quinta-feira, 15 de novembro de 2018

HUMBERTA ARAÚJO narrativa


  • NARRATIVA
Humberta Araújo
Não me vejo como uma exceção, mas quando se nasce numa planície branca, e onde as memórias mais queridas te transportam para a ilha, é sem dúvida difícil dizer-se de onde se é, ou de onde se veio.
Eu sou filha de pai e mãe dos Açores, ilha de S, Miguel. A família emigrou em 1960 e eu nasci em 1961, em Vanderhoof,, British Columbia. Não me perguntem pormenores da vila onde nasci, porque dela tenho muito poucas recordações.  As primeiras memórias mais vivas são de Montreal, para onde a família se mudou após 4 anos, em diversas localidades na Columbia Britânica.
Mais tarde, o pai com saudade do mar – era pescador de profissão – e contra os amuos de minha mãe, que como muitas mulheres engolira todas as lágrimas que tinha de engolir, fazendo-se a pouco e pouco aos braços do Canadá, - regressa às ilhas, comigo “à tiracola”.
Aos 7 anos, e no segundo dia de escola primária na freguesia do Pico da Pedra, a minha avó Beatriz, ainda com cheiro a farinha de milho acabada de escaldar, leva-me ao pequeno estabelecimento escolar, situado no lombo da rua 24 de Agosto, para ter uma conversa com a professora, que me havia mandado para casa no dia anterior, porque não ensinava a estrangeiras.
Não sei o que lhe disse a minha avó, mas sei que fiquei na escola e,  seria da varanda da mesma escola, que me apaixonei pela primeira vez. Histórias à parte, completei mais tarde os estudos secundários no Liceu Antero de Quental, em Ponta Delgada. Por acaso, dei há dias com a  minha caderneta escolar, e vi que aos 16 anos - quando completava o último ano no Liceu - já escrevia com um pseudônimo (Ojuara) para o Jornal Correio dos Açores, em Ponta Delgada.
O que escrevi – estava-se nos meses quentes depois da revolução - teve um tal impacto, que muitas respostas vieram em outros jornais de S. Miguel. As respostas atacavam o impostor (não sabiam que o autor eu era uma jovem de 15 anos), que tinha tido a ousadia de contrariar as tradições religiosas e patriarcais da ilha.
Esta colaboração valeu-me um desafio do então diretor do jornal para experimentar o jornalismo. Meses mais tarde estava eu, como assistente de redação na RTP/Açores, ela também a dar os seus primeiros passos.
Mas a ilha, com todos os seus encantos e a solidão que nela se experimenta, empurrava-me para o lugar onde nasci. Nos anos 80, e numa jornada difícil e muito dura, decidi regressar ao Canadá. Após ter trabalhado em fábricas, em restaurantes, em limpezas, e cuidando de crianças “live-in nanny”, acabei por reencontrar o jornalismo em Montreal, no jornal a Voz de Portugal.
Vou para a Universidade de Concordia: Estudos de Comunicação e mais tarde para a Queen’s: Relações Internacionais e Interculturais.  Estudos acabados e, com a saudade a matar, regresso às ilhas. Sou jornalista no Açoriano Oriental, regressando depois à casa mãe, a RTP/Açores e RDP. Passo 3 anos na rádio do Clube Asas do Atlântico, na ilha de Santa Maria, como chefe de redação.
Mãe solteira regresso ao Canadá onde me encontro desde 2004.
Atualmente sou Curadora na Galeria dos Pioneiros Portugueses em Toronto, artista têxtil, escritora com 4  livros infantis publicados, assim como poesia e contos em inglês e português. O jornalismo continua uma paixão no MilenioStadium em Toronto. Agora, com um novo projeto, o Baú da Avó, um museu do brinquedo artesanal em Toronto, regresso ao mundo maravilhoso das infâncias das nossas avós.


QUESTIONÁRIO
1 - Eu vejo a AMM como uma organização que pode ter um papel importante na exposição da cultura feminina na diáspora, através da divulgação de estudos já existentes, incentivando a investigação em temas que lhe são relevantes e ainda através do apoio de atividades artísticas e outras, que caracterizem o ambiente das mulheres na diáspora canadiana.
Acho que pode ter também um papel mais ativo nas áreas que dizem respeito às mulheres portuguesas/luso canadianas, na divulgação de apoios, programas ou outros do governo português, que possam ter um papel positivo e pratico nas suas vidas.
Neste aspeto e dada a minha experiência como escritora, artista, jornalista e curadora da Galeria dos Pioneiros Portugueses e fundadora do Museu do Brinquedo Português em Toronto o Baú da Avó, posso apoiar em algumas iniciativas de divulgação de programas e apresentando propostas de intercâmbio e promoção da organização.


2. Como referi, acho que a instituição pode ter um papel ativo junto das mulheres, para que seja reconhecida como parceira importante nas políticas e ações que reflitam a situação atual da mulher migrante. Os problemas que as mulheres atravessam no Canadá são muito peculiares, e vão desde o emprego precário, salários abaixo do salário mínimo, falta de participação ativa na vida do país e do seu munícipio, questões relacionadas com a documentação, assedio e violência sexual no meio familiar e no emprego, isolamento das mulheres idosas, para além de muitas outras questões, que afetam as suas vidas.

Concretamente: ações práticas de divulgação junto de organizações que trabalham com mulheres, nos media e nas celebrações culturais que abundam pela comunidade; incentivar o interesse das investigadoras/es tanto em Portugal como nas diásporas pelo estudo, in loco, da condição da mulher imigrante e a divulgação de apoios e outros, através da AMM, do estado português.

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