sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

D JANUÁRIO TORGAL FERREIRA sobre MARIA BARROSO

Cidadã do mundo, a Drª Maria de Jesus Barroso Soares atravessou a existência, plena de humanidade e de são inconformismo, recriando-a através da promoção da realidade cívica e do culto da arte.
A edificação da Cidade é sempre irmã – gémea da criação cultural: em todos os instantes urge defender a realidade pública do viver  humano e pronunciá-la  como  obra  sempre inacabada.
Quem teve a dita e o usufruto pessoal de contactar com esta Senhora, acolheu do seu exemplo esta vertigem da responsabilidade: a comunidade das pessoas exige direitos e deveres, à semelhança de um reduto onde deverá ser impossível a violência.
O espaço da paz é uma instância aberta aos seus protagonistas, cultivando a justiça, a liberdade, a cooperação solidária, iluminando-as, ao mesmo tempo, com o cultivo do bom gosto e da arte. A Vida real é feita de acontecimentos, tanto mais reais quanto sentidos pelos outros.
Mais singulares que os nossos, são sempre os valores (presentes ou ausentes) alheios. O exílio da realidade é o estado normal da desumanização.   Pois  bem.   O  tom  humano  e  humanizado  da Drª Maria de Jesus, manifesto da forma mais espontânea, representou sempre uma lição de sensibilidade, de envolvência cívica, de unidade franca e afectiva.
As pessoas e os seus acontecimentos foram uma sua porção, uma sua pátria, uma sua comunidade, uma sua família, sem exibicionismos nem saltos à visibilidade. O mundo humano e desumano era a sua casa, sempre a habitar e a prover das entidades com que se transforma o mundo.
Esta a exigência de uma ética planetária, a qual rege o comportamento comum, sem monopólios nem discriminações.
É missão de qualquer convivente do universo a prática da justiça, a incomodidade face ao desrespeito dos direitos, o devotamente aos vazios, para que cessem, de acordo com a sentenças clínica e transversal a diferentes culturais: “faz aos outros o que querias que os outros te fizessem”.
A “Pro Dignitate”, instituição que dirigiu, teve sempre o sentido de um brasão: a favor da dignidade: Mas, mais do que um emblema, sempre personificou um compêndio de convicções ou da certeza de princípios. A luta a favor da erradicação da pobreza, o serviço á paz nas suas dimensões plurais, a sensibilidade à educação e à pedagogia, o culto da verdade e da isenção da comunicação social, a vivência da diáspora portuguesa e da sua condição migrante, o diálogo inter-religioso, a cultura nas suas várias manifestações com relevo para a arte da representação e da dicção, e demais sectores humanos, traduziram respostas concretas a problemas da cidadania.
Desde sempre foi este universo de saberes e preocupações, um gesto e uma predilecção. De igual modo, as suas naturais boas maneiras constituíram um modelo de respeitabilidade. Talvez por esse motivo, que nunca por tom palaciano, a opinião pública sempre a distinguiu como “Senhora”, que era!
A naturalidade, a dedicação sem limites, a abertura de espírito, a adesão a causas de exclusão, a tolerância, a cordialidade solidária, o carisma do diálogo, a coerência prática diante de opções cívicas, políticas e até confessionais, são muitas das cores com que pinto, interiormente, o retrato que me deixou da sua vida !
A alguns meses de sua morte, confidenciou-me que se andava a desprender da vida.
E acrescentou: “Vivo em paz e em serenidade”.
Uma mulher portuguesa, digna, recta, justa e solidária, a Senhora Drª Maria de Jesus Barroso Soares!
O seu sonho de mudar o mundo nunca foi em vão!
Há pessoas que não morrem. Foi o caso!      


                                                         Januário Torgal Mendes Ferreira  
                                                                           Bispo emérito
Lisboa, 30 de Novembro de 2015

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