terça-feira, 6 de janeiro de 2015

EXPRESSÕES FEMININAS DA CIDADANIA
A MULHER PORTUGUESA NO RECIFE
Tenho a honra e a satisfação de fazer parte de um grupo que desde
1985 e em Viana do Castelo, naquele que foi o 1º. Encontro de
Portuguesas Migrantes no Associativismo e Jornalismo organizado pela
Secretaria de Estado da Emigração, que iniciou este caminho de estudo e
investigação que envolve a problemática da mulher portuguesa na nossa
diáspora e que desde há vinte anos é também protagonizado pela
Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade Mulher Migrante.
Tive a honra e a satisfação de ter participado em todos os Encontros
Mundiais e em muitos dos eventos científicos ao longo destes vinte anos
de vida desta Associação.
Demonstrando que a nossa Associação está viva, poucos dias depois
do Encontro Mundial de Lisboa, ela atravessou o Atlântico e veio até ao
Recife, para retirar do anonimato e, consequentemente, dar visibilidade
ao contributo da mulher portuguesa no nordeste brasileiro, na
disseminação da Ciência, da Literatura, da Saúde, da Arte, da Segurança
Social, do Empreendedorismo, refletindo assim a sua projeção social e
profissional neste espaço da nossa diáspora.
Fui de certa forma responsável pelo Encontro EXPRESSÕES
FEMININAS DE CIDADANIA – A MULHER PORTUGUESA NO RECIFE e, tal
como está relatado na publicação que ora é apresentada, teve lugar no
Gabinete Português de Leitura em Novembro passado e propiciou uma
partilha de saberes e de percursos de vida de portuguesas, de luso
descendentes e de brasileiras, proporcionados por um grupo de preletoras
e preletor, especialmente selecionado e com vínculos da maior
importância neste Estado do Brasil – do Governo do estado, da Prefeitura
do Recife, da Universidade, do Real Hospital Português, Empresarial e
Social - que nos honraram com as suas prestações.
Naquele espaço emblemático e magnífico da cultura portuguesa – o
Gabinete Português de Leitura – e perante uma centena de participantes,
a Associação de Estudos Cooperação e Solidariedade " Mulher Migrante"
comemorou mais uma vez os seus vinte anos e com um especial
significado: nesse dia, comemorava-se também o Ano de Portugal no
Brasil.

À memória de Carlos Correis - Dr BENTO COELHO

Conhecemo-nos há mais de 40 anos. Vivia-se uma época de grande  euforia, provocada pela libertação do país das amarras que nos  tolhiam o movimento e o pensamento desde a nossa infância. Eram  tempos com liberdade, democracia, igualdade, fraternidade,  solidariedade, amor, amizade. Esta reganhava  uma nova dimensão.
Era preciso saber construí-la e preservá-la.Calcorreámos, desde então, os caminhos da vida com enorme
frenesim, rapidez, confiança, mais libertos, mas também mais responsáveis.
Fomos cúmplices em múltiplas situações, cimentámos a nossa amizade, no emprego, no quotidiano, aprofundámos o conhecimento mútuo, no  mesmo prédio, fomos vizinhos/amigos, colegas de profissão e
defensores dos mesmos interesses e direitos humanos. Tivemos uma  paixão comum, que iria traçar o rumo das nossas vidas e, em  determinadas ocasiões, afastar-nos geograficamente. As migrações também serviram de pretexto para aprofundar todos aqueles valores  sublinhados e enfatizados. Dedicámos quase toda a nossa vida profissional, o nosso saber, os conhecimentos, o esforço, a dedicação, à defesa das Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo fora.
Em boa verdade, fomos frequentemente Embaixadores de Portugal junto dos portugueses que no estrangeiro precisavam de estímulos, de apoio,de esclarecimentos de alguém que vinha do seu país.
Participámos em muitas acções, trabalhos, diligências - às vezes mal compreendidos pelos interlocutores - em benefício dos interesses e direitos dos nossos compatriotas. No final, concluíamos sempre que tinha valido a pena a nossa labuta, o nosso crer, a nossa dedicação.
E é por recordar tudo isto que penso que aquilo  que conseguimos alcançar, despretensiosamente na vida, não constituiu um mero acaso, ou favorecimento. No que a ti diz respeito, posso garantir-te, fez-se justiça.
Claro, amigo, tivemos que lidar com pequenas divergências, defendemos, por vezes, pontos de vista diferentes, mas quando nos encontrávamos cá ou em qualquer parte do mundo, tínhamos a certeza que a nossa amizade perdurava e saía sempre mais fortalecida.
E é por tudo isto que, bem compreendes, me seja muito difícil redigir, tal como amigos comuns me pediram, um texto de homenagem a ti.
Sempre conseguimos transmitir um ao outro  tudo o que era oportuno e julgo que tal continuará a acontecer.
Pela minha parte só te posso prometer que tentarei, do lado de cá, prosseguir o rumo que traçámos, defender tudo aquilo em que acreditávamos, fazer florescer as sementes que lançaste à terra. Estou certo que farás o mesmo, do lado de lá, no local que encontraste para descansar de todas as amarguras, esforços, trabalhos, dedicação, amor ao próximo, que sempre alimentaste. Estou também convicto que desejarás que continuemos a falar de ti e contigo como sempre o fizemos, sem alterar o tom de voz, que continuemos a rir das situações mais divertidas que vivemos (e se aconteceram...).
Afinal, a vida tem que continuar. Aquilo que nos unia mantém-se. Nós não estamos longe. Estamos perto no pensamento, embora, por enquanto, de lados diferentes da vida.
Por isso, não te quero  incomodar mais com palavreado inútil, porque nunca conseguiria transmitir tudo aquilo que tu bem merecias, amigo.
Carlos,descansa em paz e até já!...

