domingo, 30 de setembro de 2018

VICTOR GIL sobre a DRª RITA GOMES


EM HOMENAGEM À DR.a MARIA RITA ANDRADE GOMES

A aproximação de outubro traz-me desde há longos anos a lembrança do aniversário da nossa estimada e comum amiga Dr.ª Rita Gomes e, bem assim, o cuidado de acompanhar mais de perto o compasso do tempo de modo a que não lhe faltasse nesse dia com uma palavra de saudação alusiva à data e os votos da sua repetição por muitos mais anos. Neste ano, como o renascer das fontes com as primeiras águas do outono, a lembrança voltou mas a minha habitual saudação, feita umas vezes em direto, outras vezes por telefone, carta ou outro meio de contacto, ser-lhe-á dirigida desta vez, seguro da fidelidade que mantive até aqui à nossa amizade, através deste meu depoimento, no quadro da homenagem que a família e a Associação Mulher Migrante (AMM) decidiram em boa hora prestar-lhe, lançando um convite a todos os amigos e amigas da Dr.ª Rita para a recordarem por mensagem na data em que ela, se estivesse ainda entre nós, cumpriria um ano mais de vida.

Por motivo algum, faltaria ao pedido da família, com a qual mantenho cordiais relações de amizade, bem como ao empenho e ao esforço da Associação Mulher Migrante e dos seus órgãos sociais, em especial da Assembleia Geral, de que é presidente a Dr.ª Maria Manuela Aguiar, para não deixar cair no esquecimento a memória da sua  importante e notável ação no campo das questões da emigração e das comunidades portuguesas, incluindo a valorização da presença e do papel da mulher nessas áreas, como de resto o fez já com outras conhecidas personalidades do mundo das comunidades portuguesas.

Temo apenas, e estou disso consciente, que o meu depoimento venha a não corresponder por falta de tempo, limitações pessoais e de outra ordem, ao que gostaria de escrever, lembrando a este respeito que a Dr.ª Rita me pediu um dia para preparar um texto sobre ela e vir depois a apresentá-lo num ato que estaria a ser preparado em sua homenagem. O ato não se realizou, por razões que continuo a desconhecer, e eu, no meu íntimo, de que guardei até hoje segredo, saboreei o gosto de não a ter dececionado, o mesmo gosto que desejaria agora voltar a saborear.

Entre os múltiplos aspectos da personalidade e da ação da Dr.ª Rita, há três que, neste curto e simbólico testemunho, me parece merecerem particular destaque.

