quarta-feira, 27 de novembro de 2019

FILOMENA FONSECA - A Emigrante que não fui

A EMIGRANTE QUE NÃO FUI
          Após um honroso convite para escrever algo relacionado com a realidade da
mulher na vida, na diáspora e nas artes, tentei conjugar as várias vertentes, contribuindo
através do testemunho da minha própria experiência. Não porque eu tenha sido
verdadeira emigrante, mas porque sempre o quis ser e me senti impedida por diversas
vezes.
          Enquanto, ainda hoje, muita gente tem grande relutância em emigrar e vê a coisa
sempre pela necessidade e pela negativa eu, pelo contrário, sempre tive vontade de
alargar os meus horizontes e conhecer novas terras, outros povos e outras culturas.
Como disse um dia D. Manuel Clemente, nós descendemos em grande parte de povos
que por aqui passaram e se instalaram. Não admira pois, que muitos tenham vontade
de sair e se aventurem. Está-lhes no sangue. Se assim não fosse, não teria havido
os descobrimentos. Talvez também daí, a grande capacidade dos portugueses em se
integrarem facilmente nos países de acolhimento.
          Para mim, a palavra emigração significa aventura, com todos os predicados
subjacentes. Mas nunca foi e nunca será sinónimo de facilitismos ou liberdade sem
regras. Muito menos para as mulheres sonhadoras e atentas à realidade. Como dizia
Maria Lamas: “ Tudo vem do sonho. Mas só os sonhos em ação têm força criadora”.
Será, assim, sinónimo de dinamismo, trabalho, ambição, vontade, evolução, etc.
          Sempre tive muita curiosidade e grande fascínio pelas pessoas e por tudo o que
aparecia de novo. Criava os meus próprios brinquedos, a partir do que via nas festas
da aldeia. Tudo servia para dar azo à minha imaginação. Desde muito cedo manifestei
um dom para o desenho. Passava o tempo a desenhar e a ler. Aprendi também trabalhos
manuais, como: crochet, costura, tricot, bordados, etc.
          Na época, a maioria das mães, não tinha voz ativa dentro das suas próprias
famílias. Eram impedidas de tomar iniciativas e vistas sobretudo como objetos de
trabalho doméstico. Incluo aí também a minha mãe, subjugada às ideias do marido. Só
subtilmente e à socapa, resolvia situações de acordo com suas ideias próprias. Tinha
o seu emprego e também em casa, sempre a vi a trabalhar. Quantas vezes, atarefada
e a precisar da minha ajuda, desde que me visse com livros, dizia:  “Deixa-te estar!”
Como ela me compreendia! Talvez estivesse me projetando os seus próprios sonhos.
Bem diferente de meu pai. Muitos chefes de família eram dominadores, junto de suas
mulheres e filhas. Não as valorizavam.
          Era eu adolescente e havia na minha terra um grupo de teatro amador. Assistia
a todos os espetáculos. Um dia convidaram-me a entrar numa peça. Ensaiei três vezes
sem meu pai saber. Logo que soube, disse: “ Mulheres no teatro, nem pensar!” E lá
se foi a possibilidade da minha 1ª experiência teatral. (Só muito mais tarde, consegui
realizar esse desejo, através de cursos de teatro e experiências em novela da SIC.)
          Vivendo numa casa grande entre muros de granito, pululavam em mim muitos
sonhos. Porque não me conformava com a supremacia das ideias maioritariamente
masculinas, discriminatórias da minha condição social, tive muitas vezes de remar
contra a maré, desobedecendo por vezes a meu pai, que nem queria que eu estudasse.
Na época, poucas mulheres estudavam e só a insistência duma professora o conseguiu
convencer. Mas sem hipótese de qualquer reprovação. Seria condição suficiente
para não voltar à escola. Isso fez-me criar a noção da responsabilidade pelos meus
atos, e aliada à minha grande sede de saber, ainda hoje latente, resultou em grande
empenhamento e luta pelos meus objetivos.