domingo, 4 de janeiro de 2015

AEMM Região Norte VERTENTE EDUCACIONAL

A vertente educacional na Mulher Migrante – Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade Ciente de que pela educação poderemos tornar o mundo melhor, mais justo e
harmonioso, a Mulher Migrante - Associação de Estudo Solidariedade e  Cooperação (AEMM)  tem tido a preocupação de incentivar jovens estudantes  a participar ativamente nas suas iniciativas. Os resultados estão patentes nas  mais recentes publicações lançadas em janeiro de 2014: Expressões
Femininas da Cidadania – III Encontro Mundial de Mulheres da Diáspora e  Entre Portuguesas – 20 Anos da Associação Mulher Migrante. Há neles trabalhos desenvolvidos por alunos e professores, presentes no Encontro  Mundial “Mulheres d’Artes da diáspora portuguesa – as migrações e as artes
no feminino”, realizado em Espinho, primeira iniciativa, no ano da comemoração dos vinte anos da Associação Mulher Migrante. Os alunos  declamaram poemas sobre o tema da partida e da chegada tão presentes no “Mar Português” de Fernando Pessoa, “Emigração Portuguesa” de Rogério  Martins Simões, “Regresso” e “Ei-los que partem” de Manuel Alegre e Manuel  Freire, respetivamente, e ainda “ A hora da partida” de Sophia de Mello Breyner. Para a sessão, os alunos prepararam com os seus professores  perguntas que os despertaram para temáticas como a arte e a participação
cívica, as mulheres da diáspora. Mais tarde, elaboraram um questionário- entrevista dirigida a algumas artistas. Fizeram navegar as suas caravelas, construídas com materiais reciclados até ao local da exposição, cheias de dignidade e beleza já que elas representam, de forma simbólica, a diáspora
portuguesa, com a partida dos nossos primeiros navegadores tão bem  representada no episódio da partida das naus, na obra prima da nossa literatura e da autoria de Camões.
Num segundo momento deste Encontro, aconteceu um debate entre as artistas  presentes na bienal, alunos americanos acompanhados pela Professora Doutora Deolinda Adão e professores e alunos das escolas de Espinho. Aí  surgiu a ideia de um novo projeto a que demos o nome: Projeto Berkeley-
Espinho - uma parceria entre os alunos americanos, estudantes de Estudos  Portugueses, na Universidade de Berkeley e da California State University - San  Jose, ambas instituições públicas do Estado da Califórnia e os alunos da  Escola pública portuguesa de Espinho.
 No dia 17 de janeiro,na Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva, em Espinho  foi celebrado o protocolo, promovido Associação, representado pela Presidente  da Assembleia Geral, Drª Manuela Aguiar e Arcelina Santiago, membro de ligação entre a Associação e as Instituições de Ensino. Assinaram o protocolo: as Universidades de Berkeley e de S. José, ambas instituições públicas do
Estado da Califórnia, representadas por Deolinda Adão, docente responsável pelo Curso de Estudos Portugueses e do curso de Verão. Pelas Instituições de educação: pela Escola DR. Manuel Gomes de Almeida, o Dr. José Ilídio Sá,  e Drª Carminda Costa, diretor e  professora orientadora do projeto
