MARIA AIDA COSTA BATISTA
MIGRAÇÃO EM VÁRIOS ANDAMENTOS
Uma paisagem desenha no meu rosto
as rugas da infância.
Lídia Martinez
Vivi nove meses no aconchego do ventre de minha mãe, até que, sob a influência da lua
- diziam os antigos – chegou o dia em que, num grito de alforria, emigrei para o seio da
família que me esperava no cais de uma gestação bem sucedida, situado na zona do
Douro Vinhateiro.
Primeiro o pai - a quem as fráguas estreitas e íngremes do rio limitavam a grandeza do
sonho - depois a mãe, acompanhada das duas filhas (eu e minha irmã), decidiram cruzar
o mar para, numa praia mais a sul do Equador, fixarem a âncora da minha identidade e
de todos os irmãos que se seguiram.
Foi aí, na costeira cidade de Benguela, que cresci, me fiz mulher e mãe de dois filhos
(uma menina e um rapaz), alheia à forma como a sociedade estava organizada. Estudei
no colégio das Doroteias, cujo regime de internato permitia que as filhas dos
fazendeiros e comerciantes ricos da província, lá vivessem. Durante todos os anos da
minha escolaridade, tive colegas mestiças, mas, nem uma preta! Nas escolas oficiais, já
se viam algumas, mas só depois de eclodir a guerra, em 1961, as turmas começaram a
ganhar um colorido humano.
Confesso que nunca partilhei do slogan criado por Fernando Pessoa: “Primeiro
estranha-se, depois entranha-se”. Nunca estranhei nada, e desde sempre entranhei que o
regime era mesmo assim! Numa família remediada, a grande preocupação de meu pai
era trabalhar para alimentar e educar a prole que aumentava de ano para ano. Eu, desde
muito cedo cuidadora de irmãos, tentava desempenhar esta atividade juntamente com a
outra, a de estudante, nunca tendo perdido ano algum.
Sem mala de cartão, mas um filho em cada mão, em 1975, vi-me no aeroporto de
Luanda a fazer parte de uma ponte aérea, de regresso ao país onde nascera, mas não
vivera. O País que eu estudara cruzava o mapa do Minho a Timor, e fui apanhada de
surpresa, sem nada entender do direito à autodeterminação. Já estávamos em guerra,
para onde tinham ido soldados em força, mas ficava tudo tão longe que nunca dela me
dei conta.
De início, sem trabalho e sem salário, valeu-me o teto da casa do pai dos meus filhos,
no interior de um Portugal muito provinciano, que ainda criticava as mulheres que
fumavam, e olhava de soslaio para as que usavam calças e se apresentavam com corpos
mais descobertos.
Para sobreviver nos primeiros tempos, troquei cautelas premiadas, de pouco valor, cujo
prémio tanto podia ser levantado em Angola como na Metrópole. Felizmente, e porque
já havia iniciado a minha carreira docente lá, acabei por ser colocada cá. A partir daí, se
há muito havia deixado de olhar para trás, passei a traçar metas num horizonte voltado
para o futuro.
Sozinha, a cuidar dos filhos, a trabalhar e a estudar em simultâneo, segui a estrofe da
pedra filosofal e deixei que o sonho comandasse a vida. Pensava na condição das
mulheres? Não! A minha enchia-me de tal modo que não havia espaços onde
coubessem as outras. Era emigrante pela terceira vez, mas o nome que me deram foi de
“retornada”. Não sofri com o epíteto, porque a tudo retornei: à luta pela sobrevivência,
pelo sucesso académico na Universidade de Coimbra, onde me inscrevera na
Licenciatura em História - e tardiamente despertei para movimentos e causas -, pelo
estágio pedagógico de dois anos, que tive de fazer para me vincular à escola, pela casa
que decidira começar a construir, pelo esforço de acompanhar os estudos dos filhos,
pela entrega à pós-graduação em Estudos Europeus na mesma universidade, e a enorme
vontade de ter mais mundo do que o das fronteiras que o destino me reservara.
Para o conseguir, fiz o Curso de Leitora de Português e, no ano em que perdi minha
mãe, cumpri a primeira missão em Helsínquia, cidade onde pude chorar o luto que não
tivera tempo de fazer em Portugal. Fiquei oito anos, tendo-me, entretanto matriculado
no Mestrado em Literatura e Cultura Portuguesa, na Universidade Nova de Lisboa,
beneficiando do estatuto de trabalhadora estudante.
O segundo posto foi na Universidade de Toronto, Canadá. Mergulhei de chapa na nossa
diáspora, e senti na pele o impacto das histórias de vida que, por muito bem sucedidas
que fossem, haviam sido erguidas a partir dos caboucos de muita miséria e fome. Só
então tive consciência do que verdadeiramente era ser e/imigrante porque, como diz
Natália Correia, “a gente só nasce quando somos nós que temos as dores”. Nasci, então,
para as questões ligadas à integração, adaptação, dificuldades linguísticas, confrontos
culturais, relação de pertença, indefinição identitária, saudade sem sinónimos, mas gente
lá dentro.
Foi esta experiência e manifesto interesse pelos assuntos citados, que me levaram a
participar em Semanas Culturais, Congressos, Conferências, Simpósios, Debates
(dentro e fora do país).
No dia da morte da Amália, vi nas ruas do “Little Portugal” a portugalidade a romper de
todos os que homenagavam a diva, com cartazes nas montras e fado por todo o lado.