Começo pelo que respeita à sua carreira profissional, por ter sido no quadro da sua vida profissional que a quase generalidade dos seus amigos e amigas  a conheceu e com ela manteve relações de trabalho e de amizade. O nosso primeiro contacto data de 23 de janeiro de 1973, dia em que, na companhia do nosso saudoso e querido amigo Dr. Carlos Correia, tomei posse no Secretarido Nacional da Emigração como técnico superior de segunda classe, em cerimónia presidida pelo Secretário Nacional da Emigração, Dr. Américo Saragga Leal, também ele de saudosa memória. Previamente à tomada de posse, apenas tinha falado no organismo com a Srª.D. Elvira, secretária do Dr. Manuel Francisco Farinha, chefe de divisão do Gabinete de Estudos e de Relações Públicas, meu futuro chefe, com o qual tive uma entrevista e acertei os pormenores da minha próxima entrada no serviço. Para além do chefe de divisão, licenciado em Direito, o Gabinete contava já com o Dr. Vasco Rodrigues da Silva, licenciado em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa e com a Dr.a Rita Gomes, licenciada em Economia pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras. Foi este o núcleo inicial do Gabinete de Estudos que veio pouco depois a ser reforçado com a chegada dos Drs. Adelino Bento Coelho, Jorge Gouvêa Homem e Henrique Pietra Torres. Limito-me nesta referência a antigos colegas do tempo do Secretariado que foi igualmente o tempo do início do nosso relacionamento com a Dr.ª Rita. Outros colegas, que recordo aqui também, sem citar porém os seus nomes, chegariam mais tarde tanto para a então designada Direção de Serviços de Informação Especializada e Acordos de Emigração, como para outras direções de serviços. De todos os colegas, a Dr.ª Rita era a que tinha mais idade e mais experiência profissional. Antes mesmo do nascimento de alguns de nós, a Dr.ª Rita tinha já ingressado na Função Pública, em 20 de março de 1948, na Junta da Emigração, com a categoria de 3.º oficial, depois promovida a 2.º oficial, a 8 de abril de 1953, e com concurso feito para 1.º oficial em 6 de março de 1958, vaga para que foi nomeado um outro candidato do sexo masculino, por em igualdade de classificação “a prestação de serviço militar era de atender como primeira preferência, sendo essa preferência invocável também contra candidatos do sexo feminino”. No seguimento dessa decisão, corroborada por um parecer da Procuradoria Geral da República, veio em 1963 a ser requisitada para o Fundo de Abastecimento do Ministério da Economia com a finalidade de prestar serviço no Gabinete do ministro da Economia de então, Professor Doutor Luís Teixeira Pinto, seu professor no ISCEF, que a convidara para chefiar os serviços da secretaria do seu Gabinete, funções que desempenhou de 31/5/1963 até 19/3/1965. A partir dessa data, passou a trabalhar como técnica do Gabinete de Estudos Económicos da Junta Nacional da Cortiça, promovida a adjunta do diretor em novembro de 1970, período em que esteve igualmente associada à atividade da “Confédération Européenne du Liège”. Em 1 de março de 1972, após a extinção da Junta de Emigração, voltou aos serviços de emigração, ao então recém criado Secretariado Nacional da Emigração, para exercer funções, como já referi, no Gabinete de Estudos e Relações Públicas. Manteve-se nos serviços de emigração até 23 de março de 1992, data da sua aposentação, primeiro como técnica, de 1/3/1972 a 7/07/1977, e, depois, como dirigente, tendo com esse estatuto exercido as funções de diretora de serviços de Informação Especializada e Acordos de Emigração na Direção-Geral de Emigração e, após a extinção desta em 20/08/1980, no Instituto de Apoio à Emigração e às Comunidades Portuguesas (IAECP) da Secretaria de Estado de Emigração (7/7/1977 até 17/3/1982); de vice-presidente do IAECP da Secretaria de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas, nos pertíodos de 17/3/1982 a 30/6/1983 e depois de 1/2/1985 a 8/8/1989;  e de presidente do mesmo Instituto desde essa última data até 23 de março de 1992. No âmbito das várias funções descritas, manteve ligações com múltiplos organismos e organizações a nível nacional, tais como o Grupo de Estudos sobre Convenções Internacionais de Segurança Social e a Comissão Permanente de Peritos do Conselho das Comunidades Portuguesas; a nível bilateral, intervindo em negociações de acordos e convenções relativos a questões migratórias, em comissões técnicas e de acompanhamento de projetos; e a nível multilateral, participando nas atividades de organizações internacionais ligadas às migrações, nomeadamente a OCDE, o CIME, atual OIM, e o Conselho da Europa, deixando aqui uma menção à sua participação na organização da 3.ª Conferência de Ministros da Europa Responsáveis pelas Questões de Migração que, em colaboração com a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, se realizou no Porto, no Palácio da Bolsa, de 13 a 15 de maio de 1987. Este foi em grandes linhas o percurso profissional da Dr.ª Rita, um percurso a todos os títulos notável, em cuja caracterização sobressaiem ao aspetos seguintes:
- A sua longa duração, exatamente quarenta e quatro anos, na sua larga maioria perfeitos nos serviços de emigração;
- O desempenho ao longo de todos esses anos de funções de elevada exigência técnica e da mais alta responsabilidade, em especial a presidência do IAECP, cargo equiparado a diretor-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros;
- A intensidade e a abrangência do trabalho desenvolvido, em contextos de grande complexidade institucional e política quer a nível nacional, quer a nível internacional;
- O escrutínio a que funcionalmente esteve submetida, sob a supervisão tutelar da hierarquia do Ministério dos Negócios Estrangeiros, incluindo o próprio ministro e a (o) secretária (o) de Estado das Comunidades Portuguesas, e a sucessiva renovação da confiança dos seus superiores no seu trabalho.
Num registo mais pessoal, a imagem que guardo da Dr.ª Rita, dos perto de vinte anos que trabalhámos na mesma área de serviço público, é a de uma colega que no exercício das suas funções sempre agiu no respeito pelos princípios exigidos aos agentes da Administração Pública; a de uma colega que sempre pôs os seus conhecimentos, talentos e capacidades ao serviço do Estado e do interesse público; a de uma colega próxima dos utentes e do público em geral, profundamente convicta da utilidade do seu trabalho e por isso sempre disposta a abraçar todas as causas em que reconhecesse interesse para a promoção e desenvolvimento dos emigrantes, das suas famílias e das respetivas comunidades, mesmo quando as circunstâncias não eram as mais favoráveis; a de uma colega imbuída de um profundo humanismo, solidária e companheira nos bons e maus momentos, conhecedora da vida e das voltas que a vida dá. Exemplos? Não me faltariam…

