segunda-feira, 18 de novembro de 2019

HUMBERTA ARAÚJO

HUMBERTA ARAÚJO

Quando se nasce numa planície branca, onde as memórias mais queridas nos
transportam para a ilha, é sem dúvida difícil dizer-se de onde se é, ou de onde se veio.
Eu sou filha de pai e mãe dos Açores, ilha de S. Miguel. A família emigrou em 1960 e
eu nasci em 1961, em Vanderhoof, British Columbia. Não me perguntem pormenores da
vila onde nasci, porque dela tenho muito poucas recordações. As memórias mais vivas
são de Montreal, para onde a família se mudou após 4 anos, em diversas localidades na
Columbia Britânica.
Mais tarde, o pai, com saudade do mar – era pescador de profissão – e contra os amuos
de minha mãe que, como muitas mulheres engolira todas as lágrimas que tinha de
engolir, entregando-se pouco e pouco aos braços do Canadá - regressa às ilhas, comigo
“a tiracolo”.
Aos 7 anos, e no segundo dia de escola primária na freguesia do Pico da Pedra, a minha
avó Beatriz, ainda com cheiro a farinha de milho a escaldar, leva-me ao pequeno
estabelecimento escolar, situado no lombo da rua 24 de Agosto, para ter uma conversa
com a professora, que me havia mandado para casa no dia anterior, porque não ensinava
a estrangeiras.
Não sei o que lhe disse a minha avó, mas sei que fiquei na escola, e seria da sua
varanda, que me apaixonei pela primeira vez. Histórias à parte, completei mais tarde os
estudos secundários no Liceu Antero de Quental, em Ponta Delgada. Por acaso, dei há
dias com a minha caderneta escolar, e vi que aos 16 anos - quando completava o último
ano no Liceu - já escrevia com um pseudónimo (Ojuara) para o Jornal Correio dos
Açores, em Ponta Delgada.
O que escrevi – estava-se nos meses quentes depois da revolução - teve um tal impacto,
que muitas respostas foram publicadas em outros jornais de S. Miguel. As respostas
atacavam o impostor (não sabiam que o autor era uma jovem de 15 anos), que tinha
tido a ousadia de contrariar as tradições religiosas e patriarcais da ilha.
Esta colaboração valeu-me um desafio do então diretor do jornal para experimentar o
jornalismo. Meses mais tarde estava eu, como assistente de redação na RTP/Açores, ela
também a dar os seus primeiros passos.
Mas a ilha, com todos os seus encantos e a solidão que nela se experimenta, empurrava-
me para o lugar onde nasci. Nos anos 80, e numa jornada difícil e muito dura, decidi
regressar ao Canadá. Após ter trabalhado em fábricas, em restaurantes, em limpezas, e a

cuidar de crianças “live-in nanny”, acabei por reencontrar o jornalismo em Montreal, no
jornal A Voz de Portugal.
Vou para a Universidade de Concordia: Estudos de Comunicação e, mais tarde, para a
Queen’s: Relações Internacionais e Interculturais. Estudos acabados e, com a saudade a
matar, regresso às ilhas. Torno-me jornalista no Açoriano Oriental, regressando depois à
casa mãe, a RTP/Açores e RDP. Passo três anos na rádio do Clube Asas do Atlântico, na
ilha de Santa Maria, como chefe de redação.
Mãe solteira, regresso ao Canadá onde me encontro desde 2004.
Atualmente sou artista têxtil, escritora com 4 livros infantis publicados, assim como
poesia e contos em inglês e português. Recentemente, com um novo projeto “O Baú da
Avó” - um museu do brinquedo artesanal em Toronto -, regresso ao mundo maravilhoso
da infância das nossas avós.
1. Algumas considerações sobre o meu modo de ver e de trabalhar para os
objetivos fundamentais da AMM.
Eu vejo a AMM como uma organização que pode ter um papel importante na exposição
da cultura feminina na diáspora, através da divulgação de estudos já existentes,
incentivando a investigação em temas que lhe são relevantes e ainda através do apoio de
atividades artísticas e outras, que caracterizem o ambiente das mulheres na diáspora
canadiana.
Acho que pode ter também um papel mais ativo nas áreas que dizem respeito às
mulheres portuguesas/luso canadianas, na divulgação de apoios, programas ou outros do
governo português, que possam ter um papel positivo e prático nas suas vidas.
Neste aspeto, e dada a minha experiência como escritora, artista, jornalista e fundadora
do Museu do Brinquedo Português em Toronto “O Baú da Avó”, posso apoiar algumas
iniciativas de divulgação de programas e apresentar propostas de intercâmbio e
promoção da organização.

2. Como vejo as possíveis aplicações concretas das minhas linhas de
investigação e/ou planos de ação no domínio das migrações da Diáspora, com
enfoque especial no feminino.

Como referi, acho que a instituição pode ter um papel ativo junto das mulheres, para
que seja reconhecida como parceira importante nas políticas e ações que reflitam a

situação atual da mulher migrante. Os problemas que as mulheres atravessam no
Canadá são muito peculiares, e vão desde o emprego precário, salários abaixo do salário
mínimo, falta de participação ativa na vida do país e do seu munícipio, questões
relacionadas com a documentação, assédio e violência sexual no meio familiar e no
emprego, isolamento das mulheres idosas, para além de muitas outras questões, que
afetam as suas vidas.
Concretamente: ações práticas de divulgação junto de organizações que trabalham com
mulheres, nos media e nas celebrações culturais que abundam pela comunidade;
incentivar o interesse das investigadoras/es tanto em Portugal como nas diásporas pelo
estudo, in loco, da condição da mulher imigrante e a divulgação de apoios e outros,
através da AMM, do estado português.

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