segunda-feira, 18 de abril de 2016

O CONGRESSO DO PSD EM ESPINHO - A QUESTÃO DE GÉNERO E OUTRAS QUESTÕES

1- Há, pelo menos, doze anos que não ia a um congresso do PSD, mas, desta vez, com o congresso à porta de casa e sucessivamente desafiada pela Leonor Fonseca e pela Virgínia Estorninho, não hesitei em as acompanhar. Foram três dias esplêndidos, cheios de reencontros com amigos, da emigração e do país, que não via há muito tempo. E de memórias de outros congressos, alguns bastante mais aguerridos. O primeiro a que assisti, como convidada, foi o do cinema Roma, em Lisboa. Estávamos em 1979 e ainda não era filiada no PSD, embora fosse já "Sá Carneirista" declarada há muito, desde que ele se afirmara contra a ditadura no hemiciclo de São Bento e como "social-democrata à sueca" numa entrevista dada a Jaime Gama. Depois, perdi a conta aqueles em que participei. Por exemplo, em 1981, o do Porto, com Balsemão (no meu caso, com os chamados críticos" contra Balsemão), uma reunião agitada por insuperáveis divisões e inflamados discursos, no interior do Rivoli, mais uma falsa ameaça de bomba, que nos obrigou a um pacífico interregno no exterior. Recordo, em especial, congressos de grandes mudanças de liderança: em 1983, o de Albufeira, que vivi euforicamente, com a vitória de Mota Pinto; em 1985, o da Figueira da Foz, que parecia destinado à volta do "Balsemismo sem Balsemão" (com João Salgueiro) e acabou na consagração de Cavaco Silva (reviravolta ocorrida a altas horas da noite, enquanto eu dormia, pelo que fiquei fora de todas as listas, ali elaboradas); o de 1995, no termo da "pax" Cavaquista, com a sucessão a ser disputada por Nogueira, Durão Barroso e Santana Lopes - um elenco de luxo, no mais mediático de todos os eventos do género e, se me não engano, pioneiro na total abertura a câmaras da televisão. Coisa nova, também no que me respeita, porque tinha não só um, mas dois candidatos para scolhr, Fernando e José Manuel. A solidariedade coimbrã falou mais alto, apoiei entusiasticamente Nogueira e escrevi a Durão Barroso, dizendo-lhe que, mais tarde, ainda haveria de votar nele, o que, realmente, veio a acontecer... 2 - Espinho 2016 foi, assim, tempo de lembrar, nostalgicamente toda esta caminhada democrática, num ambiente que tem ainda muito de semelhante, na mescla alegre e convivial em que os debates, lá dentro, alternam com os abraços e animadas conversas cá fora. Menos despreocupadas e afetivas, são provavelmente as negociações de bastidores para a composição de listas d dirigentes, a que alguns se entregam, sem tempo para intervalos lúdicos. E também as marcações de intervenção podem ser complicadas para o participante comum (suponho que os notáveis escolhem dia e hora…). Sei-o por experiência própria, e um dos velhos amigos que revi nos corredores, reavivou-me a memória com um caso passado no Pavilhão Rosa Mota... Eram 4.00 da manhã e ele saíamos de uma sala vazia, onde quase só Cavaco e Silva se mantinha, atento, como era seu dever. E eis que ouvimos chamar pelos microfones o meu nome... no fim da tal lista de oradores. Voltei à pressa ao recinto, para tomar a palavra sobre questões internacionais - sobre a Europa das Nações, a Europa da "iguais", que não existe hoje. Fui muito aplaudida por Cavaco, pelo meu amigo e meia dúzia de "resistentes".ao cansaço da madrugada. Em 2016, isso não aconteceu a Virgínia Estorninho, a primeira na lista das intervenções livres! Por sinal, abordou muito bem um tema da maior importância, fadado para não fazer "manchetes" - o do relacionamento inter-geracional. A Virgínia, que diz sempre, sem rodeios, o que tem para dizer, apelou a uma política de valorização, de aproveitamento, de inclusão dos recursos humanos deste grupo etário que tanto cresce, proporcionalmente, na sociedade portuguesa. Cito: "Os da minha geração - a peste grisalha, como alguns lhe chamam - deram-lhes (aos jovens) aquilo que nunca tiveram [...] Cometemos, admito, o grande crime, que foi o de trabalharmos muito, nalguns casos até demais, para que nada lhes faltasse". E, a terminar, aconselhou os nossos políticos a atentarem nas diretrizes europeias neste domínio, nas recomendações do CESE, que, entre outras propostas. exorta os governos a colocarem " a tónica na capacidade e nos contributos dos idosos e não na sua idade cronológica", realçando-os "através de declarações positivas", promovendo a sua participação ativa no processo de decisão na comunidade, na política, nos conselhos de administração de empresas, em organismos públicos, no voluntariado... Bem vistas as coisas, a proposta da Virgínia vale tanto, ou mais, do que a muito badalada "mobilidade social" de Paulo Rangel, que também é precisa... 3 - Pode a voz das mulheres, por muito forte que se erga, ser ainda pouco ouvida nestes areópagos partidários, mas é justo reconhecer que, de um ponto de vista feminista, o Congresso de Espinho deu um passo em frente: a Comissão Política é quase paritária e na Permanente (um poderoso "inner circle") as mulheres estão, facto inédito, em maioria! O Conselho Nacional, esse, continua longe da paridade, prejudicada pela grande multiplicidade de listas concorrente, encabeçadas, regra geral, por homens. Por outras razões, o panorama é ainda pior no Conselho de Jurisdição (uma mulher) e no das auditorias (100% masculino...). Outra nota positiva foi a aprovação de moções (K e N) voltadas para a questão da igualdade de género, uma delas a propor uma verdadeira organização de Mulheres Social - democratas, estatutariamente reconhecida. Em Espinho, neste campo, soprou uma brisa social-democrata "à sueca". Maria Manuela Aguiar

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