respetivamente. Pela Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira, representada pela sua vice-diretora, Drª Alexandra Rachão e o professor orientador do projeto na escola, Dr. João Paulo Reis. Estiveram presentes alunos dos dois agrupamentos de escolas, tendo assinado em representação de cada  uma das escola a aluna, Miriam Isabel Andrade Rendeiro (ESDMGA) e a aluna   Inês  Armelim  (ESDML). O Projeto Berkeley- Espinho tem como objetivos principais promover: o intercâmbio cultural (linguístico e literário) entre os Estados Unidos e Portugal; a troca de experiências entre alunos e professores dos dois países; a  divulgação e valorização do património cultural português; o convívio entre estudantes americanos do curso de Verão e alunos das escolas secundárias, através de workshops a realizar em Espinho; a utilização das novas tecnologias de comunicação e informação; a divulgação do potencial turístico do concelho de Espinho. Ambas as Instituições promoverão o desenrolar dos trabalhos com base na seleção de textos de autores portugueses que serão trabalhados pelos alunos e supervisionados pelos professores. O workshop final acontecerá a 8 de julho com a apresentação dos trabalhos e reflexão sobre a experiência.
  Este Projeto vai trazer certamente mais valias em termos pessoais, sociais  e académicos para os jovens.
   As escolas têm abraçado as iniciativas da Associação dado que elas visam uma ampla dimensão ívica, a merecer ser integrada nos seus projetos  educativos. Os jovens estudaram e fizeram a dramatização de duas figuras femininas que a Associação Mulher Migrante homenageou: Maria Lamas e Maria Archer, resultando uma entrevista imaginária a Maria Archer e a apresentação do papel de Maria Lamas, com destaque para a sua obra “As mulheres do meu País”. As sessões realizadas nas escolas proporcionaram um maior conhecimentos destas mulheres das letras, forçadas a emigrar. São elas grandes exemplos de referência para os jovens, pelo papel que tiveram na luta
pela liberdade e defesa direitos das mulheres em período da ditadura. Muitas mais atividades têm sido desenvolvidas nas escolas, neste últimos meses, nomeadamente, a ligação entre o lançamento dos livros acima citados com a celebração dos 40 anos de abril. Estas sessões, realizadas em meio estudantil, foram uma boa forma de debater com os jovens a emigração, o valor da liberdade
e intervenção cívica, de forma a motivar os jovens para serem agentes de mudança num abril que se desejar perpetuar.
Desta forma, procurou-se corporizar alguns dos objetivos da Associação: promover a divulgação da história da nossa diáspora (por estudos académicos e narrativas de vida), aquilo que ela representou e representa para o país em termos de identidade da nação portuguesa, não apenas limitada a um pequeno território de forma retangular à beira-mar plantado, mas alargada a uma dimensão muito abrangente, em quase todo o mundo; divulgar figuras de relevo, verdadeiras referencias de valores como a liberdade e defesa dos direitos das mulheres; enfatizar o papel das mulheres na sociedade nas várias dimensões: empresarial, artística, política…; dar a conhecer o valor e poder da língua portuguesa (uma das mais faladas a nível mundial) e  a  riqueza da cultura portuguesa tão bem defendida nas nossas comunidades; debater o atual fluxo migratório, agora com novos contornos e com um novo perfil.
  A Associação sente que tem de continuar a valorizar nos seus objetivos esta vertente da educação porque também acredita naquilo que um dia, Nelson Mandela disse “A educação é a melhor arma para mudar o mundo” .
Enviar por email     DR Ana Borges        ana.borges@cig.gov.pt .
NOTICIAS 90, referente ao primeiro semestre de 2014  - 5 de junho
artigos no máximo 2 páginas A4 em Arial 12, espaçamento simples sobre a vossa
atividade realizada ao longo deste semestre (ou do semestre anterior e que não tenham
tido oportunidade de constar no nº 89).
As imagens, que sugerem para ilustrar os textos, devem ter boa resolução e vir em
separado como anexo.

