sexta-feira, 20 de novembro de 2015

MULHERES no CCP 2015 Conselheira LUISA SEMEDO (França)


QUESTIONÁRIO MULHERES CCP

 

LUÍSA SEMEDO

 

 

1 - Entre os conselheiros eleitos ao 1º CCP, em 1981, não havia uma única mulher. Em 2015, são 12 as conselheiras eleitas. Como avalia esta evolução, face à realidade atual das comunidades portuguesas, por um lado, e, por outro, aos objetivos da Lei da Paridade?

A evolução é positiva mas fica aquém dos objetivos  da Lei da Paridade pois 12 em 80 conselheiros estamos ainda a 15% de mulheres, menos de metade do pretendido com a lei da paridade de 33,3% e comparado com o que realmente deveria ser para conquistar uma real representação da população que seria de 50%.

 

2 - Como surgiu a ideia de se candidatar ao CCP? Foi fácil formar uma lista segundo as regras da Lei da Paridade, organizar o programa eleitoral, fazer campanha?

Teria preferido, na ausencia de imposições jurídicas, elaborar uma lista exclusivamente feminina?

Fui solicitada devido às minhas funções de dirigente associativa encabeçar uma lista e aceitei o desafio.

Foi fácil a constituição da lista, para mim era evidente que deveríamos ter no mínimo 50% de mulheres e até chegámos a ter 6 mulheres para 4 homens mas por razões, alheias à nossa vontade, acabámos por ficar com 5. No entanto é de referir que a nossa lista era a única lista em França com uma maioria de mulheres (3) em lugar elegível e com uma mulher como cabeça de lista e isso também foi uma questão de vontade expressa da nossa parte.

Não teria preferido uma lista exclusivamente feminina, pois o CCP sendo um orgão de representação parece-me normal que todos os cidadãos se sintam representados, sem contar com o facto que a diversidade é sempre uma riqueza.

 

3 - Considera que as mulheres querem e podem levar a debate novas temáticas, uma forma diferente de estar e trabalhar no grande forum democrático que é o Conselho, ou, pelo contrário, pensa que o mais importante é que a igualdade de oportunidades e a participação cívica sejam garantidas, sem que isso signifique, necessariamente, a valorização das particularidades de género?

Estamos tão longe ainda da paridade, que uma política de ação afirmativa que facilite a intervenção das mulheres me parece ainda indispensável, e nesse sentido a mensagem deve ser a da igualdade de oportunidades mas através de uma política de participação cívica voluntária de valorização da participação feminina. Mas não acho que se deva centrar a mensagem em questões de particularidades do género, estamos a falar de uma questão de justiça e de justeza na representação e não de especificidades de género que são muitas vezes falaciosas e contraproducentes.

 

4 - Quais são as principais propostas que levará a Lisboa, ao próximo plenário do CCP?

Dadas as minhas funções de dirigente associativa, o apoio às coletividades será uma das minhas prioridades. Encontramos no meio associativo todas as outras questões que dizem respeito às comunidades como o ensino do português, a juventude, os idosos, o apoio social, a integração, os novos emigrantes, a participação cívica ou a cultura. Penso que uma rede associativa forte, apoiada e reconhecida é um passo importante para o bem-estar e a boa integração dos portugueses no estrangeiro.

 

5- O "Conselho" português tem avançado, tal como os seus congéneres europeus (o francês, que foi o modelo em que o nosso se inspirou, como aconteceu, alguns anos mais tarde, com o italiano e o espanhol) numa linha de experimentalismo de soluções que melhor sirvam em concreto a prossecução dos seus objetivos. Como vê a nova configuração do CCP?

Penso que há uma diferença como sempre entre a teoria e a prática. No papel é uma boa ideia ter em conta as temáticas e as zonas geográficas, mas resta ver como as várias comissões vão poder funcionar no meio de uma configuração a meu ver um pouco complexa. Tudo vai depender igualmente dos meios que tivermos à nossa disposição para levar a cabo o nosso trabalho.

 

 

 

6 - O CCP tem já uma história muito rica, mas mal conhecida em Portugal (do mesmo, aliás, se queixam os representantes do organismo francês, apesar do seu grau de institucionalização, inclusive, no quadro constitucional, e da sua transformação em "Assembleia dos Franceses do Estrangeiro" , dos meios acrescidos de que dispõe).

O que se poderia fazer para o divulgar?

O CCP não é só mal conhecido em Portugal, é muito mal conhecido entre os portugueses no estrangeiro. Tivemos uma consciência aguda disso no momento da campanha eleitoral. Todos os meios de comunicação, inclusive redes sociais, devem ser utilizados para garantir essa divulgação. Mas será sobretudo a partir das ações e resultados do CCP que conseguiremos divulgar da melhor maneira este órgão.

 

7 - Seria útil iniciar, numa perspetiva de análise comparativa, e até de articulação de ações, contactos com os membros de outros Conselhos de imigrantes, caso existam no país onde reside? E com o movimento associativo das nossas comunidades - do qual era oriundo o 1º CCP, na década de 80 - mantêm-se ou, se não, devem retomar-se laços de estreita cooperação?

Sim sem dúvida, uma das missões do CCP deve ser a de criar pontes e sinergias com a outras estruturas que obram pelas Comunidades, que fazem um trabalho de terreno considerável, isso resultará num enriquecimento mútuo em prol do Portugueses no estrangeiro.


 

8 - Que papel desempenha ou pode desempenhar o CCP num esforço de convívio e cooperação, não só de género, como de geração, mobilizando para a intervenção cívica os mais velhos, os mais jovens, os recém-chegados?

Como referido anteriormente, devemos apostar numa rede associativa forte, apoiada por uma coordenação das coletividades com recursos que permitirá desenvolver o convívio, a cooperação e a intervenção cívica de todas as gerações e nomeadamente da nova vaga de emigração.

 

9 - A terminar, pedíamos-lhe que nos falasse de si.

Ter sido eleita é, certamente, uma prova de muito trabalho já realizado e de reconhecimento dos comcidadãos. O viver fora de Portugal levou-a a um envolvimento cívico que talvez não tentasse nem conseguisse no país? O que a motivou fundamentalmente? Contou ou não incentivo ou apoio da família para a realização profissional e cívica? O que gosta de fazer nos tempos livres ? Quem são as personalidades que mais admira na história e na atualidade?

O meu envolvimento cívico deveu-se em primeiro lugar a uma frustração enorme de não ter meios de voltar para o meu país e de necessitar de encontrar um meio de colmatar essa falta de Portugal. Este envolvimento permitiu-me encontrar uma « família » de substituição. Tenho trabalhado muito mas também tenho recebido muito em retorno.

Não é possível fazer um trabalho voluntário desta natureza sem o apoio da família, sobretudo quando se tem filhos pequenos.

Gosto de cultura, ciência e desporto e acabo por poder juntar o meu trabalho associativo a certas atividades que gosto de fazer no meu tempo livre.

As personalidades que mais admiro são todos aqueles que lutaram muitas vezes a custo da sua vida ou integridade física pelos valores em que acreditavam independentemente de terem ficado com o seu nome conhecido na História. Os resistentes de Abril em Portugal, os ativistas dos direitos cívicos nos USA, os combatentes do apartheid na África do Sul, os lutadores da Primavera Árabe, são pessoas que me inspiram e humildam.

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