sábado, 1 de dezembro de 2018

AIDA BAPTISTA narrativa

MIGRAÇÃO EM SEIS ANDAMENTOS


Uma paisagem desenha no meu rosto
as rugas da infância.
Lídia Martinez


Vivi nove meses no aconchego do ventre de minha mãe, até que, sob a influência da lua - diziam os antigos – chegou o dia em que, num grito de alforria, emigrei para o seio da família que me esperava no cais de uma gestação bem sucedida, situado na zona do Douro Vinhateiro.
Primeiro o pai - a quem as fráguas estreitas e íngremes do rio limitavam a grandeza do sonho - depois a mãe, acompanhada das duas filhas (eu e minha irmã), decidiram cruzar o mar para, numa praia mais a sul do Equador, fixarem a âncora da minha identidade e de todos os irmãos que se seguiram.
Foi aí, na costeira cidade de Benguela, que cresci, me fiz mulher e mãe de dois filhos (uma menina e um rapaz), alheia à forma como a sociedade estava organizada. Estudei no colégio das Doroteias, cujo regime de internato permitia que as filhas dos fazendeiros e comerciantes ricos da província, lá vivessem. Durante todos os anos da minha escolaridade, tive colegas mestiças, mas, nem uma preta! Nas escolas oficiais, já se viam algumas, mas só depois de eclodir a guerra, em 1961, as turmas começaram a ganhar um colorido humano.
Confesso que nunca partilhei do slogan criado por Fernando Pessoa: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Nunca estranhei nada, e desde sempre entranhei que o regime era mesmo assim! Numa família remediada, a grande preocupação de meu pai era trabalhar para alimentar e educar a prole que aumentava de ano para ano. Eu, desde muito cedo cuidadora de irmãos, tentava desempenhar esta atividade juntamente com a outra, a de estudante, nunca tendo perdido ano algum.
Sem mala de cartão, mas um filho em cada mão, em 1975, vi-me no aeroporto de Luanda a fazer parte de uma ponte aérea, de regresso ao país onde nascera, mas não vivera. O País que eu estudara cruzava o mapa do Minho a Timor, e fui apanhada de surpresa, sem nada entender do direito à autodeterminação. Já estávamos em guerra, para onde tinham ido soldados em força, mas ficava tudo tão longe que nunca dela me dei conta.
 De início, sem trabalho e sem salário, valeu-me o teto da casa do pai dos meus filhos, no interior de um Portugal muito provinciano, que ainda criticava as mulheres que fumavam e olhava de soslaio para as que usavam calças e se apresentavam com corpos mais descobertos.
Para sobreviver nos primeiros tempos, troquei cautelas premiadas, de pouco valor, cujo prémio tanto podia ser levantado em Angola como na Metrópole. Felizmente, e porque já havia iniciado a minha carreira docente lá, acabei por ser colocada cá. A partir daí, se há muito havia deixado de olhar para trás, passei a traçar metas num horizonte voltado para o futuro.
Sozinha, a cuidar dos filhos, a trabalhar e a estudar em simultâneo, segui a estrofe da pedra filosofal e deixei que o sonho comandasse a vida. Pensava na condição das mulheres? Não! A minha enchia-me de tal modo que não havia espaços onde coubessem as outras. Era emigrante pela terceira vez, mas o nome que me deram foi de “retornada”. Não sofri com o epíteto, porque a tudo retornei: à luta pela sobrevivência, pelo sucesso académico na Universidade de Coimbra, onde me inscrevera na Licenciatura em História - e tardiamente despertei para movimentos e causas -, pelo estágio pedagógico de dois anos, que tive de fazer para me vincular à escola, pela casa que decidira começar a construir, pelo esforço de acompanhar os estudos dos filhos, pela entrega à pós-graduação em Estudos Europeus na mesma universidade, e a enorme vontade de ter mais mundo do que o das fronteiras que o destino me reservara.
Para o conseguir, fiz o Curso de Leitora de Português e, no ano em  que perdi minha mãe, cumpri a primeira missão em Helsínquia, cidade onde pude chorar o luto que não tivera tempo de fazer em Portugal. Fiquei oito anos, tendo-me, entretanto matriculado no Mestrado em Literatura e Cultura Portuguesa, na Universidade Nova de Lisboa, beneficiando do estatuto de trabalhadora estudante.
O segundo posto foi na Universidade de Toronto, Canadá. Mergulhei de chapa na nossa diáspora, e senti na pele o impacto das histórias de vida que, por muito bem sucedidas que fossem, haviam sido erguidas a partir dos caboucos de muita miséria e fome. Só então tive consciência do que verdadeiramente era ser e/imigrante porque, como diz Natália Correia, “a gente só nasce quando somos nós que temos as dores”. Nasci, então, para as questões ligadas à integração, adaptação, dificuldades linguísticas, confrontos culturais, relação de pertença, indefinição identitária, saudade sem sinónimos, mas gente lá dentro.
Foi esta experiência e manifesto interesse pelos assuntos citados, que me levaram a participar em Semanas Culturais, Congressos, Conferências, Simpósios, Debates (dentro e fora do país).
No dia da morte da Amália, vi nas ruas do “Little Portugal” a portugalidade a romper de todos os que homenagavam a diva, com cartazes nas montras e fado por todo o lado. Qualquer coisa bateu muito forte dentro de mim! Cheguei a casa e escrevi a minha primeira crónica para “O Milénio”, um jornal comunitário que acabara de nascer.
E continuei até hoje, mesmo depois de ter ainda cumprido uma missão em Benguela, onde dirigi o Centro de Língua Portuguesa, e dei aulas no Pólo da Universidade Agostinho Neto.
Hoje, aposentada e a residir em Portgal, as questões que referi continuam a ser fonte de preocupação e reflexão, mas serviram também de matéria-prima às obras que já publiquei, como autora, co-autora e organizadora:
Passaporte Inconformado, Edições MinervaCoimbra, 2004; Chão da Renúncia, Edições MinervaCoimbra, 2008; Entre Margens de Afectos (c/   Gabriela Silva), Liga Portuguesa Contra o Cancro, Ponta Delgada, 2009; Passos de Nossos Avós (c/ Manuela Marujo), Ponta Delgada, Publiçor, 2010, Abraço de Mar entre Ilhas e Continentes (c/ Gabriela Silva), Publiçor, 2011; A Voz dos Avós. Migração, Memória e Património Cultural (org. Natália Ramos, Manuela Marujo, Aida Baptista), Ed. Pro Dignitate, Julho 2012; Frank Alvarez, O Caminho de Um Português, 2016 Ed. Frank Alvarez.
E sempre que a oportunidade surge, e o meu calendário o permite, lá estou eu a dizer presente a todas as iniciativas ligadas às questões da diáspora, entre elas as provenientes da Associação Mulher Migrante.


Maria Aida Costa Batista
Novembro de 2018

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