nos media, sobretudo nas rádios e televisões. Uma luta que conduzira também a partir da Cruz Vermelha, com mesas redondas envolvendo jornalistas prestigiados, as “ong” e a organização internacional “repórteres sem fronteiras”.

Ano de debate em Cabo Verde. Havia um verdadeiro caso estudo: o desastre de aviação no aeroporto de Santo Antão. Reinava ainda no ar a poeira dos boatos, má-informação e o “diz-que-diz” à volta de um terrível desastre aéreo que ocorrera alguns anos antes no aeroporto de Santo Antão, que levara ao encerramento do aeroporto por longos anos:

- e a sociedade civil como se tinha comportado?

- os órgãos de comunicação social tinham sido capazes de transmitir o drama com objetividade, com distanciamento jornalístico, quimicamente puro?


- tinham as organizações chamadas para atuar na ocasião -serviço de proteção civil, bombeiros, polícia e outras forças de segurança atuado de forma correta?


- tinham prestado a informação correta, esclarecedora às populações, através de comunicados transmitidos na rádio e nos restantes media? Era necessário fazer uma reflexão. Estava tudo debaixo do tapete e em aberto.

A proposta que nos fora endereçada, através do ministro da defesa era: está a Presidente da Fundação Pro Dignitate e antiga presidente da CVP disposta a organizar, aqui em Cabo Verde, um debate sobre esta matéria? Tem equipa para o fazer?

Esta matéria ligava-se a outras duas também fundamentais. É que o jornalismo em situação de crise levanta questões de "direito internacional humanitário” –como proteger e o que proteger. Colocava outro problema: a Fundação devia alargar a sua tarefa à formação de quadros africanos permanentes nas áreas de da atuação do jornalista em situações de crise e de conflito: o tal jornalismo ao serviço da paz .

Todo o sucesso da iniciativa se ficou a dever a uma série de nomes de pessoas de Cabo Verde:
O Ministro da defesa participou e coorganizou o colóquio sobre “o comportamento dos media em situações de crise” que constituiu uma ação de formação para jornalistas, animadores sociais de todo Cabo Verde e que para esse efeito se deslocaram ao Mindelo. Do lado da Pro Dignitate, fora escolhido Ronaldo Monteiro, um estagiário e bolseiro da Fundação para preparar o evento e organizar, in loco, toda a viagem de Maria Barroso a Cabo Verde.

Presente também Isaura Gomes, Presidente da Câmara de São Vicente, uma grande Amiga de Maria Barroso. Em muitas ocasiões ouvi Maria Barroso incentivar Isaura: “Não se fique pela Câmara, você tem estofo para vir a ser a primeira Mulher a ocupar o cargo de Presidente da República de Cabo Verde” e perante o silêncio dos presentes acrescentava: “já viu a importância e o exemplo que seria para todo o espaço de língua portuguesa”? E não resisto a uma observação pessoal: acho que Maria Barroso gostaria de ter ocupado tal cargo em Portugal. Recordo a esse propósito uma outra nota: Maria Barroso costumava contar que a Rainha de Espanha a incentivara diversas vezes: “porque não concorres à Presidência?” Nunca respondera mas sempre entendera, julgo eu, que tal facto não seria bem aceite pelo Marido.

Outro dos grandes Amigos com que ficou na altura foi o Presidente da Câmara de Porto Novo, Dr. Amadeu Cruz. que a convidou para proferir, a 10 de Dezembro, uma palestra sobre os Direitos Humanos e o Direito Internacional Humanitário. Ficou encantada com a visita a Porto Novo, que incluiu visitas ao hospital e a escolas primárias. Ficou sempre ligada à ilha de Santo Antão que tentou apoiar em diversas ocasiões e através de distintos projetos.


Os nomes da Rádio Nova, e do seu diretor dessa altura também não podem ser esquecidos.