Qualquer coisa bateu muito forte dentro de mim! Cheguei a casa e escrevi a minha
primeira crónica para “O Milénio”, um jornal comunitário que acabara de nascer.
E continuei até hoje, mesmo depois de ter ainda cumprido uma missão em Benguela,
onde dirigi o Centro de Língua Portuguesa, e dei aulas no Pólo da Universidade
Agostinho Neto.
Hoje, aposentada e a residir em Portgal, as questões que referi continuam a ser fonte de
preocupação e reflexão, mas serviram também de matéria-prima às obras que já
publiquei, como autora, co-autora e organizadora:
The Voice and Choice of Portuguese Women, A Vez e a Voz da Mulher Imigrante
Portuguesa, Proceedings 1st International Conference, Actas do I Congresso
Internacional (org. Manuela Marujo, Aida Baptista, Rosana Barbosa), University of
Toronto, Department of Spanish and Portuguese, 2005; Passaporte Inconformado,
Edições MinervaCoimbra, 2004; Chão da Renúncia, Edições MinervaCoimbra, 2008;
Entre Margens de Afectos (c/ Gabriela Silva), Liga Portuguesa Contra o Cancro, Ponta
Delgada, 2009; Passos de Nossos Avós (c/ Manuela Marujo), Ponta Delgada, Publiçor,
2010, Abraço de Mar entre Ilhas e Continentes (c/ Gabriela Silva), Publiçor, 2011; A
Voz dos Avós. Migração, Memória e Património Cultural (org. Natália Ramos,
Manuela Marujo, Aida Baptista), Ed. Pro Dignitate, Julho 2012; Frank Alvarez, O
Caminho de Um Português, 2016 Ed. Frank Alvarez.
E sempre que a oportunidade surge, e o meu calendário o permite, lá estou eu a dizer
presente a todas as iniciativas ligadas às questões da diáspora, entre elas as provenientes
da Associação Mulher Migrante.
1- Algumas considerações sobre o seu modo de ver e de trabalhar para os
objectivos fundamentais da AMM, fazendo referência à colaboração já
dada a iniciativas da AMM e/ou a novas propostas.
Em 2003, aquando do convite dirigido à Drª Maria Manuela Aguiar, para
participar no 1º Congresso realizado na Universidade de Toronto (era então Leitora de
Português do Instituto Camões nessa mesma universidade), subordinado ao tema “A
Vez e a Voz da Mulher Imigrante Portuguesa”, tomei conhecimento da existência da
Associação Mulher Migrante (AMM) que, desprovida de qualquer adjetivação de
nacionalidade, assumia um caráter transversal a todos os movimentos migratórios,
independentemente dos países a que estivessem associados.
Face ao meu manifesto interesse pelo trabalho que estava a ser desenvolvido, foi a partir
dessa data que comecei a ser informada e convidada para as várias e meritórias
iniciativas promovidas por esta Associação.
De acordo com a minha disponibilidade, participei em várias (apresentando
comunicação ou como mera assistente), e devo confessar que, em todas elas - sob a
forma de conferências, simpósios, homenagens a figuras femininas de várias áreas,
exposições, evocação de datas e celebração de efemérides - valeu a pena estar presente e
muito aprendi, não só pela oportunidade dos temas tratados, como pela qualidade das
comunicações, registadas em revistas, boletins e outras
plataformas, periodicamente publicadas.
Assim sendo, proponho que a AMM mantenha a mesma linha de atuação, tentando,
contudo, revitalizar-se, no sentido de ganhar maior dinamismo, tendo em conta que as
novas tecnologias nos permitem acompanhar, partilhar e divulgar toda a informação em
tempo real.
2. Como vê as possíveis aplicações concretas das suas linhas de investigação
e/ou planos de ação no domínio das Migrações e da Diáspora, com
enfoque especial no feminino.
Como Leitora do Instituto Camões, cumpri uma missão de 5 anos na Universidade de
Toronto, cidade onde se encontra implantada uma forte comunidade portuguesa. Não
pude, por isso, ficar indiferente aos testemunhos recolhidos dos meus alunos luso-
descendentes, às iniciativas promovidas pelas diferentes associações instaladas na
cidade, aos programas de rádio e de televisão e à imprensa comunitária em língua
portuguesa.
Fruto desta experiência, e a convite de um jornal recém-criado, tornei-me numa
colaboradora ativa deste órgão de informação até ao presente, em que procuro estar
atenta e tratar de temas relacionados com a condição de e/imigrante, traduzidos em
obras publicadas (a solo ou em parceria), resultado de uma seleção de crónicas ligadas
ao tema. Mais tarde, surgiram solicitações de outras revistas (em formato digital ou em
papel), com as quais esporadicamente igualmente colaboro.
Sendo a maior percentagem dos componentes da diáspora portuguesa canadiana de
origem açoriana, nasceu também um intrínseco interesse por realidades ligadas ao
arquipélago, o que motivou convites de diferentes entidades do governo açoriano para
participar em determinadas iniciativas ligadas a questões que se prendiam com uma
identidade vincadamente açoriana, como fora o caso do culto ao Divino Espírito Santo.
Assim, e estando sempre atenta ao que à minha volta se passa, tenciono manter esta
minha linha de atuação, intervindo através de artigos de opinião, recolha de narrativas e
participação em congressos/simpósios/encontros, vocacionados para estes temas, em
especial, quando tratados no feminino.
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
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