Os artigos devem ser enviados para a colega Ana Borges:ana.borges@cig.gov.pt .

Leonor Gaspar Pinto
Chefe da Divisão de Documentação e Informação | Head of Documentation and Information Division
Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género |Commission for Citizenship and Gender Equality
Presidência do Conselho de Ministros | Presidency of the Council of Ministers
Avenida da República, 32 - 2.º andar | 1050-193 Lisboa | PORTUGALm  Tel: (+351) 217 983 007
e-mail: maria.pinto@cig.gov.pt
 www.cig.gov.pt
Portal CID online

AEMM COMISSÕES ESPECIALIZADAS

AEMM Constituição de Comissões Especializadas

Em PORTUGAL
Comissão para Estudo das Migrações

Região Norte
Profa Doutora Graça de Sousa Guedes
Mestre Arcelina Santiago
Dra Isabel Barros Aguiar

Região Centro
Dra Ana Narciso
Mestre Aida Baptista

Nos EUA
Comissão Permanente
Coordenadora
Maria João Ávila

Comissões Especializadas

Califórnia
Profª Doutora Deolinda Adão

Pensilvânia
Mina Grosso, Nelson Viriato

New Jersey
Lídia Maio

Massachussets
José Pacheco

AEMM Conselho dos Representantes

Conselho de Representantes da Associação “Mulher Migrante”

 ALEMANHA
 Maria do Céu Campos

 ARGENTINA
 Maria Violante Martins
 Natália Correia

 BRASIL
Rio de Janeiro
 Cláudia Ferreira
 Henriqueta de Castro
 Lourdes Abraços

 Recife
 Berta de Sousa Guedes

 CABO VERDE
Isabel Lopes da Silva

 CANADÁ
 Manuela Marujo
Virgílio António Pires

 EUA
 Deolinda Adão
Maria João Ávila

FRANÇA
 Alexandra Custódio
 Isabel Neves Oliveira

 HOLANDA
 Teresa Heimans

 LUXEMBURGO
 Custódio Portásio

 SUÍÇA
António Dias Costa

 URUGUAY
Luíz Panasco Caetano

 VENEZUELA
 Maria de Lourdes Almeida
 Fátima Pontes
 Adé Caldeira

À Memória do Carlos Correia H Pietra Torres



      Conheci o Carlos Correia em 1973 quando fui admitido como técnico  no Secretariado Nacional da Emigração.
Sei que o seu vasto e muito rico percurso profissional, até que morreu  em 2014, sempre no ativo, vai ser abordado nos vários outros textos que estão a ser redigidos.
 Conheço este seu percurso também muito bem porque trabalhamos juntos, em Portugal e em missões ao estrangeiro, e coincidimos nos  mesmos Serviços ou em funções próximas ao longo de boa parte destes  anos.
Mas prefiro então centrar-me naquilo que para mim sempre foi mais marcante no Carlos Correia: a sua qualidade humana que, ao longo da  vida, muito raramente vi igualada.
De facto o Carlos Correia era alguém de uma extrema preocupação com os outros procurando sempre, por vezes com os maiores “equilibrismos”, evitar que a sensibilidade de alguém á sua volta fosse  sequer beliscada.
Em todos os cargos que exerceu esta postura era algo que  unanimemente era assinalado por quem com ele se cruzasse.
E assim nunca, mas nunca, ouvi dele uma referência que não fosse  elogiosa e reconhecida.    