Não é por acaso que nasce de dois destes Homens, Amadeu Cruz e Ronaldo Monteiro, a ideia de que se dê continuidade à Pro Dignitate e aos seus programas na área do combate à violência nos media, sobretudo em África, pela criação da ONG-SOS-África, sedeada precisamente em Mindelo, onde se iniciara em 2004, o envolvimento da Pro Dignitate no projeto de jornalismo ao serviço da paz e do desenvolvimento. Trabalharam com Ela nas últimas décadas.

A Comunicação Social no Terceiro e Quarto Mundo infelizmente não acompanha a realidade dos países e das regiões fora do espaço do mundo industrializado; o poder e os lobbies dos media são controlados por preocupações que nada têm de ético; as escolas de jornalismo, dentro de uma tradição eurocêntrica e colonial , reforçam a perspetiva de uma informação acética que não sabe ler, escutar e ver as comunidades em que se inserem. Esta será a luta que, em nome de Maria Barroso, vamos continuar num verdadeiro esforço SOS.

António Pacheco
Secretário-Geral da Fundação PRO DIGNITATE




ARCELINA SANTIAGO


MARIA BARROSO EM ESPINHO 

Conhecer Maria Barroso pessoalmente foi para mim a confirmação daquilo que eu imaginava desta cidadã que se afirmou na sociedade portuguesa pela sua ação e postura. Sempre a admirei muito e penso que é um sentimento generalizado a todos os portugueses. Habituamo-nos a admirá-la não apenas pela sua ação enquanto primeira dama do país, como mulher do primeiro ministro, e depois como mulher do Presidente da República, mas por aquilo que ela foi enquanto cidadã, defensora de causas, pedagoga, mulher sensível e com uma capacidade de comunicação excepcional.

Foi em Espinho, na altura do Encontro Mundial da Associação Mulher Migrante. Cumprimentámos-nos e sorrímos. Encetámos uma conversa onde temas diversos foram aflorados. Mais adiante, revelámos projetos, e trocámos ideias. Parecia que nos conhecíamos-nos há muitos anos. Certamente que tínhamos muito em comum, mas a empatia que se apoderou de nós foi determinante. E não me esqueço da expressão acolhedora, simpática , sempre atenta e atenciosa, escutando tudo serenamente. No fim, disse-me " tem já tanta experiência, faz tantas coisas e é tão novinha!" Foi um elogio marcante, embora eu lhe tenha dito que não era assim tão nova...
Mais tarde, outra vez em Espinho, encontramos-nos nas comemorações do Centenário da República. Maria Barroso presenteou-nos com uma comunicação fantástica, fazendo jus às mulheres mais marcantes da Primeira República.
Apresentei-lhe um grupo de alunos que ansiavam conhecê-la. Maria Barroso foi a inspiradora da vontade destes alunos quererem estudar a vida dessas mulheres naquele período da nossa história. O papel das mulheres na Primeira República apresentado pela Dra Maria Barroso deu-lhes a conhecer os papéis relevantes de mulheres numa sociedade marcada pelo masculino. Quando mais tarde aconteceu uma réplica de um serão republicano , promovido pela Câmara Municipal de Espinho, alguns destes alunos encarnaram algumas dessas personagens. Entretanto, estava prestes a chegar o dia 28 de Maio. Esse dia era muito especial pois fazia 99 anos que a primeira mulher portuguesa votou. Ela foi pioneira em Portugal e na Europa. Com base numa carta que a própria Carolina Beatriz Ângelo escreveu ao director do jornal A Capital, tentando repor a verdade e esclarecendo sobre o que se passara no dia anterior, foi elaborada uma peça, recriando esse momento histórico. Vivemos intensamente toda a envolvência da época, do vestuário ao local, sentimentos, opiniões, tomadas de posição, ou seja, um cenário revelador de um tipo de sociedade, numa República ainda a despontar. Fomos convidados pela senhora Vereadora da Cultura , Dra Manuela Aguiar, para representar na Tertúlia “ O Papel das mulheres na República dos homens” na Biblioteca Municipal no dia 28 de Maio e aceitámos o desafio. Poderemos concluir que tudo isto aconteceu inspirados pela Dra Maria Barroso.
Os alunos ficaram surpresos com a sua jovialidade, entrega, simpatia e simplicidade. Na verdade, todos concordaram que estavamos perante uma grande senhora que ficará para sempre na memória coletiva de um povo.
Foi uma mulher inspiradora, mulher de pensamento e de ação. Mulher sábia, mulher solidária , mulher acolhedora, mulher de paz, mas mulher guerreira na defesa de causas e valores. Partiu, mas deixou-nos um precioso legado, um exemplo como pessoa e cidadã . Foi para mim um privilégio conhecê-la de perto e ter tido a honra de estar em algumas iniciativas promovida pela Associação Mulher Migrante. A última aconteceu em Lisboa na Fundação Pro Dignitate que acolheu a exposição de arte no feminino e onde celebrámos os vinte anos da Associação e os da nossa inesquecível anfitriã - Maria Barroso!

