segunda-feira, 18 de novembro de 2019

ILDA JANUÁRIO

ILDA JANUÁRIO

Emigrei para o Canadá em adolescente, em 1966, e acabo de fazer 52 anos de residente neste país. Vivi apenas um quarto da minha vida em Portugal, embora lá passe um ou dois meses por ano. Fiz uma tentativa de retorno, em outubro de 1974, que durou nove meses, ao fim dos quais “renasci” no Canadá. Tinha-me sentido desadaptada em Portugal, e não encontrei lugar nesse país recém-saído da ditadura, apesar da grande saudade que sentia por ele.
Saí de Portugal estudante, com o sexto ano do liceu de Leiria, de uma vida bastante desafogada em comparação com a que tive, inicialmente, no Canadá, embora revoltada com a violência doméstica e o assédio nas ruas a que nessa altura eram sujeitas crianças e jovens. Fui uma delas. Tornei-me feminista em Portugal muito antes de tomar consciência de o ser em adulta, no Canadá.
Minha mãe, eu e meu irmão viemos juntar-nos a meu pai que havia já emigrado. A minha mãe, com 46 anos, era dona de casa e não sabia falar francês nem inglês. Tive que ser a sua acompanhante-intérprete, como acontece ainda a muitos filhos de imigrantes. Cedo vivi na pele os problemas por que todos passam, começando com o choque cultural, agudizado pela saudade de quem não podia regressar regularmente ao país de origem, e pelos problemas familiares que levaram à separação de meus pais. Também não foi fácil a minha inserção no mercado de trabalho (hotéis, fábricas, restaurantes), como trabalhadora estudante, para poder pagar as propinas universitárias.
Completei os estudos de bacharelato em Antropologia Cultural (B. A.) na Universidade de McGill, em Montreal, e o mestrado (M. Sc.) na Universidade de Montreal. Trabalhei no setor dos serviços aos imigrantes de 1972 a 1985, em Montreal e em Toronto.
Fiz parte da primeira associação comunitária que se destinava a prestar serviços gratuitos aos imigrantes sobre os seus direitos de trabalhadores: Welfare and Low Income Citizens, depois no centro comunitário multilingue SANQI (Services d’Aide aux Nouveaux Québecois et Immigrants) e, por último, no Centro de Referência e Promoção Social, que se destinava apenas aos portugueses.
Em 1985, entrei para o Ontario Institute for Studies in Education (OISE/UT) como Research Officer, em vários departamentos e projetos de pesquisa em educação, assim como em projetos ligados a instituições do ensino superior - Université du Québec à Montréal, (UQAM), York University - e outras.
Na UQAM, participei na primeira pesquisa sobre as mulheres imigrantes em Montreal, 1980-1982, como entrevistadora do grupo das portuguesas, sendo quatro os grupos étnicos estudados. Escrevi a minha tese de mestrado com base neste trabalho. E na York, participei, em 1992, em dois projetos de pesquisa sobre as mulheres imigrantes em Toronto, incluindo as portuguesas.
Ocupei cargos voluntários, de 1994 a 2003, primeiro na Associação de Pais Portugueses de Toronto e depois como presidente e porta-voz da Coligação Luso-canadiana para a Melhoria do Ensino - Portuguese-Canadian Coalition for Better Education. Como autora da proposta da Coligação para a Trillium Foundation, que subsidiou o projeto de explicadores e tutores para alunos luso-canadianos, recebi em 2001, o prémio Profissionais “In Recognition of Outstanding Community Service” da Federação Luso-canadiana de Empresários. O projeto foi administrado e desenvolvido pelo Working Women Community Centre com o título de On Your Mark.
Durante cinco anos, até 2010, trabalhei como animadora da rede educativa, Ethnocultural Community Network (ECN) da Direção Escolar Pública de Toronto (TDSB), que ajudei a fundar.
A custo, combinei carreira, maternidade (uma filha) e trabalho voluntário, em instituições educativas e na comunidade portuguesa, durante quase toda a minha vida no Canadá.

