quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

COMUNICAÇÃO DE CÉSAR GOMES DE PINA

“Papel da Mulher na Integração Social nas Academias do Bacalhau no Mundo”

Antes de mais, permitam-me que agradeça o honroso Convite que me foi endereçado pela Presidente da Assembleia Geral da Associação Mulher Migrante, Dr.ª Maria Manuela Aguiar, minha estimada amiga e comadre, para neste Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diáspora, apresentar uma comunicação subordinada ao tema: “O Papel da Mulher na Integração Social nas Academias do Bacalhau no Mundo “ .
Ao planear a comunicação que de seguida vos apresento, comecei por me interrogar se deveria ou não explicar em primeiro lugar dum modo sucinto e esclarecedor, o que é na verdade este movimento filantrópico, curiosamente designado de “Academia do Bacalhau” e, só depois falar no importante papel da Mulher nesta instituição. Se não seguisse esta metodologia de certeza que gerava uma grande confusão pois até poderiam formular
esta pergunta? Mas porque “carga de água” foi convidado o Presidente da Academia do Bacalhau do Porto para falar neste Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora? Optei decididamente pelo cenário que acima citei, consciente de que este é o melhor caminho para a minha intervenção, para a qual e desde já solicito e agradeço a vossa boa e generosa atenção. Muito obrigado. Como e quando se fundou o movimento das Academias do Bacalhau, que hoje se espalhou por todos os continentes?
A primeira Academia do Bacalhau, foi fruto de uma velha e curiosa história de amizade lusófona, nascida há quase 45 anos em Joanesburgo, África do Sul, onde na altura viviam e trabalhavam cerca de 1 milhão de portugueses. Foram quatro amigos, entre os quais o Dr. Durval Marques, hoje Presidente Honorário das Academias, que em boa hora tiveram a feliz ideia de fundarem a “Academia do Bacalhau de Joanesburgo”, iniciando-
se assim um movimento que os próprios fundadores, nunca imaginaram as repercussões da sua existência e a multiplicação das mesmas por todo o mundo, podendo-se até comparar este fenómeno a uma gigantesca onda de choque no domínio da amizade, portugalidade e solidariedade social.
E foi assim que, no dia 10 de Junho de 1968, se comemorou pela primeira vez na África do Sul o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas e se inaugurou oficialmente este movimento que se baptizou de “Academia do Bacalhau”, instituição filantrópica que se define como “uma Tertúlia de Fieis Amigos que, independentemente da posição social e grau de cultura de cada um, se congregam sem finalidades politicas, religiosas ou comerciais, para fomentar, encorajar e desenvolver laços de
amizade, cooperação e confraternização entre todos, defendendo o bom nome e prestígio de Portugal e dos Portugueses aonde quer que estejam, bem como os nossos valores histórico-culturais e fundamentalmente, concretizar acções de solidariedade e de assistência moral e material a pessoas e a instituições mais carenciadas”.
Qual a razão do nome “Academia do Bacalhau”? A escolha do nome para baptizar a Academia, assentou em razões lógicas, afectivas e histórico-culturais, uma vez que para nós portugueses o bacalhau foi, é e será tradicionalmente designado de “Fiel Amigo”. Razão lógica, porque se a Academia congrega um grupo de “fiéis amigos”, o mais apropriado e carinhoso nome para a baptizar não poderia ser outro senão o de Academia do Bacalhau. Razão afectiva, porque quando deliciosamente saboreado em convívios e tertúlias entre portugueses longe da pátria, nos recorda com saudade e quantas vezes com lágrimas nos olhos este nosso tão querido Portugal. Razão histórico-cultural, porque foi também graças ao bacalhau, desde a sua descoberta nos mares do Norte em 1497, que foram fisicamente possíveis as prolongadas viagens com destinos desconhecidos que os portugueses levaram a cabo com coragem e determinação na epopeia dos descobrimentos, tendo-se deste modo iniciado um processo histórico, que hoje designamos de globalização.
Em conclusão, por estas e outras razões “este movimento filantrópico, genuinamente português, de maneira nenhuma pode ser confundido com as chamadas Confrarias Gastronómicas, como por vezes acontece devido à sua designação, pois a palavra “Bacalhau”, como acima citei, é para nós portugueses o símbolo de “Fiel Amigo”, revelando-se desta forma académica e com tradicional simbolismo, o traço da unidade
comum que deve figurar na diáspora portuguesa. E nunca é demais reafirmar, para evitar tais confusões, que a força e vitalidade deste movimento reside apenas nos seus Objectivos e Princípios que há cerca de meio século regem as Academias e que traduzem
numa língua que transporta por esse mundo as nossas raízes histórico-culturais, numa permanente