Arcelina Santiago
Professora

GONÇALO NUNO PERESTRELO SANTOS


MARIA DE JESUS SIMÕES BARROSO SOARES

Todos os portugueses saberão tudo sobre Maria de Jesus Simões Barroso Soares. Sobre a mulher, a esposa, a atriz, a ativista, a professora, a lutadora pela cidadania e pela igualdade entre homens e mulheres. A Senhora das grandes causas ou, sobre a “outra metade” de Mário Soares e eu francamente nada mais sei que os meus compatriotas, sobretudo dos que mais a estimam.

Foi graças à Manuela Aguiar que organizou o Encontro Mundial de Mulheres Migrantes, na cidade de Espinho, em Março de 1995, que me levou a conhecer a Doutora Maria Barroso. Encontrei-A, nesta e em tantas outras ocasiões, mas Ela nunca me reconhecia a não ser que eu falasse; -já me lembro, o senhor é da Madeira, olhe que a sua Terra é muito bonita, já lá estive com o Mário.

A primeira vez também foi assim. O Mário estava em todas as frases, em todas as vírgulas em todos os pensamentos. Eu gostava de ter uma mulher que falasse de mim em todos os momentos. Uma mulher que tirasse as vírgulas das frases e as substituísse pelo meu nome. Uma mulher que visse em todos os homens a minha cara e que mesmo assim fosse tão independente e livre como Ela era.

No tal jantar, na primeira vez que nos encontramos, ficamos um ao lado do outro. Os nomes de chefes de estado, de presidentes, de viagens e de lugares surgiam a uma velocidade que ultrapassava o sonho e nenhum sonho de nenhum mortal poderia ser tão completo. Fiquei quieto. Às tantas fez-me uma pergunta que eu não percebi. Pelo que e muito bem, deu a resposta e desatamos a rir. Sorria inclinando-se ligeiramente para a frente para que ninguém percebesse. Falava amiúde de nobres causas mas notava-se que das suas palavras saiam ações. Militante da liberdade, admiradora da Humanidade e da Obra sublime da Criação entendia que o Seu dever para com todos ultrapassava de longe a sua própria e frágil forma física. Não julguei nunca que necessitasse de reconhecimento. Bastava-lhe o Povo português, a sua família e, claro está o Mário.


Tiramos uma foto, a Manuela a falar, a Rita Gomes a olhar para mim, a Maria Beatriz muito séria, a Doutora Maria de Jesus Barroso e eu, olhando um para o outro, rindo de nós próprios, não me lembro porquê. Guardo esta foto no meu “ wall of fame”, onde estão outras individualidades que a vida me levou a conhecer.

Das outras vezes que falamos recordo sempre o carinho, a simpatia mas sobretudo a determinação de Maria Barroso e o seu empenho em executar algo de extraordinário. Tratava-se de uma Figura de Estado ímpar que incorporava em si o que de melhor a Pátria tem para oferecer, de uma dimensão que ultrapassava o comum dos mortais. Sempre que podia, sentava-me ao seu lado, mesmo que não me reconhecesse, mesmo que fosse para dizer nada.

Aqui têm o meu motivo. Falo pois e tenho legitimidade de falar, de quem vive comigo na minha casa, na casa dos meus sonhos, não tenho outros amigos senão os que vivem em mim e admiro, pois é graças a eles que encontro o meu caminho e a minha responsabilidade de servir o coletivo, Maria Barroso foi um grande exemplo para muitos de nós.

