sexta-feira, 27 de novembro de 2015

ANTÓNIO PACHECO sobre MARIA BARROSO

“SOS-África”- um combate de Maria Barroso pela dignidade dos media, também a partir de Cabo Verde  

A génese


Maria Barroso saíra magoada da Cruz Vermelha Portuguesaem 2003. Não era o afastamento em si,  decidido pelo ministro da altura. O que a incomodava era o modus faciendi", pouco digno de pessoas de caráter: os maneirismos,os complotsos jovens de gabinete do ministro, promovendo notícias e boatos sobre a gestão danosa” da Presidente deixaram-na de rastos.

A nível internacional Maria Barroso estava a trabalhar, a partir do segundo mandato , no  fortalecimento   dos laços entre as CVlusófonas. Era um projeto inovador e que reforçava o peso e a presença da língua portuguesa no espaço internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Em 2003, na reunião de Maputo lançava CPLP da Cruz Vermelha de Língua Portuguesa que ficaria conhecida como o “fórum das sociedades nacionais de língua portuguesa”, uma ideia que seria aprovada por unanimidade e com estatuto legal autorizado em Dezembro de 2003.

Mas toda a gente sabia e era correntemente admitido e pressentido pelas   direções das CP do espaço lusófono que Ministro Paulo Portas queria afastar a curto prazo a Presidente da CVP. Tinham comigo conversas de corredor sobre essa convicção. Eu também sabia que quando do final do primeiro mandato, numa reunião entre Paulo Portas e Maria Barroso pouco se tinha falado dos problemas da CVP; o Ministro passou a maior parte do encontro a falar da “importância e relevo” que a Presidente da CVP tivera, como cidadã,  na eleição do  Mário Soares para a Presidência da República. Eu sempre achara esta conversa desapropriada e relacionada com o risco do prestígio de  Maria Barroso vir a influenciar e promover próximas candidaturas presidenciais. Era desconhecer Maria Barroso…mas para mim, o destino da Presidente ficara traçado nesse momento.

Em 2003, de forma discreta mas eficaz, os presidentes das sociedades lusófonas presentes quiseram ultrapassar o risco do afastamento de Maria Barroso, institucionalizando  o cargo de presidente do “Fórum das sociedades de língua portuguesa, propondo, por unanimidade o seu nome  para tais funções.
Um dos grandes promotores deste projeto foi o Dr. Dário Dantas dos Reis, um distinto médico cabo verdiano que regressara ao país depois da independência e que assumira as funções de Presidente da Cruz Vermelha de Cabo Verde.

De volta a Cabo Verde

Em 2004, ainda por influência e sob os auspícios dDr. Dantas, a Presidente da Cruz Vermelha de Cabo Verde e o ministério da defesa, então dirigido pelo comandante Armindo Maurício lançam um repto à Pro Dignitate aquele que seria um dos grandes projetos dos últimos anos da vida de Maria Barroso : O combate contra a violência nos media, sobretudo nas rádios e televisões. Uma luta que conduzira também a partir da Cruz  Vermelha, com mesas redondas envolvendo jornalistas prestigiados, as “ong” e a organização internacional “repórteres sem fronteiras”.

Ano de debate em Cabo Verde.  Havia um verdadeiro caso estudo: o desastre de aviação no aeroporto de Santo Antão. Reinava ainda no ar a poeira dos boatos, má-informação e o “diz-que-diz” à volta de um terrível desastre aéreo que ocorrera alguns anos antes no aeroporto de Santo Antão, que levara ao encerramento do aeroporto por longos anos:

e a sociedade civil como se tinha comportado?

os órgãos de comunicação social tinham sido capazes de transmitir o drama com objetividade, com distanciamento jornalístico, quimicamente puro?


tinham as organizações chamadas para atuar na ocasião -serviço de proteção civil, bombeiros, polícia outras forças de segurança atuado de forma correta?


tinham prestado a informação correta, esclarecedora às populações, através de comunicados transmitidos na rádio e nos restantes mediaEra necessário fazer uma reflexão. Estava tudo debaixo do tapete em aberto.