evocação do Amor Pátrio da Alma Lusíada, pelo que os três grandes pilares em que assentam as Academias do Bacalhau, se resumem nestes singelos e tão significativos valores: Amizade, Portugalidade, Solidariedade. Como se justifica que um movimento fundado há quatro décadas em Joanesburgo se tenha difundido com o mesmo espírito por todo o mundo?
Após a fundação da Academia de Joanesburgo em 1968, que hoje se designa de “Academia-Mãe, outras Academias do Bacalhau se oficializaram nas principais cidades sul-africanas, todas obedecendo obrigatoriamente às mesmas Normas e Princípios, tornando-se cada vez mais conhecidas pelas acções de filantropia, solidariedade e assistência moral e material que prestavam aos portugueses emigrantes mais necessitados, mas também pela defesa e prestígio do bom nome de Portugal e dos portugueses, bem como
pela afirmação dos nossos valores histórico-culturais. E a propósito, não resisto à tentação de vos contar uma pequena mas significativa “história” que demonstra bem a verdadeira razão de ser das Academias do Bacalhau. “É mais uma história do 25 de Abril mas desta vez passada na África do Sul a qual como qualquer outra
história poderá assim começar: era uma vez um país maravilhoso no mágico continente africano, que logo após o nosso 25 de Abril se viu confrontado com uma situação dramática e inesperada, quando milhares de famílias portuguesas provenientes de Moçambique e posteriormente de Angola, procuravam em condições trágicas e desesperadas, segurança na África do Sul, sem passaportes e a maioria deles só com a roupa que vestiam, tendo sido recebidos em “campos de refugiados”do tempo da Segunda Guerra Mundial, que generosamente o governo sul-africano disponibilizou a todos, os quais face às circunstâncias necessitavam de ajuda humanitária imediata. E foram as Academias do Bacalhau sul-africanas que prontamente lhes prestaram todas as ajudas prioritárias. Penso ser importante divulgar estes factos históricos para melhor se compreender o verdadeiro espírito e razão de ser das Academias do Bacalhau, que respondendo às causas do bem, representam uma mais-valia para a sociedade contemporânea.
E, é o próprio Governo Português que manifesta grande admiração por todos quantos integram este movimento de boa vontade e de espontaneidade, respeitando o trabalho desenvolvido pelas Academias do
Bacalhau no mundo em prol de Portugal e das Comunidades Portuguesas, razões pelas quais, reconhecendo a importância sociocultural das Academias do Bacalhau, o então Secretário de Estado Engº José Lello, lhes outorgou em 1997 um honroso Diploma de Mérito”. Mais recentemente, em Fevereiro de 2011, eu próprio como Presidente da Academia do Bacalhau do Porto, recebi o “Troféu Portugalidade”, com que a mesma foi galardoada, pelo exemplo de dedicação, solidariedade e patriotismo, prémio esse que declarei aceitar sem vaidade mas com muita honra e decidi partilhar com todas as Academias do Bacalhau no mundo.
Há pois que considerar dois factos históricos que impulsionaram a universalização deste movimento: o 25 de Abril de 1974 e as mudanças politicas que tiveram lugar na África do Sul, levaram que muitas centenas de milhares de portugueses deixassem o continente africano por razões de segurança, para reconstruírem as suas vidas em Portugal e noutros países por esse mundo fora, mas trazendo no seu coração, o espírito altruísta das “Academias do Bacalhau” e desta maneira, conjuntamente com portugueses já residentes nesses países, se fundaram outras Academias, devidamente autorizadas pela chamada Academia-Mãe de Joanesburgo, mas obedecendo todas ao mesmo ideário e às mesmas Normas. E foi assim que, volvidas quatro décadas esta instituição se universalizou: África do Sul, Portugal, Canadá, Austrália, Namíbia, Suazilândia, Angola, Moçambique, França, Luxemburgo, América, Brasil, Venezuela e brevemente no Reino Unido, Espanha e Macau.
HOJE, as Academias do Bacalhau espalhadas pelo mundo já congregam mais de 60.000 Compadres e Comadres que exibem com orgulho o académico Emblema e o Diploma que a todos é dado após um período de tirocínio, desde personalidades governamentais, autarcas, administradores, gestores empresariais, médicos, arquitectos, advogados, professores, construtores civis e a tantos outros das mais humildes mas
digníssimas profissões, todos referenciando em uníssono, a “Academia do Bacalhau”, como um expoente máximo de filantropia e portuguesismo.
Como se fundaram as Academias do Bacalhau em Portugal?
A primeira Academia a ser fundada fora do continente africano, foi a Academia do Bacalhau do Funchal na Ilha da Madeira, no dia 10 de Julho de 1987. Depois, outras se seguiram: Lisboa; Porto; Algarve; São Miguel; Costa do Estoril; Estremoz; Viseu; Aveiro; Braga; Terceira; Coimbra; Faial e Setúbal.
PERMITAM-ME AGORA QUE REFIRA DE UMA MANEIRA MUITO ESPECIAL A MINHA MUI BRIOSA E
TRIPEIRA ACADEMIA DO BACALHAU DO PORTO, FUNDADA EM 16 DE SETEMBRO DE 1989.
ACADEMIA DO BACALHAU DO PORTO