Paz à Sua Alma

Gonçalo Nuno Mendonça Perestrelo dos Santos
Funchal, 29 de Setembro de 2015 


GRAÇA GUEDES

ATÉ SEMPRE, DRª. MARIA DE JESUS BARROSO
O que dizer mais nesta minha singela, mas muito sentida homenagem a esta grande Mulher, que há tão pouco tempo nos deixou e de quem já tantas saudades nos invadem? E, tal como
Manuela Aguiar afirma nesta publicação… deixou um país inteiro saudoso de si, definitivamente orfão do seu sorriso maternal, da sua demanda de justiça e de bem estar para todos, da mobilização para uma cultura de paz e de amizade.
O que dizer mais, depois de ter lido tantos textos magníficos e que tive o privilégio de conhecer, uma vez que integro o grupo que coordena esta edição?
É uma tarefa difícil, impossível até, reduzindo-me a um resumo dos momentos de partilha e de aprendizagem que me foram proporcionados pela Associação ECS Mulher Migrante, aquando dos muitos eventos que realizou e onde estivemos juntas.
E tudo começou em 1995, no aeroporto de Pedras Rubras, agora Sá Carneiro, quando tive a honra de a ir esperar para trazer para Espinho ao encerramento do Encontro Mundial Mulheres Migrantes – Gerações em Diálogo ao que iria presidir. Tal como diz a Arcelina no seu texto, também quando nos cumprimentamos, … o seu sorriso aberto e franco, dava a entender que já nos conhecíamos há muito tempo.
De então para cá, muitas oportunidades houve para a conhecer e que me levam a ter a ousadia de fazer minhas, todas as palavras das restantes autoras.
Viajamos juntas, ficamos alojadas no mesmo hotel em Buenos Aires, em Estocolmo, em Joanesburgo aquando da nossa deslocação para os Encontros para a Cidadania. Oportunidades fantásticas para ouvir as suas conferências, sempre brilhantes e poéticas, para conversarmos durante as refeições, para andarmos às compras ou visitar museus, sempre interrompidas por anónimos que a cumprimentavam e com quem conversava amenamente, não para dizer palavras de circunstância, mas para as conhecer melhor, com aquela simpatia e simplicidade que magistralmente a caraterizavam.
Mas também em Portugal, sempre em organizações da Associação Mulher Migrante.
Em todos esses momentos pude perceber a dimensão multifacetada da sua personalidade vanguardista, que felizmente é dada a conhecer nos testemunhos incluídos nesta publicação, qual instrumento precioso para nunca esquecermos esta Mulher e dar a conhecer às gerações vindouras, o seu… legado de cidadania verdadeiramente intemporal, tal como nos diz Manuela Aguiar.

Graça Guedes
 Professora Catedrática Universidade do Porto

ISABELLE OLIVEIRA










HOMMAGE À UNE FEMME D’EXCEPTION





Les gens dépassionnés, je les plains.
Je trouve qu'il faut être passionné.
Si on veut donner un sens à sa vie,
il faut aimer quelque chose au-delà de soi-même. (Jenny Alpha)