                                                                                      Henrique Pietra Torres

    Lisboa, 2 de Janeiro de 2014

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

DUSSELDORF Encontro O papel da mulher portuguesa na Alemanha

1 - 2014 é, em países como a Alemanha e a Holanda, o ano em que se recorda, com grandes comemorações, meio século de emigração p portuguesa - um tempo de viragem das tradicionais correntes migratórias transoceânicas para destino mais próximos, na Europa.
Excelentes iniciativas, como aquelas que, há cerca de uma década, mobilizaram as comunidades do Canadá, para onde, a partir de1953, um acordo bilateral levara um os primeiros contingentes de Portugueses. Lá, então, como agora, aqui, as organizações das comunidades e a diplomacia portuguesa uniram-se para realçar o percurso dos homens e das colectividades, para os homenagearem e para fazerem a sua história, que é também a do país.


2 - A originalidade do programa que hoje nos reúne em Dusseldorf, neste quadro de reflexão e de convívio, é o propósito de olhar, em especial,
 as mulheres, como parte da história comum, que continua a ser a mais esquecida ou subestimada...
Agradeço muito o convite da Senhora Cônsul-Geral, Dr.ª Maria Manuel Durão para participar nesta jornada, a sua hospitalidade, a possibilidade que tive de falar com ela, longamente, sobre as comunidades portuguesas da Alemanha. Eu venho do tempo em que a diplomacia era interdita à mulheres, e, por isso, podem imaginar como me sinto feliz ao ver um Consulado-Geral desta importância tão bem entregue a uma brilhante jovem diplomata!
Julgo que a abertura do Ministério dos Negócios Estrangeiros aos problemas sociais e culturais da emigração, que o SECP Dr José Cesário salientou, no início do colóquio organizado pela AEMM, sobre o 25 de Abril e as migrações, em Março passado, na presença da Secretária Geral do MNE (a primeira Embaixadora a ocupar esse cargo) se deve muito às nossas diplomatas. Este encontro é mais
uma prova da qualidade da sua abordagem da problemática da emigração.

3 -Vamos, pois, focar, em especial, a emigração das mulheres. Não é um assunto menor, sobretudo no caso português... Para além da justiça que se lhes
 presta ao considera-las na sua singularidade, só assim se consegue uma visão abrangente do fenómeno migratório, e com ela, o balanço realista da experiência de cada ciclo, fechado com o regresso ao País ou a integração numa sociedade estrangeira.
Esta evidência não é negada por ninguém, mas as migrações são ainda historiadas, fundamentalmente, na sua faceta masculina, padronizadas num dos géneros, enquanto o outro é negligenciado como mera sequela subordinada.

4 - É verdade que, até uma data muito recente, foram quase sempre os homens os primeiros a partir – sozinhos - ocupando, naturalmente, o lugar central nas atenções dos responsáveis políticos, e, também, dos estudiosos das migrações portuguesas, tanto das mais antigas como das contemporâneas, mesmo depois de se generalizar a reunificação de famílias inteiras no estrangeiro.
Já em fins de século XIX, a emigração feminina representava uma proporção significativa (cerca de um terço) do total. Entre 1907 e 1913, registou um aumento de 127%, e, desde então, não parou de crescer. Como é do conhecimento geral, constitue actualmente cerca de metade das comunidades instaladas na Europa e nos outros continentes - e somente na emigração temporária, a menos qualificada, se mantém, no século XXI, a predominância de homens sós.

5 – Ao trazer números, objectivos e frios, ao debate, não pretendo reduzir a questão ao seu aspecto quantitativo, até porque entendo que ela é, essencialmente, qualitativa - as mulheres que surgem, numa segunda fase do processo migratório, não se somam aos maridos, ou aos pais, na
 vida, como numa simples estatística . Elas vão, com eles, criar uma nova dinâmica familiar, ocupando um lugar, em regra, diferente no mercado de trabalho, na sociedade, na densa teia associativa do seu grupo étnico nacional, em casa... Vão encontrar diferentes desafios, chegar a diferentes soluções, por si mesmas e em conexão com eles. Na maioria dos casos, vão mudar o nível económico da família - com o seu salário, a orientação do projecto migratório para estadas mais longas, a formação académica e profissional dos filhos, a integração social no meio português (nas comunidades de cultura portuguesa, que exigem a componente de género e de geração, para existirem e sobreviverem...) e no próprio país de acolhimento (é frequente serem as mulheres quem melhor domina línguas estrangeiras - não só ou não tanto por facilidade inata, mas em razão das tarefas que executam no sector dos serviços. mais em contacto com os naturais do país).

