sexta-feira, 4 de dezembro de 2015


MARIA BARROSO

 

Ausente Presença

 

Por Leonor Xavier

 

Nela, vejo a liberdade como princípio de vida, a família como força e estrutura de caráter, a política como disciplina de comportamento, a fé como misteriosa e firme revelação em idade madura. Vinte anos depois de me ter perguntado se eu queria escrever a sua biografia, penso em Maria Barroso com a alegria de bem a ter conhecido e o fundo desgosto de a ter perdido. Ausente presença a guardo e a revejo, até hoje sou capaz de ouvir o som da sua voz. 

Nas celebrações da morte, perguntaram-me a sua maneira de ser, o ambiente em que nasceu, os estudos, os amigos, o teatro, o amor, a política. Falou-se dos seus gestos de atenção aos outros, aos mais simples, aos anónimos. Foi relembrada a sua maneira clássica de vestir, a determinação no estilo, a harmonia nas cores, conforme as variadas circunstâncias em que estava presente. Forte e claro era o seu discurso amoroso constante, sempre que falava do seu amor de juventude, com devoção. As prisões, os exílios, as separações, os medos. Compensados pela coragem, pelo atrevimento, pela liberdade com que sempre se exprimiu nas causas que desde sempre defendeu.

Na sua expressão pública, Maria Barroso disse a importância da família na ordenação da sociedade, o perigo da violência, o valor da educação, a firmeza da palavra dada. Empenhou-se na assistência, aos flagelados, às vítimas de seca ou de chuva, no socorro às margens da sociedade. Nas questões políticas e sociais, intervinha, bem conhecendo os problemas comuns a todos e a todas, neste tempo. Podendo ser intolerante e até radical quando discordava, ela sentia a compaixão e praticava a misericórdia, a solidariedade, a doçura.

Na sua postura, vejo a marca de formação que recebeu como atriz nos anos 40 da sua juventude. Desde que no Teatro Nacional pertenceu à Companhia de Amélia Rey-Colaço-Robles Monteiro, para sempre lhe ficou a clareza na maneira de falar, a certa medida das frases, a colocação de pausas e pontos finais, o momento justo da respiração. As costas direitas, o olhar determinado, a expressão dos olhos a confirmar o que dizia e como dizia.

Desde o fim do segundo mandato do Presidente Mário Soares e até à morte, Maria Barroso teve uma média de duzentas intervenções públicas por ano. Dezenas de percursos pelo país inteiro. Uma vintena de viagens anuais, para destinos de curta e de longa distância. Fez conferências em escolas e universidades, participou em debates e congressos. Pela defesa dos direitos humanos, e pela cooperação lançou campanhas, procurou e conseguiu ajudas, apoios, parcerias. Na urgência de realizar, acreditava que as soluções possíveis existem.

E até hoje recordo e aqui cito o testemunho que deixou: “O meu reencontro com a fé deu-me uma serenidade muito grande para olhar todo o percurso da minha vida, despedir-me deste mundo sem receio nem angústia.” Escrevi-o no último capítulo da sua biografia. Sem imaginar que algum tempo depois, a hora da morte lhe chegava.

Sem comentários:

Enviar um comentário