sexta-feira, 20 de setembro de 2013

MESTRE ARCELINA SANTIGO sobre o ENCONTRO MIGRAÇÕES E ARTES NO FEMININO

Foi com muito prazer que elaborei as breves notas finais  deste Encontro que , tal como os anteriores, acolhe sempre   conteúdos ricos, mas este, dotado de grande simbolismo porque marcou o início  das comemorações  dos 20 anos  da Associação de Estudos Mulher Migrante ( AEMM) em torno das questões de igualdade de género em contexto migratório. Dar inicio a esta efeméride, integrada na  II
Bienal "Mulheres d' Artes”, promovido pela Câmara  Municipal de Espinho, que reuniu muitas artistas da  diáspora, foi uma oportunidade de ouvir as próprias artistas  sobre interrogações a que é importante dar resposta, e que também suscitaram curiosidade dos jovens estudantes, presentes neste Encontro. Esta bienal de artes no feminino, por ser representativa do universo de mulheres das artes
e, neste caso, da diáspora, é algo de único no país e, por isso, coloca Espinho como pioneira na rota deste tipo de evento o que  muito nos orgulha.
 Também a parceria com  o jornal " As artes e as letras merece um destaque especial na concretização deste Encontro. 
 "Expressões da cidadania no feminino" será o tema  recorrente, como referiu a Dr. Manuela Aguiar  da AEMM e que procurará pôr em foco a realidade da vida e obra das  mulheres em diferentes domínios da cultura, da intervenção  cívica e política, da diplomacia, do empreendedorismo económico.
A Associação, através das suas Presidentes da Assembleia Geral e da Direção, respetivamente Drª
Manuela Aguiar e Drª Rita Gomes, agradeceram e  enalteceram a colaboração  da Câmara Municipal , em particular da Senhora vereadora, Drª Leonor Fonseca,  alma deste evento e do Dr.  Armando Bouçon, diretor do Museu Municipal – FACE,  que conseguiram   acolher uma
exposição com esta dimensão.
Destacaram também  o conjunto de atividades desenvolvidas pela AEMM, realçando-se que só foi
possível tal ação graças ao apoio dado pela Secretaria de Estado daa Comunidades Portuguesas.
A mensagem cheia de significado  do Senhor  Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr. José Cesário, cuja presença honrou a Associação, foram reveladoras  de que esta continua a
exercer o seu papel na defesa das mulheres em contexto  migratório, no reforço da lusofonia e da Portugalidade e divulgação das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Destacou também a importância destas não apenas na perspetiva empreendedora, da área dos negócios e comércio, das remessas, mas também no potencial  cultural que elas possuem. Referiu-se  à  outra metade dos portugueses  e   seus descendentes que habitam em tantos lugares do mundo e que fazem de Portugal um grande país,  não apenas o país de 10 milhões mas  muito mais e que a importância do nosso
país  é notória e  reconhecida em todo o mundo. Daí haver  representantes portugueses em todo os organismos de caracter internacional. 
Os poemas  declamados  pelos dos alunos da Escola  Básica e Secundária Domingos Capela, sobre o mar e  sobre a diáspora,  temas de autores portugueses, foram palavras inspiradoras e carregadas de  simbolismo , como refere Vergílio Ferreira “ da minha  língua vê-se o mar” . Também simbólico foi a exposição das magníficas  caravelas feitas de material reciclado  pelos alunos, representando "a partida" que faz parte da nossa longa  história da diáspora portuguesa.
A  Introdução ao tema pela Profª Doutora Isabel Ponce de Leão – Universidade Fernando Pessoa -  levou-nos à  reflexão  em torno de questões que se prendem com o papel das mulheres  no mundo artístico e de  mobilidade cultural.  Referiu o marco da nova corrente estética, o pós-colonialismo,  onde ocorre um novo paradigma de sociedade  e onde a mulher ganha um novo estatuto e
importância própria.
A segunda comunicação , pela Profª Doutora Ana Gabriela  Macedo da  Universidade do Minho (“Novas Corpografias de Arte no feminino”) deu-nos a conhecer, de forma muito  breve, o seu estudo académico sobre a   representação do feminino e da sua identidade na área da pós –modernidade
com incidência  na obra de Paula Rêgo, obra inspiradora  que provoca admiração e, por vezes, choque. A relação que as mulheres têm com o mundo e com os outros  remete-nos para as artistas controversas   como uma forma  de questionamento e reflexão. A alteridade afirmada não é
apresentada como algo menor mas enquanto  diferente e de forma positiva. Por fim, realçou as novas corpografias nos feminino e a arte ligada à cidadania onde as mulheres continuam a ter dificuldade em expor a sua arte. 
 As intervenções de algumas  artistas   levou-nos a concluir muito da sua forma de estar no mundo das artes e o seu papel enquanto cidadãs da diáspora e quão rica foi a interligação cultural  para o seu desenvolvimento como pessoas e artistas. Foram levantadas questões  diversas a suscitar reflexão: redução das horas dedicadas à Educação Visual no sistema de ensino em Portugal; das dificuldades
burocráticas portuguesas no transporte de obras de arte ;  a necessidade de uma maior intervenção do Estado em prol das artes; o elevado custo dos mestrados em Portugal  em relação ao estrangeiro;  os subsídios e sua  dependência ou até que ponto o artista terá de ficar enformado pelo circuito comercial para poder sobreviver em vez de ser um criador pleno…
Algumas artistas da diáspora   de várias áreas( fotógrafa, pintora, galerista, poetisa…)  deram  testemunho  das suas histórias de vida, onde ficou patente o  seu ecletismo cultural e desassossego permanente  , importante para o seu sucesso  enquanto mulheres, cidadãs e artistas.
A intervenção dos  alunos da EBSDC  jovens criadores , orientados pelas suas professoras, Filomena Bilber da Artes e Nelma Patela da Língua Portuguesa  foi  uma forma inspiradora e reveladora  de que a AEMM, ao fazer os seus 20 anos de atividade, tem  já   os olhos postos no futuro,  simbolizado aqui pela presença destes jovens. O envolvimento dos mais jovens sobre  as questões aqui em
apresentadas torna-se  na verdade enriquecedor.
 O projeto que aqui  começou terá  continuidade  com as entrevistas que cada jovem irá realizar às artistas plásticas  da diáspora aqui presentes nesta exposição  e que elegeram tendo em conta a obra que mais gostaram .
Desta forma, obter-se-á uma visão dos jovens sobre a questões da cidadania , das mulheres nas artes da diáspora.
Este  é um bom sinal  de vitalidade desta Associação que,  este ano, celebra 20 anos.

                                         Arcelina Santiago

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