Uma Receita de Sucesso.
A Academia do Bacalhau do Porto, há 22 anos a semear amizade, solidariedade e portugalidade, é hoje uma Academia exemplar em Portugal e no mundo e uma referência cultural e filantrópica no distrito e que apesar da crise não pára de crescer pois está perto de atingir 300 associados efectivos (Compadres e Comadres) .
O ano passado bateram-se todos os recordes no que diz respeito a presenças nos Jantares-Tertúlia da Academia do Bacalhau do Porto, com os dados oficiais a apontarem para uma média mensal de 140 compadres e comadres, número este que significa um aumento de cerca 540 por cento face ao período compreendido entre 1996 e 2005.
A justificação para este crescimento sustentado deve-se à introdução de um conceito trazido do meu mundo empresarial, ou seja, uma Gestão Por Objectivos, bem como um princípio que sempre me acompanhou e o qual procuro passar aos mais novos, incentivando-os a sair da vulgaridade, como forma para alcançarem sucesso nos seus projectos de vida. “Sair da vulgaridade é fazer e ser diferente no sentido positivo”.
E, a verdade é que na Academia do Bacalhau do Porto, têm-se introduzido coisas novas, nomeadamente a criação inédita de Vice-Presidências importantes tais como: Área da Saúde (Vasco Gama, médico cardiologista e Director da Cardiologia do Centro Hospitalar de Gaia e Luís Ferraz, médico urologista e Director de Urologia do mesmo Hospital); Área Cultural (Delfim Sousa, Director da Casa Museu Teixeira Lopes,
Nassalete Miranda, professora universitária e Júlio Couto, escritor); Área da Juventude (Francisco Rodrigues, engenheiro, Marisa Pinho jornalista e Nuno Nóbrega, gestor); Área Jurídica (Rui Duarte e António Duarte- advogados), sempre disponíveis quando solicitados, a prestarem a sua melhor ajuda a Compadres da nossa ou doutras Academias do país e do estrangeiro,
A «receita» para o invulgar crescimento desta Academia está assim relacionada com a visão estratégica de juntar à vertente de tertúlia, a vertente cultural, tornando os Jantares-Tertúlias mais apelativos por força da presença de reconhecidas personalidades das mais diversas áreas, da saúde à economia, passando pelo mundo académico, cultural, desportivo ou social, as quais apresentam interessantes e úteis palestras subordinadas a temas das suas especialidades. Mas, a mais importante e eficaz “receita” para o sucesso da Academia do Bacalhau do Porto, reside na motivação, empenhamento e esforço colectivo daqueles Compadres e Comadres que me acompanham e sentem o verdadeiro espírito desta Academia. E permitam-me citar Aquilino Ribeiro, ”como quem alcança, não cansa”, vamos continuar nesta rota com
o mesmo, senão com redobrado entusiasmo e trabalho de equipa cada um dando o seu melhor para ajudar, dentro das nossas possibilidades, os mais desfavorecidos tendo como prioridades Centros de acolhimento de crianças, Lares para a terceira idade e Instituições Sociais que mitigam a fome a quem, sem culpa própria, nada tem para comer.
Quanto à integração da Mulher neste movimento, há que reconhecer que numa primeira fase a necessidade de se reforçarem os laços de fraternidade entre os portugueses, conduziu à criação das Academias muito à semelhança dos clubes masculinos de influência anglo-saxónica. Torna-se claro que a Mulher não teve, no início, uma presença constante nas primeiras tertúlias das Academias, situação que só ocorreu anos mais tarde e duma forma progressiva, como aconteceu na Academia do Bacalhau do Porto, com alguma resistência inicial, mas que acabou por singrar e este exemplo foi a pouco e pouco seguido pela maioria das outras Academias. No que me diz respeito valeu a pena tal esforço e luta. Mas para evitar confusões e más interpretações até já foi aprovada em Congresso Mundial uma moção segundo a qual a mulher pode ocupar quaisquer lugares nos Órgãos Sociais das Academias, desde que seja Comadre efectiva o mesmo é dizer, Comadre de pleno direito, ficando assim bem claro que os corpos
dirigentes não estão apenas destinados aos homens, pois as Academias do Bacalhau, não são nem nunca serão “clubes machistas” sendo necessário e prioritário desmistificar, de uma vez por todas, esta absurda ideia.
As senhoras, designadas Comadres sempre tiveram lugar nas Academias desde a saudosa Amália Rodrigues, Vera Lagoa, a outras que até fizeram parte de Governos como a distinta Comadre Manuela Aguiar, aqui presente e muitas mais.
Felizmente que a maioria das Academias soube interpretar correctamente estes princípios e até algumas, como por exemplo a de Toronto, que tem como Presidente uma Comadre ou como a do Porto, que integra nos seus Órgãos Sociais Comadres, Nassalete Miranda e outras, exemplares no bom desempenho das suas funções, bem como na construção da boa imagem que hoje a nossa Academia desfruta em Portugal e no
mundo. Quem assim não pensa nem procede, não está a interpretar correctamente o verdadeiro espírito das Academias, num mundo onde a Mulher desempenha cada vez mais, importantes papéis em todas as áreas.
Concluindo, “a presença da mulher é absolutamente necessária e imprescindível em todas as Tertúlias e não somente, como algumas Academias permitem, nos Jantares de Natal ou Aniversários” pois à mulher se deve, a consolidação de ligação do núcleo familiar a Portugal no que respeita: à preservação da língua portuguesa ensinada e falada em casa; aos costumes portugueses (religiosos, gastronómicos, etnográficos,
etc); à transmissão de valores e princípios educacionais, bem como, à prática de economia familiar de poupança.
BEM-HAJA POIS A TODA AS COMADRES DAS ACADEMIAS DO BACALHAU DO MUNDO
Termino afirmando “em primeira mão” que face à gravíssima situação com que estamos confrontados a SOLIDARIEDADE DA ACADEMIA DO BACALHAU DO PORTO DECLAROU GUERRA SEM TRÉGUAS CONTRA A CRISE.
Muito ainda ficou por dizer mas saúdo-vos pela paciência e generosidade com que me ouviram. MUITO OBRIGADO E APROVEITO A OPORTUNIDADE PARA A TODOS VÓS E VOSSAS FAMÍLIAS,
DESEJAR UM BOM NATAL E UM PRÓSPERO ANO NOVO, COM MUITAS SAÚDE, PAZ E SUCESSO.