           Aos 12 anos de idade vi, com alegria, o meu primeiro poema publicado num
jornal escolar. Mas fui sempre muito contrariada em meus anseios. Quis ser professora e
não me deixaram. Obrigada a trabalhar aos 15 anos, após o Curso Comercial, aproveitei
o primeiro emprego que apareceu, num escritório de empresa do ramo alimentar. Aos
17 anos chefiava o escritório duma fábrica de malhas e confeções com 65 pessoas.
Entretanto, um namorado quis casar comigo e acharam que era cedo demais. Como iria
viver para Sintra, era muito longe…!
          Tirei a carta de condução (coisa rara para mulher), tinha 19 anos. Nessa altura
uma amiga que, como eu, adorava os idiomas de francês e inglês, propôs-me ir trabalhar
e estudar na Inglaterra. Arranjou em Londres emprego para as duas e sonhei ir com
ela. Na hora de tirar o passaporte, meu pai voltou a dizer  “não!” e ela foi-se embora
sozinha. É hoje uma mulher bem-sucedida da diáspora. Visito-a em Hamburgo, no norte
da Alemanha.
          Pouco tempo depois, uma vizinha quis levar-me para os Estados Unidos e voltei a
ouvir uma nega. Essa amiga, é também uma empresária de sucesso em Nova Iorque.
          Movida pela força de vontade de evolução contínua, e não podendo largar o
emprego, quis retomar os estudos em horário noturno, e ouvi então dizer:  “Aqui,
mulher não sai à noite!”.  Sempre “aprisionada”, só quando passei à maioridade
(21anos) me senti eu própria, tornando-me independente e financeiramente autónoma.
Fui-me aventurando à vida, sem nada esperar de quem quer que fosse.
          Aos 23 anos realizei o sonho de viver na minha própria casa, adquirida com
algumas economias, proventos das minhas habilidades e um pequeno empréstimo
bancário. 
Millennium Bcp. Vivi sempre do meu ordenado, sem imaginar que pudesse um dia
existir qualquer ajuda do Estado se eu não trabalhasse. Por isso, ia aprendendo tudo o
que estivesse ao meu alcance para me valorizar. Um dia, vi afixado na minha agência
bancária, o anúncio de um concurso para promotores comerciais. Até aí, só havia
promotores/homens. Concorri, escrevendo uma carta para o efeito. Estando esta já
terminada, reli-a e pensei: ” Sou mulher. Às tantas a carta vai parar ao lixo. Vou já
alertar para isso!”. Então acrescentei no final da carta: “Pelo facto de ser mulher,
julgo não ser condição suficiente para me excluírem do concurso. Entendo que o
trabalho, desde que bem executado, poderá ser feito por ambos os sexos”. Venci,
assim, o desafio, tornando-me a 1ª Mulher Promotora Comercial bancária da zona norte
do país. Também por isso, fui convidada a promover a venda dos primeiros seguros na
banca portuguesa, em parceria com uma companhia de seguros. Estávamos em 1989.
Foram ótimas experiências de trabalho, que me deram muito prazer e me levaram a
receber variados prémios. Sempre atendi emigrantes e dentro do serviço de emigração,
li muitas das suas cartas, traduzindo os seus anseios e satisfazendo os seus pedidos.
          Aos 26 anos ingressei nos quadros do Banco Português do Atlântico, hoje
          Quando sonhei ter o meu primeiro automóvel, fui em par-time, demonstradora
e vendedora de trens de cozinha da marca italiana IMCO. Após treze meses, chegou o
carro novo que paguei a pronto.
          Mas as minhas tendências mais inatas, eram para as artes. Queria dedicar-me à
pintura e o tempo escasseava, meu sonho esvanecia.