L’exercice en forme de récit auquel je me livre aujourd’hui est étourdissant, et il est vrai que j’ai le droit de le craindre. On ne sort pas indemne d’une rencontre avec Maria de Jesus Barroso Soares, femme exemplaire, généreuse, avec une sincérité désarmante.
Des mots qui traversent les âges et ré-inventent le passé.
Cette Grande Dame petite par la taille mais grande par sa conviction a consacré sa vie à se battre contre les systèmes qui brisent femmes et hommes, pour plus de Justice, pour l’humanité, pour la vie tout simplement.
Vous avez été certainement abreuvée de jalousie par une minorité, mais une large majorité continue à vouer une sorte de culte à l'icône que vous êtes devenue.
Avec une rigueur à toute épreuve, vous êtes, en vérité, une éternelle rebelle sous un habit de douceur. Vous êtes féministe, vous défendez la cause des femmes avec une fermeté implacable, mais vous n'adhérez pas aux thèses de celles qui, à l'image de Simone de Beauvoir, nient les différences entre les sexes. Vous êtes du côté des plus faibles, mais vous refusez toute victimisation. La vie, qui n’a pas toujours été tendre avec vous, n’a cessé, cependant, comme pour s'excuser, de vous offrir des chances qui sont autant d'hommages à votre personne, à votre intégrité et à votre talent. Vous avez toujours été libre, véhémente et sereine. Vous le resterez, tout au long de vos fonctions, et au-delà. Sur plusieurs points, vous avez su marquer votre indépendance.
À plusieurs reprises, dans des bouches modestes ou dans des bouches augustes, j'ai entendu parler de votre caractère. C'était toujours dit avec respect, avec admiration, avec affection, mais avec une certaine conviction : il semblerait, Madame, que vous aviez un caractère difficile. Difficile ! Oui, Madame Maria de Jesus Barroso était une femme de caractère et avant-gardiste dans bien des domaines, elle savait exactement ce qu’elle voulait.
Il y a en vous comme un secret : vous êtes la tradition même et la modernité incarnée. Je vous regardais, Madame : vous me faisiez alors penser à ces grandes dames d'autrefois dont la dignité et l'allure imposaient le respect. Et puis, en regardant votre parcours, je vous ai toujours vu comme l’une de ces figures de proue en avance sur l'histoire. Votre curiosité intellectuelle insatiable et votre sens aigu des détails signalaient une nature inquiète et fiévreuse qui a fait avancer le monde. J’ai retenu de vous qu’on apprenait souvent davantage de vos interrogations que de vos réponses.
Oui, il y avait de l'énigme en vous : une énigme limpide et lumineuse jusqu'à la transparence qui suscitait de l’admiration mais, dans votre cas, quelque chose d'autre s'y mêlait : du respect, de l'affection, une sorte de fascination. Beaucoup, au Portugal et au-delà des frontières, auraient voulu vous avoir, pour confidente, pour amie. J’ai eu la chance inouïe d´être votre amie et le bonheur de passer des instants inoubliables à vos côtés, d’apprendre de votre exigence, de votre savoir, de votre humanisme et de votre liberté.
De toutes les figures de notre époque, vous êtes sans l’ombre d’un doute l'une de celles que préfèrent les portugais, mais non seulement. Les seuls sentiments que vous pouvez inspirer et à eux et à nous sont l'admiration et l'affection. Vous incarnez avec plus d'éclat que personne les temps terrifiants où nous vivons, où la violence s'est déchaînée comme peut-être jamais tout au long de l'histoire de l’humanité et où quelques-uns, comme vous, ont lutté contre elle avec détermination et courage et illustré les principes, qui ne nous sont pas tout à fait étrangers, de liberté, d'égalité et de fraternité.
En guise de conclusion, il y a encore des personnes hors du commun qui vous font changer votre façon de voir les choses et de croire en ce rêve d’un monde meilleur. Non pas par la force brute, mais par la force de la vie, la beauté et la puissance de leur personnalité. Votre seul défaut, Madame, était de vous oublier pour les autres, mais comment pouvait-on vous le reprocher? Aujourd’hui, je veux avant tout me souvenir de ces moments que nous avons partagés et je continuerai à porter avec d’autres, les mêmes combats que vous avez portés. Votre mémoire perdure à jamais parmi nous ! Soyez-assurée que votre survie est un pont entre deux mondes !


