sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Bernardo sobre a Avó Fernanda


Do neto

Bernardo Ramos Trindade

 

Se eu iniciasse a descrição de Vovó Fernanda sem que soubessem a quem eu  estava me referindo, achariam que eu estaria descrevendo uma pessoa no auge dos seus 30/40 anos de idade.

Ao mesmo tempo, se eu tivesse que pensar aqui nas características de uma avó, daquelas típicas de contos e filmes, que fazem doces e contam estórias para seus netinhos, jamais conseguiria descrever minha avó.

Ela era assim, única. Extremamente moderna em seus atos, pensamentos e conselhos, mas também incrivelmente conservadora em seus valores, conceitos e regras.

Uma Senhora que nos meados de seus setenta anos resolveu que tinha mais um sonho, o de ter um hotel. E, contra tudo e contra todos, conseguiu realizá-lo. Realizou como se fosse uma jovem empreendedora, investindo, ali no seu sonho, todas as suas forças e energias. E mesmo nos seus últimos dias, já quase sem forças, queria saber quantos hóspedes tinham, quantos saíram e quais suítes estavam ocupadas. Uma energia, uma vontade de viver, inigualável.

Recordo-me um dia de chegar na fazenda com um amigo meu e ela estava no telefone discutindo com o Google sobre a postagem da página do hotel no site de busca, já que o Cadê não havia cobrado nada para postá-lo. Meu amigo achou aquilo incrível, e eu também, pois naquela idade quem acreditaria que ela entenderia de internet e quanto menos que estaria discutindo com um site o porquê de cobrarem a postagem da página do seu hotel na internet.

Lembro-me dela gozando minha irmã, pois nos chamou para sair e minha irmã disse estar cansada. Ela disse "você está mais velha que eu, eu saio todos os dias à noite e não estou a reclamar de cansaço".

Vovó Fernanda era assim, saia todos os dias para seus inúmeros compromissos sociais, homenagens, festas, ou apenas para jogar conversa fora. Conhecia a todos, os garçons, os prefeitos, os delegados, pessoas simples e pessoas importantes e mesmo com seu jeito durão tratava todas com muito carinho, de um jeito que era só seu. Onde quer que fossemos era visível o tanto que todos gostavam dela.

Olhando assim, poderíamos achar que uma mulher tão atarefada não teria tempo para sua família, mas pelo contrário (acho que seu dia tinha 48 horas e não 24 como o nosso), sabia cada passo de cada pessoa da família, de norte ao sul do Brasil e mesmo fora do Brasil. Dava notícia de todos e se preocupava com cada um de nós, queria ajudar e opinar em tudo, era uma verdadeira matriarca, a maior que já conheci.

É Vó, se hoje somos pessoas do bem, honestas, justas, leais e com boa índole, muitos destes valores devemos à Senhora. Mas dentre estes valores, Vó, a Senhora nos ensinou um valor ainda maior, o valor da família, e este nunca esquecerei e espero que ninguém se esqueça. Mesmo com seus familiares uns mais distantes que os outros a Senhora conseguiu nos manter assim, unidos.

Sentirei muitas saudades de sair do trabalho e passar na sua casa para lanchar, dos almoços de domingo, de irmos à fazenda em julho, de conversar com a Senhora. A saudade é realmente grande, mas maior ainda é a gratidão por ter vivido todos estes momentos ao seu lado.

No dia do seu enterro o Zé disse ao meu lado "Olha que pôr do sol lindo que mamãe vai ser enterrada". E era lindo mesmo! Nada mais digno para a Senhora. No entanto, vi naquele pôr do sol mais que beleza, vi que ele significava exatamente o que acabara de ocorrer em nossas vidas. A Senhora era nosso pôr do sol daquele dia, que deixava de brilhar aqui na Terra, mas que brilhará sempre, no céu e em nossos corações.

Te amo Vó, obrigado por tudo. Vá em paz e que Deus a acompanhe.

Um beijo. Bê.

Sem comentários:

Enviar um comentário