          Em 1980, a convite de uma amiga emigrante, fiz a minha primeira viagem a
Paris, de comboio, por quinze dias. Aí, o sonho renasceu com toda a pujança, já que, à
minha volta se respirava a arte. Era ali mesmo que queria ficar! Aproveitei uma semana
para visitar os museus. A outra, para comprar material e comecei aí a pintar. Ainda
frescos e com todo o cuidado, trouxe três telas pintadas a óleo. Mal cheguei a Portugal,
como havia várias agências do Banco em França, logo tratei de saber como poderia
ir trabalhar e viver em Paris. Mais uma vez, e para meu desconsolo, outra resposta
negativa. Em Lisboa disseram-me que o meu pedido teria sido aceite se o tivesse feito
no ano anterior, dado a emigração, entretanto, ter diminuído bastante.    
          Restaram-me os sonhos e a minha arte. Após mais uns quantos quadros pintados,
mostrei-os a uma jornalista e crítica de arte do Porto, Anabel Paúl, que me incentivou
a apresentá-los ao público, o que veio a acontecer em 1983 em exposição coletiva
no Sindicato dos Bancários do Norte. Em 1987 realizei a minha primeira exposição
individual na Póvoa de Varzim. Através de livros, alguns mestres, aulas na ESBAP
e experimentando diversas técnicas, continuei na arte. Tinha 36 anos quando faleceu
minha mãe e meu pai logo a seguir.
          Nos finais do século passado, por motivos de saúde, aposentei-me do trabalho no
Banco. Em 2005 interessei-me pela escrita criativa, num curso com o escritor Válter
Hugo Mãe. Em 2006 tornei-me membro da Associação de Voluntariado do Hospital de
V. N. de Famalicão como voluntária e coordenadora na área de oncologia.
          Em 2007 voltei aos estudos académicos. Estava ainda por realizar o sonho de
uma licenciatura. E na Universidade Católica, entre as Teorias da Arte, História da
Arte, Estética, Crítica de Arte, Iconografia, etc., conclui o curso de Estudos Artísticos e
Culturais em 2010.
          Entretanto, no Teatro do Campo Alegre no Porto, cursei o “Laboratório de
Leitura Poética” níveis I e II, com a técnica de voz e cantora lírica Ana Celeste Ferreira.
Colaboro ainda em diversas tertúlias literárias e saraus de poesia. Em coautoria,
participei em mais de duas dezenas de antologias poéticas. Em 2008 publiquei o
primeiro livro de poesia “Os Degraus da Casa”. Sou membro de diversas associações
artísticas e culturais. Algumas no estrangeiro.
          Com todas as provações e negações que a vida me aprontou, continuo uma pessoa
positiva, otimista, lutadora e preparada para desafios. O único complexo que tive um
dia, foi o de ser ”baixinha”, o que depressa me passou, quando ainda na escola se sentou
a meu lado uma colega mais baixa que eu. Tenho também o vício de estar sempre
ocupada. É nas artes da pintura e da escrita onde mais me realizo.
          Sempre me animou a ideia de viajar, chegar, partir e voltar. Nas viagens que fiz
fora do país, sempre me senti uma cidadã do mundo. Estaria bem em qualquer parte, e
em espírito, serei sempre uma eterna emigrante na ansia de realizar ainda outros sonhos.
          Como eu, muitas mulheres, dentro e fora da diáspora, sentiram algum tipo de
discriminação. Algumas tiveram dificuldades de integração no mundo do trabalho,
onde sei, que só com muito empenho e sacrifício se consegue a plena realização
em qualquer profissão e muito mais na área das artes. Vejo a arte também como
emancipadora. Através de meios comunicacionais comuns e tendências inatas, a arte
aproxima as pessoas e ajuda a diminuir as diferenças. É também uma das minhas formas
de comunicar, dialogar e denunciar injustiças sobre as mulheres no mundo. Defendo
a liberdade, com valores e responsabilidade. Reconheço ter havido ao longo dos anos,
muitos avanços na apreciação do trabalho das mulheres, seus direitos e regalias, mas
estou certa que haverá ainda muito por fazer. Não percamos nunca a capacidade de
sonhar!
          Termino com uma frase de Mário Zambujal:
        “ A mulher é o poema de Deus. O homem, a simples prosa”
20/9/ 2013
Filomena Fonseca

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