6 - Nas comunidades, onde, contrariando o habitual descaso, se realizaram as primeiras investigações aprofundadas sobre a emigração feminina ou
 familiar, as conclusões vieram consubstanciar esta antevisão das coisas. Refiro-me, sobretudo, ao caso da França, e, em particular, de Paris, que é o que apresenta maior número de análises sociológicas neste domínio. A tese pioneira de Engrácia Leandro patenteia, com o seu cunho científico, o modo ou os modos pelos quais a chegada das mulheres mudou radicalmente a vida das pessoas e das comunidades, trazendo o conforto e a estabilidade do lar, a subida de nível económico, com o segundo salário, a inserção social, com o estabelecimento de relações de proximidade, quando não de cumplicidade com as mulheres francesas - as porteiras, as empregadas do sector dos serviços, sobretudo. Na parte final da programação de hoje, depois da exibição do filme “A Gaiola Dourada”, teremos a oportunidade de olhar este ângulo do problema, muito embora ele não seja directamente ressaltado no filme. A meu ver, o relacionamento entre portuguesas e francesas ajudou à mudança de mentalidades das imigrantes e deu-lhes um lugar central na família, nos contactos com a administração local, com as escolas dos filhos – no mundo exterior ao lar, onde na sua terra natal não actuava…Segundo Maria Engrácia Leandro, um dos grandes méritos das imigrantes portuguesas, foi o de, através da sua integração na economia local, terem contribuído para a sua própria aculturação e para a de toda a família. Para esta socióloga, na medida em que a emigrante portuguesa aprendeu a viver com outras formas de ver os papéis de homem, mulher, esposa, mãe, dona de casa, tornou-se, ela própria, catalisadora de mudança social, para si e para a família, através das suas atitudes e comportamento.

7 – A experiência de Paris – ou de França – não poderá ser extrapolada, sem mais, automaticamente, para outros países e continentes, mas ao mostrar-nos os factores de mudança, justifica a ideia de que, onde  quer que estejam presentes, conduzem a resultados semelhantes. – para a própria mulher, para o núcleo familiar e a comunidade alargada. A ausência de atenção, de políticas (as políticas de emigração com a componente de género são coisa muito recente…) deixaram as mulheres numa luta só sua, com problemas específicos, que tiveram de resolver. Consideradas como o elo mais fraco, como objecto de dupla discriminação (enquanto estrangeiras e enquanto mulheres), revelaram-se, afinal, na maioria dos casos, protagonistas de inesperado sucesso individual, com projecção no sucesso de toda uma geração de emigrantes. Eduardo Lourenço fala dos protagonistas da “emigração a salto”, dos anos 50 e 60, como “uma geração de triunfadores” - e com razão.
A meu ver, a parte das mulheres, que foi fundamental, construiu-se com a integração no mercado de trabalho e com a adesão aos valores da modernidade, da igualdade de género, na prática se não no discurso... - com autonomia, auto-confiança, influência e prestígio no interior da família e no exterior, na sociedade (com maiores dificuldades no meio mais fechado do associativismo das comunidades).
A emigração foi, para todas as que conseguiram impor-se pelo trabalho e pela cultura (os dois campos em que já as feministas de oitocentos centravam a luta pela igualdade dos sexos), uma verdadeira abertura à emancipação feminina

8 – Deixo estes tópicos para o debate, mas, a terminar, queria ainda dizer uma palavra sobre a organização desta sessão, para destacar ,além o trabalho da Drª Maria Manuel Durão, também o dos outros membros de uma comissão organizadora, em que portuguesas e brasileiras se juntaram para pensar o futuro das comunidades da emigração e o papel das mulheres -portuguesas, brasileiras, lusófonas, neste concreto país de acolhimento, que é a Alemanha.
É um exemplo que, espero, constitua precedente e inspiração para muitos outros debates! Os países da lusofonia são hoje, em muitos casos, simultaneamente, países de emigração e imigração, as mulheres em todos ocupam um lugar destacado, e, felizmente, cada vez mais visível. Trocar, entrelaçar as experiência de todos os nossos povos é fundamental, para vivermos mais  e mais fortes, o amanhã das migrações.

Maria Manuela Aguiar

27 de Setembro de 2014