Isabelle Oliveira
Vice Reitora da Universidade Sorbonne



D. JANUÁRIO TORGAL FERREIRA
 
Cidadã do mundo, a Drª Maria de Jesus Barroso Soares atravessou a existência, plena de humanidade e de são inconformismo, recriando-a através da promoção da realidade cívica e do culto da arte.
A edificação da Cidade é sempre irmã – gémea da criação cultural: em todos os instantes urge defender a realidade pública do viver  humano e pronunciá-la  como  obra  sempre inacabada.
Quem teve a dita e o usufruto pessoal de contactar com esta Senhora, acolheu do seu exemplo esta vertigem da responsabilidade: a comunidade das pessoas exige direitos e deveres, à semelhança de um reduto onde deverá ser impossível a violência.
O espaço da paz é uma instância aberta aos seus protagonistas, cultivando a justiça, a liberdade, a cooperação solidária, iluminando-as, ao mesmo tempo, com o cultivo do bom gosto e da arte. A Vida real é feita de acontecimentos, tanto mais reais quanto sentidos pelos outros.
Mais singulares que os nossos, são sempre os valores (presentes ou ausentes) alheios. O exílio da realidade é o estado normal da desumanização.   Pois  bem.   O  tom  humano  e  humanizado  da Drª Maria de Jesus, manifesto da forma mais espontânea, representou sempre uma lição de sensibilidade, de envolvência cívica, de unidade franca e afectiva.
As pessoas e os seus acontecimentos foram uma sua porção, uma sua pátria, uma sua comunidade, uma sua família, sem exibicionismos nem saltos à visibilidade. O mundo humano e desumano era a sua casa, sempre a habitar e a prover das entidades com que se transforma o mundo.
Esta a exigência de uma ética planetária, a qual rege o comportamento comum, sem monopólios nem discriminações.
É missão de qualquer convivente do universo a prática da justiça, a incomodidade face ao desrespeito dos direitos, o devotamente aos vazios, para que cessem, de acordo com a sentenças clínica e transversal a diferentes culturais: “faz aos outros o que querias que os outros te fizessem”.
A “Pro Dignitate”, instituição que dirigiu, teve sempre o sentido de um brasão: a favor da dignidade: Mas, mais do que um emblema, sempre personificou um compêndio de convicções ou da certeza de princípios. A luta a favor da erradicação da pobreza, o serviço á paz nas suas dimensões plurais, a sensibilidade à educação e à pedagogia, o culto da verdade e da isenção da comunicação social, a vivência da diáspora portuguesa e da sua condição migrante, o diálogo inter-religioso, a cultura nas suas várias manifestações com relevo para a arte da representação e da dicção, e demais sectores humanos, traduziram respostas concretas a problemas da cidadania.
Desde sempre foi este universo de saberes e preocupações, um gesto e uma predilecção. De igual modo, as suas naturais boas maneiras constituíram um modelo de respeitabilidade. Talvez por esse motivo, que nunca por tom palaciano, a opinião pública sempre a distinguiu como “Senhora”, que era!
A naturalidade, a dedicação sem limites, a abertura de espírito, a adesão a causas de exclusão, a tolerância, a cordialidade solidária, o carisma do diálogo, a coerência prática diante de opções cívicas, políticas e até confessionais, são muitas das cores com que pinto, interiormente, o retrato que me deixou da sua vida !
A alguns meses de sua morte, confidenciou-me que se andava a desprender da vida.
E acrescentou: “Vivo em paz e em serenidade”.
Uma mulher portuguesa, digna, recta, justa e solidária, a Senhora Drª Maria de Jesus Barroso Soares!
O seu sonho de mudar o mundo nunca foi em vão!
Há pessoas que não morrem. Foi o caso!     

                                                          Januário Torgal Mendes Ferreira 
                                                                            Bispo emérito
Lisboa, 30 de Novembro de 2015


 LEONOR XAVIER



MARIA BARROSO
Ausente Presença
Por Leonor Xavier
Nela, vejo a liberdade como princípio de vida, a família como força e estrutura de caráter, a política como disciplina de comportamento, a fé como misteriosa e firme revelação em idade madura. Vinte anos depois de me ter perguntado se eu queria escrever a sua biografia, penso em Maria Barroso com a alegria de bem a ter conhecido e o fundo desgosto de a ter perdido. Ausente presença a guardo e a revejo, até hoje sou capaz de ouvir o som da sua voz.