César Gomes de Pina

Maia, 25 de Novembro de 2011

“Papel da Mulher na Integração Social nas Academias do
Bacalhau no Mundo”
APRESENTAÇÃO DO ORADOR
Para nos falar deste interessante tema e deste curioso movimento filantrópico, genuinamente português, nascido há quase meio século na África do Sul e hoje espalhado pelos quatro cantos do mundo vamos conversar com Dr. César Gomes de Pina, Gestor Empresarial, que desde 2006 é o Presidente da Academia do Bacalhau do Porto e sem dúvida o seu grande impulsionador ao longo destes 22 anos de existência.
Homem determinado e amigo do seu amigo, considera que a Presidência da Academia, nunca foi um simples “hobby”, mas sim uma verdadeira paixão e a experiência mais gratificante e enriquecedora da sua vida. Com a muita dedicação, amor e entusiasmo contagiante, conseguiu através duma correcta Gestão Por Objectivos e num esforço
colectivo com todos os associados, fazer da Academia do Bacalhau do Porto, uma Academia “exemplar em Portugal e no Mundo”, bem como uma referência cultural e de solidariedade do Distrito do Porto, tendo sido recentemente distinguida com o Troféu Portugalidade e Solidariedade. O Dr. César Gomes de Pina, foi Capitão Miliciano em Moçambique e findo o seu serviço militar, professor do Ensino Secundário em
Lourenço Marques e Gestor duma multinacional americana. Após a descolonização e depois duma breve passagem pela África do Sul, ao serviço daquela empresa, regressou definitivamente a Portugal com sua esposa e dois filhos, tendo exercido como professor do ensino secundário nos Liceus de Guimarães, Gaia e Espinho, antes de ingressar como Gestor Comercial e de Marketing no Grupo Amorim durante cerca de 20 anos, ao fim dos quais se reformou, dedicando-se a tempo inteiro de “alma e coração” à Academia do Bacalhau do Porto em particular e ao movimento das
Academias do Bacalhau no mundo em geral.

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