segunda-feira, 18 de novembro de 2019

ARCELINA SANTIAGO

ARCELINA SANTIAGO

Como a diáspora marcou a minha história de vida!

O meu nome não é simples e tenho muitas vezes de o repetir – Maria Arcelina Chamtip
Clementino de Santiago. Nasci em Macau e a minha história de vida é um testemunho
da diáspora pelos vários continentes. Na verdade, eu nunca senti uma forte pertença a
este ou aquele lugar em especial, vejo-me mais como uma cidadã do mundo. Sinto-me
bem em qualquer lugar e dele faço o meu ninho. Talvez pelas inúmeras viagens que fiz
(Macau, Timor, Índia, Angola), especialmente em criança até à adolescência, pelas
muitas escolas que frequentei, pelas tantas  pessoas com quem me cruzei. O meu avô,
Manuel Chamtip partiu muito jovem, à semelhança de tantos outros chineses, à procura
de melhores condições de vida, no final do século XIX, rumo ao mundo novo.
Atravessou o Pacífico e, tal como tantos denominados Collies ou culés que partiam para
o Perú ou México, fixou-se no México e aí casou com minha avó Maria de la Luz Leon
Navarro, e tiveram três filhas. Uma delas, Maria Balbanera Chamtip era  a minha mãe.
A vida torna-se difícil naquelas paragens e a família parte de novo rumo às origens
paternas mas já não se fixam na China. Escolhem inteligentemente Macau por ser mais
fácil a integração das filhas e da mulher que falam apenas o espanhol. Mais tarde, o meu
pai, João Batista Clementino, minhoto de gema, parte para uma missão militar em
Macau, conhece a minha mãe, casa e tem duas filhas. Mais tarde, esta nova família parte
para Portugal e ficam as saudades dos avós que deixaram sós em terras lá longe. Mais
adiante, rumamos até África. Aqui frequentei em Luanda, por ser a melhor aluna do
Liceu Norton de Matos, um curso de Portugalidade. Vivi África de forma intensa e tudo
me deslumbrava naquela terra imensa! Desejava voltar, mas o destino não o
proporcionou.
É em Lisboa que frequento a Faculdade de Letras, integrando-me num lar de estudantes
ultramarinas, mas é na Universidade do Porto que termino a Licenciatura em Filologia
Germânica. Mais tarde, faço uma pósgraduação em Formação Pessoal e Social, e a
seguir o Mestrado em Ciências Sociais, Políticas e Jurídicas, incidindo sobre as
Questões do Género -  As mulheres, a academia e a gestão: o caso da Universidade de
Aveiro.  A minha atividade profissional esteve essencialmente  centrada no ensino. Do
profissional ao básico e secundário até ao ensino superior. Assumi todos os cargos
possíveis dentro da Instituição escolar: professora, diretora de turma, coordenadora de

departamento, membro da direção, orientadora pedagógica. Foram anos intensos de
dedicação a uma profissão escolhida e acolhida com paixão.
Fui Diretora do Centro de Formação das Escolas de Espinho e consultora pedagógica de
formação, Coordenadora de projetos, muitos dos quais me levaram à Turquia, ao País de
Gales a Sevilha.
No plano cívico, sou sócia fundadora e dirigente de várias associações tal como a
Associação dos Amigos da Biblioteca José Marmelo e Silva, Confraria da Caldeirada e
do Camarão de Espinho, na defesa da arte Xávega. Integrei a AMM há dez anos e sou
ainda associada da Casa Macau a lembrar as minhas raízes. Sou voluntária na
Universidade Sénior, orientadora dos Ateliês da Memória, iniciativa da AMM.
Fui durante muitos anos juíza social e eleita representante dos Professores ao Conselho
Municipal da Educação. A minha experiência política passou por ser deputada
municipal na Assembleia Municipal de Espinho e, mais tarde, membro da Assembleia
da Junta de freguesia de Espinho.
Sou uma mulher defensora de causas de cidadania, adoro ler, viajar e comunicar. Sou
curiosa e considero-me uma pessoa em constante aprendizagem.
1. Algumas considerações sobre o seu modo de ver e de trabalhar para os
objectivos fundamentais da AMM, fazendo referência à colaboração já
dada a iniciativas da AMM e/ou a  novas propostas. 
O Encontro internacional "Mulheres da Diáspora" em 2009 (Centro Multimeios em
Espinho) foi a minha estreia na AMM a convite da Dra Graça Guedes. Depois,
seguiram-se muitas outras iniciativas, como por exemplo, a homenagem a duas
mulheres fantásticas - Maria Lamas e Maria Archer. Para Maria Archer criei um guião,
com base em diversas fontes, sobre a jornalista e escritora, denunciadora das condições
das mulheres e defensora dos seus direitos e, por isso, remetida ao exílio. Essa
entrevista imaginária foi replicada muitas vezes em vários eventos em escolas.
Depois, segue-se o Encontro Mundial em Lisboa e, mais tarde, os  vários colóquios em
Espinho, Gaia e Monção (na comemoração do Dia Internacional da mulher) tais como:
Expressões de cidadania no feminino; Portugal Brasil - a descoberta continua a partir
de Monção; e ainda a apresentação do livro de Adelaide Vilela Magna de afetos e Olhos
nas letras, na Biblioteca Municipal de Monção.
Colaborei juntamente com Graça Guedes e Manuela Aguiar nas publicações anuais da
AMM e, juntas, envolvemo-nos em iniciativas com as quais me identifiquei não apenas

pelas causas, mas pelo estilo e metodologia de trabalho desta singular Associação em
que cada um/uma tem  a sua voz presente e ativa.

2. Como vê as possíveis aplicações concretas das suas linhas de investigação
e/ou planos de ação no domínio das migrações e da Diáspora, com
enfoque especial no feminino.
Embora tenha orientado deste sempre o meu estudo e formação de pósgraduação para as
questões do âmbito da formação pessoal e social e das questões do género, é no terreno
que me sinto realizada. Através da escrita, ações de formação ou intervenção em
conferências e debates sobre as questões em torno dos direitos humanos, em especial o
das mulheres junto dos jovens e dos mais idosos (nas universidades seniores), sinto que
o meu papel como cidadã interventiva ganha mais revelo. Sou lutadora e crente de que
será possível um mundo mais justo e mais igualitário, em que cada ser humano se possa
realizar inteiramente. Por ter um historial de diáspora, sou também interessada pelos
temas da emigração. Gosto de estar ligada a projetos e, por isso, me sinto confortável na
organização de iniciativas. Será pois este o meu contributo para com a AMM, num
espírito de missão, de voluntariado e de entrega a várias causas.

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