sábado, 5 de dezembro de 2015

MANUELA MARUJO sobre MARIA BARROSO

O segredo de Maria de Jesus Barroso
Em 2002, em nome da Universidade de Toronto, e por sugestão da nossa Leitora do Instituto Camões, Dra. Aida Baptista, enderecei um convite a Maria de Jesus Barroso, para fazer a abertura do I Congresso Internacional A Vez e a Voz da Mulher Imigrante Portuguesa.  Esse congresso seria parte das comemorações do cinquentenário da imigração portuguesa para o Canadá.  Como não conhecia pessoalmente Maria Barroso, imaginava que tivesse uma agenda muito preenchida, e receava que não aceitasse viajar para Toronto.
Para grande regozijo das organizadoras e de cerca de centena e meia de participantes, em setembro de 2003, tivemos o privilégio de contar com a sua comunicação de abertura no auditório do edifício Northrop Frye, Victoria College.  Nessa e noutras sessões do congresso, apercebemo-nos da simpatia, afabilidade e simplicidade no trato, ao partilhar connosco os seus conhecimentos e preocupações.
Creio que esse encontro de 2003 sobre a temática da imigração, com enfoque na mulher imigrante portuguesa, foi inesquecível também para Maria Barroso. Confessou-nos que algumas das questões abordadas nos trabalhos do congresso lhe pareciam dizer respeito, dada a sua experiência de exilada em Paris, na década de sessenta e mulher de um ativista constantemente preso e exilado. Afirmou a certa altura:
“A situação da mulher migrante é, em geral, mal conhecida. [...] eu própria convivi de perto com o problema da emigração, quando acompanhei o meu marido no exílio político a que o antigo regime o votou. Aí vivi esse problema, experimentando os mesmos dramas e dificuldades com que os nossos concidadãos se confrontavam.” (Marujo, Batista, Barbosa, 2003, p. 12).  
Bem informada também sobre as questões que diziam respeito ao Canadá, realçou a importância da educação das crianças e jovens luso-canadianos, o valor do ensino do português como língua de herança e de identidade, a taxa de emprego das mulheres imigrantes portuguesas, o envelhecimento e, sobretudo, referiu a importância da integração na sociedade canadiana. Deixou uma mensagem muito clara sobre os direitos devidos às mulheres e salientou que
“a voz da mulher migrante tem de começar a ser ouvida. Através da sua participação política, individual ou concertada, é menos provável que se atinjam os graves problemas da exclusão”.

A Dra. Maria Barroso participou nos debates com interesse, sensibilizou-se com alguns dos testemunhos, e mostrou-se grata pela oportunidade de estar a conviver não só com académicos do Canadá mas também da Austrália, do Brasil, dos EUA, da Inglaterra, de Portugal continental e do arquipélago dos Açores.
Voltei a encontrar em 2007, a Dra. Maria Barroso, em Toronto, a convite da organização Associação Mulher Migrante, e da Dra. Amélia Paiva que, nessa altura, exercia as funções de Cônsul-Geral de Portugal. Nesses “Encontros para a Cidadania”, uma vez mais nos impressionou pela sua participação ativa, entusiasta e conhecedora das questões. O cansaço de uma viagem intercontinental não era razão para recusar o desafio, sempre que a sua presença fosse considerada essencial.
Em 2008, atrevi-me a convidá-la para ir a Ponta Delgada participar no I Congresso Internacional A Voz dos Avós: Migração e Património Cultural.  Este Congresso foi organizado pela Universidade de Toronto em parceria com a Universidade dos Açores.  O reitor, Professor Avelino Menezes, e a Doutora Rosa Simas, do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas, deram apoio incondicional para a organização de um primeiro congresso memorável. Na sessão de abertura, a Dra. Maria Barroso lembrou comovida o papel que a sua avó materna tivera na sua formação, sublinhando:
“É indispensável e fundamental não esquecer o papel dos avós, que urge recuperar. Tão importantes são os avós sobretudo no acompanhamento dos netos. São um enorme reservatório de afetos.
Temos de encurtar o salto geracional entre os anciãos e os jovens para que estes possam beneficiar de toda a sua sabedoria – como disse alguém ‘a sabedoria amadurecida no coração, a sabedoria que é como a plenitude de Outono, rica de cores e de tonalidades’”. (Marujo, 2010, p. 13).
A estadia na ilha de São Miguel, na companhia desta senhora sempre conversadora, dinâmica e amável, foi uma dádiva. O apoio do Presidente do Governo Autónomo Carlos César e de Maria Luísa César foi imprescindível. A Dra. Maria Barroso teve o acolhimento que lhe era devido como ex-primeira-dama do governo da República, celebrado com um jantar dado em sua honra, no elegante palácio da Conceição, sede do governo Regional, e para o qual foram convidados todos os participantes. Foi, então, motivo de comentários de admiração geral, a belíssima e maior carpete de Arraiolos que cobre o soalho de um dos salões do palácio, oferecida por Mário Soares nos anos da Presidência Aberta, e que a esposa nunca tivera oportunidade de apreciar. Nesse ambiente de festa, uma Maria de Jesus divertida e cheia de humor animou um serão que se prolongou noite fora.
O congresso com a temática “Avós”, que a levara aos Açores, impressionou de forma muito positiva a Doutora Maria Barroso. Por esse razão, prontificou-se, de imediato,  a ceder as instalações da Fundação Pro Dignitate em Lisboa, para a realização do segundo, dois anos depois.  Assim, foi nossa graciosa anfitriã no II Congresso A Voz dos Avós: Migração, Memória e Património Cultural realizado em 2010. Este congresso foi organizado pela Universidade de Toronto, em parceria com a  Universidade Aberta (CEMRI – Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais) e a Fundação. Maria Barroso esteve presente em todas as sessões, acolheu os participantes dos vários países, atendeu jornalistas e entidades especiais presentes nesse encontro, que teve a amabilidade de convidar. Graças a esse valioso patrocínio da Fundação foi publicado o livro  A Voz dos Avós – Migração, Memória e Património Cultural, já em segunda edição.
Depois destas manifestações de simpatia, sempre que me deslocava a Lisboa, nunca deixei de a ir cumprimentar à Fundação Pro Dignitate. Ia com o coração aberto para a ouvir e com ela aprender. A sua memória e cultura geral fascinavam-me. O seu interesse pelas causas que lhe tocavam a alma  eram contagiantes.
Em dez anos de convívio espaçado, passei bons momentos no seu belo e histórico gabinete - denominado A Sala da Rainha (ou de D. Maria I), junto à Basílica da Estrela, parte do antigo Convento do Sagrado Coração de Jesus -, a partilhar conversa, cafezinhos e chocolates que ela muito apreciava. E até um almoço amigável e inesquecível, no seu apartamento do Campo Grande, com a amiga comum Aida Baptista. Muito ao jeito português, mostrou-nos a casa, fotografias e objetos queridos.
Ficar-lhe-ei para sempre grata, em particular pela sua compreensão pelas minhas causas, sua generosidade e extrema/inexcedível simpatia. Perguntei-lhe muitas vezes a brincar, “Gostaria de ser como a senhora! Qual é o seu segredo?” e ela respondia: “Não se pode parar, o segredo é não parar”.  
Maia Barroso parou, por fim, a sua atividade. Porém, a sua incansável energia, cultura e maneira de estar no mundo não vão parar de me inspirar!
Manuela Marujo
Diretora Associada,
Departamento de Espanhol e Português
Universidade de Toronto

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