Nas celebrações da morte, perguntaram-me a sua maneira de ser, o ambiente em que nasceu, os estudos, os amigos, o teatro, o amor, a política. Falou-se dos seus gestos de atenção aos outros, aos mais simples, aos anónimos. Foi relembrada a sua maneira clássica de vestir, a determinação no estilo, a harmonia nas cores, conforme as variadas circunstâncias em que estava presente. Forte e claro era o seu discurso amoroso constante, sempre que falava do seu amor de juventude, com devoção. As prisões, os exílios, as separações, os medos. Compensados pela coragem, pelo atrevimento, pela liberdade com que sempre se exprimiu nas causas que desde sempre defendeu.

Na sua expressão pública, Maria Barroso disse a importância da família na ordenação da sociedade, o perigo da violência, o valor da educação, a firmeza da palavra dada. Empenhou-se na assistência, aos flagelados, às vítimas de seca ou de chuva, no socorro às margens da sociedade. Nas questões políticas e sociais, intervinha, bem conhecendo os problemas comuns a todos e a todas, neste tempo. Podendo ser intolerante e até radical quando discordava, ela sentia a compaixão e praticava a misericórdia, a solidariedade, a doçura.
Na sua postura, vejo a marca de formação que recebeu como atriz nos anos 40 da sua juventude. Desde que no Teatro Nacional pertenceu à Companhia de Amélia Rey-Colaço-Robles Monteiro, para sempre lhe ficou a clareza na maneira de falar, a certa medida das frases, a colocação de pausas e pontos finais, o momento justo da respiração. As costas direitas, o olhar determinado, a expressão dos olhos a confirmar o que dizia e como dizia.

Desde o fim do segundo mandato do Presidente Mário Soares e até à morte, Maria Barroso teve uma média de duzentas intervenções públicas por ano. Dezenas de percursos pelo país inteiro. Uma vintena de viagens anuais, para destinos de curta e de longa distância. Fez conferências em escolas e universidades, participou em debates e congressos. Pela defesa dos direitos humanos, e pela cooperação lançou campanhas, procurou e conseguiu ajudas, apoios, parcerias. Na urgência de realizar, acreditava que as soluções possíveis existem.

E até hoje recordo e aqui cito o testemunho que deixou: “O meu reencontro com a fé deu-me uma serenidade muito grande para olhar todo o percurso da minha vida, despedir-me deste mundo sem receio nem angústia.” Escrevi-o no último capítulo da sua biografia. Sem imaginar que algum tempo depois, a hora da morte lhe chegava.



 MARIA DE BELÉM ROSEIRA



TESTEMUNHO
A Senhora Doutora Maria de Jesus Barroso era uma das personalidades públicas mais estimadas do País.
O seu desaparecimento provocou um sentimento muito alargado de consternação. Eram infindáveis a s filas de pessoas que quiseram prestar-lhe uma última homenagem, num movimento a que raramente se assiste em Portugal. Apesar da sua avançada idade, a doçura do seu sorriso fazia-nos pensar nela como uma Mãe de todos nós.
Dizia sempre “presente” quando lhe pediam conselho, colaboração ou participação. Nunca abandonou as causas da sua vida e não recusava qualquer convite onde pudesse exprimir e verbalizar a importância de lutar por aquilo em que acreditava.
A primeira das suas batalhas, a da defesa da Liberdade, condição de base para o exercício dos direitos humanos que sempre defendeu e promoveu. Fê-lo com denodo, coragem e verticalidade quando era difícil e perigoso e nunca se amedrontou.
A segunda das batalhas que empreendeu ao longo de toda a sua vida foi a do ensino e do ensino com qualidade. Pedagoga de méritos reconhecidos e com provas dadas, orgulhava-se das diferentes gerações das mesmas famílias que tinha tido o gosto de ensinar e conhecia todos pelo nome! Lia-se-lhe nos olhos o afecto com que tinha exercido a docência e como continuava a acompanhar, todos os dias, o que se passava no seu Colégio.
A terceira das batalhas, a defesa e a promoção da Cultura.
Declamadora respeitada e reputada, contribuiu para a divulgação da obra das nossas grandes poetisas e dos nossos grandes poetas.
Era incansável, generosa, afectiva, corajosa e doce. Nunca receou envolver-se na defesa de princípios, mesmo quando essa defesa era incómoda, como a da denúncia da cultura de violência veiculada pelos meios de grande difusão. Entregava-se às ideias que defendia de corpo inteiro: com convicção e sólida argumentação!
Foi uma Mulher enorme, na sua vida privada e na sua vida pública. E soube estar sempre junto das portuguesas e dos portugueses lá onde quer que elas e eles se encontrassem –em qualquer parte do Mundo.
O que dela podemos dizer, em tempos conturbados como aqueles que estamos a viver, é que esta grande Senhora, que espalhou portugalidade pelo Mundo inteiro, que soube sofrer com os que sofriam e construir esperança junto de quem não a tinha, nos faz falta!
Faz-nos, mesmo, muita falta, sobretudo pela imensidão do que ainda teríamos que aprender com ela e com a sua generosa forma solidária de estar no Mundo!