Neste seguimento, outro ponto a destacar, o segundo, tem precisamente a ver com a sua dimensão humana, projetada a nível tanto pessoal, como familiar, que tão importante foi para a aproximação e a ligação entre a Dr.ª Rita e os colegas e colaboradores mais próximos e para a coesão conseguida no âmbito do trabalho da direção de serviços que passou a dirigir e, mais tarde, à frente dos destinos do IAECP, marcante não só no âmbito interno, mas também no quadro da nossa atividade no âmbito externo, em especial junto do MNE. A Dr.ª Rita teve sempre o cuidado de fomentar um bom ambiente de trabalho e de estimular a amizade, o respeito e a estima entre todos os colegas tanto no trabalho, como fora dele, contando com a abertura, compreensão e ajuda do marido, o arquiteto Sérgio Gomes. Quantas vezes os dois nos receberam em sua casa e pudemos disfrutar da sua simpatia, amabilidade e convívio, ajudando-nos a fazer novas descobertas, a começar pelas afinidades existentes entre nós! Num artigo publicado sob o título Os Amigos, sem poder referir a fonte e a respetiva data, José Tolentino Mendonça, hoje arcebispo e arquivista responsável pelo arquivo secreto do Vaticano, comentava que “o que aproxima os amigos, o que os liga entre si é a descoberta de uma afinidade interior, puramente gratuita, mas suficientemente forte para fazer persistir no tempo o afeto, a cumplicidade, a relação e o cuidado”, acrescentando que “…Se quisermos explicar que afinidade é essa nem sabemos.” Momentos tive também de alguma tensão com a Dr.ª Rita, talvez devido à grande afinidade que nos aproximava. Por ocasião da nossa promoção conjunta a técnico superior principal, lembro-me de me ter dito que a situação que lhe causava algum incómodo, invocando como causa a diferença de idade entre ela e os restantes colegas promovidos, nos quais estava também incluído. Agastado com o comentário, por me parecer injusto, pedi-lhe apenas para não esquecer que era a nós, os seus jovens colegas, que devia a promoção, pois fora graças à nossa ação no pós 25 de Abril que o nosso organismo não passara por graves convulsões internas e fora assim possível aprovar a revisão do respetivo diploma orgânico e, no interesse de todos, do correspondente quadro de pessoal. Em consequência dessa e doutras conversas, muito possivelmente, a Dr.ª Rita teve sempre colegas mais novos como colaboradores mais próximos e tive agora a grande satisfação de descobrir que na dedicatória do CV que apresentou ao concurso para assessor principal do quadro de pessoal do IAECP, em 1989, reservou parte da sua dedicatória “…aos Colegas e Colaboradores que sempre me ajudaram”. A Dr.ª Rita foi a funcionária exemplar com que mantive estreitas relações de trabalho durante perto de metade da sua vida ativa, cerca de vinte anos, como foi também a colega amiga, a que me ligaram laços profundos de afinidade durante quarenta e cinco anos das nossas vidas.

Termino, fazendo menção, em terceiro e último lugar, ao tempo que dedicou à Associação Mulher Migrante - desde outubro de 1993 até à sua morte - de que foi sócia fundadora, sempre como voluntária. O seu exemplo na área do voluntariado é um legado deixado a Mulher Migrante-Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade, muito inspirador por certo para a sua ação no futuro.

OBRIGADO DR.ª RITA.

Lisboa, 28 de setembro de 2018

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