segunda-feira, 18 de novembro de 2019

MARIA EDUARDA FONSECA

MARIA EDUARDA AGUIAR DA FONSECA

Fui migrante desde criança dentro do país, antes de o ser, por alguns anos, noutros
países e continentes. Nasci em 1945, em Paços de Ferreira. Vivi no Ato Minho, em
Trás-os Montes, na Beira Baixa, no Alentejo, em Lisboa, Londres, Luanda, Genebra e
Paris. Fiz a escola primária na Freixeda (Mirandela) e Sortelha. Depois, estudei nas
cidades do Porto (distrito de origem da família) e em Setúbal. O meu pai era engenheiro
de minas e aonde o levava a profissão lá íamos nós, descobrindo as bonitas terras do
"Portugal profundo".
A minha primeira experiência do estrangeiro foi em Inglaterra. Durante cerca de um ano
trabalhei como "au pair" em casa de um casal de judeus muito simpáticos. A principal
tarefa era  tomar conta do filho, um menino de um, dois anos. A intenção era praticar o
inglês. Melhorei bastante, mas o meu ponto forte nunca será falar outras línguas.
O primeiro emprego foi na Caixa Nacional de Doenças Profissionais, desde 1963.
Pouco depois, o meu pai foi para Angola, para as minas de ferro de Mombaça, perto de
Malange. Era um apaixonado por África, e as suas narrativas convenceram-me a fazer-
lhe uma visita prolongada. Acabei por ficar em Luanda três anos, com um bom emprego
na Mobil. Sentia-me bem, tanto na cidade, como no interior. Passava muitos fins de
semana na mina. Era uma zona de guerrilha, mas nunca nos aconteceu nada, O meu pai
dava-se bem com os trabalhadores. Havia armas para defesa, mas estavam sempre
guardadas, exceto quando serviam para irem todos juntos à caça.
Voltei a Lisboa e à "Caixa", onde passei a ser secretária do presidente Dr António Leão.
Em maio de 1974, o meu pai estava sozinho em Luanda - deixara Mombaça e chefiava
o departamento de trânsito da Câmara -, e eu decidi ir fazer-lhe companhia. Fui para lá
num avião que poucos civis transportava, porque o grande movimento era em sentido
contrário. Dessa segunda vez, fui hospedeira de terra de uma companhia de aviação. No
início de 1975,  o pai e eu viemos para Lisboa com a intenção de passar férias. Ele
deixou o carro e o apartamento entregues à empregada, e trouxe apenas uma pequena
mala. Mas já não tivemos condições para regressar.  Mais uma vez me aceitaram na
"Caixa" como "filha pródiga".
Em meados de 1983, fui destacada para o gabinete da Secretária de Estado da
Emigração. O destacamento convinha ao gabinete, era a única forma de conseguir
colaboração a custo zero. Foi um trabalho diferente, menos burocrático, tendo dado
apoio, sobretudo, no sector cultural. Estive, por exemplo, na organização de exposições

itinerantes e das coletâneas de diapositivos ("Quadrantes de Portugal), e também na
recolha de dados sobre as associações de todo o mundo, que formavam o Conselho das
Comunidades (tarefa que não foi nada fácil). Até desenhei medalhas comemorativas.
Lembro-me de ter feito apenas uma viagem como única acompanhante da Secretária de
Estado das Comunidades, a Manuela Aguiar. Eu devia tratar dos programas, dos
contactos locais, do check-in nos aviões e hotéis, etc., mas, como ela é muito
impaciente, adiantava-se e despachava tudo. Depois, em Lisboa, queixou-se de que ela é
que fizera de minha secretária. Não voltei a ser escolhida para missões dessa natureza.
Em 1987, com licença sem vencimento da Caixa Nacional de Doenças Profissionais,
pelo prazo máximo de três anos, fui para o consulado de Genebra, como chanceler, e
depois, a convite do Dr Carlos Correia, para Paris, mas optei por voltar ao cargo de
origem, antes do termo do prazo limite dado pela "Caixa". Anos mais tarde, concorri
para a Caixa Nacional de Pensões. Aí tive contacto com processos de pensões de
emigrantes da Venezuela, verdadeiramente dramáticos, que queria, mas não podia
resolver.
Quando atingi a idade da reforma, comecei uma nova vida. Sempre gostei de fotografia,
desenho, pintura, cinema. Em tempos tinha frequentado um curso da ARCO, em Lisboa.
Dediquei-me, sobretudo, à pintura em acrílico. Além de exposições individuais,
participei em várias coletivas, incluindo as duas primeiras Bienais de Mulheres d' Artes,
em Espinho.

1. Como vejo as possíveis aplicações concretas das minhas linhas de
investigação e/ou planos de ação no domínio das migrações da Diáspora,
com enfoque especial no feminino.

Embora não estivesse inscrita como membro da AMM colaborei em duas exposições
organizadas durante os congressos mundiais de 2011 (no Forum da Maia) e de 2013
(nos claustros da "Fundação Pro Dignitate")  e segui as várias intervenções desses
congressos. Conheço quase todos os dirigentes da AMM e muitos dos seus associados,
de quem sou amiga e admiradora. A Drª Rita Gomes foi sempre encantadora comigo,
tanto enquanto trabalhei na emigração como depois. Lembro-me de uma vez a ter
convidado para uma exposição minha em Oeiras. Ela foi até lá dar-me um abraço, de
táxi, que esperou bastante tempo para a trazer de volta a Lisboa. 

2. Como vê as possíveis aplicações concretas das suas linhas de
investigação e/ou planos de ação no domínio das migrações e da
Diáspora, com enfoque especial no feminino.

Apesar de as minhas passagens por África e por alguns países da Europa não terem sido
muito longas, deixaram-me saudades (de Angola, sobretudo), muita simpatia por gente
de outras culturas e vontade de lutar por uma maior aceitação mútua,
Aderir à AMM e participar mais ativamente nas suas iniciativas será uma oportunidade
de me manter a par dos progressos ou da falta deles, neste campo, e uma forma de ser
solidária com causas que valem a pena e com pessoas que trabalham em torno de uma
genuína vontade de ajudar os outros.

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