Maria de Belém Roseira
Antiga Ministra da Igualdade






NATÁLIA RENDA CORREIA


MARIA BARROSO
Hablar de María Barroso, es realmente hablar de una de las Mujeres más destacadas de Portugal, de todos los tiempos.
Bajo mi óptica puedo decir que fue una Mujer multifacetica, Diputada, Profesora, artista, defensora de los derechos humanos, defensora del sentido de familia, fundadora de la ONGD Pro Dignidade, se ocupó de la lucha contra el Racismo, la Xenofobia, la Violencia, fue creadora del Movimiento de Emergencia de Mozambique, se ocupó de los niños, fue la primera mujer portuguesa presidente de la Cruz Roja, una gran presidente.
Por esta y otras creaciones que ha realizada , María Barroso, está en el corazón de todas las personas que la conocieron, nunca pasaba inadvertida donde se hallara por su gran personalidad, dando el comentario necesario, la palabra justa.
María Barroso era una Mujer con un gran conocimiento de la Historia Portuguesa, siendo parte activa de su Patria al lado de su esposo , Presidente de la Nación, Dr. Mario Soares, se dice de detrás de un gran Hombre siempre hay una gran Mujer y la Dra. María Barroso reunía todos esos conceptos.
Tuve el Honor de recibir a la Dra. María Barroso el día 12 de Noviembre del año 2005 en Buenos Aires, Argentina, donde la Asociación Mulher Migrante Portuguesa de Argentina, organizó en la Sala Jorge Luis Borges, el Seminario Encontros para a Cidadania, que duró varios días, donde participaron 38 panelistas. Hombres y Mujeres de Portugal, de Brasil, de Venezuela, Uruguay,Argentina, Suecia,
Con la presencia del Secretado de Estado Dr. Antonio Braga, del Embajador António de Almeida Ribeiro y su Sra. esposa Sra. Embaixatriz Isabel de Almeida, la Dra. María Manuela Aguiar, Dra. Rita Andrade Gomes Pte. de la Mujlher Migrante de Portugal, Maria Kodama, la viúda de Borges, y muchas personalidades más, con la presencia de personalidades de la RTP de Portugal, Periodistas de la prensa Escrita y Radial, la mayor Delegación que tuvimos en la Argentina.
En otras oportunidades tuve la oportunidad de estar, en Lisboa, luego en Maia, donde pude ver su participación siempre dejando una enseñanza en todos los órdenes , reflejaba su don del saber, fue es y será siempre admirada por todos, ya que Mujeres con estas características quedan en la retina de todos que la conocieron.
Admiro a María Barroso porque le tocó luchar en una época machista, cuando una Mujer conseguía un derecho era todo una lucha personal muy costoso, ya que el papel de la Mujer no tenía ninguna oportunidad para lucirse. La que logró, logró porque tenía muchas virtudes, del conocimiento y de la ubicación personal para poder llegar a donde pretendía con sobrantes valores.
María Barroso una Mujer a imitar, por todas hoy y para siempre

Natália Renda Correia
Dirigente da Associação Mulher Migrante Portuguesa na Argentina