A proposta que nos fora endereçada, através do ministro da defesa era: está a Presidente da Fundação Pro Dignitate e antiga presidente da CVP  disposta a organizar, aqui em Cabo Verde, um debate sobre esta matéria? Tem equipa para o fazer?

Esta matéria ligava-se a outras duas também fundamentais. É que o jornalismo em situação de crise levanta questões de "direito internacional humanitário” –como proteger e o que proteger. Colocava outro problema: a Fundação devia alargar a sua tarefa à formação de quadros africanos permanentes nas áreas de da atuação do jornalista em situações de crise e de conflito: o tal jornalismo ao serviço da paz .

Todo o sucesso da iniciativa se ficou a dever a uma série de nomes de pessoas de Cabo Verde:
O Ministro da defesa participou e coorganizou o colóquio sobre “o comportamento dos media em situações de crise” que constituiu uma ação de formação para jornalistas, animadores sociais de todo Cabo Verde e que para esse efeito se deslocaram ao Mindelo. Do lado da Pro Dignitate, fora escolhido Ronaldo Monteiro, um estagiário e bolseiro da Fundação para preparar o evento e organizar, in loco,  toda a viagem de Maria Barroso a Cabo Verde.

Presente também Isaura Gomes, Presidente da Câmara de São Vicente, uma grande Amiga de Maria Barroso. Em muitas ocasiões   ouvi Maria Barroso incentivar Isaura: “Não se fique pela Câmara, você tem estofo para vir a ser a primeira Mulher a ocupar o cargo de Presidente da República de Cabo Verde” e perante o silêncio dos presentes acrescentava: “já viu a importância e o exemplo que seria para todo o espaço de língua portuguesa”? E não resisto a uma observação pessoal: acho que Maria Barroso gostaria de ter ocupado tal cargo em Portugal. Recordo a esse propósito uma outra nota: Maria Barroso costumava contar que a Rainha de Espanha a incentivara diversas vezes: “porque não concorres à Presidência?” Nunca respondera mas sempre entendera, julgo eu, que tal facto não seria bem aceite pelo Marido.

Outro dos grandes Amigos com que ficou na altura  foi o Presidente da Câmara de Porto Novo, Dr. Amadeu Cruz. que a convidou para proferir, a 10 de Dezembro, uma palestra sobre os Direitos Humanos e o Direito Internacional Humanitário. Ficou encantada com a visita a Porto Novo, que incluiu visitas ao hospital e a escolas primárias. Ficou sempre ligada à ilha de Santo Antão que tentou apoiar em diversas ocasiões e através de distintos projetos.


Os nomes da Rádio Nova, e do seu diretor dessa altura também não podem ser esquecidos.


Não é por acaso que nasce de dois destes Homens, Amadeu Cruz e Ronaldo Monteiro, a ideia de  que se dê continuidade à Pro Dignitate e aos seus programas na área do combate à violência nos media, sobretudo em África, pela criação da ONG-SOS-África, sedeada precisamente em Mindelo, onde se iniciara em 2004, o envolvimento da Pro Dignitate no projeto de jornalismo ao serviço da paz e do desenvolvimento. Trabalharam com Ela nas últimas décadas.

A Comunicação Social no Terceiro e Quarto Mundo infelizmente não acompanha a realidade dos países e das regiões fora do espaço do mundo industrializado; o  poder e os lobbies dos media são controlados por preocupações que nada têm de ético;  as escolas de jornalismo, dentro de uma tradição eurocêntrica e colonial ,  reforçam a perspetiva de uma informação acética que não sabe ler, escutar e ver as comunidades em que se inserem. Esta será a luta que, em nome de Maria Barroso, vamos continuar num verdadeiro esforço SOS.
  

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