segunda-feira, 18 de novembro de 2019

MANUELA MARUJO



Sou imigrante no Canadá, há 33 anos. Em Portugal, quando me defino como imigrante, os meus conhecidos (e até alguns amigos), olham para o lado e contrariam-me, em voz baixa como que envergonhados “Tu não és bem uma imigrante …”.  Não fico admirada por reagirem assim, porque há pouca simpatia pelos que saíram do país, identificados como gente pobre, com baixa escolaridade ou analfabeta.
Em 1985, cheguei ao Canadá com um contrato de trabalho para a Universidade de Toronto. No aeroporto, o funcionário da Imigração levou um tempo exagerado a atender-me, e repetiu três vezes as perguntas, antes de colocar o carimbo no passaporte e me dar a autorização de entrada. Não é comum o país receber imigrantes para dar aulas nas universidades.
Durante os 32 anos em que lecionei, quando me perguntavam a minha ocupação, eu respondia ser professora. Ficavam surpreendidos quando afirmava ensinar na Universidade de Toronto. Tanto em Portugal, como no Canadá, ainda não se associa, com naturalidade, uma portuguesa ao ensino universitário. Esse preconceito precisa de ser combatido, começando por nós, portugueses.
Sou do Baixo Alentejo, de famílias com poucos recursos financeiros, todavia com uma convicção muito firme: a educação dada aos filhos poderia abrir-lhes as portas do mundo. No meu caso, tornou-se uma realidade. Depois de ensinar em África, de fazer formação para professores em países da Europa, escolhi vir para o Canadá lecionar português para estrangeiros. Trazia essa formação de Portugal, adquirida na Faculdade de Letras de Lisboa.
O Canadá parecia-me um país com grande potencialidade não só para ensinar, mas também para aprender. Foi no Ontario Institute for Studies in Education da Universidade de Toronto (OISE/UT) que prossegui os estudos, fazendo mestrado e depois doutoramento em Educação, na área de Estudos Bilingues. Debrucei-me sobre as dificuldades que os pais imigrantes enfrentam para poderem continuar a manter a “língua de afeto” numa sociedade que, contrariando as aparências, não valoriza o multilinguismo.
Sinto-me privilegiada por ter podido lecionar numa universidade, e associado à docência a investigação e o trabalho voluntário comunitário. Por ter crescido num meio pequeno e de famílias simples, ouço com interesse e converso com as pessoas menos instruídas, de forma muito natural. Isso tem-me permitido compreender a complexidade da vida dos imigrantes. O cargo que exerci, de Diretora Associada do Departamento de Espanhol e Português, de 2001 até me aposentar em 2017, deu-me a oportunidade de conhecer bem a comunidade portuguesa. A instituição proporcionou-me os meios necessários para organizar colóquios, congressos, simpósios, exposições, festivais de cinema, convites a escritores e outras personalidades da cultura lusófona, permitindo-me fazer a ponte entre a academia e a comunidade.
A área de estudos sobre imigração sempre me fascinou. Tenho refletido sobre as questões de bilinguismo, de assimilação e/ou falta de integração e problemas entre gerações causados pela inexistência de uma língua comum (em particular entre netos e avós). O tema das mulheres imigrantes nas suas várias vertentes tem sido, ao longo dos anos, outro dos meus campos prediletos de investigação. Organizei, em colaboração com colegas e universidades doutros países, congressos internacionais sobre as temáticas acima mencionadas. Desses encontros, várias publicações surgiram atestando o interesse despertado, ao mesmo tempo que incentivam a novos estudos sobre a temática.
Mantive contacto estreito com Portugal durante estas três décadas, tendo viajado entre os dois continentes todos os anos. O Governo dos Açores, através da Direção Regional das Comunidades, endereçou-me vários convites para conhecer o arquipélago. Do mesmo modo, conheci o arquipélago da Madeira. Lecionei em cursos de verão de “Português para Estrangeiros” em Lisboa e na Universidade dos Açores, e fiz formação para Leitores, no Instituto Camões.
Pese embora o facto de não ter obtido o prémio, fui nomeada duas vezes pela Secretaria de Estado das Comunidades, para a cerimónia final dos Prémios Talento, na área da divulgação da Língua Portuguesa. Pelo governo de Portugal foi-me atribuída a Comenda da Ordem do Infante.
Desde 1 julho de 2017, sou professora associada emérita, da Universidade de Toronto.

  1. Algumas considerações sobre o seu modo de ver e de trabalhar para os objetivos fundamentais da AMM, fazendo referência à colaboração já dada e iniciativas da AMM e/ou novas propostas.

Através da Doutora Manuela Aguiar, nas suas intervenções em Toronto, tive conhecimento da AMM e simpatizei, desde o início, com a organização. Procurei colaborar deslocando-me a Portugal em algumas ocasiões. Mas foi em Toronto que estive mais envolvida: participei em encontros de associativismo e cidadania realizados nesta cidade, fiz convite à AMM para lançar aqui as Academias Seniores de Artes e Saberes (ASAS Toronto, 2008), para comemorar os 40 anos do 25 de Abril (2014) e para um Simpósio intitulado “Mulheres da Diáspora Portuguesa em Movimento”  (2016).

Há muito para fazer e há potencial riquíssimo para se levar projetos a bom termo. Não tenho dúvidas de que uma organização como a AMM pode servir como alicerce para se poder construir em Toronto uma delegação da AMM com iniciativas comuns e outras mais específicas para a nossa realidade. Arcelina Santiago esteve em Toronto, no dia 31 de outubro, num encontro da AMM; testemunhou que há um grupo de associados entusiastas, dispostos a trabalhar para que a Associação de Estudos e Solidariedade Mulher Migrante continue fiel aos seus princípios e objetivos.

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