  1. Considerações sobre o meu modo de ver e trabalhar para os objetivos fundamentais da AMM, à colaboração já dada a iniciativas da AMM e/ou novas propostas.

Na minha perspetiva de imigrante de longa data no Canadá, as mulheres sempre foram vítimas de disparidades salariais, de maus tratos em casa e da jornada dupla de trabalho. Mas, nos anos 1960, quando emigrei, tanto mulheres como homens, trabalhadores na indústria e nos serviços, desconheciam os seus direitos como imigrantes e cidadãos, em virtude de não dominarem as línguas de acolhimento. Face a esta injusta realidade, comecei por trabalhar no setor comunitário em Montreal e em Toronto, entre 1972 e 1985.
Fiz carreira, a partir de 1985, no OISE/UT - Ontario Institute for Studies in Education da Universidade de Toronto - como Research Officer. Para além dos projetos de pesquisa pedagógica em que fui integrada, o meu interesse voltou-se para o baixo aproveitamento e o abandono escolar dos alunos imigrantes, e o fraco envolvimento dos pais nas escolas, com particular enfoque nos luso-canadianos.
Depois de me reformar, em 2008, a título voluntário, concentrei a minha atenção na pesquisa antropológica da religião popular – as festas do Espírito Santo no Canadá - em colaboração com o antropólogo João Leal, no CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia) da Universidade Nova de Lisboa. Estou a escrever um livro sobre o trabalho de campo já feito, que durou vários anos, sempre atenta ao papel das mulheres açor-canadianas nas festas, a maioria de primeira geração e de classe trabalhadora.
O meu contacto com a AMM nasceu através da participação da Dra. Manuela Aguiar, em alguns eventos em Toronto, onde tive oportunidade de escutar as suas intervenções. Impressionou-me pelo seu interesse e conhecimentos sobre as comunidades emigrantes, pela sua simpatia e abertura. Foi ela quem me lançou o desafio de, em 2014 e 2015, publicar dois textos – em Edição de Mulher Migrante - e me tornar sócia da AMM.
Foi um gesto muito especial, o de me associar, oficialmente, a um organismo português, depois do CRIA. Era a maneira de continuar a pertencer ao mundo social e progressista português, num país a que eu, até 2008, apenas estava ligada pelas memórias, os laços familiares e as férias na antiga casa dos avós.
Ocasiões especiais, em Portugal, foram ter participado no 20º aniversário da AMM no Palácio das Necessidades, e ter visitado o belo e histórico espaço da Fundação Pro Dignitate, onde a saudosa Doutora Maria Barroso carinhosamente nos recebeu no seu gabinete.

  1. Como vejo as possíveis aplicações concretas das minhas linhas de investigação e/ou planos de ação no domínio das migrações da Diáspora, com enfoque especial no feminino.

Nunca deixei de trabalhar como voluntária na comunidade portuguesa de Toronto, tanto quando estava integrada no mercado de trabalho, como depois de reformada, pela pesquisa nas festas do Espírito Santo. Colaboro, desde há vários anos, com o semanário O Milénio-Stadium, e sou coordenadora, com Felicidade Macedo Rodrigues, do Núcleo de Leitura da Casa do Alentejo em Toronto, que se dedica à leitura e debate de obras em português.
Em 2015, fui convidada a participar no conselho de administração do Centro Abrigo, que tem programas destinados a mulheres vítimas de violência, idosos, estudantes e respetivos pais, falantes de português.
Faço revisão e tradução de autores da nossa comunidade que querem publicar e/ou traduzir, em edição de autor, os seus livros de prosa e de poesia, dada a inexistência de uma editora em língua portuguesa no Canadá. Com eles colaboro em todo o processo ligado à organização, lançamento, promoção e divulgação, chegando a prefaciar algumas das obras publicadas.
Parece-me que estas minhas atividades voluntárias e de “free-lancer” se poderiam enquadrar nas atividades de uma futura delegação da AMM, a criar em Toronto, como decidido em reunião com Arcelina Santiago, no dia 31 de outubro de 2018.



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